sexta-feira, outubro 01, 2021

Outras consequências da conquista de Lisboa

 Ainda sobre as autárquicas, a conquista de Lisboa pela coligação liderada pelo PSD pode ter outras consequências a médio prazo. Dizia-se, aquando da apresentação de Carlos Moedas como candidato, que uma eventual vitória poderia ser um trunfo para Rui Rio mas também uma ameaça, já que o ex-comissário europeu seria então uma forte hipótese para a liderança do partido.

Julgo que esse cenário é improvável. Recém chegado à câmara, e com muito trabalho pela frente, Moedas não deve estar certamentea pensar em liderar o partido. É verdade que a presidência da CML é tida como um trampolim para voos maiores, com propriedade, tendo em conta os casos de Sampaio, Santana e Costa. Mas será ainda muito cedo para pensar em algo mais, até porque não faltam outros candidatos à liderança laranja. De resto, Rio marcou pontos com as suas escolhas certeiras, como Coimbra e Funchal, e, evidentemente, a capital.

É no outro partido do poder que este resultado pode ser mais determinante. Perdida de forma inesperada a governação Lisboa, o seu grande trunfo, Fernando Medina viu certamente esfumar-se qualquer veleidade a chefiar o PS no pós-António Costa. Isso abre ainda mais o caminho a Pedro Nuno Santos, que com a sua combatividade e o conhecimento (e controlo) do aparelho socialista, vê crescer amplamente as suas ambições a liderar o partido no futuro. 

Sucede que, a ser este o cenário, aliás provável. Pedro Nuno herdará um PS desgastado pelo poder e pelos inúmeros problemas com que se deparou, alguns por culpa própria. Além disso, representa uma ala mais esquerdista do partido. O sempre decisivo eleitorado de centro, talvez agora menos numeroso, não deixará de olhar para o PSD como alternativa óbvia. Rio ou qualquer outro líder do partido terá então uma boa oportunidade para ganhar o poder, ou pelo menos de ficar em primeiro, a reboque e por via indirecta da conquista de Lisboa.






quinta-feira, setembro 30, 2021

Uma questão maior

houve vários resumos às autárquicas, partidárias e locais, já se falou na vitória amarga do PS, na derrota doce do PSD, no esvaziamento da CDU, no CDS que se equilibra em arames, no Bloco que continua sem peso autárquico, nos razoáveis mas demasiado histéricos ganhos do Chega, no voto urbano da IL, no peso dos independentes, mas não vi nenhuma análise profunda aos nomes dos candidatos do Alentejo.

Permitam-me então felicitar, no Alandroal, Aranha Grilo (será entomólogo?), que bateu Saruga Matuto; Pena Sádio, de Estremoz; em Mora, 45 anos de presidência de PCP acabaram com o triunfo de Calado Chuço sobre Fortio Calhau; no Redondo, Fialho Galego soube fazer frente a Palma Grave e Rega Recto; em Vendas Novas, Hortelão Aldeias não logrou a reconquista; já na ducal Vila Viçosa, Ludovico Esperança ganhou a autarquia calipolense fazendo jus ao nome, para desconsolo de Canhoto Consolado e do desventurado Ventura Mila.

Mais para baixo, Mestre Bota mantém Almodôvar e Penedo Efigénio roubou Alvito a Feio Valério; Cuba é bem nacional quando Casaca Português não dá veleidades a Burrica Caniço; o histórico Pita Ameixa permanece em Ferreira do Alentejo e em Moura, apesar dos esforços de Ventura, Floreano Figueira não conseguiu destronar Pato Azedo e igual sorte tiveram André Linhas Rôxas e Fialho Acabado. Ao lado, em Serpa, Véstia Moisão, Efigénio Palma e Torrão Félix tiveram de se conformar com a vitória de Tomé Panazeite.
Mais a Norte, em Arronches, Ventura Crespo não deu hipóteses a Moacho Feiteira, Vicente Batuca e Amiguinho Cordeiro. Parabéns a Gonçalo Amanso Pataca Lagem, em Monforte, e lamente-se a derrota de Rosmaninho Bichardo em Nisa.
Mesmo não tendo o seu partido ganho a câmara, assistimos ao regresso autárquico do grande poeta elvense Chocolate Contradanças (que será feito de Borrega Burrica, de Campo Maior?). Lamentável a todos os títulos é o triste exemplo de Évora, que voltou a dar o triunfo, embora curto, a Carlos Pinto de Sá, em detrimento de Henrique Eva Sim-Sim e sobretudo de Raul Arromba da Silva Rasga.

