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domingo, julho 30, 2023

Uma estratégia falhada a longo prazo

As eleições de Espanha, que redundaram num triunfo relativo do PP de Feijó e na resistência do PSOE, mostraram ainda mais, como se fosse necessário, como o país está partido e se tenta fazer uma divisão esquerda-direita intransponível. Pedro Sanchez preferiu aliar-se com tudo o que mexia a permitir por abstenção a investidura de um governo minoritário do PP, respaldado a pactos de regime. Isso permitiria que o Vox não interferisse com um governo PP, mas para Sanchez isso não era suficiente, e, como se viu, para conservar o seu poder, preferiria aliar-se ao diabo que ver um governo do PP, com ou sem Vox. E de facto isso pode acontecer, se tiver de novo o apoio da esquerda radical, o Sumar que deixou o Podemos nas lonas, tão cor-de-rosa por fora e tão retintamente vermelho por dentro, herdeiro em linha directa das que por ali se encontravam no tempo da Guerra Civil. A nova estrela local, Yolanda Diaz, afirmou há não muitos anos querer acabar com o espírito da transição e com a própria monarquia. Realce-se que Diaz é natural do Ferrol, ironicamente tal como o Generalíssimo Franco, cidade que outro ilustre conterrâneo, GonzaloTorrente Ballester, dissera nunca ter criado nada que prestasse. Para além do Sumar, Sanchez precisará do apoio de muitas outras formações, como os desavindos partidos independentistas catalães, que até caíram estrondosamente, uma data de formações regionalistas, e do País Vasco, o habitual PNV, que governa a região, mas sobretudo o Bildu, sucessor directo do Herri Batasuna, o braço político da ETA, que continua a ser chefiado pelo mesmo Arnaldo Otegui. é pois com este saco de gatos que Sanchez pretende manter o PP afastado do poder.


O pretexto do Vox redunda em falsidade, como se vê, mas é muito usado e aparentemente eficaz. Aqui, Sanchez está muito próximo de António Costa, que usou e abusou do fantasma do Chega para obter votos à esquerda e impedir o PSD de melhores resultados e também obteve visível êxito. A estratégia pode ser boa agora, mas poderá trazer graves consequências mais tarde. A eternização do poder, a falta de alternativas e a normalização da direita radical podem fazer com que esta cresça mesmo a médio prazo, rompendo quaisquer cordões sanitários e aproveitando-se da terra que os socialistas vão queimando. E há precedentes além-Pirenéus.

Nos anos oitenta, estando no poder, onde conseguir controlar os comunistas, e para evitar a progressão da direita gaullista e republicana, François Mitterand conseguiu alterar a regra eleitoral do modelo de voto maioritário para um proporcional. Permitiu assim que a Frente Nacional de Le Pen ganhasse um número apreciável de deputados no parlamento às custas da direita e, desde então e por arrasto, dos comunistas, coisa que Mitterand talvez não imaginasse à época mas que lhe seria útil para se desembraçar deles colocando o PSF como partido hegemónico da esquerda francesa. O então presidente era um tacticista sob as vestes do idealista, e seguia as teses maquiavélicas que tanto influenciaram dois estadistas do século XVII: os cardeais Richelieu e Mazarino. Essa influência transmitiu-se-lhe mesmo de forma pessoal: soube-se que tinha uma segunda família e uma filha a que deu o nome de...Mazarine, o que não era certamente por acaso.





Só que tudo isto teve um preço. Hoje em dia, não só o PCF é quase irrelevante e a direita republicana está em declínio como o próprio PSF se tornou um partido de terceira categoria, de influência quase nula, empastelado numa coligação chefiada por um demagogo de esquerda radical, ao passo que o cenário político está dividido entre este último, o cento radical de Macron e a dinastia Le Pen, que Mitterand ajudou a guindar-se. Eis o resultado de se querer manter o poder a todo o custo insuflando-se as direitas radicais para enfraquecer as moderadas: um dia, o desespero e a revolta de ver o poder ocupado pelos mesmos acabará por dar aos radicais ao poder, catapultando-os com enorme aumento de votos. Isso já está a acontecer noutras paragens. Aconselhava-se por isso os srs. Sanchez e Costa a olhar para França e a não brincarem aos defensores da democracia - e sobretudo a não brincarem apenas com os radicais do seu espectro político.

quinta-feira, maio 19, 2022

O regresso de uma Frente Popular?

Vindo de uns dias em Paris, primeira viagem a sério pós-pandemia, não pude deixar de reparar, pelas notícias e pelos cartazes que ainda se colam nas paredes, no clima político vigente, e não eram só os preparativos para a (re)tomada de posse no Eliseu e do Dia da Europa.

Depois das eleições presidenciais francesas, afinal menos renhidas do que se pensava e que representaram novo desvio das sondagens (que eram mais favoráveis a Marine Le Pen), dando um novo mandato a Emmanuel Macron, constituindo, como escreveu o Pedro Correia no Delito de Opinião, uma importante derrota política e estratégica para Vladimir Putin, seguem-se as legislativas. 

A divisão em três blocos políticos, verificada nas presidenciais, tende a repetir-se. A Republique en Marche, de Macron, de ideologia "liberal-social" e basicamente centrista, que arrasou as faixas moderadas dos outrora dominantes Partido Socialista e partido gaullista (que mudou de denominação várias vezes, sendo a última Les Républicains), assim como as últimas legislativas, quando só tinha um mês, deve voltar a ganhar, embora com menos lugares que em 2017. As legislativas na V República, a seguir às presidenciais, tendem a confirmar o voto destas, dando uma maioria na câmara como respaldo do sistema semi-presidencialista, havendo poucos casos de coabitação. O mesmo deve suceder agora, mas com uma maior divisão.

Marine Le Pen, em crescendo, quererá sem dúvida alargar o seu grupo parlamentar, pouco numeroso, já que o sistema uninominal e maioritário francês, baseado em duas voltas (em que por vezes há três partidos na segunda), tem pouca correspondência com o número de votos. Com menos "barreiras sanitárias" poderá aproveitar em muitas segundas voltas os votos do movimento de Erich Zemmour, que não se revelou o concorrente perigoso que prometia ser e que até favoreceu Le Pen, com um efeito de contraste como candidato ainda mais radical. Para além da sua RN (ex-FN), contará com estes votos e de habituais aliados, como Dupont-Aignan. O surgimento meteórico de Macron, ao esvaziar os Republicains,  permitiu que alas mais direitistas e soberanistas deste partido se transferissem aos poucos para o de Le Pen, dando-lhe o suporte eleitoral de que goza hoje. A teoria das "três direitas francesas", de Réné Rémond, assinala existir uma direita legitimista (e mais tarde fascista), pré-revolucionária baseada em figuras como Charles Murras e Pétain, por exemplo; uma liberal e "orleanista", de que uma das figuras de proa mais recentes seria Giscard d´Estaing; e uma direita bonapartista/gaullista, mais centralizada e estatizante, centrada num líder carismático, como Napoleão e principalmente De Gaulle. É esta última a dominante em França, mas Le Pen, que partiu com o seu pai da corrente legitimista, de resto em declínio, acolhe muito do gaullismo mais à direita. E há ainda uma corrente sempre presente que parece ser uma inspiração directa: o poujadismo, em parte sinónimo de populismo, que nos anos cinquenta, sob a liderança de Pierre Poujade, reuniu um bloco de pequena classe média composto de comerciantes, agricultores, artesão e pequenos industriais, sobretudo da "province", e alguns críticos da descolonização, que protestavam contra o poder de Paris. Não por acaso Jean Marie Le Pen começou a sua carreira como deputado por este movimento.

