terça-feira, março 24, 2015

Um ano depois de Maidan, a Rússia ainda ficou mais voraz

 
Há coisa de um ano, a Rússia concretizava o plano de se reapoderar da Crimeia. Através da ocupação de pontos-chave por parte das tropas estacionadas em Sebastopol, com a ajuda de reforços vindos da Rússia (que tacticamente escondiam a identificação) e de milicianos locais, cercaram as forças ucranianas estacionadas na península, proclamaram a autonomia da região e organizaram um "referendo" (ou antes, um plebiscito) que resultou na "independência" e posterior anexação pela Rússia. Com pompa e circunstância, e discursos nacionalistas, proclamou-se que "a Crimeia tinha voltado a casa". A Ucrânia reagiu, a maior parte dos países condenou a manobra e não reconheceu a Crimeia como parte integrante da Rússia, mas o certo é que nada mudou e até já avançam os planos para a construção da ponte sobre o estreito de Kerch, que ligará a Crimeia ao resto da Rússia.

 Meses depois, iniciou-se a operação que visava subtrair à Ucrânia as suas regiões orientais. As regiões de Luhansk e Donetsk foram em grande parte ocupadas (incluindo as cidades-sede) por rebeldes separatistas, com apoio mal dissimulado das forças russas, e o resto é o que se sabe. Guerra sem fim à vista, apenas intervalada por efémeros cessares do fogo. As regiões permanecem ocupadas pelos separatistas, mais de um milhão de pessoas fugiu para os países da sua preferência, conforme fossem russófonos ou leais à Ucrânia, morreram mais de cinco mil, e destruíram-se infraestruturas quase novas e que tinham tido um custo avultado, como o recentíssimo e moderno aeroporto de Donetsk. E enquanto os combates, que na realidade nunca pararam, não aumentam de intensidade, com a mais que previsível carga dos separatistas sobre a cidade portuária de Mariupol (cuja conquista lhes facilitaria a ligação terrestre à Crimeia), permanece um tensão pouco tranquilizadora.

Entretanto, a Rússia assinou um acordo de integração com a Ossétia do Sul, o que na prática significa a anexação daquele território arrancado à Geórgia.

Ou seja, os efeitos da Revolução de Maidan resultaram não no reforço da Ucrânia, apesar da expulsão dos governantes pró-russos, mas na expansão da Rússia e dos seus títeres, na Crimeia, na bacia do Don e no Cáucaso. Bem pode a NATO condenar todos estes avanços: sem prova de força, nada obsta a que a Rússia efective estas ocupações. Se bem que pode ver a Ucrânia escapar-se ainda mais e tornar-se, a prazo, um membro da NATO. Eis como os despojos daquele país serão divididos.

Enquanto isso, em Moscovo, no último mês, assassinaram o líder político da oposição, Boris Nemtsov, antigo vice-primeiro ministro, junto ao Kremlin, em mais um acto nebuloso e sangrento envolvendo tiros. As suas exéquias fúnebres levaram à maior manifestação contra o governo, bastante superior à que uma semana antes tinha levado à rua os apoiantes de Putin na sua guerra contra a Ucrânia. Nunca antes se tinha visto uma tal demonstração de força contra o "czar" republicano de quase todas as Rússias. Este, embora garantisse que iria proceder a um inquérito para a averiguar a morte de Nemtsov, condecorou poucos dias depois o principal suspeito do assassínio de Alexander Litvinenko, em Londres, em 2006, por envenenamento. Que ocorreu quase ao mesmo tempo e nos mesmos lugares que a tentativa de fazer o mesmo a Yegor Gaidar, o antigo primeiro ministro liberal da Rússia, que escapou por pouco. Ingenuidade ou uma provocação grosseira de Putin?

Assim vão as Rússias e os seus antigos apêndices.

terça-feira, março 17, 2015

Partiu un defensor de la léngua i cultura mirandesa



Vale a pena ver este artigo do Expresso, com uma extensa entrevista a Amadeu Ferreira, que morreu nos inícios deste mês. Amadeu Ferreira, natural de Sendim (sim, a terra da posta da Gabriela), Miranda do Douro, teve um percurso apaixonante, sempre em crescendo: seminarista, soldado, viveu em várias terras de Trás-os-Montes, estudou filosofia na Universidade do Porto e Direito na Universidade de Lisboa, onde viria a lecionar e a tirar o mestrado, pelo meio chegou a militar e a ser deputado pela UDP, e acabou como vice-presidente de Carlos Tavares na CMVM.
Podia ser um percurso de respeito como tantos outros não fosse o facto de Amadeu Ferreira se ter popularizado como o mais acérrimo defensor da língua mirandesa. Ouvi falar dele quando escrevia semanalmente no Pública, na sua crónica semanal em mirandês, em que aparecia com a sua característica boina. Traduziu para aquela que é a segunda língua oficial de Portugal os Lusíadas, os Evangelhos, e mais uma data de livros, incluindo álbuns de Asterix (se já viram por aí o Asterix L Goulês, então saibam que é uma tradução de Ferreira), além de escrever poesia e crónicas mirandesas. Há tempos, encontrei uma entrevista em que declarava que tinha uma doença que não lhe daria mais do que dois anos de vida, pelo que queria acelerar algumas obras que tinha em projecto. Não sei se as acabou, mas a verdade é que deixou um vasto legado e a certeza de que o mirandês não mais há de entrar na obscuridade, graças sobretudo ao seu trabalho. Amadeu Ferreira deixa obra e uma vida, sumarizada em bom mirandês na Wikipedia da mesma língua. Poucas terras em Portugal têm uma identidade tão forte e vincada como Miranda. E poucas se podem orgulhar de um dialecto próprio, ou de quem divulgue tanto a sua cultura.





terça-feira, março 10, 2015

Nelson Évora de regresso ao ouro



Se no próximo jogo na Luz, já daqui a dias, Nelson Évora, que se sagrou campeão de triplo salto no europeu de atletismo de pista coberta, for mostrar ao público a medalha de ouro que ganhou em Praga (como é devido a um atleta do Benfica), espero que este reaja com o cântico "Tudo a Saltar...!" Nunca será tão oportuno como nessa ocasião.

segunda-feira, março 09, 2015

Andar nas metrópoles, por baixo da terra e pelo ar

 
Para além de ser uma metrópole trendy, cool, hispter, e tudo o que sejam categorias urbanas contemporâneas, em simultâneo com o peso institucional e tradicionalista, Londres parece querer agora também tornar-se a grande cidade ecológica por excelência (lá está, juntando a vanguarda com a tradição ferroviária). Segundo o Observador, o projecto London Underline pretende transformar linhas de metro abandonadas em vias subterrâneas com uma via para peões e uma ciclovia. Londres é uma cidade perfurada no seu subsolo, não só pela extensíssima rede de metropolitano mas também pelos serviços postais (Post Office Railway), pelo Bank of England, entre outros (sim, não se ficam por aqui). É natural que algumas linhas tivessem ficado esquecidas pelo seu menor uso. Assim, a ideia é recuperá-las e rentabilizá-las, com bicicletas já à entrada dos túneis para serem usadas, e ainda um piso cujo atrito cinético dos passos e das rodas gera electricidade utilizada para a iluminação. Pode até nem passar do papel (ou do vídeo), mas é uma ideia muito interessante, imaginativa e ecológica, que permitirá circular a pé ou de velocípede numa grande cidade sem a preocupação do trânsito nem do clima londrino.





