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terça-feira, novembro 05, 2024

A presença dos Reis

Ainda sobre a recepção violenta às autoridades espanholas em Valência, parece claro que se deveu sobretudo aos membros do governo regional e a Pedro Sánchez. Seria ridículo assacar culpas aos soberanos que não têm a tutela da protecção civil e que estavam lá a prestar solidariedade.

Mas pelo arremesso de algumas pedras e lama, houve certamente reacções dirigidas ao Rei e à Rainha. Não é de espantar assim tanto. Naquele desespero, naquela impotência de se acudir aos vivos e desenterrar os mortos da lama, qualquer vislumbre de autoridade pode tranformar-se no bode expiatória das desgraças à vista. Acresce que em Espanha há alguns elementos anti-monárquicos profundamente radicais, cuja motivação ideológica (ou niilista) transcende a do desespero do momento. É bem possível que lhes tenha dado para a selvajaria, ao ver ali o objecto máximo do seu ódio.
Certo é que Sanchez e os elementos do governo regional se puseram a andar e Filipe e Letizia ficaram, cumprindo o seu dever como soberanos: consolando as vítimas e representando o Estado e a solidariedade do povo espanhol para com elas, também visível pelos milhares de voluntários que para lá se deslocaram, muitas vezes antes da própria ajuda estadual.



domingo, julho 30, 2023

Uma estratégia falhada a longo prazo

As eleições de Espanha, que redundaram num triunfo relativo do PP de Feijó e na resistência do PSOE, mostraram ainda mais, como se fosse necessário, como o país está partido e se tenta fazer uma divisão esquerda-direita intransponível. Pedro Sanchez preferiu aliar-se com tudo o que mexia a permitir por abstenção a investidura de um governo minoritário do PP, respaldado a pactos de regime. Isso permitiria que o Vox não interferisse com um governo PP, mas para Sanchez isso não era suficiente, e, como se viu, para conservar o seu poder, preferiria aliar-se ao diabo que ver um governo do PP, com ou sem Vox. E de facto isso pode acontecer, se tiver de novo o apoio da esquerda radical, o Sumar que deixou o Podemos nas lonas, tão cor-de-rosa por fora e tão retintamente vermelho por dentro, herdeiro em linha directa das que por ali se encontravam no tempo da Guerra Civil. A nova estrela local, Yolanda Diaz, afirmou há não muitos anos querer acabar com o espírito da transição e com a própria monarquia. Realce-se que Diaz é natural do Ferrol, ironicamente tal como o Generalíssimo Franco, cidade que outro ilustre conterrâneo, GonzaloTorrente Ballester, dissera nunca ter criado nada que prestasse. Para além do Sumar, Sanchez precisará do apoio de muitas outras formações, como os desavindos partidos independentistas catalães, que até caíram estrondosamente, uma data de formações regionalistas, e do País Vasco, o habitual PNV, que governa a região, mas sobretudo o Bildu, sucessor directo do Herri Batasuna, o braço político da ETA, que continua a ser chefiado pelo mesmo Arnaldo Otegui. é pois com este saco de gatos que Sanchez pretende manter o PP afastado do poder.


O pretexto do Vox redunda em falsidade, como se vê, mas é muito usado e aparentemente eficaz. Aqui, Sanchez está muito próximo de António Costa, que usou e abusou do fantasma do Chega para obter votos à esquerda e impedir o PSD de melhores resultados e também obteve visível êxito. A estratégia pode ser boa agora, mas poderá trazer graves consequências mais tarde. A eternização do poder, a falta de alternativas e a normalização da direita radical podem fazer com que esta cresça mesmo a médio prazo, rompendo quaisquer cordões sanitários e aproveitando-se da terra que os socialistas vão queimando. E há precedentes além-Pirenéus.

Nos anos oitenta, estando no poder, onde conseguir controlar os comunistas, e para evitar a progressão da direita gaullista e republicana, François Mitterand conseguiu alterar a regra eleitoral do modelo de voto maioritário para um proporcional. Permitiu assim que a Frente Nacional de Le Pen ganhasse um número apreciável de deputados no parlamento às custas da direita e, desde então e por arrasto, dos comunistas, coisa que Mitterand talvez não imaginasse à época mas que lhe seria útil para se desembraçar deles colocando o PSF como partido hegemónico da esquerda francesa. O então presidente era um tacticista sob as vestes do idealista, e seguia as teses maquiavélicas que tanto influenciaram dois estadistas do século XVII: os cardeais Richelieu e Mazarino. Essa influência transmitiu-se-lhe mesmo de forma pessoal: soube-se que tinha uma segunda família e uma filha a que deu o nome de...Mazarine, o que não era certamente por acaso.





Só que tudo isto teve um preço. Hoje em dia, não só o PCF é quase irrelevante e a direita republicana está em declínio como o próprio PSF se tornou um partido de terceira categoria, de influência quase nula, empastelado numa coligação chefiada por um demagogo de esquerda radical, ao passo que o cenário político está dividido entre este último, o cento radical de Macron e a dinastia Le Pen, que Mitterand ajudou a guindar-se. Eis o resultado de se querer manter o poder a todo o custo insuflando-se as direitas radicais para enfraquecer as moderadas: um dia, o desespero e a revolta de ver o poder ocupado pelos mesmos acabará por dar aos radicais ao poder, catapultando-os com enorme aumento de votos. Isso já está a acontecer noutras paragens. Aconselhava-se por isso os srs. Sanchez e Costa a olhar para França e a não brincarem aos defensores da democracia - e sobretudo a não brincarem apenas com os radicais do seu espectro político.

quinta-feira, outubro 17, 2019

A exumação de Franco (e uma sugestão para o substituir)


Já é oficial. Depois de anos de contendas, discussões políticas e recursos judiciais vários, os restos mortais do generalíssimo Franco vão mesmo ser exumados. Dentro de dias, proceder-se-á à complicada operação de tirar a pesadíssima laje do altar-mor da basílica do Vale dos Caídos e levar a urna para o jazigo de família, onde repousará ao lado de Carmen Polo, sua mulher de sempre.

A operação, exigida por familiares de vítimas do regime franquista e por grupos de esquerda, além do próprio governo de Pedro Sanchez, em conformidade com uma alteração à controversa Lei da Memória Histórica, esteve sucessivamente adiada. Não é caso para espanto. Uma tal decisão, tomada finalmente pelas instâncias judiciais superiores espanholas, nunca poderia ser levada a cabo de ânimo leve. Porque mesmo que tenha passado sem problemas nas Cortes, sem votos contra, não deixou por isso de atrair a crítica dos partidos de centro e de direita, apesar da sua abstenção, de que era uma operação sem qualquer carácter de urgência e que poderia desenterrar (literalmente) ainda mais velhas feridas de guerra.

