Mostrando postagens com marcador CDS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CDS. Mostrar todas as postagens

terça-feira, outubro 25, 2022

Memórias de Adriano

 

Adriano Moreira.jpg

 
Fazendo umas buscas entre datas e calendários antigos, confirmei o que pensava. Neste dia, 24 de Outubro, há já uns bons anos, ouvi pela primeira vez ao vivo o Professor Adriano Moreira, tendo tido o privilégio de falar com ele no fim. Tinha eu chegado a Lisboa poucos dias antes, iniciando uma estadia que se prolongaria por alguns anos, e logo no início, no curso de Política Externa que então realizava no IDN, apanhei logo com um gigante académico desta monta. Escusado será dizer que a aula se constituiu de conhecimento, experiência, ironia, clareza, saber académico e pedagogia. Voltei a ouvi-lo outras vezes, mas a primeira deixou-me uma viva impressão.

Dá-se o infeliz acaso do "aniversário" desse encontro calhar quase na data do seu desaparecimento. Não deve haver notícia mais natural acerca de uma pessoa com cem anos do que a da sua morte, mas esta, para além da tristeza pessoal, para mais quando o centenário tinha sido há tão pouco tempo, significa mesmo, segundo o adágio popular, o fecho de uma biblioteca, neste caso de colossais dimensões.

E de memórias do próprio Adriano Moreira ficou-me o seu afecto pela (e da) família, como se pode ver pelos artigos que os filhos, em particular a filha "rebelde" Isabel Moreira, lhe dedicam, em que mencionam o medo de deixar a sua mulher desprotegida, mas mais ainda, a memória dos pais, como quando realizou a sua primeira visita a Moçambique como Ministro do Ultramar e o seu próprio Pai, ainda polícia, quis ir com ele para assegurar a protecção do filho, ou quando tinha de ir ao cemitério de Grijó, Macedo de Cavaleiros, de onde era natural e onde está o jazigo dos pais, por achar que podiam sentir-se sozinhos. E ainda, quando lhe morreu recentemente um filho, há uns dois anos, a descrição feita por Ribeiro e Castro, na missa de corpo presente: "estava direito: velho e direito. É um carvalho antigo transmontano. Um pouco quebrado, pelo tempo e pelo dia, mas grande, velho e direito".

Tinha também esse característica que muito aprecio: um transmontano que nunca disfarçou as suas raízes, ao contrário de tantas figuras públicas, e que, pelo contrário, fazia questão em recordá-las e em dizer de onde vinha, e a sua cara em traços firmes e recortados, mas não rudes, assim o confirmava. Curiosamente a primeira vez que ouvi falar dele terá sido em Vila Real, ao reparar naqueles cartazes em que surgia com o filho mais novo, que devia ter pouco menos que a minha idade, na campanha em que o seu CDS ficou reduzido a um "táxi" (estranho como os mais preparados líderes nem sempre são os que têm mais sucesso, ou talvez até por isso...).

Este homem, que exerceu funções políticas e académicas neste regime, no anterior e que nasceu no anterior a esse, era o último de uma notabilíssima geração que estaria agora nos cem anos: Agustina, Gonçalo Ribeiro Telles, José-Augusto França, Eduardo Lourenço, que chegaram aos noventa e muitos, e desaparecidos com menos idade, Sophia (e muito mais novo o seu primo Ruben A.), Saramago, os irmãos António José e José Hermano Saraiva ou Natália Correia. Quase todos chegaram a idades bastante avançadas, mas só Adriano conseguiu chegar aos cem. 