Um abraço para o Alentejo, com desejos de sorte aos novos (e velhos) autarcas.

sexta-feira, setembro 17, 2021

A "desprestigiante" desconcentração

Os doutos juízes do Tribunal Constitucional, excepto dois (por acaso conimbricenses), não querem que a sua casa seja transferida para Coimbra, assim como o Supremo Tribunal Administrativo, porque, entre outros argumentos banais, alegam ser um "grave desprestígio". E também alegam que esses casos só se passam em estados com estrutura federal, como a Alemanha ou a Suíça.

Eu julgava que a desconcentração de serviços centrais era precisamente para colmatar a ausência de outras formas de descentralização, mas aqui apresenta-se o argumento contrário. Quanto ao "grave desprestígio", ainda bem que D. Diniz não teve isso em conta quando mudou a universidade de Lisboa para Coimbra.
A verdade é só uma: desconcentrar serviços para fora de Lisboa é quase impossível, porque gera imediatamente um coro de críticas dos que se agarram à capital com todas as garras. Mudar o Centro Português de Fotografia para o Porto foi um sarilho. A ideia de mudar o Infarmed também para o Porto - embora fosse um plano apressado e sem pernas para andar - deu origem a queixas por causa da deslocação dos trabalhadores para fora de Lisboa. Mas quando se trata de acabar com serviços pelo país fora para os concentrar, aí as dúvidas dissipam-se.
Seria uma boa solução, numa cidade desde sempre ligada ao Direito e a precisar de alguma revitalização. Mas de novo se demonstra que para isso será uma luta titânica.




quinta-feira, setembro 16, 2021

Jorge Sampaio

 



A propósito da morte de Jorge Sampaio, discordei dele em váriadas ocasiões, mas tinha aspectos de que muito poucos políticos se podem gabar. Claro que vai ficar como uma das figuras políticas cimeiras das últimas décadas, desde o seu papel de líder estudantil e advogado, depois como líder da oposição (de início parecia-me Vítor Constância de cabelo ruivo) e presidente da CML até Belém. Curiosamente a sua maior derrota aconteceu em 1991 contra Cavaco Silva - que lhe rendeu agora um dos elogios mais sentidos - e a sua maior vitória, nas presidenciais de 1996, também. Teve como ponto alto o seu papel na crise de Timor, e como ponto mais baixo a trapalhada com Santana Lopes, antes e depois de o nomear. Como legado mais recente deixa o seu trabalho em permitir que refugiados pudessem continuar os seus estudos.

Mas para além disso era um gentleman da política, naquele registo que parecia racional, low profile e legalista (no 25 de Abril resolveu ficar em casa, quando estava tudo na rua, porque era isso que o MFA estava a pedir, e chegou a dizer que se escolhesse lema seria "dura lex sed lex") mas que facilmente se emocionava. Deixo dois exemplos: numa visita à faculdade onde eu estudava, ouviu-me a perguntar, quase irado e à sua frente, porque é que o 1 de Dezembro não tinha mais destaque, ao que respondeu serenamente, com uma resposta que aceitei, dando a entender que também o lamentava. E quando ganhou as presidenciais pela primeira vez, ao chegar à varanda onde iria discursar à multidão que o vitoriava, mandou antes de tudo com autoridade retirar um enorme gigantone que representava e ridicularizava Cavaco Silva.

Sobre o momento mais polémico da sua presidência, a nomeação de Santana Lopes e a dissolução do Parlamento seis meses depois, convocando as eleições que depois dariam o poder a Sócrates, relembro que apesar das críticas que a direita lhe teceu então, ficaram ainda assim aquém das que a esquerda lhe disparou ao decidir convidar Santana a formar governo. Provavelmente a maioria acha hoje que ele faria melhor em convocar logo eleições (e o PSD em escolher a então segunda figura do governo, Manuel Ferreira Leite, para o liderar, quatro anos do que sucedeu mais tarde). Mas decidiu não o fazer e com isso atraiu a fúria da esquerda. Ferro Rodrigues demitiu-se da liderança do PS nesse mesmo dia, indignado com a decisão presidencial. Saramago disse que "a democracia acabara em Portugal". Francisco Louçã afirmou que era "o princípio do fim do 25 de Abril". Na festa do Avante desse ano usaram-se t-shirts anti-Sampaio. E como na noite seguinte, precisamente, morreu de súbito Maria de Lurdes Pintassilgo, não faltou quem dissesse explicitamente que se deveria ao desgosto da decisão de Sampaio. Em suma, provavelmente nunca nenhuma figura da esquerda (nem da direita) portuguesa atraiu tanto os ódios do seu espectro político como Jorge Sampaio. Curiosamente, muitos destes correligionários aplaudiram dez anos depois a constituição da "geringonça", que, tal como no governo Santana, se baseava numa maioria parlamentar.