É verdade que há boas razões para que o "Caudilho" saia dali. Desde logo a razão jurídica, porque a intenção era a de albergar os restos mortais das vítimas de guerra, dos dois lados, e Franco, ao contrário de José António Primo de Rivera, que jaz ao seu lado, não o era. Depois porque o próprio Franco nunca manifestou vontade de ser levado para ali depois de morto. E sobretudo porque o mentor de uma longa ditadura de décadas, responsável por boa parte das mortes da guerra, incluindo as de alguns ali sepultados, nunca poderia ser considerado um factor de reconciliação. Sejamos justos: o Vale dos Caídos é antes de mais um altar ao triunfo dos nacionalistas, e não, como oficialmente se pretendeu, à reconciliação da Espanha "una, grande y libre".

Também há razões contrárias atendíveis: os espanhóis têm mais com que se preocupar além da exumação, remexer nas feridas da guerra, de que quase não restam sobreviventes, não prima pela sensatez, além do gosto duvidoso e dos custos da operação e da entrada de máquinas num recinto religioso. E é sabido que para alguns grupos, como o Podemos, bom era dinamitar todo o conjunto do Vale dos Caídos, Cruz, basílica, abadia, etc, e exumar antes os milhares de corpos que lá se encontram, como se isso fosse tecnicamente possível. Contrariando a norma de que "a história é feita pelos vencedores", a da Guerra Civil de Espanha é cada vez mais feita pelos vencidos.

Este ano logrei finalmente ir ao Vale dos Caídos, aproveitando uma ida a Madrid. Para quem vem de longe nem sempre é tarefa fácil, já que fecha relativamente cedo, e desde a entrada do parque há que fazer alguns quilómetros até ao santuário propriamente dito. O conjunto é impressionante, com a colunata, em frente a um amplo terreiro de onde se avista Madrid ao longe, a guardar o enorme pórtico que dá acesso à basílica. Em cima, dominando o conjunto, a emblemática e colossal cruz de granito, que se vê a muitos quilómetros de distância, com 150 metros de altura. No templo propriamente dito, escavado sob a montanha, obra que se diria construída por ciclopes, uma comprida nave conduz ao altar-mor, onde (ainda) se podem ver os túmulos de Franco e de Primo de Rivera. Há inúmeras capelas adjacentes. Numa delas rezava-se missa segundo o "rito antigo", com o padre virado para o altar. É expressamente proibido tirar fotografias lá dentro.



Tudo isto num estilo totalitário-cristão, que se não fossem os símbolos poderia perfeitamente fazer parte dos planos de Albert Speer ou da Moscovo estalinista.  A abadia que se esconde atrás da montanha é mais modesta e harmoniosa, mas ainda assim de grande dimensão. A sensação é de temor, admiração e algum desconforto. Não se vai a um tal monumento de ânimo leve. Até porque afinal de contas se trata de uma necrópole, e sob ela jazem quase trinta e cinco mil vítimas da guerra.

Franco vai sair dali, não restam dúvidas. Mas ainda que sem o "caudilho", o carácter do Vale dos Caídos permanece igual, sem que os ânimos estejam apaziguados. Houve propostas para se mudar também Primo de Rivera, mas é extremamente improvável. Fica portanto um vazio no altar-mor. É certo que já não se enterram pessoas nas igrejas, mas não se poderia pensar em substituir o espaço vazio com um símbolo de verdadeira reconciliação? Para isso, teria de ser alguém do lado dos vencidos. Mas alguém que além de vítima de guerra, fosse digno de estar ali. Seria estranho enterrar num templo católico um anticlerical. Haveria uma escolha perfeita. Digo "haveria" porque também nunca se encontrou o seu corpo.

Falo, evidentemente, de Federico Garcia Lorca, fuzilado por falangistas (que o conseguiram subtrair a outros falangistas, num processo ainda hoje obscuro), enterrado numa vala comum ainda hoje por descobrir. Lorca, o maior poeta do seu tempo, era odiado por Franco e outros do seu "lado", mas recolhia igualmente a admiração de muitos nacionalistas, a começar por Primo de Rivera, com quem se dava e que apreciava imensamente a sua obra. Liberal, homossexual e boémio, Lorca não era evidentemente apoiante do lado nacionalista. Mas também estava longe dos radicalismos republicanos, comunistas ou anarquistas que dominavam o outro lado. Era no entanto, segundo o próprio, "católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista e monárquico", e "espanhol integral".

Lorca seria a peça ideal em falta para a reconciliação na basílica do Vale dos Caídos. Também ele um "caído" por aquilo em que cria, uma vítima da guerra, um liberal cosmopolita e cristão, os seus restos mortais poderiam repousar ao lado no altar-mor do templo, ao lado de Primo de Rivera, morto pelos mesmos dias pelo bando oposto. Seria o remate perfeito e simbólico do fim da guerra, cuja memória continua a envenenar Espanha. Talvez um dia os seus despojos sejam encontrados e se possa proceder ao enterro digno a que nunca teve direito. Se isso acontecer, quem sabe se as memórias desses anos de chumbo não ficam apaziguadas.

domingo, outubro 07, 2018

Saudosistas da Espanha de 1936


Enquanto no Brasil há muitos que desejariam o retorno da ditadura militar, entre os quais o candidato mais bem classificado nas sondagens das presidenciais da próxima semana, em Espanha há quem sonhe com o regresso da 2ª República dos anos trinta e a sua política anticlerical e antirreligiosa (a que chamam eufemisticamente "laicismo"). Não contente com a já aprovada exumação de Franco da basílica do Vale dos Caídos, o Podemos veio agora apresentar ao governo minoritário de Pedro Sánchez o seu plano urbanístico para o local: nada mais nada menos do que demolir a grande cruz de pedra que encima o conjunto (que consideram "simbologia fascista"), tirar dali os restos mortais de José António Primo de Rivera (fuzilado no início da guerra, pelo que faz parte das vítimas da mesma), arrebatar a basílica que ali existe para o controlo público para que sirva de "memória democrática" e "dessacralizar o espaço", obviamente mandando embora os monges beneditinos que por lá se encontram.



A ideia não é exactamente nova e já teve outras variantes, como a do movimento que pretendia que o estado se devia apoderar da mesquita-catedral de Córdova para a transformar num "espaço de cidadania laico". Todos estes grupinhos, com o Podemos à cabeça, são legatários directos dos movimentos anticlericais que, em especial nos anos trinta, foram responsáveis pela morte de milhares de clérigos e pela destruição de monumentos religiosos, incluindo catedrais (como a Sagrada Família, em Barcelona), igrejas, mosteiros, seminários ou qualquer outro tipo de simbologia cristã, de que o "fuzilamento" do monumento ao Sagrado Coração de Jesus no Cerro de los Angeles se tornou exemplo cabal. Aliás, não é invulgar vermos alguns elementos do Podemos, alguns com responsabilidades de destaque, com simpáticos cartazes com igrejas a arder acompanhados das palavras "ardereis como en el 36". Por isso, os planos apresentados não são propriamente de espantar.



