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quarta-feira, novembro 06, 2024

The new Tory boss

Enquanto esperamos pela eleição nos States, houve outra mais discreta, no fim de semana, precisamente no país que originou os Estados Unidos: Kemi Badenoch é a nova líder do Partido Conservador. Qual o interesse? Segundo as teorias da interseccionalidade publicitadas pela nova esquerda, todos os oprimidos, na base dos quais estão as mulheres negras, devem unir-se e combater todos os opressores, no topo do qual estão os homens brancos, ocidentais, heterossexuais, etc. O problema? É que nem todos os oprimidos vão nessa. Alguns, imagine-se, são opressores por outras vias e Kemi Badenoch é mulher, negra, e abomina essa teoria assim como toda a cultura Woke. É mesmo considerada da ala direita dos conservadores.

Resultado: as mulheres negras já ocupam lugares de topo nos países ocidentais (e talvez muito em breve haja outra, não exactamente negra) sem terem recorrido a qualquer revolução armada. Se isto é complicado para os defensores da interseccionalidade, como a inefável Katar Moreira, talvez seja tempo de se debruçarem sobre a natureza humana. A literatura clássica ajuda. Talvez encontrem algumas surpresas.



quinta-feira, outubro 20, 2022

O manicómio britânico

 Já se previa que Liz Truss tremesse e caísse em pouco tempo do cargo de PM que tão desastradamente desempenhou, na senda do seu amigo Kwasi Kwarteng, mas sempre julguei que durasse mais umas semanas. A nova "dama de ferro" revelou-se de latão. E o Partido Conservador já teve melhores dias como máquina política e de poder.




Mas se a situação no Reino Unido já era confusa, pior pode ficar: então não é que Boris Jonhson cogita voltar à liderança do partido e ao cargo que abandonou há apenas três meses, fazendo uma grotesca dança das cadeiras governamental? Isto nem as trocas entre Putin e Medvedev. 

Será pois o quarto PM desde o Brexit, descontando Cameron. E o segundo apenas um mês e meio depois da morte da Rainha. Eu bem dizia, no último parágrafo desta posta, que a morte de Isabel II seria um enorme peso para Truss, embora não imaginasse o quanto. O Reino (por enquanto) Unido parece um manicómio a céu aberto. Quanto à desaparecida Monarca, deve ter pronunciado as célebres palavras de Luís XV: depois de mim, o dilúvio

sábado, setembro 10, 2022

Ausência de referências e outras considerações

 Às vezes imaginava uma situação caricata, em que uma pessoa morta há umas décadas, aí nos anos 70 ou 80, voltaria à vida e eu teria de lhe explicar tudo o que mudou no mundo desde então, como o fim do confronto Leste-Oeste, por exemplo (se bem que pareça menos longe, hoje em dia), a emergência dos países asiáticos, com a China à cabeça ou o advento da net e das novas formas de comunicação. Para me ajudar, teria de me socorrer de algumas referências ainda existentes. A que me vinha logo à cabeça era a Rainha Isabel II. Diria algo como "tudo mudou menos uma coisa: a Rainha permanece no trono" (ou como o Pedro Correia já aqui afirmou várias vezes, "viu passar todas as modas; só ela nunca passou de moda"). A seguir seria Fidel Castro, que também já lá vai, e outros de quem não me recordo agora.

Agora que a Rainha nos deixou, que referências haveria para uma pessoa de há 40/50 anos? Quem poderia dizer que está no seu lugar? Não me ocorre ninguém. Como se em pouco tempo o Mundo tivesse mudado muito mais depressa do que seria suposto. É mais um dos sinais a indicar-nos que os tempos mudaram mesmo e, sem referências, personalidades ou instituições-âncora, estão mais incertos do que nunca. 

E aproveito para rectificar uma ideia que tenho visto a espalhar-se no último dia. Nos muitos e merecidos encómios a Isabel II, já li por diversas vezes que tinha acabado o reinado mais longo de sempre. Também pensei, aquando do jubileu, que iria bater o recorde. Eram só mais dois anos. Mas não. Isabel II ultrapassou a Rainha Vitória e é a Rainha, no sentido estritamente feminino do termo, com o reinado mais longo de sempre. Mas o monarca que detém o galardão continua a pertencer ao outro lado da mancha e dificilmente será "destronado", perdoem-me o trocadilho fácil. Neste aspecto, o (rei) Sol continuará mesmo a brilhar.


Entretanto recordei-me da colaboração que dei à revista
 Negócios Estrangeiros nos cinquenta anos da primeira visita de Isabel II a Portugal. Ali para a página 197 está o artigo da visita, para o qual colaborei com inúmeras notas sobre o itinerário realizado. Tem o seu interesse. E mais se discorre sobre o significado político da visita, em plena era de descolonizações e Guerra Fria. Sim, Isabel II subiu ao trono numa época igualmente atribulada para o Reino Unido, só que tinha um Winston Churchill para a ajudar. De certa maneira, tenho pena de Liz Truss, pelo tremendo início de mandato. Começar com a morte do monarca é pesado, mas com uma monarca tão marcante é mastodôntico.

sábado, julho 17, 2021

A redenção pela bola

 Se as história de superação são apelativas, mais ainda se tornam se lhes forem acrescentadas certas concidências e acasos. O Euro 2020 que acabou há dias é disso exemplo.

Julgava que a superação seria a de um homem, Gareth Southgate, o actual treinador de selecção inglesa. Até agora, nunca a Inglaterra tinha ganho um jogo nos 90 minutos na fase a eliminar dos Europeus. Normalmente ficava-se pelo primeiro jogo (o guarda-redes Ricardo que o diga), tirando em 1996, quando a competição teve lugar precisamente em em solo inglês e ultrapassaram a Espanha nos penaltys. Só que nas meias finais jogaram contra a velha rival Alemanha, em Wembley, empataram a um golo e nas grandes penalidades um jogador inglês falhou, impedindo a sua seleção de chegar à final perante o seu público. O seu nome? Gareth Southgate.

Um quarto de século depois, Southgate levou a seleção inglesa pela primeira vez à final de um Europeu, tendo deixado pelo caminho a Alemanha, com um emotivo 2-0. Passadas as meias, de forma algo duvidosa contra uma aguerrida Dianamarca, a Inglaterra lá chegou a uma final, ainda por cima (e como quase todos os jogos que disputou) em Wembley, quase como em 1996 - quase porque se demoliu e reconstruiu o mítico estádio. E o povo enchia o estádio, ignorava os casos crescentes de covid e cantava, em fervilhante entusiasmo, It´s Coming Home, do célebre hino dos Ligthing Seeds Three Lions (A partir dos vinte segundos do video abaixo vê-se Southgate a falhar o penalty; noutra versão, a original, de 1996, aos 30 segundos a seleção inglesa marca um golo à portuguesa, defendida pelo malogrado Neno).


