quarta-feira, setembro 15, 2004

Os STCP, essas escolas da vida

Alguém disse num dia de inspiração que "só quem anda de autocarro é que conhece a vida". Se retirarmos o amplo exagero do "só", concordo absolutamente com a afirmação. Como fiel utente dos STCP (e esperemos que em tempos futuros do metro) mantenho um posto de observação invejável e exemplificativo. É nos autocarros que se tem a possibilidade de ver, num espaço exíguo, e no mesmo tempo, juristas e burocratas de fato e gravata, pasta numa mão e as notícias do dia noutra; miúdos de mochila ás costas, frequentemente do mesmo tamanho que os seus portadores; estudantes em grupo, carregando cadernos e não raras vezes trajados á doutores; a dona Alice conversando com a dona Toninha sobre o preço do pão e os disparates das filhas dos vizinhos; arrumadores no intervalo da sua função, usualmente com uma tremenda pedrada; estrangeiros com ar de emigrantes das obras; e sobretudo velhos, muitos velhos, de casaco de malha, gravata de lã e boné coçado, dirigindo-se para casa ou para o jardim público, atrasados para uma partida de sueca. É sobretudo olhando para estes últimos que percebo o quanto a população da cidade envelheceu, com a deserção dos habitantes do centro para os subúrbios, abandonando os idosos nas decrépitas casas do velho Porto, de olhos saudosos por trás da roupa que seca e das portadas carunchosas. Garanto que se não andasse de autocarro nunca saberia o quanto a população portuense tinha envelhecido.
Mas, como disse, o "só" é exagerado. Temos outros pontos de observação, como as cervejarias.
Ainda ontem as voltas que dei e a hora tardia obrigaram-me a jantar numa delas. Da quasi-extremidade do balcão podia ver o escasso movimento do trânsito, através do vidro. Ainda ao balcão, um par de homens disscutia asuntos que me pareceram relaccionados com bola e negócios, enquanto comiam paratadas de camarões. Nas mesas, alguns casais, um grupo de jovens que perorava animadamente sobre performances automobilísticas, e outro par, este constituído por mancebo com ar vagamente anarco-sindicalista e por uma rapariga com tons da mesma corrente ideológico-laboral, mas que me pareceu atraente à primeira vista. Engano fatal: quando os voltei a observar, a dita mulher faz um longo, explícito e descarado movimento para o qual só necessitou do dedo indicador e do nariz, seguido do qual mirou a consequ~encia de tal gesto. Felizmente era chegado o momento de pagar a conta e zarpar dali para fora. Para observações sociológicas o dia estava definitivamente acabado.

sábado, setembro 11, 2004

Ele há instintos

Como ultimamente têm sido inúmeros os blogues que completam um ano de vida, resultado de um boom assinalável, lembrei-me não sei porquê, e algo instintivamente, que também o Barnabé devia estar a chegar ao seu primeiro aniversário; mas remeti a questão lá para Outubro.
Qual quê! O Barnabé nasceu num onze de Setembro, data que tristemente recorda a bárbara infâmia de Nova Iorque e o violento golpre de estado chileno. Haja ao menos um acontecimento feliz para se comemorar em dia tão funesto.
Parabéns aos autores do blogue, pela sua irreverência, sentido estético (algumas imagens são deliciosas) e de humor e paciência infinita para responder aos comentários - entre os quais os meus, não raras vezes maçadores.


sexta-feira, setembro 10, 2004

Os reais malefícios do tabaco

Ontem fiz referência á nova lei do tabagismo, que pretende proibir o fumo em locais (semi-) públicos. Hoje tive ocasião de comprovar que antes de todas essas interdições se devia impedir as pessoas de fumar em locais não só proibidos à prática mas acima de tudo perigosos.
Como tivesse o depósito de gasolina na reserva, dirigi-me ao posto de abastecimento mais à mão, ficando na fila para chegar ás bombas. À minha frente, num daqueles mini-carros que circulam por entre o tráfego urbano, julgo que um Smart, uma criatura de sexo feminino fumava com o braço de onde pendia o cigarro virado para fora. Enquando abastecia o seu veículo continuou a fumar, em plena bomba, em clara violação dos sinais que explicitamente proibiam o uso de tabaco naquele local. Não me contive e saí do carro furibundo, embora tenha sido delicado pela maneira como me dirigi à dita mulher, lembrando-lhe a proibição. E que respondeu a criatura? que "sabia que era proibido", rematando com um "não se preocupe", assim como quem diz "não tens nada a ver com isso". Ainda lhe disse que sim, preocupava-me e muito, o gesto dela era um perigo, e por aqui me fiquei. Arrependi-me depois, já que tal inconsciência ou estupidez merecia uma reprimenda bem mais feroz, mas já era tarde para voltar à carga.
Reparei entretanto que no banco do passageiro havia uma cadeira de criança. Se estava lá uma, poder-se-ia compreender em primeira análise que não quisesse que o fumo se espalhasse dentro do carro. O problema é que o exterior não era o local indicado para espalhar cinza ou faúlhas. O que a criatura não podia ter feito nunca era pôr-se a fumar na fila do posto de gasolina. Com uma displicência de bradar aos céus, ou neste caso, de ir pelos ares.
Bem podem impôr leis anti-tabagistas à vontade. O problema não se resolve por aí. Antes de mais há que obter uma cultura de civismo que não permita situações destas, a pior face do habitual "deixa andar" luso. E aí sim, discutamos e coloquemos as interdições onde elas façam sentido. Até lá, tudo mais é palha.

quinta-feira, setembro 09, 2004

Parece-me...