Parece que o governo não está muito para aí virado, mas nunca fiando. Para aguentarem o escasso apoio parlamentar, podem ceder nalguns pontos. Mas aí comprariam uma severa guerra com boa parte da sociedade espanhola e dariam novo lastro a um PP enfraquecido. Com o problema da Catalunha nas mãos, não é muito aconselhável arranjarem sarilhos vindos de outro lado.



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sexta-feira, dezembro 22, 2017

O dia seguinte ao 21-D


Se há coisa que não se pode dizer depois das eleições na Catalunha é que alguma é previsível e simples. É a velha questão dos copos: se por um lado os partidos independentistas repetem a maioria absoluta (se juntarmos tudo, claro), por outro é a primeira vez que um partido não regionalista ganha as eleições naquela região. Se o PP de Rajoy leva uma banhada histórica, a CUP anticapitalista e independentista radical leva outra. E se Puigdemont ontem dizia coisas como "a república catalã (qual?) venceu a monarquia espanhola", hoje já vem pedir a Rajoy que se sentem a discutir e diz que não precisa da CUP para nada.

Espera-se que não precise realmente, e que sem os radicais que preferem os jihadistas aos turistas a gritarem-lhe ao ouvido, consiga uma solução que traga benefícios para a Catalunha sem contudo se tornar num novo país. Porque é isso que dizem os votos: a maioria dos eleitores não quer um país independente, mas há um número suficiente para que se procedam a mudanças. E Rajoy, que é um sobrevivente, já esgotou o número de se fazer de morto.

E entretanto, novos protagonistas ganham mais espaço. Contem com eles.



PS: Sábado há Real Madrid - Barcelona. Bom auscultador dos humores no país vizinho.

sábado, novembro 04, 2017

Agradecer aos catalães pela Restauração? E aos outros?


Uma das trivialidades que mais se tem repetido nos últimos tempos, a propósito da situação na Catalunha, é que Portugal "deve a sua independência" aos catalães, em razão da revolta que por lá estalou em 1640 ter permitido que as tropas espanholas se concentrassem naquele território e se desviassem deste rectângulo mais a oeste. Conceitos de independência à parte, os defensores desta tese nem notam que estão a reduzir Portugal a um mero estatuto regional e a colocar uma nação velha de séculos ao lado de regiões que nunca foram estados, e que circunstancialmente têm um grupo grande que o pretende formar um.

É bizarro que se considere sequer que os seguidores de Pau Claris tivessem pensado um segundo que fosse em Portugal. Mas e se a tese da gratidão que devemos aos catalães fosse correcta? Nesse caso, pecaria por defeito. É que seria mais fácil escolher quem é que não estava em guerra com a Espanha nesses anos quarenta do século XVII do que o contrário, incluindo (ou sobretudo) nos seus próprios domínios.

A década começou com a Guerra dos Trinta Anos contra a França, as Províncias Unidas (Holanda), um ex-domínio que procurava manter, e os adversários dos Habsburgos em geral, além de algumas batalhas navais com a Inglaterra. Os tercios espanhóis, uma máquina de guerra temível ao tempo, combatiam nos Pirinéus, na Flandres, nos Países Baixos e na Alemanha, e obtiveram alguns êxitos, como a tomada de Breda, imortalizada por Velasquez.

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Em 1640 rebentou a referida revolta catalã, ou "Guerra dos Segadores", que começou por ser uma revolta popular contra os abusos das tropas aí estacionadas, e que acabou por levar a Generalitat a proclamar a República e a aclamar posteriormente Luís XIII como soberano. A revolta e a perda de território para o inimigo levaram a que Espanha deslocasse mais tropas para a região, que seria recuperada (parte dela, já que Perpignan ficou para os franceses) apenas em 1659. É este o pretexto para se dizer que "Portugal deve a sua independência à Catalunha".

Mas ao contrário do que se pensa, a Catalunha não foi a única rebelião ibérica. Uma conspiração andaluza, encabeçada por Grandes de Espanha, começando pelo nobilíssimo Duque de Medina Sidónia  (irmão da já então Rainha de Portugal D. Luísa de Gusmão), impediu que tropas espanholas se concentrassem perto de Portugal. A conspiração acabou por ser descoberta e os seus autores punidos com o cárcere e perdas de bens e regalias, mas ficou na dúvida quais os reais motivos da conjura, havendo quem creia que se pretendia mesmo a secessão da Andaluzia com Medina Sidónia como novo soberano de Sevilha, com o auxílio do real cunhado.

Mais tarde, em 1648, outro grupo de conspiradores, estes em Aragão, veriam também os seus planos desfeitos. Aqui a conjura era ainda mais ambiciosa: pretendia, com auxílio de França e Portugal, separar o velho reino de Aragão de Castela, apoiando a Catalunha, oferecendo alguns territórios aos franceses e a Galiza a Portugal. Infelizmente para os galegos, também esta não conseguiu ir avante.

Por essa altura já tinha rebentado a revolta contra os vice-reis de Nápoles, na época também sob a coroa dos Habsburgos, chefiada pelo pescador guerreiro Manasiello. Num primeiro momento, as tropas no terreno sufocaram a revolta e liquidaram Manasiello, mas pouco tempo depois houve novo levantamento, que levou à proclamação da república "régia" de Nápoles, entregando o título de Doge a Henri de Guise. A situação durou menos de um ano, até que os espanhóis, comandados pelo Infante D. João José de Áustria, tomaram de novo a cidade sem grande resistência, depois de uma estratégia de paciência e de conquista gradativa. Só em fins do século XVIII Nápoles teria o seu primeiro rei nascido em sol italiano.

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Para se ficar com uma ideia mais ampla dos sarilhos com que Espanha se deparava na época, e se não se quiser percorrer grandes calhamaços de história,os livros de Arturo Perez Reverte, nomeadamente os da saga do Capitão Alatriste (que também existe em filme, com Viggo Mortensen a interpretar o vigoroso mercenário, e em série), onde entram figuras reais como Francisco de Quevedo e o Conde-Duque de Olivares (figura contra a qual boa parte destas revoltas se dirigiu) são um bom guia da situação

Ou seja, se queremos agradecer a quem, pela sua oposição desviou as atenções e os recursos da temível força terrestre espanhola, devemos agradecer não apenas aos "nossos irmãos" catalães, mas também aos "nossos irmãos" franceses, holandeses, flamengos, napolitanos, e também a alguns andaluzes e aragoneses. E os que formarem movimentos secessionistas terão todos a nossa solidariedade. A gratidão é uma virtude muito bela e não devemos excluir ninguém.

terça-feira, outubro 03, 2017

Tem a palavra o Rei


Na Catalunha assistimos a acontecimentos contraditórios e caóticos: o governo nacional a reagir à paulada, com cargas policiais desproporcionadas e excessivas que não auguram nada de bom; o governo regional a fazer um plebiscito violando a constituição, o estatuto autonómico e as próprias regras da assembleia regional; o dito plebiscito feito em urnas transparentes, com boletins trazidos de casa e eleitores a votar mais do que uma vez; protestos contra Piqué no treino da selecção espanhola, minando ainda mais o ambiente; e o presidente da Generalitat a anunciar uma futura "declaração unilateral de independência" quando a maioria dos eleitores recenseados nem votou (e os que votaram fizeram-no sabe-se lá em que condições), e nem sequer houve observadores internacionais, como se exige nestes casos. No fundo, mais uma vez chocaram o autoritarismo castelhano e o anarquismo catalão; noutras ocasiões em que tal aconteceu, mesmo quando conseguiram resolver o diferendo, houve sangue pelo meio.

