domingo, maio 02, 2010

Portugal: o sentimento de fracasso dos catalães


Analisando o assunto do post anterior - o triunfo do Inter sobre o Barcelona - e as reacções culés, e olhando para o ódio a Mourinho, fico a pensar que os catalães não olham para os portugueses com bons olhos. Repare-se-se de novo no futebol: Mourinho é o que se vê (e a imprensa local trata-o por "tradutor"), Figo teve a pior recepção que um profissional da bola jamais teve no Nou Camp (até cabeças de porco lhe atiraram), a Baía, Quaresma e Simão as coisas nunca correram particularmente bem, e Fernando Couto teve uma passagem discreta.


Não tenho grande conhecimento de passagens de notáveis de portugueses por outras áreas na Catalunha, mas o futebol, tão mediatizado, poderá ser um bom exemplo da maneira como se olha para nós nessas paragens. Olhando com alguma atenção, a História, parece explicar porquê.


O Condado de Barcelona uniu-se ao Reino de Aragão no Século XII, que por sua vez, com o casamento entre os Reis Católicos, se uniu a Castela, dando início à moderna Espanha. Com a chegada de Castela às Américas e a afluência dos metais preciosos, Sevilha tornou-se o grande entreposto comercial, relegando Barcelona para plano inferior. Até aí, a cidade catalã era um dos grandes portos do Mediterrâneo e dominava grande parte do seu comércio, até porque Aragão possuía ainda Valência, as Baleares, a Sardenha, Nápoles e a Sicília, e alguns territórios na Grécia. Mas as descobertas de novas paragens levaram o grosso do comércio do Mediterrâneo para o Atlântico, e para novos centros, como Sevilha, Antuérpia e Lisboa. Assim, o início da época de ouro portuguesa coincidiu com o declínio catalão.


Muito mais tarde, na Guerra da Sucessão de Espanha, a Catalunha apoiou o Arquiduque da Áustria, candidato dos Habsburgos ao trono espanhol, contra as pretensões da França de Luís XIV. Também Portugal estava do lado dos Habsburgos, e o Marquês das Minas chegou mesmo a entrar em Madrid, mas isolado, acabou por sofrer sérios revezes e a França lograria atingir os seus objectivos, ainda que à custa de inúmeros territórios, colocando no trono um Bourbon, que aliás ainda hoje reinam. Quase toda a Espanha apoiava o candidato de França, o Duque de Anjou, neto de Luís XIV, excepto a Catalunha. Pagou caro o apoio aos Habsburgos, com a perda dos seus direitos e a abolição das suas Constituições, bem como o apagamento da sua língua, menorizada e posta de lado. O que resultou do Tratado de Utreque constitui uma enorme machadada na autonomia catalã, e a sua dissolução em Castela, de que demoraria dois séculos a recuperar.


Depois, há que não esquecer que na Guerra civil de Espanha a Catalunha esteve do lado Republicano, que lhe garantia autonomia, ao passo que Portugal dava apoio não-oficial ao campo nacionalista. Com a vitória destes e o advento do franquismo, o estatuto e a língua voltaram a ser suprimidos. Franco evocava os Reis Católicos, mas ao contrário destes, jamais recuperou o aceitou as Constituições catalãs.

Mais o maior motivo de inveja, ou de desagrado dos catalães em relação aos portugueses, é anterior, e terão sido as revoltas quase simultâneas, em 1640. A que ficou conhecida como Guerra dos Segadores (imagem acima) ergueu-se contra Castela e as medidas do Conde-Duque de Olivarez, primeiro-ministro de Filipe IV/III, proclamou a república e depois ofereceu a coroa condal a Luís XIII de França. Castela reagiu, venceu os catalães e os franceses e apoderou-se de novo da região, apenas cedendo à França algumas partes a norte. Os conjurados portugueses aproveitaram-se desta revolta e da "distracção" espanhola, defenestraram Miguel de Vasconcelos a 1 de Dezembro e coroaram Rei o Duque de Bragança. A guerra subsequente durou 28 anos, mas depois de pesadas derrotas os castelhanos reconheceram a sua perda. Já a Catalunha ficou subjugada e jamais recuperou qualquer traço de independência, embora goze hoje de uma larga autonomia.


Mas fico com a impressão de que os catalães, mesmos que saibam pouca história, têm no seu subconsciente uma certa inveja e uma acrimónia contra Portugal, pelo facto da nossa existência enquanto país ser uma das razões do seu estatuto regional, e porque nos olham como uma nação que recuperou a sua independência, ao passo que a Catalunha regrediu na sua autonomia. No fundo, Portugal é a outra face da moeda catalã, o país que eles gostariam de ser e não são, desde que a sua revolta falhou e a nossa teve tanto sucesso que quase quatrocentos anos depois continuamos independentes e com as mesmas fronteiras.
Figo e Mourinho sentiram no ar esse sentimento de oportunidade perdida para outros.

3 comentários:

Luís Bonifácio disse...

Pela parte que me toca e devido aos contactos comercias, rotulo os Catalães de "Puros Filhos da P_ _ _.
Já os Bascos são outra loiça

Anônimo disse...

É tudo muito bonito, mas são eles que têm as Ramblas e o Museu do Sexo...

João Pedro disse...

E também a Sagrada Família, lá isso é verdade.