Mas o assunto que actualmente domina a política francesa é a união das esquerdas. Com o cúmulo de votos, que por pouco não o levou à segunda volta das presidenciais, Jean-Luc Mélenchon guindou-se como a mais proeminente e notória figura da esquerda em França. Não só levou a sua France Insoumisse a crescer, ombreando com a RN, como viu a concorrência a mingar: os ecologistas ficaram aquém do que se esperava, os comunistas há largos anos que foram suplantados, e sobretudo os socialistas, que estiveram na presidência até 2017, tiveram o pior resultado de que há memória, com os minúsculos 1,74 conseguidos por Anne Hidalgo, "maire" de Paris. Conseguiram até, suprema vergonha, ficar atrás dos comunistas, numa inversão pobrezinha do que aconteceu nos anos oitenta, quando o PSF de Mitterrand dominou e diminuiu o PCF de Georges Marchais depois de o levar para o governo. 

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A célebre sede do PCF, da autoria do "camarada" Óscar Niemeyer

Curiosamente, nas últimas eleições municipais, os socialistas e ecologistas tinham conseguido grandes triunfos, nalguns casos em conjunto, ao conquistar as principais cidades do país, assim como os Republicanos, deixando as formações de Macron e Le Pen com pífios ganhos, demonstrando uma relação local inversamente proporcional à nacional. 

Os planos de Mélenchon têm como objectivo uma força de esquerda constituída pelo seu movimento, pelos ecologistas, pelo PCF, pelos socialistas e até pelos trotskistas do Nouveau Parti Anticapitaliste, que aqui correspondem à esquerda do Bloco, provavelmente o MAS. Estes últimos recusaram, por considerarem a frente "demasiado social-democrata", mas os socialistas acabaram por aderir oficialmente. Não sem grande contestação interna: face às tendências eurocépticas de Mélenchon, o partido que teve como figuras de proa François Mitterrand, Michel Rocard e Jacques Delors (e recorde-se, na mesma linha partidária, Guy Mollet, Christian Pineau e Maurice Faure, fundadores da CEE), além de outros mais recentes como Laurent Fabius, François Hollande ou Lionel Jospin, dividiu-se claramente, tendo estes dois últimos sido vozes audíveis contra esta verdadeira dissolução de um partido histórico e fulcral na política francesa numa coligação tão longe dos seus valores. É aliás tristemente irónico, uma vez que nos anos noventa Rocard, considerando o PSF já algo ultrapassado, lançara a ideia do "big-bang" político juntando sociais democratas, ecologistas, centristas e até comunistas renovadores. A ideia recebeu muitos aplausos mas nunca germinou, e agora o que se verifica é não um big-bang mas uma implosão para que dos destroços saia algo mais velho.

A imprensa portuguesa referiu-se a uma "geringonça" francesa. Na realidade, nem precisava de ir por aí, porque em França isso já teve um nome: Frente Popular. E para além da de 1936, numa época particularmente sombria, houve a já referida experiência de Mitterrand em 1981, que se revelaria uma armadilha para o PCF, que a partir daí declinou como nunca antes, sobretudo a partir do momento em que o governo socialista a que estava ligado virou o rumo das políticas. 

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Propaganda de esquerda, nas imediações do Tolbiac 

Tanto o governo da Frente Popular como o dos anos oitenta deixaram algumas medida que ficariam para a posteridade, como as férias pagas e a abolição da pena de morte. As ideias de Mélenchon, porém, parecem ser tributárias de um passado que pouco atento à realidade: aumento pronunciado do salário mínimo, recuo da idade da reforma para os 60 anos (a França é dos países da UE com idade de reforma mais baixa, coisa que Macron pretende contrariar subindo-a) ou nacionalizações, principalmente na área dos transportes. E sobretudo, desobediência e incumprimento dos tratados europeus quando considerarem que tal se justifique. Se são bem vindas à democracia novas ideias e novas forças, o que apresenta Mélenchon não parece ser um caminho muito aconselhável num país com um estado social tão vasto e uma burocracia tão pronunciada, e que apesar de alguns problemas sociais que merecem atenção e que têm levado a certa contestação, apresenta um crescimento económico e uma taxa de emprego invejáveis.

O novel movimento já tem sigla e nome: NUPES (Nouvelle Union Populaire Écologique et Sociale). Dificilmente constituirá governo, mas será uma pedra no sapato de Macron e um impulsionador de movimentos de rua, mais influente do que o de Le Pen, porque promete eleger muitos mais deputados. Se terá sucesso duradouro ou não, até porque Mélenchon já tem setenta anos, dependerá igualmente de como Macron conseguir governar a França. Se este não conseguir, adivinham-se retrocessos.

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

O caminho incerto das ideologias ( à boleia com as da direita portuguesa)

 

Com as presidenciais lá veio a eterna discussão da "reconfiguração da direita", esse assunto cornucópia da política portuguesa. Primeiro com os resultados de André Ventura (e do Tiago Mayan) nas presidenciais. Depois, quando Adolfo Mesquita Nunes desafiou Francisco Rodrigues dos Santos para um congresso, vendo o CDS mirrar e perder peso. Uns levantaram-se em seu apoio, a começar pelo grupo parlamentar, outros cerraram fileiras em volta de "Chicão", invocando uma "tentativa de golpe" e outros deixaram os órgãos partidários aos quais pertenciam sem contudo se juntar às hostes rebeldes. O presidente da formação manteve-se, embora enfraquecido. Não é propriamente um facto inédito: se há partido português com historial de lutas fratricidas é exactamente o CDS. Freitas sempre teve de enfrentar dissenssões e afastou-se com a ascensão de Monteiro, que protagonizou mais tarde uma luta feroz com o seu antigo amigo, Paulo Portas. Os apoiantes deste nunca se conformaram com a chefia de Ribeiro e Castro e não descansaram enquanto não repuseram na lidernça o seu inspirador. Cristas teve de enfrentar críticas duríssimas e agora Rodrigues dos Santos sofreu um levantamento de rancho. Aquele partido leva as lutas tão a sério que até já teve estalo a valer nos seus congressos - pelo menos num Avelino Ferreira Torres andou à pancada com outro confrade. E neste caso não seria mal maior se não tivesse a Iniciativa Liberal e o Chega a limitar-lhe o espaço, problema que antes não havia.

A ajudar  à dita "reconfiguração" Pedro Santana Lopes saiu do seu Aliança, que tinha criado há pouco mais de dois anos, e anda por aí à procura uma câmara municipal disponível que lhe sirva de poiso.