...que afinal de contas o post de ontem apareceu, desmentindo o que escrevi há pouco. Aproveito para divulgar (tal como o demonstra um comentário) o regresso ao activo do blog Zona Franca, sempre com a boa disposição do Frederico Marchand. Quem quiser recordar as antigas manhãs de Sábado com a Abelha Maia terá lá à sua disposição a respectiva cantiga, objecto aliás de versões duvidosas.

Outro regresso que se saúda é o do Desesperada Esperança, o autêntico, depois de ter sido alvo do mais incrível acto de pirataria blogoesférica que já pude ver, perpetrado ao que parece por uma qualquer teenager cá do burgo. Pelo menos é o que dá a entender.
O que interessa realmente é que os fluentes textos (ou parte deles) "escritos pela mão invísivel de Bruno Alves" estão de volta. Do que li digo desde já que concordo inteiramente com o que diz sobre a nova lei do tabagismo em locais públicos. E como é óbvio tenho uma opinião contrária ao post sobre Bush; não acho que W tenha melhores ideias que Kerry sobre o terrorismo internacional ( e muito menos capacidade para o derrotar). Também não comungo da opinião que só nos Estados Unidos alguém como Schwarzie chegasse onde chegou. Sendo actualmente a Europa um iman para os emigrantes de qualquer país de 3º Mundo, arrisco-me a dizer que acredito mais nos sonhos europeus que na "American Dream".
Já tinha ouvido falar de tal problema por uns zunzuns que circulam na blogoesfera, mas agora tocou-me a mim: por uma qualquer obscura razão não consigo publicar um post que escrevi ontem sobre os massacres de Beslan. Talvez o blooger seja sensível a tais questões, não sei. Ou estará talvez com excesso de blogs. De qualquer forma, este post é menos um reparo da situação do que uma tentativa de furar o cerco.

terça-feira, setembro 07, 2004

Acontecimentos

Já muito se disse sobre a tragédia de Beslan. Falou-se sobre o horror indizível pela quantidade dos mortos - e mais ainda pela maioria serem crianças - pela crueldade dos raptores, o desespero das famílias e dos soldados que avançaram sem ordem para tal, os métodos dos russos relativamente ao terrorismo, o provável envolvimento da Al-qaeda, como se deve actuar na guerra da Tchetchénia, etc. Muito se dirá, ainda, envolvendo diferentes opiniões e teorias. O problema é que nenhuma poderá evitar por ora que casos semelhantes voltem a suceder. Dar-se-ão talvez algumas respostas, sim, mas só por si não evitam derramamentos de sangue - e de vidas - semelhantes. O que aterroriza é mesmo pensar como é que criaturas tomam como reféns milhares de crianças e respectivos pais com o intuito de as matar. Sim, o que seres destes querem é matar, trucidar, espalhar o terror. O terrorismo não tem outra base que não seja esta, seja qual for a língua em que se exprimam ou o culto que seguem os seus executores.
Mas este terrorismo do Cáucaso, que tem como contraponto a forma brutal como os russos aí actuam, além de demoníaco, tem uma característica premente: uma cobardia inaudita, daqueles que só usam a sua bestialidade contra hospitais, teatros, escolas, atacando os mais fracos, os indefesos, os desarmados, querendo fazer crer que se tratam de "combatentes por uma causa". Vê-se a "coragem" de tais "combatentes" quando nos chegam imagens dos ossétios: velhos humildemente trajados, mulheres desesperadas, com os seus pobres lenços enrolados à volta da cabeça, crianças em estado de choque, homens assustados, avós que correm á procura dos netos; eis os alvos das criaturas que escondem a cara ao Mundo.
As crianças perguntam frequentemente se há monstros, recebendo invariavelmente negativas dos adultos. Tenho agora sérias dúvidas sobre a verdadeira resposta a dar.

O assunto do barco do aborto nem merece grandes linhas. Paulo Portas e as "Não te prives" & "Women on Waves", essas espécies de girl bands do feminismo também não. A solução mais prática seria a meu ver permitir que o dito rebocador atracasse e se fizesse guarda (em terra) para que uma data de mulheres não fosse para o alto mar fazer abortos (em condições discutíveis). Fazia-se o debate necessário sem recorrer a figuras de urso. Assim não o entendeu o governo. E caíu na esparrela mediática. Quem manda armar em autoritário?

segunda-feira, setembro 06, 2004

Teria muito a dizer sobre os acontecimentos dos últimos dias, que como se sabe variam entre o burlesco e o trágico. Falarei sobre eles em breve. Mas como não tenho tempo, digo apenas que o essencial é dito de forma despojada e emocionada No Arame. Discordo apenas de algumas coisas que diz sobre a lei do Aborto, como oponente à despenalização que sou, e à possível orientação sexual de alguns ministros, por achar que não vêm ao caso. Quanto ao resto, é digno de subscrição.