Não estava propriamente a apoiar os Three Lions, mas confesso que me interessava a ideia da redenção de um homem, que, 25 anos depois, naquele mesmo espaço, poderia conduzir a sua seleção à vitória na competição como treinador, depois de o impedir como jogador. Mas como sabemos, a história não acabou assim, e mesmo tendo chegado à final, a Inglaterra perdeu em Wembley com a Itália, de novo nos penaltys - e aqui sim, Southgate falhou pela escolha dos marcadores.

Mas se não houve redenção por um lado, ela veio de outro. A equipa técnica da Itália é constituída quase em exclusivo por velhas glórias da Sampdória de Génova, como Roberto Mancini, Gianluca Vialli, Lombardo ou Evani. E precisamente em Wembley, em 1992, na final da Taça dos Campeões perdida para o Barcelona de Cruyff, Mancini e Vialli, a dupla de ataque, os "gemelli del gol", jogaram juntos uma última partida. Vialli prossseguiu uma carreira  de sucesso na Juventus, Mancini na Lazio e ambos foram mais tarde técnicos de sucesso em Inglaterra. Até se reencontrarem na equipa técnica da selecção, um pedido expresso de Mancini, e que como se viu no Domingo, até pelo ambiente da equipa, voltou a dar resultado. 29 anos depois de perderem o título europeu de clubes em Wembley, ganharam o de selecções. É só isto, a redenção? Apenas o pretexto. Porque Vialli, já com funções na Azzurra, sofreu um canco no pâncreas, um dos mais difíceis de debelar, recuperou, teve uma recaída, e finalmente venceu-o completamente, sem mais vestígios. Chegou a dizer numa entrevista que "tinha vergonha de estar tão feliz", quando Itália sofria a primeira e mortífera vaga da pandemia. Um ano depois da sua recuperação, GianlucaVialli, que protagonizou uma destas superstições em que o futebol é fértil, no mesmo lugar onde não tinha sido feliz anos antes, voltou a festejar, em lágrimas, com todas as razões do mundo para o fazer, ou no mínimo com muito mais razões do que apenas um penalty falhado.



terça-feira, outubro 13, 2020

As Bodas de Prata da Britpop

 

Ah, os anos noventa. Depois da nostalgia dos oitenta, eis que a última década do século também desperta saudades, até porque invoca um tempo de paz, prosperidade e optimismo (coisa com que nem todos concordarão, sobretudo na Sérvia, Rússia ou Ruanda). E olhando para os tempos sombrios que atravessamos, essa sensação nostálgica ainda se acentua mais.

Como todas as décadas do último meio século, a cultura pop teve uma influência tremenda. O surgimento dos cinemas em multiplex, a TV por cabo, a entrada em cena, ainda que lenta, da internet (e dos telemóveis), e claro, a música, com os concertos de estádio e os festivais a replicar-se em cada Verão. A música pop, em especial, assistiu a uma melhoria visível em relação aos anos oitenta. Se ainda havia vestígios fortes do hard-rock orelhudo (de que os Gun´s Roses, com hercúlea popularidade, que aliás ainda se mantém, foram demonstrativos), surgiam outras correntes, mais despojadas e substantivas, como o Grunge, da região de Seattle, tendo os Nirvana, Pearl Jam e Soungarden como embaixadores itinerantes, grandemente influenciados pelo indie-rock dos Pixies e dos Sonic Youth.

No país que tinha inventado a pop-rock moderna, o Reino Unido, dominava o desânimo nos primeiros anos, passada que estava a época dos Queen, Pink Floyd, e também de Thatcher e dos Smiths, aliás (algo malevolamente) influenciados pela Dama de Ferro. Mas aí a chegar aos idos da década, e com um primeiro travão do Grunge, os britânicos começaram a ver uma luz. E ela tornou-se especialmente ofuscante no Verão-Outono de 1995, há precisos 25 anos, quando irrompeu a que ficou conhecida como a Batalha do Britpop, essa nova corrente que resgatava os Beatles e outros artista dos Swinging Sixties.

A imprensa musical britânica, bastante pujante à época mas desejosa de uma boa novela épica, aproveitou os novos lançamentos de dois grupos emergentes para criar uma guerra pop. Os Blur consolidavam a sua obra depois do excelente Parklife e os novatos Oasis lançavam-se ao "difícil segundo disco" após o prometedor Definitely Maybe, ambos de 1994. Antes do lançamento dos discos propriamente ditos vieram os singles, ainda em Agosto de 1995, com propaganda à altura, qual combate no ringue. Assim se cunhou a "Batalha da Britpop" e começou a rivalidade. Para mais, as próprias características sociológicas dos dois grupos prestavam-se a isso: de um lado os londrinos Blur, de Damon Albarn, de classe média e pólos Ralph Lauren; do outro, a classe operária pós-industrial de Manchester dos Oasis dos irascíveis irmãos Gallagher . O single dos Blur, Country House, venceu o primeiro assalto a Roll With It. Mas com os álbuns seria diferente. 


The Great Escape, dos londrinos, saiu logo em Setembro e teve enorme sucesso da crítica e do público, no Reino Unido (e vendas medianas na Europa). Em Outubro saiu (What´s the Story) Morning Glory, dos mancunianos, bem considerado pela crítica e um estrondoso sucesso comercial tanto no Reino Unido (onde ainda hoje é dos álbuns mais vendidos de sempre) como na Europa e nos Estados Unidos. A ajudar à festa, trocas de provocações e de críticas azedas, em especial vindas dos Gallagher, que nem entre si se entendiam. De qualquer das formas, a rivalidade teve tal impacto que os britânicos discutiam qual das duas era a maior banda pop-rock do Mundo, e consta que os nomes dos manos Gallagher, Liam e Noel, foram dos mais atribuídos às crianças do país em 1996, ano em que a Inglaterra recebeu também o europeu de Futebol, que curiosamente marcou o regresso da Selecção Portuguesa às grandes competições oficiais.