Ainda no mesmo jornal e na mesma cidade, há ainda o projecto algo megalómano de Norman Foster de construir ciclovias por cima das imensas linhas ferroviárias de Londres, com mais de duzentos quilómetros, dez faixas de rodagem e duzentos pontos de entrada. Eis uma das ideias para melhorar a circulação viária e complementar um meio de transporte limpo com o comboio. Embora perfeitamente viável, também não deverá ser para os próximos tempos. Mas é bem possível que daqui a uns anos muitas linhas férreas urbanas tenham um "tecto" constituído por extensos lances de ciclovias. Aproveitar as infraestruturas existentes e circular por baixo da terra e pelo ar: eis as alternativas à circulação nas grandes cidades.

domingo, março 01, 2015

111 anos comemorados com meia dúzia


Em dia de aniversário capicua (foram 111 anos), ver o Benfica a golear o Estoril por meia dúzia é sem dúvida uma excelente prenda de anos que os jogadores deram ao clube, e particularmente compensadora. Viram-se excelente golos - o de Pizzi e o primeiro de Jonas - para os quase cinquenta mil espectadores que foram cantar os parabéns ao estádio. O Estoril de José Peyroteo Couceiro, uma sombra do que era a equipa de Marco Silva, acabou por ser a vítima da maior goleada deste campeonato, o que tem uns laivos de justiça quando pensamos que os canarinhos foram em parte responsáveis pela perda do título de 2013, quando empataram na Luz a três jornadas do fim. Mas o que fica são os golos, que tornam o Benfica a equipa mais goleadora da prova, e a festa na Catedral pelos 111 anos de idade.

 

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Óscares 2015


Este ano quase nem vi a cerimónia dos Óscares. Aguentei até ao melhor Actor Secundário, quase no princípio, e desisti. Fiz bem. Afinal de contas, cumpriram-se todas as previsões. Não falhou nenhuma, salvo talvez qualquer aposta nas categorias técnicas. Mas ainda me lembro do tempo em que havia surpresas e discussões entre especialistas, dando a sua opinião sobre quem deveria vencer. Vá lá que para Melhor Actriz ganhou a Julianne Moore (não vi o filme dela, mas há anos que já merecia uma estatueta), e Wes Andersson levou também algumas para casa, mas confirma-se que um papel autobiográfico e para mais de um cientista com deficiências notórias comove sempre a "academia" e são 3/4 de caminho andado para ganhar o prémio (vide Rain Man ou Shine), com algumas notáveis excepções (e que foram por isso mesmo uma surpresa), como Uma Mente Brilhante. Birdman é um bom filme, mas não excepcional. Grand Budapest Hotel, é muito bom, mas não é uma obra-prima. Não vi Boyhood, mas do que me lembro de Patrícia Arquette, nem por sombras mereceria sequer uma nomeação para prémios de teatro de bairro. Espero que tenha melhorado, senão será sem dúvida a pior actriz de sempre a ser galardoada com um Óscar.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

As prioridades da ONU


É claro que ser impedido de entrar no metro por um punhado de rufias racistas e bêbados, ainda por cima estrangeiros, como aconteceu há dias em Paris, é desagradável. Mas apesar da humilhação e da sensação de intimidação, o pior que acontece é entrar só no metro seguinte, uns minutos depois. Que o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos não entendeu assim e resolveu pronunciar-se sobre o acontecimento. Quem não vivesse neste Mundo poderia supor que isto está no grau mais alto da escala das violações dos direitos humanos. Bom seria que todos os problemas fossem esses, mas sinceramente, com todos os casos aberrantes que se passam no Mundo, é sobre coisas destas que os senhores Altos Comissários se debruçam? Pergunto-me se tiveram uma reacção tão pujante quando vinte e um coptas foram barbaramente assassinados (outra vez) por terroristas da Daesh nas praias da Líbia. Bem podem dizer que Paris é mais mediática e "mais perto" (dá ideia que tudo o que se passa na capital francesa é mais importante do que o resto), mas recordo-lhes que a Líbia é já ali do outro lado da Itália. E a  ONU, que eu saiba, tem carácter mundial. Se se vai pronunciar sobre cada caso de racismo, então vai precisar de umas dezenas de porta-vozes em discurso ininterrupto. Melhor faria se fosse tratar do que importa e deixasse os casos menores de lado. Depois, não admira que digam que se trata de uma ilustre inutilidade. Bizantinices como estas levam ao ridículo, e a prazo, à total irrelevância.


quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Duas visões europeias opostas



O braço de ferro no interior da eurozona está para durar, como não podia deixar de ser entre partes que além de se quererem salvar, querem também salvar a face. Mas é curioso notar como tudo isto resulta sobretudo das intransigências de dois países, a Grécia, o país assistido e quase insolvente governado há semanas por uma coligação contra natura de esquerda radical com nacionalistas de direita, e a Alemanha, o "motor" da economia europeia, o líder oficioso da zona euro e principal credor dos gregos, governado pela coligação luterana CDU (e o apêndice católico CSU)- SPD, encabeçada pela temida e detestada Angela Merkel. Mais do que um choque político e económico, é um choque cultural.


Os dois países têm características muito diferentes, que em dose moderada são louváveis, mas que em excesso conduzem ao impasse como o que se verifica agora. A Grécia é um país intrinsecamente mediterrânico, uma terra de oliveiras e vinhas, de sol e de mar em abundância, com um povo histriónico e caloroso, que se orgulha (algo ilusoriamente) dos antepassados que ali criaram uma civilização que influenciaria todo o ocidente, ainda que verdadeiramente o que os norteia seja a cultura ortodoxa fundada no Império Bizantino e o caos balcânico. Esse caos é verdadeiramente admirável até determinado ponto, principalmente para quem, como eu, é apreciador de filmes de Kusturika, de ali tão perto. Aliás, o cinema mostrou ao mundo essa Grécia caótica, fogosa, apreciador das "coisas boas da vida" e algo tresloucada em filmes como Nunca ao Domingo e Zorba. O pior é a outra face do problema: uma administração pública tão caótica como as manifestações de anarquistas, vulgares na terra (as "manifs" são quase um desporto nacional), a fuga maciça aos impostos dê por onde der, uma corrupção generalizada e aceite tacitamente como uma instituição subterrânea. Não esquecer o significado do termo "balcânico", e que a Grécia fica no fim da península com esse nome.


Claro que tais características desagradam e confundem os alemães. A honestidade negocial hanseática, a disciplina prussiana, a eficiência no trabalho, a qualidade dos produtos, o cumprimento estrito da lei e das regras - um povo eminentemente jurídico, com provas dadas no direito - são qualidades de que os germânicos não prescindem. Só que essas características, levadas ao extremo, degeneram-se, e transformam-se também elas em adjectivos perniciosos: intransigência, autoritarismo, falta de flexibilidade, espírito punitivo. Não faltam teses que consideram que os alemães seguiram Hitler durante tanto tempo por causa do seu espírito de obediência à lei e à sua disciplina irredutível. E vários testemunhos (o de Eichmann, por exemplo), atestam-no, justificando alguns actos do Holocausto com ordens superiores e o sentido do "dever", sem qualquer juízo crítico.

São estes dois espíritos que agora se confrontam no meio de uma União Europeia expectante. Os gregos cederam em boa parte do que o Syriza prometia inicialmente e concordaram em largar várias exigências, a começar por perdões de dívida, mas é duvidoso se conseguirão inculcar alguma ordem na administração e no sistema fiscal. Os alemães continuam até agora inamovíveis, considerando que não há desvios às obrigações e que não há qualquer plano alternativo de alteração de prazos e juros a que os anteriores governos gregos se obrigaram. E no entanto, a sua opinião pública nem é assim tão inflexível.