Que o "cenoura", como lhe chamavam carinhosamente, descanse em paz.

quinta-feira, agosto 19, 2021

Cinema com visão

Com o ingresso de Messi no PSG, lembrei-me de uma cena do filme Le Concert, uma comédia em que uma hilariante orquestra russa constituída por judeus e ciganos vai tocar a Paris. A meio, quando um oligarca se prontifica a financiar a viagem da dita orquestra em troca de poder tocar a meio, a mãe do milionário surge de rompante e descompôr o filho, aconselhando-o antes e meter-se no futebol, qual Abramovitch, a investir no Paris Saint Germain e a comprar Messi para o clube francês. O filme é de 2009, ainda Messi tinha 22 anos e o PSG estava longe de ser milionário.

12 anos depois tudo se concretizou. A única diferença é que os investidores são árabes Qataris, não russos. O cinema pode adivinhar o futuro ou é uma deliciosa coincidência fruto de uma imaginação fervilhante que se tornou real?

quarta-feira, agosto 11, 2021

As bolhas geracionais

 

Na época de confrontos e polarizações a que temos vindo a assistir, só nos faltava o confronto geracional. Mas é o que está a acontecer. Além dos problemas directos, a pandemia parece estar a criar um crescente azedume entre as gerações mais velhas e as mais novas.

Não que seja apenas do último ano. É possível que com diferentes educações e uma comunicação demasiado virtual as fracturas já durassem há mais tempo. Vimo-lo com as referências, aqui há uns anos, da "peste grisalha". E vimos também a insuportável e birrenta frase de uma Greta Thunberg transfigurada pela raiva, o inesquecível How dare you, ao acusar os políticos de lhe terem "roubado a infância".

Há pouco tempo, por ocasião do dia dos avós, vi uma data de desabafos na net, incluindo uma daquelas coisas que algumas pessoas passam numa cadeia de mensagens, em que o neto perguntava ao avô como tinham vivido sem internet, telemóvel, etc, ao que o avô respondia que em compensação antigamente viviam com "dignidade, compaixão, bondade, humildade", etc, dando a ideia de que a geração do neto não tem quaisquer qualidades (reparo que ao afirmar que a sua geração tem todas as qualidades não é bem um sinal de humildade). Ao mesmo tempo, vêem-se nas redes sociais imensas recriminações às gerações mais novas por, em tempo de covid, juntarem-se, encontrarem-se, beberem em conjunto e outas malfeitorias. Alguns chegam a dizer que deviam era estar trancados em casa ou ajudar às tarefas da mesma, embora ignore se quem escreve tais coisas tenha algum estudo aprofundado sobre os trabalhos domésticas dos mais novos.

Todas estas recriminações geracionais, dos que desprezam os mais velhos e os tratam como trapos por aparentemente não terem "utilidade" aos que se estão nas tintas para os mais novos e acham que eles têm as mesmíssimas necessidades dos mais idosos podiam provocar mero desprezo ou até algum sarcasmo, mas causam-me apenas tristeza. Parece que são exactamente os extremos geracionais que são mais postos de lado pelos que estão a meio, que também terão as suas queixas (Sérgio Sousa Pinto falava há pouco com imensa graça da nossa geração dos anos noventa como estando entre "gerontes donos disto tudo e unicórnios imberbes"). Os velhos porque não são úteis, numa classificação utilitarista e hiper-materialista, e porque "ficam com as reformas todas", e os mais novos porque são "irresponsáveis" e "florzinhas de estufa". 

Contra mim falo, porque também isso já me passou pela cabeça em momentos egoístas e menos felizes. Mas a verdade é que esta incompreensão mútua, a existir, e se não for uma miragem do que se vê na net, é tóxica e não ajuda nem a uns nem a outros. Quando se começa a falar dos mais novos como "gente irresponsável", amiúde acompanhada dos auxiliares "no meu tempo" e "esta juventude de hoje", é sinal claro de envelhecimento, numa clara imprepração para o futuro. E quando vemos as acusações às gerações anteriores de terem deixado "uma herança pesada" às que se seguem, como a menina Thunberg, à qual, entre outras coisas, deixaram um sistema escolar que ao que parece ela não quis aproveitar, ignoramos tudo o que de bom deixaram, quando tantas vezes mesmo as má herança tiveram origem em intenções nobres. 

