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segunda-feira, junho 12, 2017

Desconclusões das eleições no Reino Unido


Incrível como no espaço de um ano os líderes conservadores ingleses (e primeiros-ministros no cargo) conseguem convocar actos eleitorais quem à partida fortaleceriam a sua posição e saem deles muito mais fracos. O caso de David Cameron é evidentemente muito mais grave, porque para consolidar a sua posição face aos contestatários internos e marginalizar o UKIP abriu caminho ao terramoto do Brexit, que pela primeira vez retirou à União Europeia um dos seus membros e isolou um Reino Unido já sem império. Depois da sua retirada, e da rocambolesca sucessão de candidatos à liderança do partido e do governo, acabou por sobrar Theresa May, então ministra da administração interna, e até ali favorável à permanência na União europeia.
 
May fartou-se de meter os pés  pelas mãos e de dar uma série de tiros nos primeiros, desde prometer uma "saída dura" (ela que até fora semi-europeísta) até jurar que não convocaria eleições antecipadas, passando pelos seus cortes nos efectivos policiais numa altura em que o país é fustigado pelo terrorismo. Semanas depois, anunciava mesmo eleições gerais, para aproveitar o momento, em que as sondagens davam uma maioria ainda mais forte aos tories e previam uma derrota bisonha ao Labour de Jeremy Corbyn, comparando o momento do partido ao do tempo de Michael Foot, o mais esquerdista líder de que havia memória. Pensou, tal como Cameron, que se legitimaria através de eleições e ganharia assim força para prosseguir com o Brexit. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Perdeu incrivelmente a maioria absoluta e viu os trabalhistas registarem um grande avanço, coisa impensável semanas antes. E ainda os liberais-democratas a recusarem-se a fazer parte do governo, ao contrário do que sucederam em 2010. Não lhe restou alternativa senão ir a Belfast procurar o apoio dos unionistas norte-irlandeses da DUP para conseguir um frágil governo.
 
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Não há conclusões claras a tirar deste processos. A principal será a de que os políticos britânicos demasiado calculistas e gananciosos acabam por ser castigados nas urnas. Os trabalhistas sobem, os conservadores e os independentistas escoceses descem, os liberais-democratas registam um ligeiro avanço e o UKIP é arrasado, o que não espanta depois da lamentável luta - em sentido literal - pela liderança do partido e o descrédito do bufão Nigel Farage. Mas não se confirma o tal arrependimento dos eleitores em relação ao Brexit, já que os trabalhistas tinham tido uma atitude dúbia e os maiores defensores do Remain tinham sido os lib-dem e os escoceses. e já agora, com o desaire destes últimos, a possibilidade de novo referendo à indpendência da Escócia deve ficar por ora afastada.
 
Theresa May perdeu quase toda a credibilidade que lhe restava, formará um governo frágil que poderá não durar muito tempo, e a possibilidade de Jeremy Corbyn, o velho esquerdista que propõe nacionalizações, chegar ao governo, é bem real. E o processo do Brexit prossegue. Tal como a confusão no momento político.

sexta-feira, outubro 21, 2016

Imagens da Caledónia


A Escócia é um bom destino de viagem de inícios de Outono, até porque as temperaturas parecem as de Dezembro em Portugal. Mas se se tiver a sorte de não apanhar chuva - difícil mas perfeitamente possível - vale bem a pena. As paisagens das Highlands são imponentes e belíssimas, principalmente a que rodeiam os lochs. Edimburgo é uma cidade ao mesmo tempo monumental e dinâmica. E as velhas tradições coexistem com a modernidade. Ninguém se admire se vir à noite, nos pubs ou restaurantes,  homens de kilt sem serem empregados ou guias turísticos.


Edimburgo ao pôr do sol, vista de um dos clássicos miradouros, a Carlton Hill.


O ex-líbris da capital escocesa, o imponente Castelo de Edimburgo, onde entre outras estão guardadas as jóias da coroa da Escócia, que em 300 anos, só de lá saíram uma vez para a abertura do parlamento, em fins dos anos noventa.