Claro que não sabemos se realmente as coisas são exactamente desta forma. As negociações subterrâneas são feitas de cedências que não transpiram para a opinião pública. Mas bom seria que houvesse alguma compatibilidade, ou no mínimo, boa vontade e entendimento, entre estas duas visões, tão diferentes entre si, mas ambas tão europeias. O futuro próximo da UE exige-o. Se assim não for, teremos o caos da Grécia estendido a muitos mais países.


segunda-feira, fevereiro 09, 2015

O ponto final


Já ouvimos de tudo: "jogaram como uma equipa pequena", "lá estão eles a festejar antes do tempo", "até parece que ganharam o campeonato", "o Sporting deu-lhes um baile de bola", "tiveram uma sorte incrível", "nem percebem que o Porto só ficou a 4 pontos", "o golo é irregular", "deviam ter sido expulsos dois jogadores do Benfica", "o Sporting tem um orçamento muito menor", etc, etc, etc. 

Estas são algumas das declarações mais representativas dos adeptos não-benfiquistas ontem à noite. O empate ao cair do pano, sete minutos depois do golo de Jefferson, que pôr Alvalade em delírio como há muito não se via, e que quase deu a segunda vitória do Sporting ao Benfica de Jesus, deixou 90% daquele estádio mudo (pena que não tenham mostrado Bruno de Carvalho nessa altura). A sorte que sorriu ao Benfica é a mesma que o Porto teve no penúltimo jogo de 2013, e que os seus adeptos constantemente no-lo recordam, e é a devolução da que o Sporting também teve na terceiro jornada do campeonato, em que marcou graças a uma fífia monumental de Artur e em que o Benfica não soube aproveitar as muitas oportunidades de golo que teve. Só o Sporting quis ganhar ontem? Pois nesse desafio em Setembro o Benfica quis muito mais e só conseguiu um ponto. O resto, em especial as críticas à arbitragem (ridículas e falsas) e as acusações de "festejos exagerados" (como se qualquer outra equipa não fizesse exactamente o mesmo) são produto do estado de espírito de ver os três pontos ir pelo cano na última jogada.

É verdade que o Benfica teve um jogo ofensivo quase nulo. Mesmo com a ausência de Gaitan e de outros, pedia-se mais. Ola john, que só usa o seu talento de vez em quando, esteve mais uma vez discretíssimo, e o pior é que Salvio também. E jogar para o empate pode dar em derrota. Por felicidade, não deu. A mesma felicidade, que, como disse, nos fugiu noutras ocasiões. 
O ponto ganho no fim vale por si e pela injecção de moral aos jogadores. Pode ser a famosa "estrelinha de campeão". O Benfica conserva 4 pontos sobre o Porto, já jogou nas Antas e em Alvalade e não joga nas competições europeias. Pode e deve ganhar o campeonato, assim tenha engenho para isso e Jesus não desate a inventar nem a armar-se em bom, como antes de Paços de Ferreira (dizia que a segunda volta ia ser melhor que a primeira e já perdeu tantos pontos como aí). A recuperação de alguns jogadores também ajudava. Uma coisa é certa: o Benfica está vivíssimo e tem todas as perspectivas de ser campeão. Já o Sporting...



sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Links


Alguns textos aconselháveis, no Observador mas não só.


No Observador, um texto já com uns dias, da autoria de Gustavo Plácido dos Santos, que explica o crescimento do Boko Haram, a dificuldade de o fazer recuar, e a perversa ambiguidade do sistema política nigeriano, pouco interessado, por ora, em o rechaçar.

Ainda no mesmo, jornal, confesso que tenho gostado muito dos artigos do Padre Gonçalo Portocarrero de Almada. Como este, sobre a Blasfémia. Ou o mais recente, acerca dos "hippies de Deus".


Um bom artigo de Jorge Almeida Fernandes, no Público, sobre um assunto de que eu já tinha falado antes: o fim do ´"cartel" das famílias políticas gregas.

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Setenta anos de A Bola


2015 só leva um mês mas já comemorou efemérides com números redondos. À cabeça, os setenta anos da libertação, ou do fim de Auschwitz. Como é assunto demasiado dramático e muito comentado nos últimos dias, fica só a nota, sobretudo numa época em que o anti-semitismo claramente continua vivo.

Houve outras comemorações de setenta anos, curiosamente. Há exactamente dez, no meu primeiro voo transatlântico, entretive-me, entre outras coisas, com uma revista, um suplemento desportivo especial com o título "Sessenta Figuras do Desporto Português" (ou coisa parecida) que aliás ainda tenho guardada algures. O número não era por acaso: servia para comemorar os sessenta anos de existência do jornal A Bola, essa bíblia do desporto nacional ("jornal de todos os desportos", é o seu subtítulo), fundada por Cândido de Oliveira, com os melhores colunistas e os melhores textos, e que ainda por cima é conotada com o Benfica, o que só a torna mais respeitável.

Tudo isso para lembrar que dez anos depois, há poucos dias, A Bola chegou aos setenta anos. Uma excelente idade para um jornal desportivo, que mantém toda a sua qualidade e até tem um canal de televisão próprio. Mas conserva ainda outra característica, que o distingue de todos os outros: é o único jornal que se mantém no Bairro Alto, essa Fleet Street lisboeta (em comum entre o castiço bairro de bares e tascos e a nobre rua londrina que leva à Catedral de S. Paulo só mesmo o facto de terem sido habitados por jornais) em versão inclinada e estreita. Todos os outros se foram para outras paragens, deixando traços na toponímia e no edificado - o mais notório é a antiga sede do extinto jornal O Século, que hoje é o Ministério do Ambiente. Só A Bola ficou, na Travessa da Queimada, como âncora da memória dos periódicos que faziam daquela zona o seu espaço natural. E também por isso está de parabéns.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Kobani, a Estalinegrado dos jihadistas



Entre a informação sobre as eleições da Grécia, as derrotas de Benfica e Porto, o recrudescimento dos combates na Ucrânia, etc, quase passámos ao lado de uma das notícias mais relevantes dos últimos dias: a libertação da cidade de Kobani de combatentes jihadistas. Há meses que a cidade estava parcialmente ocupada pelas forças do Daesh, numa luta encarniçada rua a rua entre estas e os peshmergas curdos, auxiliados por alguns voluntários e pelos constantes bombardeamentos da aviação americana e árabe. As milícias do ISIS, mais conhecido como "Estado Islâmico", sofrem assim a primeira grande derrota desde que se apresentaram ao mundo ocupando vastas áreas do Iraque e da Síria, num cortejo de horrores de uma absoluta crueldade, num verdadeiro etnocídio para formar um estado livre dos "infiéis" cristão assírios, yazidis  e outros que viviam naquela região há séculos, transformando a Mesopotâmia e a região da antiga Nínive num caldo de ferocidade. Perderam perto de 1200 efectivos e sofreram um desaire que lhes poderá custar alguma popularidade entre os seguidores recém convertidos e doutrinados na jihad que se lhes juntam diariamente, embriagados com as AK-47 e com o avanço até agora imparável. É certo que toda a região envolvente, que bordeja a fronteira da Turquia, está ainda ocupada pelas milícias jihadistas, mas a libertação de Kobani, depois de meses de luta casa a casa, entre escombros e snipers,  pode ser a Estalinegrado desta guerra contra uma das maiores ameaças do mundo actual. Em Kobani começa, esperemos, a lenta mas progressiva libertação daquela parte do Crescente Fértil, que há demasiado tempo é notícia pelas razões mais infames.
 