Sim, os mais velhos não pensaram só neles. E sim, os mais novos têm percepções diferentes, como em todas as gerações, e não são piores por isso. Os velho têm direito ao conforto, à compreensão e ao respeito. Os jovens a igual compreensão e a fazerem disparates e "irresponsabilidades" próprias do crescimento e da formação de carácter. Não compreendê-las é ficar-se na sua própria bolha geracional, sem perceber o passado de uns nem relembrar o seu próprio. Não é preciso que se compreenda e aceite tudo. Mas ao menos não julguemos que a nossa geração é que é bestial.

PS: a minha geração "rasca" não é definitivamente melhor, mas olhem que os tais anos noventa em que crescemos deixam saudades. Porque havia esperança e optimismo para todas as gerações. 

sábado, julho 17, 2021

A redenção pela bola

 Se as história de superação são apelativas, mais ainda se tornam se lhes forem acrescentadas certas concidências e acasos. O Euro 2020 que acabou há dias é disso exemplo.

Julgava que a superação seria a de um homem, Gareth Southgate, o actual treinador de selecção inglesa. Até agora, nunca a Inglaterra tinha ganho um jogo nos 90 minutos na fase a eliminar dos Europeus. Normalmente ficava-se pelo primeiro jogo (o guarda-redes Ricardo que o diga), tirando em 1996, quando a competição teve lugar precisamente em em solo inglês e ultrapassaram a Espanha nos penaltys. Só que nas meias finais jogaram contra a velha rival Alemanha, em Wembley, empataram a um golo e nas grandes penalidades um jogador inglês falhou, impedindo a sua seleção de chegar à final perante o seu público. O seu nome? Gareth Southgate.

Um quarto de século depois, Southgate levou a seleção inglesa pela primeira vez à final de um Europeu, tendo deixado pelo caminho a Alemanha, com um emotivo 2-0. Passadas as meias, de forma algo duvidosa contra uma aguerrida Dianamarca, a Inglaterra lá chegou a uma final, ainda por cima (e como quase todos os jogos que disputou) em Wembley, quase como em 1996 - quase porque se demoliu e reconstruiu o mítico estádio. E o povo enchia o estádio, ignorava os casos crescentes de covid e cantava, em fervilhante entusiasmo, It´s Coming Home, do célebre hino dos Ligthing Seeds Three Lions (A partir dos vinte segundos do video abaixo vê-se Southgate a falhar o penalty; noutra versão, a original, de 1996, aos 30 segundos a seleção inglesa marca um golo à portuguesa, defendida pelo malogrado Neno).


Não estava propriamente a apoiar os Three Lions, mas confesso que me interessava a ideia da redenção de um homem, que, 25 anos depois, naquele mesmo espaço, poderia conduzir a sua seleção à vitória na competição como treinador, depois de o impedir como jogador. Mas como sabemos, a história não acabou assim, e mesmo tendo chegado à final, a Inglaterra perdeu em Wembley com a Itália, de novo nos penaltys - e aqui sim, Southgate falhou pela escolha dos marcadores.

Mas se não houve redenção por um lado, ela veio de outro. A equipa técnica da Itália é constituída quase em exclusivo por velhas glórias da Sampdória de Génova, como Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Lombardo ou Evani. E precisamente em Wembley, em 1992, na final da Taça dos Campeões perdida para o Barcelona de Cruyff, Mancini e Vialli, a dupla de ataque, os "gemelli del gol", jogaram juntos uma última partida. Vialli prossseguiu uma carreira  de sucesso na Juventus, Mancini na Lazio e ambos foram mais tarde técnicos de sucesso em Inglaterra. Até se reencontrarem na equipa técnica da selecção, um pedido expresso de Mancini, e que como se viu no Domingo, até pelo ambiente da equipa, voltou a dar resultado. 29 anos depois de perderem o título europeu de clubes em Wembley, ganharam o de selecções. É só isto, a redenção? Apenas o pretexto. Porque Vialli, já com funções na Azzurra, sofreu um canco no pâncreas, um dos mais difíceis de debelar, recuperou, teve uma recaída, e finalmente venceu-o completamente, sem mais vestígios. Chegou a dizer numa entrevista que "tinha vergonha de estar tão feliz", quando Itália sofria a primeira e mortífera vaga da pandemia. Um ano depois da sua recuperação, GianlucaVialli, que protagonizou uma destas superstições em que o futebol é fértil, no mesmo lugar onde não tinha sido feliz anos antes, voltou a festejar, em lágrimas, com todas as razões do mundo para o fazer, ou no mínimo com muito mais razões do que apenas um penalty falhado.



sexta-feira, julho 09, 2021

O florentino do Benfica

 

Há uns anos, apostava-se que Rui Costa seria um dia presidente do Benfica, e que o seu benfiquismo e o seu enorme conhecimento do mundo do futebol e dos jogadores seriam trunfos para o clube.