Faits divers à parte, e deixando um pouco de lado a interminável discussão da direita portuguesa (à qual vou voltar em breve), a situação do CDS não deixa de ser intrigante. O partido sempre se gabou de ter três componentes: a democrata-cristã, a liberal e a conservadora. A liberal pode estar a mudar-se para a mais enérgica e definida IL; a conservadora dará a sua preferência ao Chega, muito embora este seja um emaranhado de coisas que pouco tem a ver com o conservadorismo clássico, o que daria razão aos que desconfiavam que o CDS albergava alguns reaccionários sem outro pouso e que muito do seu eleitorado estava à direita dos dirigentes. Mas e o democrata-cristão? Aquele que não se revê na face libertária da IL nem nos vitupérios de Ventura ou aproximações a LePen? A julgar pelas sondagens é minoritário, embora até conheça vários que estariam numa situação de orfandade caso o partido desaparecesse. O assunto é também objecto de análise de um artigo recente de André Lamas Leite


Não é para menos: a democracia-cristã, cujo berço será a Itália nos inícios do séc. XX e o Partido Popular de Sturzo e De Gasperi (é em sua homenagem que o PPE e restantes partidos populares se chamam assim), está em acelerado declínio, mesmo que parcial e nominalmente ainda pareça dominar em alguns países, como a Alemanha e a Áustria. Mas definitivamente parece estar longe da força e da influência de outros tempos, talvez por vivermos em sociedades que se têm vindo a tornar mais seculares, e o CDS é a prova nacional disso. 

Mas não é caso único. O comunismo, que, para voltar a um exemplo anterior, durante décadas dividiu eleições em Itália com a mesma democracia-cristã, teve uma queda abrupta desde os anos oitenta e ninguém minimamente lúcido aposta nos amanhãs que cantam como força dominante. Mesmo nos países de regime comunista, como a China e o Vietname, já é algo bem diferente do maoísmo original (muito embora permaneça o controlo ditatorial da sociedade), e Cuba é de uma decadência inimitável. Da social-democracia também há anos que se ouve falar do seu esmorecimento, e tirando alguns países onde o poder a mantém, como Espanha e Portugal, tem caído a olhos vistos, como em França, Grécia e Alemanha. O conservadorismo encontra-se numa cruzamento de dúvidas, entre versões descafeinadas e apelos reaccionários. O liberalismo, embora tenha alguns seguidores entusiastas, não parece ser capaz de formar governos, talvez vítima do seu próprio sucesso, já que as suas principais premissas foram cumpridas na maior parte dos regimes democráticos. A extrema-direita teve de abandonar, ao menos à superfície, quaisquer inspirações fascistas, sob pena de ficar absolutamente marginalizada. E as querelas entre monárquicos e republicanos não têm nem um naco da relevância de outrora.

Parece que as ideologias que nos habituámos a seguir no séc. XX já viram dias mais pujantes. Os partidos portugueses também as seguem, e por ora ainda resistem, embora se vejam sinais de erosão no CDS, como se disse, e no PCP. Dir-se-ia que o que realmente está em ascensão são os partidos ecologistas e "verdes" (e mais modestamente os animalistas), o nacional-populismo, ou seja, direitas radicais ou extremas convertidas à democracia (outra influência italiana?) e em certa medida o liberalismo. Serão estas as futuras ideologias predominantes? Veremos confrontos entre estes blocos políticos, reduzindo os restantes -ismos a discussões bizantinas ou a memórias históricas? Terão a companhia de novos movimentos - os federalistas, por exemplo? Ou juntar-se-ão a outras atrás descritas que irão novamente reerguer-se e ocupar o seu velho papel de hegemonia?




sexta-feira, abril 17, 2020

Pragmatismo político em tempo de crise


A prova de que as ideologias não morreram é que as encontramos em todas as discussões da actualidade, e a pandemia que atravessamos não é de modo algum excepção. Com menor ou maior discrição, erguem-se vozes a vituperar o neoliberalismo e o seu abandono dos cidadãos e das funções essenciais do estado, a começar pela saúde, ou o socialismo, responsável pela crise, pelo seu encobrimento e pelas suas respostas ineficazes. Isto a juntar às inevitáveis teorias da conspiração, em que se vê de tudo. Já encontrei dedos apontados aos chineses, aos americanos, a Bill Gates, à maçonaria, ao globalismo e não há de faltar muito para que se incluam George Soros, os judeus (com a sub-secção dos Rotschild), os extreterrestres e os Iluminatti.

Mas o que interessa aqui é mesmo a ideologia. É sabido que em graves crises a tendência é para unir esforços e dar-se importância ao pragmatismo. Veja-se o governo nacional no Reino Unido, durante a II Guerra, em que Churchill formou um Gabinete de Crise e um governo de unidade nacional chamando Clement Attlee para número dois, além de outros membros dos partidos Trabalhista e Liberal. Em tempos da maior ameaça, com as ilhas britânicas como único baluarte europeu contra a agressão nazi, houve necessidade de reunir forças na luta contra a ameaça à pátria e a civilização.

Lembrei-me disso depois do discurso de Páscoa de Boris Johnson, quando saiu do hospital. Para além dos elogios pessoais aos enfermeiros Luís "near Porto" e à neozelandeza Jenny, que tanto ecoaram nos respectivos países, o primeiro-ministro não se cansou de exaltar e elogiar o afamado Serviço Nacional de Saúde britânico. Tem a sua graça ver estes elogios da parte de um líder conservador. O National Healthcare Service é, não nos esqueçamos, uma criação do governo trabalhista pós-guerra de Attlee, que sucedeu a Churchill (que voltaria a tomar o lugar do trabalhista depois). Na altura, muitos acusaram a "deriva socialista" da medida, mas o certo é que mais nenhum governo, nem o de Thatcher, que apostava na diminuição do peso do estado, se atreveu a acabar com ela, ainda que tivesse havido cortes, emagrecimentos e concorrentes. O serviço nacional de saúde tornou-se ele próprio num instituição britânica, que como se sabe, são coisas particularmente defendidas naquele país. Como dizia alguém recentemente, o National Healthcare Service é "the closest thing the english people have to a national religion", não esquecendo a igreja anglicana.

Tem o seu significado ver essa criação trabalhista de Attlee ser tão elogiada por um primeiro-ministro conservador, logo Boris que tantas vezes evoca Churchill, sobre quem até escreveu livros. A sua experiência recente no hospital ajudou, claro. Mas em tempos de crise, repito, opta-se pelo pragmatismo em lugar das trincheiras ideológicas. As ideias e a política não desapareceram, mas pode-se extrair o que de melhor há nelas - neste caso, um serviço nacional de saúde forte e preparado e a contribuição generosa da sociedade e dos particulares. Ambos são necessários e preciosos. Não para se curvar perante unanimismos mas para unir esforços no sentido de defender a nação, os cidadãos e o bem comum.