terça-feira, janeiro 27, 2015

Tempos interessantes esperam a Grécia




A vitória do Syriza na Grécia, no limiar da maioria absoluta, terá as suas virtudes, mas para quem como eu não se revê minimamente naquele partido que agrupa diversas formações de esquerda radical, a menor de todas não será o fim do domínio da política grega pelos clãs familiares que há décadas fazem dela a sua propriedade - os Papandreou, Karamanlis, Mitsotakis, etc. Ou talvez não, porque estas famílias já existiam antes da junta dos coronéis e renasceram com o regresso da democracia.
Outras vantagens: Tsipras e o seu Syriza terão oportunidade de demonstrar que há alternativas para além das políticas actuais, o que levará forçosamente a algumas mudanças de rumo. Ou então mostram que não passam de meros populistas e o Syriza será a vacina contra as formações populistas que ganharam novas esperanças com este resultado. Seja como for, o futuro da Grécia é perfeitamente imprevisível. E não se pode deixar de reparar na rapidez com o novo governo se formou e tomou pose, ainda que se estranhe a aliança com um partido de direita (embora Tsipras nem pudesse colocar gravata ao menos na cerimónia de empossamento. Nem imagino o que dirá João Carlos Espada).

Entretanto, a derrotada Nova Democracia teve um apesar de tudo honroso resultado de perto de 30%, ainda que muito longe dos que alcançava antigamente, mesmo na oposição. O PASOK o outro grande partido grego, ficou-se por uns irrisórios números abaixo de 5%. E Papandreou, com o seu novo partido da mesma área, nem conseguiu votos para ser eleito deputado.
Entretanto, os neonazis do Aurora Dourada, mesmo com o líder preso, ficou em terceiro, e os neoestalinistas do KKE aguentaram-se acima do PASOK. Tanto externa como internamente, a vida política na Grécia a médio prazo promete ser interessante. Espera-se que os gregos não sofram mais à conta disso.

sábado, janeiro 24, 2015

Uma mensagem para Bernardo



E aqui, Pedro Adão e Silva explica, num belo manifesto, porque é que a venda de Bernardo Silva ao Monaco custou tanto aos benfiquistas, apesar dos quase 16 milhões de euros e de ser um projecto de jogador.

sexta-feira, janeiro 23, 2015

O princípio do fim de Kirchner?



Noutra república, mais a oeste, o caso do momento não é a liberdade de expressão, embora também tenha a ver com terrorismo.


O atentado de 1994 em Buenos Aires contra o edifício onde funcionava a Associação Mutual Israelita Argentina já tinha vindo à baila há pouco tempo, na altura do Mundial do Brasil, que coincidiu com os vinte anos da acção terrorista que matou 84 pessoas e feriu mais de duzentas, além de destruir totalmente o edifício. Inquéritos posteriores levaram à pista iraniana, e a justiça argentina acabou por acusar o regime iraniano de planificação e autoria moral do atentado, que teria sido executado por membros do Hezbollah, o movimento político e militar libanês que funciona como "braço" do Irão naquele país. Em 1992 já tinha havido um atentado contra a embaixada israelita em Buenos Aires, reivindicada pelo Hezbollah.



Há dias, Alberto Nigran, o procurador argentino responsável pela investigação do atentado de 1994, revelou que o governo de Cristina Kirchner tinha encoberto as investigações (e permitido que o próprio Irão tivesse parte relevante em novo inquérito) e contactado directamente os acusados para facilitar a venda de petróleo iraniano. Revelações mais detalhadas seriam prestadas pelo magistrado no congresso argentino, mas na véspera da audição morreu no seu apartamento, oficialmente vítima de "suicídio". Isso sem que houvesse qualquer intenção de se matar, nem uma nota explicativa, e em que as pistas já apuradas também não conferem. E tendo em conta que se apresentava para revelações graves e pormenorizadas visando a própria presidência, o caso toma foros de escândalo. Poucos negam que a morte seja altamente suspeita, e ninguém acredita que tenha sido suicídio. A própria Cristina Kirchner mostrou-se convencida disso, para depois o negar.


O caso lembra-me outras duas situações de tempos passados: o caso Irão-Contras, por causa do envolvimento iraniano e na suposta negociação subterrânea, em que altos responsáveis norte-americanos venderam armas ao Irão para financiar os Contras da Nicarágua, já depois da crise dos reféns na república islâmica (ou até durante a prisão dos reféns, já que há quem aponte a morte de Amoro da Costa e Sá Carneiro como resultantes do conhecimento que o então ministro da defesa tivera do negócio). E também o caso da tentativa de assassínio de Carlos Lacerda, em 1954, que levaria à prisão de elementos da guarda pessoal de Getúlio Vargas, à tentativa de derrubar o presidente brasileiro e que culminou com o suicídio deste, a 24 de Agosto de 1954 - o dia 24 de Agosto parece carregar desastres sem fim, como a Matança de S. Bartolomeu e a erupção do Vesúvio que arrasou Pompeia, para além de ser o dia em que nasceu este vosso criado. Vem-me à cabeça por ser um caso de assassínio que implica o chefe de estado, ou membros próximos dele. Mas posso estar a ser influenciado por ter lido há pouco o livro Agosto, de Rubem Fonseca, que relata exactamente os acontecimentos que levaram ao suicídio de Getúlio, e pelo filme recente do mesmo nome, com Tony Ramos no papel do velho presidente.
Certo é que se me parece improvável - e indesejável - que Kirchner se suicide, mas não me parece nada implausível que sofra uma pressão tal ou que este acto inspire um movimento de indignação tal que a leve a deixar a presidência, ou quando dela sair, a deixar definitivamente a sua carreira política. Até porque a situação económica não ajuda. Um caso tão grave e misterioso como este era tudo o que Kirchner, salvo se for extremamente estúpida, não desejaria.

terça-feira, janeiro 20, 2015

Contradições republicanas



Depois das "manifestações republicanas" em França, em que todos "foram Charlie", vários foram os reparos ao repentino amor que a França a o regime republicano começaram a demonstrar pela liberdade de expressão, como se fosse um dado adquirido desde tempos imemoriais. No entanto, e tal como em todos os outros países, a liberdade de expressão francesa é em muitos aspectos mais letra morta do que outra coisa.

De notar, desde logo, que se ouviu por mais do que uma vez que "o terrorismo é contrário aos valores da república". Não deixa de ser irónico, já que a palavra "terrorismo" tem a sua origem no Terror que emergiu com a Revolução Francesa e a 1ª República francesa, o bordão "Liberté, egalité, fraternité", o barrete frígio, etc. Um terrorismo de estado, neste caso, que levou milhares para a guilhotina por não serem reconhecidos pelos tribunais revolucionários como "bons cidadãos". Pergunto-me se muitos dos que exaltam a Revolução Francesa contra a inquisição pensarão bem nisto.

A verdade é que há opiniões que em França são consideradas crime. A negação do Holocausto, por exemplo, já levou alguns negacionistas para a prisão, o que significa que não há liberdade para se negar ou omitir o Holocausto. Da mesma forma, a negação do Genocídio Arménio passou a ser crime no hexágono há poucos anos (há quem diga que estas leis são influência das importantes comunidades judias e arménias de França e do seu peso político e social, e porque não, eleitoral).

