domingo, outubro 11, 2015

A "maioria de esquerda"


A propósito das negociações para formar governo e dos contactos que o PS tem mantido à sua esquerda, com a possibilidade real de fazer um acordo com os respectivos partidos representantes, refere-se a eleição de "uma maioria de esquerda" no Parlamento. A história dessa tal "maioria de esquerda" que supostamente vai votar em massa contra um governo de direita já enjoa. De que "maioria de esquerda" é que estão a falar? Da que ganhou a câmara de Lisboa entre 1989 e 2001? É a única que conheço. Basta ir a 1975 para perceber que tudo isso é uma ficção. Só talvez um partido como o Livre se poderia coligar com o PS, isto se tivesse tido apoio eleitoral para isso. A esquerda tem várias naturezas, completamente diferentes entre si, e por isso a apregoada "maioria" é uma história da carochinha. Senão, porque é que não haveria apelos para que o PSD e CDS chamassem também o PNR se este tivesse representantes no parlamento?


Também ouço falar de exemplos noutros países europeus, como o Luxemburgo, ou a Dinamarca, tão bem retratada na série Borgen, em que partidos que não ganham eleições têm uma maioria parlamentar, formando assim governo e deixando de fora o partido que as ganhou. Mas posso também ir buscar os dos países da UE mais falados deste ano, a Alemanha e a Grécia. A CDU/CSU de Angela Merckel ganhou as eleições alemãs sem maioria absoluta, e viu o parceiro favorito de coligações, os liberais do FDP, ficarem à margem do parlamento, com menos de 5%. O SPD ficou em segundo. No conjunto, a esquerda contava com maioria no Bundestag - além dos sociais-democratas, há ainda os Verdes, que até já estiveram no governo, o partido esquerdista Linke (passe a redundância). O SPD preferiu fazer uma grande coligação com a CDU, como já tinha acontecido antes, sem pensar em qualquer maioria de esquerda. 
Na Grécia, como é sabido, o Syriza voltou a ganhar as eleições de Setembro, já despojado da sua ala mais radical. Ficou a seis deputados a maioria absoluta. Tinha várias opções à esquerda, como a coligação onde está o PASOK, os comunistas ortodoxos do KKE, ou o centro-esquerda do To Potami, Preferiu reeditar a coligação com a direita nacionalista do ANEL, de Panos Kammenos, que entrou à justa no parlamento. Também aqui se estiveram a borrifar para uma qualquer "maioria de esquerda", quando teriam toda a legitimidade e força para o fazer. E claro, recordar que em França há um acordo tácito de que a Frente Nacional não receberá apoios da ex-UMP (a direita gaulista e "republicana", como aliás agora tem na designação), e o PSF também não parece inclinado a acordos com a Frente de Esquerda de Mélenchon.

Esquerda e direita continuam a fazer sentido. Mas melhor será falar em "esquerdas" e "direitas", porque são tantas e de tantas naturezas que é impossível falar-se em unidades ou convergências. Que é que liga o PSD e o CDS ao PNR? E o PS ao PCP, o seu velho inimigo, ou ao BE? A colocação num determinado espectro é insuficiente para se poder colar este ou aquele partido. À esquerda, então, ainda se notam mais essas diferenças. Por alguma razão os republicanos perderam a Guerra Civil de Espanha, ou não tivesse o PCE tentado eliminar os trostquistas e anarquistas que combatiam do mesmo lado. Mas ainda falando de Espanha, o recente exemplo da ida de Felipe González à Venezuela para defender opositores políticos presos, sob os insultos e os entraves do regime de Maduro, é bem um exemplo do que pode distinguir a esquerda democrática da radical. é bom lembrarmo-nos disto quando voltarmos a ver o PCP a justificar e defender o actual regime venezuelano.