quinta-feira, outubro 08, 2009

E o Nobel da Literatura vai para uma alemã de origem romena que antes era romena de origem alemã

 


Tal como se esperava, a Academia de Estocolmo, sempre fiel às suas tradições, atribuiu o Nobel da Literatura deste ano a uma autora quase desconhecida, Herta Müller. Os especialistas na matéria, como sempre, apostavam nos consagrados Philip Roth, Vargas Llosa, Amos Oz, Milan Kundera, etc. Enganaram-se uma vez mais. Já era tempo de saberem que os suecos adoram trocar as voltas às apostas e nomear alguém de terceira linha. Mais vale não fazer prognósticos sobre os "consagrados", para ver se eles assim ganham algum ano - isso sim, seria surpreendente. Basta dar uma vista de olhos à lista dos galardoados dos últimos anos para perceber essa imensa evidência.

Observe-se agora: responsáveis da Academia disseram recentemente que o prémio "tem sido muito eurocêntrico". Entretanto, já é o terceiro autor de língua alemã a ganhá-lo nos últimos dez anos. É certo que os autores germanófonos deram não poucas contribuições à literatura europeia e mundial, mas tenho sérias dúvidas se actualmente serão superiores aos lusófonos - em maior número e distribuídos por mais países. Passa-se a vida a ouvir dizer que "como o Saramago ganhou em 98, dificilmente algum escritor lusófono ganhará nos próximos anos". E agora temos a senhora Herta Müller a juntar-se a Günter Grass (nada a opôr) e a uma Jelinek qualquer. Se há medíocres que escrevem em alemão a ganhar o Nobel, porque não um bom brasileiro ou um razoável português?

 
Ainda outra observação: Herta Müller nasceu em Timisoara, na região romena do Banato, mas mudou-se para a Alemanha, onde adquiriu a respectiva nacionalidade nos anos oitenta, daí dizerem que é alemã de origem romena. Na realidade, poder-se-ia dizer o inverso (como se deduz pelo nome e apelido), já que pertence ao grupo dos suabos, outrora maioritários, mas hoje uma minoria germânica do Banato. Um regresso às origens, como tantos outros naturais da mesma região e da Transilvânia (estava mesmo para escrever um post sobre isso, no seguimento de outro que deixei há dias). O assunto é particularmente focado em obras como Danúbio, do italiano Claudio Magris, que não por acaso também faz parte do distinto grupo dos eterno candidatos a ganhar o Nobel.

2 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Obrigado por este esclarecimento sobre a vencedora do Nobel da Literatura. Confeso que não a conhecia, apesar de já ter publicado dois livros em Portugal.Talvez seja a oportunidade de a ler.

João Pedro disse...

Eu também não a conhecia, Carlos, e suspeito que a esmagadoríssima maioria das pessoas nem tinha ouvido falar dela. O Nobel permite sempre uma maior visibilidade da obra dos laureados, mas prefiro sempre a recompensa de uma carreira notável.