Perante isto, e com a cegueira de parte a parte, impõe-se a intervenção do órgão mais livre e mais respeitável de Espanha: a Coroa. Felipe VI tem o dever de falar e de actuar como o obriga a Constituição. Tal como o seu Pai, que em 1981 usou as suas prerrogativas de soberano para acabar com um golpe de estado militar e consolidar a democracia.
PS: O Rei falou, enfim. Teve um discurso duro e não hesitou em acusar a Generalitat pelos acontecimentos que se têm passado. Talvez preferisse algumas palavras de conciliação, mas também tinha que marcar uma posição. Afinal de contas, é o garante da unidade da nação.

domingo, dezembro 04, 2016

O Bloco e a birrinha anti-monárquica


Aquela atitude imatura e parvinha dos tipos do BE não se levantarem com o Rei de Espanha presente no Parlamento (em contraste com os do PCP, que não aplaudiram mas se levantaram) recordou-me a homenagem feita às vítimas do regicídio, cem anos depois, a 1 de Fevereiro de 2008, no Terreiro do Paço. Estava presente uma multidão ainda numerosa, quando já para o fim surge, e pára a uma distância ainda "segura", uma trupe de mascarados com uma faixa que dizia em letras garrafais mais ou menos isto: "viva o Buiça, viva o Costa" (apelidos dos regicidas), enquanto iam gritando vivas aos mesmos. Ficaram ali uns minutos a guinchar, sempre de máscara, e quando sentiram demasiados olhares a virar-se para eles, bateram em retirada, espalhando panfletos com slogans anarquistas, ou coisa vagamente parecida. Mas na tal faixa grande que levavam à frente notavam-se ainda inscrições de uma qualquer campanha do Bloco, com símbolo e tudo. E certamente que o folclórico grupo de entusiastas dos regicidas não o encontrou no lixo. Aliás, entre os tipos que regularmente fazem uma romagem ao cemitério para homenagear os ditos assassinos, conta se o major Tomé, antigo líder da UDP e um dos fundadores do BE. Donde o antimonarquismo do Bloco, que incluiu louvores aos regicidas, já vem de longe, e portanto não será de ficar muito admirado com parvoíces no hemiciclo. Até porque, recordemos, há ali afinidades grandes com o Podemos, que não hesita em suspirar por esses "belos" tempos dos anos 30 e da efémera república espanhola, que tão bons resultados trouxe, e que o deputado Soeiro não deixou de relembrar.
 
No fundo, é uma velha tradição que o Bloco se esforça por proteger. O que não deixa de ser paradoxal, num movimento que se diz tão anti-tradicional.
 
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quarta-feira, outubro 12, 2016

O discurso de Unamuno


No Delito de Opinião, Pedro Correia recorda que passam oitenta anos do corajoso e tonitruante, se não no tom de voz pelo menos na sua carga moral e emocional, discurso de Miguel de Unamuno na Universidade de Salamanca, em frente a Millan Astray, Carmen Polo e José Maria Péman. Aconteceu em 12 de Outubro de 1936, e seria a última aparição pública do velho filósofo da Geração de 98, numa altura em que Espanha mergulhava na mais horrível e dramática das guerras.

 

quarta-feira, julho 20, 2016

A guerra que começou há 80 anos


Há 80 anos, a 17 de Julho de 1936, começava o levantamento de Franco e de outros generais para derrubar a república, no seguimento de vários incidentes que culminaram com o assassínio de Calvo Sotelo, líder da direita parlamentar. Como se sabe, o levantamento teve eco nalguns pontos do país, mas falhou noutros, desde logo em Madrid e Barcelona, dando origem à terrível guerra civil que durante três anos devastou o país vizinho. Enfrentaram-se dois blocos políticos antagónicos divergentes mesmo entre si, os republicanos ou lealistas (que incluíam republicanos maçons, liberais, socialistas, comunistas, trosquistas, anarquistas, autonomistas bascos e catalães, entre outros). apoiados pela URSS e pelo México, e os nacionalistas (sobretudo monárquicos, conservadores, falangistas-fascistas, carlistas), apoiados pela Alemanha, Itália e oficiosamente, por Portugal. Com superior máquina de guerra e forças mais preparadas, e aproveitando-se das encarniçadas lutas internas no campo adversário, foram estes últimos os vencedores, ganhando terreno ao campo republicano até à queda de Barcelona, Valência e Madrid, em 1939. Nesses três anos terríveis houve atrocidades das duas partes, com quase mais mortos que prisioneiros. Meses depois do fim, começava a 2ª guerra Mundial.
       Manuel Azaña e Francisco Franco, os dois grandes representantes de cada lado, ainda em tempos da república
 
Os 80 anos do início da Guerra caem precisamente numa altura em que Espanha está sem governo efectivo depois das inconclusivas eleições de 26 de Junho, em que o risco de secessão da Catalunha é real, em que a classe política está desprestigiada e surgem novos actores partidários, quiçá mais radicais, e em que Espanha está ameaçada pela Comissão Europeia de novas sanções. Aparentemente, o único problema afastado é a questão de regime. E nalguns casos, certos fantasmas dos anos trinta parecem reaparecer, sobretudo quando há radicais ou irresponsáveis que os trazem à luz do dia.
 Claro que hoje em dia a sociedade espanhola não está tão dividida como em 1936, salvo nos nacionalismos catalão e basco (o galego é mais uma teimosia de sectores minoritários), já que pode haver combinações possíveis, impensáveis há oitenta anos (por exemplo, monárquico e autonomista). À esquerda, o PCE e sobretudo o PSOE são muito diferentes do que eram na altura, as formações republicanas azañistas são irrelevantes, os anarquistas também definharam (a sede da CNT/FAI em Barcelona é quase imperceptível, como tive ocasião de verificar), o POUM é uma memória; à direita, a Falange não é mais que meia dúzia de saudosistas (e todos os partidos neofranquistas foram um fracasso), os carlistas, ainda mais minoritários, dividiram-se numa pequena facção de esquerda e noutra de direita, e monárquicos há-os em toda a parte; curiosamente, talvez seja o PP o mais parecido com um dos grandes partidos da época, a CEDA, de Gil Robles (cujo filho, o espanhol que melhor português vi falar, pertence ao PP e chegou a presidente do Parlamento Europeu), embora num contexto muito menos tenso. Aparentemente, o Podemos é a formação com mais saudades da república, como se provou com alguns militantes destacados fazendo manifestações anticlericais, mesmo sabendo ao que isso levou. E a sua implantação crescente não é um bom sinal.
Mas a lição da história parece ter caído bem nos espanhóis. Aparentemente, e a julgar pelos resultados eleitorais, os povos vizinhos não têm grande vontade de reviver os anos trinta, nem sequer nos cenários de secessão.

