quinta-feira, fevereiro 11, 2021

O caminho incerto das ideologias ( à boleia com as da direita portuguesa)

 

Com as presidenciais lá veio a eterna discussão da "reconfiguração da direita", esse assunto cornucópia da política portuguesa. Primeiro com os resultados de André Ventura (e do Tiago Mayan) nas presidenciais. Depois, quando Adolfo Mesquita Nunes desafiou Francisco Rodrigues dos Santos para um congresso, vendo o CDS mirrar e perder peso. Uns levantaram-se em seu apoio, a começar pelo grupo parlamentar, outros cerraram fileiras em volta de "Chicão", invocando uma "tentativa de golpe" e outros deixaram os órgãos partidários aos quais pertenciam sem contudo se juntar às hostes rebeldes. O presidente da formação manteve-se, embora enfraquecido. Não é propriamente um facto inédito: se há partido português com historial de lutas fratricidas é exactamente o CDS. Freitas sempre teve de enfrentar dissenssões e afastou-se com a ascensão de Monteiro, que protagonizou mais tarde uma luta feroz com o seu antigo amigo, Paulo Portas. Os apoiantes deste nunca se conformaram com a chefia de Ribeiro e Castro e não descansaram enquanto não repuseram na lidernça o seu inspirador. Cristas teve de enfrentar críticas duríssimas e agora Rodrigues dos Santos sofreu um levantamento de rancho. Aquele partido leva as lutas tão a sério que até já teve estalo a valer nos seus congressos - pelo menos num Avelino Ferreira Torres andou à pancada com outro confrade. E neste caso não seria mal maior se não tivesse a Iniciativa Liberal e o Chega a limitar-lhe o espaço, problema que antes não havia.

A ajudar  à dita "reconfiguração" Pedro Santana Lopes saiu do seu Aliança, que tinha criado há pouco mais de dois anos, e anda por aí à procura uma câmara municipal disponível que lhe sirva de poiso.

Faits divers à parte, e deixando um pouco de lado a interminável discussão da direita portuguesa (à qual vou voltar em breve), a situação do CDS não deixa de ser intrigante. O partido sempre se gabou de ter três componentes: a democrata-cristã, a liberal e a conservadora. A liberal pode estar a mudar-se para a mais enérgica e definida IL; a conservadora dará a sua preferência ao Chega, muito embora este seja um emaranhado de coisas que pouco tem a ver com o conservadorismo clássico, o que daria razão aos que desconfiavam que o CDS albergava alguns reaccionários sem outro pouso e que muito do seu eleitorado estava à direita dos dirigentes. Mas e o democrata-cristão? Aquele que não se revê na face libertária da IL nem nos vitupérios de Ventura ou aproximações a LePen? A julgar pelas sondagens é minoritário, embora até conheça vários que estariam numa situação de orfandade caso o partido desaparecesse. O assunto é também objecto de análise de um artigo recente de André Lamas Leite


Não é para menos: a democracia-cristã, cujo berço será a Itália nos inícios do séc. XX e o Partido Popular de Sturzo e De Gasperi (é em sua homenagem que o PPE e restantes partidos populares se chamam assim), está em acelerado declínio, mesmo que parcial e nominalmente ainda pareça dominar em alguns países, como a Alemanha e a Áustria. Mas definitivamente parece estar longe da força e da influência de outros tempos, talvez por vivermos em sociedades que se têm vindo a tornar mais seculares, e o CDS é a prova nacional disso. 

