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segunda-feira, novembro 14, 2016

Nos sessenta anos da atribulada Crise do Suez




É possível que os jornais estejam mais virados para assuntos da actualidade, como o orçamento de estado, a questão com os novos corpos sociais da CGD, o rescaldo das eleições presidenciais nos Estados Unidos e a a batalha por Mossul. Mas nas efemérides que constantemente aparecem, não teria sido pior se houvesse referência a uma situação internacional de enorme relevo que acabou há precisamente 60 anos: a Crise do Suez.

Em Julho de 1956, prosseguindo uma política de pan-arabismo e de exaltação nacionalista desde o golpe de estado que afastara o Rei Faruk do trono do Egipto, Gamal Abdel Nasser anunciou a nacionalização da Canal do Suez, detido e administrado por uma companhia pertencente desde a abertura daquela enorme obra de engenharia a franceses e britânicos. O direito de passagem estava garantido até em tempos de guerra e garantia a neutralidade do canal. Em 1936, em boa motivados pela invasão italiana à Etiópia, o Reino Unido e o Egipto tinham celebrado um tratado permitindo que tropas britânicas se mantivessem na área adjacente ao canal. A duração era de vinte anos, ao fim dos quais as forças britânicas aí estacionadas sairiam do Egipto, o que efectivamente aconteceu. E logo a seguir, o anúncio da nacionalização.

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A reacção do governo britânico foi de choque, apesar das desconfianças sobre Nasser, e de indignação. Eden chamou ao presidente egípcio "Mussolini do Nilo" e estabeleceu comparações entre a nacionalização do canal e a reocupação militar da região do Reno pela Alemanha, vinte anos antes, pretendendo que a opinião pública britânica visse uma repetição dos anos trinta em versão árabe. Eden era defensor da ideia do Império Britânico, mas se por um lado tinha seguidores ainda mais acirrados nesse propósito (que argumentavam que a independência da Índia seria a contrapartida da manutenção do controlo do canal), outros não queriam pensar em nova guerra, frescas que estavam as recordações da década anterior.

Em posição idêntica encontrava-se a França, que já perdera a Indochina e parte do norte de África, mantinha a custo o porto de Djibuti, no "Corno de África", e estava numa guerra com as forças independentistas da Argélia, apoiadas por Nasser. O primeiro-ministro francês, o socialista Guy Mollet, simpatizante da Inglaterra, sustentava Eden na ideia de que Nasser poderia ser um perigo semelhante a Hitler. E por razões de inimizade com o Egipto e receio de que a sua passagem fosse definitivamente interdita, também Israel via a nacionalização com o maior receio.

Realizaram-se imediatamente conferências para sentar à mesa as partes interessadas, mas por mais que os Estados Unidos tentassem resolver o diferendo pela negociação (e ao mesmo tempo atrair o Egipto, que se aproximara da URSS, para a sua esfera de influência), a intransigência não permitiu que se chegasse a qualquer acordo.

Na sequência do falhanço das negociações, altas esferas do Reino Unido, Faça e Israel reuniram-se secretamente em Sèvres para delinear um plano de reacção militar, que seria também uma prova de autoridade. Israel entraria no território egípcio sob o pretexto de combater os fedayeen que constantemente atacavam o seu território. A França e o Reino Unido exigiriam de Israel e do Egipto que recuassem numa linha de vários quilómetros do canal, contando obviamente com a recusa deste último para intervir militarmente. O plano correu como o esperado, com Israel a entrar pelo Sinai e a ocupar vários pontos estratégicos (incluindo os que no no golfo de Aqaba, à entrada para o Mar Vermelho, ameaçavam o tráfego marítimo até Eilat), mas parando antes do Suez. Ante a recusa do Egipto em recuar, em fins de Outubro forças francesas e britânicas, que tinham sido já deslocadas em grande número para as bases que o Reino Unido tinha em Chipre e Malta, bombardearam maciçamente posições egípcias, usando uma novidade para a época, os helicópteros, permitindo que tropas pára-quedistas fossem ocupando pontos importantes, apesar da forte resistência dos locais, que fecharam o Suez à navegação e o bloquearam com navios. Mas a operação militar conjunta resultou num enorme êxito, para mais com poucas baixas.