É irónico que nos últimos dias vários periódicos do nosso país tenham publicado uma qualquer sondagem em que mais de 70% dos portugueses veriam com bons olhos uma união ibérica. Tenho dúvidas nos métodos do inquérito e se as pessoas perceberam bem o que lhe perguntaram. Mas aos  iberistas que ficariam muito agradados numa fusão por questões fiscais e outras razões menores, devia-se-lhes perguntar se também gostavam de ser "ibéricos" ao tempo da Guerra de Espanha, como tudo o que isso implicou. Tenho ideia que o seu fervor se dissiparia num instante.

terça-feira, junho 28, 2016

Espanha depois de 26 de Junho



A Espanha era, como dizia há uns dias, outro dos pontos quentes da semana que acabou agora. Depois do caldeirão Brexit, os resultados, suficientemente confusos para gerarem dores de cabeça e muitas dúvidas sobre quem governará, foram como que um anticlimax. Afinal, e ao contrário do que diziam as sondagens, que mais uma vez erraram, o PP ganhou com mais lugares do que em Dezembro, o PSOE baixou mas manteve-se em segundo, e o Podemos coligado com a Izquierda Unida não só não ficou em segundo como teve piores resultados do que a soma das duas formações há seis meses. Só o Ciudadanos, como se previa, baixou ligeiramente. Mas os partidos tradicionais aguentaram-se e as novas formações travaram a sua marcha que se pretendia inexorável.

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É interessante ver a alterações e os votos divididos geograficamente: se o PSOE quase só se aguenta na Andaluzia, e mesmo assim periclitantemente, o Unidos Podemos domina na Catalunha mas agora também no País Basco, tendo roubado votos ao PNV e às formações de esquerda abertzale existentes. Já o PP domina o resto do país, incluindo em zonas normalmente mais afectas à esquerda, como as Astúrias e a Andaluzia, e tirando as tais zonas bascas e catalãs, vence em todas  as grandes cidades e capitais de província, assegurando um voto predominantemente urbano. É irresistível fugir à comparação com os votos do referendo britânico: também então se escreveu que o voto anti-UE era predominantemente rural ou de cidades pequenas e de eleitores mais idosos. Aqui, não podendo fazer a mesma comparação geracional, nota-se que o PP, provavelmente auxiliado pelos temores dos resultados do referendo, terá ganho bastantes votos nas grandes urbes dos eleitores europeístas.

Neste mapa interactivo do jornal digital El Español, do antigo director de El Mundo, Pedro J. Ramirez, pode-se ver em pormenor a distribuição geográfica dos votos. É curioso observar que embora a divisão ideológica que já estava presente na Guerra Civil dos anos trinta se mantenha na sua grande maioria (a direita com a Galiza e Castela, a esquerda com boa parte da Andaluzia e Catalunha e os partidos nacionalistas com força tanto na Catalunha como no País Basco), houve algumas regiões que mudaram nos últimos tempos. São os casos das Astúrias, outrora um bastião da esquerda e do operariado mineiro, e onde agora o PP vence, ou da supracitada Andaluzia, onde os populares avançaram e venceram em todas as cidades importantes, nalgumas, como Granada, com resultados inequívocos. Em sentido inverso, na Navarra, em tempos a praça-forte do movimento carlista e das suas milícias requetés, que se opunham à autonomia basca e se colocaram ao lado de Franco, as forças autonómicas, o Podemos e a esquerda abertzale estão em maioria. Sinais dos tempos, da mobilidade geográfica e das mudanças sociais e profissionais, incluindo a diminuição do sector primário e da mudança da indústria.

O futuro próximo não parece simples, mas os partidos terão forçosamente de se entender, ou pelo menos não prejudicar a formação de um governo, sob pena de se cair no descalabro de uma terceira eleição. O mais provável é o PP reforçado conseguir formar governo com apoio do Cidadãos e eventualmente da Coligação Canária (fala-se mesmo no Partido Nacionalista Vasco, o que implicaria um entendimento histórico entre dois nacionalismos antagonistas e várias concessões a Bilbao) e uma abstenção amarga por parte do PSOE. A esquerda, dividida por radicalismos e nacionalismos, está condenada a não se entender. Em qualquer dos casos, Rajoy é o principal vencedor desta contenda, o que constitui um caso espantoso de resistência e perseverança, mesmo que os inúmeros casos de corrupção tenham fustigado o PP, a situação económica e financeira tenha potenciado a emergência do Podemos e do Cidadãos e que as caras no seu partido tenham mudado pouco - em mais de trinta anos, Rajoy é apenas o terceiro líder dos populares, e já lá está há 12 anos. Pedro Sanchez, do PSOE, aguentou-se por ora, mas tem a cabeça posta a prémio pelos barões regionais do partido. Pablo Iglesias e Albert Rivera perderam por enquanto, mas deverão dar cartas para o futuro, assim como Alberto Garzon, o jovem líder da Izquierda Unida e do vetusto PCE (é alguns meses mais novo que Cristiano Ronaldo, só para comparar), já que o bipartidarismo, mesmo tendo ganho algum fôlego, terá de ceder espaço aos emergentes, à recuperada IU e aos nacionalistas, sempre importantes.
E entre as várias personalidades que terão responsabilidades no futuro governo, há que não esquecer a que está mais acima na hierarquia do estado e que representa a unidade de Espanha: o Rei Felipe VI, que tem tido um comportamento inatacável durante todo este longo e tortuoso processo.


Ao mesmo tempo, a título de curiosidade, mantém-se um conjunto de partidos anões, como formações regionalistas quase invisíveis, uma miríade de partidos de extrema-esquerda, a sempiterna Falange, e o centrista, UPyD, que prometeu ser a nova força do centro entre PSOE e PP, chegou a eleger vários deputados, mas que se esvaziou completamente com a erupção do Ciudadanos.

domingo, junho 19, 2016

Uma semana que se prevê quente


A semana que amanhã começa promete ser quente. De facto, a meteorologia prevê a subida acentuada das temperaturas, consentâneas com o início deste Verão adiado. Em vésperas de S. João não se pedia menos. Mas espera-se que suba ainda mais em Londres, Edimburgo e Madrid. E por arrasto, em toda a Europa.