Mas não é caso único. O comunismo, que, para voltar a um exemplo anterior, durante décadas dividiu eleições em Itália com a mesma democracia-cristã, teve uma queda abrupta desde os anos oitenta e ninguém minimamente lúcido aposta nos amanhãs que cantam como força dominante. Mesmo nos países de regime comunista, como a China e o Vietname, já é algo bem diferente do maoísmo original (muito embora permaneça o controlo ditatorial da sociedade), e Cuba é de uma decadência inimitável. Da social-democracia também há anos que se ouve falar do seu esmorecimento, e tirando alguns países onde o poder a mantém, como Espanha e Portugal, tem caído a olhos vistos, como em França, Grécia e Alemanha. O conservadorismo encontra-se numa cruzamento de dúvidas, entre versões descafeinadas e apelos reaccionários. O liberalismo, embora tenha alguns seguidores entusiastas, não parece ser capaz de formar governos, talvez vítima do seu próprio sucesso, já que as suas principais premissas foram cumpridas na maior parte dos regimes democráticos. A extrema-direita teve de abandonar, ao menos à superfície, quaisquer inspirações fascistas, sob pena de ficar absolutamente marginalizada. E as querelas entre monárquicos e republicanos não têm nem um naco da relevância de outrora.

Parece que as ideologias que nos habituámos a seguir no séc. XX já viram dias mais pujantes. Os partidos portugueses também as seguem, e por ora ainda resistem, embora se vejam sinais de erosão no CDS, como se disse, e no PCP. Dir-se-ia que o que realmente está em ascensão são os partidos ecologistas e "verdes" (e mais modestamente os animalistas), o nacional-populismo, ou seja, direitas radicais ou extremas convertidas à democracia (outra influência italiana?) e em certa medida o liberalismo. Serão estas as futuras ideologias predominantes? Veremos confrontos entre estes blocos políticos, reduzindo os restantes -ismos a discussões bizantinas ou a memórias históricas? Terão a companhia de novos movimentos - os federalistas, por exemplo? Ou juntar-se-ão a outras atrás descritas que irão novamente reerguer-se e ocupar o seu velho papel de hegemonia?




segunda-feira, fevereiro 08, 2021

As ajudas mútuas entre Portugal e a Áustria

A Áutria vai receber doentes portugueses com covid em cuidados intensivos. Confirma-se É uma ajuda preciosa e um bom exemplo de como pode funcionar a cooperação europeia. Até porque não é a primeira vez nesta crise pandémica que doentes de um país são acolhidos noutro.

Não só não é inédito entre os dois países como até teve exemplos pré-UE. Deve haver quem se lembre de ouvir os pais ou os avós falar de crianças austríacas que vieram para Portugal no fim da II Guerra, para serem acolhidas quando o seu país estava num estado lastimável, e precisava de ser reconstruído. Houve-as em toda a parte, num trabalho organizado pela Cáritas portuguesa, e dinamizado por uma princesa do Liechtenstein. Conheço vários exemplos de acolhimento dos meus familiares de Vila Real. Alguns mantiveram contacto, outros não e outros reapareceram ao fim de décadas, visitando inclusivamente as antigas famílias de acolhimento (em alguns casos nas mesmas casas). Muitas destas crianças vinham ainda com traumas, como o de fugir quando ouviam um simples foguete, pensando que era um bombardeamento, ou olhar pasmadas para as cascas de batatas a ser deitadas fora, como se servissem de alimento. Certamente que deveram muito do seu crescimento ao facto de terem vindo para cá nesse período de reconstrução da Áustria - e de outros, porque ao que me dizem também as houve de França e da Finlândia. Esperemos agora que bem menos portugueses tenham de ser acolhidos pelo chanceler Kurz.



sexta-feira, janeiro 29, 2021

Salvar vidas. Ou ajudar a acabar com elas


Tudo tem um tempo próprio para ser discutido. E eis o tipo de discussão de que não precisávamos mesmo. Debater e aprovar a eutanásia em tempos tão sombrios, em que estamos com as maiores taxas de mortalidade em muitas décadas, para além de um indiscutível mau gosto, é mórbido, inoportuno, insensível e perverso. Agora sim, pode-se usar o argumento que por vezes é lançado para desviar o assunto: o país tem coisas muito mais graves com que se preocupar.

