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sexta-feira, março 01, 2024

Napoleão ou Crimeia?

Em resposta aos avisos de Macron sobre a possibilidade de tropas da NATO poderem combater na Ucrânia, os "aliados" (ou seja, subalternos) de Putin já vieram comparar o presidente francês a Napoleão e recordar a desastrosa campanha da Rússia, de 1812.

Tem-nos surgido muitas vezes, da parte de russos ou de outros sectores putinófilos, a sempiterna chamada de atenção para os efeitos nefastos da invasão de 1812 e da Operação Barbarrosa pela Alemanha, em 1941. Mas a sua noção de história parece ser selectiva, que não vindo de quem vem não espanta. Primeiro porque Macron não propôs nenhuma invasão da Rússia. E depois porque se esquecem de outra campanha, essa desastrosa mas para a Rússia, que foi a Guerra da Crimeia, nos anos 1850, em que a França, o Reino Unido e o Império Otomano - hoje todos membros da NATO - impuseram aos russos uma pesada derrota, a devolução de alguns territórios e o seu enfraquecimento na zona do Mar Negro. Macron saberá certamente porque é que há o Boulevard de Sebastopol ou a zona de Malakoff, em Paris. Bem sei que os tempos são outros, mas isso vale para todos, e se é para fazer comparações históricas, vamos a todas.




sábado, outubro 21, 2023

O drama esquecido dos arménios "de segunda"

Relembremos, por uns momentos, o que se passa no Nagorno-Karabakh. Com os dramáticos acontecimentos em Israel, mesmo o conflito entre a Ucrânia e a Rússia passou para segundo plano, quanto mais o dos cumes das montanhas do Cáucaso.

E precisamente, o Cáucaso é das regiões a que mais limpezas étnicas tem assistido no último século. Se os Balcãs são de tal maneira divididos e confusos que até emprestaram o seu nome a uma expressão geopolítica, então aquela região montanhosa encravada entre os velhos impérios e actuais potências da Rússia, Turquia e Irão e entre os mares Cáspio e Negro é-o ainda mais. Sob o domínio dos russos coexistem inúmeros povos e línguas, como os chechenos, os circassianos (estes dois, sobretudo o segundo, foram alvo de violentos crimes e até mesmo de tentativa de genocídio por parte dos russos), os tártaros, os ossetas, os calmuques - que vivem na única região de maioria budista na Europa - e tantos outros. Abaixo, as nações independentes: Geórgia (com a Abecásia), Arménia e Azerbaijão).

O que se passou no Nagorno-Karabakh recordou-me este post que aqui escrevi há ano e meio e que relata outra limpeza étnica naquela região que pouca comoção trouxe ao Mundo. Na altura, os georgianos foram mortos ou expulsos da território da Abecásia, onde em certas partes constituíam a maioria. Agora, talvez com menos violência e menos vítimas, os arménios são forçados a deixar aquela região que a tantos combates ferozes tem assistido nas últimas décadas e a extinguir com efeitos a partir de Janeiro a não reconhecida República de Artsakh.

Atribuir "razão" territorial e política a qualquer um dos povos é tarefa complicada. Talvez se tenda, nos países ocidentais, a simpatizar-se mais com os arménios. De facto, a constituição daquele enclave parece ser mais um dos artifícios típicos na URSS para se dividirem povos e territórios e impedir assim a invocação das suas consciências nacionais e que tantos problemas tem causado desde a sua implosão, de que são exemplo as sucessivas guerras no Cáucaso russo e georgiano.

Seja como for, e mesmo não reconhecendo a soberania daquele território, há que reconhecer a limpeza étnica levada a cabo pelo Azerbaijão. Se a Arménia tinha saído vitoriosa nos anos noventa, em 2020 os azeris atacaram de surpresa, bem apetrechados com material do seu vizinho e mentor, a Turquia, sobretudo com drones que foram de grande utilidade e que serviriam de treino para a posterior guerra na Ucrânia, e obtiveram uma vitória rápida e retumbante, que lhes permitiu cercar totalmente o território de Artsakh, a começar pelo corredor de Lachin, que ligava este à Arménia, que ficou a cargo de uma força de paz russa.

Sabe-se o que aconteceu depois: as forças do Azerbaijão lançaram em Setembro deste ano uma ofensiva que rapidamente ocupou aquele território e desarmou as de Artsakh, isoladas e sem a possibilidade de reforços da Arménia. Esta, sem auxílio e sem poder, por sua vez, ajudar os arménios de Artsakh, teve de aceitar um cessar-fogo e as suas consequências. Pelo meio, ainda houve um ataque a uma viatura militar russa, que resultou na morte dos seus ocupantes. A Rússia, principal membro da OSTC, uma organização militar a que também pertence a Arménia, reagiu com apatia e escusou-se a defender a sua correligionária, em grande contraste com o apoio da Turquia ao Azerbaijão.

Nagorno-Karabakh - The Latest News from the UK and Around the World | Sky  News

Desde então, a grande maioria da população arménia do Nagorno-Karabakh/Artsakh abandonou o território, temerosa do novo ocupante. A caravana de cerca de uma centena de milhar de pessoas que fugiu rumo à Arménia recordou as grandes levas de trocas de povos do pós-II Guerra. O Azerbaijão conquistou aquele território e olha agora para o que o separa do seu enclave de Naquichevan, na fronteira com o Irão (e a única parcela de território que confina com a aliada Turquia), com mal disfarçada ambição, o que pode significar novo conflito no horizonte.

Map of the recent developments in the Armenia - Azerbaijan conflict :  r/MapPorn

A Arménia, com pouco apoio no Ocidente, salvo o da França, onde existe uma importante comunidade de arménios, e sobretudo sem o suporte da Rússia, que seria o seu protector mas que não quer entrar em conflito com a Turquia, vê-se assim ameaçada de novo e começa a olhar de soslaio para a UE. E a Turquia de Erdogan marca pontos estratégicos e consegue fazer a Rússia acobardar-se. Esta provou que não só não é de confiança para com os que deveriam ser os seus aliados (um aviso para África?), já que nem os membros da própria organização de defesa podem contar com o seu auxílio, como mostra as suas limitações bélicas. Tão empenhada está na Ucrânia que não se pode estender a outras paragens, a não ser com mercenários.

E assim, no espaço de um mês, voltamos a ver os dois povos que sofreram os piores genocídios do século XX a serem brutalmente atacados ou sujeitos a limpeza étnica por expulsão: os judeus e os arménios. Os ciclos da História repetem-se com arrepiante dramatismo.

sábado, fevereiro 25, 2023

15 de Fevereiro de 2003

É certo que a efeméride que agora se comemora é outra, mas não queria deixar de recordar outra, mais antiga, que tem uma ténue ligação à da invasão da Ucrânia. Há pouco mais de uma semana passaram vinte anos sobre uma data que não teve grande eco nestes dias, mas que na altura não só era nota de primeira página como se tornou um marco da globalização. Refiro-me às enormes manifestações contra a invasão do Iraque, que acabaria mesmo por acontecer pouco mais de um mês depois, e que terão sido as primeiras realmente globais convocadas pela internet, ainda antes dos smartphones e das redes sociais, mas já com os blogues a despontar (e a dar-nos alguns dos melhores debates sobre a matéria).