Chegou a semana tão nervosamente aguardada pelo referendo à permanência do Reino Unido na UE. As sondagens falharam redondamente nas legislativas do ano passado, mas ainda assim são um indicador a ter em conta. Até há dias davam uma crescente preferência pelo "não", o tão badalado Brexit, mas o assassínio brutal da deputada trabalhista pró-europeia Jo Cox por um alucinado de extrema-direita parece ter invertido as coisas e dado alento ao "sim" à permanência. As causas emocionais não ganharão eleições, mas podem ajudar a baralhá-las. Nunca se despreze as ondas de choque que podem provocar - e quanto mais perto dos actos, mais levantam. Mas o risco do "não" e do consequente Brexit continua a ser bem real. É-me para mim difícil perceber o  porquê desta opção, salvo, lá está, por razões emocionais, nacionalistas, e de uma mistura da velha desconfiança britânica do "continente" com os anticorpos provocados nos últimos anos pelas instituições europeias. Os britânicos têm muito a perder caso saiam mesmo da UE: irrelevância da City, fim ao livre trânsito de mercadorias, pessoas e capitais, isso numa altura em que o velho império está há muito perdido (e em muitos casos o suplanta) e os Estados Unidos já não têm o mesmo interesse em ver o Reino Unido como aliado preferencial (preferem vê-lo na UE). Pior: pode significar o fim da união. A Escócia por certo não perderá a oportunidade de reivindicar a adesão à UE e de convocar novo referendo. E neste, a independência ganharia com toda a certeza. É portanto com o espectro do declínio (e futura desagregação?) da UE e com o fim do Reino Unido que nos deparamos.


Aqui ao lado, em Espanha, preparam-se novas eleições, cujos resultados prometem não ser substancialmente diferentes dos de Dezembro, salvo pela troca de esquerdas: o PSOE poderá ficar em terceiro, atrás da coligação de esquerdistas radicais com comunistas Unidos Podemos. Ou seja, mais uma vez não haverá maioria para ninguém. O PP, sempre enredado nos seus incontáveis casos de corrupção e num conjunto de dirigentes gasto e ultrapassado (note-se que em trinta anos o partido teve apenas 3 líderes), permanece à frente, mas longíssimo da maioria, e o Ciudadanos, que poderia ser um fiel da balança com gente nova e propostas arejadas, também não parece ganhar muito. A tragédia maior é o afundamento do PSOE em detrimento do Juntos Podemos, em que não faltam militantes que publicamente usam slogans como "(as igrejas) ardereis como em 1936". Isto a semanas de se passarem oitenta anos do pronunciamento que levou à horrível Guerra Civil.

Gozemos o calor e os santos populares, enquanto nos é permitido. Talvez o Verão seja quente mas não insuportável.

                        (Campanha eleitoral em Baeza, Andaluzia, Dezembro 2015)

PS: e claro está, como hoje lembra um dos nossos periódicos na sua versão online, para subir ainda mais, temos o decisivo confronto da Selecção Portuguesa contra a surpreendente Hungria, sem margem sequer para empatar. Se houver alguma competência no ataque e não aparecer o espírito dos "invencíveis magiares" dos anos 50, a qualificação é possível. A alternativa, depois de se cair num dos grupos mais acessíveis do torneio, é demasiado humilhante.

domingo, dezembro 20, 2015

O regresso do multipartidarismo em Espanha


As eleições que prometem abalar o sistema representativo em Espanha estão à porta. Muito se tem falado no fim do bipartidarismo. Nada de errado, já que há mais de 30 anos que o PSOE e o PP, antes AP, têm dominado largamente a política espanhola, com melhores ou piores resultados. Mas isso nem sempre aconteceu no actual regime monárquico constitucional. Nas primeiras eleições, embora já houvesse dois partidos dominantes, não havia um tamanho oligopólio. A UCD ganhava com maioria relativa, o PSOE ficava um pouco atrás, e o PCE a a AP tinham resultados honrosos, embora aquém do que planeavam. Na recente biografia de Paul Preston sobre Santiago Carrillo, que já folheei, o velho líder comunista achava que o grande confronto seria entre o seu partido, símbolo da oposição ao franquismo e com militantes aguerridos (e o regresso da mítica Pasionária), e o de Fraga Iribarne, representante de saudosistas do regime anterior.  Ganharia a UCD de Suárez as duas primeiras eleições, seguida do PSOE do jovem González, deixando o PCE, de imagem mais envelhecida, muito atrás. Também a AP obteve resultados abaixo dos esperados. A UCD cindiu se depois, engrossando as fileiras do PSOE e da AP, depois PP, embora durante algum tempo Suárez se tentasse imiscuir com o seu projecto centrista, em vão. O PCE, agora na Izquierda Unida, decaiu. Daí data o bipartidarismo espanhol, que tem hoje data de encerramento.

sábado, outubro 03, 2015

Nacionalismos com pouca base histórica



Na sequência das eleições regionais/referendários na Catalunha, que deixaram as reivindicações independentistas em banho-maria, recordo que com tantas pulsões secessionistas por essa Europa fora, as de Espanha são exactamente casos que não correspondem a antigos estados, ou então são casos perdidos no primeiro milénio da nossa Era.


O Condado da Catalunha é uma reminiscência dos fins do primeiro milénio, resultante da Marca Hispânica, e que se integrou no Reino de Aragão, que por sua vez se uniria a Castela e Leão na sequência do casamento entre Fernando e Isabel, formando a moderna Espanha. Revoltou-se por diversas vezes contra os impostos e as condições de Madrid, em 1640, quando pela primeira vez se falou numa "república catalã", na Guerra da Sucessão de Espanha, em que apoiou a Casa de Áustria contra Filipe de Anjou (que venceria, instalando os Bourbons no trono), e nas duas breves repúblicas espanholas. Sempre teve pulsões autonomistas e separatistas, mas as breves concretizações duraram muito pouco, não sendo mais que realidades efémeras e falhadas.


O Reino da Galiza é mais um nome honorífico e identitário do que a memória de um real estado. Há quem atribue esse nome ao Reino Suevo, sediado em Braga, e ao reino que se desenvolveu a partir das Astúrias. Na realidade, e embora se possa dar esse nome ao reino dos suevos, o antigo território do Noroeste peninsular é mais conhecido pelo nome do povo que o habitou. Quando ao que surgiu no Séc. VIII, a designação comum é Reino das Astúrias, que depois evoluiu para o Reino de Leão. Numa ou noutra ocasião, ressurgiu o Reino da Galiza, sobretudo como divisão feita pelo soberano entre os príncipes para evitar guerras internas, numa época em que a concepção de estado era bastante diferente da de hoje e era sobretudo o território de um Senhor. A Galiza, apesar de uma forte identidade cultural, acompanhou efectivamente a construção de Espanha, como parte do Reino de Leão, que em 1230 se uniu a Castela, e que nos séculos XV e XVI complementaria as uniões com a junção, por casamento, a Aragão, e a conquista de Granada e da Navarra.


E o País Vasco é o nome que se dá actualmente às províncias Vascongadas, que sempre foram castelhanas, mas que com a expansão da língua basca criaram, com outros elementos culturais, uma identidade própria. Mas a única antiga entidade estatal da região chama-se Navarra, e apesar de muitos bascos a considerarem como parte integrante do Euskadi e de haver falantes de basco na região, a grande maioria dos navarros não é adepta da solução independentista basca. Recorde-se que durante a Guerra Civil de Espanha, a Navarra era um dos bastiões dos nacionalistas, com as suas aguerridas tropas de requetés carlistas, inimigos mortais dos autonomistas bascos.

