Enquanto esperamos pela eleição nos States, houve outra mais discreta, no fim de semana, precisamente no país que originou os Estados Unidos: Kemi Badenoch é a nova líder do Partido Conservador. Qual o interesse? Segundo as teorias da interseccionalidade publicitadas pela nova esquerda, todos os oprimidos, na base dos quais estão as mulheres negras, devem unir-se e combater todos os opressores, no topo do qual estão os homens brancos, ocidentais, heterossexuais, etc. O problema? É que nem todos os oprimidos vão nessa. Alguns, imagine-se, são opressores por outras vias e Kemi Badenoch é mulher, negra, e abomina essa teoria assim como toda a cultura Woke. É mesmo considerada da ala direita dos conservadores.
quarta-feira, novembro 06, 2024
The new Tory boss
quinta-feira, outubro 20, 2022
O manicómio britânico
Já se previa que Liz Truss tremesse e caísse em pouco tempo do cargo de PM que tão desastradamente desempenhou, na senda do seu amigo Kwasi Kwarteng, mas sempre julguei que durasse mais umas semanas. A nova "dama de ferro" revelou-se de latão. E o Partido Conservador já teve melhores dias como máquina política e de poder.
Será pois o quarto PM desde o Brexit, descontando Cameron. E o segundo apenas um mês e meio depois da morte da Rainha. Eu bem dizia, no último parágrafo desta posta, que a morte de Isabel II seria um enorme peso para Truss, embora não imaginasse o quanto. O Reino (por enquanto) Unido parece um manicómio a céu aberto. Quanto à desaparecida Monarca, deve ter pronunciado as célebres palavras de Luís XV: depois de mim, o dilúvio
sábado, setembro 10, 2022
Ausência de referências e outras considerações
Às vezes imaginava uma situação caricata, em que uma pessoa morta há umas décadas, aí nos anos 70 ou 80, voltaria à vida e eu teria de lhe explicar tudo o que mudou no mundo desde então, como o fim do confronto Leste-Oeste, por exemplo (se bem que pareça menos longe, hoje em dia), a emergência dos países asiáticos, com a China à cabeça ou o advento da net e das novas formas de comunicação. Para me ajudar, teria de me socorrer de algumas referências ainda existentes. A que me vinha logo à cabeça era a Rainha Isabel II. Diria algo como "tudo mudou menos uma coisa: a Rainha permanece no trono" (ou como o Pedro Correia já aqui afirmou várias vezes, "viu passar todas as modas; só ela nunca passou de moda"). A seguir seria Fidel Castro, que também já lá vai, e outros de quem não me recordo agora.
Agora que a Rainha nos deixou, que referências haveria para uma pessoa de há 40/50 anos? Quem poderia dizer que está no seu lugar? Não me ocorre ninguém. Como se em pouco tempo o Mundo tivesse mudado muito mais depressa do que seria suposto. É mais um dos sinais a indicar-nos que os tempos mudaram mesmo e, sem referências, personalidades ou instituições-âncora, estão mais incertos do que nunca.
E aproveito para rectificar uma ideia que tenho visto a espalhar-se no último dia. Nos muitos e merecidos encómios a Isabel II, já li por diversas vezes que tinha acabado o reinado mais longo de sempre. Também pensei, aquando do jubileu, que iria bater o recorde. Eram só mais dois anos. Mas não. Isabel II ultrapassou a Rainha Vitória e é a Rainha, no sentido estritamente feminino do termo, com o reinado mais longo de sempre. Mas o monarca que detém o galardão continua a pertencer ao outro lado da mancha e dificilmente será "destronado", perdoem-me o trocadilho fácil. Neste aspecto, o (rei) Sol continuará mesmo a brilhar.
sábado, julho 17, 2021
A redenção pela bola
Se as história de superação são apelativas, mais ainda se tornam se lhes forem acrescentadas certas concidências e acasos. O Euro 2020 que acabou há dias é disso exemplo.
Julgava que a superação seria a de um homem, Gareth Southgate, o actual treinador de selecção inglesa. Até agora, nunca a Inglaterra tinha ganho um jogo nos 90 minutos na fase a eliminar dos Europeus. Normalmente ficava-se pelo primeiro jogo (o guarda-redes Ricardo que o diga), tirando em 1996, quando a competição teve lugar precisamente em em solo inglês e ultrapassaram a Espanha nos penaltys. Só que nas meias finais jogaram contra a velha rival Alemanha, em Wembley, empataram a um golo e nas grandes penalidades um jogador inglês falhou, impedindo a sua seleção de chegar à final perante o seu público. O seu nome? Gareth Southgate.