O dia era 15 de Fevereiro de 2003. Tinham decorrido dez dias sobre o discurso de Colin Powell na Assembleia Geral das Nações Unidas, que, com a história das "armas de destruição maciça", tinha praticamente garantido que os Estados Unidos avançariam mesmo sobre Bagdade, assim cumprindo a primeira parte do plano contra o "Eixo do Mal" urdido pelos entusiastas neoconservadores, que na altura influenciavam decisivamente o Partido Republicano e a Casa Branca com a sua ideia de democratizar o Mundo e levar a pax americana a todo o lado nem que fosse à bomba (se bem que hoje, olhando para o GOP, quase tenha saudades deles). 

Apesar dos apoios, em especial dos tradicionais aliados dos EUA, começando pelo Reino Unido e Portugal e continuando pela "nova Europa", a reação seria dura, precisamente vinda da "velha Europa", com a França a liderar a oposição à guerra, secundada pela Alemanha, no que seria até uma mini-guerra cultural. Se uns chamavam contra os "belicistas" e "falcões", outros falavam em "covardia" e "anti-americanos" e acusavam a França de ser um país que estava habituado a render-se e que tinha sido graças aos EUA que a Europa se tinha livrado dos nazis (embora também se lembrasse com propriedade que os Estados Unidos deviam a sua existência à França pela ajuda decisiva na Guerra da Independência). O corolário dessa discussão seria a patética questão das "freedom fries", um nome aplicado efemeramente às "french fries", ou seja, às batatas fritas de palito, que algumas vozes mais com melhor memória lembraram ser belgas e não francesas (a isto se poderia chamar o síndrome Poirot).

E a 15 de Fevereiro, um Sábado, vieram as tais manifestações. Um pouco por todo o Mundo, mas particularmente na Europa e nos EUA, precisamente nos países cujos governos apoiavam a invasão. Socorrendo-me da Wikipedia, à falta de dados mais eficazes, a maior manifestação terá sido em Roma, com mais dois milhões de pessoas na rua, seguindo-se Madrid, Londres (ou seja, as capitais dos países que apoiavam a guerra), Berlim, Paris, etc. Um pouco menos participadas, as manifestações nos EUA tiveram ainda assim largas dezenas de milhar espalhadas por todo o território. Havia de tudo: anarquistas, artistas, freiras, estudantes, reformados, etc.



Curiosamente, o "resto do Mundo", que se deveria ter mobilizado mais contra a guerra, demonstrou uma tímida oposição popular. Na Rússia, que tentas vezes invoca esta invasão para se justificar, houve escassa oposição, na China nem houve, na Ásia, mesmo no Médio Oriente, e em África quase nem se viu. E se se pode sempre justificar com os regimes destes países, repare-se que no Brasil, de onde tenho visto críticas à "hipocrisia dos europeus", estiveram pouco mais manifestantes do que em...Malta.


Em Portugal também as tivemos. Na de Lisboa pontificava Mário Soares, ao lado de oitenta mil pessoas. No Porto bastante menos, cerca de cinco mil. Lembro-me de ir a essa, com epicentro na Praça dos Poveiros, por oposição à guerra mas também por alguma curiosidade sociológica. Por uma vez, Ferro Rodrigues estava carregado de razão: na véspera, o então secretário geral do PS declarara que embora estivesse totalmente contra a guerra, não iria apoiar oficialmente a manifestação (embora não estivesse contra) porque certamente haveria gente que aproveitaria para branquear o regime de Saddam Hussein. Dito e feito: entre os oradores, não faltaram aqueles que, claramente ligados ao PC, diziam conhecer o Iraque, afirmavam não haver quaisquer perseguições políticas e que Saddam o tinha transformado num país próspero e dinâmico. Ainda houve outras diatribes semelhantes, com discursos pró-Palestina e alguma propaganda, essa sim, anti-americana, como cartazes com insultos à porta do McDonalds por jovenzinhos anticapitalistas de ar pouco cuidado. Mas não dei a tarde por perdida. A causa fundamental era nobre e até reencontrei a minha velha professora da 1ª classe, que me ensinou a ler.

Esse dia ficaria na história, como disse, como o primeiro e provavelmente maior, até agora, manifestação global da História. Acho estranho não ter sido mais recordada, embora tivesse deixado claras sementes, e até Ian McEwan escreveu um romance, Sábado, baseado nesse dia. Mas achei importante recordá-lo, não apenas pelo momento em si mas pelo actual. É que tenho ouvido muito boa gente dizer que o Ocidente apoiou todo a Invasão ao Iraque, e que particularmente os europeus são "hipócritas" porque reclamam conta a invasão da Ucrânia e apoiaram a do Iraque. Pois este dia 15 de Fevereiro de 2003, e não só, prova que isso é mentira. É mesmo o contrário. Vai-se a ver e a França, o estado francês, opôs-se-lhe bem mais do que a Rússia e a China e os europeus manifestaram-se em massa contra a guerra, em claro contraste com a inacção de chineses, russos, brasileiros, indianos e do resto do mundo em geral. Houve muito mais indignação popular na Europa e nos Estados Unidos do que naqueles que agora se recusam a condenar a invasão da Ucrânia com a tese da invasão do Iraque (como se uma impedisse a outra, e aí está Sean Penn a prová-lo). E por cá, o PCP bramia contra a invasão de Bush mas vem sonsamente acusar a NATO de ser culpada da guerra na Ucrânia e Zelensky de ser "antidemocrático" e outras coisas que nunca disseram de Saddam. Por isso, quando ouvirem alguém com esta conversa desmemoriada e ignorante (ou de má fé) sobre a "hipocrisia dos europeus" e os "dois pesos e duas medidas" entre a invasão do Iraque e a da Ucrânia, recordem-lhes isto e mostrem que não eles têm qualquer moral para invocar whataboutismos falsos. A memória do 15 de Fevereiro cá está para lhos recordar.

terça-feira, abril 12, 2022

O Kosovo da Rússia

Notícias dos últimos dias dão-nos conta de que a Ossétia do Sul vai “iniciar o processo legal para se tornar parte da Rússia” através “de uma consulta popular”. Não é propriamente uma surpresa. Este é um procedimento que já vamos conhecendo: uma dada população está a ser atacada pelas forças governamentais, as tropas russas intervêm para a auxiliar, ocupam a região “em missão de paz”, organiza-se um “referendo” em poucos dias, e a população vota pela separação e, eventualmente, para se tornar parte da Rússia. Aconteceu antes e volta a acontecer.

Um dos argumentos utilizados é o precedente do Kosovo, saído da esfera da Sérvia, país próximo da Rússia. A região era habitada por uma maioria albanesa que sofreu uma tentativa de limpeza étnica por parte de Slobodan Milosevic e dos seus apaniguados, com currículo na matéria na Bósnia, como tristemente se sabe. A intervenção da NATO impediu-o, expulsando os sérvios e colocando o Kosovo sob protecção da ONU, até que em 2008 os kosovares proclamaram a independência, prontamente reconhecida pelos Estados Unidos e por mais uns quantos estados (Portugal incluído, meses depois, mas não Espanha, por razões óbvias). Criava-se assim, pelo menos de facto, um novo estado, como que uma segunda Albânia, de duvidosas capacidades para se manter e directamente arrancado à Sérvia, que nunca o aceitou (interpondo uma ação perante o Tribunal Internacional de Justiça, que não lhe deu razão). Nem a Rússia, que daí em diante aproveitaria o “precedente do Kosovo” nos casos da Crimeia, Donbass, e, logo em 2008, nos da dita Ossétia do Sul e da Abecásia. Mas estes últimos casos já vinham de longe.

