domingo, novembro 07, 2004

Ainda o Acidental

O que disse no post anterior não me impede de criticar o Acidental sempre que julgar oportuno. E o texto de Luciano Amaral (assim como o artigo acoplado do Independente) merece seriíssimos reparos. Não considero o autor "estúpido", "fascista" ou "nazi", epítetos demasiado simplistas e insultuosos, mas não se escapará sem que eu lhe diga que pratica uma boa dose de facciosismo.
Desde logo, quando acha que o "Ocidente tem de perder a vergonha de si mesmo" e que o "Vietname foi uma guerra justificada e militarmente ganha que se transformou, por obra e graça de gente como Kerry, no maior desastre militar da história americana". Quanto à vergonha do Ocidente acho muito bem que continue a tê-la, relativamente a certas acções: guerras escusadas, bombardeamentos injustificados, violação dos direitos humanos, factos como Guantanamo, Abu Grahib, conflitos coloniais, bombas atómicas sobre o Japão, apoio a ditaduras de rara bestialidade, creio que chega, não? O oposto de tudo isto é a arrogância e o não reconhecimento de tantas acções infames cometidas pelas nações europeias e americanas, cujo campeão máximo é o (desgraçadamente) reeleito W. Bush. É a crença de que o Ocidente é perfeito e não comete nunca erros, ao passo que todos os outros são os bárbaros que se devem submeter à nossa suma razão. Depois, claro, vêm os ódios, para espanto de W. e demais seguidores. Sobre o Vietname, não só não vejo qualquer justificação para o envio de centenas de milhares de soldados - quanto muito percebia-se algum apoio material ao Vietname do Sul - como acho que considerar que os EUA ganharam militarmente a guerra é puro delírio: não só perderam contra uma guerrilha mais tenaz e conhecedora do terreno como retiraram rapidamente, permitindo que o Vietname do Norte se apoderasse de todo o território, deixando atrás de si milhares de mortos e estropiados.

Onde é que Luciano Amaral vê a "vitória militar" dos EUA é que eu gostava de saber. Depois, atirar as culpas para a geração Kerry é uma tremenda fuga às reais causas da derrota. Acontece que os grandes apoiantes dessa guerra eram sobretudo aqueles que se safavam dela, e que não conheceram os horrores da luta na selva e nos pântanos, nem assistiram às crueis sevícias aí praticadas. Amaral diz no texto que as violações eram "fantasias". Sabe-se hoje que não só eram comuns, como comuns eram também as práticas de despejar napalm sobre simples aldeias inteiras, na esperança que lá estivessem vietcongs. Ao contrário do que o autor do texto nos diz, praticaram-se terríveis atentados aos direitos humanos durante essa guerra cruel e inútil, denunciados por pessoas como Kerry, que, como qualquer ser de bom senso, teve vergonha do seu país ao assistir a tamanhos actos. Mas Luciano Amaral nega-os ou não lhes liga importância. Abu Grahib também nunca existiu, não é verdade?

Haveria muito a dizer sobre esse texto, mas só queria referir mais este facto: a de que o autor considera que os vencedores da Guerra Fria foram Reagan e Tatcher. É natural, tiveram parte da fama e parte do proveito. Felizmente que a outra parte ficou para quem os merecia: aqueles que viveram do lado de lá da Cortina de Ferro, e que a rasgaram graças à sua acção firme e à sua coragem. Gente como Gorbatchov, Walesa, João Paulo II, Havel ou Dubcek. A eles se deve a queda do Bloco de Leste. Que haja gente que acredita que foram os dois títeres do neoliberalismo anglo-saxónico dos anos oitenta não me admira. Também há quem diga que quem causou o colapso do comunismo foram os Mujahedin. A opinião era de um certo Bin Laden, conhecem?

Para terminar, parece-me particularmente preocupante que o autor do texto ache que "em Bush reside a cura" e que a sua vitória "poderá dar à Europa um cunho reformador". Atirar o destino para os braços de um boçal como Bush é grave. Mas querer que a Europa siga como um cão de fila esta América fanática, ignorante e agressiva que os Republicanos criaram parece-me gravíssimo. Deus nos livre de algum dia o nosso continente, criador da Democracia e do Direito, voltar a aceitar a pena de morte e as prisões da tortura. Quem precisa de uma cura urgente são os EUA, visto que a sua Democracia está gravemente doente. Cada vez penso mais que ser europeu é um privilégio. E que se Luciano Amaral não quer ser tratado como um imbecil que não é, devia estar mais atento ao que escreve, procurando um mínimo de honestidade.

3 comentários:

esim disse...
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esim disse...

Mesmo considerando as palavras do Luciano exageradas, mesmo sabendo que a teoria do "dominó" está fora de moda, penso que não podemos ser tão redutores na análise do que se passou na Indochina. A história deve ser lida com distância e numa lógica global. Claro que todas as guerras são más, mas a pergunta deve ser feita de outra maneira: terá a guerra do vietnam valido a pena?

Saudações benfiquistas,

Rodrigo Moita de Deus

João Pedro disse...

O resultado final mostrou não só que a guerra tinha sido inútil como afectou toda uma geração de Norte-americanos. Mesmo que o princípio fosse compreensível, o conflito só conseguiu adiar a tomada do poder pelo Norte.
Talvez os EUA tenham pensado que o resultado seria idêntico ao que sucedeu na Coreia. Não foi, mas ao menos os vietnamitas não se revelaram tão dementes como o "Grande Líder", e sempre expulsaram Pol Pot do Cambodja.