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

O caminho incerto das ideologias ( à boleia com as da direita portuguesa)

 

Com as presidenciais lá veio a eterna discussão da "reconfiguração da direita", esse assunto cornucópia da política portuguesa. Primeiro com os resultados de André Ventura (e do Tiago Mayan) nas presidenciais. Depois, quando Adolfo Mesquita Nunes desafiou Francisco Rodrigues dos Santos para um congresso, vendo o CDS mirrar e perder peso. Uns levantaram-se em seu apoio, a começar pelo grupo parlamentar, outros cerraram fileiras em volta de "Chicão", invocando uma "tentativa de golpe" e outros deixaram os órgãos partidários aos quais pertenciam sem contudo se juntar às hostes rebeldes. O presidente da formação manteve-se, embora enfraquecido. Não é propriamente um facto inédito: se há partido português com historial de lutas fratricidas é exactamente o CDS. Freitas sempre teve de enfrentar dissenssões e afastou-se com a ascensão de Monteiro, que protagonizou mais tarde uma luta feroz com o seu antigo amigo, Paulo Portas. Os apoiantes deste nunca se conformaram com a chefia de Ribeiro e Castro e não descansaram enquanto não repuseram na lidernça o seu inspirador. Cristas teve de enfrentar críticas duríssimas e agora Rodrigues dos Santos sofreu um levantamento de rancho. Aquele partido leva as lutas tão a sério que até já teve estalo a valer nos seus congressos - pelo menos num Avelino Ferreira Torres andou à pancada com outro confrade. E neste caso não seria mal maior se não tivesse a Iniciativa Liberal e o Chega a limitar-lhe o espaço, problema que antes não havia.

A ajudar  à dita "reconfiguração" Pedro Santana Lopes saiu do seu Aliança, que tinha criado há pouco mais de dois anos, e anda por aí à procura uma câmara municipal disponível que lhe sirva de poiso.

Faits divers à parte, e deixando um pouco de lado a interminável discussão da direita portuguesa (à qual vou voltar em breve), a situação do CDS não deixa de ser intrigante. O partido sempre se gabou de ter três componentes: a democrata-cristã, a liberal e a conservadora. A liberal pode estar a mudar-se para a mais enérgica e definida IL; a conservadora dará a sua preferência ao Chega, muito embora este seja um emaranhado de coisas que pouco tem a ver com o conservadorismo clássico, o que daria razão aos que desconfiavam que o CDS albergava alguns reaccionários sem outro pouso e que muito do seu eleitorado estava à direita dos dirigentes. Mas e o democrata-cristão? Aquele que não se revê na face libertária da IL nem nos vitupérios de Ventura ou aproximações a LePen? A julgar pelas sondagens é minoritário, embora até conheça vários que estariam numa situação de orfandade caso o partido desaparecesse. O assunto é também objecto de análise de um artigo recente de André Lamas Leite


Não é para menos: a democracia-cristã, cujo berço será a Itália nos inícios do séc. XX e o Partido Popular de Sturzo e De Gasperi (é em sua homenagem que o PPE e restantes partidos populares se chamam assim), está em acelerado declínio, mesmo que parcial e nominalmente ainda pareça dominar em alguns países, como a Alemanha e a Áustria. Mas definitivamente parece estar longe da força e da influência de outros tempos, talvez por vivermos em sociedades que se têm vindo a tornar mais seculares, e o CDS é a prova nacional disso. 

Mas não é caso único. O comunismo, que, para voltar a um exemplo anterior, durante décadas dividiu eleições em Itália com a mesma democracia-cristã, teve uma queda abrupta desde os anos oitenta e ninguém minimamente lúcido aposta nos amanhãs que cantam como força dominante. Mesmo nos países de regime comunista, como a China e o Vietname, já é algo bem diferente do maoísmo original (muito embora permaneça o controlo ditatorial da sociedade), e Cuba é de uma decadência inimitável. Da social-democracia também há anos que se ouve falar do seu esmorecimento, e tirando alguns países onde o poder a mantém, como Espanha e Portugal, tem caído a olhos vistos, como em França, Grécia e Alemanha. O conservadorismo encontra-se numa cruzamento de dúvidas, entre versões descafeinadas e apelos reaccionários. O liberalismo, embora tenha alguns seguidores entusiastas, não parece ser capaz de formar governos, talvez vítima do seu próprio sucesso, já que as suas principais premissas foram cumpridas na maior parte dos regimes democráticos. A extrema-direita teve de abandonar, ao menos à superfície, quaisquer inspirações fascistas, sob pena de ficar absolutamente marginalizada. E as querelas entre monárquicos e republicanos não têm nem um naco da relevância de outrora.