No início dos anos noventa, o desmoronamento da URSS conduziu à independência das suas 15 repúblicas federativas. Algumas já se tinham entretanto separado, o que apressou o fim daquela federação. Era o caso da Geórgia, outrora um reino independente que vinha de tempos imemoriais, e que declarou independência em meados de 1991, depois de um referendo. Mas ao mesmo tempo, aproveitando o caos reinante e fazendo ressurgir velhas questões, outras subdivisões aproveitavam para reivindicar a sua autonomia. Aconteceu isso mesmo na Ossétia do Sul, um exíguo território a norte, separado do resto do resto do Cáucaso por enormes montanhas, e da Abecásia, uma faixa de território do noroeste da Geórgia, ao longo do Mar Negro, parte da “Riviera Soviética” e que se reclamava herdeira da mítica Cólquida, que se separou do território georgiano.

As duas aproveitaram para declarar a independência, o que originou uma reação dos georgianos. Estes, por sua vez, já andavam divididos numa guerra civil desde o derrube do presidente Zviad Gamsakhurdia, primeiro chefe de estado da Geórgia independente, e as suas forças não primavam pela capacidade bélica ou tecnológica. Para mais, as repúblicas rebeldes tiveram apoios externos. A Ossétia conseguiu a sua autonomia depois de meses de dura luta. Com a Abecásia seria mais demorado.

Aquela pequena república declarou a independência no verão de 1992, liderada por Vladislav Ardzinba, um académico especializado em civilizações da antiga Mesopotâmia, e que tentava o reconhecimento por todos os meios, tendo mesmo apoiado o golpe contra Gorbachov em Agosto de 1991. Os georgianos intervieram, sob pretexto de incidentes provocados por independentistas, e controlaram a maior parte do território, remetendo o governo da Abecásia para um pequeno espaço a Norte, perto o suficiente para conseguir receber reforços. Não o fizeram sem que as suas tropas, em parte eram regimentos semi-amadores, cometessem diversos crimes, entre os quais a destruição de preciosos arquivos, como aqui nos relata Thomas de Wall, então jovem jornalista lá estacionado para fazer uma reportagem sobre os gregos do Ponto (que foram  em boa parte resgatados por uma operação naval da Marinha Grega a que sintomaticamente chamaram Operação Velo de Ouro).

Os rebeldes abecásios receberam o apoio activo de uma miríade de guerrilheiros de várias partes do Cáucaso, chamada sintomaticamente Confederação dos Povos de Montanha do Cáucaso, que se deslocou para o território qual guerra santa. A maior parte eram islamitas, e entre os seus comandantes contava-se Shamir Basayev, que começaria aqui a sua carreira de atrocidades antes de se tornar mais conhecido pelos pelo seu papel nas guerras da Tchétchénia e pelos atentados contra a Rússia nos anos 2000, sendo o mais conhecido o massacre da escola de Beslan, vitimando inúmeras crianças, e o atentado ao teatro moscovita Dubrovka.  A estes juntaram-se voluntários arménios locais, que se diziam descriminados pelos georgianos, ossetas, cossacos e militares voluntários russos. Entre combates, avanços e recuos e algumas atrocidades de parte a parte, obteve-se um frágil cessar-fogo, mediado pela Rússia, que tinha um papel dúbio desde o início. Os georgianos baixaram então a guarda, apenas para serem surpreendidos por uma investida dos abecásios e seus aliados, que em poucos dias tomaram a capital, Sukhumi, com apoio indirecto russo, que lhes forneceram boa parte do armamento. Shevardnaze, que tinha ido pessoalmente à capital da Abecásia para dar moral à população, teve de fugir apressadamente de avião, o último a sair em segurança, já que os voos que se lhe seguiram, transportando civis em fuga ou soldados, foram abatidos pelos rebeldes sobre o Mar Negro. Seguiu-se a mortandade da população georgiana, incluindo o assassínio todas as autoridades da cidade, e a fuga de dezenas de milhares de pessoas para a Geórgia (ocasionalmente foram navios russos que levaram alguns civis para Sochi). A limpeza étnica tirou metade da população à Abecásia e a maior parte da população a Sukhumi.  


A guerra da Abecásia não teve grande repercussão no ocidente, já que na altura os acontecimentos eram dominados pela guerra na ex-Jugoslávia e a crise institucional na própria Rússia, que acabaria com o bombardeamento do parlamento, onde estavam barricados inúmeros opositores nacionalistas, estalinistas e o próprio vice-presidente rebelde Rutskoy, pelas forças de Yeltsin, a que se seguiriam eleições atribuladas que dariam a vitória ao ultra-radical Zhirinovsky, morto esta semana. Passou por isso relativamente despercebido o papel dos russos nesta guerra, já que embora só tivessem contribuído com soldados voluntários do lado dos abecásios, deram aos rebeldes não só armamento como todas as condições para progredirem, nunca tendo intervindo, antes pelo contrário, para fazer respeitar o cessar-fogo. Menos evidente são as razões porque o fizeram: se ainda por vingança pela separação da Geórgia, se porque a sua própria situação interna, minada por nostálgicos da URSS, não permitia grandes desvios. A verdade é que permitiu não só a secessão daquelas regiões e a limpeza étnica dos georgianos, de forma trágica, como deu força a que os rebeldes do Norte do Cáucaso iniciassem pouco depois uma guerra sangrenta pela independência da Tchétchénia e inúmeros grupos radicais islâmicos que deixariam um rasto de atentados violentos na Rússia.

Uma dos poucos chamadas de atenção para esta guerra é o filme Tangerinas, nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2013, passado com a guerra da Abecásia em fundo e a comunidade local de letões, e que esteve nos cinemas em Portugal e que já passou na RTP2.


A Geórgia terminaria a sua própria guerra civil no fim de 1993, com a morte, oficialmente por suicídio, do sitiado Gamsakhurdia. Em Agosto de 2008, aproveitando a distração com os Jogos Olímpicos de Pequim, a Geórgia, num período pós-Shevardnaze, liderada por Saakashvili, tentou reaver aqueles territórios, mas os planos foram gorados pelas forças armadas russas, que, agora directamente, rechaçaram os ataques e ainda entraram em território georgiano, num episódio relembrado agora com a invasão da Ucrânia. Logo a seguir, invocando o precedente do Kosovo desse mesmo ano, a Rússia agora de Putin reconheceu a independência da Abecásia e da Ossétia do Sul. Mais tarde, e para justificar a actual guerra movida contra a Ucrânia, reconheceu a independência das “repúblicas” de Donetsk e Luhansk, que previsivelmente copiarão a “vontade” da Ossétia em se juntar aos russos, tal como aconteceu em 2014 com a Crimeia. Não se sabe se o mesmo poderá acontecer à Transnístria, ocupada por uma guarnição russa, mas é possível. 

Não deixa de ser curioso como a Rússia se queixa constantemente do “cerco” da NATO ao mesmo tempo que durante anos cercou a Ucrânia na maior parte do seu território – a leste e a Norte, assim como a Bielorrússia, a sul, com a base de Sebastopol, cedida aos russos para sediar a base da frota do Mar Negro, a leste, com a dita Transnístria, e até a Noroeste, se considerarmos o enclave armado de Kaliningrado/Konigsberg.