Churchill and socialist Attlee putting country before party is ...



sexta-feira, outubro 04, 2019

Freitas do Amaral 1941 - 2019


O Professor Diogo Freitas do Amaral teve um percurso original nesta 3ª república portuguesa. Colheu ódios ideológicos de várias partes em diferentes períodos e era visto não raras vezes como um incoerente político. Disso e de outras coisas o acusaram nos últimos anos. Mas é preciso ver que nunca teve um caminho fácil nem grande sorte na sua vida política.
Primeiro criou o CDS num período muito turbulento, em que era pouco aconselhável fazê-lo, dado o radicalismo esquerdista em que a sociedade portuguesa estava imersa, e isso viu-se por exemplo no cerco ao primeiro congresso do partido no Palácio de Cristal por forças da extrema-esquerda (os ascendentes do BE e de outros grupúsculos que foram desaparecendo). Anos mais tarde, já no poder, com a AD, a tragédia de Camarate e a morte de Amaro da Costa e de Sá Carneiro, que vitimaram os seus amigos e aliados e o seu governo. Depois, a sua candidatura à presidência, em que teve o triunfo à vista, e que falhou por escassos milhares de votos, e que depois de uma dispendiosa campanha, o PSD de Cavaco abandonou vilmente com imensas dívidas na mão (Marcelo RS vingou-o de certa maneira pregando uma partida aos ministros do PSD. É o que consta da biografia do PR). Deu-se o regresso ao CDS num tempo em que o cavaquismo engolia quase toda a direita e o centro, e a sua saída do partido que fundou, já noutra onda que não a dele, quando não colhia grande simpatia do Independente.
A verdade é que ele sempre se disse um democrata-cristão centrista e nunca se afastou muito disso; a sociedade e os partidos é que mudaram. Terá havido oportunismo e jogo de cintura - apostou sempre nos candidatos que viriam a ser primeiros-ministros, pelo que esse seu dom profético fará falta. Mas ainda assim, órfão politicamente e sem aliados, manteve-se activo, ainda que com equívocos, como a ida para o governo de Sócrates, que a seu tempo corrigiu. É bom pensar que desde os anos 90 presidiu à Assembleia-Geral da ONU, envolveu-se contra a invasão do Iraque, fundou a faculdade de Direito da Nova de Lisboa, que tanto contribuiu para novas formas do ensino jurídico em Portugal, escreveu peças de teatro, ensaios, livros de história, e as suas memórias, de que o terceiro e último tomo saiu há poucos meses, quase que profeticamente. Uma vida plena e marcante, portanto. Pela minha parte, que só o conheci de cumprimentar de passagem e de breves palavras, devo-lhe, ainda que indirectamente, a minha ida para Lisboa, que muito me ajudou. Que, como cristão convicto que era, tenha descoberto a paz que lhe faltou durante tantos anos.

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PS: vi-o numa foto de há quinze dias, já muito caído, no enterro de André Gonçalves Pereira. Curiosamente, este tinha sido o seu sucessor nos Negócios Estrangeiros. E assim, em duas semanas, desaparecem duas antigas figuras de primeiro relevo da AD.

PS2: quando Assunção Cristas proferiu as primeiras palavras acerca do fundador do partido via-se Telmo Correia atrás. Não pude deixar de recordar o hilariante despique político no Parlamento, quando Correia acusou o na altura MNE de "vergonha de viver em democracia" por causa da questão das caricaturas de Maomé num jornal dinamarquês (Freitas dissera que era necessário distinguir "liberdade de licenciosidade"), ao que este respondeu:" ainda o senhor não era nascido ou andava de cueiros e já eu lutava pela liberdade em Portugal. É preciso topete!"

quinta-feira, junho 13, 2019

A cultura em dois homens de esquerda e direita


Ruben de Carvalho, que morreu há dois dias, era das personalidades mais interessantes cá da terra. Um comunista convicto e fiel ao partido (que exerceu funções de vereador em Setúbal e Lisboa, a cuja câmara concorreu, e de deputado), que esteve preso no tempo do Estado Novo, e um divulgador cultural muito influenciado pela cultura americana, em especial o jazz (tinha uma colecção gigantesca de discos), mas também pelo fado e pela música popular, e que há muitos anos era o responsável cultural da festa do Avante. A ele se deve, soube-o agora, a primeira actuação de Chico Buarque em Portugal. Tinha semanalmente um programa de debate na Antena 1, o Radicais Livres, com Jaime Nogueira Pinto - politicamente nos antípodas - que de vez em quando ouvia e que me divertia com as exclamações e dissertações daqueles dois homens que discorriam sobre tudo. 



Curiosamente, no dia da sua morte, a RTP-2 exibiu um documentário sobre um dos políticos mais independentes e importantes dos últimos quarenta anos: Francisco Lucas Pires. Do nacionalismo revolucionário da Cidadela, ainda em Coimbra, ao europeísmo liberal, foi o primeiro a tentar trazer ideias liberais em voga nos anos oitenta a um país ainda fresco da revolução e do PREC, por via da liderança do CDS (que depois trocaria pelo PSD) e pelo seu grupo de Ofir. No governo da AD teve também a pasta da cultura, da qual, ao contrário de muitos que se proclamam "liberais", nunca desdenhou. É graças a ele que Serralves passou para as mãos do estado antes de se tornar na instituição que hoje é (embora Santana Lopes a tenha querido vender a Valentim Loureiro, coisa que felizmente não levou a cabo).


Ou seja, no mesmo dia exaltaram-se as virtudes de dois homens, um de esquerda comunista, outro de direita liberal, mas que muito fizeram pela cultura e que mereceram o respeito da comunidade. Um podia ter ficado mais uns anos, e o outro decididamente deixou-nos muito cedo.

Deixo à laia de homenagem dois vídeos em baixo: um é do tal documentário completo sobre Lucas Pires. Noutro apenas toca a Carvalhesa, aquela música originária dos planaltos transmontanos de Tuizelo, em Vinhais, recolhida por Giacometti, que Ruben de Carvalho adaptaria a banda sonora da festa do Avante e que se tornaria até hoje numa das mais felizes (e alegres) músicas políticas portuguesas, e cuja melodia saltitante deambula por aí em tempos de campanha eleitoral dos "camaradas" de Rúben.




sexta-feira, abril 05, 2019

Os nazis, esses esquerdistas


Segundo Jair Bolsonaro, esse grande pensador político, o nazismo era de esquerda porque "tinha socialismo no nome". Pois tinha, provém do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. E a República Democrática Alemã e a República Popular Democrática da Coreia do Norte sempre foram modelos de democracia porque tinham "democrática" no nome. Se calhar vêm daí as dúvidas de Bernardino Soares sobre a Coreia do Norte. Vai-se a ver, Bolsonaro e Bernardino até têm ideias parecidas.

Mas há quem tenha ideias fixas. Muitos dos apoiantes desta tese continuam a defendê-la nas redes sociais, como Maria Vieira, actriz convertida em comentadora política, que aparentemente descobriu agora que nazi é abreviatura de nationalsozialismus (ou nem tanto, porque também diz que "os nacionais-socialistas depois ficaram nazis) e sente-se defraudada "pelos historiadores comunistas" que "andaram a passar a ideia de que o nazismo era de extrema-direita" (confirmar isto na página de Facebook da senhora).

Esta estranha ideia de rever a posição do nazismo no espectro político mostra bem como as massas hoje em dia se deixam arrastar pelas redes sociais e por demagogos, tanto os messiânicos como os de caixa de comentários. Houve uma discussão idêntica, há uns anos, entre José Rodrigues dos Santos, que jurava a pés juntos que o fascismo provinha do marxismo, e António Araújo (longe de ser marxista), que o contradisse com sólida argumentação. Ao menos aí houve polémica nos jornais; quase que me atrevo a dizer "como antigamente", só que sem os numerosos pontos de exclamação e a ameaça de bengaladas. 