Já na Turquia, cujo modelo republicano é em grande parte copiado do de França (embora nos últimos anos Erdogan o esteja a modificar, sobretudo no que toca ao laicismo até há pouco característico do regime), há curiosamente uma lei em sentido contrário: é crime declarar-se que existiu um genocídio do povo arménio - pelos turcos, evidentemente. Os valores republicanos chocam de frente na mesma questão.

Ou seja, pode-se proclamar a liberdade de expressão aos quatro ventos e declará-la como "valor republicano", mas a realidade mostra-nos que também nas repúblicas, e em boa medida na republicana França, há um real condicionamento, por muito imbecil que seja a negação de massacres e genocídios que não deixam a menor dúvida. Mas não é mesmo a liberdade de expressão a possibilidade de ofender e dizer disparates sem se temer ir parar à prisão? Être Charlie é afinal uma moda passageira, ou então o reconhecimento do exercício de liberdade de expressão para apenas alguns assuntos.

sexta-feira, janeiro 16, 2015

Onze



A Ágora tem o prazer de anunciar que chegou à sua primeira capicua: onze anos. Será difícil chegar a outras, mas esta já ninguém nos tira.


Onze é um número estranho. Representa o número da unidade, mas como é duplicado, torna-se ambíguo ou mesmo mentiroso. É o primeiro depois da dezena, é a primeira capicua como disse em cima, e a sua estranheza dever-se-à também a vir depois do número redondo dez. É o número da ressaca depois do festejo da dezena.

E depois desta filosofia digna de gabinetes de auto-ajuda, e não querendo repetir os discursos de outros aniversários, deixo apenas imagens do dia. De como é atravessar a serra do Marão num dia como o de hoje.
 



quinta-feira, janeiro 15, 2015

Uma selfie no relvado



Há jogadores que parecem feitos de encomenda para o clube que representam, e mais ainda, para a cidade defendida por esse clube e para os seus símbolos. Francesco Totti joga na AS Roma há mais de vinte anos. Aí por 2000, altura em que os clubes da capital romperam brevemente o domínio nortenho do futebol italiano, a Roma veio jogar ao Bessa com o Boavista, também a atravessar uma época memorável. A squadra romana era fortíssima, e caiu alguma decepção sobre o público quando se soube que Batistuta, o inesquecível artilheiro argentino, então na Roma, falhava o jogo por lesão. Mesmo assim, os romanos ganharam (ajudados por uma das piores arbitragens que tenho visto, é certo) e seguiriam em frente na competição da UEFA. À saída, vi passar duas das principais figuras do clube: o todo-respeitado treinador Fabio Capello e o capitão e estrela da equipa Francesco Totti, a quem pedi um autógrafo, que me rabiscou quase sem me olhar, como um deus do Olimpo passeando entre vis mortais.

Passados estes anos todos, muitos jogadores despontaram nas arenas e delas desapareceram, vários clubes se sucederam na domínio da competição e as equipas italianas estão longe dos seus melhores anos, mas Totti, com quase 40, continua a ser o capitão e estrela indiscutível da "sua" Roma. Mesmo num país onde a longevidade dos jogadores e a fidelidade ao símbolo é normal, não deixa de impressionar. Totti teve a possibilidade de ir para outros clubes, como o Real Madrid, mas nunca abandonou a casa mãe, mesmo que isso lhe desse poucos títulos (embora também os tenha, e não são menores: pelo meio ganhou uma Bola de Ouro de melhor marcador da Europa e sagrou-se campeão do Mundo em 2006, com a selecção italiana). Identifica-se com a Roma e com Roma, com o seu histrionismo em jogo, o seu catolicismo e, porque não, a sua antiguidade.

Este fim de semana marcou os dois golos da equipa no sempre quente derby contra a rivalíssima Lazio, no Olímpico da capital, que acabou empatado. No momento de festejar um deles, comemorou com um dos actos mais universais da actualidade efémera: tirou uma selfie, que registou a sua pose gozona e a claque em fundo, que com toda a certeza, o aclamava. Gestos só permitidos à rara estirpe dos que, mais do que talentosos, são símbolos vivos do jogo e dos seus clubes




terça-feira, janeiro 13, 2015

À margem do massacre de Paris, outros massacres há




As manifestações em toda a França, e em particular em Paris, foram impressionantes, é verdade. A união daquela quantidade de chefes de estado, das famílias das vítimas (e dos sobreviventes) e de toda a massa popular que seguia atrás é reveladora, e a cerimónia na sinagoga tocante, e um bom sinal para os próximos tempos. Mas parece-me que funcionou mais como escape emocional e símbolo do que como acção de real eficácia (e com a tecla da "república" a ser sempre exageradamente repisada, mas disso falarei mais tarde). Aquilo confortou o mundo ocidental, mas não persuadiu certamente os jihadistas de tentarem futuras acções, nem terá demovido os que os apoiam.

Houve outras reacções, menos noticiadas e mais significativas. A da condenação dos atentados por movimentos como o Hezbollah e mais ainda pelo Hamas, por exemplo (e como algumas reservas, pelo Irão, num progresso assinalável desde a Fatwa lançada a Salman Rushdie, precursora deste tipo de violência reactiva e punitiva). Talvez signifique alguma abertura politica e de espírito, já agora, por parte desses movimentos, mas só o futuro o dirá.

E enquanto no hexágono milhões saíam à rua contra o terrorismo e em defesa da liberdade de expressão, na Nigéria morriam centenas de pessoas às mãos do  Boko Haram, o "estado islâmico" da África central, com recurso a crianças bombistas suicidas. Parece impressionante como naquele país os horrores se sucedem sem que nada ou quase nada seja feito para os travar. Morreram quase cem vezes mais pessoas do que em França, e no entanto ninguém marchou por elas. Como se um morador de uma cubata em aldeias no meio de África fosse um ser menos valioso. E por muito que as acções da França no Mali contra os jihadistas sejam louváveis e necessárias, fica-se a pensar se não terão intervindo mais para proteger os manuscritos de Timbuktu do que os povos locais. Defender a cultura e o património é fulcral, mas defender as pessoas é ainda mais. Há demasiadas zonas no mundo onde os crimes da semana passada de Paris se fazem sentir diariamente. Perguntem a tantos nigerianos, malianos, paquistaneses, filipinos, povos da Mesopotâmia...Não há apenas um "Estado Islâmico", há vários, na Sahel, na Somália ou no sul das Filipinas - onde por acaso o Papa está a chegar. Convinha prestar-lhes alguma atenção. e pensar que o sofrimento que impõem nessas paragens pode muito bem espalhar-se como uma epidemia.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Depois do massacre


Dizia eu no último post que nada tinha mudado e é-se surpreendido com a notícia da matança brutal dos desenhadores e redacção do Charlie Hebdo. A primeira reacção é de choque e raiva, evidentemente, mais um acto de barbárie dos islamitas, era preciso era agarrá-los e dar cabo deles todos... Mais a frio, permanece um pouco o choque e o medo, mas as ideias já se cruzam com mais sentido.