Entretanto há quem se preocupe realmente em salvar vidas. É muito grato saber que em tempos tão difíceis temos a velar por nós gente comprovadamente competente, exigente, empenhada, que acredita naquilo que faz - e essa crença ajuda-os ainda mais - e que não se limita a falar com um jargão técnico como quem se limita a debitar números e dados científicos. Imprimem excelência à sua actividade, isto é, salvar vidas, sem nunca se tornarem em robots terapêuticos.

terça-feira, janeiro 26, 2021

Depois das presidenciais

Notas:

Marcelo ganhou. Esmagou. Não tem o melhor resultado de sempre em presidenciais mas é o primeiro a vencer em todos os concelhos. Tudo isto praticamente sem campanha. O seu mandato sai reforçado. Na noite eleitoral revelou enfim o seu programa, coisa que não tinha feito nas semanas anteriores, e teve o único verdadeiro discurso presidencial. Resta saber se vai actuar como noutras coabitações com um partido diferente no segundo mandato - em competição hostil com o governo, como vimos sobretudo com Soares e Cavaco.

Ana Gomes consegue o segundo lugar mas não a segunda volta. Difícil colocá-la entre vencedores ou perdedores. Em teoria é vencedora, porque alcança o segundo lugar apenas com os apoios oficiais de PAN e Livre, e é talvez responsável por impedir que Ventura fique em segundo. Mas teve uma campanha pouco substantiva, nunca conseguiu ter um assunto-âncora, triando talvez a justiça, e sem aspirações dentro do PS ou a lugares de relevo, não se sabe o que ganhará realmente depois disto.

André Ventura tem um resultado agridoce (mais doce do que acre, é verdade). Obtém um resultado excelente em números, cilindra a esquerda nalguns dos seus feudos, particularmente no Alentejo, fica em segundo em quase todo o interior, queda-se a pouca distância de Ana Gomes. E no entanto esta diferença para a diplomata tem peso, já que esse era o objectivo primordial declarado, a ponto de o obrigar a demitir-se. Claro que na prática o dano será nulo, porque voltará à liderança já a seguir por aclamação. Mas ao ouvir aquele discurso alucinado, a colocar a Iniciativa Liberal na extrema-esquerda e a afirmar-se como "enviado de Deus", fica-se na dúvida se está demasiado deslumbrado ou se é conversa para galvanizar a assistência. Convém lembrar que os votos das presidenciais não são deles nem duradouros, como aprendeu Manuel Alegre ("o meu milhão de votos") e Basílio Horta, que em circunstâncias parecidas teve 14% dos votos, para meses depois o CDS alcançar pouco mais de 4%. E que o desafio das autárquicas, completamente diferentes de eleições nacionais, penaliza agudamente os novos ou pequenos partidos. O Bloco que o diga.

Apostei que João Ferreira teria um resultado superior ao de Marisa. Acertei por pouco. Teve também mais do que Edgar Silva, há cinco anos, o que não é consolo nenhum. O resultado de Ferreira é menos que medíocre, incipiente (e inferior a Ventura) no Alentejo, coloca em causa o futuro do seu partido junto de populações que lhe eram tradicionalmente fieis e mais até, coloca em risco a sua ascensão a futuro secretário geral do PCP, quando era o mais bem colocado para isso. A rever: teve a campanha com maior orçamento de todas, o que demonstra que, principalmente em tempos de pandemia, não vale a pena andar com grandes gastos.

Marisa Matias é a outra grande derrotada da noite. Não só tem um resultado substancialmente inferior às candidaturas que encabeçou, há cinco anos e nas últimas europeias, como perde aquele particular  combatezinho com o PCP para ver quem tem mais votos. É possível que tenha perdido um pouco para Ana Gomes, mas pareceu sempre estar a cumprir um papel que lhe tinham pedido. Perdeu o efeito novidade e também o de ser mais simpática que Catarina Martins e as manas Mortágua. Talvez não influencie assim tanto o futuro do Bloco, que já caiu e já se reinventou, mas a avaliar pelo discurso da "coordenadora", causou alguma preocupação entre a esquerda radical.