sexta-feira, setembro 03, 2004

Um hit dos Cárpatos

Todos os anos, pela época estival, surge um ou vários hits dançáveis, que se ouvem ininterruptamente durante seis meses, caíndo depois no sub-esquecimento, como é o caso do movimentado Aserejé, daquelas três manas de Córdova, que há dois anos correu mundo.
Não é preciso estar muito atento para se notar que a "bomba" da movida actual é o omniouvido Dragostea Din Tei, autêntico dance kitsch vindo dos Cárpatos. A música é disputada por um grupo romeno, os O-Zone, e uma cantora da mesma nacionalidade, de nome Haiduci. A versão mais ouvida é no entanto a dos primeiros.
O hit tem partes algo amaricadas, uma língua à primeira indecifrável, e um ritmo electrónico algo ridículo; o videoclip da banda é de fugir, com os rapazes, com aquele ar foleiro típico de um país da Europa de Leste que se tenta modernizar à força, a fazer requebros de corpo nas asas de um avião. Cumpre contudo a função, pondo toda a gente a dançar (e o que é mais incrível, a cantar em romeno, ou fazendo por isso), ouvindo-se em toda a parte e a qualquer hora, e, ao que parece, já levou o respectivo disco a mais vendido no país. Também no resto da Europa o sucesso tem sido grande, havendo inclusivamente um vídeo com legos a parodiar o já referido videoclip e seus intervenientes- pode-se ver aqui, é absolutamente imperdível.
Agrada-me no entanto uma situação: a de que por uma vez a música (dançável) do momento não é anglo-saxónica ou "latina" (no sentido hispânico do termo), mas latina (literalmente) vindo do leste, não da Europa central, mas mesmo do Leste, do Mar Negro, quase ás portas da Rússia. Que venha de um país mais à margem da Europa, que luta com inúmeros problemas para um dia alcançar o nível da UE; um país que procura o seu caminho entre castelos vampirescos, montanhas descarnadas, aldeias medievais, cidades descaracterizadas pelos actos de um tirano megalómano, crianças abandonadas e ciganos errantes. Os últimos bons ecos da Roménia devem ter sido a conquista da Taça dos Campeões pelo Steua e a revolução de Timisoara (mesmo assim com rumo sangrento). Ao menos por uma vez vêem-se protagonistas de algo, projectados pela Europa que dança neste Verão sem cessar ao som de Dragostea Din Tei.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Passear pela cidade nesta época é algo de gratificante. É certo que em fins de Agosto não há a mesma quietude dos meados do mês, em que as filas de carros e as corridas aos estacionamentos desaparecem como se levados por um vento estival. Ainda assim, nota-se um menor bulício, ou se preferirem, um bulício mais primitivo e autêntico, de vozes, passos e pregões (quando os há, como o apito do homem-que-amola-facas-e-conserta-guarda-chuvas). Em que se caminha pelas ruas mais nobres e pelo centro da urbe sem os anafados encontrões do costume. Sim, há que aproveitar; a cidade tem ainda aspectos de calmaria. Mas o sol já declina mais cedo. É fim de Agosto.

terça-feira, agosto 31, 2004

Comentários

Quem olhar reparará que apareceu uma caixa de comments nos posts. Não se pense que traí o espírito do primeiro texto deste blog. É uma experiência que queria tentar; se resultar, permanecerá. Embora seja provável que os encerre se a coisa der para o torto. Desde já não prometo responder a todo e qualquer comentário, até porque não tenho todo o tempo do mundo. De qualquer forma, estão à vossa disposição.

domingo, agosto 29, 2004

Regularidade, enfim

Depois de umas semanas da mais pura e arrastada Silly Season, que serviu para pouco, os posts na Ágora voltarão em força. Assim o permitam a arte, o engenho e a disponibilidade. Dará para falar do fim dos JO, dos últimos descalabros do Benfica (ainda para mais em dia de aniversário), que esperemos que acabem amanhã, de alguns curiosos e coincidentes textos de outros blogs, de novas descobertas musicais e talvez de algumas ideias já aqui afloradas noutras alturas. Pelo menos alguma coisa retirar-se-á deste molho de assuntos. E já agora, mais algumas notas sobre a circum-viagem de Gonçalo Cadilhe, agora com merecido repouso.

segunda-feira, agosto 16, 2004

Um curto intervalo

...nas sonolentas férias que atravesso, para escrever estas linhas.
Tenho estado inactivo, mas não é fácil pôr posts em dia quando se está num povoado sem NET à vista. Assim, também não me pronunciarei agora sobre a Silly Season (apesar de todos os dias ver a cara algo preocupada do PGR Souto Moura saíndo da praia nevoenta, nem sobre os JO na sempre querida Atenas, à vista da Ágora, da autêntica, e dos Deuses que por eles velam, que bem podiam ter dado um último empurrão a Sérgio Paulinho.
Recomendo no entanto o epílogo das viagens de Gonçalo Cadilhe, na Única (sem link visível); sobretudo a passagem pela Bulgária, ele que há um ano estava no Peru. Uma aventura de ano e meio, verdadeira e imperdível. Faço o enorme desejo que tais crónicas sejam publicadas em livro; serei indubitavelmente um dos primeiros compradores.
Sem mais, continuação de boas férias.

sábado, julho 31, 2004

Governo

Embora já se tenham passado alguns dias, não pude, por causa de afazeres vários, tecer ainda uma análise ao novo governo. Mas o momento é chegado. Falarei enfim de algumas escolhas para os ministérios e secretarias de estado.Não todos, evidentemente, já que alguns são-me pouco mais que perfeitos desconhecidos. Também não me pronunciei sobre as Finanças, MNE e Administração Interna, de que já falei há dias.