Mas nem só à rivalidade Blur-Oasis se limitava a Britpop. Na altura surgia a Terceira Via, protagonizada pelo emergente, sorridente e europeísta Tony Blair e o seu New Labour, prestes a abocanhar os despojos do imenso desgaste dos Conservadores. A Britpop também tinha a sua Terceira Via, com os Pulp, que por aqueles dias lançavam o fabuloso Different Class, com Jarvis Cocker dançando enquanto entoava Disco 2000 e Common People (diz-se que directamente inspirada pela mulher de Varoufakis). E embora não tivessem discos novos em 1995, os Suede também tinham direito ao seu galardão de pioneiros do gênero musical da moda. Outros aproveitaram a onda, como os Elastica, James, Ocean Colour Scene, Kula Shaker, The Verve, etc. E diga-se que esses meses nem foram propriamente destituídos de qualidade no que toca à pop-rock. Também em Outubro de 1995, igualmente há um quarto de século, os Smashing Pumpkins revelavam o superlativo Mellon Collie and the Infinite Sadness, e os Radiohead, a quem também tentaram erroneamente ligar à Britpop, tinham lançado The Bends.



Cavalgando a onda do estilo em voga e da Cool Britannia, Tony Blair chegou ao poder em 1997. Precisamente a altura em que a Britpop começava a esmorecer, sendo progressivamente substituída por outras correntes. Os grupos continuariam as suas carreiras, nalguns casos separando-se e voltando a
juntar-se (menos os Oasis, à espera da reconciliação dos irmãos), mas o êxito de meados dos anos noventa tinha ficado para trás, embora artisticamente tornassem a apresentar projectos válidos. De qualquer maneira permaneceu a memória desses saudosos meados dos anos noventa, protagonizada por personagens carismáticas, antes da música desmaterializada. Os protagonistas da Britpop estão vivos e activos, ao contrário da maior parte da brigada do Grunge, e comemorar as suas Bodas de Prata impõe-se numa altura mais sombria. Teremos com certeza mais novidades deles. Hurrah pela Britpop!

sexta-feira, abril 17, 2020

Pragmatismo político em tempo de crise


A prova de que as ideologias não morreram é que as encontramos em todas as discussões da actualidade, e a pandemia que atravessamos não é de modo algum excepção. Com menor ou maior discrição, erguem-se vozes a vituperar o neoliberalismo e o seu abandono dos cidadãos e das funções essenciais do estado, a começar pela saúde, ou o socialismo, responsável pela crise, pelo seu encobrimento e pelas suas respostas ineficazes. Isto a juntar às inevitáveis teorias da conspiração, em que se vê de tudo. Já encontrei dedos apontados aos chineses, aos americanos, a Bill Gates, à maçonaria, ao globalismo e não há de faltar muito para que se incluam George Soros, os judeus (com a sub-secção dos Rotschild), os extreterrestres e os Iluminatti.

Mas o que interessa aqui é mesmo a ideologia. É sabido que em graves crises a tendência é para unir esforços e dar-se importância ao pragmatismo. Veja-se o governo nacional no Reino Unido, durante a II Guerra, em que Churchill formou um Gabinete de Crise e um governo de unidade nacional chamando Clement Attlee para número dois, além de outros membros dos partidos Trabalhista e Liberal. Em tempos da maior ameaça, com as ilhas britânicas como único baluarte europeu contra a agressão nazi, houve necessidade de reunir forças na luta contra a ameaça à pátria e a civilização.

Lembrei-me disso depois do discurso de Páscoa de Boris Johnson, quando saiu do hospital. Para além dos elogios pessoais aos enfermeiros Luís "near Porto" e à neozelandeza Jenny, que tanto ecoaram nos respectivos países, o primeiro-ministro não se cansou de exaltar e elogiar o afamado Serviço Nacional de Saúde britânico. Tem a sua graça ver estes elogios da parte de um líder conservador. O National Healthcare Service é, não nos esqueçamos, uma criação do governo trabalhista pós-guerra de Attlee, que sucedeu a Churchill (que voltaria a tomar o lugar do trabalhista depois). Na altura, muitos acusaram a "deriva socialista" da medida, mas o certo é que mais nenhum governo, nem o de Thatcher, que apostava na diminuição do peso do estado, se atreveu a acabar com ela, ainda que tivesse havido cortes, emagrecimentos e concorrentes. O serviço nacional de saúde tornou-se ele próprio num instituição britânica, que como se sabe, são coisas particularmente defendidas naquele país. Como dizia alguém recentemente, o National Healthcare Service é "the closest thing the english people have to a national religion", não esquecendo a igreja anglicana.

Tem o seu significado ver essa criação trabalhista de Attlee ser tão elogiada por um primeiro-ministro conservador, logo Boris que tantas vezes evoca Churchill, sobre quem até escreveu livros. A sua experiência recente no hospital ajudou, claro. Mas em tempos de crise, repito, opta-se pelo pragmatismo em lugar das trincheiras ideológicas. As ideias e a política não desapareceram, mas pode-se extrair o que de melhor há nelas - neste caso, um serviço nacional de saúde forte e preparado e a contribuição generosa da sociedade e dos particulares. Ambos são necessários e preciosos. Não para se curvar perante unanimismos mas para unir esforços no sentido de defender a nação, os cidadãos e o bem comum.

Churchill and socialist Attlee putting country before party is ...



quinta-feira, setembro 05, 2019

A traição institucional


quem ache muito bem que os 21 deputados tories que se opuseram a Boris Johnson (que ganhou a fama em boa parte pela sua rebeldia) sejam expulsos, porque "traíram" o governo e a vontade democrática exposta no referendo de há 3 anos. Convém lembrar que foram eleitos em eleições gerais DEPOIS do referendo, e por isso a decisão é absolutamente democrática, e que a base da soberania do Reino Unido reside na democracia indirecta representada pelo Parlamento (e noutra dimensão pela Coroa) e não na democracia directa. Além disso, os deputados não reverteram a decisão do referendo, limitaram-se a prolongar o tempo do "divórcio" para permitir nova solução que impeça o caos  - ou no mínimo a indefinição - de uma saída sem acordo. Ou seja, respeitaram a vontade dos 51% que votaram na saída, sem fazer tábua rasa dos outros 48%, impedindo males maiores para o país. No cumprimento da vontade popular e da instituição parlamentar. É a isto que chamam traição? Todas as traições fossem essas...