Mas só para dar uma pequena ajuda à ideia revisionista de que o nazismo era de esquerda e que o fascismo "era marxista", lembrei-me de um livro meio esquecido mas que ainda tenho num estante qualquer, o Testamento de Mussolini com prefácio de Alfredo Pimenta (não é meu parente, asseguro). Mais do que a herança da Duce, interessam aqui as palavras do historiador português fundador da Acção Realista, monárquico tradicionalista e com ideias próximas do Integralismo Lusitano. Pimenta eleva Mussolini aos píncaros, apesar de "não se considerar feixista" (podíamos usar o aportuguesamento do termo, como fazem os galegos), considera-o restaurador do império romano" como Hitler tinha restaurado "o império germânico" e Salazar "o império lusitano". Mussolini começou no socialismo, como se sabe, mas as suas convicções mudaram com os anos. Alfredo Pimenta, tal como António Sardinha, o ideólogo do Integralismo, também teve um percurso de extremos: começou no anarquismo, passou pelo republicanismo moderado e acabou na tradicionalismo anti-liberal e anti-democrata. É um bom exemplo de como há mudanças profundas em certos percursos políticos, e uma testemunha óbvia de que os compagnons de route dos fascistas por esta altura eram os tradicionalistas e não os marxistas e que o nacional-socialismo era uma doutrina da direita revolucionária e nunca da esquerda.


segunda-feira, janeiro 14, 2019

O equívoco Mário Machado


A famigerada entrevista de Mário Machado por Manuel Luís Goucha (isto dito assim seria digno de um jornal satírico), além de levantar celeuma pela qualidade do entrevistado, dividiu um pouco as hostes da micropolítica. Parece que pelo facto de alguma esquerda bramir contra a entrevista, alguma direita pespega com exemplos aparentemente equivalentes que tiveram honras de entrevistados ou até de colunistas, como Camilo Mortágua, Isabel do Carmo ou Otelo Saraiva de Carvalho. Nuno Melo, cabeça de lista pelo CDS às europeias, por exemplo, é um dos que cai nessa armadilha, mais digna de conversas de rede social. É que tirando talvez Otelo, pela sua ligação às tenebrosas FP-25, é difícil equiparar Machado a qualquer um dos outros, e muito menos a Mariana Mortágua, que surge à baila. O equivalente directo seriam as redes bombistas dos anos setenta, também com crimes nas mãos, como o da morte do Padre Max (já depois do 25 de Novembro), cujos autores nunca foram punidos nem sequer condenados. Um dos prováveis autores morais, aliás, teve um elogio póstumo do mesmo Nuno Melo, o que talvez ajude a explicar  o esquecimento.

A ver se nos entendemos: Mário Machado não é um político, nem representante de um sector político, tirando uma dúzia de neonazis. É um delinquente e um psicopata, preso por associação a grupos de criminosos e assassinos, posse de arma, ameaças, etc. Ultimamente tem arquitectado planos para dirigir a Juve Leo, depois da bela operação  criminosa que as cúpulas da claque sportinguista protagonizaram, e de uma facção de motards, Los Bandidos, não  exactamente conhecidos  por actos de beneficência. Talvez a indignação de alguma esquerda por lhe darem a palavra, desde que não lance mensagens de ódio, seja contraproducente e oportunista. Mas a defesa, ou pelo menos a ausência de crítica de alguma direita, fazendo equiparações abusivas, dá a impressão de que tolera Machado, ou que não se incomoda grandemente com ele, passando a ideia de que ele é o radical do "seu lado". Dar importância política a quem tem somente importância criminal, eis o profundo erro dos que recordam eventuais equivalências do outro espectro.

Mas há ainda outra aspecto esta história toda que me deixa espantado: é a pergunta "acha que faz falta um novo Salazar", e sobretudo que Mário Machado ache que sim, É que com o currículo de desordeiro que tem, o mais provável é que no tempo de Salazar ele fosse posto na masmorra ainda mais anos.
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quinta-feira, maio 11, 2017

Diferenças e comparações entre os antigos e modernos movimentos políticos franceses


Outro dos factos curiosos nas presidenciais francesas é a percentagem de pessoas mais novas que votaram em Marine Le Pen, o que reduz a pó a ideia de que os "jovens" não votam na direita, ou não têm grande atracção pelos fascismo, etc. Não deixa de espantar que a geração que mais beneficiou do programa Erasmus pretenda agora em boa parte votar nas forças que o querem restringir ou suprimir. E que aqueles que passam o tempo a atacar a globalização o façam através do meio que é o símbolo maior dessa mesma globalização e a sua grande impulsionadora- a internet.

A linguagem que observamos nestes apaniguados de LePen e da maioria das forças populistas de direita que vão fazendo caminho por essa Europa fora é a de uma aparente raiva tudo quanto os rodeia, ou pelo menos áquilo que acham que podem ser os perigos latentes: os muçulmanos (ainda que em grande parte dos casos não conheçam nenhum), as "elites financeiras" e "globalistas", a maçonaria, os gays, o "sistema corrupto", e por vezes, numa revisitação ao velho anti-semitismo, a "finança judaica". Aliás, a linguagem que se observa é tantas vezes semelhante à que se ouvia nos anos trinta, se bem que na maior parte dos casos se substitua judeus por muçulmanos. À conspiração "judaico-maçónica" sucede a conspiração "islamo-globalista", ou derivações parecidas. Num continente há muitas décadas em paz e que tende a perder as suas memórias, com a passagem das gerações que viveram os horrores dos anos 30/40, a vigilância cai, desenterram-se os fantasmas e esquece-se o clima que se viva antes do maior conflito mundial de sempre. Não que a Europa esteja nas mesmas condições, longe disso. Mas alguns sentimentos, sobretudo os mais exacerbados, não andam muito longe.

Justamente, podemos traçar alguns paralelos entre movimentos que existiam  na França dos anos trinta e os de hoje e os seus dirigentes. A Frente Nacional, com outra roupagem, outra linguagem e outros objectivos, é, em muito, devedora do legitimismo que dominou boa parte da direita francesa. Parece longe da Action Française de Charles Maurras, que nos anos trinta era provavelmente a associação política com mais militantes (embora não fosse um partido, até porque era explicitamente antidemocrática), corroborada pela sua agressiva ala juvenil Camelots du Roi, e que inspira outros movimentos actuais, mas no fundo é a legítima herdeira dessa parte da direita - a liberal, ou orleanista, divide-se entre os Republicanos e o partido de François Bayrou, ao passo que a outra família", a bonapartista/gaullista, cabe nos Republicanos e uma pequena parte no movimento de Dupont-Aignan. Era precisamente essa direita legitimista a responsável pelo discurso anti-semita que péssimas implicações deixou depois com o regime de Vichy.
 