Quanto à Abecásia, tem uma posição diferente: embora agradecida à Rússia, não se pretende juntar a ela. No entanto, está absolutamente dependente do gigantesco vizinho, que tem lá forças estacionadas. A economia depende da produção de tangerinas e do turismo balnear russo, sendo um destino mais barato que a vizinha Sochi. A população ficou reduzida a metade, com a limpeza étnica dos georgianos (e a fuga de outras etnias, como os gregos e os letões). A região parece parada no tempo, quase sem infraestruturas, ao contrário do resto da Geórgia, que progrediu consideravelmente. O próprio parlamento permanece devoluto, mais de 25 anos depois de sofrer estragos de guerra, como uma ferida aberta no centro de Sukhumi, uma ilustração do estado daquela terra. A secessão serviu para retalhar a Geórgia, sem dar um futuro melhor à Abecásia, e para que os radicais islâmicos se espalhassem com os resultados consequentes. Sim, a Rússia já teve os seus "Kosovos". E os seus "Bin-Ladens". A Rússia de Yeltsin permitiu-o. A de Putin, hostil com os vizinhos que querem sair da sua órbita, reafirmou-o, diminuindo a riqueza étnica e cultural da região e condenando os respectivos povos a uma inimizade permanente.



quarta-feira, março 02, 2022

A Ucrânia e as diferenças com o "whataboutismo"

Perguntava-me há dias se a situação na Ucrânia provocaria tanta comoção como quando houve a questão do Iraque. Nessa altura, houve uma jornada mundial de manifestações (talvez dos primeiros grandes efeitos da Internet), a 15 de Fevereiro de 2003, de protesto contra a iminente invasão do Iraque, com manifestações por toda a parte (se me perguntarem, sim, eu estive numa nessa data, no Porto, e no dia em que começou a guerra estive ao lado do iraquianos em Atenas).

Neste momento, felizmente, começa a haver um grande movimento contra esta invasão e a favor da Ucrânia. A diferença, pelo que me pareceu, é que é sobretudo no mundo ocidental, com o resto um pouco mais indiferente, mas espero estar enganado.
A propósito do Iraque, tenho visto as estafadas perguntas "então e o Afeganistão, o Iraque, a ex-Jugoslávia"...normalmente é um estratagema de whataboutismo para se poupar a Rússia por birra com o ocidente (a que pertencemos), porque uns não implicam outros. E quem as faz assobia para or perante a flagrante violação do direito internacional, que antes tanto dizia defender. Mas há apesar de tudo, diferenças, pelo menos nestes três.
O Afeganistão invadiu-se porque albergava uma colónia de terroristas que tinha provocado o 11 de setembro. Os Estados Unidos sofreram um ataque armado e pelo Direito internacional tinham todo o direito de se defender, como a ONU concordou. Outra questão será saber se administraram bem a situação após a fase militar.
Na ex-Jugoslávia, ou antes no Kosovo, estava a haver uma limpeza étnica das populações albanesas locais, de tal forma que tanques sérvios chegaram a atravessar a fronteira com a Albânia atrás de kosovares. Deu-se então uma intervenção da NATO, bombardeando não só forças militares mas também pontos estratégicos em Belgrado, o que levou à morte de alguns civis (e até ao bombardeamento por engano da embaixada chinesa). Sendo certo que uma intervenção para evitar situações como a que tinham ocorrido na Bósnia anos antes era mais que aconselhável, a verdade é que a NATO não tinha mandato da ONU e levou a acção longe demais para além dos objectivos.
O Iraque é que se sabe. Os EUA e alguns aliados, como campanha contra o "Axis of Evil" dos neoconservadores, conseguiram implicar Saddam Hussein com a Al-Qaeda, com a qual não tinha rigorosamente nada a ver, e inventar umas fantasiosas armas de destruição maciça, que Colin Powell "revelou" numa sessão das Nações Unidas em que o seu prestígio de décadas se estampou. O resto é história.
Qual é então, a grande diferença para os casos do Kosovo e do Iraque? É que no primeiro, apesar de ser ilegal, a intervenção conseguiu parar uma limpeza étnica que estava a ser comandada por um tirano, Slobodan Milosevic, de tal forma que no ano seguinte os sérvios não hesitaram em derrubá-lo.
No segundo, apesar de ser um desastre baseado numa mentira, a verdade é que o regime de Saddam era um dos piores facínoras da época e crimes contra a humanidade não faltavam.
E similar ao caso da ex-Jugoslávia poderíamos ir ao caso da Líbia, regida por um assassino que ia desencadear uma repressão violenta contra o seu povo.
No caso da Ucrânia, não só se trata de uma violação flagrante do direito internacional com base em mentiras descaradas (a suposta adesão do país à NATO) como atenta contra um presidente livremente eleito (venceu até o seu antecessor, que estava no cargo), e não um "neonazi", ao contrário do que se passa na Rússia. Ou seja, pelos argumentos da Rússia, a Ucrânia tinha todas as razões para a invadir, já que o regime de Putin ameaça a sua soberania, comete crimes contra o seu povo e só se "elege" prendendo e abatendo adversários.
Em suma: se havia razões para contestar a guerra do Iraque, mais razões ainda há para protestar contra a agressão à Ucrânia.



segunda-feira, fevereiro 08, 2021

As ajudas mútuas entre Portugal e a Áustria

A Áutria vai receber doentes portugueses com covid em cuidados intensivos. Confirma-se É uma ajuda preciosa e um bom exemplo de como pode funcionar a cooperação europeia. Até porque não é a primeira vez nesta crise pandémica que doentes de um país são acolhidos noutro.

Não só não é inédito entre os dois países como até teve exemplos pré-UE. Deve haver quem se lembre de ouvir os pais ou os avós falar de crianças austríacas que vieram para Portugal no fim da II Guerra, para serem acolhidas quando o seu país estava num estado lastimável, e precisava de ser reconstruído. Houve-as em toda a parte, num trabalho organizado pela Cáritas portuguesa, e dinamizado por uma princesa do Liechtenstein. Conheço vários exemplos de acolhimento dos meus familiares de Vila Real. Alguns mantiveram contacto, outros não e outros reapareceram ao fim de décadas, visitando inclusivamente as antigas famílias de acolhimento (em alguns casos nas mesmas casas). Muitas destas crianças vinham ainda com traumas, como o de fugir quando ouviam um simples foguete, pensando que era um bombardeamento, ou olhar pasmadas para as cascas de batatas a ser deitadas fora, como se servissem de alimento. Certamente que deveram muito do seu crescimento ao facto de terem vindo para cá nesse período de reconstrução da Áustria - e de outros, porque ao que me dizem também as houve de França e da Finlândia. Esperemos agora que bem menos portugueses tenham de ser acolhidos pelo chanceler Kurz.



quinta-feira, outubro 17, 2019

A exumação de Franco (e uma sugestão para o substituir)


Já é oficial. Depois de anos de contendas, discussões políticas e recursos judiciais vários, os restos mortais do generalíssimo Franco vão mesmo ser exumados. Dentro de dias, proceder-se-á à complicada operação de tirar a pesadíssima laje do altar-mor da basílica do Vale dos Caídos e levar a urna para o jazigo de família, onde repousará ao lado de Carmen Polo, sua mulher de sempre.

A operação, exigida por familiares de vítimas do regime franquista e por grupos de esquerda, além do próprio governo de Pedro Sanchez, em conformidade com uma alteração à controversa Lei da Memória Histórica, esteve sucessivamente adiada. Não é caso para espanto. Uma tal decisão, tomada finalmente pelas instâncias judiciais superiores espanholas, nunca poderia ser levada a cabo de ânimo leve. Porque mesmo que tenha passado sem problemas nas Cortes, sem votos contra, não deixou por isso de atrair a crítica dos partidos de centro e de direita, apesar da sua abstenção, de que era uma operação sem qualquer carácter de urgência e que poderia desenterrar (literalmente) ainda mais velhas feridas de guerra.