Desde já, como se pode calcular por posts passados, não sou de forma alguma entusiasta da dupla Santana/Portas. Considero-os dois malabaristas da política, dois homens que jogam tudo no populismo/oportunismo e no seu enorme instinto político, a quem o poder caíu nos braços de forma abrupta. Do primeiro tenho enorme receio, por tudo quanto deixou de herança nos lugares de responsabilidade que já teve (leia-se sobretudo dívidas); o segundo, pela imagem que tem dado tanto no seu partido, onde não hesitou em apagar antigos líderes da memória, ao melhor estilo estalinista, como no governo, onde continua a usar o seu populismo onde lhe convém, a justificar um caso de sorte com a protecção divina ou a exibir-se com novos brinquedos de uso subaquático. E ainda há, claro, as nomeações dos amigos, assunto a que aludirei mais adiante.
A entrada de Rui Gomes da Silva, Henrique Chaves e dos restantes santanistas não admira nada. Era previsível que a "entourage" do novo PM lhe seguisse os passos no governo (só falta mesmo Conceição Monteiro), ainda que sejam postos em cargos que para os quais não serão a melhor escolha. Álvaro Barreto servirá provavelmente como representante dos governos de Cavaco, e também para afirmar que têm "gente com experiência no cargo". Maria José Bustorff é apesar de tudo uma escolha melhor do que as que vinham a lume, mas terá muito trabalho pela frente, visto que nos últimos dois anos não tivemos praticamente titular da pasta. José Pedro Aguiar-Branco, advogado experiente e ex-titular da Ordem dos Advogados no Porto está dentro dos principais probemas no que toca à justiça, e sabe certamente quais os imbróglios que lhe aparecerão pela frente; será aliás curioso observar os actos de um governante que não era propriamente um entusiasta da ex-ministra Cardona (e aproveito para desejar boa sorte a Paulo Rangel, um dos poucos Secretários de Estado cientes do que lhe puseram em mãos), tal como o Bastonário Júdice. Restam-nos ainda Morais Sarmento, reconduzido ás mesmas funções (assim como Luís Filipe Pereira, que a ver vamos no que dá), e o resistente Arnaut, agora com funções acrescidas, para mal dos nossos pecados.



Mas o pior deste governo é sem dúvida a "contribuição" do PP, partido que como se sabe acusou os outros de serem insaciáveis de poder, quando ele próprio demonstra uma imensa avidez do mesmo, senão maior. Já aqui falei de Bagão, uma das maiores incógnitas deste executivo. Seria impossível não nomear o maior erro de casting desde a escolha de Diamantino Durão (lembram-se?): esse mesmo, Luís Nobre Guedes. Uma clara escolha de amigos. O homem que redigiu o programa político em que se pedia o fim do mesmo ministério que agora irá dirigir. Alguém que nunca trabalhou nas áreas do ambiente exepto para defender duas empresas (e não consta que fosse para defender os valores ambientais). Em suma, a escolha mais disparatada possível. Bem pode perorar Paulo Portas contra as críticas que lhe foram feitas; pergunta-se: mas que qualidades tinha LNG afinal para ficar com esta pasta? Suponho que a resposta seria um silêncio glacial. Com este senhor ministro do ambiente, a entrega da REN e RAN ás mãos dos autarcas e os incêndios engolindo cada pedaço de verde ainda existente, as questões naturais em Portugal serão em breve uma recordação vaga.
Com Telmo Correia seguiu-se a mesma via; devo dizer que não lhe conheço antecedentes no que ao Turismo diz respeito - se tem, peço desde já desculpa- pelo que me parece que houve aqui de novo um excessivo factor partidário. Paulo Portas, sube-se quase logo, continua à frente da defesa e, ao que parece, dos assuntos do Mar, embora só tivesse tido conhecimento disso na própria tomada de posse, o que revela desde já uma óptima organização governamental. Provavelmente o estudo de novos dossiers permitir-lhe-á descobrir novas aplicações para os "seus" submarinos.