Um tal atentado, por muito que possa chocar, não é exactamente surpreendente. Há muito que havia ameaças em França, um país onde não faltam radicais islâmicos (é dar uma volta por certos bairros de Marselha, por exemplo). O jornal satírico era um alvo evidente e já com ameaças -  numa das últimas edições houve uma estranha premonição sobre isso - e há muito que se falava do que poderia acontecer com o regresso de combatentes originários da Europa provenientes da Síria e do Iraque e do dito califado que ali montaram. A resposta está dada: alguns desses combatentes desmobilizados, com a experiência militar que adquiriram, são extremamente perigosos e não hesitam em eliminar o objecto dos seus ódios.

Mais do que o atentado em si, surpreende por ter sido realizado à luz do dia, em plena Paris, perto da Bastilha (e ironicamente, quase ao lado do Boulevard Voltaire, sempre citado em questões de liberdade de expressão), por três indivíduos que não disfarçaram de qualquer forma ao que iam, gritaram a plenos pulmões os seus gritos de ordem e ainda mataram um pobre polícia já ferido a sangue frio.

Já quase tudo se disse, entretanto. Que é um ataque à liberdade de expressão (e à Vida, ainda mais) e aos valores do ocidente democrático. Que se trata da mais hedionda barbárie e intolerância. E que o terrorismo não pode instalar a censura e que ninguém se pode calar. Por causa disso mesmo, milhares de pessoas se têm manifestado nas ruas ou organizado vigílias, e nos jornais de todo o mundo e nas redes sociais aparece, sob fundo negro, a frase já quase icónico Je suis Charlie. E referiu-se mesmo a ligação que o decano do jornal, Georges Wolinsky, tinha com o Porto, onde vinha amiúde e onde era membro do júri do Porto Cartoon.

Ora precisamente, não é necessário "être Charlie" para repudiar estes assassínios bárbaros. Do jornal apenas conhecia algumas caricaturas, algumas que me fizeram sorrir e outras que achei detestáveis. Sim, acho que faziam demasiado enfoque nas religiões e eram por vezes ofensivos, insultuosos, achincalhantes. Em qualquer sociedade libre, existe discórdia, tensão, provocação. Algo completamente diferente de achar que deviam ser calados, ainda por cima pela força das armas. Mas, por muito que compreenda as manifestações de pesar e repúdio por este acto terrorista, não posso deixar de pensar que outros atentados, mais graves, não levantaram a comoção que este teve. Talvez por se tratar de uma publicação conhecida e temerária, ou por serem rostos conhecidos. Mas apostaria mais que a razão é por ser na Europa, e logo em Paris. Será o mundo inteiro que está comovido, ou apenas o ocidental? E remeto para este texto, já com uns anos, mas perfeitamente actual, em que relembrei o síndrome Luisinha Carneiro (outra excelente criação de Eça): quando houve o massacre de bombaim, que causou dezenas de mortos e o pânico naquela grande cidade, quantas "acções de comoção" houve na Europa? A distância, sempre a distância, a ditar a nossa indiferença e os nosso sentimentos.

Quanto aos assassinos, que queriam "vingar Maomé", talvez o tenham feito temporariamente. Mas terão conseguido sobretudo assinar a própria sentença de morte, alertar a Europa para os retornados das guerras do "califado", fazer surgir muitos mais Charlie Hebdos e dar mais uns milhares de votos à Frente Nacional.

terça-feira, janeiro 06, 2015

O primeiro de 2015


E é no Dia de Reis que a Ágora regressa e se estreia em 2015. Nestes poucos dias do ano, pouco aconteceu de diferente: o governo continua impopular, Mário Soares continua a dizer enormidades e o Benfica continua a ganhar com seis pontos de avanço. Nada de novo, portanto. E no entanto, 2015 tem de ser algo de realmente novo,  de diferença, de mudança, e não me refiro necessariamente a eleições. Falo por mim e por muitos. Todos precisamos.

quarta-feira, dezembro 31, 2014

Curiosidades e ironias que 2014 nos mostrou



Ao cair do ano olhemos rapidamente para outros pontos do globo. Para a Ucrânia, por exemplo, um dos países mais falados em 2014. E para a Rússia dos últimos tempos. Por muito hábil que seja o jogo de Vladimir Putin, a verdade é que os dias do presidente russo não estarão a ser muito calmos (ninguém sabe o que está para vir). E certamente não foram nada agradáveis naquele fim de semana de 22-23 de Fevereiro, em que viu o governo do seu aliado Viktor Yanukovitch a cair na Ucrânia. É certo que lhe permitiu anexar de facto a Crimeia e espalhar a desordem no Leste e Sul dos vizinhos, mas provavelmente preferiria, para já, que o anterior presidente se mantivesse em funções.

A verdade é que o derrube do anterior presidente coincidiu com o encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, para os quais a Rússia não se poupou a gastos nem dispensou espectáculos visuais impressionantes nem uma segurança apertadíssima, por causa dos recentes atentados em Volgogrado. Até então, a vida corria bem a Putin: a Rússia marcara pontos e ganhara legitimidade moral internacional no conflito da Síria, as Pussy Riot e Mikhail Khodorkovsky foram indultados, amaciando a dureza do regime russo, e os jogos correram bem, sem nenhum incidente e com comemorações em grande. Só uma pedra no sapato: naquele preciso fim de semana, o amigo Yanukovitch era derrubado e substituído por um governo interino adverso à Rússia. E as coisas começaram a descambar precisamente aí. O período de graça de Putin acabou aí (fora da Rússia, porque lá dentro a sua popularidade só aumentou).


Mas o aspecto simbólico que gostava de mostrar é outro, e permaneceu na festa de Sochi. Nas cerimónias de abertura, destacou-se o conhecidíssimo Coro do Exército Vermelho, a cantar uma divertida versão de Get Lucky, dos Daft Punk, uma das músicas mais tocadas dos últimos anos nas pistas de dança de todo o Mundo. Um espectáculo com piada, e que é um hino à globalização: um grupo de rapazes russos a cantar, numa cerimónia internacional no litoral do Cáucaso, uma música em inglês da autoria de um duo francês, um dos quais com apelido português.

E é precisamente daqui que vem a outra curiosidade: o elemento de origem lusitana é Guy-Manuel de Homem-Christo, francês de terceiro geração, trineto do jornalista e polemista republicano Homem-Cristo (pai), reconhecido na toponímia aveirense, e bisneto de Francisco Homem Cristo (filho), que se destacou por ter sido o primeiro grande intelectual e propagandista do fascismo em Portugal, e cuja biografia política, Do Anarquismo ao Fascismo, e da autoria de Miguel Castelo Branco. De tal maneira ganhou a confiança de Mussolini que se tornou logo um dos principais "embaixadores" do Duce para espalhar a nova doutrina pela Europa, e mesmo para organizar um congresso do fascismo em Itália. Morreu em 1928, em Roma, num desastre de automóvel, no decurso dessas actividades políticas, quando já vivia e tinha família em França.

O irónico disto tudo é que provavelmente o Coro do Exército Vermelho, surgido como o próprio nome indica no tempo da União Soviética, não imaginaria sem dúvida estar a cantar uma música da autoria do bisneto de um notório propagandista do fascismo, inimigo mortal (ou outra cara da moeda?) da URSS. E com toda a certeza Homem Cristo Filho, admirador e defensor do fascismo italiano, jamais pensou que um seu descendente directo comporia músicas em inglês que seriam cantadas pelo coro do Exército Vermelho. Não seria essa, com certeza, a divulgação que pretenderia, mas o certo é que um seu descendente com o seu nome acabou por se tornar mundialmente conhecido pela sua música, e não certamente pela sua ideologia política (nem pela sua cara, já que o duo há anos que só aparece em público mascarado).