Parece que as ideologias que nos habituámos a seguir no séc. XX já viram dias mais pujantes. Os partidos portugueses também as seguem, e por ora ainda resistem, embora se vejam sinais de erosão no CDS, como se disse, e no PCP. Dir-se-ia que o que realmente está em ascensão são os partidos ecologistas e "verdes" (e mais modestamente os animalistas), o nacional-populismo, ou seja, direitas radicais ou extremas convertidas à democracia (outra influência italiana?) e em certa medida o liberalismo. Serão estas as futuras ideologias predominantes? Veremos confrontos entre estes blocos políticos, reduzindo os restantes -ismos a discussões bizantinas ou a memórias históricas? Terão a companhia de novos movimentos - os federalistas, por exemplo? Ou juntar-se-ão a outras atrás descritas que irão novamente reerguer-se e ocupar o seu velho papel de hegemonia?




segunda-feira, fevereiro 03, 2020

O novo líder do CDS


Já lá vão uns dias, mas ainda não tinha falado do congresso do CDS. Sim, também houve do o Livre, com aquelas cenas dignas de dó protagonizadas pela deputada Joacine e o seu irreverssível afastamento do movimento, e haverá o do PSD, que com a reeleição de Rio perdeu algum interesse. Mas o do CDS é o que por ora interessou mais. Pela eleição do novo líder, claro, mas também pelo momento muito particular em que se encontra a direita portuguesa.

O CDS já tinha tido pouco mais de quatro por cento, em tempos de oceanos laranjas, em que o cavaquismo tudo dominava, remetendo o PS para uma dimensão modesta, diminuindo o PCP e fazendo desaparecer o meteoro PRD. O CDS sofreu incrivelmente nesses anos, e nem líderes como Adriano Moreira ou o regressado Freitas do Amaral inverteram a situação, até à chegada de Manuel Monteiro. O ex-líder da Juventude Centrista, com o apoio de jovens turcos do partido, de um ou outro notável e da acutilância de O Independente, dirigido por Paulo Portas, venceu o candidato da continuidade, Basílio Horta, representante da democracía-cristã, e o candidato à parte Lobo Xavier, e deu uma guinada directa para a direita, acrescentando ao partido a sigla PP. Há uma clara semelhança no momento actual: Francisco Rodrigues dos Santos, o "Chicão", apoiado por um exército de jotinhas populares e por algumas figuras do pré-portismo (o próprio Lobo Xavier, Ribeiro e Castro, Bagão Félix), venceu a lista da continuidade, de João Almeida, que representava o "portismo" e o sector "liberal" e o candidato da ala democrata-cristã, Filipe Lobo d´Avila, e as candidaturas menos representativas de Carlos Meira (esse grande vianense, impetuoso mas precipitado, sobretudo com as palavras) e Abel Matos Santos, prometendo nova guinada à direita.

A grande diferença em relação aos anos 1990 é que o PSD já não domina o país, antes pelo contrário, e há nova concorrância à direita (à esquerda também, em comparação com esses anos). O caminho do CDS para a direita já não poderá ser feito sem obstáculos, tendo muitos votos da direita liberal mais virados para a Iniciativa Liberal e os da direita "Correio da Manhã" - ou da taberna, se preferirem - orientados para o Chega. Claro que os votos não têm dono senão os respectivos eleitores, mas a verdade é que há tendências para estas novas formações, sobretudo a segunda, embora não provenham todos da direita. O CDS tem um longo caminho a travar, com muitos espinhos, tendo em conta a diminuição de representatividade e os problemas económicos que atravessa. Se não quiser ser apoucado por estes novos partidos e formar no futuro com o PSD uma alternativa à actual maioria, terá muita pedra para partir. Pode começar por estudar exemplos passados, como a forma como Monteiro - que de resto está de regresso - conseguiu fazer o partido crescer (não há Independente mas o Observador também serve alguns propósitos), ou como Paulo Portas ultrapassou as dificuldades financeiras, fazendo campanha eleitoral nas feiras, que se tornou uma das suas marcas eleitorais. Rodrigues dos Santos tem as suas falanges de jotinhas, um discursos mais conservador e apesar de tudo tem mais "aparelho" do que os novos concorrentes (representantes no PE, câmaras municipais, estruturas locais, etc). Tem mais que obrigação de fazer o partido crescer em relação aos péssimos resultados de Outubro. Caso contrário, o CDS não mais será do que um fantasma político.