Urquhart Castle, sentinela do Loch Ness. Por ele passaram diversos defensores, invasores, como o clá MacDonald, e reis escoceses. Em fins do século XVII, em plena guerra civil, uma explosão provocada pela própria guarnição em fuga para impedir a tomada pelos Jacobitas retirou-lhe muita da imponência de outrora.


O Loch Ness, visto do Norte, perto de Dores.Uma combinação de cores única, com o famoso lago e os seus 35 quilómetros de comprimento em e evidência.


Inverness, principal burgo das Highlands, atravessada pelo rio Ness, que nasce no loch com o mesmo nome. Uma igreja por cada denominação. À esquerda, a igreja católica local, com um serviço de missa especial em polaco.

Uma curiosidade: como disse um amigo meu, encontra-se uma Union Jack nas Highlands é tão difícil como avistar a Nessie. E no entanto, no referendo de 2014 sobre a independência da Escócia, a maioria dos locais votaram pela permanência no Reino Unido.

domingo, junho 19, 2016

Uma semana que se prevê quente


A semana que amanhã começa promete ser quente. De facto, a meteorologia prevê a subida acentuada das temperaturas, consentâneas com o início deste Verão adiado. Em vésperas de S. João não se pedia menos. Mas espera-se que suba ainda mais em Londres, Edimburgo e Madrid. E por arrasto, em toda a Europa.

Chegou a semana tão nervosamente aguardada pelo referendo à permanência do Reino Unido na UE. As sondagens falharam redondamente nas legislativas do ano passado, mas ainda assim são um indicador a ter em conta. Até há dias davam uma crescente preferência pelo "não", o tão badalado Brexit, mas o assassínio brutal da deputada trabalhista pró-europeia Jo Cox por um alucinado de extrema-direita parece ter invertido as coisas e dado alento ao "sim" à permanência. As causas emocionais não ganharão eleições, mas podem ajudar a baralhá-las. Nunca se despreze as ondas de choque que podem provocar - e quanto mais perto dos actos, mais levantam. Mas o risco do "não" e do consequente Brexit continua a ser bem real. É-me para mim difícil perceber o  porquê desta opção, salvo, lá está, por razões emocionais, nacionalistas, e de uma mistura da velha desconfiança britânica do "continente" com os anticorpos provocados nos últimos anos pelas instituições europeias. Os britânicos têm muito a perder caso saiam mesmo da UE: irrelevância da City, fim ao livre trânsito de mercadorias, pessoas e capitais, isso numa altura em que o velho império está há muito perdido (e em muitos casos o suplanta) e os Estados Unidos já não têm o mesmo interesse em ver o Reino Unido como aliado preferencial (preferem vê-lo na UE). Pior: pode significar o fim da união. A Escócia por certo não perderá a oportunidade de reivindicar a adesão à UE e de convocar novo referendo. E neste, a independência ganharia com toda a certeza. É portanto com o espectro do declínio (e futura desagregação?) da UE e com o fim do Reino Unido que nos deparamos.


Aqui ao lado, em Espanha, preparam-se novas eleições, cujos resultados prometem não ser substancialmente diferentes dos de Dezembro, salvo pela troca de esquerdas: o PSOE poderá ficar em terceiro, atrás da coligação de esquerdistas radicais com comunistas Unidos Podemos. Ou seja, mais uma vez não haverá maioria para ninguém. O PP, sempre enredado nos seus incontáveis casos de corrupção e num conjunto de dirigentes gasto e ultrapassado (note-se que em trinta anos o partido teve apenas 3 líderes), permanece à frente, mas longíssimo da maioria, e o Ciudadanos, que poderia ser um fiel da balança com gente nova e propostas arejadas, também não parece ganhar muito. A tragédia maior é o afundamento do PSOE em detrimento do Juntos Podemos, em que não faltam militantes que publicamente usam slogans como "(as igrejas) ardereis como em 1936". Isto a semanas de se passarem oitenta anos do pronunciamento que levou à horrível Guerra Civil.

Gozemos o calor e os santos populares, enquanto nos é permitido. Talvez o Verão seja quente mas não insuportável.