Tiago Mayan. Sou suspeito, mas acho quase impossível não o considerar um dos vencedores da noite. Partiu para a corrida como um elemento apoiado pela Iniciativa Liberal desconhecido do grande público, entrou nas entrevistas tímido e a calcular as palavras, mas aos poucos ganhou confiança, não teve receio de afrontar quem quer que fosse (até houve quem o considerasse demasiado ríspido), explanou as suas ideias e a sua ideologia e ganhou muito com isso. Não sendo uma votação fabulosa, é superior ao que as sondagens lhe davam (as primeiras atribuíam-lhe 1%), sem dispôr de grandes gastos nem figuras de primeira água a apoiá-lo. Ganhou o seu próprio espaço e o seu partido, mais estruturado e menos fulanizado que o Chega e com mais aura de novidade que o Bloco, ganhará certamente com isso. 

Vitorino de Rans - fica em último mas consegue novamente um resultado honroso, não muito abaixo do de 2016, salvo que agora não ganhou em Rans. É sem dúvida uma personagem que consegue atrair a atenção, a simpatia - e alguns votos. Resta saber se vai fazer alguma coisa com esta popularidade. É bom lembrar que tem o seu próprio partido, o RIR, que tem estabelecido ligações a outras pequenas formações. Desconfio que as suas candidaturas não vão ficar por aqui.

Abstenção: muito grande, mas não extrema. Um obrigado a todos os delegados às mesas e a todos os que trabalharam no processo eleitoral.



domingo, janeiro 24, 2021

Presidenciais 2021


A CNE que diga o que quiser. Desde que a Net espalhou a palavra o dia de reflexão perdeu a sua utilidade.

Como deixei claro no post anterior, estas eleições não podiam calhar em pior altura. No pico do Inverno e nos dias mais negros de uma pandemia fatigante e galopante, numa eleição presidencial em que o incumbente concorre a um segundo mandato (e praticamente nem teve campanha eleitoral nem ao menos um programa presidencial), a abstenção prevê-se elevadíssima. Ao menos que não haja filas extensas.

Marcelo, em condições normais, estaria reeleito. Sendo tudo menos normais, e mesmo que seja de todo improvável que não fique em primeiro, uma segunda volta não é de descartar, o que tornaria mais interessante a luta pelo segundo lugar, que está em aberto. Ana Gomes quer consolidar o seu lugar de "justiceira" actual do regime, com a sua oposição implícita a António Costa e mais ainda a Marcelo. Não sei o que tem exactamente a ganhar nesta altura da sua vida, mas a resposta pode ser algo entre o sentido do dever e o chamamento do protagonismo.

Já André Ventura não quer de forma alguma ir para Belém, mas tenta aqui a prova das sondagens e a consolidação do seu movimento para tentar no futuro influenciar uma maioria de direita. Fá-lo com uma campanha de declarações estrondosas, como a dos "portugueses de bem", de vitimizações constantes e de tentativas de se fazer notar, facilitada com os manifestantes que protestam à sua passagem. 

À esquerda, as habituais candidaturas do PCP (quase nunca falha) e Bloco. Condições diferentes em relação a 2015: Marisa não traz nada de novo, parece conformada, e nem o seu ar "genuíno" e mais simpático do que Catarina Martins e as manas Mortágua a sustenta. Ainda é nova, e talvez precise de novos desafios. Por outro lado, João Ferreira, já não exactamente um desconhecido, tenta segurar e medir o eleitorado PCP numa candidatura que tresanda a futuro secretário geral do PCP. Note-se o percurso exactamente igual ao de Carlos Carvalhas, que também foi candidato à câmara de Lisboa (ficou em segundo), cabeça de lista às europeias e candidato à presidência da república, antes da tarefa digna dos sete trabalhos de Hércules de substituir Cunhal na chefia do "Partido". No geral, teve uma campanha competente, apesar de ter sido o candidato que mais gastou (para quê?). Ficarei surpreendido se Ferreira não ficar à frente de Marisa, até porque o eleitorado desta que não seja tão fiel ao Bloco tenderá a votar em Ana Gomes.