Como é evidente, os secretários de estado foram colocados onde calhou. O caso mais mediático foi, evidentemente, o de Teresa Caeiro, a tal senhora que estava na Segurança Social, rumou à Defesa e acabou nas Artes e Espectáculos (mas não era ela que tinha uma relação sentimental com o representante da ENDEMOL?). O Acidental - ao qual não me devia referir porque está de férias, logo não pode retorquir - tenta de todas as formas e feitios defender a honra de "Tegui", não hesitando em chamar "machistas"e "tecnocratas" aos que criticam a nomeação, chegando ao ponto de dizer que em qualquer cargo faria "um trabalho exepcional"; por outras palavras, Caeiro é pau para toda a colher ( a propósito, ver aqui o que pensa Clara Ferreira Alves sobre este caso). Mas é também, infelizmente, o rosto do mais despudorado compadrio e das maneiras de se pôr os amigos em postos-chave. Já agora, gostava também de saber porque raio é que puseram Diogo Feio na educação. Não nego que seja um bom jurista, ou bom docente, ou renomado especialista em questões fiscais. Mas será uma área tão sensível como a Educação o melhor laboratório para experiências deste gênero?
Resta pensar que se tal se passasse com outro qualquer partido teríamos logo Paulo Portas, de dedo em riste e voz em tom alto, protestando pela forma como "o compadrio e a corrupção se fazia a coberto dos dois maiores partidos". Sim, sim, pode o ministro da Defesa bramir contra os todos os críticos; não é novidade nehuma que a coerência não é o seu forte.
Para terminar, é absolutamente deplorável que do governo só tenham saído umas palavras de circunstância quanto aos fogos que mais uma vez lavram no país. Pensava-se que nada suplantaria o ano passado; vemos afinal que as situações podem ainda ser piores do que o que cremos inicialmente. O anterior executivo despediu-se á pressa; o actual lava as mãos, dizendo que se não tem quaisquer responsabilidades. Pois não, mas a base parlamentar é a mesma. Ou será este governo é esquizofrénico? Certo é que daqui a dias parte dos seus elementos estará na Quinta do Lago, no Ancão ou na marina de Vilamoura, esquecidos do cenário dantesco escondido por trás do Barrocal. Ou quem sabe, nem imaginam que há mais Algarve para além do dos seus pousos habituais.

SLB-Anderlecht: a reedição de velhos confrontos. Desta vez jogamos nós primeiro cá. Dia de S. Bartolomeu será em Bruxelas. Oxalá que com os resultados dos dois últimos encontros entre históricos.


Amanhã parto de férias. Tentarei, sempre que possível, ir actualizando o blog, co um ou outro post. Mas já se sabe que a silly-season é parca em trabalho de blogoesfera. A todos umas boas férias.

quinta-feira, julho 29, 2004

Falando de outros blogs...

Rua da Judiaria tem estado sublime nos últimos tempos. Não só na denúncia da atroz situação do Sudão, onde se teme uma repetição dos acontecimentos do Ruanda dez anos depois, mas também na explanação das virtudes e defeitos do Muro de Israel (o ponto de vista da separação entre os povos até que haja um apaziguamento é muito bem focado, embora tenha as minhas discordâncias). Ainda relativo ao Sudão, as comparações entre genocídios vários e da relevãncia que se lhes atribuiu é merecedora de reflexão cuidada.
Só é pena que no post relativo a Frida Khalo, de 13 de Julho,Nuno Guerreiro não tenha posto uma pequena fotografia de Salma Hayek, no papel da mesma. Sempre dava um toque feminino mais agradável, ao lado das gravuras da menos vistosa Frida (a verdadeira).

O Panamá da Existência, perdão, Fora do Mundo acordou da sua letargia, já aqui mencionada há poucos posts. E quem mais o poderia ter feito senão o incontornável Pedro Mexia, que voltou à carga e em força? Pedro Lomba, eis um bom exemplo para levantar por momentos os olhos dos Códigos e do texto dos jornais em que escreve e vir escrever umas abundantes linhas no blog; em nome dos velhos tempos. A propósito, óptima a menção a Kirsten Dunst, para já não falar da sensualíssima fotografia. E só por aí se pode imaginar a enorme tortura de Peter Parker.

Altino Torres, do food-i-do, organizou um repasto em Gaia para os bloggers que aderissem, na noite do dia 30. Eu não faço parte de tal grupo porque, além de só ter visto  o prazo de inscrições tarde demais, no dito dia deverei estar em Trás-os-Montes. Mas com sorte ainda consigo vir à noite e tomar um mero copo. Se o Altino deixar, claro.

segunda-feira, julho 26, 2004

Novas do desporto

E o inevitável aconteceu: Lance Armstrong ultrapassou a mítica barreira das cinco vitórias consecutivas no Tour e chegou aos Champs Elysées já hexacampeão, deixando para trás Miguel Indurain e outros grandes atletas cujo nome agora me falha. Um feito homérico, depois de dias e dias subindo os Alpes e os Pirinéus e fazendo distâncias imensas, apesar da preciosa ajuda do resto da equipa.
Tenho de fazer uma pequena confissão: no fundo, estava com esperança que Armstrong desta vez não chegasse lá de amarelo. Porque a dobragem das cinco voltas faria caír um recorde, mas tiraria toda a carga mitolõgica desse número no Tour, que durante décadas nunca deixou de ser alvo apetecido por parte dos melhores ciclistas. ou seja, a sensação do cume da montanha estar ainda por atingir. O que daria uma ponta de inantigibilidade à mei-dúzia.
Mas enfim, os recordes são para se bater, e seria extremamente cruel que Armstrong tivesse um percalço mais grave no fim da prova que lhe retirasse a vitória pela qual tanto se tinha batido. Até porque o seu mérito é algo de indubitável. O homem que já tinha vencido a batalha da vida (os seus afamados problemas cancerígenos) atinge agora um restrito patamar ao qual raríssimos atletas chegaram. Os melhores, precisamente. E no selim do velocípede, Lance é incontestavelmente o melhor.
A meia dúzia de Tours está atingida. A ver quando é que alguém agora conseguirá sete. Talvez o próprio, para o ano. Ou quem sabe se, mais liberto da sua função de auxiliar, o ciclista luso José Azevedo não tentará uma gracinha maior do que o quinto lugar?