Depois dos motins de Fevereiro de 1934, onde por pouco a Action Française e outros movimentos de direita radicais, pré-fascistas ou aparentados, não cometeram um golpe de estado, as esquerdas aliaram-se para fortalecer a sua posição. A SFIO de Leon Bloum, antecessora do Partido Socialista, o partido radical e o partido comunista aliaram-se na Frente Popular, que ganhou as eleições de 1936 e que deixou algumas marcas nunca revertidas, como as férias pagas. O PCF de Thorez e a SFIO eram ferozes adversários pela hegemonia da esquerda, mas ordens expressas do Komintern levaram a que os comunistas aceitassem a aliança para travarem a direita mais radical. Por aí se ficam as semelhanças: como se sabe, o actual líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, recusou apelar ao voto em Macron para travar Marine LePen. Macron não precisou dos seus votos para vencer esmagadoramente, mas é bem provável que a alta abstenção e os votos nulos e brancos se tenham devido ao eleitorado de Mélenchon. Aliás, dá-se como certa a separação entre o PCF e o ex-candidato "insubmisso". Mas fica a grande diferença: o PCF obediente a Estaline cedeu para travar a extrema-direita; a frente de esquerda de Mélenchon não o soube fazer, e embora isso tenha tido resultados nulos, não deixa de ser uma marca vergonhosa no seu currículo político.
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domingo, abril 02, 2017

O drama da direita tradicional francesa


Ou François Fillon é perfeitamente inábil, ou a fortuna abandonou-o definitivamente depois das surpreendentes primárias em que se içou a candidato da direita republicana francesa. Há dias realizou uma manifestação no Trocadéro, com a Torre Eiffell em fundo, e que reuniu algumas dezenas de milhares de apoiantes, para afirmar que prosseguia como candidato e atirando-se à justiça e aos correlegionários partidários que o haviam abandonado. Uma prova de força lhe deu algum oxigénio e que obrigou o partido a reafirmar o seu apoio, ao mesmo tempo que Alain Juppé se mostrava indisponível para ser um "plano b". Até algumas formações que o haviam abandonado voltaram de repente atrás. Mas novo caso bizarro, o dos fatos comprados a preço de ouro a alfaiates parisienses de renome, alguns deles pagos em numerário por "amigos" (o que é que isto nos lembra), veio manchar de novo o suposto currículo impecável de Fillon. E depois disso, vieram à superfície novos rumores que não abonam nada a favor da auto-propalada integridade do candidato gaullista.
 
 
No debate a cinco que se seguiu, Fillon tentou dar um ar da sua graça, mas passou despercebido e a sua prestação só ficou acima da de Benôit Hamon, o candidato oficial e nada consensual do PS francês. Único ponto a favor: era o que tinha a gravata mais elegante.
 
 
Recorde-se que Fillon era, até há semanas, o provável vencedor tanto da primeira como da segunda volta das presidenciais francesas. A rejeição a Marine LePen, as lutas internas do PS francês e a pouca relevância a que a esquerda radical está votada, numa eleição a que se apresentam quase 50 candidatos (incluindo trostquistas, bonapartistas e simples apêndices zangados das forças maiores), fazia prever que Fillon fosse o próximo locatário do Eliseu. A partir do momento em que os cargos da família Fillon vieram à ribalta pública, através do impiedoso Canard Enchainé, as intenções de voto caíram e emergiu Emanuel Macron, o candidato do centro sem suporte partidário.

O drama de Fillon parece ser, como já muitos jornais franceses salientaram, uma repetição do que aconteceu a Edouard Balladur nas presidenciais de 1995. Em fins de 1994, Jacques Delors, a cessar o seu mandato na Comissão Europeia e largamente favorito entre os eleitores para suceder a François Mitterrand, declarou-se fora da corrida. O PS francês teve de se contentar com Lionel Jospin, abrindo caminho ao favoritismo do centro-direita. Jacques Chirac, então maire de Paris, ex Primeiro-Ministro e antigo candidato derrotado em anteriores presidenciais (o que em França dá estatuto de persistência), era a escolha óbvia da aliança gaullista-liberal entre o RPR e a UDF. Mas o então Primeiro-Ministro, Edouard Balladur, com largos apoios à direita e no governo, resolveu avançar e dividiu todo aquele espectro político. A alguns meses das eleições, era o favorito nas sondagens, tanto na primeira como na segunda volta. Mas aos poucos, o seu ar demasiado senhorial, alguns casos obscuros emergentes, as suas ideias sociais pouco populares e a pouca simpatia que a personagem despertava no "homem comum" fizeram-no cair do pedestal. Balladur tinha allure de chefe de estado, mas era pouco comunicativo e empático. O contrário de Chirac, uma velha raposa, um gaullista à antiga, afável e acessível, que aos poucos subiu nas sondagens, e em Abril de 1995 passou à segunda volta, com Jospin, deixando Balladur para trás, após o que seria, sem surpresa, eleito Presidente de França. O então chefe de governo demitiu-se, e com ele os jovens turcos que o tinham apoiado, como François Fillon e Nicolas Sarkozy. François Bayrou, que também lhe tinha dado o apoio, transitou para o novo governo, que seria chefiado por Alain Juppé, até ali Ministro dos Negócios Estrangeiros e apoiante indefectível de Chirac.
 
 
A história presidencial em França parece repetir-se 22 anos depois, no mesmo sector, com a diferença de que desta vez a segunda volta não deverá ser entre um gaullista e um socialista. As forças políticas mudaram, mas muitos dos seus intervenientes não, em especial algumas figuras que conviveram no mesmo governo: Fillon (nem de propósito, apoiado por Balladur) é um candidato em desgraça; Sarkozy antecedeu-o; Juppé caiu mas ia sendo repescado; e Bayrou, que aprendeu a apostar no cavalo certo (Sarkozy primeiro, Hollande depois), apoia Emanuel Macron e pode voltar à ribalta política, se a sua aposta se voltar a concretizar. A política francesa, com as suas reviravoltas, apoios, dissensões e "richelieunismos vários, continua a ser um apaixonante manancial de interesse na política europeia.

segunda-feira, julho 04, 2016

Big-Bang político, o legado de Michel Rocard


Os obituários deste fim de semana estiveram completamente sobrecarregados: Camilo de Oliveira, Elie Wisel, Michael Cimino, todos eles foram objecto de artigos e de atenção mediática. Incrivelmente, parece ter passado despercebido o desaparecimento de Michel Rocard, um dos políticos franceses e europeus mais importantes dos anos oitenta-noventa, de que só soube pela capa do I.

Rocard, que exerceu o cargo de primeiro-ministro de França no fim dos anos oitenta, era um dos poucos no PSF a declarar-se social-democrata, isso quando a palavra era tabu num partido que anos antes tinha governado em coligação com o PCF de Marchais. Aliás, até há bem pouco tempo, o PSF continuou agarrado a fórmulas esquerdistas e jacobinas antigas e só recentemente começou a descolar. Manuel Valls, que tem protagonizado essa mudança, é um seguidor confesso do antigo estadista e das suas ideias. No início dos anos 90, Rocard, à frente do partido, propôs uma mudança radical que teve algum eco, com o seu célebre "Big-Bang" político. A ideia era fazer um amplo movimento reformista que incluísse não apenas socialistas mas também ecologistas, comunistas renovadores, centristas, católicos progressistas ou defensores dos direitos humanos tout court. Estavam reunidas as componentes da Deuxième Gauche de que era figura de proa, e que se opunha à esquerda marxista e jacobina.