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Contudo, se militarmente as coisas corriam como previsto, no plano político os planos saíram furados. Os Estados Unidos, com eleições à porta, temiam que os aliados árabes do Egipto provocassem uma crise no abastecimento do petróleo e a consequente subida dos preços, em plena ascensão do American Way of Life. Ao mesmo tempo, a URSS intervinha na Hungria, para esmagar e tentativa de mudança de regime, e aproveitou a situação no Egipto para desviar as atenções e os protestos que se faziam sentir. Nikita Krushev ameaçou as forças intervenientes no Suez, usando até a ameaça nuclear, com a possibilidade de usar bombas atómicas contra Paris e Londres. Perante estes cenários, e perante as hesitações de França e Reino Unido, os Estados Unidos de Eisenhower conseguiram que a Assembleia Geral da ONU votasse a favor de um cessar-fogo e ameaçou com operações monetárias contra a libra esterlina. Sob pressão de todos os lados, O Reino Unido teve de assinar um cessar-fogo a 6 de Novembro, e a França não pôde fazer outra coisa senão seguir os mesmos passos, e em Dezembro as forças de intervenção eram substituídas por elementos da ONU. 

A aventura do Suez começou com o optimismo inconsciente das ex-grandes potências e terminou com a sua derrota e humilhação. De facto, tratou-se da última grande intervenção dos impérios coloniais cessantes, e uma passagem de testemunho simbólica para as novas superpotências, EUA e URSS. No Reino Unido, Eden demitiu-se, sendo substituído por MacMillan, que, pragmático ante o fim do império, inflectiria a política externa fazendo com que os britânicos se tornassem nos mais leais e duradouros aliados dos Estados Unidos. Do lado da França, seria também um prenúncio do fim definitivo do império colonial, da Vª República corporizada em De Gaulle e do afastamento dos anglo-saxónicos e no incremento da CEE, que se formaria menos de um anos depois, em Roma (como retorquiu Konrad Adenauer a Guy Mollet, "a Europa será a vossa vingança"), e onde, enquanto De Gaulle viveu, o Reino Unido não teve lugar, uma atitude que se reflectiu também no afastamento dos franceses da NATO, embora os gaullistas receassem igualmente a União Soviética.

Os Estados Unidos viram confirmado o seu estatuto de superpotência, e a URSS mais ainda, pois não só manteve a Hungria sob o seu domínio  como conseguiu fazer do Egipto um aliado próximo, tendo sido engenheiros soviéticos a projectar a Barragem de Assuão, além de fazer recuar nações como a França e o RU. 

Por outro lado,o Egipto conseguiu transformar uma derrota militar numa enorme vitória política: manteve o domínio do Suez e Nasser afirmou-se como líder árabe e do "Terceiro-Mundo". Israel, embora tivesse de recuar às fronteiras originais, obteve liberdade de passagem no canal e no Mar Vermelho e mostrou o que valia militarmente, o que reafirmaria mais tarde, na Guerra dos Seis Dias. Além disso, reforçou os laços com britânicos e franceses 

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A crise do Suez, acontecimento maior dos anos 50, definiu a Guerra Fria: confirmou as novas superpotências, demonstrou a decadência militar dos europeus, deu incremento à descolonização e definiu também as tendências do Médio Oriente para os vinte anos seguintes. Agora que se avista o pós-pós Guerra Fria e um multilateralismo imprevisível, talvez não fosse pior relembrar as lições de crises passadas e tomá-las em conta para prevenir as que possam ou estejam a surgir. Sessenta anos não é assim tanto tempo.

sábado, outubro 25, 2014

A última réstia de dignidade dos que até na morte são abandonados


Entre a espuma das dias e a informação que se sucede, deve ter passado mais ou menos despercebida uma das mais tristes páginas que li nos últimos tempos. Segundo nos diz esta notícia do Público, a Irmandade da Misericórdia e de São Roque acompanhou o funeral de 86 pessoas, nos primeiros nove meses de 2014. Acompanhou-os porque ninguém mais quis saber deles, ninguém inquiriu sobre a morte dessas pessoas, ninguém reclamou o corpo. Seis delas eram crianças, abandonadas pelos pais ou encontradas já mortas. Quatro permaneceram com identidade desconhecida. As informações são do Instituto de Medicina Legal, que cede os corpos à Irmandade para que possam realizar um funeral condigno, a custas da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

A notícia entristece e espanta pelos números de abandono a que são votadas tantas pessoas. Seriam idosos sem família, ou a quem a família não ligava, pessoas doentes na mesma situação, alguns emigrantes ou refugiados, provavelmente, sem conhecimentos em Portugal. E crianças abandonadas ao nascer, ou doentes, cujos responsáveis preferiram abandonar. Em qualquer dos casos, uma enorme desumanidade, ou se preferirmos, uma ausência de humanidade que deixou aquelas pessoas morrer sozinhas, no quase completo abandono.