Bom 2015 a todos.

A deserção de CAA




A "confissão" de Carlos Abreu Amorim na já célebre entrevista ao Público na semana passada deixava adivinhar uma discussão acalorada, como o próprio título deixava prever. É verdade que CAA (como assinava) esteve na linha da frente do liberalismo político e económico na blogoesfera e em boa parte da opinião publicada, fosse no Blasfémias ou nos seus escritos aos quais dava o título de "é difícil ser liberal em Portugal", em que se mostrou sempre convicto, assertivo e até truculento. CAA esteve no CDS, saiu com Manuel Monteiro para a Nova Democracia, voltou a sair quando percebeu que não era um projecto liberal como pensava (com direito a manifesto de justificação), mas anos depois, e negando esse mesmo manifesto em que afirmava que "não tinha jeito para homem de partido", aderiu ao convite do PSD de Passos Coelho (supostamente liberal), elegeu-se como deputado por Viana e chegou mesmo a ser o candidato à câmara de Gaia. Daí que esta mudança espante muito, mesmo que houvesse alguns indícios nesse sentido, como cheguei a apontar, sobretudo o apoio eufórico ao ultra-despesista Luís Filipe Menezes, ou seja, tudo a que CAA se opusera antes.


A justificação que CAA dá é sobretudo o da crise financeira despoletada em 2008 e o tombo do BES, que necessitam de um "estado forte". Não tenho nada a objectar, mas fico sem perceber se o entrevistado, que sempre me deu ideia de ser um indivíduo culto longe dos populistas de café, pensava antes que não tinha de haver qualquer regulador para que o mercado funcionasse, ou se achava que a existência de um regulador não era o malfadado "socialismo", e então havia alguém no posto da vigia a regular as fronteiras aceitáveis do mercado. Se se trata da primeira hipótese, é perfeitamente aceitável, já que CAA dava ideia de ser um entusiasta da mão invisível e da cataláxia, essa auto-regulação da sociedade, e portanto trata-se mesmo de uma mudança de ideias. Caso contrário, pode perfeitamente conservar-se liberal tentando mudar as circunstâncias (i.e., pedir o reforço da regulação) e  não as ideias. Será meramente uma fuga para a frente ao aperceber-se da impopularidade do liberalismo. Tendo em conta que o choque ocorreu recentemente, ao fazer parte da comissão de inquérito do BES, e sabendo o apoio dado antes a Menezes, podia inclinar-me para esta hipótese, e aí aconselhá-lo-ia o artigo de Gonçalo Almeida Ribeiro, no Observador, mas prefiro ser benevolente e acreditar que uma houve uma genuína e dolorosa mudança de uma ideologia em que cria ardentemente. Até porque diz a meio duas frases determinantes:  a lógica do liberalismo económico tem uma contradição insanável com a natureza humana. O agente económico deve ter regras fortes e devem existir instituições que forcem a sua aplicação. Caso contrário, a ganância, a prevaricação, o instinto de fuga às regras. Nem mais. Isto é algo em que os devotos do liberalismo quasi sem regras deviam reflectir (e os marxistas também, por razões parecidas).


De qualquer maneira, não é o primeiro liberal fervoroso a abandonar o "barco": também Pedro Arroja, que por sinal também passou pelos Blasfémias, o deixou. E conheço pessoalmente outros casos. Um fenómeno parecido com o de ex-comunistas, quando a ideologia lhes desaba em cima (aconteceu na europa em 1968, e em Portugal em 1989-1991), de crentes religiosos, quando perdem a Fé, ou de não-crentes, quando a encontram. Um processo sempre doloroso, que creio ser de imenso vazio e alguma orfandade, e que nos casos mais graves levam a que se quebrem relações sociais e de amizade de anos e que se abandonem lugares, trabalhos e hábitos. Por isso espero que CAA recupere rapidamente o seu lugar ideológico, e que sobretudo saiba honrar o lugar para que o elegeram.


PS: e que por favor, não volte e encomendar coisas destas, que são mais dignas de programas de humor.

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Natal em 2014




O essencial é isto. Que nada nos estrague a sã convivência entre a família, e para os que não a têm ou não podem, que ganhem renovada esperança.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Cuba libre?



O anúncio do reatamento das relações entre os Estados Unidos e Cuba, entra seguramente para o pódio das notícias mais importantes do ano (a nível internacional, se quiserem), numa semana em que não foram particularmente animadoras, com o horrível atentado que custou a vida a mais de cem crianças nesse repositório de loucos que é o Paquistão. O fim de uma prolongada hostilidade separada por poucas dezenas de quilómetros é plena de significado, e já teve alguns resultados concretos, como a libertação de três cubanos e de um americano, presos por espionagem. Também as relacções bancárias e viagens directas de um país para o outro serão retomadas. O tão falado embargo terá o seu fim se o Congresso o aprovar, o que com uma maioria republicana não muito para aí virada não deve ser propriamente um dado adquirido.

Mas a abertura da ilha e o degelo com os vizinhos são inevitáveis. Os beneficiados são desde logo os desgraçados que se lançam em balsas com a esperança de alcançar a Flórida, que muitas vezes ficam pelo caminho. Depois, a esperada liberalização política chegará provavelmente a Cuba, porque só o embargo e o discurso à volta dele suporta um regime que tem resistido surpreendentemente em mais de vinte anos à queda da URSS. Acaba também um foco de tensão com mais de cinquenta anos, os EUA limpam uma mancha e de certa forma largam algum lastro moral. E mais uma vez se demonstra que a diplomacia do Vaticano, que estabeleceu pontes entre os dois inimigos, continua a ter uma influência preponderante e com resultados notórios, depois das visitas de João Paulo II e Bento XVI à ilha, prosseguida depois por Francisco, em cujo dia de anos se tornou pública a grande notícia (propositadamente?). O Vaticano talvez não tenha divisões militares, como jocosamente ironizava Estaline, mas além de ter assistido aos desmoronar do estalinismo e sucedâneos, mantém pelos séculos dos séculos uma diplomacia mais eficaz que qualquer outra.

Haverá quem desconfie, quem seja prudente ou que ache que há aqui lirismo a mais, mas seja como for, a novidade é boa para todos. Só não será para os cínicos e os fanáticos, desde os comunistas inamovíveis saudosos Cominform e de Che Guevara e que nunca aceitarão a "capitulação ao imperialismo" até aos obtusos republicanos americanos que lamentam o "estabelecimento de relações com um regime totalitário", talvez esquecidos das que os EUA têm com a encantadora Arábia Saudita. Passando, claro, pelos cubanos de Miami, que na sua maioria vêm com apreensão as novas relações entre vizinhos. Será que não têm familiares na ilha que gostariam de rever? Ou que pensam que as relações dos últimos 50 anos deram algum tipo de resultado? Uma coisa é certa: a partir do dia 17 de Dezembro, Cuba ficou com certeza mais livre.


terça-feira, dezembro 16, 2014

O campeão voltou!