Um encontro de titãs deu-se hoje no Estádio da Luz. Os grandes ibéricos reencontraram-se, num jogo que acabou num democrático 2-2. O SLB parece realmente mais organizado, com as jovens promessas como Amoreirinha, Bruno Aguiar e Manuel Fernandes a mostrar trabalho, um Miguel a quem as férias não terão tirado ímpeto, um Geovanni mais confiante, um Sokota sempre incisivo, e um Zahovic que se deve ter passado! Julgará ele que é novo e que consegue jogar da forma como tem demonstrado ou quê? Pois se assim pensa, melhor para ele e para nós.E ainda faltam os lesionados Carlitos (outra promessa) e Nuno Gomes. Para além de um "matador", que é do que realmente se precisa para completar o puzzle e formar uma equipa completa que possa enfrentar em competições oficiais o Real Madrid e afins. Esperemos é não nos encontrar com a equipa de Camacho já na eliminatória para a Liga dos Campeões: seria na realidade começar tal competição pelo fim. E depois não tinha piada nenhuma ver o Real fora da Champions.

O Brasil venceu a Copa América, batendo a Argentina nos penalties, com o golo do empate que ditaria a cruel decisão a ser marcado no minuto final, ao que parece. Não tenho SportTV, logo não pude assistir à competição, mas pelo que ouvia a turma das Pampas era muito superior à dos canarinhos, aliás desfalcados de Ronaldo e Cia. Parece que afinal os melhores não ganharam. Mas não é o que tem mais acontecido? Afinal de contas, e de forma análoga, também a Grécia conquistou a Taça do Euro há três semanas atrás.

domingo, julho 25, 2004

Carlos Paredes -1925-2004
 
A guitarra estava já calada há largos anos. Agora, a sua Alma apagou-se definitivamente.

quinta-feira, julho 22, 2004

Panamá da Inércia

Não percebo porque é que criaram o Fora do Mundo, se rapidamente o põem fora da actualidade. A junção entre o Mestre da Aviz  e a coluna mexiano-lombar anda demasiado lassa. Afinal quando é que se vêem algumas linhas novas? razão tem o Esplanar para lhe atribuír o epíteto de Panamá da Existência. Aguardam-se novas daqueles lados.

PS: reconsiderem este meu post; os rapazes do inerte blog regressaram aparentemente à vida e até postaram gozando com a sua condição de Panamianos da blogoesfera.

quarta-feira, julho 21, 2004

Retorno de fim-de-semana musical
De regresso aos posts, e ainda sem ter uma visão muito clara do novo governo, escusar-me-ei  hoje a comentar os componentes do executivo - para além disso é tarde, e não estou com grande inspiração para divagações ministeriais a esta hora. Oportunamente falarei disso.

Quando se fala daquelas bandas de pop/rock, outrora consideradas  "alternativas",  nascidas há mais de vinte anos e cujo volume de vendas vai em amplo declínio, costuma-se dizer que "não resistiram ao tempo", e que "é um milagre que ainda subsistam".
Depois de Sábado passado percebi que tais confrarias musicais ainda estão aí para as curvas. De facto, um dos melhores exemplos do que ficou escrito em cima proporcionou uma exibição memorável e extensa, juntando êxitos e novidades na medida certa e, pasme-se, regressando por três vezes ao palco. Falo, como é óbvio, dos britânicos The Cure, que deram tons de magia à noite do Alto Minho. Robert Smith, esse mítico frontman da banda, com o seu eterno e mundialmente conhecido cabelo à palmeira (outros preferem compará-lo com um ouriço-cacheiro ou com um anarco-sindicalista, com alguma razão) e maquilhagem borratada apresentou-se intenso, com laivos de melancolia, sobretudo quando saía de cena, mas animado, sem dúvida, tendo em conta o anormal tempo que a banda se manteve em acção. Não faltaram as eternas "A Night like This", "Just in Heaven" (lado-B de "Anzol", dos Rádio Macau) ou "A Forest". O público saíu animado, e crê-se que os músicos, que na véspera tinham estado em Santiago, também. Por mim, que já apreciava a banda, irei logo que possível a uma qualquer FNAC vasculhar o essencial dos Cure que me falta. Com os constantes - mas adiados - rumores de que o grupo acaba mais dia menos dia dificilmente voltarei a vê-los. Mas a noite de Sábado, entre montes, azenhas e campos de milho, já ninguém ma tira. Não é todos os fins-de-semana que surge a oportunidade de ver ao vivo um clássico como a banda de Robert Smith, tocando o intemporal "Boys don´t Cry" enquadrado pelos seus desgrenhados e mitológicos cabelos.