 (Mapa da Península Ibérica em meados/fins do Séc. XV).

É curioso verificar que estas pulsões separatistas tem mais incidência em Espanha do que noutras partes da Europa. Mas a Escócia também reclama a separação do restante Reino Unido, e há um ano a independência esteve quase a ganhar o referendo. Mas a Escócia era efectivamente um reino independente, que entre algumas anexações pela Inglaterra, só se lhe uniu definitivamente (e por vontade própria) em inícios do Século XVIII. Ou seja, a legitimidade história para obter a independência é muito maior do que a de qualquer região de Espanha. E se há outras regiões com pulsões separatistas sem grande base em antigos estados, casos da "Padânia", da Córsega ou do Ulster, outros há que foram estados reais , duradouros e poderosos, como Veneza, a Baviera,  e a Flandres. curiosamente, nunca ouvi falar de movimentos independentistas numa região que chegou a ser, durante a maior parte da Idade Média, um dos estados feudais mais importantes da Europa Ocidental: a Borgonha.


quarta-feira, junho 03, 2015

O mosaico de Bilbao



Voltando ao tema da bola, e acabadas as provas nacionais ( com o Benfica a ganhar a costumeira taça da Liga frente a um Marítimo raçudo, talvez até demais, voltando a ser o detentor do maior número de troféus em Portugal, e os "lagartos" a arrebatar já no fim a Taça de Portugal a um Braga que se acomodou cedo demais, e que por isso mesmo não a merecia levar), ainda temos a final da Liga dos Campeões no sábado, para desgosto de quem tenha bilhete para o Primavera Sound no mesmo dia para ver espectáculos as mesmas horas. Mas entretanto houve mais algumas decisões, como a da Taça do Rei.

O resultado em si não interessa, já que o Barcelona de Messi jogava em casa e venceu um Athletic de Bilbao que teve uma época uns furos abaixo do que se previa e que tarda em regressar aos títulos (desde os anos oitenta). E também pouco interessa aquele triste momento em que tocou o hino espanhol, e em que o Rei assomou à tribuna, e que pôs muitos catalães e biscainhos a apupar ambos. É o que dá realizar uma final de taça de Espanha com a chancela real num estádio composto em grande parte por independentistas (e se o são, porque é que aceitaram que a final fosse ali?). Mas gostei de ver o imenso mosaico que os adeptos do Athletic compuseram no Nou Camp. Sim, os culés também, mas estavam em casa, são milhões, têm mais adeptos, etc. É absolutamente admirável como é que uma cidade de 300 mil habitantes, com raivais nas proximidades, como a Real Sociedad, leva dezenas de milhares de fãs e consegue fazer um mosaico impressionante formando as cores do clube e do País Basco, com o símbolo e nome do clube e palavras de incentivo pelo meio. O Athletic, além de se manter fiel à tradição de só jogar com bascos, continua a ser um clube incrível, como incrível é o seu novo estádio. O Vitória de Guimarães e o Braga bem podiam olhar para aqui e fazer as devidas comparações.







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terça-feira, março 31, 2015

Périplo por Espanha


Aqui ao nosso lado há uma imensa terra, tão fabulosa como diversa. Espanha é o único país com que temos fronteira, e no entanto nem sempre aproveitamos essa porta aberta (sobretudo desde 1986). Há anos que olho para os mapas do país vizinho, fazendo itinerários, organizando jornadas e excursões mentais, listando locais, fazendo contas. Mesmo a Galiza, a região que conheço melhor, ainda me reserva muitas surpresas. Se pudesse, faria umas quinze viagens em Espanha, todas diferentes, e muito ficaria por ver. De quando em quando, lá consigo fazer uma. E há dias percorri uns bons quilómetros, passando em todas as regiões do Norte do país, excepção feita à Catalunha e à costa cantábrica e Astúrias.

Estrada sempre a direito na Tierra de Campos, entre Benavente e Palência, a parte verde do imenso planalto castelhano.



Depois de largas centenas de quilómetros por estrada, com paragem em Logrono, para experimentar os vinhos da Rioja, o objectivo da nossa viagem: o viaduto da futura autoestrada que ligará a Navarra a Jaca, sempre com os Pirenéus ao lado, e que passará sobre as águas da albufeira de Yesa. O terreno ainda está enxuto, mas por pouco tempo. A obra é da autoria de engenheiros espanhóis e portugueses, entre os quais o que me convenceu a ver a nova via naquela paisagem singular. 



A pequena aldeia de Sigués ficará separada da albufeira por um dique. Todo o terreno que vemos em primeiro plano será submerso. O que quer dizer que Sigués acabará comprimida entre a água vedada e a montanha atrás, cortada por um estreito vale.


Mais atrás, ou mais para montante, a paisagem em Salvatierra de Escat, nome meio castelhano meio aragonês (suponho eu), já em plenos Pirenéus.


Voltando para oeste, contornando á Álava e Burgos (onde não houve tempo para parar, com pena minha, para finalmente apanhar a catedral aberta, coisa que me escapou noutras ocasiões), regresso a Castela, ou mais precisamente a Léon, com a sua altaneira catedral no centro da cidade, entre o casco histórico e outros monumento com as memórias do antigo reino leonês.
 
 
Como a Basílica de Santo Isidoro, onde está enterrado o próprio Santo Isidoro de Sevilha, arcebispo de Sevilha na época do reino visigodo reconhecido como Doutor da Igreja, além de vários reis de Leão, no respectivo panteão. Ali tiveram lugar as Cortes de Leão de 1188, que incluiu representantes populares e da burguesia, menos conhecidas que a Magna Carta, mas igualmente precursoras do que seria o modelo parlamentar e a defesa de direitos fundamentais.


 
Mais recente mas não menos admirável, a Casa Botines, da autoria de Gaudi, projectada para ser um palacete residencial, mas que se tornaria na sede bancária da Caja España. Note-se à esquerda, em baixo, a estátua ao arquitecto catalão sentado no banco, desenhando o edifício. A meio da imagem, uma barraquinha de propaganda da Union del Pueblo Leonés, um partido regional cujo objectivo maior é formar uma região autónoma separada de Castela, correspondente ao antigo Reino de Leão.




Pormenor do frontão sobre a entrada, com S. Jorge a trespassar o dragão.
 
                        Dia de mercado em frente ao Ayuntamiento, na Plaza Mayor de León.
 
 
Mais a oeste, no meio do planalto leonês e da Maragateria, a antiquíssima Astorga, pequena cidade com uma imponente catedral, construída sobre a sua antecessora medieval. Importante cruzamento na época dos romanos (como comprovam os marcos no Gerês, que indicavam as distâncias entre Bracara Augusta e Astúrica Augusta), recuperou importância na Idade Média com o Caminho de Santiago. Aqui morreu o Conde D. Henrique, pai do fundador. A catedral tem traços arquitectónicos até Séc. XVII, visíveis nas torres. O templo impõe-se sobre a cidade, mais ainda pelo facto de em frente quase não haver praça.
 