Um quarto de século depois, Southgate levou a seleção inglesa pela primeira vez à final de um Europeu, tendo deixado pelo caminho a Alemanha, com um emotivo 2-0. Passadas as meias, de forma algo duvidosa contra uma aguerrida Dianamarca, a Inglaterra lá chegou a uma final, ainda por cima (e como quase todos os jogos que disputou) em Wembley, quase como em 1996 - quase porque se demoliu e reconstruiu o mítico estádio. E o povo enchia o estádio, ignorava os casos crescentes de covid e cantava, em fervilhante entusiasmo, It´s Coming Home, do célebre hino dos Ligthing Seeds Three Lions (A partir dos vinte segundos do video abaixo vê-se Southgate a falhar o penalty; noutra versão, a original, de 1996, aos 30 segundos a seleção inglesa marca um golo à portuguesa, defendida pelo malogrado Neno).
Mas se não houve redenção por um lado, ela veio de outro. A equipa técnica da Itália é constituída quase em exclusivo por velhas glórias da Sampdória de Génova, como Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Lombardo ou Evani. E precisamente em Wembley, em 1992, na final da Taça dos Campeões perdida para o Barcelona de Cruyff, Mancini e Vialli, a dupla de ataque, os "gemelli del gol", jogaram juntos uma última partida. Vialli prossseguiu uma carreira de sucesso na Juventus, Mancini na Lazio e ambos foram mais tarde técnicos de sucesso em Inglaterra. Até se reencontrarem na equipa técnica da selecção, um pedido expresso de Mancini, e que como se viu no Domingo, até pelo ambiente da equipa, voltou a dar resultado. 29 anos depois de perderem o título europeu de clubes em Wembley, ganharam o de selecções. É só isto, a redenção? Apenas o pretexto. Porque Vialli, já com funções na Azzurra, sofreu um canco no pâncreas, um dos mais difíceis de debelar, recuperou, teve uma recaída, e finalmente venceu-o completamente, sem mais vestígios. Chegou a dizer numa entrevista que "tinha vergonha de estar tão feliz", quando Itália sofria a primeira e mortífera vaga da pandemia. Um ano depois da sua recuperação, GianlucaVialli, que protagonizou uma destas superstições em que o futebol é fértil, no mesmo lugar onde não tinha sido feliz anos antes, voltou a festejar, em lágrimas, com todas as razões do mundo para o fazer, ou no mínimo com muito mais razões do que apenas um penalty falhado.
terça-feira, outubro 13, 2020
As Bodas de Prata da Britpop
Ah, os anos noventa. Depois da nostalgia dos oitenta, eis que a última década do século também desperta saudades, até porque invoca um tempo de paz, prosperidade e optimismo (coisa com que nem todos concordarão, sobretudo na Sérvia, Rússia ou Ruanda). E olhando para os tempos sombrios que atravessamos, essa sensação nostálgica ainda se acentua mais.
Como todas as décadas do último meio século, a cultura pop teve uma influência tremenda. O surgimento dos cinemas em multiplex, a TV por cabo, a entrada em cena, ainda que lenta, da internet (e dos telemóveis), e claro, a música, com os concertos de estádio e os festivais a replicar-se em cada Verão. A música pop, em especial, assistiu a uma melhoria visível em relação aos anos oitenta. Se ainda havia vestígios fortes do hard-rock orelhudo (de que os Gun´s Roses, com hercúlea popularidade, que aliás ainda se mantém, foram demonstrativos), surgiam outras correntes, mais despojadas e substantivas, como o Grunge, da região de Seattle, tendo os Nirvana, Pearl Jam e Soungarden como embaixadores itinerantes, grandemente influenciados pelo indie-rock dos Pixies e dos Sonic Youth.
No país que tinha inventado a pop-rock moderna, o Reino Unido, dominava o desânimo nos primeiros anos, passada que estava a época dos Queen, Pink Floyd, e também de Thatcher e dos Smiths, aliás (algo malevolamente) influenciados pela Dama de Ferro. Mas aí a chegar aos idos da década, e com um primeiro travão do Grunge, os britânicos começaram a ver uma luz. E ela tornou-se especialmente ofuscante no Verão-Outono de 1995, há precisos 25 anos, quando irrompeu a que ficou conhecida como a Batalha do Britpop, essa nova corrente que resgatava os Beatles e outros artista dos Swinging Sixties.
