terça-feira, janeiro 12, 2010

Sunday, silly sunday



Planear ficar em casa a trabalhar num dia de chuva e esquecer a chave numa curta saída até que os vizinhos que têm uma cópia cheguem é o cúmulo da distracção conjugado com a falta de oportunidade. No dia em que mais devia evitar sair, tive de andar a evitar poças de água e goteiras, com um frio glacial à mistura. Sempre deu para entrar num livraria e folhear uma volumosa biografia de Bruce Chatwin. A certa altura, saltou-me à vista uma passagem, sobre uma curta visita do escritor-viajante a Lisboa, em 1977, em trânsito do Brasil para Inglaterra: "Cidade triste, cartazes comunistas por todos os lados; um com metralhadoras portáteis, enxada e chave inglesa. Que curioso terem escolhido o emblema de Caim".
A referência é evidentemente ao PRP-BR (que ainda tem um site a navegar), esse partido-movimento armado que deu brado no PREC. Estranho é que em 1977, tal força oficialmente já não existisse: ou os cartazes estavam muito usados, ou Chatwin, na sua prosa com fantasia misturada, falava de murais de rua. Não impede que seja uma descrição deprimente e pouco abonatório de um período mais infeliz da vida portuguesa. E curiosa, a referência a Caim. Ficariam aborrecidos os PRPs com tal comparação? Ficariam contentes, dada a sua actividade violenta? Saberiam ao menos quem era o irmão de Abel? Certo é que a alusão do escritor era premonitória, já que alguns elementos do movimento transitariam mais tarde para as FP-25.
Resta acrescentar que escrevi esse trecho ilustrativo num Moleskine, um caderno também muito publicitado graças a Chatwin.

5 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Foi com a preciosa ajuda de Chatwin que mergulhei pela primeira vez, há duas décadas, na Patagónia. Tudo o que ele descrevia no seu livro eu encontrei ( inclusivé a casa pnde se escondeu Butch Cassidy, próximo de Esquel), Naquela altura, a Patagónia ainda era pouo explorada pelos europeus e o retrato de Chatwin correspondia à realidade. Hoje, quando alguns amigos me perguntam se o livro de Chatwin continua a ser a Bíblia da Patagónia digo-lhes que apenas em alguns capítulos. Cada vez menos, para dizer a verdade. Os livros de viagens têm este problema. Rapidamente se desactualizam, quando descrevem Paraísos. E a Patagónia já não é oo Paraíso de outros tempos, porque o turismo rebentou em força. A verdade, porém, é que ainda há locais que permanecem imaculados, fiéis à descrição de Chatwin.
BNão foi o que aconteceu, obviamente, com a descrição que ele faz de Lisboa. Essa é a imagem de um curtíssimo período. Tive a sorte de o ter vivido, mas não é mais do que um resquício de memória.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Foi com a preciosa ajuda de Chatwin que mergulhei pela primeira vez, há duas décadas, na Patagónia. Tudo o que ele descrevia no seu livro eu encontrei ( inclusivé a casa pnde se escondeu Butch Cassidy, próximo de Esquel), Naquela altura, a Patagónia ainda era pouo explorada pelos europeus e o retrato de Chatwin correspondia à realidade. Hoje, quando alguns amigos me perguntam se o livro de Chatwin continua a ser a Bíblia da Patagónia digo-lhes que apenas em alguns capítulos. Cada vez menos, para dizer a verdade. Os livros de viagens têm este problema. Rapidamente se desactualizam, quando descrevem Paraísos. E a Patagónia já não é oo Paraíso de outros tempos, porque o turismo rebentou em força. A verdade, porém, é que ainda há locais que permanecem imaculados, fiéis à descrição de Chatwin.
BNão foi o que aconteceu, obviamente, com a descrição que ele faz de Lisboa. Essa é a imagem de um curtíssimo período. Tive a sorte de o ter vivido, mas não é mais do que um resquício de memória.

João Pedro disse...

Duvido que haja muitos sítios no mundo em que Chatwin não tenha posto os pés. Pena que não tenha vindo mais vezes a Portugal.
quanto à Patagónia, é um facto que tem recebido cada vez mais gente, e isso tem custos (ainda agora um grupo de familiares meus está lá). Quanto ao "Na Patagónia", tenho-o em casa, mas ainda aguarda leitura. Dessa região li "Patagónia Express" de Luís Sepúlveda, um livro absolutamente aconselhável e em que Chatwin também aparece.

Vera Y. Silva disse...

Portugal mudou mais devagar do que a Patagónia, embora possa não parecer.

João Pedro disse...

Então a Patagónia mudou mesmo muito, atendendo às mudanças desta país nas últimas décadas.