 
É claro que isto se passou no não menos mítico festival de Vilar de Mouros, povoação pacata e verde nas outras alturas do ano. Nestes últimos dias, pelo contrário, juntaram-se aos moradores milhares de estudantes, hippies, rastas, punks,  urbano-depressivos, galegos, PALOPs, ingleses, juristas e, no fecho da edição, uma vaga de saudosistas pertencentes a uma faixa etária algo superior (embora não tenha visto o Maestro Vitorino de Almeida, mentor destas coisas desde o seu início). Com dezenas de vendedores ambulantes, DJs de serviço e mesas de matrecos, além de algumas sessões de cinema ao ar livre, o caldo ficava completo.
Quanto à atracção propriamente dita, ou seja, a música de palco, posso dizer que Peter Gabriel está em plena forma, tendo mostrado um excelente espectáculo (o homem salta, corre, dança, eu sei lá); já os Chemical Brothers desiludiram-me,  silenciosos com a sua discoteca ao vivo, embora o jogo de luzes e lasers tivesse o seu interesse; os Clã foram iguais a si próprios,  pondo sempre o público em semi-delírio; de PJ Harvey esperava mais qualquer coisinha, ainda que a actuação tivesse sido intensa e poderosa, mas deu a sensação de ser demasido rápida, de saber a pouco; a Macy Gray não prestei grande atenção, mas parece-me que com o seu penteado mastodôntico, a voz em alta potência e a companhia das esbeltas meninas a cantar soul cativou realmente o público. Quanto à legend, o génio, a referência de gerações Bob Dylan, bem, pode-se dizer que ainda tem voz, se bem que as suas palavras não sejam totalmente inteligíveis, e também não ficou assim muito tempo em palco, frente aos seus sintetizadores. Mas sempre deu para vê-lo a uns metros, sobretudo aos cinquentões e sessentões que acorreram em massa (embora não tenha permitido que os ecrãs gigantes o revelassem), e apesar de tudo o concerto teve ritmo e simpatia quanto bastasse, como se fosse entre um grande grupo de amigos.
A partir de agora, Vilar de Mouros volta à tranquilidade e bucolismo que a caracteriza. E merece-os, claro.

 
Outros blogs já tinham feito elogiosas alusões a um novo lançamento, mas só agora é que lhe pude dar real atenção, só para confirmar o que de bom se afirmava dele. O post intitulado "From China, with hate" diz exactamente o que eu penso sobre tal regime e tal país. Mas o blog vale pelo seu todo. A partir de hoje há que consultá-lo compulsivamente.

sexta-feira, julho 16, 2004

As Razões de Vitorino

António Vitorino, dado como o "D. Sebastião" do PS, recusou mais uma vez a passadeira vermelha que lhe estendiam e não se assumiu como futuro líder do Partido da Rosa. A decisão só pode surpreender os mais desatentos. Há diversos factores a ter em conta e que mostram bem o porquê da "nega".
Vitorino não esteve na Comissão Europeia por acaso. Durante o seu mandato como Comissário para a Justiça desempenhou um papel de elevadíssima importância em dossiers tão relevantes como o do terrorismo. Teve um trabalho que está já a dar os seus frutos e que lhe granjeou um enorme prestígio nas comunidades europeias. Relembre-se o quase desespero de Prodi quando surgiu a hipótese de substituir Guterres à frente do PS. Vitorino preferiu então continuar com o seu trabalho, que, relembre-se, respeitava a toda a União e não somente ao seu país; como agora quis continuar com o seu cargo até Outubro. sem interrupções partidárias. Todos esses actos granjearam-lhe uma aura de competência e respeitabilidade raros, que aliás José Manuel Fernandes expôs de forma clara no editorial do Público de ontem , o que lhe agradeço desde já por me poupar adjectivos (embora não concorde com a parte em que diz que "o país se desmorona à nossa frente", pelo óbvio exagero).
É exactamente por este prestígio granjeado ( e não nos esqueçamos que um político que convive com os grandes actores internacionais fica sempre prestigiado aos olhos dos seus) que o PS o quis tão sofregamente a comandar os destinos no Largo do Rato. Sucede no entanto que no panorama partidário português o PS é mais clientelar entre os clientelares, o movimento que congrega mais invejas, compadrios e interesses de toda a ordem na política nacional. As guerras fratricidas são uma constante, e mesmo agora prepara-se uma nova, entre neo-Guterristas, essencialmente. O que seria de admirar era a hipotética vinda de Vitorino para o partido. Mas quem tem as suas competências, o seu prestígio e demais qualidades jamais poderia aceitar de bom grado tomar o leme de tal organização. As frases que usou na conferência de imprensa que deu foram elucidativas. e reveladoras da superioridade do comissário sobre os mesquinhos jogos do aparelho partidário.
Indignaram-se algumas figuras graduadas do socialismo português. Como se atrevia Vitorino a mais uma vez recusar o bastão de marechal que tão generosamente lhe queriam colocar nas mãos? Que desplante, o de querer dar mais atenção aos seus últimos trabalhos na Comissão em vez de tomar as rédeas da oposição! Quando quiser voltar mais tarde, todos lhe voltarão as costas.
Ninguém terá pensado que Vitorino não precisa que lhe façam reverências (provavelmente com punhais escondidos), e muito menos que poderá jamais estar interessado em estar à frente do partido? Ou que tem uma vida própria, e que ninguém tem o direito de lhe indicar o seu futuro, e muito menos querer pôr o PS à frente da sua vida pessoal ou mesmo dos destinos da Europa?
Provavelmente não. Viam apenas o partido à sua frente, triunfante numas legislativas futuras, e atrás dele uma infinidade de novas oportunidades à espera que novos "boys" as agarrassem em força. Nada mais lhes poderia interessar. Eis aquilo a que Vitorino avisadamente se furtou, impedindo que o usassem para alcançar o Eldorado das serventias públicas, como de coisa própria se tratasse. E só por aí se pode ver o carácter e a inteligência de alguém que pode dar muito ao país sem colocar a sua imagem em cheque em questões menores. Porque está infinitamente acima disso.