 
Ao lado, outro das raras construções de Gaudi fora da Catalunha: o palácio episcopal, hoje Museu dos Caminhos de Santiago, um edifício de contos de fadas, ainda sem as linhas curvas que caracterizariam a obra do genial catalão.


O conjunto da Catedral-palácio episcopal




Descendo El Bierzo, para baixo de Ponferrada, e já a caminho da Galiza, Las Médulas. Aquilo que parece uma gigantesca termiteira era na realidade a maior mina de ouro do Império Romano. Uma montanha esventrada que assim ficou, até aos nossos dias, mostrando uma paisagem alucinante no meio dos montes e do verde.

quinta-feira, junho 19, 2014

Felipe VI


Hoje virou-se uma página na história de Espanha, para além do fim da triunfal geração da selecção de futebol: Juan Carlos I, o monarca que devolveu a democracia ao país e que a aguentou nos momentos mais complicados, dando espaço aos restantes actores quando se impunha, sai de cena, com a missão cumprida, dando lugar ao seu filho, doravante o Rei Felipe VI. Íntegro, consciente do seu dever, preparado, conhecedor do seu país e dos problemas que o afectam, o novo Rei é o homem em quem quase todos depositam a confiança quando Espanha atravessa uma crise política, social, regional e económica numa tempestade quase perfeita para a qual se precisa de um leme firme. Metáforas marítimas à parte, a tarefa que aguarda Felipe VI é complicada, mas dificilmente haveria alguém melhor do que ele para a enfrentar.

Juan Carlos não abdicou em vão, embora a superficialidade dominante tenha escolhido questões secundárias (como a caça ao elefante e outros faits-divers) como motivo. No ano em que a questão do separatismo se coloca como nunca, com o anunciado referendo na Catalunha, e as instituições vêem a sua popularidade em clara baixa, quando o desemprego e todos os problemas económicos resultantes da dívida e do rebentamento da bolha imobiliária que antes tinha feito a riqueza aparente do país se fazem mostrar com grande intensidade (embora haja alguns indícios de esperança), um monarca com outra disponibilidade, até física, era essencial para assegurar a estabilidade e a união de Espanha, e a imagem de uma personalidade serena mas firme impunha-se. É curioso como a comunicação social, ao falar deste assunto, não cessa de referir que "a instituição monárquica atingiu o seu ponto mais baixo de popularidade". É que todas as instituições de Espanha atingiram pontos mínimos de confiança, o que diz bem da crise das referências e da autoridade no país, e acima da coroa, só as forças armadas conseguem maior aprovação. Se queriam culpar o trono pelas crise do país, erraram o alvo...

Outra questão que boa parte das nossas TVs e jornais levantou foi a da "vontade dos espanhóis em questionar o regime", ou mesmo que "o povo espanhol" se tinha manifestado nas ruas "por um referendo para decidir se queria monarquia ou república". Eis um bom exemplo de como a suposta informação pode ser perniciosa e grosseiramente parcial. Confundir a "rua" com a vontade da maioria de um povo é um erro antigo e constante, muito repetido nestas paragens. Se fosse assim, mais valia entregarmos o governo da nação a Arménio Carlos. O que se viu foram os habituais movimentos radicais - ou independentistas - numa jogada oportunista, pretendendo aproveitar a abdicação do Rei para impor a sua vontade (que estava bem à vista: queriam um referendo para implementar uma hipotética república, não para questionar o regime), em manifestações ruidosas, com a horrível bandeira da 2ª república de má memória, muitas vezes com cartazes ilustrativos de guilhotinas ou frases tão eloquentes como "los bourbones a los tiburones". São os descendentes dos republicanos dos anos trinta, os mesmos que deixaram o país num caos e que permitiram o caldo de raivas e dissensos que levou à tenebrosa guerra civil. À cabeça, o PCE, partido legalizado por vontade expressa do Rei e que mostra agora toda a sua ingratidão, o que aliás não admira, vinda de uma formação que não hesitou em liquidar quem lhe dava na bolchevista gana e que obedecia directamente a Estaline. Ao lado, os "Indignados", muitos deles com uma postura violenta e uma agenda política que desembocou no Podemos, a nova formação partidária de inspiração chavista, que teve uma rotunda votação nas últimas eleições europeias. Em todos coexiste, além da virulência verbal, a falta de memória e a simples falsificação grosseira da história: dizem e repetem que "a monarquia não tem legitimidade" porque se funda "na ditadura franquista. É verdade que Juan Carlos foi proclamado Rei logo após a morte do caudilho; mas que se se saiba, era essa a fonte de poder em Espanha, na altura. Ganhara a guerra a uma república desaparecida, e não havia qualquer outro poder mais ou menos legítimo. Depois, o próprio Rei nomeou um governo que se encarregou de escrever uma nova constituição e de a apresentar a referendo: quase 92% dos eleitores votou a seu favor. E as formações políticas que estiveram contra, com a exlusão extraordinária do PCE dos tempos de Santiago Carrillo, eram quase as mesmas, incluindo a extrema-direita. Cai assim por terra o argumento ignorante de que "a monarquia não tem legitimidade" e que "ninguém votou nela". Houve alguns milhares na rua a brandir a daltónica bandeira republicana? Também em 1977 os anarco-sindicalistas da CNT reuniram mais de cem mil apoiantes em Barcelona, e nem por isso tiveram grande relevância nas urnas. De qualquer modo, todas as sondagens a um eventual referendo ao regime actual dão clara preferência pela monarquia - a mais desfavorável dá-lhe 13% de avanço sobre um hipotética república. Mas nem é preciso. Basta recordar que em questões de legitimidade, a monarquia espanhola, que deu ao país alguns dos seus melhores anos, com democracia, liberdade e autonomias várias, é bem mais legítima do que a maior parte das repúblicas, a começar pela que vigora em Portugal.
Felipe VI teve um discurso prolongado mas em que tocou em todos os aspectos essenciais sobre o que deverá ser o seu reinado, sem esquecer o papel do seu pai e do seu avô. A cerimónia teve sobriedade mas também pompa e dignidade. O novo Rei mostrou-se ao povo de cabeça descoberta, num soberbo Rolls Royce descapotável já com história, e depois na varanda do Palácio Real, com a nova Rainha Letizia, as filhas, agora também na linha de sucessão, e por breves momentos, os seus pais, o casal que deixou de sero Real. Terá sempre o melhor dos conselheiros para o ajudar a reinar, e a alegria de ser Rei sem que seja por morte de seu pai. A propósito, Juan Carlos ainda não tem título definido. Terão pensado em dar-lhe o de Conde de Barcelona? Seria uma bela homenagem ao seu pai, o príncipe que não reinou, e quem sabe se a recuperação do título condal não cairia bem entre muitos catalães. É também com esses aspectos subtis que se mantém um país. Ninguém mais do que Felipe VI está preparado para o fazer.