sexta-feira, julho 26, 2019

Mad Boris is going to Downing Street


Da primeira vez que ouvi falar em Boris Johnson ele estava a caminho de ser Mayor de Londres, derrotando o velho "Red" Ken Livingstone e dando pela primeira vez a metrópole aos tories. Na altura li declarações dele, como "votar conservador aumentará os seios das vossas mulheres e as vossas oportunidades de terem um BMW". Um tipo assim não se leva a sério, mas diverte (excepto para as inquisidoras do "heteropatriarcado branco", ao qual Boris comprovadamente pertence, e eu também, já agora). Depois seguiu o seu rumo, sempre com confusões à mistura, como quando venceu um concurso para o poema mais ofensivo a Erdogan, presidente turco (que entretanto já o felicitou no seu novo cargo, que remédio), onde tem também raízes, além da Rússia. Tornou-se depois no rosto do apoio ao Brexit, ganhando imenso capital político nessa barricada, que caiu por terra com a traição de Michael Gove, impossibilitando a sua ascensão à liderança dosconservadores e do governo britânico, deixando o caminho aberto a Theresa May. Até aí, eu julgava que ele seria inexoravelmente primeiro-ministro; depois fiquei convencido do contrário, mesmo quando o nomearam para os Negócios Estrangeiros. Afinal chegou mesmo lá.


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Boris Jonhson é uma personagem interessante e rica, digno de um biopic, muito diferente do vendedor de carros de beira da estrada que preside aos EUA, apesar do cabelo. Mas sinceramente preferia que não tivesse alcançado o posto que tanto ambicionou, para mais no delicadíssimo momento que o Reino Unido atravessa.

Um pormenor interessante, relembrado por Frederico Lourenço nas redes sociais: Boris é talvez o único, ou dos raríssimos, chefes de governo actuais com formação em Estudos Clássicos - grego e latim - pelo Balliol College da universidade de Oxford, o que pode ser uma boa notícia para todos os que lamentam o declínio do ensino das humanidades. Seja como for, é sempre bom um estadista de primeira linha que tenha aprendido grego clássico - e até que tenha aprendido com uma grega clássica.

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       Boris Johnson levando uma rabecada de Melina Mercouri nos anos oitenta, quando ainda usava pente

sexta-feira, março 16, 2018

A triste ironia de Salisbury


A confirmarem-se todas as suspeitas do envenenamento por parte de agentes russos (uma velha tradição, bem anterior a Litvinenko) do antigo agente Sergei Skripal, um exilado russo no Reino Unido (outra tradição, embora o inverso também o seja, como Kim Philby bem demonstrou), e da sua filha, haverá com toda a certeza um sério incidente diplomático entre o Reino Unido e a Rússia, que aliás tem este fim de semana uma tranquilas eleições onde por coincidência o principal opositor a Putin não concorre por estar preso (e ainda teve sorte: outros acabaram baleados no meio da rua).


Mas mais que isso, restará uma ironia amarga: é que o crime deu-se em Salisbury, uma pequena e bonita cidade inglesa com uma imponente catedral onde repousa um dos quatro exemplares - e o mais bem conservado, pelo que podemos dizer que é o principal - da Magna Carta. E assim, numa cidade que guarda um documento fundamental do moderno estado de direito terá ocorrido uma crime mais próprio de tiranias e de estados totalitários.
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segunda-feira, junho 12, 2017

Desconclusões das eleições no Reino Unido


Incrível como no espaço de um ano os líderes conservadores ingleses (e primeiros-ministros no cargo) conseguem convocar actos eleitorais quem à partida fortaleceriam a sua posição e saem deles muito mais fracos. O caso de David Cameron é evidentemente muito mais grave, porque para consolidar a sua posição face aos contestatários internos e marginalizar o UKIP abriu caminho ao terramoto do Brexit, que pela primeira vez retirou à União Europeia um dos seus membros e isolou um Reino Unido já sem império. Depois da sua retirada, e da rocambolesca sucessão de candidatos à liderança do partido e do governo, acabou por sobrar Theresa May, então ministra da administração interna, e até ali favorável à permanência na União europeia.
 
May fartou-se de meter os pés  pelas mãos e de dar uma série de tiros nos primeiros, desde prometer uma "saída dura" (ela que até fora semi-europeísta) até jurar que não convocaria eleições antecipadas, passando pelos seus cortes nos efectivos policiais numa altura em que o país é fustigado pelo terrorismo. Semanas depois, anunciava mesmo eleições gerais, para aproveitar o momento, em que as sondagens davam uma maioria ainda mais forte aos tories e previam uma derrota bisonha ao Labour de Jeremy Corbyn, comparando o momento do partido ao do tempo de Michael Foot, o mais esquerdista líder de que havia memória. Pensou, tal como Cameron, que se legitimaria através de eleições e ganharia assim força para prosseguir com o Brexit. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Perdeu incrivelmente a maioria absoluta e viu os trabalhistas registarem um grande avanço, coisa impensável semanas antes. E ainda os liberais-democratas a recusarem-se a fazer parte do governo, ao contrário do que sucederam em 2010. Não lhe restou alternativa senão ir a Belfast procurar o apoio dos unionistas norte-irlandeses da DUP para conseguir um frágil governo.
 
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Não há conclusões claras a tirar deste processos. A principal será a de que os políticos britânicos demasiado calculistas e gananciosos acabam por ser castigados nas urnas. Os trabalhistas sobem, os conservadores e os independentistas escoceses descem, os liberais-democratas registam um ligeiro avanço e o UKIP é arrasado, o que não espanta depois da lamentável luta - em sentido literal - pela liderança do partido e o descrédito do bufão Nigel Farage. Mas não se confirma o tal arrependimento dos eleitores em relação ao Brexit, já que os trabalhistas tinham tido uma atitude dúbia e os maiores defensores do Remain tinham sido os lib-dem e os escoceses. e já agora, com o desaire destes últimos, a possibilidade de novo referendo à indpendência da Escócia deve ficar por ora afastada.
 