A escolha de Bagão Félix para as Finanças Públicas é algo surpreendente, não só pelo seu trabalho à frente do seu ex-ministério ter sido controverso como também pela não ocupação de nenhum cargo de relevo em tempos recentes nesta área. A decisão que levou à nomeação será provavelmente motivada por trocas de pastas com o PP, e pela sua experiência na banca. Pede-se-lhe que siga uma política de rigor (embora não fosse demais exigir-lhe que fizesse os cortes orçamentais necessários nas áreas certas) e que não desbarate as contas públicas com eventuais delírios santanistas. Dá-se o benefício da dúvida. Mas um costume mantém-se: os sindicatos estão contra e as organizações empresariais a favor.
António Monteiro parece-me uma boa escolha, não só por ser amplamente respeitado no meio mas também por uma ocasião onde o vi a desempenhar um papel crucial : a crise de Timor, em 1999. Esteve em cargos de alto prestígio, na ONU e como embaixador em Paris (simbolicamente o apogeu da carreira diplomática), e preparava-se para ir para Madrid ou, segundo ouvi também, reformar-se da actividade. A alternativa óbvia era exactamente tornar-se o novo inquilino das Necessidades.
De Daniel Sanches quase nada sei, como aliás seria de esperar de um antigo dirigente do SIS.
Retenho na memória que António Mexia é um fiel santanista. De Álvaro Barreto lembro-me no governo de Cavaco Silva, embora fosse uma figura de mediano relevo, mas pergunto-me porque terá decidido ser o Decano do novo executivo, para mais com a pasta da Economia.
As restantes peças governamentais conhecê-las-emos até á tomada de posse, dia 20. Até lá, gozemos a descoberta de novas caras. E já agora, a tentar adivinhá-las.

quinta-feira, julho 15, 2004

14 Juillet

Muitos não se lembraram, mas hoje é 14 de Julho. Há exactamente 215 anos caía a Bastilha, e tinha início um movimento que mudaria a Europa e o Mundo.
Apesar da minha posição de regime não coincidir totalmente com as utopias dos revolucionários (ver a razão no subtítulo do blog), é inegável a importância de tal acontecimento. É certo que um enraizado anti-francesismo, assinalável não só nos países anglo-saxónicos mas também noutros pontos, como Portugal, tende a menorizar a Revolução, fazendo sobressair apenas os aspectos mais Jacobinos e sangrentos, ou seja, o Terror. Num post recente,
O Acidental dizia isso mesmo nas entrelinhas, tentando sobrepôr-lhe as Revoluções Americana e Inglesa. Mas comparar a importância de tais movimentos com a da "Revolution" é um exercício impossível de se fazer, a não ser que se usem argumentos falacciosos.
A Glorious Revolution inglesa do séc. XVII teve sem dúvida o mérito de instalar definitivamente o parlamentarismo em Inglaterra; mas colocou também no poder um ditador puritano, Crommwell, que não hesitou em anexar a católica Irlanda e liquidar todos quantos se lhe opunham. Os ingleses apreciaram tanto a sua governação que depois da sua morte reinstalaram a Monarquia, ficando para todo o sempre vacinados contra a república. As suas ideias de parlamentarismo ficaram isoladas na ilha inglesa e não atravessaram o Canal da Mancha.
A Revolução Americana teve mais genuinidade, para além de um real desejo de liberdade não só do ponto de vista da independência nacional mas também de direitos dos cidadãos. A Constituição Americana é um documento notável para a sua época, que em parte resistiu ao tempo. Os seus ideais tiveram inspiração directa no iluminismo europeu, através das relações que homens como Jefferson e Franklin tiveram com os filósofos franceses. Por sua vez, os gauleses que participaram na Guerra da Independêcia Americana reexportaram esses mesmos ideais. O resultado verificou-se alguns anos depois, no dia que hoje se comemora.
A Revolução Francesa mudou um país de forma violenta e meteórica. O tipo de regime que durante séculos vigorara, inquebrantável e omnipotente, caíu com estrondo perante um povo sedento de vingança comandado por uma burguesia ainda mais sedenta de poder. Um cocktail incendiário, que quando acalmou produziu um déspota, Napoleão, que nos seus sonhos de união europeia (bem diferente da actual) acabou por espalhar a semente da Revolução. Nos 40 anos que se seguiram o continente tremeu com as alterações político-sociais que se verificaram - em Portugal com a Revolução Liberal - ou com as novas revoluções que surgiram (particularmente em 1848), e ainda com as alterações geográficas que levaram à criação de novos e poderosos estados, com destaque para a Itália e a Alemanha. A influência revolucionária atravessou os mares e contaminou a América do Sul, com os novos estados que aí surgiram em catadupa.
O legado da Revolução Francesa é extraordinário e de uma força impressionante, pese a violência que produziu. Deu também origem, em parte, à Revolução Russa de 1917 (ando so son...) Os efeitos são hoje bem conhecidos. E foram sem dúvida muito mais influentes e sentidos no mundo que os produzidos pelas revoluções anglo-saxónicas.
Atempadamente farei um post sobre o anti-francesismo.