É verdade que há boas razões para que o "Caudilho" saia dali. Desde logo a razão jurídica, porque a intenção era a de albergar os restos mortais das vítimas de guerra, dos dois lados, e Franco, ao contrário de José António Primo de Rivera, que jaz ao seu lado, não o era. Depois porque o próprio Franco nunca manifestou vontade de ser levado para ali depois de morto. E sobretudo porque o mentor de uma longa ditadura de décadas, responsável por boa parte das mortes da guerra, incluindo as de alguns ali sepultados, nunca poderia ser considerado um factor de reconciliação. Sejamos justos: o Vale dos Caídos é antes de mais um altar ao triunfo dos nacionalistas, e não, como oficialmente se pretendeu, à reconciliação da Espanha "una, grande y libre".

Também há razões contrárias atendíveis: os espanhóis têm mais com que se preocupar além da exumação, remexer nas feridas da guerra, de que quase não restam sobreviventes, não prima pela sensatez, além do gosto duvidoso e dos custos da operação e da entrada de máquinas num recinto religioso. E é sabido que para alguns grupos, como o Podemos, bom era dinamitar todo o conjunto do Vale dos Caídos, Cruz, basílica, abadia, etc, e exumar antes os milhares de corpos que lá se encontram, como se isso fosse tecnicamente possível. Contrariando a norma de que "a história é feita pelos vencedores", a da Guerra Civil de Espanha é cada vez mais feita pelos vencidos.

Este ano logrei finalmente ir ao Vale dos Caídos, aproveitando uma ida a Madrid. Para quem vem de longe nem sempre é tarefa fácil, já que fecha relativamente cedo, e desde a entrada do parque há que fazer alguns quilómetros até ao santuário propriamente dito. O conjunto é impressionante, com a colunata, em frente a um amplo terreiro de onde se avista Madrid ao longe, a guardar o enorme pórtico que dá acesso à basílica. Em cima, dominando o conjunto, a emblemática e colossal cruz de granito, que se vê a muitos quilómetros de distância, com 150 metros de altura. No templo propriamente dito, escavado sob a montanha, obra que se diria construída por ciclopes, uma comprida nave conduz ao altar-mor, onde (ainda) se podem ver os túmulos de Franco e de Primo de Rivera. Há inúmeras capelas adjacentes. Numa delas rezava-se missa segundo o "rito antigo", com o padre virado para o altar. É expressamente proibido tirar fotografias lá dentro.



Tudo isto num estilo totalitário-cristão, que se não fossem os símbolos poderia perfeitamente fazer parte dos planos de Albert Speer ou da Moscovo estalinista.  A abadia que se esconde atrás da montanha é mais modesta e harmoniosa, mas ainda assim de grande dimensão. A sensação é de temor, admiração e algum desconforto. Não se vai a um tal monumento de ânimo leve. Até porque afinal de contas se trata de uma necrópole, e sob ela jazem quase trinta e cinco mil vítimas da guerra.

Franco vai sair dali, não restam dúvidas. Mas ainda que sem o "caudilho", o carácter do Vale dos Caídos permanece igual, sem que os ânimos estejam apaziguados. Houve propostas para se mudar também Primo de Rivera, mas é extremamente improvável. Fica portanto um vazio no altar-mor. É certo que já não se enterram pessoas nas igrejas, mas não se poderia pensar em substituir o espaço vazio com um símbolo de verdadeira reconciliação? Para isso, teria de ser alguém do lado dos vencidos. Mas alguém que além de vítima de guerra, fosse digno de estar ali. Seria estranho enterrar num templo católico um anticlerical. Haveria uma escolha perfeita. Digo "haveria" porque também nunca se encontrou o seu corpo.

Falo, evidentemente, de Federico Garcia Lorca, fuzilado por falangistas (que o conseguiram subtrair a outros falangistas, num processo ainda hoje obscuro), enterrado numa vala comum ainda hoje por descobrir. Lorca, o maior poeta do seu tempo, era odiado por Franco e outros do seu "lado", mas recolhia igualmente a admiração de muitos nacionalistas, a começar por Primo de Rivera, com quem se dava e que apreciava imensamente a sua obra. Liberal, homossexual e boémio, Lorca não era evidentemente apoiante do lado nacionalista. Mas também estava longe dos radicalismos republicanos, comunistas ou anarquistas que dominavam o outro lado. Era no entanto, segundo o próprio, "católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista e monárquico", e "espanhol integral".

Lorca seria a peça ideal em falta para a reconciliação na basílica do Vale dos Caídos. Também ele um "caído" por aquilo em que cria, uma vítima da guerra, um liberal cosmopolita e cristão, os seus restos mortais poderiam repousar ao lado no altar-mor do templo, ao lado de Primo de Rivera, morto pelos mesmos dias pelo bando oposto. Seria o remate perfeito e simbólico do fim da guerra, cuja memória continua a envenenar Espanha. Talvez um dia os seus despojos sejam encontrados e se possa proceder ao enterro digno a que nunca teve direito. Se isso acontecer, quem sabe se as memórias desses anos de chumbo não ficam apaziguadas.

segunda-feira, abril 09, 2018

La Lys: uma mortandade há cem anos.


Há cem anos acontecia o desastre (quase anunciado) de La Lys. Nas trincheiras da Flandres, a IIª Divisão do CEP - Corpo Expedicionário Português - sofria uma humilhante e enormíssima derrota. Num só dia, sete mil e quinhentos soldados e oficiais eram mortos ou feitos prisioneiros pela poderosa máquina de guerra prussiana, superior em número, em treino e em equipamento. O CEP, a que alguns previdentes chamaram Carneiros Exportados de Portugal, era composto por soldados mal treinados e armados, com pouca experiência de combate, comandados por uma oficialidade medíocre, habituada aos quartéis, a África (poucos) e à pancada de rua tão comum nesses tempos atribulados. Estavam enfraquecidos pelo tempo e pelas condições a que eram sujeitos, desmotivados e sem os reforços previstos, apesar de se anunciar uma rendição de contingentes para as horas seguintes. Tinham ido em grande parte contrariados, obrigados pela República, que pretendia a todo o custo uma qualquer glória que a legitimasse a nível internacional. Os argumentos eram de que se não se interviesse no cenário europeu se perderiam as colónias para ingleses e alemães, "a importância portuguesa no mundo" e até que Portugal seria invadido. Ou seja, um conjunto de desculpas esfarrapadas para legitimar tal intervenção para além da estrita defesa das colónias, e que aliás era desaconselhada pela Inglaterra, que apenas aí via um estorvo.

O resultado de Afonso Costa, João Chagas e Jaime Cortesão andarem a brincar às guerras é conhecido. Em quatro horas dessa madrugada de 9 de Abril, milhares de mortos abatidos pela artilharia germânica na forte ofensiva comandada pelo lendário Erich Von Ludendorff, pânico generalizado entre as hostes portuguesas, e o avanço rápido dos alemães entre o vazio provocado pelas brechas da 2ª divisão. Houve alguns actos de heroísmo sobre-humano, como o do "soldado Milhões", outro de entre muitos que tinham sido levados da sua aldeia para as trincheiras, mas a maioria daqueles homens a quem chamaram soldados sem lhes ensinar esse estatuto debandou ou lá ficou.