E por falar em Carvalhas, a grande novidade da campanha chama-se Tiago Mayan Gonçalves. Ao contrário da generalidade das pessoas, não era para mim o candidato mais desconhecido, antes pelo contrário. Conheço o Tiago Mayan há mais de vinte anos, já lhe chamei presidente numa associação estudantil internacional à qual pertencemos e aliás estive com ele em situações que já partilhei neste blogue (como esta). A alusão a Carvalhas reporta à parecença física com o antigo SG do PCP, e a uma situação, há já vários anos, em que alguém apontando para um cartaz comunista com a fotografia do seu líder, exclamou: "olha, o Tiago no cartaz", para desespero do agora candidato liberal. A verdade é que sem notoriedade anterior e sem ser uma figura pública (confessou a Miguel Sousa Tavares que aquela era a primeira vez que era entrevistado para a televisão), revelando algum nervosismo inicial e a inexperiência natural, conseguiu passar a sua mensagem de candidato liberal, dirigindo-se sem punhos de renda a Marcelo, traçando um fosso com Ventura e fazendo contrastar as suas ideias com as da esquerda. Para primeira experiência política em nome próprio, sem ser a fazer campanha por outros, leva nota positiva.

Por fim Vitorino Silva, como agora é chamado pelo nome próprio o "Tino de Rans". Sem ofensa, acho que podia ser o modelo do Zé Povinho para os nossos dias, em versão mais educada, e palpito que ele até nem desdenharia. A sua candidatura parece não fazer lá grande sentido, até por ser repetida, e terá previsivelmente menos votos do que há cinco anos. Mas é possível que arrebanhe alguns eleitores fartos da partidocracia e convencidos por um candidato com aura genuína, que não sendo um génio está longe de ser parvo e que é o "que se dane" possível para quem se dá ao trabalho de ir votar não se reconhecendo no candidato incumbente e nos candidatos partidários.

Pode desde já dizer, sem surpresa, que o meu voto, não me reconhecendo em tdoas as suas ideias, vai para Tiago Mayan. Não fosse ele e não saberia em quem votar: no presidente actual que nem programa tem, na candidata justicialista que tudo põe em causa, nos candidatos da esquerda mais dogmática, que o fazem pelos seus partidos, na candidato da direita populista que apregoa a ideia aberrante de que não seria presidente "de todos os portugueses", no candidato "do povo" de que poucas ideias concretas se conhecem...?

Três desejos mais, votem em quem votarem: que a abstenção não seja tão grande como alguns prevêm; que não piore o estado caótico da pandemia; e que não haja segunda volta. 

terça-feira, janeiro 19, 2021

Porquê em Janeiro?

Admito que fosse difícil, ou mesmo legal e constitucionalmente impossível, alterar as datas das eleições presidenciais para mais tarde. A questão é: porquê em Janeiro? Por causa do prazo da tomada de posse do Presidente? Isso não é alterável? Recordo que as primeiras eleições presidenciais tiveram lugar em Junho (de 1976). E que há uns anos, as autárquicas, que eram tradicionalmente em Dezembro, passaram a ser em Outubro também com o argumento, se não estou em erro, do frio. Então porquê essa obstinação em manter estas eleições no mês mais gélido? Decididamente, a república e os seus actos de afirmação não ajudam nada.

domingo, janeiro 17, 2021

Dezassete

Só para avisar que já blogo há dezassete anos, e que consequentemente este blogue, se sobreviver, atingirá a maioridade daqui a um ano. Esperemos que sim.




sexta-feira, janeiro 08, 2021

Assaltar parlamentos


Ao ver as imagens do "índio" a encabeçar a invasão do Capitólio, só posso pensar que o slogan de Trump era afinal de contas "make America indian again" (desculpem não usar "first nations", como agora se usa em correctopolitiquês, mas realmente não ficava bem).