Buscar culpados no "sistema", no "regime", na "época em que vivemos" ou em qualquer outro contexto qual bode expiatório abstracto, pode ser a primeira reacção. Provavelmente é um pouco de tudo. O egoísmo vigente é enorme, mas pode-se dizer que antigamente era melhor? Talvez se olhássemos um pouco à volta, para casos muito próximos, até descobríssemos situações destas. Por vezes, dá-se mais atenção a um gato do que a uma pessoa. A pobreza material, a suburbanização, a diminuição das famílias com a queda da natalidade, tudo isso são razões plausíveis. Mas antes de mais os responsáveis são pessoas, que por acção ou omissão permitiram que dezenas de humanos tivessem um fim que mais ninguém testemunhou.


"Mais ninguém" não é bem assim. O único aspecto positivo da notícia é saber que há pessoas, as da dita Irmandade, que acompanham desconhecidos à sua última morada, dando-lhes assim uma identidade e uma dignidade que não tiveram quando morreram. Recuperam, nem que seja por breves horas, o estatuto de seres humanos e com personalidade jurídica que os seus corpos, teoricamente, já tiveram. Eis um acto verdadeiramente cristão: devolver na morte a dignidade áqueles que em vida foram negados por todos os outros, rezando pela sua salvação e dando-lhes uns momentos de atenção que outros não lhes deram quando mais precisavam. tentarei saber se no Porto a Santa Casa se presta a tão caridosa e louvável missão.

quarta-feira, julho 03, 2013

Vão marcando a data


Está um homem aqui posto em sossego a pensar em postar sobre as maravilhas do nosso país quando de súbito a realidade, que não pára, se antecipa. Ou neste caso, antecipa certos actos, como a demissão de Paulo Portas, apenas prevista para daqui a uns tempos. Estaria já por dias, a ser calculada para o melhor momento, ou terá sido a saída de Gaspar (melhor dizendo, a sua substituição por Maria Luís Albuquerque) a gota de água num copo que já desde a história da TSU ameaçava transbordar? As versões de Pedro e Paulo são contraditórias. A verdade é que Portas tem um registo interessante de facadinhas dadas, mas ao longo destes dois anos teve várias ocasiões de experimentar as que lhe eram discretamente atiradas por Passos, Relvas, Gaspar & Cia. E a paciência tem limites. Houve alturas em que o vimos como nunca o víramos antes, sem saber bem o que fazer. Até que bateu com a porta, e com ele os outros ministros do CDS.


Ficando o PSD em minoria, contando na melhor das hipóteses com pontuais apoios do CDS no Parlamento, a melhor solução seria a demissão de Passos Coelho e a nomeação de outro governo, com base na mesma maioria e que de preferência se estendesse ao PS. Mas o Primeiro Ministro inviabilizou totalmente essa hipótese, a manter-se teimosamente à frente do governo. Não percebeu que o seu tempo está contado. Deve ser das pouquíssimas pessoas em Portugal e não entender isso. Numa época de profunda crise, temos um político sem a menor habilidade, instinto ou inteligência política a governar-nos. O resultado, a curto prazo, é fácil de prever: eleições. Marquem a data para o provável dia 29 de Setembro. Juntando-se às autárquicas, sempre se poupam uns euros.


segunda-feira, outubro 01, 2012

O perigo da agitação espanhola



Muito boas almas, a começar pelas das televisões, ficaram entusiasmadas com as manifestações que se verificaram em Espanha na última semana. Ao que parece, o "povo" saiu à rua e cercou o parlamento porque os políticos "não os representam" e para exigir "verdadeira democracia", perante a "brutalidade policial". Desconheço em que mundo vivem  os que assim pensaram. No caso da comunicação social, vejo apenas o desejo que lançar a manchete e de conseguir aumentar as audiências a todo o preço. Se as revistas usam as vidas dos desgraçados da "casa dos Segredos, os outros recorrem às armas disponíveis.

