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domingo, abril 18, 2010

O Marechal




Passou há uma semana o centenário do nascimento de António de Spínola, o homem que recebeu o poder das mãos de Caetano a 25 de Abril de 1974. A sua curta carreira de chefe de estado tê-lo-à tornado mais famoso, mas não será só isso que ficará para a história. Spínola foi das últimas figuras românticas de Portugal, na sua figura de militar respeitado pelos mais próximos, de comandante militar idolatrado pelos soldados, suspeito aos olhos das cúpulas do Estado Novo, e visto como um inimigo e um alvo a abater pela deriva esquerdista do PREC. A sua vida daria um livro talvez mais empolgante do que a extensa biografia de Luís Nuno Rodrigues. Entrou ainda muito cedo para o Colégio Militar (de onde tomou a alcunha "Caco"), enveredou pela carreira das armas e chegou a ser observador da frente alemã no cerco de Leninegrado, em 1941, numa equipa de observadores integrada na Divisão Azul espanhola - se não me engano também teve funções semelhantes na Guerra Civil de Espanha. O espírito castrense devia ser algo de genético, já que a sua família paterna, da Madeira, provinha dos Spinolas de Génova, que dominaram aquela república marítima e da qual saíram notáveis vultos militares, como Ambrogio Spinola, general dos Tercios espanhóis que Velazquez imortalizou na Rendição de Breda.

Como se sabe, subiu na hierarquia militar, como oficial de cavalaria, comandou tropas em angola, durante a guerra colonial, e chegou a governador militar da Guiné. O respeito pelos militares e a popularidade que granjeou vêm daí, das suas ideias federalistas e dos seus discursos nas selvas, bem como da publicação de Portugal e o futuro, já em rota de colisão com as posições coloniais do governo de Marcelo Caetano. logo a seguir deu-se a 25 de Abril, a sua breve presidência, à frente da Junta de Salvação Nacional, e o afastamento, em ruptura com a deriva esquerdista do PREC. O que se seguiu, no exílio em Espanha e no Brasil, terá sido porventura a sua menos conseguida e popular fase, quando apoiou e chefiou o MDLP e algumas actividades bombistas, muito embora a sua ideia fosse democratizar o país. Regressou com o fim das convulsões, pela mão de Mário Soares, que o nomeou chanceler das antigas ordens militares portuguesas, adquirindo uma espécie da aura de figura tutelar, embora decorativa, do regime - recebeu por isso mesmo o bastão de Marechal.

Spínola ficará sempre como uma figura controversa, pelo seu papel como mentor do MDLP e da "Maioria Silenciosa", como presidente da Junta de Salvação Nacional e primeiro chefe de estado pós-25 de Abril, pela sua carreira militar e pelas suas ideias de fazer uma Commonwealth à portuguesa. Uns vêem-no como traidor ao Estado novo, outros ao 25 de Abril, outros como um lírico irrealista, outros ainda como um visionário e uma carismático líder. Com o passar dos anos, essas discussões tendem a esbater-se, e a figura de Spínola institucionalizou-se, tendo sido inaugurada, no dia em que faria cem anos, uma avenida em Lisboa com o seu nome (muito embora fosse mais um pretexto do centenário, porque a artéria já existia com esse nome há seis anos).

Da minha parte, e embora as suas actividades à altura do PREC fossem mais que discutíveis, tenho pena que as suas ideias para as colónias não fossem experimentadas, ou ao menos discutidas. Mas quando olho para a sua inconfundível figura não posso deixar de pensar que o posto/título de Marechal dificilmente seria melhor atribuído. Acima de tudo, e embora só nos anos oitenta tenha recebido a distinção (pela antiga condição de chefe de estado), Spínola, com o seu monóculo, o pingalim, o sobretudo militar e as luvas na mão, que tanto recordava os oficiais alemães da 1ª Guerra, era, efectivamente, O Marechal.
 

domingo, março 08, 2009

Os lutadores não morrem descalços

A morte de Nino Vieira recordou-me a de Jonas Savimbi, há sete anos. Embora o líder da
UNITA nunca tenha chegado à chefia de estado, nem sequer ao exílio no estrangeiro, como quando Nino se refugiou em Gaia a convite do amigo Valentim Loureiro, passou igualmente pelo combate contra Portugal, pela auto-determinação, e depois pela guerra civil contra o poder do MPLA e seus aliados, nomeadamente Cuba.

Outras semelhanças seriam o espírito vingativo e a desconfiança permanente. Não sei o que teria sido Savimbi se tivesse chegado ao poder, mas calculo que se teria tornado num autocrata que afastaria os mais próximos à mínima suspeita. Como estadista e político, tanto Nino Vieira como Malheiro Savimbi falharam. O seu lugar era na luta constante, no comando de homens no mato, no carisma da guerrilha. Nunca poderiam acabar os seus dias num sofá ou numa cadeira de rodas, entre as recordações do passado e as fotografias entre os "camaradas de armas". Homens assim, guerreiros incansáveis por vezes perdidos na sua paranóia e sem o génio ou a manha dos estadistas, morrem sempre passados pelas armas, normalmente disparando os últimos tiros contra os inimigos.

sexta-feira, março 06, 2009

Um Estado que mata os líderes é um estado falhado
Quando na Segunda, logo de manhã, ouvi na rádio as notícias do assassinato de Nino Vieira, veio-me logo à cabeça exactamente o que outros escreveram antes: a Guiné-Bissau é o autêntico estado falhado. Cabrais, Manés, Ninos, foram todos mortos pelos conterrâneos, num rasto de destruição e impunidade. Assim, não há país que resista.