A imprensa musical britânica, bastante pujante à época mas desejosa de uma boa novela épica, aproveitou os novos lançamentos de dois grupos emergentes para criar uma guerra pop. Os Blur consolidavam a sua obra depois do excelente Parklife e os novatos Oasis lançavam-se ao "difícil segundo disco" após o prometedor Definitely Maybe, ambos de 1994. Antes do lançamento dos discos propriamente ditos vieram os singles, ainda em Agosto de 1995, com propaganda à altura, qual combate no ringue. Assim se cunhou a "Batalha da Britpop" e começou a rivalidade. Para mais, as próprias características sociológicas dos dois grupos prestavam-se a isso: de um lado os londrinos Blur, de Damon Albarn, de classe média e pólos Ralph Lauren; do outro, a classe operária pós-industrial de Manchester dos Oasis dos irascíveis irmãos Gallagher . O single dos Blur, Country House, venceu o primeiro assalto a Roll With It. Mas com os álbuns seria diferente.
Cavalgando a onda do estilo em voga e da Cool Britannia, Tony Blair chegou ao poder em 1997. Precisamente a altura em que a Britpop começava a esmorecer, sendo progressivamente substituída por outras correntes. Os grupos continuariam as suas carreiras, nalguns casos separando-se e voltando a
juntar-se (menos os Oasis, à espera da reconciliação dos irmãos), mas o êxito de meados dos anos noventa tinha ficado para trás, embora artisticamente tornassem a apresentar projectos válidos. De qualquer maneira permaneceu a memória desses saudosos meados dos anos noventa, protagonizada por personagens carismáticas, antes da música desmaterializada. Os protagonistas da Britpop estão vivos e activos, ao contrário da maior parte da brigada do Grunge, e comemorar as suas Bodas de Prata impõe-se numa altura mais sombria. Teremos com certeza mais novidades deles. Hurrah pela Britpop!
sexta-feira, abril 17, 2020
Pragmatismo político em tempo de crise
Lembrei-me disso depois do discurso de Páscoa de Boris Johnson, quando saiu do hospital. Para além dos elogios pessoais aos enfermeiros Luís "near Porto" e à neozelandeza Jenny, que tanto ecoaram nos respectivos países, o primeiro-ministro não se cansou de exaltar e elogiar o afamado Serviço Nacional de Saúde britânico. Tem a sua graça ver estes elogios da parte de um líder conservador. O National Healthcare Service é, não nos esqueçamos, uma criação do governo trabalhista pós-guerra de Attlee, que sucedeu a Churchill (que voltaria a tomar o lugar do trabalhista depois). Na altura, muitos acusaram a "deriva socialista" da medida, mas o certo é que mais nenhum governo, nem o de Thatcher, que apostava na diminuição do peso do estado, se atreveu a acabar com ela, ainda que tivesse havido cortes, emagrecimentos e concorrentes. O serviço nacional de saúde tornou-se ele próprio num instituição britânica, que como se sabe, são coisas particularmente defendidas naquele país. Como dizia alguém recentemente, o National Healthcare Service é "the closest thing the english people have to a national religion", não esquecendo a igreja anglicana.
Tem o seu significado ver essa criação trabalhista de Attlee ser tão elogiada por um primeiro-ministro conservador, logo Boris que tantas vezes evoca Churchill, sobre quem até escreveu livros. A sua experiência recente no hospital ajudou, claro. Mas em tempos de crise, repito, opta-se pelo pragmatismo em lugar das trincheiras ideológicas. As ideias e a política não desapareceram, mas pode-se extrair o que de melhor há nelas - neste caso, um serviço nacional de saúde forte e preparado e a contribuição generosa da sociedade e dos particulares. Ambos são necessários e preciosos. Não para se curvar perante unanimismos mas para unir esforços no sentido de defender a nação, os cidadãos e o bem comum.

quinta-feira, setembro 05, 2019
A traição institucional
sexta-feira, julho 26, 2019
Mad Boris is going to Downing Street
sexta-feira, março 16, 2018
A triste ironia de Salisbury

segunda-feira, junho 12, 2017
Desconclusões das eleições no Reino Unido
domingo, julho 31, 2016
Boris at the Foreign Office
Apesar de conhecida a propensão de Johnson para a irreverência (ou para o puro disparate), algumas das reacções à sua nomeação revelaram bem o grau de arrogância e de ressabiamento com que alguns responsáveis da UE lidaram com o referendo britânico, a começar pelos responsáveis da política externa dos dois países que julgam dever ser eles a controlar a UE, a França e a Alemanha. Ayrault disse tratar-se de "um mentiroso", o medíocre Steinmeier afirmou que a nomeação era "escandalosa". Música para os defensores do Brexit, que ganham mais pretextos contra a intromissão em assuntos exclusivamente reservados ao Reino Unido, neste caso a escolha dos membros do governo. E vindo da França e da Alemanha, ainda mais desconfiança provocam no lado de lá da Mancha. Sim, o Brexit também é por culpa de gente desta. Repito: foram reacções à sua nomeação de uma pessoa com quem forçosamente se terão de encontrar, não meras críticas antes de se saber que ia ser nomeado, o que diz bem da qualidade de alguma euroburocracia reinante. E não, não eram do tão criticado PPE, antes dois socialistas, como aliás o é Dijsselbloem. Estou curioso para ver os primeiros encontros de Boris com esta gente.