Theresa May perdeu quase toda a credibilidade que lhe restava, formará um governo frágil que poderá não durar muito tempo, e a possibilidade de Jeremy Corbyn, o velho esquerdista que propõe nacionalizações, chegar ao governo, é bem real. E o processo do Brexit prossegue. Tal como a confusão no momento político.

domingo, julho 31, 2016

Boris at the Foreign Office


Uma das situações mais bizarras das últimas semanas, que permitiu um mínimo de discussão mas que acabou submergido na torrente de acontecimentos simultâneos, foi a nomeação de Boris Johnson para Secretário de Estado dos Assuntos Estrangeiros. Ele, que quase se guindou à liderança dos conservadores - e do governo da Rainha - com as portas escancaradas, na sequência do referendo do Brexit, tinha fugido da luta, aparentemente destruindo a sua carreira política quando estava tão perto do topo, dando uma imagem de fuga às responsabilidades e desiludindo quem nele tinha apostado. Esta promoção não deixa de ser surpreendente, porque é dos mais inesperados e rápidas regressos à ribalta depois de uma travessia no deserto, também ela das mais rápidas. O ex-editor da Spectator ocupa um cargo que lhe dá ainda mais visibilidade do que o de mayor de Londres. Terá oportunidade de fazer valer as suas reais capacidades executivas, e já agora, a sua bagagem da História e a sua percepção dos acontecimentos. O seu maior problema é a irreverência - paradoxalmente também a causa da sua grande popularidade - que lhe deixou um rasto de declarações muito pouco diplomáticas sobre variados estadistas ou candidatos, como Hillary Clinton, Donald Trump, e sobretudo, Erdogan. Os encontros bilaterais com qualquer desses parceiros serão previsivelmente tensos, e talvez por isso o seu ministério tenha ficado despojado da questão do Brexit, entregue a outro órgão criado de propósito.

Apesar de conhecida a propensão de Johnson para a irreverência (ou para o puro disparate), algumas das reacções à sua nomeação revelaram bem o grau de arrogância e de ressabiamento com que alguns responsáveis da UE lidaram com o referendo britânico, a começar pelos responsáveis da política externa dos dois países que julgam dever ser eles a controlar a UE, a França e a Alemanha. Ayrault disse tratar-se de "um mentiroso", o medíocre Steinmeier afirmou que a nomeação era "escandalosa". Música para os defensores do Brexit, que ganham mais pretextos contra a intromissão em assuntos exclusivamente reservados ao Reino Unido, neste caso a escolha dos membros do governo. E vindo da França e da Alemanha, ainda mais desconfiança provocam no lado de lá da Mancha. Sim, o Brexit também é por culpa de gente desta. Repito: foram reacções à sua nomeação de uma pessoa com quem forçosamente se terão de encontrar, não meras críticas antes de se saber que ia ser nomeado, o que diz bem da qualidade de alguma euroburocracia reinante. E não, não eram do tão criticado PPE, antes dois socialistas, como aliás o é Dijsselbloem. Estou curioso para ver os primeiros encontros de Boris com esta gente.

Entretanto, a Grécia tem voltado ao ataque para que os frisos do Pártenon que Lord Elgin levou para o Museu Britânico há duzentos anos sejam devolvidos à proveniência. É um pedido justo, que teve o apoio recente do Parlamento Europeu. Será mais um pretexto para o Brexit. Boris tem sido um fervoroso defensor da manutenção dos mármores em Londres, e as pressões europeias podem tê-lo ajudado a optar definitivamente pela saída da UE. Certo é que o pedido dos gregos é antigo e que o próprio Boris sabe-o bem, já que na sua juventude em Oxford teve de encarar a máxima defensora do regresso dos frisos, a mítica Melina Mercouri. como se sabe,  não se deixou convencer, mas pela expressão não deixou de se sentir intimidado pelos argumentos da combativa ministra grega da cultura.
 

sábado, julho 09, 2016

O terramoto partidário do Reino Unido



Se em França uns desaparecem fisicamente, no Reino Unido outros desaparecem politicamente. Os resultados do referendo não só trouxeram um terramoto para a Europa (e possivelmente para a própria União britânica, com a possível secessão da Escócia), mas também sacudiram totalmente a classe partidária dirigente local.

David Cameron pediu de imediato a demissão do governo e do partido, como se sabe. Boris Johnson, o seu grande adversário e um dos grandes vencedores da votação, que todos imaginavam já em Downing Street daqui a meses, sentiu-se com a chão a fugir depois do seu aliado Michael Gove, responsável governamental pela justiça, lhe ter puxado o tapete e anunciado a sua própria candidatura, e deixou tudo boquiaberto quando em conferência de imprensa na semana passada, quando todos achavam que ia anunciar a previsível corrida à liderança torie, declarou que o homem que governaria o Reino Unido não seria ele. Fica-se sem saber se Boris teria aquela ambição ou se é demasiado fraco para avançar à menor dificuldade. Em todo o caso, a sua carreira política ficou seriamente comprometida, a sua popularidade caiu a pique e provavelmente caiu um mito na política britânica. Em todo o caso, a facada nas costas de pouco serviu a Gove, já afastado da corrida à liderança por duas senhoras. Do mal o menos: com a sua face meio ET meio criança de colo, não seria certamente Gove a restaurar o prestígio britânico..

Entretanto, entre os Trabalhistas, a coisa está também a ferro e fogo. Já se sabia que Corbyn não reunia grande simpatia por parte da maioria dos deputados Labour, mas as suas posições europeias algo ambíguas e as acusações de que terá entrado na campanha a favor do "remain" tarde e com pouca convicção (fazendo com que muitos eleitores trabalhistas optassem pela saída) causaram furor no partido, tendo perdido um voto de confiança dos membros da câmara dos Comuns. contam-se espingardas, já há candidaturas à liderança a ser lançadas, como a de Angela Eagle (que bem parece uma espécie de Boris Johnson em versão feminina).

E no partido que mais ganhou o  referendo, o UKIP, Nigel Farage está de saída, considerando a sua missão como cumprida. Desta vez parece ser a sério, não uma falsa partida como em 2015. Não se sabe o que acontecerá ao partido, agora que a sua razão de existir se eclipsou. Mas sabe-se o que acontecerá a Farage nos próximos tempos: mantém o seu lugar no Parlamento Europeu, numa instituição com a qual quer acabar, mas que lhe paga o seu avultado salário (ou "o gasto mais inútil da União Europeia", como disse Guy Verhofstadt). O representante do "little people" continua a mostrar todas as suas virtudes e o seu grande sentido de estadista. é duvidoso que lhe tenha passado pela cabeça sair do PE, mostrando uma réstia de dignidade.

Parece que só entre os liberais-democratas, os verdes e os nacionalistas é que as lideranças estão postas em sossego, a salvo dos terramotos que varrem a classe política dominante. Tudo isto numa semana em que o relatório Chilcot arruinou ainda mais a imagem de um dos primeiros-ministros mais duradouros da história do país, Tony Blair.

sexta-feira, junho 24, 2016

Onde estavávamos no dia do Brexit


Há datas marcantes em que nos lembramos dos sítios onde estávamos e do que fazíamos na altura. Há datas que marcam colectivamente uma época por mais do que uma razão, em que um acontecimento de monta se dá num dia fácil de memorizar.