Os portugueses foram carne para canhão nesse desgraçada aventura, uma das maiores derrotas lusas a par de Alcácer-Quibir ou Alcântara. Portugal ficou entre os vencedores da Guerra, mas pouco recebeu por isso. Pelo contrário, os gastos deixaram as finanças públicas em estado lastimável, escassearam os bens de primeira necessidade e deram-se revoltas populares, violentamente rechaçadas. Curiosamente, morreram quase tantos soldados como em toda a Guerra Colonial. Invoca-se o nacionalismo do Estado Novo para justificar a pesada operação mantida em África. Mas as menos aí defendíamos o que era nosso e a superioridade militar sobre os insurgentes era evidente. Em La Lys, defendíamos apenas uma noção republicana de nacionalismo, enviando uns pobres coitados que mal sabiam disparar uma arma para as horríveis trincheiras, fazer frente a forças imensamente superiores. Uma triste memória e um crime que a República em vão tentou apagar, mas que seria mais um motivo para a sua impopularidade e subsequente queda, em 1926, curiosamente às mãos do comandante dessa desafortunada 2ª divisão do CEP: Gomes da Costa.

Paz às suas almas, desses pobres soldados tombados a 9 de Abril de 1918. Há cem anos.


* Texto escrito há dez anos neste mesmo blogue, e devidamente actualizado.











sábado, novembro 04, 2017

Agradecer aos catalães pela Restauração? E aos outros?


Uma das trivialidades que mais se tem repetido nos últimos tempos, a propósito da situação na Catalunha, é que Portugal "deve a sua independência" aos catalães, em razão da revolta que por lá estalou em 1640 ter permitido que as tropas espanholas se concentrassem naquele território e se desviassem deste rectângulo mais a oeste. Conceitos de independência à parte, os defensores desta tese nem notam que estão a reduzir Portugal a um mero estatuto regional e a colocar uma nação velha de séculos ao lado de regiões que nunca foram estados, e que circunstancialmente têm um grupo grande que o pretende formar um.

É bizarro que se considere sequer que os seguidores de Pau Claris tivessem pensado um segundo que fosse em Portugal. Mas e se a tese da gratidão que devemos aos catalães fosse correcta? Nesse caso, pecaria por defeito. É que seria mais fácil escolher quem é que não estava em guerra com a Espanha nesses anos quarenta do século XVII do que o contrário, incluindo (ou sobretudo) nos seus próprios domínios.

A década começou com a Guerra dos Trinta Anos contra a França, as Províncias Unidas (Holanda), um ex-domínio que procurava manter, e os adversários dos Habsburgos em geral, além de algumas batalhas navais com a Inglaterra. Os tercios espanhóis, uma máquina de guerra temível ao tempo, combatiam nos Pirinéus, na Flandres, nos Países Baixos e na Alemanha, e obtiveram alguns êxitos, como a tomada de Breda, imortalizada por Velasquez.

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Em 1640 rebentou a referida revolta catalã, ou "Guerra dos Segadores", que começou por ser uma revolta popular contra os abusos das tropas aí estacionadas, e que acabou por levar a Generalitat a proclamar a República e a aclamar posteriormente Luís XIII como soberano. A revolta e a perda de território para o inimigo levaram a que Espanha deslocasse mais tropas para a região, que seria recuperada (parte dela, já que Perpignan ficou para os franceses) apenas em 1659. É este o pretexto para se dizer que "Portugal deve a sua independência à Catalunha".

Mas ao contrário do que se pensa, a Catalunha não foi a única rebelião ibérica. Uma conspiração andaluza, encabeçada por Grandes de Espanha, começando pelo nobilíssimo Duque de Medina Sidónia  (irmão da já então Rainha de Portugal D. Luísa de Gusmão), impediu que tropas espanholas se concentrassem perto de Portugal. A conspiração acabou por ser descoberta e os seus autores punidos com o cárcere e perdas de bens e regalias, mas ficou na dúvida quais os reais motivos da conjura, havendo quem creia que se pretendia mesmo a secessão da Andaluzia com Medina Sidónia como novo soberano de Sevilha, com o auxílio do real cunhado.

Mais tarde, em 1648, outro grupo de conspiradores, estes em Aragão, veriam também os seus planos desfeitos. Aqui a conjura era ainda mais ambiciosa: pretendia, com auxílio de França e Portugal, separar o velho reino de Aragão de Castela, apoiando a Catalunha, oferecendo alguns territórios aos franceses e a Galiza a Portugal. Infelizmente para os galegos, também esta não conseguiu ir avante.

Por essa altura já tinha rebentado a revolta contra os vice-reis de Nápoles, na época também sob a coroa dos Habsburgos, chefiada pelo pescador guerreiro Manasiello. Num primeiro momento, as tropas no terreno sufocaram a revolta e liquidaram Manasiello, mas pouco tempo depois houve novo levantamento, que levou à proclamação da república "régia" de Nápoles, entregando o título de Doge a Henri de Guise. A situação durou menos de um ano, até que os espanhóis, comandados pelo Infante D. João José de Áustria, tomaram de novo a cidade sem grande resistência, depois de uma estratégia de paciência e de conquista gradativa. Só em fins do século XVIII Nápoles teria o seu primeiro rei nascido em sol italiano.

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Para se ficar com uma ideia mais ampla dos sarilhos com que Espanha se deparava na época, e se não se quiser percorrer grandes calhamaços de história,os livros de Arturo Perez Reverte, nomeadamente os da saga do Capitão Alatriste (que também existe em filme, com Viggo Mortensen a interpretar o vigoroso mercenário, e em série), onde entram figuras reais como Francisco de Quevedo e o Conde-Duque de Olivares (figura contra a qual boa parte destas revoltas se dirigiu) são um bom guia da situação

Ou seja, se queremos agradecer a quem, pela sua oposição desviou as atenções e os recursos da temível força terrestre espanhola, devemos agradecer não apenas aos "nossos irmãos" catalães, mas também aos "nossos irmãos" franceses, holandeses, flamengos, napolitanos, e também a alguns andaluzes e aragoneses. E os que formarem movimentos secessionistas terão todos a nossa solidariedade. A gratidão é uma virtude muito bela e não devemos excluir ninguém.

terça-feira, agosto 22, 2017

Uma conversa sobre Mosul em Moledo




É possível, numa noite de segunda-feira de nevoeiro, em Agosto, numa povoação balnear em que as pessoas estão sobretudo a pensar no dia seguinte de férias, nos viras que se tocam mais acima ou em conversas à volta da cerveja ou do whisky nocturno, levar um número apreciável de gente ouvir um testemunho de alguém que esteve nos locais mais deserdados deste Mundo - Afeganistão, Síria, RD Congo, Mosul? Absolutamente.

Gustavo Carona, anestesista no hospital Pedro Hispano de Matosinhos pertencente aos Médico sem Fronteiras, já com cinco missões em zonas particularmente difíceis, esteve recentemente em Mosul, na parte tomada ao Daesh, e parte em breve para a República Centro-Africana, deu o seu testemunho do que viu, do contacto que teve com populações atingidas por vários fogos e em situação crítica, e do que pensa sobre a guerra e as suas motivações, tanto de uns lados como de outros. A conferência (ou melhor, a tertúlia), teve lugar em Moledo, com a presença de Álvaro de Vasconcelos, conhecido especialista em assuntos internacionais e apresentado por João Pimenta (Pai do escritor destas linhas). E desenrolou-se uma conversa e um testemunho sem cinismos - uma das grandes fatalidades desta nossa era, em que tanta gente tem medo de expor sentimentos ou de dar "parte de fraca" - mas também sem lamechices ou sentimentalismos bacocos. Objectiva, clara, realista, e por vezes tocante. 