Aquelas imagens devem ter deixado todas as repúblicas das bananas a rir-se, ou pelo menos a sentir-se vingadas. Aliás isso já se viu através de comunicados da Venezuela. São imagens que esperaríamos que viessem de países assim.

Isto choca mais por ser numa das maiores, mais antigas e mais sólidas democracias liberais, com todos os seus defeitos. Mas já aconteceu antes, sim.

Em França, em 1934, uma massa de antigos combatentes, grupos nacionalistas, tradicionalistas (como na altura pujante Action Française) e fascistas tentou marchar sobre o parlamento, no que resultaram dezenas de mortos e feridos. Anos depois iriam na sua maioria colaborar com a ocupação alemã.

Em 1981, um grupo de militares espanhóis, comandados pelo pitoresco Tejero Molina e o seu chapéu da Guardia Civil, ocupou as Cortes de Espanha, com o intuito de instalar um novo regime militar-franquista, impedindo a tomada de posse do novo governo, e só se renderam quando o Rei Juan Carlos a isso os obrigou.
 
E mesmo em Portugal, em 1975, recorde-se o celebre episódio em que as "forças populares", isto é, alguns milhares de trabalhadores da construção civil, cercaram o parlamento por 36 horas, não deixando os deputados sair nem sequer para comer, excepto os das suas cores políticas. Depois disso, o então primeiro-ministro, Almirante Pinheiro de Azevedo, diria aquele icónico "fui sequestrado, não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia".
 
Escusado será dizer que todas estas tentativas não pretendiam instalar nada de bom e acabaram por ser vencidas pela força das instituições e pela vontade popular, a autêntica, expressa nos votos.



quinta-feira, dezembro 31, 2020

A sorte da Torre Bela

Há coincidências que se entrelaçam quase de propósito. Quando se voltou a falar na herdade da Torre Bela, por causa daquela matança de gamos e javalis disfarçada de caça, e se recordou a ocupação da propriedade em 1975 e o célebre vídeo da "enxada da comprativa", eis que morre o protagonista de ambas, da ocupação e do filme, Wilson Filipe. 

A tentativa de criar uma cooperativa popular naquela terra, à altura propriedade dos Duques de Lafões, uma das últimas famílias aristocráticas pré-liberalismo, é um bom resumo do PREC. Embora fosse uma expropriação selvagem, a verdade é que esteve longe das barbaridades dos sovietes. Olhando os numerosos testemunhos audiovisuais de tudo aquilo, há momentos de evidente comicidade, e nota-se também bastante ingenuidade da parte dos ocupantes, à mistura com o oportunismo de uns tantos aventureiros e revolucionários de ocasião. 

A história da propriedade acompanha desde então o percurso recente de Portugal. De imensa herdade de caça de uma das principais casas ducais, passou a "cooperativa popular", fruto da revolução, durando uns anos, até ser encerrada pela Lei Barreto e o fim do PREC; entretanto, os antigos proprietários receberam a correspondente indemnização, e a agora propriedade, crê-se, de testas de ferro de uma família angolana, preparava-se para ver parte do seu terreno transformado numa central fotovoltaica, pelo que tinha de se transformar a antiga coutada através de uma "montaria" cirúrgica, que também daria para ganhar uns euros extras, e que tão mal caiu nas notícias e nas redes sociais. Coutada de caça, cooperativa popular, central fotovoltaica: as vidas da Torre Bela ao longo das décadas.



Paralela a essas metamorfoses ao sabor dos tempos, temos também duas opções ambientais que se excluem: a reserva florestal de vida selvagem e a central de produção de energia solar. Para se obter energia limpa que não a dos combustíveis fósseis e não renováveis, há que sacrificar um raro habitat de fauna livre. Nada de espantar: as barragens também armazenam água e produzem electricidade, ao mesmo tempo que mudam o clima local, os ecossistemas e retêm sedimentos levando à redução as praias. As ventoinhas eólicas enxameiam as nossas serras. Para não falar das opções da energia nuclear. Valores ecológicos que se excluem mutuamente e que dependem de um sem número de outros factores. 