O PS francês sofreu duros reveses eleitorais durante a sua liderança, e as ideias do Big-Bang foram postas de lado. Só recentemente Valls tentou levá-las avante, e apenas em parte. O Big-Bang permaneceu como uma das ideias políticas dos anos noventa que não chegou a ser levada avante, e que caso o fosse, teria talvez regenerado a esquerda reformista francesa e dado capacidade para se bater com a direita unida da ex-UMP, e quem sabe, travado o passo à Frente Nacional. Agora, o PSF está pelas ruas da amargura, os Republicanos (ex-UMP) colam os cacos e reorganizam-se, e a FN permanece na crista da onda. Rocard era um homem de visão. Há tempos, previu o Brexit e as razões para a saída do Reino Unido (coisa que desejava). Não foram pois os resultados do referendo que provocaram a sua morte. Seria bom por isso que se olhasse para as suas ideias e se tentasse aproveitar um pouco. Porque o centro político e as forças democráticas só ganharão nova força renovando-se, olhando para os problemas e enfrentando-os com coragem e realismo. Michel Rocard sabia disso. Os que fizeram ouvidos de mercador terão agora forçosamente de interpretar bem o seu legado político.


sábado, maio 14, 2016

Outras ameaças que não o fascismo


Rui Tavares (com quem ainda há pouco falei durante breves momentos, não sobre o post que se segue, depois da conferência que moderou com Claudio Magris no âmbito do LeV - Literatura em Viagens), escreveu um interessante texto no Público desta semana intitulado Uma Europa contra o fascismo. Não tenho muito a objectar. Apenas que nem todos os nomes que refere se podem considerar "fascistas": Orbán, por exemplo, é acima de tudo um oportunista autoritário; Kaczinsky é um reacionário excitado, e Farage um eurocéptico convencido. Mesmo Putin e Erdogan não são exactamente aquilo que poderíamos considerar "fascismo", atendendo às circunstâncias especiais e à cultura dos seus países. E o brasileiro Eduardo Cunha é outro oportunista, com problemas com a justiça.
O que eu tenho mesmo de fazer é acrescentar coisas ao texto. Não é só a recordação fascista que ameaça a Europa: do outro lado do espectro temos outras tantas ameaças. Não esquecer que durante meio século tivemos uma Cortina de Ferro a dividir a Europa livre da controlada pela URSS e da sua ideologia opressora e burocrática. E que na Guerra de Espanha se opunham acima de tudo duas ideologias que resvalaram para o totalitarismo. Hoje em dia vemos o sr. Pablo Iglesias e o seu movimento, onde há gente que recentemente invadiu capelas em trajes menores com cartazes dizendo "Ardereis como em 1936" (recordando as igrejas incendiadas antes e durante a guerra), unindo-se com os restos de comunistas da IU e alguns independentistas radicais a querer o poder de qualquer forma, vemos as derivas de Jeremy Corbyn no Partido Trabalhista, o Linke da Alemanha que tem entre si elementos que fizeram parte da STASI, e mais uns quanto movimentos radicais à esquerda que querem acabar com a Europa e "derrubar o capitalismo", muitas vezes com saudosismos do Pacto de Varsóvia ou admirando o lunático sr. Maduro e o seu regime que está a destruir a Venezuela. Por isso, a crítica de Rui Tavares, não sendo destituída de verdade e senso, peca por defeito. As ameaças não vêm só de um lado, e não é por ser de esquerda que . E a experiência que teve com o BE e o modo como Louça o tratou deviam fazê-lo reflectir.

sábado, outubro 31, 2015

Nas legislativas elegem-se governos



As eleições legislativas servem para eleger os deputados, ouve-se incessantemente em toda a parte. Um equívoco formal. Se assim fosse, o poder executivo não estaria condicionado pelo Parlamento nem os líderes partidários se apresentariam como candidatos a primeiro-ministro.


Se até à revisão constitucional de 1982 podia haver governos de maioria presidencial, como aconteceu em fins dos anos setenta, a partir daí essas hipóteses esvaziaram-se. Caso algum PR tivesse essa veleidade, ela seria imediatamente chumbada no parlamento, tal como o governo que agora tomou posse deverá ser. Apenas Eanes nomeou governos por sua iniciativa. Todos os outros depois dessas experiências saíram directamente de eleições, com excepção do de Santana Lopes, em 2004. Todos os governos minoritários viram passaram o seu programa quando apresentado na AR.


É precisamente a nomeação de Santana de que me recordo quando vejo tantos adeptos da "maioria de esquerda" dizerem que "a maioria parlamentar é o único garante dum governo estável". Será? Quando o presidente Jorge Sampaio tomou a decisão em mãos, tinha toda a legitimidade para dissolver o Parlamento e convocar eleições. Durão Barroso tinha saído abruptamente, com a popularidade em baixa e o pretexto perfeito, e impôs para o seu lugar o então presidente da câmara de Lisboa, que nem eleito deputado tinha sido, ao invés de propor Manuel Ferreira Leite, Ministra de Estado e das Finanças e nº2 daquele governo. A solução mais avisada e que colhia mais apoios era a convocação de eleições, mas Sampaio preferiu chamar o actual responsável pela SCM de Lisboa para formar governo. Uma solução controversa e duvidosa, mas ainda assim legítima. Boa parte da esquerda, acusou-o de traição (à esquerda), Ferro Rodrigues demitiu-se furioso com a decisão, e ouviram-se coisas como "a democracia está em perigo", ou "o 25 de Abril acabou" (desse vulto da liberdade chamado José Saramago), para não falar de tiradas de mau gosto relacionando a morte súbita de Maria de Lurdes Pintassilgo (horas depois) com a decisão presidencial. Porquê? Porque, segundo diziam, aquele governo não tinha sido sufragado pelo povo, ainda que o fosse por uma maioria parlamentar (além da "traição" de Sampaio, aos ideais de esquerda). Precisamente o argumento oposto ao que utilizam hoje. Isso e o de que Cavaco teve um discurso de "líder de uma seita de direita". O discurso do PR revelou-se muito longe de quem pretende ser o chefe de estado de todos os portugueses, é verdade. Mas muitos dos que o criticam hoje queriam que Sampaio tivesse tido idêntica atitude no sentido inverso.

A ideia de que um governo é efectivamente eleito não só resulta de uma convenção tácita mas também da própria CRP, que impede na prática a constituição de governos de iniciativa presidencial e dispõe que eles são formados com base nos resultados eleitorais. Acresce o facto do sistema eleitoral português ser pouco favorável a maiorias absolutas. Como defende a direita agora e defendeu a esquerda há onze anos, o governo resulta das eleições e sobretudo da formação mais votada. É pela ambição desmesurada de poder a todo o custo que se dão estas crispações políticas. Não que elas não sejam necessárias e por vezes desejáveis. Mas escusavam de surgir no meio destes golpes palacianos. Ao menos em momentos como a questão do aborto defendiam-se valores a sério, por maior que fosse a discussão. Aqui, vemos o cinismo da direita, à beira de perder o escasso poder  que ganhou nas eleições, embatendo na hipocrisia da esquerda, que já acha que as maiorias parlamentares têm valor absoluto e que se permite que pessoas como Catarina Martins façam declarações como "este governo acabou", como se fosse a ela que lhe competisse dizer isso. Pelo meio, a extraordinária declaração de que "empossar um governo de Passos Coelho é uma perda de tempo", contrastando com o tão apregoado respeito pelo parlamento, como se estivesse tudo definido antes do programa de governo ir a plenário, e demonstrando um total desrespeito pelas instituições, o que só demonstra que a esquerda radical permanece igual a si própria, e que na luta pelo poder, não é melhor do que a direita a que tanto se atira (nalguns casos até é pior, como quando vem a sua "superioridade moral").

