Ainda sobre a recepção violenta às autoridades espanholas em Valência, parece claro que se deveu sobretudo aos membros do governo regional e a Pedro Sánchez. Seria ridículo assacar culpas aos soberanos que não têm a tutela da protecção civil e que estavam lá a prestar solidariedade.
terça-feira, novembro 05, 2024
A presença dos Reis
domingo, julho 30, 2023
Uma estratégia falhada a longo prazo
As eleições de Espanha, que redundaram num triunfo relativo do PP de Feijó e na resistência do PSOE, mostraram ainda mais, como se fosse necessário, como o país está partido e se tenta fazer uma divisão esquerda-direita intransponível. Pedro Sanchez preferiu aliar-se com tudo o que mexia a permitir por abstenção a investidura de um governo minoritário do PP, respaldado a pactos de regime. Isso permitiria que o Vox não interferisse com um governo PP, mas para Sanchez isso não era suficiente, e, como se viu, para conservar o seu poder, preferiria aliar-se ao diabo que ver um governo do PP, com ou sem Vox. E de facto isso pode acontecer, se tiver de novo o apoio da esquerda radical, o Sumar que deixou o Podemos nas lonas, tão cor-de-rosa por fora e tão retintamente vermelho por dentro, herdeiro em linha directa das que por ali se encontravam no tempo da Guerra Civil. A nova estrela local, Yolanda Diaz, afirmou há não muitos anos querer acabar com o espírito da transição e com a própria monarquia. Realce-se que Diaz é natural do Ferrol, ironicamente tal como o Generalíssimo Franco, cidade que outro ilustre conterrâneo, GonzaloTorrente Ballester, dissera nunca ter criado nada que prestasse. Para além do Sumar, Sanchez precisará do apoio de muitas outras formações, como os desavindos partidos independentistas catalães, que até caíram estrondosamente, uma data de formações regionalistas, e do País Vasco, o habitual PNV, que governa a região, mas sobretudo o Bildu, sucessor directo do Herri Batasuna, o braço político da ETA, que continua a ser chefiado pelo mesmo Arnaldo Otegui. é pois com este saco de gatos que Sanchez pretende manter o PP afastado do poder.
O pretexto do Vox redunda em falsidade, como se vê, mas é muito usado e aparentemente eficaz. Aqui, Sanchez está muito próximo de António Costa, que usou e abusou do fantasma do Chega para obter votos à esquerda e impedir o PSD de melhores resultados e também obteve visível êxito. A estratégia pode ser boa agora, mas poderá trazer graves consequências mais tarde. A eternização do poder, a falta de alternativas e a normalização da direita radical podem fazer com que esta cresça mesmo a médio prazo, rompendo quaisquer cordões sanitários e aproveitando-se da terra que os socialistas vão queimando. E há precedentes além-Pirenéus.
Nos anos oitenta, estando no poder, onde conseguir controlar os comunistas, e para evitar a progressão da direita gaullista e republicana, François Mitterand conseguiu alterar a regra eleitoral do modelo de voto maioritário para um proporcional. Permitiu assim que a Frente Nacional de Le Pen ganhasse um número apreciável de deputados no parlamento às custas da direita e, desde então e por arrasto, dos comunistas, coisa que Mitterand talvez não imaginasse à época mas que lhe seria útil para se desembraçar deles colocando o PSF como partido hegemónico da esquerda francesa. O então presidente era um tacticista sob as vestes do idealista, e seguia as teses maquiavélicas que tanto influenciaram dois estadistas do século XVII: os cardeais Richelieu e Mazarino. Essa influência transmitiu-se-lhe mesmo de forma pessoal: soube-se que tinha uma segunda família e uma filha a que deu o nome de...Mazarine, o que não era certamente por acaso.
Só que tudo isto teve um preço. Hoje em dia, não só o PCF é quase irrelevante e a direita republicana está em declínio como o próprio PSF se tornou um partido de terceira categoria, de influência quase nula, empastelado numa coligação chefiada por um demagogo de esquerda radical, ao passo que o cenário político está dividido entre este último, o cento radical de Macron e a dinastia Le Pen, que Mitterand ajudou a guindar-se. Eis o resultado de se querer manter o poder a todo o custo insuflando-se as direitas radicais para enfraquecer as moderadas: um dia, o desespero e a revolta de ver o poder ocupado pelos mesmos acabará por dar aos radicais ao poder, catapultando-os com enorme aumento de votos. Isso já está a acontecer noutras paragens. Aconselhava-se por isso os srs. Sanchez e Costa a olhar para França e a não brincarem aos defensores da democracia - e sobretudo a não brincarem apenas com os radicais do seu espectro político.
quinta-feira, outubro 17, 2019
A exumação de Franco (e uma sugestão para o substituir)
Franco vai sair dali, não restam dúvidas. Mas ainda que sem o "caudilho", o carácter do Vale dos Caídos permanece igual, sem que os ânimos estejam apaziguados. Houve propostas para se mudar também Primo de Rivera, mas é extremamente improvável. Fica portanto um vazio no altar-mor. É certo que já não se enterram pessoas nas igrejas, mas não se poderia pensar em substituir o espaço vazio com um símbolo de verdadeira reconciliação? Para isso, teria de ser alguém do lado dos vencidos. Mas alguém que além de vítima de guerra, fosse digno de estar ali. Seria estranho enterrar num templo católico um anticlerical. Haveria uma escolha perfeita. Digo "haveria" porque também nunca se encontrou o seu corpo.