                        (Campanha eleitoral em Baeza, Andaluzia, Dezembro 2015)

PS: e claro está, como hoje lembra um dos nossos periódicos na sua versão online, para subir ainda mais, temos o decisivo confronto da Selecção Portuguesa contra a surpreendente Hungria, sem margem sequer para empatar. Se houver alguma competência no ataque e não aparecer o espírito dos "invencíveis magiares" dos anos 50, a qualificação é possível. A alternativa, depois de se cair num dos grupos mais acessíveis do torneio, é demasiado humilhante.

sexta-feira, junho 03, 2016

Patrimónios comuns




Portugal, imagem de meados do século passado, ambiente rural, católico, isolado, etc.?


Não. Hébridas Exteriores, Escócia. Ambiente rural, gaélico, protestante, isolado. Fotografia de Paul Strand, 1954.

Afinal há mais semelhanças entre a Europa do Sul e a do Norte do que aquilo que aparenta..

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Brexit?


Fechadas as negociações com a UE, que dão vantagens inigualáveis ao Reino Unido para se manter dentro da Europa dos 28, e marcada a data do referendo que vai decidir se sai ou se fica, ver uma tão grande quantidade de adesões ao "não" surpreende sempre um pouco, mesmo tendo em conta o proverbial eurocepticismo britânico com tudo o que vem do "continente". Já se sabia que o Partido Conservador esteve sempre dividido nesta matéria ( mas surgirem seis ministros e o sempre imprevisível mayor Boris Johnson pelo nega dá ao Brexit possibilidades acrescidas. Junte-se a isso alguns trabalhistas envergonhados (a começar pelo actual líder, Jeremy Corbyn), seguindo a tradição da esquerda Labour  ser também eurocéptica, e claro, o antieuropeu UKIP, e mais alguns movimentos radicais de direita e de esquerda (como o National Front e o Respect, do esquerdista George Galloway). Pelo sim haverá boa parte dos conservadores (a começar por David Cameron, que joga aqui o seu futuro político) e dos trabalhistas, sobretudo a ala moderada, os liberais-democratas, os Verdes e o Partido Nacional Escocês (SNP), que em tempos era mais eurocéptico.
 Para além dos partidos, e a propósito da posição do SNP, vale a pena estar atento aos votos tácticos regionais. Os escoceses são mais europeístas e votarão em massa na continuidade. Ou não. Por mera táctica, poderão votar em grande número pela saída: se os seus votos contarem decisivamente para o resultado final, o Brexit seria o pretexto ideal para forçar novo referendo pela independência, que a causa separatista ganharia certamente movida pelo temor do isolamento do resto da Europa. Por outro lado, esse mesmo receio pode levar a que muitos eurocépticos ingleses votem a contragosto pela continuidade na UE para evitar a dolorosa separação da Escócia. Assim, muitos poderão votar mais com a cabeça do que com o coração. E ainda há que contar com vários movimentos irlandeses unionistas, adeptos da saída.
O mais provável é a manutenção do Reino Unido na UE. Mas é uma probabilidade curta: algumas sondagens dão a vitória ao "não", os votos tácticos poderão ter algum peso e os economistas preocupados com uma fuga em massa da City podem não ser suficientes para convencer os seus compatriotas da bondade da permanência nem de os demover de escaparem à "submissão a Bruxelas". Isto apesar da ideia da parceria com o Estados Unidos já não ser assim tão sólida e de os próprios americanos preferirem um Reino Unido na UE. O espectro do Brexit não é assim tão descabido.

domingo, setembro 21, 2014

We´ll always keep Union Jack


Bem sei que o referendo era "lá com eles", mas sinto um certo alívio pela maioria dos escoceses - ou quem viva na Escócia há mais de um ano - ter votado não à independência. Não que o sim tivesse qualquer ilegitimidade e muito menos de ilegalidade - muito pelo contrário - nem que daí adviesse um grande mal, a fome dos escoceses ou uma tirania do Right Honourable Mr Alex Salmond (embora pudesse criar algum mal-estar entre a grande falange dos que não queriam a independência pura e simples). Mas permitiu que não se criasse um perigoso precedente para outras pulsões independentistas bem mais preocupantes, como a Catalunha, a Flandres, e, pior que tudo, a "Nova Rússia" em plena Ucrânia, sustentada pelas forças russas. não por acaso os separatistas da bacia do Don apoiavam avidamente o "sim" no referendo escocês. Os catalães também, pelo que levaram um balde de água fria. Por aí, talvez esta moda de nacionalismos emergentes tenha arrefecido um pouco (ainda que não tenha, nem pouco mais ou menos, acabado).