A conferência também serviu para (re)apresentar o livro que coordenou, 1001 Cartas para Mosul, e a sua venda reverte para os Médicos Sem Fronteiras (cuja história e missão também explicou) e para a Plataforma de Apoio aos Refugiados. O livro, como o título indica, é composto de mil e uma mensagens - que nos remetem para as Mil e Uma Noites, também com origem no que é o actual Iraque - em português, inglês e árabe, destinadas à população daquela desgraçada cidade, totalmente destruída e parcialmente liberta, já que os sunitas residentes têm sofrido abusos às mãos das milícias xiitas, eles próprios também vítimas da violência sunita.
De qualquer forma, prova-se que em férias também é possível haver conversas sérias, objectivas, anti-cinismos, e que atraem assistências numerosas (não se fiem na fotografia).

sábado, junho 17, 2017

Seis Dias que abalaram o Médio Oriente

 
Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.

Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, que arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscada, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.

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 A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.

A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel conseguia o velho sonho de se apoderar de toda a Jerusalém, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

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A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes superiores em número e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia permanecem na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.

segunda-feira, novembro 14, 2016

Nos sessenta anos da atribulada Crise do Suez




É possível que os jornais estejam mais virados para assuntos da actualidade, como o orçamento de estado, a questão com os novos corpos sociais da CGD, o rescaldo das eleições presidenciais nos Estados Unidos e a a batalha por Mossul. Mas nas efemérides que constantemente aparecem, não teria sido pior se houvesse referência a uma situação internacional de enorme relevo que acabou há precisamente 60 anos: a Crise do Suez.

Em Julho de 1956, prosseguindo uma política de pan-arabismo e de exaltação nacionalista desde o golpe de estado que afastara o Rei Faruk do trono do Egipto, Gamal Abdel Nasser anunciou a nacionalização da Canal do Suez, detido e administrado por uma companhia pertencente desde a abertura daquela enorme obra de engenharia a franceses e britânicos. O direito de passagem estava garantido até em tempos de guerra e garantia a neutralidade do canal. Em 1936, em boa motivados pela invasão italiana à Etiópia, o Reino Unido e o Egipto tinham celebrado um tratado permitindo que tropas britânicas se mantivessem na área adjacente ao canal. A duração era de vinte anos, ao fim dos quais as forças britânicas aí estacionadas sairiam do Egipto, o que efectivamente aconteceu. E logo a seguir, o anúncio da nacionalização.

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A reacção do governo britânico foi de choque, apesar das desconfianças sobre Nasser, e de indignação. Eden chamou ao presidente egípcio "Mussolini do Nilo" e estabeleceu comparações entre a nacionalização do canal e a reocupação militar da região do Reno pela Alemanha, vinte anos antes, pretendendo que a opinião pública britânica visse uma repetição dos anos trinta em versão árabe. Eden era defensor da ideia do Império Britânico, mas se por um lado tinha seguidores ainda mais acirrados nesse propósito (que argumentavam que a independência da Índia seria a contrapartida da manutenção do controlo do canal), outros não queriam pensar em nova guerra, frescas que estavam as recordações da década anterior.

Em posição idêntica encontrava-se a França, que já perdera a Indochina e parte do norte de África, mantinha a custo o porto de Djibuti, no "Corno de África", e estava numa guerra com as forças independentistas da Argélia, apoiadas por Nasser. O primeiro-ministro francês, o socialista Guy Mollet, simpatizante da Inglaterra, sustentava Eden na ideia de que Nasser poderia ser um perigo semelhante a Hitler. E por razões de inimizade com o Egipto e receio de que a sua passagem fosse definitivamente interdita, também Israel via a nacionalização com o maior receio.

Realizaram-se imediatamente conferências para sentar à mesa as partes interessadas, mas por mais que os Estados Unidos tentassem resolver o diferendo pela negociação (e ao mesmo tempo atrair o Egipto, que se aproximara da URSS, para a sua esfera de influência), a intransigência não permitiu que se chegasse a qualquer acordo.

Na sequência do falhanço das negociações, altas esferas do Reino Unido, Faça e Israel reuniram-se secretamente em Sèvres para delinear um plano de reacção militar, que seria também uma prova de autoridade. Israel entraria no território egípcio sob o pretexto de combater os fedayeen que constantemente atacavam o seu território. A França e o Reino Unido exigiriam de Israel e do Egipto que recuassem numa linha de vários quilómetros do canal, contando obviamente com a recusa deste último para intervir militarmente. O plano correu como o esperado, com Israel a entrar pelo Sinai e a ocupar vários pontos estratégicos (incluindo os que no no golfo de Aqaba, à entrada para o Mar Vermelho, ameaçavam o tráfego marítimo até Eilat), mas parando antes do Suez. Ante a recusa do Egipto em recuar, em fins de Outubro forças francesas e britânicas, que tinham sido já deslocadas em grande número para as bases que o Reino Unido tinha em Chipre e Malta, bombardearam maciçamente posições egípcias, usando uma novidade para a época, os helicópteros, permitindo que tropas pára-quedistas fossem ocupando pontos importantes, apesar da forte resistência dos locais, que fecharam o Suez à navegação e o bloquearam com navios. Mas a operação militar conjunta resultou num enorme êxito, para mais com poucas baixas.

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Contudo, se militarmente as coisas corriam como previsto, no plano político os planos saíram furados. Os Estados Unidos, com eleições à porta, temiam que os aliados árabes do Egipto provocassem uma crise no abastecimento do petróleo e a consequente subida dos preços, em plena ascensão do American Way of Life. Ao mesmo tempo, a URSS intervinha na Hungria, para esmagar e tentativa de mudança de regime, e aproveitou a situação no Egipto para desviar as atenções e os protestos que se faziam sentir. Nikita Krushev ameaçou as forças intervenientes no Suez, usando até a ameaça nuclear, com a possibilidade de usar bombas atómicas contra Paris e Londres. Perante estes cenários, e perante as hesitações de França e Reino Unido, os Estados Unidos de Eisenhower conseguiram que a Assembleia Geral da ONU votasse a favor de um cessar-fogo e ameaçou com operações monetárias contra a libra esterlina. Sob pressão de todos os lados, O Reino Unido teve de assinar um cessar-fogo a 6 de Novembro, e a França não pôde fazer outra coisa senão seguir os mesmos passos, e em Dezembro as forças de intervenção eram substituídas por elementos da ONU. 

A aventura do Suez começou com o optimismo inconsciente das ex-grandes potências e terminou com a sua derrota e humilhação. De facto, tratou-se da última grande intervenção dos impérios coloniais cessantes, e uma passagem de testemunho simbólica para as novas superpotências, EUA e URSS. No Reino Unido, Eden demitiu-se, sendo substituído por MacMillan, que, pragmático ante o fim do império, inflectiria a política externa fazendo com que os britânicos se tornassem nos mais leais e duradouros aliados dos Estados Unidos. Do lado da França, seria também um prenúncio do fim definitivo do império colonial, da Vª República corporizada em De Gaulle e do afastamento dos anglo-saxónicos e no incremento da CEE, que se formaria menos de um anos depois, em Roma (como retorquiu Konrad Adenauer a Guy Mollet, "a Europa será a vossa vingança"), e onde, enquanto De Gaulle viveu, o Reino Unido não teve lugar, uma atitude que se reflectiu também no afastamento dos franceses da NATO, embora os gaullistas receassem igualmente a União Soviética.

