segunda-feira, agosto 14, 2023

Fátima em Agosto, com Francisco

 No meio da extraordinário e memorável acontecimento que foram as Jornadas Mundiais da Juventude, que agitaram o país entre fins de Julho e princípios de Agosto (sim, o país: não se esqueça que houve  peregrinos em todos os distritos), houve um momento mais fora, literalmente, porque saiu directamente do palco das Jornadas mesmo antes da sua fase final, a vigília e a Missa do Envio. Teve também um público diferente e uma quantidade de gente considerável, mais menos massiva. Falo da ida de Francisco a Fátima, na manhã do dia 5 de Agosto.

E falo porque foi o único momento ligado às jornadas que presenciei. Esperavam-se 500 mil pessoas, mas não terão estado muito mais de 200 mil, talvez porque os peregrinos estavam em Lisboa e juntar Fátima aos supracitados momentos finais das jornadas era quase sobre-humano. Andava-se pois sem o sentimento de sardinha em lata, mas ainda assim não dava para passadas largas.

Logo no início, um ambiente estranho. Atrás dos montes erguia-se uma enorme nuvem de fumo que cobria o sol tímido da manhã, bem apropriada a algumas descrições bíblicas, mas com helicópteros, noticiosos ou de combate a incêndios, a zumbir ao redor. Era o enorme fogo que se arrastava entre Castelo Branco e Proença-a-Nova, a algumas dezenas de quilómetros, cuja base decerto o Papa viu, ele que estava prestes a chegar. Antes, uma coluna de carros desenfreados passou para o ir receber, e vários transeuntes exclamavam "olha o Marcelo!". 

As pessoas convergiam todas para as margens da estrada antes da entrada no santuário, por onde passaria Francisco. Não demorou. A certa altura, as palmas antecederam a passagem do Papa, que surgiu, perfeitamente visível, perante a euforia das pessoas. A sua entrada no recinto seria a conta-gotas, porque parava constantemente para abraçar e benzer mais uma criancinha. Mas chegou enfim à capelinha das Aparições.

                                   A visão quase cortada do Papa. Mas o Sumo Pontífice ficou visível.

Não era uma cerimónia canónica, embora se tivesse rezado um terço. Mas a ida a Fátima tinha sido um desejo expresso de Francisco, que ali se rodeou de pessoas com deficiências várias e de reclusos, entre outros marginalizados da sociedade. Certas partes do terço foram rezadas, a custo mas com fervor, por pessoas com claras deficiências. E depois, o discursos improvisado: de novo a Igreja para todos, a capelinha das Aparições como modelo de Igreja acolhedora, sem portas, como uma mãe que acolhe todos os seus filhos, assim como "Nossa Senhora Apressada" (o mote para as Jornadas). Palavras caras a Francisco e que não cessou de pregar enquanto esteve em Portugal. Depois, despediu-se e saiu para o papamóvel, numa marcha lenta que demorou largos minutos a sair do recinto. Entretanto, já a nuvem negra se tinha dissipado e brilhava o sol quente de Agosto. Pouco depois, o helicóptero que transportava o Papa de volta a Lisboa sobrevoava o santuário, despedindo-se de Fátima.


Para além das palavras - e da visão em carne e osso - do Papa, o que me ficou foram as multidões, que como já disse, não eram tão grandes como as de Lisboa, e a sua grande diversidade. No geral, eram faixas etárias mais elevadas do que nas Jornadas, embora também com bastante gente mais nova. E acima de tudo, as proveniências. Viam-se muitos espanhóis, de várias regiões, como um grande grupo do País Vasco, e outros da Andaluzia, de Cuenca ou das Astúrias, e alguns até com a tradicional bandeira carlista e os dizeres "viva Cristo-Rey". Também franceses, italianos, coreanos, brasileiros, PALOPs, mexicanos e outras origens mais raras. Um grupo com a bandeira de El Salvador, por exemplo, com um cartaz e pagelas do martirizado Arcebispo Romero, já canonizado. Congoleses que procuravam o santuário, quase ao seu lado. Vietnamitas há muito radicadas nos Estados Unidos. E, surpresa das surpresas, um minúsculo grupo vindo do Irão, católicos assírios, como me disse o bispo, que ostentava uma barba que lembrava aqueles relevos de povos da Antiguidade da Ásia Menor. À margem do epicentro das jornadas, Fátima não deixou de cativar não só o Papa mas também pessoas das paragens mais improváveis mas que não quiserem deixar de por ali passar. 

quinta-feira, agosto 03, 2023

Escritos sobre as jornadas

 

Finalmente um artigo, da autoria de Pedro Gomes Sanches, que fala das JMJs referindo-lhe a sua diversidade, uma palavra que está tão na moda mas que curiosamente não tem sido utilizada no maior evento de sempre em Portugal, com quase todas as nações do mundo. E também refere Deus, coisa tão pouco usada no discurso público com a estúpida justificação de que "a sociedade é laica" (como se a sociedade fosse um todo homogêneo, as pessoas não pudessem falar porque as outras não estão habituadas e o sentimento religioso não fosse parte da sociedade). Um pouco agressivo aqui e ali, mas assertivo.

Mas mais assertivo, mesmo de mão na anca, é este, de Maria João Marques, que desbarata a malta que não esconde o seu ódio (não confundir com algumas críticas razoáveis) pelo evento, com especial ênfase no BE. Dá cabo de um conjunto de ideias pré-concebidas e autêntica xenofobia vinda de gente que costuma acusar os outros disso mesmo.

Noutro registo, mas igualmente com algumas críticas, ver o que escreveu Afonso Reis Cabral.

Entretanto, sabem qual é o zénite da ironia? É ver a estátua de um tipo que expulsou os jesuítas, construída por outros que os reexpulsaram, no meio de uma enorme multidão que ali se deslocou para ver e aclamar um jesuíta. Definitivamente, muito pouco é definitivo.