O que se viu foram seis mil pessoas (num universo de milhões) numa manifestação ilegal, tentando invadir as Cortes, que se encontravam reunidas. Não estamos a falar de largas camadas representativas da população, e sim de franjas mais radicais, como se entendia pelas indumentárias e pelos símbolos (bandeiras republicanas, por exemplo), tentando fazer um descarado aproveitamento político da situação. Isso mesmo registou a mais conceituada imprensa espanhola, ao que parece mais sensata do que as nossas TVs, lembrando que o ataque ao parlamento nacional por uma minoria era um completo desrespeito pela vontade da maioria. Quanto à brutalidade policial, parece realmente ter havido alguns excessos da polícia, mas quando uma chusma de gente tenta à força entrar na sede do poder legislativo, quebrando todas as barreiras, o que se poderia esperar?

A insanidade dos manifestantes é mais um dado inquietante num país onde inquietações não faltam. A cada semana uma nova região administrativa pede auxílio ao governo central, revelando a enorme estupidez da existência de tantas divisões autonómicas para além das mais óbvias - pelas suas características culturais e linguísticas - e das províncias. Os bancos estão descapitalizados depois dos investimentos insensatos na bolha da construção civil, que após anos e anos de ilusões, estourou  deixando à vista condomínios e blocos habitacionais às moscas, sem ninguém que os compre, levando à falência as construtoras civis e as imobiliárias e aumentando ainda mais o assustador número do desemprego. A economia não cresce, os juros estão próximos do vermelho, o resgate das instituições europeias e financeiras está iminente. Rajoy parece que afinal não enganou quanto à sua falta de carisma e tacto, tomando medidas à bruta sem consultar ninguém, permitindo que as tensões sociais se avolumem, e nem ao menos conseguindo ser minimamente eficaz nas tentativas de negociação do mais que provável resgate. E depois, os problemas máximos, postos a nu por toda esta situação: a fractura ideológica da sociedade espanhola, esse monte de  ressentimentos que a Transição não conseguiu liquidar definitivamente; e a ameaça de secessão da Catalunha. Imaginam os catalães que vão conseguir separar-se do resto de Espanha rompendo com a Constituição de 1977, mantendo-se tranquilamente no Euro, gozando da sua (pretensa) exclusiva capacidade económica e até com os seus clubes a continuar a jogar na Liga espanhola de futebol como se nada se tivesse passado e não tivesse de sofrer quaisquer consequências pelo seu acto pouco reflectido. Ou seja, querem todas as vantagens e nenhuma das responsabilidades. Se levarem em frente a sua loucura revivalista de um obscuro condado medieval, talvez não demore muito tempo a arrependerem-se.
 
 
É este o perigo que ameaça a Europa, e muito particularmente Portugal. O de convulsões num país a braços com pré-avisos de separatismo, bancarrota financeira, velhos ódios de regresso à superfície, tudo isto sob a tutela de um governo inepto que age como um elefante na fábrica da Vista Alegre. Será bom recordar aos entusiastas das manifs das metástases dos "Indignados" que a Segunda Guerra teve o seu grande ensaio em Espanha, precisamente pelos ódios, violência e separatismos que varriam o país. Não os queiram repetir.

segunda-feira, julho 18, 2011

As agências nunca se enganam e raramente têm dúvidas.



A última classificação da agência de notação Moody´s da dívida portuguesa pôs finalmente toda a classe política e a sociedade em quase unanimidade contra tal passo, traiçoeiro e de fraca credibilidade. Mesmo as instituições europeias concordaram, falando agora na urgência na criação de uma "agência de notação europeia independente" (mas é a UE que cria?). Escrevi "quase unanimidade" porque alguns zelotas do liberalismo económico destoaram. Não, para eles a classificação da Moody ´s é justíssima e isenta, nada tem de parcial, e apenas reflecte a dificuldade do país em cumprir os seus compromissos, por mais que se esforce. Ou seja, as agências de notação são absolutamente honestas e objectivas e não têm segundas intenções políticas. a fora como se diz isto, e a total crença no auto-regulação e na mão invisível parece-me cada vez mais panglossiana: tudo corre no melhor dos mundos, e as coisas passar-se-iam sempre obrigatoriamente assim. O fado dos mercados que não se enganam não muda. Os ultra-liberais, em termos de fidelidade ideológica, acabam por estar próximos dos comunistas, na barricado inversa, lembrando também uma igreja evangélica. O Mundo pode cair, mas os mercados terão sempre razão e quem os classifica também. A cataláxia não falha. Os mercados são grandes, e os austríacos os seus profetas.