Hoje chegou o dia em que ele assumiu a presidência, ainda que "interina", mas é tudo menos entusiasmante, pelas circunstâncias da detenção de Vieira e indícios de trafulhice, pelo momento do clube, que já não era bom, e sobretudo porque o próprio Rui Costa era vice-presidente e há a sensação de queno mínimo não ignorava o que se passava.
Também há a hipótese de estar à espera que Vieira caísse para assim assumir as rédeas do clube, o seu grande objectivo. Talvez ainda possa surpreender. Mas isso seria demasiado maquiavélico.
E de repente lembramo-nos de que Rui Costa viveu vários anos e boa parte da sua carreira em Florença, a cidade de Maquiavel, e que até era conhecido pelos adeptos da Fiorentina como "il principe". Queres ver que ele é mesmo um"florentino" (e não o do Real Madrid)?

quinta-feira, junho 17, 2021

Importações da Hungria

 

Portugal pode ser campeão europeu em título, possuir um punhado de jogadores de imensa qualidade e ser comandada por um homem sedento de quebrar novos recordes. Mas a verdade é que bateu uma selecção húngara que, embora aguerrida e puxada por um estádio inteiro (um luxo único nos dias que correm), não é lá muito talentosa.
Não sei o que aconteceu ao futebol húngaro nas últimas décadas (há uns vinte anos era ainda pior), mas na primeira metade do séc. XX, e ainda mais nos anos 50, os magiares eram do melhor que havia a tratar a bola e o grande expoente deu nome ao estádio do jogo: Ferenc Puskas, um autêntico bombardeiro da área. Os húngaros esmagavam quem lhes aparecesse na frente e causaram grande surpresa ao perder a final do mundial de 1954 com a Alemanha (já tinham perdido outra, com a Itália), um daqueles jogos que quebra a regra do "só os vencedores são recordados".
Um dos sintomas da decadência húngara é ver que o treinador da sua selecção é...italiano. Noutros tempos, os técnicos húngaros deviam ser a maior exportação do país e nos anos 30/40 boa parte dos treinadores dos clubes portugueses provinham da Hungria. O mais famoso de todos era Bela Guttmann, de quem tenho aqui a biografia para ler, mas houve muitos que se naturalizaram portugueses, por aqui ficaram e até se naturalizaram, mudando o dome próprio, casos de Janos Biri (dos técnicos mais longevos do Benfica) e Mihail Siska, que passaram a chamar-se João Biri e Miguel Siska. Um caso curioso é o de Lipo Herczka: primeiro treinador campeão pelo Real Madrid, vem para Portugal, ganha vários títulos pelo Benfica e depois corre o país treinando Porto, Académica, Estoril, Vila Real (será que o meu avô o conheceu?) até acabar em Montemor o Novo, no Alentejo. Literalmente, porque lá morreu e está enterrado, como nos recordou Rui Tovar. E no Alentejo houve mais, talvez porque a paisagem lhes fizesse recordar a grande planície da Panónia.

segunda-feira, junho 14, 2021

Um imortal do 6-3

 

Bem sei que o já saudoso Neno esteve em jogos marcantes, como o 2-0 de César Brito ao Porto, os 3-1 ao Arsenal em Highbury, o 4-4 em Leverkusen ou quando o Vitória de Guimarães bateu o Parma (onde como homólogo tinha um jovem Buffon) por igual resultado. Foram dois jogos em que o "Júlio Iglesias português" não sofreu qualquer golo.

Mas prefiro lembrá-lo num jogo em que nem esteve particularmente bem e até sofreu 3 golos, mas que terá sido, possivelmente, o mais grandioso da sua carreira: o 6-3 ao Sporting. Basta dizer que era um dos homens do 6-3 para ficar desde logo imortalizado. Isso para além de ter nascido na primeira cidade erigida pelos portugueses em África e de ter morrido na cidade-berço de Guimra~es, num triste 10 de junho. Um abraço, Neno.