E desta vez para ficar, esperemos. Sofreu-se mas ganhou-se bem. Poucas oportunidades? Não muitas menos do que o adversário. Menos ataques e posse de bola? "Peanaers", como diria Jesus. Sorte porque tivemos duas bolas na nossa barra? Sim, depois da lesão do Luisão, capitão da equipa e principal referência da equipa e esteio da defesa. Sorte, só sorte. Liderança reforçada e seis pontos de vantagem. Provou-se quem plantel novo, mesmo com qualidade, nem sempre supera um mais velho mais mais maduro, e que a equipa de "Lotopegui" está longe de ser a maravilha que diziam dela. Cânticos de bom Natal, entrecortados com "tudo a saltar" ribombaram no Dragão. Se tudo correr bem, continuarão lá até ao fim da época.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

As razões da queda do Bloco

 
A razão da contínua decadência do Bloco de Esquerda é consequência de uma velha tradição portuguesa. Mas o Bloco, por desconhecimento (com um número tão grande de sociólogos que não lhe servem para nada) ou por colectivismo ideológico, não parece chegar lá.

A tendência mui portuguesa para que as pessoas sigam formações com um líder forte, carismático, ou pelo menos, que represente uma identificação mínima com o movimento que lidera, é situação que qualquer pessoa que siga minimamente a política percebe. Nem é preciso ir a Salazar, ao "líder providencial" ou ao sebastianismo: fiquemo-nos pela Terceira República. O agora de novo tão badalado Sócrates, por exemplo. O "animal feroz", homem que agrega ódios (de quem acha que é o maior ladrão de sempre) e paixões (aquela mulher a bradar "mesmo que ele seja ladrão, eu voto nele!") levou o PS à sua maior vitória de sempre, em 2005, e resistiu a um grande desgaste em 2009. Acabou por perder quando tinha tudo contra ele.
Outro caso recente: o CDS estaria hoje no governo se não fosse a persistência de Paulo Portas, cujo acrónimo é comparado ao do próprio partido? Não é ele o principal elemento agregador de uma formação que tem votações razoáveis em eleições nacionais e fracas nas locais?
Veja-se o PSD: Cavaco já teve melhores dias, mas então tornou o seu partido hegemónico e o país a pintar-se de laranja.
E o velho PCP? Chegou aos 20% com Cunhal, decaiu com a estabilidade política e a queda do comunismo em 1989. Com Carvalhas, definhou. Com Jerónimo, resistiu e cresce de novo. Apesar de durante anos o vetusto partido comunista raramente apresentar caras nos seus cartazes, que eram autênticas "sopas de letras", para realçar o elemento "colectivo", todos sabiam que havia homem no leme, ou melhor, à frente do comité central.
Quanto ao cometa dos anos oitenta, o PRD, só surgiu porque estava colado à imagem de Eanes. é verdade que o general não tinha grande queda para a vida partidária, mas quando ele desistiu o partido simplesmente desapareceu.
E podíamos ainda falar do fenómeno Marinho Pinto e do extraordinário resultado que ele sozinho obteve nas últimas europeias. Ou recuando mais de vinte anos, recordar como o PPM teve interessantes resultados quando apareceu com a cara de Miguel Esteves Cardoso. Tudo para demonstrar como os nomes e os líderes são importantes na política partidária portuguesa. Sem isso, não têm o menor sucesso. O bloco cresceu com um aglomerado de gente, mas sempre com a figura tutelar de Francisco Louçã. A solução bicéfala revelou-se um erro. As emendas foram piores que o soneto: tudo encravado numa convenção com número ímpar de delegados e acabaram por criar uma liderança exacéfala, com a antiga "co-coordenadora", por sinal o elo fraco da liderança dual, no papel de porta-voz. Cada vez mais irrelevante e com uma sangria de elementos válidos e mediáticos, o Bloco parece perseguir o seu suicídio assistido intransigentemente. A liderança conjunta entre dirigentes que já não se dão bem entre si, de facções diferentes e adversas, só pode conduzir ao desastre. Apostar no "colectivo" na política não dá bom resultado, nem é como no futebol. E mesmo aí tem de haver um "mister" para liderar o grupo e levá-lo a bom porto. O Bloco encalhou nos recifes.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Pela Serra amarela, em Dezembro



Levantar quase de madrugada, ainda escuro, num domingo de Dezembro, sem quaisquer obrigações de maior, pode parecer bizarro, mas justifica-se se for para uma volta por regiões portuguesas tão longínquas como apelativas. Se for no Gerês, mais ainda. Há muito por onde escolher. A Serra Amarela, ali entre a Serra do Soajo e a da Peneda, a Norte, o vale do Lima, a Oeste, e a barragem de Vilarinho da Furna, a Sul, é uma das muitas alternativas. E não é por ser no Inverno que é menos atractiva, mesmo sem neve.








terça-feira, dezembro 02, 2014

A justa consagração da identidade alentejana


O reconhecimento do cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO surpreendeu-me pela rapidez da aprovação. Julgava que ia demorar anos, que iriam esperar algum tempo depois de igual reconhecimento do fado, e que por comparação, a música do Alentejo estaria uns degraus abaixo. Mas olhando bem, vêem-se tantas tradições culturais a receber  a mesma "categoria", e algumas delas que até nos parecem muito mais irrelevantes, que este galardão afinal acaba por ser lógico e perfeitamente justo. Será o cante, com a sua melodia arrastada, melancólica e misteriosa, legado das passagens de árabes e judeus pelo território agora de Portugal, inferior, por exemplo, ao Carnaval de Alost? Talvez daqui a alguns anos outras tradições culturais musicais, como o vira, o fandango ou corridinho, tenham a mesma sorte. Para já, há que nos congratular com o facto do cante alentejano, ter sido ouvido em Paris por estes dias (há quem ache que pode ser um novo chamariz turístico, para além do sol e da praia), e por ser ensinado de geração em geração nas escolas, uma vez que na agricultura é coisa quase impossível. Um abraço a todos os alentejanos que o fazem ouvir, nos grandes auditórios de Paris ou nas tabernas de Serpa.



domingo, novembro 30, 2014

Vinte anos de Banco Alimentar no Porto

 
Há vinte anos, por esta altura, chegou ao Porto a primeira campanha do Banco Alimentar. Os espaços e armazéns eram bem mais pequenos, e os sócios, ainda que em boa quantidade para aquela estreia, menos numerosos. Participei logo nela, numa enevoada manhã de Sábado, distribuindo saquinhos e informação à porta do Jumbo da Maia (onde nunca tinha estado antes), perante a indiferença, enfado ou compreensão dos transeuntes. Mas lá se conseguiu fazer uma muito razoável campanha, e a partir daí, sempre em crescendo. Continuei durante vários anos a fazer campanha à porta dos supermercados, passando daí para o trabalho administrativo fora e dentro das campanhas (registar voluntários, por exemplo) e para os trabalhos mais pesados, de carregar e descarregar separar e acondicionar alimentos, no armazém propriamente dito, em especial no domingo à noite, quando chega o grosso dos donativos e há menos gente disponível, sobretudo nesta época pré-natalícia. É bastante cansativo e os músculos ressentem-se no dia seguinte, mas é compensador pela causa e pela alegria e entusiasmo no trabalho que não se vê em mais parte nenhuma. E nestes vinte anos deu para ver a crescente generosidade das pessoas, que aumenta ainda mais em tempos de crise. O Banco Alimentar passou da desconfiança ao reconhecimento total, mesmo com alguns escolhos pelo meio.
Vinte anos depois desses sábados de manhã nos hipermercados, o trabalho é diferente (mas não menos exigente), mas a causa é a mesma e as necessidades maiores. Neste fim de semana podemos ajudar uma quantidade de pessoas cujas necessidades podem não ser visíveis, mas existem e não são poucas. Dar uma ajuda ou um contributo no voluntariado pode não custar muito para quem dá, mas mas pode fazer a diferença para quem recebe.