sexta-feira, fevereiro 11, 2011

O triste caso de Augusta Martinho


A notícia da idosa encontrada morta em casa, após nove anos de silêncio, atordoou o país. Desgraçadamente, nem devia espantar muito. O abandono a que são votados os velhos e a enfastiada e emperrada burocracia a que estamos submetidos, os verdadeiros causadores desta descoberta terrível, levam a estes desfechos aberrantes. Não é a primeira vez que ouço falar de pessoas que morrem sozinhas e só tempos depois são descobertas. Mas nunca imaginei que alguém pudesse ficar tanto tempo ignorada para além da morte. O que choca mesmo é a indiferença e esquecimento total a que a idosa esteve votada, tirando uma vizinha ou uma outra pessoa mais escrupulosa.

Nesta nossa sociedade que despreza tudo o que é velho e "do passado" em detrimento do novo e "moderno", que cultiva a juventude esticada ao máximo e a devoção à saúde eterna, os velhos são um estorvo e não ficam bem entre a mobília. Algumas famílias tendem muitas vezes a esquecê-los, e noutros casos nem restam familiares próximos, tendo então de se entregar à sua sorte. Os poucos voluntários que propositadamente os visitam para aliviar a sua solidão não chegam. Muitos vivem no centro das cidades, em casas decrépitas, ou em subúrbios uniformizados e deprimentes, como a senhora deste caso. São apesar de tudo aqueles que vivem nas aldeias e pequenas vilas que recebem mais atenção dos que os rodeiam. Mas com o decréscimo da natalidade e o aumento da esperança de vida, a situação tende a piorar. No futuro haverá um batalhão de idosos a cuidar. Muitos dos que hoje desprezam os velhos muito provavelmente receberão a dobrar o mesmo tratamento. Só se deseja que daqui a uns anos não invente qualquer forma de "eutanásia involuntária" para impedir o colapso da segurança social que restar.
Espero contudo que esta notícia chocante possa servir para alertar para casos semelhantes e para a extrema solidão que acompanha tantos idosos deste país. Quem sabe se a mulher que nem depois de morta teve tratamento condigno possa afinal chamar a atenção pra a indignidade das pessoas mais velhas. E já que (quase) ninguém quis saber dela, ao menos que se recorde que era uma pessoa, e que tinha nome. Chamava-se Augusta Martinho.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Um deserto?
Eis o possível futuro resultado do sorvedouro de recursos, gente e meios que é o litoral português, entre Braga e Setúbal, em especial a Grande Lisboa. Os aziagos áugures que profetizavam um deserto em Portugal podiam estar cobertos de razão. A visão da travessia de um deserto entre uma e outra pequena cidade é bem real, infelizmente. Impõe-se a pergunta costumeira e sem resposta: que fazer? Certo é que se um país condena uma parte do seu território a tornar-se um deserto, perde também a soberania correspondente.

domingo, novembro 09, 2008

A Liga e a crise


Segundo todos os testemunhos, a angariação de fundos para a Liga Portuguesa contra o Cancro, através de pequenos donativos, este ano, foi confrangedora. Tirando os exageros que há sempre a falar de "crise", fica-se a pensar se serão efeitos da verdadeira crise económica e financeira que a (quase) todos afecta ou se se tratará de puro egoísmo. Andei vários anos na rua de lata a tiracolo a pedir contribuições e vi um pouco de tudo, desde aqueles que davam tudo o que tinham aos que se desviavam descaradamente (por vezes com uma ostentação revoltante) ou respondiam de forma agressiva e mal educada. Custa-me a crer que as coisas tenham resvalado tão vetiginosamente para a indiferença. Creio antes de mais que o egoísmo não será maior do que aquele que se verificava em anos anteriores. Não, o que fala mais alto é a desconfiança, o medo, mesmo a escassez e as poupanças que emagrecem. Também na diminuição de donativos para as causas mais importantes podemos ver o dedo da crise.