Depois, convém lembrar que, a despeito da imagem popular que se criou da Escócia - Wisky, gaitas de foles, kilts e monstros lacustres - a sua união com a Inglaterra para formar o Reino Unido, em 1707, resultou de uma decisão voluntária, apesar da oposição dos jacobitas, também por razões dinásticas e religiosas, e que a partir daí é que o poder britânico se ergueu, com a sua poderosa marinha, a revolução industrial e a expansão do império. A união dos reinos da Escócia e da Inglaterra mudou provavelmente o mundo, a geografia e a civilização. Os escoceses deram grande contributo, com os seus pensadores e inventores, as suas fábricas, os seus soldados. A Escócia é um dos berços do caminho de ferro e da indústria pesada, do pensamento iluminista e económico moderno. Ou seja, dos factores em que assentaram as bases do Império Britânico. Com o resultado do referendo, quaisquer que sejam as reivindicações concedidas apressadamente pelo governo de David Cameron, o Reino Unido manter-se-à uma potência com influência internacional, mesmo sem o império de outrora.

Mas o referendo permitiu redemonstrar que no Reino Unido, a democracia e a livre opinião mantêm-se sólidas. A forma como tudo se desenrolou, a campanha, os argumentos, a inteira liberdade com que cada parte procurou convencer os eleitores, mostrou mais uma vez que aquele velho conjunto de nações é a democracia mais antiga, e provavelmente a mais sólida, do Mundo. Compara-se com os patéticos "referendos" realizados na Crimeia e no leste da Ucrânia para se ver o que é um país livre e outro de cunho autoritário. Mesmo que nas redes sociais tenham aparecido alguns lunáticos a espalhar a ideia de que na Crimeia é que as coisas tinham funcionado e que no caso da Escócia tinha imperado "o medo e a chantagem". Provavelmente far-lhes-ia confusão a liberdade que se goza no Reino Unido, que lhes permitira tecer publicamente tais opiniões. Mas as credenciais britânicas nem precisavam de tanto. Quod erat demonstrandum. O exemplo das ilhas revelou que alguns bons velhos hábitos se mantiveram. Mas é bom saber que a Commonwealth não terá de se alargar para Norte. Antes assim. Até porque a Union Jack, talvez a mais conhecida das bandeiras do globo, e uma das mais bem concebidas, pode continuar a drapejar com a cruz de Santo André no fundo. Só isso seria motivo para votar não no referendo.

Foto

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Apanhar com um helicóptero em cima


Mas o que se passa com os helicópteros na Grã-Bretanha? Em Janeiro, um destes aparelhos chocou contra uma grua usada para a construção de um arranha-céus em Vauxhall (do outro lado do rio fica a sede do MI-5, pelo que se pensou na hipótese de atentado), em plena Londres a dirigir-se para o trabalho, matou o ocupante e um transeunte e feriu mais umas quantas pessoas cá em baixo.

No fim de semana passado, um helicóptero da polícia desabou sobre um bar em Glasgow, junto ao rio Clyde, onde decorria um concerto de ska, e o telhado por sua vezes desabou sobre o público, matando os três ocupantes do aparelho, mais cinco pessoas no bar, e provocando dezenas de feridos (e no mesmo dia caiu um avião das linhas aéreas moçambicanas, vitimando todos os ocupantes, incluindo alguns portugueses).


Claro que os helicópteros não são imunes a acidentes, que acontecem facilmente quando se perde o seu controlo. Mas o que assusta mais aqui é ver a vida quotidiana, seja na ida para o trabalho, nas manhãs em que já apetece tão pouco, ou no lazer do fim de semana, interrompida brutalmente por acidentes imprevisíveis com máquinas infernais vindas do ar. Para além das vítimas, quem estava nos locais não ganhou para o susto e para o trauma.