segunda-feira, setembro 15, 2008

A ferrovia a saque

Interessante artigo de ontem, no Público, sobre a linha férrea em Trás-os-Montes e no Douro. Interessante mas inquietante, também. As perspectivas não eram nem são nada agradáveis. E o pouco que resta desse fantástico património ferroviário e do esforço de imensos trabalhadores e técnicos em ultrapassar as barreiras naturais da região pode vir a ser eliminado nos próximos anos.
Da linha mãe, a do Douro, que ia até Barca de Alva e seguia por Espanha (hoje acaba no Pocinho), saíam várias outras, correspondentes a alguns afluentes do rio. A do Tâmega desviava-se em Livração, no Marco, e ia até Arco de Baúlhe, depois de passar por Celorico e Amarante. Hoje para nesta última, e só tem poucos quilómetros. A do Corgo saía da Régua, trepava (e trepa) pelos socalcos do Douro acima, passava por Vila Real, Vila Pouca, Pedras Salgadas e Vidago, e acabava em Chaves. Tinha grande relevância no transporte para as termas. Depois da amputação, ficou-se pela capital de distrito. A do Tua, como se sabe, sobretudo pelos vários e suspeitos acidentes que tem sofrido nos últimos meses, parte da estação com o nome do rio, passa por fragas e depois por olivais até Mirandela (onde cessa actualmente a sua marcha), e seguia por Macedo, até Bragança. A do Sabor, porventura a mais entusiasmante em termos de paisagem, e a única integralmente abandonada, subia do Pocinho em direcção a Moncorvo, passava ao largo de Freixo e de Mogadouro e ia morrer em Duas Igrejas, a poucos quilómetros de Miranda. Ainda houve projectos para uma linha do Varosa, que seguiria para sul, atravessando do Douro, até Viseu, via Lamego. Ainda se construíram viadutos e até uma ponte metálica, que faz parte hoje em dia da paisagem reguense, nunca tendo servido realmente para nada. Caso o projecto da linha tivesse sido concretizado, o mais provável é que ela já estivesse encerrada.


Os erros de alguns projectos iniciais, como a interrupção abrupta das linhas em relação ao plano original ou o traçado que não aproveitava às povoações mais importantes, e a falta de visão de alguns dirigentes políticos e responsáveis ferroviários, levaram ao corte brutal destas vias. A concorrência rodoviária, apoiada em fortes lobis, e normalmente de qualidade inferior ao comboio, muito contribuíram para esse fim. Transformou o que delas restava numa mera atracção turística de Verão, ou num transporte para um ou outro lugar mais inacessível. Destruiu um património único, literalmente deixado às urtigas, e desperdiçou todo o trabalho de construção e manutenção efectuado antes.


Agora que parte do declínio das linhas é irreversível, convém salvar o que resta e aproveitar o que ainda pode ser utilizado. Há pressões das câmaras de toda a região para que se reactive a parte desactivada da Linha do Douro, a partir do Pocinho. Os espanhóis estão a fazer o mesmo no seu lado, e seria uma monumental asneira não aproveitar o ocasião de se levar de novo o comboio a Barca de Alva, evitando que tantos visitantes voltem para trás ou apanhem um autocarro, e ligar o Porto a Salamanca (duas cidades classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade).


Por outro lado, a Linha do Tua, que tantas desditas tem sofrido nos últimos tempos, algumas bastante suspeitas, desde que se soube dos planos da construção de uma barragem no seu vale, que destruiria a velha e histórica linha férrea. Se se conseguir impedir tão inútil projecto(principalmente para as populações locais), tarefa que se afigura hercúlea tendo em conta a ganância da EDP, seria uma oportunidade de ouro para se requalificar a linha e restaurar a sua parte inactiva, levando-a a Bragança, e cumprindo o projecto original de atingir Puebla de Sanabria, já em Espanha. A ideia tem agora ainda mais cabimento já que na dita cidade haverá uma estação de paragem da linha de alta velocidade entre Madrid e a Galiza, equidistante de Zamora e Ourense. Ligava-se assim o douro ao TGV espanhol. Tal é o projecto da petição que andou aí a circular para a salvação da linha do Tua.




Quanto ao Corgo, ao menos que fique como está. a passagem pelas vinhas, quase a resvalar nos precipícios, é notável. O futuro da linha do Tâmega é mais incerto, até pela sua escassa distância. O fantástico percurso do Sabor, esse, já não tem qualquer remédio, mas ao menos que se aproveite o património que deixou disseminado, como algumas estações ao abandono (a do Freixo, a 14 quilómetros da vila, é paradigmática).


É sabido que o actual governo dá mais ênfase ao "tecnológico"e não prima muito pela defesa do património. Por isso mesmo há que falar mais deste imenso património ferroviário como há poucos na Europa. O Douro não seria o que é sem o comboio. E não só. Por isso, que mil artigos como este sejam editados, que mais petições, manifestações, debates e chamadas de atenção floresçam, para que os senhores da REFER e da CP não fiquem surdos e promovam o que lhes cabe salvaguardar.

2 comentários:

pedro meira disse...

JP,é vergonhoso o estado actual do Douro...é talvez a região do país com mais potencial do ponto de vista turístico, e está num estado de letargia, abandono...inacreditável...Para variar terão que ser os privados a avançar , a investir...cada vez mais acredito que só com a iniciativa privada este páis vai avançar...e não só no Turismo...O nosso Estado pura e simplesmente demite-se de tudo...UMA VERGONHA...

João Pedro disse...

Bem vindo sejas, grande Meira. O problema é que os nosso privados normalmente vançam se tiverem o amparo do estado. Mas se tiverem alguma visão e bom senso, não hão de deixar escapar esta oportunidade de desenvolver (no bom sentido) o Douro.