segunda-feira, março 14, 2016

O partido de Assunção Cristas

 
Ainda não sei muito bem o que será Assunção Cristas no CDS. A sucessão de Portas será sempre complicada, se bem que aqui, ao contrário da anterior saída, tenha o apoio do ex-líder, e por isso não passará pelas dificuldades por que passou Ribeiro e Castro. Lançou algumas propostas que devem ser estudadas, como a reforma de segurança social e as regras de nomeação do governador do Banco de Portugal, reiterou o apoio a Rui Moreira nas próximas autárquicas e declarou que o CDS se vai lançar sozinho à câmara de Lisboa. São pontos importantes. Mas ideologicamente falando, se é que isso ainda conta para alguma coisa, Cristas ainda deixa dúvidas. Sendo democrata-cristã, é muito duvidoso que queria voltar aos tempos do CDS original e "rigorosamente ao centro" de Freitas, Amaro da Costa e Basílio. Mas também não pode seguir a linha tão pragmática de Portas, nem voltar ao conservadorismo eurocéptico de Manuel Monteiro, até porque os "monteiristas" no partido se devem contar pelos dedos. E o facto de ter chamado para o núcleo duro alguns nomes tidos como mais liberais, como Adolfo Mesquita Nunes e João Rebelo, ainda complica mais qualquer previsão.
 
Será interessante seguir o percurso do CDS de Cristas, tanto na sua parte ideológica como na programática. Sem esquecer, apesar de tudo, que pretende fazer um caminho com mais autonomia do PSD, agora "social-democrata sempre", com intuitos de apanhar o centro, o que liberta espaços à direita.
 
 

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Paulo Portas, legado e futuro



A par das presidenciais, um dos grandes assuntos políticos do momento é a saída de Paulo Portas da liderança do CDS-PP e a sua difícil sucessão.


Sobre isso, tem havido artigos e artigos, dúvidas e interrogações, sobre a carreira de Portas e o que fará a seguir. A carreira é conhecida: jornalista desde muito novo, militante da JSD durante algum tempo, director do Independente nos anos do Cavaquismo, arquitecto do "monteirismo, deputado de rompante do CDS-PP, líder do partido, ministro da Defesa, e depois de um hiato de dois anos, de novo líder do partido e retorno ao governo, à importante pasta dos Negócios Estrangeiros e ao recriado cargo de Vice-Primeiro-Ministro. Um longo percurso político, mais rico do que o de qualquer ex-líder do seu partido (e não me esqueço de Adriano nem de Freitas), contrabalançado pelas inúmeras controvérsias, das intrigas políticas e quezílias birrentas aos casos mal explicados, acabando tudo na famosa "decisão irrevogável", que até hoje ainda não percebi se foi uma atitude racional ou um impulso.