Por fim, outra história, mais distante e de outro país, mais indirecta mas ainda assim ligada. A saga da Torre Bela foi contada por Thomas Harlan, um realizador alemão de "cinema activista", entusiasta da esquerda radical, talvez para fugir da sombra do pai, Veit Harlan, um dos cineastas mais notórios do Terceiro Reich. Harlam pai dirigiu O Judeu Suss, provavelmente o mais conhecido filme propagandístico anti-semita da época, que no fundo também correspondem a duas gerações alemãs: à que aderiu (ou se adesivou oportunisticamente) ao nazismo e à seguinte, com simpatias pela esquerda radical e até pela extrema-esquerda, que levou à criação de grupos terroristas como os Baader-Meinhof, para se afastar da precedente, numa tentativa de expiar os seus crimes. Escrevi sobre isso quando morreu Thomas Harlan, há uns anos, pelo que não vale a pena repetir-me.

Resta saber se a Torre Bela se tornará uma central fotovoltaica, voltará a ser um terreno de (autêntica) caça, ou o que mais for. Certo é que é um manacial imensos de histórias e de episódios dos quais podemos tirar inúmeras comparações.


Um ano melhor para todos.

terça-feira, dezembro 22, 2020

Os méritos da comunicação social

Tenho lido por aí que só agora é que a comunicação social tem dado atenção ao caso Homenyuk, que durante nove meses não se ouviu nada, etc, etc. Lê-se isso nas redes sociais mas também de outras paragens inesperadas, como alguns jornalistas em guerra autofágica contra a própria classe. Nada mais injusto, nesta ocasião.


Pegando nas palavras de um dos responsáveis do que sucedeu, houve quem não ouvisse nada. Porque desde fins de Março que se conhecia o casos e os seus contornos, que se sabia que algo de muito errado se tinha passado com o ucraniano e os agentes do SEF, e tudo isto porque a comunicação social o divulgou. Se o caso não teve mais repercussões é porque as pessoas até agora tinham ligado pouco.

Em lugar de bater sempre na imprensa, que tantas vezes e ao contrário do que se passou agora não cumpre as suas funções, seria bom pensar que talvez as redes sociais não sejam assim tão informativas ou eficazes. Afinal de contas, soube-se disto em fins de Março, quando a pandemia tinha repentinamente surgido e estava tudo em casa. Lembro-me aliás de ter sido o primeiro caso que não o covid-19 a abrir os noticiários em muitos dias. E não foram com certeza os "jornalistas" de smartphone que divulgaram a situação. Algumas pessoas ligaram mais, de certa forma para se libertar do totalitarismo informativo covidiano, mas outras pouco terão ligado. Até agora, quando a viúva do pobre Homenyuk disse "odiar Portugal"(e poderemos nós censurá-la, por muito que nos custe?). Através da comunicação social, claro.

Por isso, culpe-se o SEF, a ANA, o governo que só agora é que resolveu dar uma compensação à família, o ministro Cabrita, o presidente ou outros, mas deixem de se atirar à comunicação social. Há imensas razões e oportunidades para criticá-la. Eu próprio já o fiz, aqui no Delito. Mas ao menos, e ao contrário do que acontece com inumeras páginas manhosas da net, que atraem sempre alguns discípulos hipnotizados, os artigos vêm sempre assinados e podemos saber quem foram os seus autores. Aqui é manifestamente injusto que assaquem as culpas à CS, porque é graças a esta que sabemos os contornos do caso.

PS: E já agora, um exercício de "achismo": sabendo-se que as máfias de países como a Ucrânia controlam amplamente o percurso dos emigrantes, extorquindo-lhes o que podem, não poderá ter havido uma qualquer infiltração no SEF por parte do crime organizado e a sessão de tortura sido uma acção punitiva ou para o obrigar a pagar algo?