Falo, evidentemente, de Federico Garcia Lorca, fuzilado por falangistas (que o conseguiram subtrair a outros falangistas, num processo ainda hoje obscuro), enterrado numa vala comum ainda hoje por descobrir. Lorca, o maior poeta do seu tempo, era odiado por Franco e outros do seu "lado", mas recolhia igualmente a admiração de muitos nacionalistas, a começar por Primo de Rivera, com quem se dava e que apreciava imensamente a sua obra. Liberal, homossexual e boémio, Lorca não era evidentemente apoiante do lado nacionalista. Mas também estava longe dos radicalismos republicanos, comunistas ou anarquistas que dominavam o outro lado. Era no entanto, segundo o próprio, "católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista e monárquico", e "espanhol integral".
Lorca seria a peça ideal em falta para a reconciliação na basílica do Vale dos Caídos. Também ele um "caído" por aquilo em que cria, uma vítima da guerra, um liberal cosmopolita e cristão, os seus restos mortais poderiam repousar ao lado no altar-mor do templo, ao lado de Primo de Rivera, morto pelos mesmos dias pelo bando oposto. Seria o remate perfeito e simbólico do fim da guerra, cuja memória continua a envenenar Espanha. Talvez um dia os seus despojos sejam encontrados e se possa proceder ao enterro digno a que nunca teve direito. Se isso acontecer, quem sabe se as memórias desses anos de chumbo não ficam apaziguadas.
domingo, outubro 07, 2018
Saudosistas da Espanha de 1936
sexta-feira, dezembro 22, 2017
O dia seguinte ao 21-D
Se há coisa que não se pode dizer depois das eleições na Catalunha é que alguma é previsível e simples. É a velha questão dos copos: se por um lado os partidos independentistas repetem a maioria absoluta (se juntarmos tudo, claro), por outro é a primeira vez que um partido não regionalista ganha as eleições naquela região. Se o PP de Rajoy leva uma banhada histórica, a CUP anticapitalista e independentista radical leva outra. E se Puigdemont ontem dizia coisas como "a república catalã (qual?) venceu a monarquia espanhola", hoje já vem pedir a Rajoy que se sentem a discutir e diz que não precisa da CUP para nada.
sábado, novembro 04, 2017
Agradecer aos catalães pela Restauração? E aos outros?


Para se ficar com uma ideia mais ampla dos sarilhos com que Espanha se deparava na época, e se não se quiser percorrer grandes calhamaços de história,os livros de Arturo Perez Reverte, nomeadamente os da saga do Capitão Alatriste (que também existe em filme, com Viggo Mortensen a interpretar o vigoroso mercenário, e em série), onde entram figuras reais como Francisco de Quevedo e o Conde-Duque de Olivares (figura contra a qual boa parte destas revoltas se dirigiu) são um bom guia da situação
Ou seja, se queremos agradecer a quem, pela sua oposição desviou as atenções e os recursos da temível força terrestre espanhola, devemos agradecer não apenas aos "nossos irmãos" catalães, mas também aos "nossos irmãos" franceses, holandeses, flamengos, napolitanos, e também a alguns andaluzes e aragoneses. E os que formarem movimentos secessionistas terão todos a nossa solidariedade. A gratidão é uma virtude muito bela e não devemos excluir ninguém.
terça-feira, outubro 03, 2017
Tem a palavra o Rei
domingo, dezembro 04, 2016
O Bloco e a birrinha anti-monárquica
quarta-feira, outubro 12, 2016
O discurso de Unamuno
No Delito de Opinião, Pedro Correia recorda que passam oitenta anos do corajoso e tonitruante, se não no tom de voz pelo menos na sua carga moral e emocional, discurso de Miguel de Unamuno na Universidade de Salamanca, em frente a Millan Astray, Carmen Polo e José Maria Péman. Aconteceu em 12 de Outubro de 1936, e seria a última aparição pública do velho filósofo da Geração de 98, numa altura em que Espanha mergulhava na mais horrível e dramática das guerras.
quarta-feira, julho 20, 2016
A guerra que começou há 80 anos
terça-feira, junho 28, 2016
Espanha depois de 26 de Junho
domingo, junho 19, 2016
Uma semana que se prevê quente
PS: e claro está, como hoje lembra um dos nossos periódicos na sua versão online, para subir ainda mais, temos o decisivo confronto da Selecção Portuguesa contra a surpreendente Hungria, sem margem sequer para empatar. Se houver alguma competência no ataque e não aparecer o espírito dos "invencíveis magiares" dos anos 50, a qualificação é possível. A alternativa, depois de se cair num dos grupos mais acessíveis do torneio, é demasiado humilhante.
domingo, dezembro 20, 2015
O regresso do multipartidarismo em Espanha
sábado, outubro 03, 2015
Nacionalismos com pouca base histórica
quarta-feira, junho 03, 2015
O mosaico de Bilbao

terça-feira, março 31, 2015
Périplo por Espanha
quinta-feira, junho 19, 2014
Felipe VI
Felipe VI teve um discurso prolongado mas em que tocou em todos os aspectos essenciais sobre o que deverá ser o seu reinado, sem esquecer o papel do seu pai e do seu avô. A cerimónia teve sobriedade mas também pompa e dignidade. O novo Rei mostrou-se ao povo de cabeça descoberta, num soberbo Rolls Royce descapotável já com história, e depois na varanda do Palácio Real, com a nova Rainha Letizia, as filhas, agora também na linha de sucessão, e por breves momentos, os seus pais, o casal que deixou de sero Real. Terá sempre o melhor dos conselheiros para o ajudar a reinar, e a alegria de ser Rei sem que seja por morte de seu pai. A propósito, Juan Carlos ainda não tem título definido. Terão pensado em dar-lhe o de Conde de Barcelona? Seria uma bela homenagem ao seu pai, o príncipe que não reinou, e quem sabe se a recuperação do título condal não cairia bem entre muitos catalães. É também com esses aspectos subtis que se mantém um país. Ninguém mais do que Felipe VI está preparado para o fazer.