Portas é das figuras políticas mais interessantes dos últimos quarenta anos. Desde logo porque não é muito comum ver-se um jornalista, para mais com ares rebeldes, entrar na política e ascender a uma cúpula partidária. Conseguiu dar outra importância ao CDS-PP, não deixando tombar de novo no "rigorosamente ao centro" que o tornou no "partido do táxi" e corrigindo um  caminho demasiado para a direita e o eurocepticismo, e levou-o novamente para o governo, por duas vezes. Permitiu também que aparecesse uma nova geração de quadros. Mas, talvez dado o seu carácter pouco fiável, a sua ânsia de tudo controlar no partido e a alguns azares de percurso, falhou no objectivo de tornar o CDS num grande partido liberal-conservador oposto ao PS, deixando o ambíguo PSD para trás. Falhou parcialmente no mais modesto desejo de reconstruir o partido a nível local e regional, como se vê pelo declínio nas autarquias, que nem a tímida recuperação de 2013 disfarça que em tempos tenham controlado câmaras como Aveiro, Leiria ou Viseu (escrevi parcialmente por causa das conquistas de deputados em círculos como Faro e Coimbra e sobretudo à posição de primeiro partido da oposição na Madeira). E falhou, e aí sim, imperdoável, no guião da reforma do estado, aquilo a que se dispunha a criar enquanto nº2 do Governo, que podia ser o seu grande legado político e que não passou de um manual de banalidades burocráticas e abstractas e letra aumentada. Esse é o grande falhanço de Portas, que poderia redimir tudo o resto.


Sai da sua posição compreendendo que o ciclo político mudou e que são precisas caras novas. Para a liderança do partido perfila-se o mui popular (internamente) Nuno Melo e a igualmente popular (externamente) Assunção Cristas. Mota Soares e João almeida eram outras hipóteses, sensatamente descartadas. E haverá provavelmente a interferência de Filipe Anacoreta Correia, provavelmente recordado do brilharete surpresa de Ribeiro e Castro. Seja quem for, o legado de Portas pesará.

Quanto ao futuro do ex- nº 2 do Governo, segundo o próprio, será de trabalhar e criar empresas, com a experiência, o savoir-faire e os contactos adquiridos nas funções governamentais dos últimos anos. Uma nova etapa para Portas, embora seja provavelmente um intervalo até à sua próxima aparição política, coisa a que voltará forçosamente um dia. Há quem aposte que irá tentar Belém, o que não deixaria de ser estranho num homem filiado na Causa Real. Seria preferível que se dedicasse aos seus velhos projectos de escrever romances e guiões para cinema. Poderia sair algo de interessante, e depois um bom guião de cinema sempre seria a forma de compensar o falhanço do guião para a reforma do Estado.









quinta-feira, maio 07, 2015

Perderam a cabeça ou querem perder de propósito?



Dá ideia que um vento de loucura percorreu a cúpula do PSD. Quando vi o vídeo com os elogios de Pedro Passos Coelho a Dias Loureiro, em Aguiar da Beira, pareceu-me um acesso de estupidez dificilmente ultrapassável. Quem é que dispararia um tiro de canhão no pé daqueles? Paulo Portas devia estar a trepar pelas paredes.
Com a publicação da biografia política de Passos, a desenterrar o caso "irrevogável" e a fazer o possível por deixar Portas mal na fotografia, uma escassa semana depois da oficialização da coligação PSD-CDS, a suspeita passa a ser a de loucura total. Ou é uma brincadeira de muito mau gosto no pior timing possível, ou é propositado, e nesse caso há que saber as razões. Não falamos de um movimento com aspirações à representação parlamentar: é a coligação dos dois partidos que estão no poder a ser posta em causa pelo actual primeiro-ministro.


Como diz um dirigente do CDS, "só se for para garantir que a coligação está coesa e motivada". Ou, como se sussurra, parece que querem perder as eleições. Pelo menos parecem fazer tudo para isso, sem grandes camuflagens. Se fosse de propósito, não fariam melhor Como é que se pode confiar num chefe de governo assim?