Ironicamente, a primeira prova de uma estranha união das esquerdas foi a eleição para Presidente da AR de Ferro Rodrigues, exactamente o homem que se demitiu das suas funções partidárias por entender que o presidente da República de então o tinha traído e aos seus princípios ideológicos.

quarta-feira, outubro 21, 2015

O regresso ao futuro com o "Grande Educador"



Hoje, 21 de Outubro de 2015, é o célebre dia em que Marty Mcfly chegou ao futuro, vindo dos longínquos anos oitenta. Não há os carros voadores, skates propulsores, alimentos cozinhados por hidratação previstos pelo filme, e a saga Tubarão há muito que acabou. Pelo contrário, se esteticamente e nos elementos superficiais as coisas nem mudaram assim tanto, a revolução das comunicações e da net mudou a forma de nos interligarmos, como seria impossível, à data, de prever.


O que certamente não se imaginaria nos anos oitenta é que trinta anos depois Arnaldo Matos, o "grande educador da classe operária", estaria de volta para liderar (ou educar?) o MRPP, que quase não mudou nos últimos quarenta anos, a não ser pela saída de militantes que entretanto ganharam notoriedade.

Nos últimos dias tem sido um corrupio no velho partido maoísta, que nestas últimas eleições se destacou pelo slogan "morte aos traidores!" e por ter o médico Pinto da Costa como mandatário nacional. Agora, os comunicados do seu site lamentam os fracos resultados eleitorais, suspendem os membros do Comité Central do partido e o secretário-geral por "incompetência, oportunismo e anticomunismo primário", e marcam um congresso extraordinário para breve. Tudo assinado pelo "camarada Espártaco" (o nome é de antologia) com auxílio da "camarada Marta", e rematado com o potente "Morte aos traidores!". Ao que tudo indica, Garcia Pereira será um dos dirigentes suspensos.

Entretanto, no jornal, agora online, do partido, o Luta Popular, os editoriais têm sido assinados pelo mítico Arnaldo Matos, que não se coíbe de comentar a actualidade política, e não é particularmente meigo com os partidos representados na AR, muito menos com a esquerda e com um eventual governo formado por PS, BE e PCP. Ao que tudo indica, as tumultuosas movimentações dentro de velho partido terão mesmo a ver com um eventual regresso do próprio Arnaldo Matos à liderança. Ou seja, se a linguagem, os propósitos e a estética e o grafismo já eram devedores dos anos setenta, só faltava mesmo lá recolocar o líder carismático que há muito se tinha afastado para se dedicar à advocacia. Definitivamente, a esquerda em Portugal movimenta-se.



Se a moda pega, poderemos ver Jorge Sampaio e Vítor Constância a enfrentarem-se para substituir António Costa, caso a este as coisas não lhe corram bem (só porque Soares talvez não esteja disponível); ou Cavaco, quando sair da presidência, disputar o PSD com Balsemão, se Passos também sair. Portas poderá ser substituído por Freitas do Amaral, enfim de regresso ao CDS, quiçá com a oposição de Adriano Moreira. Jerónimo pode estar ameaçado por Carvalhas, Catarina Martins por Louçã ou Mário Tomé, Paulo Estêvão (PPM) ou José Inácio Faria (MPT) por Gonçalo Ribeiro Telles, o general Eanes a reconstituir o PRD com Hermínio Martinho e Pedro Canavarro, e assim sucessivamente. Nada como os clássicos. É bem verdade quando dizem que o retro está na moda.

domingo, outubro 11, 2015

A "maioria de esquerda"


A propósito das negociações para formar governo e dos contactos que o PS tem mantido à sua esquerda, com a possibilidade real de fazer um acordo com os respectivos partidos representantes, refere-se a eleição de "uma maioria de esquerda" no Parlamento. A história dessa tal "maioria de esquerda" que supostamente vai votar em massa contra um governo de direita já enjoa. De que "maioria de esquerda" é que estão a falar? Da que ganhou a câmara de Lisboa entre 1989 e 2001? É a única que conheço. Basta ir a 1975 para perceber que tudo isso é uma ficção. Só talvez um partido como o Livre se poderia coligar com o PS, isto se tivesse tido apoio eleitoral para isso. A esquerda tem várias naturezas, completamente diferentes entre si, e por isso a apregoada "maioria" é uma história da carochinha. Senão, porque é que não haveria apelos para que o PSD e CDS chamassem também o PNR se este tivesse representantes no parlamento?


Também ouço falar de exemplos noutros países europeus, como o Luxemburgo, ou a Dinamarca, tão bem retratada na série Borgen, em que partidos que não ganham eleições têm uma maioria parlamentar, formando assim governo e deixando de fora o partido que as ganhou. Mas posso também ir buscar os dos países da UE mais falados deste ano, a Alemanha e a Grécia. A CDU/CSU de Angela Merckel ganhou as eleições alemãs sem maioria absoluta, e viu o parceiro favorito de coligações, os liberais do FDP, ficarem à margem do parlamento, com menos de 5%. O SPD ficou em segundo. No conjunto, a esquerda contava com maioria no Bundestag - além dos sociais-democratas, há ainda os Verdes, que até já estiveram no governo, o partido esquerdista Linke (passe a redundância). O SPD preferiu fazer uma grande coligação com a CDU, como já tinha acontecido antes, sem pensar em qualquer maioria de esquerda. 
Na Grécia, como é sabido, o Syriza voltou a ganhar as eleições de Setembro, já despojado da sua ala mais radical. Ficou a seis deputados a maioria absoluta. Tinha várias opções à esquerda, como a coligação onde está o PASOK, os comunistas ortodoxos do KKE, ou o centro-esquerda do To Potami, Preferiu reeditar a coligação com a direita nacionalista do ANEL, de Panos Kammenos, que entrou à justa no parlamento. Também aqui se estiveram a borrifar para uma qualquer "maioria de esquerda", quando teriam toda a legitimidade e força para o fazer. E claro, recordar que em França há um acordo tácito de que a Frente Nacional não receberá apoios da ex-UMP (a direita gaulista e "republicana", como aliás agora tem na designação), e o PSF também não parece inclinado a acordos com a Frente de Esquerda de Mélenchon.

Esquerda e direita continuam a fazer sentido. Mas melhor será falar em "esquerdas" e "direitas", porque são tantas e de tantas naturezas que é impossível falar-se em unidades ou convergências. Que é que liga o PSD e o CDS ao PNR? E o PS ao PCP, o seu velho inimigo, ou ao BE? A colocação num determinado espectro é insuficiente para se poder colar este ou aquele partido. À esquerda, então, ainda se notam mais essas diferenças. Por alguma razão os republicanos perderam a Guerra Civil de Espanha, ou não tivesse o PCE tentado eliminar os trostquistas e anarquistas que combatiam do mesmo lado. Mas ainda falando de Espanha, o recente exemplo da ida de Felipe González à Venezuela para defender opositores políticos presos, sob os insultos e os entraves do regime de Maduro, é bem um exemplo do que pode distinguir a esquerda democrática da radical. é bom lembrarmo-nos disto quando voltarmos a ver o PCP a justificar e defender o actual regime venezuelano.