sábado, abril 09, 2016

Revelações de um ex-Ministro da Cultura


A demissão de João Soares do Ministério da Cultura é daquelas notícias que não apanha ninguém desprevenido. O lamentável episódio das bofetadas dirigidas a Augusto M. Seabra e a Vasco Pulido Valente revelou mais uma vez, depois da demissão trauliteira de António Lamas do CCB, que Soares tem mesmo uma pulsão autoritária e usa-a se detiver um cargo que lhe permita tais abusos. Esteve menos de seis meses no governo, mas ficou mais conhecido pelas polémicas deste tipo do que por qualquer iniciativa que tivesse tomado. Ainda houve quem achasse muita gracinha à ameaça por causa dos "insultos" dos cronistas, não se lembrando que, para além de haver uma coisa chamada liberdade de expressão, um ministro está numa posição que não lhe permite tomar atitudes como se estivesse na tasca (e mesma "à mesa do café", como disse António Costa, tem de se lembrar quem é e do que deve ser o sentido de estado). Aparentemente, Soares pediu umas desculpas irónicas, o que parece revelar que não se conformou nem se arrependeu. Tanto pior para ele: podia ter feito um trabalho interessante na cultura, mas preferiu dar azo aos seus autoritarismos e birras pessoais. Já pode pôr no currículo que passou por uma cadeira ministerial, como magro consolo

De qualquer maneira, talvez Costa não fique seriamente aborrecido pela sua saída da Ajuda: é bom recordar que o mesmo João Soares apresentou, no próprio lançamento, e com rasgadíssimos elogios, o livro de Domingos Névoa, da Bragaparques, conhecido pela sua questão com José Sá Fernandes, que gravou as suas comprometedoras conversas sobre trocas de terrenos e que envolviam o Parque Mayer, de Lisboa. Como se sabe, o empresário seria condenado por corrupção activa, com sentença transitada em julgado. Apesar disso, João Soares apadrinhou um livro em que Sá Fernandes e outros são furiosamente atacados, ao passo que o ele próprio tem direito a entusiasmados elogios, aliás recíprocos, como se viu atrás. Para além de toda esta situação, já de si insólita pelo grau de amiguismo descarado, é impossível não ver nisto tudo uma afronta indirecta de Soares a António Costa e ao seu executivo camarário, corporizado por Sá Fernandes.
 
Mas já que está fora do governo, o filho do ex-presidente terá agora oportunidade de dar azo à sua faceta mais desconhecida e provavelmente mais burlesca: a da escrita de ficção erótica. Quando pela primeira vez ouvi no programa Governo-Sombra excertos de textos escritos por um certo John Sowinds, ou Hans Nurlufts, pensei que fosse uma brincadeira dos membros residentes, em especial de Ricardo Araújo Pereira. Mas depois confirmei no Observador e em artigo já de há alguns anos do CM que era mesmo verdade: após a sua saída da Câmara de Lisboa, João Soares dedicou-se à escrita, com especial propensão para o erotismo duvidoso (também conhecido como pornochachada), para o romance político com laivos de biografia ficcionada e pelo thriller de espionagem de denúncia a certos regimes, como o de Angola, do adversário do seu antigo amigo Savimbi. A fotografia do autor não deixa margem para dúvidas, e combinado com narrativa dos livros, revela-nos duas qualidades desconhecidas de João Soares: imaginação sentido de humor.
 
 

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