sábado, janeiro 28, 2006

Interioridade



Num certo fim-de-semana de tempo mais agreste, Bragança ficou isolada. O único limpa-neves disponível estava avariado. Limpezas, só mais tarde e apenas no IP-4. Aldeias no Montesinho e localidades como Vinhais tiveram de esperar que o ciclo da água fizesse o seu trabalho, convertendo a neve e o gelo ao estado líquido. Entrar no distrito, só até Macedo. Nem a comitiva do Dr. Mário Soares conseguiu fazer as acções de campanha previstas em Bragança (pelo que se vingaram atacando os covilhetes da pastelaria Gomes, em Vila Real).
Atrás deste cenário de brancura imaculada e de crianças brincando com bolas de neve está uma terrível realidade conhecida como "interior profundo". As picardias regionais costumam ficar-se entre Lisboa e Porto, Coimbra e Aveiro/Viseu, Alentejo e Algarve, etc. Mera lana caprina. A autêntica divisão está entre o litoral, sobrecarregado, desenvolvido, habitado, e o interior desertificado, envelhecido, sem emprego nem oportunidades.

As regiões mais esquecidas são Trás-os-Montes e a Beira interior. O Alentejo, com os projectos turísticos e de regadio que tem recebido, está numa situação bem mais confortável, apesar de tudo, e o mesmo vale para o Minho. Mas outros distritos, como Bragança e Guarda, não só têm uma gritante falta de infra-estruturas e equipamentos como ainda lhes querem retirar parte dos seus serviços.A situação não é nova: em Chaves, na altura dos governos de Guterres, quando se pretendia tirar um contigente da polícia local, sem que tivesse sido instalado um pólo universitário já prometido, a população saíu à rua em protesto, promovendo boicotes e cortando estradas. O governo voltou atrás e ainda acedeu a outras exigências dos flavienses.

Passa-se uma situação semelhante no nordeste transmontano, ali perto: a ideia é tirar determinados serviços de saúde e de polícia de Mirandela, Bragança e Macedo, para redistribuição territorial e corte de despesas. Como se aquelas terras não tivessem já falta deles. É certo que a população é escassa e há que redistribuír as coisas pelos locais onde há mais densidade populacional. Mas entramos aí num círculo vicioso: se se retira num sítio, as pessoas deslocam-se para latitudes onde tenha maior acesso aos bens. Mais despovoamento, menos meios, a situação piora, e é precisamente isso que se passa com o interior português.

Para estes dias está programada uma manifestação nas ruas de Mirandela, um pouco à imagem do que aconteceu em Chaves. No IP-4, no ponto de entrada do distrito de Bragança, foram colocados cartazes com a inscrição "Aqui termina o Portugal da igualdade de oportunidades" e "Daqui a 70 quilómetros, Espanha". Não sei se os habitantes da terra quente transmontana irão empunhar bandeiras espanholas, como se chegou a fazer em Bragança, em tempos do Estado Novo (o que só demonstra grande coragem), noutra prova de desagrado quanto à condição a que estavam votados. Não sei qual será a máxima reivindicação - se ficar com a polícia, a maternidade, a Direcção Regional de Agricultura, essas coisas que quase todo o resto do país tem. Mas se quiserem atemorizar, usem mesmo o pendão do vizinho castelhano. Talvez assim as nossas autoridades centrais se assustem e pensem que o interior desertificado merece mais do que auto-estradas e IPs a caminho de Espanha. E que também aí existe a soberania do estado português. Que um país macrocéfalo e sobrecarregado no litoral não é viável. A não ser que reserve o interior para deserto oficial, com meia dúzia de cidades no meio, para servir de oásis a deconhecedores turistas, ávidos de ver uma espécie de so typical vazio lusitano.
posted by João Pedro at 5:59 PM 0 comments

Um comentário:

Alma disse...

Muito bem, concordo totalmente.
"interior profundo" existe mesmo, é demais.