Daqui a uns anos, recordaremos, provavelmente com mágoa, que o Reino Unido decidiu deixar a União Europeia num dia de S. João. E eu lembrar-me-ei onde estava e o que fazia: em Miragaia, à espera que me servissem uma bifana ao som de música de baile, quando soube que a BBC dava já o "leave" como irreversível. A grande maioria das pessoas que me rodeava não se apercebeu, embalada pelos festejos de S. João, mas houve quem soubesse e não escondesse a surpresa (mais desagradada que outra coisa).

Esperemos que daqui a uns dez, vinte anos, quando recordarmos esse S. João como recordamos o de 1996 como o do "chapéu do Poborsky", ainda exista UE, de preferência menos burocratizada e mais solidária. Veremos se o Reino Unido ainda existirá como tal, com a pulsão independentista da Escócia, que votou "remain", a ganhar novo e fortíssimo alento mas é pouco provável. E assim, desmembrada, fora da UE, sem indústria nem império, perdida a importância estratégica e de parceria com os EUA, com o marcado financeiro da City desvalorizado e ultrapassado, tornar-se-á uma país europeu de segunda categoria?

David Cameron jogou a sua liderança, e o seu oportunismo pode ser o despoletar de acontecimentos gravíssimos. As grandes mudanças na história nascem por vezes de decisões banais, omissões que parecem inócuas ou acasos imprevisíveis. Cameron tinha ganho as últimas eleições gerais com surpreendente maioria, ganhara a manutenção da Escócia, mas desperdiçou o seu capital político neste gesto imprudente e irresponsável. Ficará na história com uma marca trágica, não longe de um Neville Chamberlain. Boris Johnson e Jeremy Corbyn apanharão os cacos de uma mudança para a qual contribuíram. E Nigel Farage poderá a ficar na história como uma personalidade nefasta na história do seu país, um dos arquitectos da sua desagregação, num tempo em que pululam políticos radicais e inquietantes, como Putin, LePen e Trump, todos adeptos do Brexit e do fim da UE em geral.

Esperemos que os tempos futuros não sejam tão negros como parecem neste solarengo dia de hoje. E que tenhamos sempre S. João.

                             
                                                   Alvorada de S. João, 2016. O dia do Brexit.

domingo, junho 19, 2016

Uma semana que se prevê quente


A semana que amanhã começa promete ser quente. De facto, a meteorologia prevê a subida acentuada das temperaturas, consentâneas com o início deste Verão adiado. Em vésperas de S. João não se pedia menos. Mas espera-se que suba ainda mais em Londres, Edimburgo e Madrid. E por arrasto, em toda a Europa.

Chegou a semana tão nervosamente aguardada pelo referendo à permanência do Reino Unido na UE. As sondagens falharam redondamente nas legislativas do ano passado, mas ainda assim são um indicador a ter em conta. Até há dias davam uma crescente preferência pelo "não", o tão badalado Brexit, mas o assassínio brutal da deputada trabalhista pró-europeia Jo Cox por um alucinado de extrema-direita parece ter invertido as coisas e dado alento ao "sim" à permanência. As causas emocionais não ganharão eleições, mas podem ajudar a baralhá-las. Nunca se despreze as ondas de choque que podem provocar - e quanto mais perto dos actos, mais levantam. Mas o risco do "não" e do consequente Brexit continua a ser bem real. É-me para mim difícil perceber o  porquê desta opção, salvo, lá está, por razões emocionais, nacionalistas, e de uma mistura da velha desconfiança britânica do "continente" com os anticorpos provocados nos últimos anos pelas instituições europeias. Os britânicos têm muito a perder caso saiam mesmo da UE: irrelevância da City, fim ao livre trânsito de mercadorias, pessoas e capitais, isso numa altura em que o velho império está há muito perdido (e em muitos casos o suplanta) e os Estados Unidos já não têm o mesmo interesse em ver o Reino Unido como aliado preferencial (preferem vê-lo na UE). Pior: pode significar o fim da união. A Escócia por certo não perderá a oportunidade de reivindicar a adesão à UE e de convocar novo referendo. E neste, a independência ganharia com toda a certeza. É portanto com o espectro do declínio (e futura desagregação?) da UE e com o fim do Reino Unido que nos deparamos.


Aqui ao lado, em Espanha, preparam-se novas eleições, cujos resultados prometem não ser substancialmente diferentes dos de Dezembro, salvo pela troca de esquerdas: o PSOE poderá ficar em terceiro, atrás da coligação de esquerdistas radicais com comunistas Unidos Podemos. Ou seja, mais uma vez não haverá maioria para ninguém. O PP, sempre enredado nos seus incontáveis casos de corrupção e num conjunto de dirigentes gasto e ultrapassado (note-se que em trinta anos o partido teve apenas 3 líderes), permanece à frente, mas longíssimo da maioria, e o Ciudadanos, que poderia ser um fiel da balança com gente nova e propostas arejadas, também não parece ganhar muito. A tragédia maior é o afundamento do PSOE em detrimento do Juntos Podemos, em que não faltam militantes que publicamente usam slogans como "(as igrejas) ardereis como em 1936". Isto a semanas de se passarem oitenta anos do pronunciamento que levou à horrível Guerra Civil.

Gozemos o calor e os santos populares, enquanto nos é permitido. Talvez o Verão seja quente mas não insuportável.

                        (Campanha eleitoral em Baeza, Andaluzia, Dezembro 2015)

PS: e claro está, como hoje lembra um dos nossos periódicos na sua versão online, para subir ainda mais, temos o decisivo confronto da Selecção Portuguesa contra a surpreendente Hungria, sem margem sequer para empatar. Se houver alguma competência no ataque e não aparecer o espírito dos "invencíveis magiares" dos anos 50, a qualificação é possível. A alternativa, depois de se cair num dos grupos mais acessíveis do torneio, é demasiado humilhante.

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Brexit?