Os Estados Unidos viram confirmado o seu estatuto de superpotência, e a URSS mais ainda, pois não só manteve a Hungria sob o seu domínio  como conseguiu fazer do Egipto um aliado próximo, tendo sido engenheiros soviéticos a projectar a Barragem de Assuão, além de fazer recuar nações como a França e o RU. 

Por outro lado,o Egipto conseguiu transformar uma derrota militar numa enorme vitória política: manteve o domínio do Suez e Nasser afirmou-se como líder árabe e do "Terceiro-Mundo". Israel, embora tivesse de recuar às fronteiras originais, obteve liberdade de passagem no canal e no Mar Vermelho e mostrou o que valia militarmente, o que reafirmaria mais tarde, na Guerra dos Seis Dias. Além disso, reforçou os laços com britânicos e franceses 

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A crise do Suez, acontecimento maior dos anos 50, definiu a Guerra Fria: confirmou as novas superpotências, demonstrou a decadência militar dos europeus, deu incremento à descolonização e definiu também as tendências do Médio Oriente para os vinte anos seguintes. Agora que se avista o pós-pós Guerra Fria e um multilateralismo imprevisível, talvez não fosse pior relembrar as lições de crises passadas e tomá-las em conta para prevenir as que possam ou estejam a surgir. Sessenta anos não é assim tanto tempo.

quarta-feira, outubro 12, 2016

O discurso de Unamuno


No Delito de Opinião, Pedro Correia recorda que passam oitenta anos do corajoso e tonitruante, se não no tom de voz pelo menos na sua carga moral e emocional, discurso de Miguel de Unamuno na Universidade de Salamanca, em frente a Millan Astray, Carmen Polo e José Maria Péman. Aconteceu em 12 de Outubro de 1936, e seria a última aparição pública do velho filósofo da Geração de 98, numa altura em que Espanha mergulhava na mais horrível e dramática das guerras.

 

quarta-feira, julho 20, 2016

A guerra que começou há 80 anos


Há 80 anos, a 17 de Julho de 1936, começava o levantamento de Franco e de outros generais para derrubar a república, no seguimento de vários incidentes que culminaram com o assassínio de Calvo Sotelo, líder da direita parlamentar. Como se sabe, o levantamento teve eco nalguns pontos do país, mas falhou noutros, desde logo em Madrid e Barcelona, dando origem à terrível guerra civil que durante três anos devastou o país vizinho. Enfrentaram-se dois blocos políticos antagónicos divergentes mesmo entre si, os republicanos ou lealistas (que incluíam republicanos maçons, liberais, socialistas, comunistas, trosquistas, anarquistas, autonomistas bascos e catalães, entre outros). apoiados pela URSS e pelo México, e os nacionalistas (sobretudo monárquicos, conservadores, falangistas-fascistas, carlistas), apoiados pela Alemanha, Itália e oficiosamente, por Portugal. Com superior máquina de guerra e forças mais preparadas, e aproveitando-se das encarniçadas lutas internas no campo adversário, foram estes últimos os vencedores, ganhando terreno ao campo republicano até à queda de Barcelona, Valência e Madrid, em 1939. Nesses três anos terríveis houve atrocidades das duas partes, com quase mais mortos que prisioneiros. Meses depois do fim, começava a 2ª guerra Mundial.
       Manuel Azaña e Francisco Franco, os dois grandes representantes de cada lado, ainda em tempos da república
 
Os 80 anos do início da Guerra caem precisamente numa altura em que Espanha está sem governo efectivo depois das inconclusivas eleições de 26 de Junho, em que o risco de secessão da Catalunha é real, em que a classe política está desprestigiada e surgem novos actores partidários, quiçá mais radicais, e em que Espanha está ameaçada pela Comissão Europeia de novas sanções. Aparentemente, o único problema afastado é a questão de regime. E nalguns casos, certos fantasmas dos anos trinta parecem reaparecer, sobretudo quando há radicais ou irresponsáveis que os trazem à luz do dia.
 Claro que hoje em dia a sociedade espanhola não está tão dividida como em 1936, salvo nos nacionalismos catalão e basco (o galego é mais uma teimosia de sectores minoritários), já que pode haver combinações possíveis, impensáveis há oitenta anos (por exemplo, monárquico e autonomista). À esquerda, o PCE e sobretudo o PSOE são muito diferentes do que eram na altura, as formações republicanas azañistas são irrelevantes, os anarquistas também definharam (a sede da CNT/FAI em Barcelona é quase imperceptível, como tive ocasião de verificar), o POUM é uma memória; à direita, a Falange não é mais que meia dúzia de saudosistas (e todos os partidos neofranquistas foram um fracasso), os carlistas, ainda mais minoritários, dividiram-se numa pequena facção de esquerda e noutra de direita, e monárquicos há-os em toda a parte; curiosamente, talvez seja o PP o mais parecido com um dos grandes partidos da época, a CEDA, de Gil Robles (cujo filho, o espanhol que melhor português vi falar, pertence ao PP e chegou a presidente do Parlamento Europeu), embora num contexto muito menos tenso. Aparentemente, o Podemos é a formação com mais saudades da república, como se provou com alguns militantes destacados fazendo manifestações anticlericais, mesmo sabendo ao que isso levou. E a sua implantação crescente não é um bom sinal.
Mas a lição da história parece ter caído bem nos espanhóis. Aparentemente, e a julgar pelos resultados eleitorais, os povos vizinhos não têm grande vontade de reviver os anos trinta, nem sequer nos cenários de secessão.

É irónico que nos últimos dias vários periódicos do nosso país tenham publicado uma qualquer sondagem em que mais de 70% dos portugueses veriam com bons olhos uma união ibérica. Tenho dúvidas nos métodos do inquérito e se as pessoas perceberam bem o que lhe perguntaram. Mas aos  iberistas que ficariam muito agradados numa fusão por questões fiscais e outras razões menores, devia-se-lhes perguntar se também gostavam de ser "ibéricos" ao tempo da Guerra de Espanha, como tudo o que isso implicou. Tenho ideia que o seu fervor se dissiparia num instante.

terça-feira, janeiro 05, 2016

2016 começa bem



Começou 2016 e temos já a primeira crise internacional: o corte de relações entre a Arábia Saudita e o Irão. A vaga de execuções que envolveu dezenas de xiitas, em especial a do clérigo Nimr al-Nimr, provocou reacções intempestivas no Irão, sobretudo, no Iraque, e no Líbano, e levou a trocas de acusações, corte total de relações e proibição de voos entre o Irão e o reino dos al-Saud. Se a situação já era tensa entre os dois blocos comandados por estes dois países, sobretudo na Síria, é de prever que piore muito, com repercussões no preço do petróleo (embora estivesse num nível baixíssimo) e sobretudo na intensificação do conflito no que resta do estado presidido por Hassad, no Líbano, cujos bairros xiitas sofreram recentemente atentados, e no Iémen, onde a rebelião dos Houthis xiitas contra o actual poder sunita apoiado (militarmente) pelas monarquias do Golfo estava a acalmar-se.
Registe-se que na sequência das execuções a embaixada da Arábia Saudita sofreu uma invasão e chegou a ser parcialmente incendiada por uma turba, a fazer lembrar a ocupação da embaixada americana em 1979 (se virem o filme Argo está lá tudo no início), com a diferença de que desta vez não houve prisioneiros e reféns e que as autoridades intervieram. O Irão é um país interessantíssimo, mas não deve ser fácil ser diplomata de um estado que tenha relações tensas com Teerão.