sexta-feira, janeiro 23, 2009

Israel e o futuro próximo

Um dos magnos problemas com que Obama se deparará será com o intrincado e quase irresolúvel problema israelo-palestiniano. Décadas de ódio e ameaças não permitem ver uma solução à vista; sempre que se avista uma luz de um lado, do outro alguém se encarrega de criar problemas. Tem sido um pesadelo recorrente de qualquer presidente americano, pressionados que são por todo o tipo de lóbis.


Não falei da actual frente de batalha de Gaza, momentaneamente parada, que começou no fim de 2008. Os "foguetões" do Hamas faziam prever a ofensiva israelita, como muito bem sabiam os detentores de Gaza. Israel naturalmente tinha de ripostar e mostrar aos integristas islâmicos que controlam aquela faixa caótica que não estava disposta a aceitar o seu comportamento. O problema é o mesmo de sempre: as razões de direito e de facto assistem aos israelitas, o modus operandi é que é sempre discutível.


Ataques por ar, terra e mar provocariam sempre razias no caos humano e material que é Gaza. Sabendo-se que depósitos de armas são instalados em escolas e outros armazéns pouco ortodoxos, percebe-se logo que os custos humanos serão duros. Torna-se difícil aos israelitas evitá-los, e não são panfletos atirados do ar a avisar qual alvo dos bombardeamentos com meia hora de antecedência que vão permitir o contrário. Mais culpas terão de ser assacadas pelos responsáveis pela destruição de um hospital da ONU bem identificável, além de outros equipamentos. A legitimidade de Israel é por vezes levada ao exagero e provoca abusos nítidos, como já acontecera no Líbano, há dois anos.



Entretanto, viram-se as manifs do costume. Milhares de pessoas desfilando contra "o genocídio em Gaza", misturando anarco-libertários, radicais, pacifistas, comunistas (de protestar contra a repressão no Tibete é que estes nunca se lembram) e extremistas islâmicos, queimando bandeiras israelitas e americanas e ostentando cartazes com coisas tão edificantes como "God bless Hitler" ou "Islam will dominate the world". Uma mistura perigosíssima de fanáticos, que de comum têm esse mesmo fanatismo. Contra natura, pois claro, mas Hitler e Estaline também assinaram pactos de não-agressão.



Entretanto, a intervenção israelita em Gaza está interrompida. Os mísseis do Hamas pararam de silvar. Mas ninguém acredita que isto fique por aqui. Enquanto a ordem e os tratados não forem cumpridos no essencial, nada se pode esperar de bom. E o essencial é que Israel cumpra as disposições contidas nas tréguas, que o Hamas recue e seja dominado, e que se reconstrua Gaza. Tudo isso demorará tempo a fazer, se o fizerem, claro. Até porque os ódios não se apagam de um momento para o outro.


Importante será que o Likud não alcance a maioria nas próximas legislativas. Se o conseguir, a situação piorará inevitavelmente. Diz-se cinicamente que a intervenção no Líbano é uma campanha pré-eleitoral mais acirrada. Pode ser. Mas se servir para Tzipi Livni se mantenha no poder em coligação com os trabalhistas, até servirá para algo mais do que enfraquecer militarmente o Hamas. O regresso de Netanyahu ao poder significará uma posição intransigente e a expansão dos colonatos.


A União Europeia, que já treina a polícia palestianana e que tem sido generosa na ajuda financeira e na construção de infra-estruturas, teria aqui uma oportunidade de ouro de fazer valer os seus galões: a deslocação de uma força militar para Gaza, com mandato onusiano, que controlasse os radicais do Hamas e os impedisse de lançar rockets, fazendo com que Israel recuasse militarmente mostraria um Europa com mais do que soft-power. Mas isso, claro, é uma ideia peregrina. Para controlar o Hamas, que conta com bom armamento e milhares de voluntários prontos a matar-se, só mesmo uma força numerosa e que não se ficasse pelos disparos para o ar. Mas os tempos económicos são pouco favoráveis a projectos desse tipo. Para mais, subsistem os problemas do costume: a Europa não é um todo, e teria de haver disponibilidade e comum acordo entre os principais países, só que a Grã-Bretanha só pensa em retirar, a Alemanha só tem tropas de "vigia", proibidas de intervir activamente, em Espanha Sapatero é um ambíguo com que dificilmente se pode contar, a França enviaria um pequeno contingente excepto se fosse muito do seu interesse nacional, e a Itália, militarmente falando, pouco conta (os italianos são tão maus soldados!). A "nova Europa" poderia enviar uma força de algum peso, mas lá está, a crise financeira não o permite, e quanto ao resto, Portugal unido, tem pouco peso, sem contar com países neutrais, como a Suécia (longe vão os tempos de Gustavo Adolfo). Para mais, não se sabe o que diria a opinião pública, que, a avaliar pelas manifestações dos últimos tempos, tem imenso receio em afrontar os radicais islâmicos. Numa delas, aliás, ficou a imagem inquietante de uma turba em Milão, que, depois de queimar a bandeira de Israel na praça do Duomo, se deitou a rezar para Meca em frente às escadarias da Catedral. Uma demonstração do despeito de certos fanáticos, mas que entretanto já teve consequências: o governo italiano proibiu manifestações frente a templos religiosos. Berlusconi sempre serve para alguma coisa. Mas se alguém se lembrasse de fazer uma missa campal em frente a uma mesquita, nem digo na Arábia Saudita, mas no Paquistão ou na Argélia, o que sucederia?

2 comentários:

engº Paços de Ferreira disse...

O conflito Israelo-Palestiniano, esse "problema quase irresolúvel"...
ah ah ah
Só faltava mais esta.
O conflito entre Israel e a Palestina, essa fabricação dos media ao serviço dos grandes interesses.
Tem todos os ingredientes de uma telenovela... O David que resiste contra o Golias... Que bonito!
Que conveniente que isto é para a boa consciência dos intlectuais europeus "ser solidário com o povo Palesteniano em sofrimento!"
Ainda bem que existe este conflito, de modo a que os bloggers consigam julgar ter algo de interessante para dizer!
Que útil que este conflito é para suportar continuamente a existência de Orçamentos multi-milionários de defesa em diferentes países.
Ó sr. Pimenta, não me diga que acredita nesta fantochada, nesta fabricação?
Será que sou eu o único a ver as coisas como elas são?
Este conflito só existe por causa da atenção mediática que incide sobre ele, tal e qual como dois cães acirrados que só lutam enquanto estiverem sob a atenção dos seus donos.
Tirem de lá os holofotes e verão que passados 3 meses já está tudo resolvido.
Entretanto, haja paciência para tanta ingenuidade!

João Pedro disse...

A sério, sô enginheiro? Que coisa tão bem elaborada! Se é o "único a ver as coisas como elas são", porque não enviar para um jornal? tem medo que a sua visão seja incompreendida?