Fechadas as negociações com a UE, que dão vantagens inigualáveis ao Reino Unido para se manter dentro da Europa dos 28, e marcada a data do referendo que vai decidir se sai ou se fica, ver uma tão grande quantidade de adesões ao "não" surpreende sempre um pouco, mesmo tendo em conta o proverbial eurocepticismo britânico com tudo o que vem do "continente". Já se sabia que o Partido Conservador esteve sempre dividido nesta matéria ( mas surgirem seis ministros e o sempre imprevisível mayor Boris Johnson pelo nega dá ao Brexit possibilidades acrescidas. Junte-se a isso alguns trabalhistas envergonhados (a começar pelo actual líder, Jeremy Corbyn), seguindo a tradição da esquerda Labour  ser também eurocéptica, e claro, o antieuropeu UKIP, e mais alguns movimentos radicais de direita e de esquerda (como o National Front e o Respect, do esquerdista George Galloway). Pelo sim haverá boa parte dos conservadores (a começar por David Cameron, que joga aqui o seu futuro político) e dos trabalhistas, sobretudo a ala moderada, os liberais-democratas, os Verdes e o Partido Nacional Escocês (SNP), que em tempos era mais eurocéptico.
 Para além dos partidos, e a propósito da posição do SNP, vale a pena estar atento aos votos tácticos regionais. Os escoceses são mais europeístas e votarão em massa na continuidade. Ou não. Por mera táctica, poderão votar em grande número pela saída: se os seus votos contarem decisivamente para o resultado final, o Brexit seria o pretexto ideal para forçar novo referendo pela independência, que a causa separatista ganharia certamente movida pelo temor do isolamento do resto da Europa. Por outro lado, esse mesmo receio pode levar a que muitos eurocépticos ingleses votem a contragosto pela continuidade na UE para evitar a dolorosa separação da Escócia. Assim, muitos poderão votar mais com a cabeça do que com o coração. E ainda há que contar com vários movimentos irlandeses unionistas, adeptos da saída.
O mais provável é a manutenção do Reino Unido na UE. Mas é uma probabilidade curta: algumas sondagens dão a vitória ao "não", os votos tácticos poderão ter algum peso e os economistas preocupados com uma fuga em massa da City podem não ser suficientes para convencer os seus compatriotas da bondade da permanência nem de os demover de escaparem à "submissão a Bruxelas". Isto apesar da ideia da parceria com o Estados Unidos já não ser assim tão sólida e de os próprios americanos preferirem um Reino Unido na UE. O espectro do Brexit não é assim tão descabido.

segunda-feira, setembro 21, 2015

Corbyn e o isolacionismo britânico



Há inúmeras razões para se ficar espantado com a eleição de Jeremy Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista britânico. Desde logo, porque já com Ed Miliband o partido tinha virado mais à esquerda, com os resultados que se conhecem. A anterior grande deriva esquerdista, da autoria de  Michael Foot, em 1983, teve resultados calamitosos, e grandes líderes trabalhistas, como Atlee, Wilson, e porque não dizê-lo, Blair, não eram especialmente radicais. Depois, porque várias questões mais "esquerdistas" tinham sido tomadas por novos partidos, como os Verdes, o mais radical Respect, e até o SNP da Escócia ou mesmo os liberais-democratas pré-coligação governamental. E acima de tudo porque boa parte da base em que assentava o "velho" Labour mudou completamente, como as chamadas "classes trabalhadoras", ou quase desapareceu, como a indústria mineira, da qual existem uns rudimentos saudosos.

Mas o que me espanta mais são algumas opiniões de Corbyn do que devem ser as relações internacionais do Reino Unido (que provavelmente preferiria que fosse república unida). Simpatia pelo Hamas e Hezbollah, apoios ao desaparecido Hugo Chávez, defesa do IRA, recusa em qualquer intervenção contra o chamado "Estado Islâmico", e um sentimento isolacionista eurocéptico e anti-NATO (agora já o disfarça, mas em anteriores discursos pronunciou-se tanto contra a UE como contra a NATO, com o desejo de as deixar). Nesse aspecto, o país seria efectivamente uma ilha, a não ser que planeasse algum projecto comum com a Venezuela ou outros estados com igual credibilidade. Sair da UE já traria custos económicos elevados (que opinião apoiará no referendo anunciado de 2017?). Sair da NATO, então quebraria o elo com os Estados Unidos que já dura há décadas - e que segundo McMillan e todos os que se lhe seguiram, era a melhor forma de substituir o império perdido - e com outros aliados e tornaria o Reino Unido irrelevante e à mercê de qualquer ameaça, a começar pelos territórios ultramarinos, embora o novo líder da oposição britânica pareça suficientemente lunático para considerar que as  Falklands deveriam ir para a Argentina mesmo contra parecer dos seus habitantes. Se o futuro do Labour com Corbyn já seria incerto, com estas ideias de política externa não é mesmo de crer que vá muito longe. Cameron e os Lib-Dem devem andar a correr todos os pubs para festejar a nova liderança trabalhista.

domingo, setembro 06, 2015

Mais hipocrisias e o peso da história



Ainda reportando ao post anterior, se há coisa que me irrita profundamente é a eterna tentativa de culpabilizar ocidente por tudo quanto se mau há no mundo, como se outras civilizações fossem compostas por seres celestiais e amigáveis, onde não há maldade nem cobiça. Ao mesmo tempo, reconheça-se que o ocidente, muito embora seja motivo de inveja para outros, teve sérias responsabilidades (não equitativas entre os vários estados) nalguns dos piores problemas que o Mundo atravessa hoje.


Nesta crise de refugiados do Médio Oriente, há um país, em particular, que teve seríssimas responsabilidades e que é o primeiro a fugir delas: o Reino Unido. Em 1920, prometeu, pelo Tratado de Sèvres, um estado ao povo curdo, anulado pelo Tratado de Lausanne, de 1923, que riscou essas aspirações. No Mandato Britânico sobre a Mesopotâmia, até praticamente aos anos 40, juntaram sunitas, xiitas, assírios, curdos e outros no mesmo território que se tornaria no Iraque. Mais uma vez, a ideia de um estado do Curdistão ficou anulada. Muito mais tarde, os britânicos foram um dos esteios da invasão do Iraque de 2003, com os resultados conhecidos, e da Líbia, em 2001, e que indirectamente é uma das causas do êxodo de populações para a Europa. Verifica-se entretanto que é precisamente o Reino Unido um dos países mais renitentes e até hostis a receber refugiados, aproveitando-se talvez da sua condição semi-insular para os rechaçar, o que levou ao enorme acampamento em Calais. Depois de todas as suas responsabilidades nesta fuga em massa de África e do médio Oriente, as autoridades do pais que ergueu o maior império ultramarino de sempre, com possessões em todos os continentes, fecham-se a todos os que procuram auxílio, ao passo que os alemães, sempre tidos como os maus da fita europeus, perpetuamente recordados pelo seu papel funesto nas Guerras Mundiais, mas que não tiveram grande responsabilidade na actual situação, são os que mais lhes abrem os braços. Dá que pensar.