Entretanto, a Grécia tem voltado ao ataque para que os frisos do Pártenon que Lord Elgin levou para o Museu Britânico há duzentos anos sejam devolvidos à proveniência. É um pedido justo, que teve o apoio recente do Parlamento Europeu. Será mais um pretexto para o Brexit. Boris tem sido um fervoroso defensor da manutenção dos mármores em Londres, e as pressões europeias podem tê-lo ajudado a optar definitivamente pela saída da UE. Certo é que o pedido dos gregos é antigo e que o próprio Boris sabe-o bem, já que na sua juventude em Oxford teve de encarar a máxima defensora do regresso dos frisos, a mítica Melina Mercouri. como se sabe, não se deixou convencer, mas pela expressão não deixou de se sentir intimidado pelos argumentos da combativa ministra grega da cultura.
sábado, julho 09, 2016
O terramoto partidário do Reino Unido
sexta-feira, junho 24, 2016
Onde estavávamos no dia do Brexit
domingo, junho 19, 2016
Uma semana que se prevê quente
PS: e claro está, como hoje lembra um dos nossos periódicos na sua versão online, para subir ainda mais, temos o decisivo confronto da Selecção Portuguesa contra a surpreendente Hungria, sem margem sequer para empatar. Se houver alguma competência no ataque e não aparecer o espírito dos "invencíveis magiares" dos anos 50, a qualificação é possível. A alternativa, depois de se cair num dos grupos mais acessíveis do torneio, é demasiado humilhante.
quinta-feira, fevereiro 25, 2016
Brexit?
segunda-feira, setembro 21, 2015
Corbyn e o isolacionismo britânico
Há inúmeras razões para se ficar espantado com a eleição de Jeremy Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista britânico. Desde logo, porque já com Ed Miliband o partido tinha virado mais à esquerda, com os resultados que se conhecem. A anterior grande deriva esquerdista, da autoria de Michael Foot, em 1983, teve resultados calamitosos, e grandes líderes trabalhistas, como Atlee, Wilson, e porque não dizê-lo, Blair, não eram especialmente radicais. Depois, porque várias questões mais "esquerdistas" tinham sido tomadas por novos partidos, como os Verdes, o mais radical Respect, e até o SNP da Escócia ou mesmo os liberais-democratas pré-coligação governamental. E acima de tudo porque boa parte da base em que assentava o "velho" Labour mudou completamente, como as chamadas "classes trabalhadoras", ou quase desapareceu, como a indústria mineira, da qual existem uns rudimentos saudosos.
domingo, setembro 06, 2015
Mais hipocrisias e o peso da história
PS: exemplo flagrante do que escrevo no início do post é a recusa de outros países mais a Sul, sobretudo na Península Arábica, em receberem refugiados. Enquanto que no Líbano e na Jordânia esgota-se a capacidade de receber mais gente, os árabes do Golfo continuam a sua política de egoísmo extremo, ao fechar as suas fronteiras a quem foge da guerra (na qual esses mesmos estados têm evidentes responsabilidades). Se esta gente exigir algum tipo de solidariedade no futuro, para eles ou para outrém, que isto sirva de memória posterior.
sexta-feira, maio 15, 2015
O Reino Unido (?) depois das surpreendentes eleições
quinta-feira, maio 07, 2015
A semana mais emocionante de que há memória no UK
A semana no Reino Unido não podia ser mais excitante: primeiro, o nascimento da princesa e a enorme expectativa à volta do nome (ficou Charlotte Elizabeth Diana, honrando as ancestrais); pelo meio, o Chelsea de José Mourinho a sagrar-se campeão inglês; e agora, as eleições mais confusas de que há memória, em busca da maioria impossível, com a perspectiva de poder haver outras daqui a muito pouco tempo (ou como dizia um votante, we are voting tf rthe next five years...or the next five days). Ainda vai ganhar o Raving Looney Party. God save the Kingdom.












