quinta-feira, março 09, 2017

Silêncio


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Já se estreou em Janeiro, já estará em poucos cinemas e já o discutiram amplamente, nos jornais, na net, em debates depois das sessões. Objecto de amplo debate e com assinalável êxito de bilheteira em Portugal para um filme deste tipo, Silêncio, de Martin Scorsese, um projecto pessoalíssimo do realizador americano, é uma obra desafiante, desconfortável, inquietante, que talvez não perdesse com um tudo de nada economia narrativa a mais, mas que cumpre o seu propósito.
 
A história dos dois jesuítas portugueses que partem para um Japão hostil ao cristianismo (em que a perseguição aos kakure kirishitan  está ao rubro e em que o mais leve vestígio da religião trazida pelos "bárbaros do Sul" é severamente punido) em busca do seu mestre, Cristóvão Ferreira, que terá cometido apostasia, é, como se sabe, uma adaptação do livro do escritor católico japonês Shusaku Endo, que Scorsese leu há já uns anos, tendo-se prontificado, desde então, a adaptar a obra ao grande ecrã. Já nos anos noventa João Mário Grilo o fizera, em parte, com Os Olhos da Ásia, agora oportunamente reexibido em algumas salas.
 
Provindos de Macau, os jesuítas Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (um nome inventado mas que lembra Pedro Arrupe, que seria superior-geral dos jesuítas e que esteve precisamente no Japão ao tempo da 2ª Guerra, interpretado por Adam Driver) chegam ao Japão em 1640, ano da Restauração e pouco tempo após a rebelião de Shimabara, após o qual o Xógunato, o regime militar japonês regente até ao Séc. XIX, reprimiu qualquer manifestação de cristianismo, considerando a religião perniciosa para a sociedade e a civilização japonesas, seguidoras do xintoísmo e influenciadas pelo budismo. O cristianismo viera com os portugueses cem anos antes, fora desenvolvido pelos jesuítas e chegara aos 300 mil fiéis, sobretudo na zona de Nagasaqui, a "Roma japonesa". A repressão começou em inícios do Séc. XVII e atingiu o ponto mais alto pouco antes da altura em que a acção de Silêncio se inicia.
 
Os dois padres chegam em sigilo ao misterioso Japão, e logo entram em contacto com os "cristãos escondidos", cujas práticas religiosas são feitas no maior secretismo. A partir daí segue-se um périplo que envolve ritos litúrgicos secretos, fugas, prisões, confronto entre culturas, a pesada mão da inquisição japonesa e o encontro enfim com Cristóvão Ferreira (Liam Neeson, num papel que chegou a estar entregue a Daniel Day-Lewis) e a revelação da sua real situação.
 
A interrogação central do filme - não podemos nunca renegar a Deus e aos seus símbolos, ainda que isso implique o martírio, ou devemos fazê-lo para nos salvar e sobretudo se a vida de outros depende disso? - deu azo a inúmeras discussões. A atitude moral de quem comete a apostasia "oficialmente", pisando uma imagem sagrada e repudiando publicamente a sua fé (mesmo que a conserve secretamente) é reprovável, ou pelo contrário, perfeitamente aceitável? Como pode alguém criticar o acto de outra quando esta passa por sofrimentos indizíveis? Ou quando pretende salvar outros da tortura e da morte? E por outro lado, que respeito haverá por aqueles que nem com a perda da vida renunciaram à fé, acreditando sempre na salvação eterna? Estas interrogações, ao mesmo tempo metafísicas e terrenas, perpassam ao longo de todo o filme, atormentando as personagens e os espectadores, sendo lançadas através de actos, de conversas, de meditações ou até, como o título indica, de silêncios. E revelam como ser cristão é tão difícil e que em momentos decisivos a vontade de Deus pode ser tão ambígua e difícil de descortinar.
 
Além da questão fulcral há outras laterais, igualmente interessantes. A abnegação dos "cristãos escondidos", que mesmo sob a ameaça da justiça e na sua própria terra, persistem em manter-se fiéis à cruz. A perseguição e as pesadas sentenças da inquisição japonesa, contemporânea da cristã, na altura também muito virulenta na Europa (e noutras paragens, como Goa), que surpreende porque representa uma doutrina supostamente pacífica e "não violenta" como o budismo, mas que nem por isso é menos brutal ou opressora do que as congéneres cristãs - provavelmente será ainda pior. A dupla faceta dos japoneses, civilizados e corteses e ao mesmo tempo brutais e impiedosos, características que tão bem se puderam verificar no séc. XX, em especial até à 2ª Guerra. E um conjunto de personagens intrigantes, não só os atormentados jesuítas, mas também aquela espécie de Judas nipónico, que traía e regressava sempre a pedir perdão, até à raia do imperdoável, ou o inquisidor, que do alto do seu poder implacável, exprime-se quase sempre de forma tranquila, quase com bonomia, demonstrando um conhecimento e de certo modo alguma admiração pelo cristianismo, mas recusando-o absolutamente, e lançando questões curiosas.
 
E evidentemente, há o interesse de ver uma produção americana, de um dos mais conhecidos realizadores da actualidade, ser protagonizada por personagens portuguesas e entrever a expansão portuguesa no mundo. Não é todos os anos que um filme de exibição planetária que também aborda a história de Portugal aparece nos cinemas.
 
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Todos estes elementos atravessam um filme com mais de duas horas e meia de duração, que com cenas mais dramáticas e outras mais meditativas, acaba por cumprir o propósito de Scorsese. Que não era nada fácil, reconheçamo-lo. E que não teve um grande retorno de bilheteira, já que parece que nos Estados Unidos o filme não terá atraído grandemente as atenções (nem a curiosidade dos Óscares, nomeado que estava apenas para Melhor Fotografia, que previsivelmente não ganhou). Mas o propósito de discussão da tese central ficou amplamente ganha. Aqueles a quem a obra dizia alguma coisa puderam visioná-la e discuti-la, a começar pelo Papa, a quem o realizador reservou uma sessão especial no Vaticano. E recordou de novo uma comunidade perseguida e em parte esquecida, cujos antepassados puderam revisitar e que tanto diz aos portugueses, como irmãos longínquos e necessitados que não se esqueceram que uns "Bárbaros do Sul" foram ao seu encontro e lhes levaram uma doutrina que para muitos significou a perseguição e a morte, mas que para todos era sinónimo de Salvação.