PS: exemplo flagrante do que escrevo no início do post é a recusa de outros países mais a Sul, sobretudo na Península Arábica, em receberem refugiados. Enquanto que no Líbano e na Jordânia esgota-se a capacidade de receber mais gente, os árabes do Golfo continuam a sua política de egoísmo extremo, ao fechar as suas fronteiras a quem foge da guerra (na qual esses mesmos estados têm evidentes responsabilidades). Se esta gente exigir algum tipo de solidariedade no futuro, para eles ou para outrém, que isto sirva de memória posterior.

sexta-feira, maio 15, 2015

O Reino Unido (?) depois das surpreendentes eleições


Como quase todos, fiquei surpreendido com os resultados das eleições britânicas. É fácil tirar conclusões agora, mas todos apontavam para a enorme dificuldade que seria formar governo. Afinal, David Cameron permanece em Downing Street sem precisar de coligações com ninguém.

Bem vistas as coisas, as sondagens nem se enganaram por aí além nos números. Mas o sistema uninominal britânico permite coisas destas, e a distribuição de lugares saiu completamente furada, salvo talvez para o SNP e para os liberais-democratas. Por isso, algumas alusões à "falta de isenção" dos media lusos, como a de Helena Matos ao Público, é injusta e descabida. À hora de tiragem dos jornais, eram impossível saber os resultados, até porque as urnas fecharam às dez da noite. Só mesmo na manhã seguinte é que se começaram a tornar claros, e mesmo assim, só à tarde é que os conservadores confirmaram a sua maioria.

Mas a verdade é que as esperanças dos trabalhistas saíram absolutamente furadas, como já sucedera, e alguns recordaram, em 1992, quando Neil Kinnock, dado como favorito à vitória depois de 13 anos de thatcherismo, acabaria por ser derrotado por John Major. O New Labour que se lhe seguiria teria bem mais êxito. Desta vez, Cameron nem sequer precisa da muleta dos liberais -democratas, que tiveram um desaire tremendo, em votos e em lugares nos Comuns. De resto, as expectativas goradas destas eleições fizeram cair rês líderes partidários: Ed Miliband, dos trabalhistas, que tinha apostado numa viragem à esquerda (e recorde-se ascendido à liderança vencendo surpreendentemente o seu irmão David, havendo quem se pergunte agora se não escolheram o irmão errado); Nick Clegg, dos liberais-democratas, segunda figura do governo de coligação, mas cujas questões com Cameron e o síndrome de "partido menor" levaram a um péssimo resultado; e o muito mediatizado Nigel Farage, que alcançou apenas um lugar, ainda que tenha ficado em terceiro nas votações. Do outro lado, os Verdes ganharam algum alento e o SNP escocês, talvez catapultado pelo referendo de Setembro último, teve uma vitória imensa, varrendo os trabalhistas e os liberais da Escócia (os conservadores há muito que lá não são representativos). Aliás, este aparente paradoxo do sistema uninominal tem sido muito discutido: como pode um partido de 12%, como o UKIP, conquistar apenas um lugar, e o SNP, com 4,5%, arrebanhar mais de 50? A força local e em certos círculos ajuda a perceber, mas continuo a preferir o modelo proporcional e a pensar que o melhor sistema é mesmo o misto.




De resto, aqui temos David Cameron com maioria absoluta nos Comuns, dominando a Inglaterra, ao passo que os independentistas do SNP dominam a Escócia. Questões prementes dos próximos anos serão o referendo à permanência na UE (onde apesar de tudo parece-me os britânicos quererão continuar, pese a sua habitual desconfiança dos "continentais"), a economia e a diminuição de impostos, saber o que conseguirá Cameron fazer sem coligações, qual o futuro do Labour e que caminho irá tomar, assim como os liberais-democratas, e se o UKIP continua a ser o partido da moda ou se sem Farage, vai cair. E claro, se o independentismo escocês esvaziará, ou se, como parece, será uma ameaça permanente sobre o Reino Unido. 
Wait and see.

quinta-feira, maio 07, 2015

A semana mais emocionante de que há memória no UK



A semana no Reino Unido não podia ser mais excitante: primeiro, o nascimento da princesa e a enorme expectativa à volta do nome (ficou Charlotte Elizabeth Diana, honrando as ancestrais); pelo meio, o Chelsea de José Mourinho a sagrar-se campeão inglês; e agora, as eleições mais confusas de que há memória, em busca da maioria impossível, com a perspectiva de poder haver outras daqui a muito pouco tempo (ou como dizia um votante, we are voting tf rthe next five years...or the next five days). Ainda vai ganhar o Raving Looney Party. God save the Kingdom.

domingo, abril 12, 2015

O digno enterro de Ricardo III, com cinco séculos de atraso.



Antes da festa da Ressurreição, um enterro definitivo. Depois da surpreendente descoberta no subsolo de um parque de estacionamento (onde outrora existira uma igreja), em Leicester, dos restos mortais de Ricardo III, último monarca da dinastia dos Plantagenetas, vilipendiado por Shakespeare na peça que leva o seu nome (e que daria máximas tão conhecidas como "Este é o Inverno do nosso descontentamento", que teria o seu aproveitamento político nos anos 1970, e "Um cavalo, um cavalo, o meu reino por um cavalo") como usurpador e autor moral do assassínio do seu sobrinho Henrique V, e por isso pouco popular na história de Inglaterra, comprovada por investigações científicas do seu ADN, teve lugar a cerimónia de colocação das suas ossadas no repouso definitivo  - a catedral de Leicester - e mais digno do que a anterior moradia. Certamente que terão mais sossego com uma certa recuperação da sua imagem e sem carros a passar por cima.
Cereja em cima do bolo, entre os dignatários, como o Arcebispo de Cantuária, encontrava-se o ubíquo Benedict Cumberbatch, longínquo parente do rei morto e que até já o representou na peça de Shakespeare. Na Catedral, e entre a solenidade respeitada por toda a audiência, o actor leu um poema que reconciliou a memória do Ricardo III anos com a Inglaterra. O rei morto há mais de 500 anos tão tristemente celebrizado por Shakespeare pôde assim repousar em paz depois de cinco séculos atormentados pela fraca tumba e por uma reputação destruída.