quinta-feira, janeiro 16, 2014

O caso que faltava para animar o congresso



O curto faits divers dos delegados do CDS do Algarve num restaurante de leitões era a pincelada que faltava para colorir um congresso bocejante, em que quase nada mudou no partido, e que só serviu para a oposição a Portas ganhar mais uns elementos nos órgãos nacionais e Nobre Guedes (caramba, envelheceu como tudo!) fazer o papel de António Costa dos conservadores. Ou seja, uma ou duas coisas mudaram para que tudo ficasse na mesma. Ao menos reuniram-se numa zona fora dos grandes centros urbanos e levaram alguma animação à Bairrada. Mas como quase não há congresso do CDS em que não se assista a casos rocambolescos (do café de Manuel Monteiro ao "eu sei que você sabe que eu sei" de Nogueira Pinto, passando pelas sessões de pugilato protagonizadas por Ferreira Torres e outras facécias), o micro-caso dos leitões apareceu na altura certa. E com evidentes vantagens: deu para saber mais nomes de restaurantes da especialidade, quais os melhores, testemunhos de apreciadores, etc.

O líder, esse, permanece inamovível, ainda que não incontestável, mesmo que os seus mais directos seguidores demonstrem apoio até ao fim.


                                                   (tirado do Corta-Fitas)

sábado, julho 06, 2013

A jogada mais arriscada de Portas



A história de Paulo Portas não é das mais virtuosas, embora seja das mais interessantes da política deste regime (as duas coisas terão provavelmente proporção directa). São bem conhecidos os seus ataques, por vezes injustos e exagerados, quando dirigia o Independente, a forma como aos poucos retirou o apoio a Manuel Monteiro, ocupando-lhe sem seguida o lugar à frente do partido, ou como rebentou com a AD que acordara em conjunto com Marcelo Rebelo de Sousa, ou ainda o golpe contra a liderança de Ribeiro e Castro. São também por demais conhecidos os rocambolescos casos com a Universidade Moderna, com o processo de aquisição dos submarinos alemães, com as fotocópias do Ministério da Defesa, etc. É verdade que pelo meio lhe puxaram o tapete algumas vezes (o próprio Monteiro, com a saudosa história da caneta que não escrevia para não votar em Portas para líder parlamentar), e nunca como neste Governo, em que o desrespeito de Passos Coelho e Vítor Gaspar pelo CDS se tornou mais que evidente.
 
Ainda assim, a jogada de Paulo Portas teve riscos mais que evidentes, a começar pelo trambolhão das bolsas e da subida vertiginosa das taxas de juro (os mercados, como sempre, "enervaram-se"), e por não ter dito nada ao partido nem aos mais próximos. Os riscos eram que o Governo caísse ali mesmo, como teria acontecido caso Coelho tivesse dado azo à sua louca ideia de prosseguir sozinho. Agora, depois de todas as ameaças de instabilidade, Portas conseguiu forçar a sua nota nas negociações. Com o beneplácito de Cavaco, conseguiu ser nomeado Vice-Primeiro-Ministro, um cargo que já não existia há vinte anos (o último fora Eurico de Melo) e ainda ficar responsável pelas negociações com a Troika (que fica a fazer Poiares Maduro?) e pela anunciada reforma do Estado. Prefiro, obviamente, que seja ele a tratar destes delicadíssimos dossiers do que um qualquer génio de gabinete ou um Relvas qualquer. Portas ganhou, para já, a sua parada e fica com quase tantos poderes como o Primeiro-Ministro, mesmo que não se saibam quais as outras alterações governamentais. Mas ao mesmo tempo, perdeu boa parte da face: afinal, a sua saída do Governo não era assim tão "irrevogável", a não ser que nos convença de que se estava referir ao cargo concreto de MNE. Mas também não seria a primeira vez: lembram-se de quando ele disse que o CDS "não tinha emenda" e que não queria ser candidato a líder, e passados dias lá estava ele a ser empossado à frente do tal partido "sem emenda"?
 
Ao menos que o país fique a ganhar com estas alterações políticas surgidas com a enésima jogada política arriscada de Portas.
 
PS: a definição e competências de um Vice-Primeiro-Ministro pode ser encontrada na recente Enciclopédia da Constituição Portuguesa (Quid Juris, pág. 390), por Francisco Pereira Coutinho. A de Primeiro-Ministro também lá se encontra (pág. 293), tendo sido escrita pelo autor destas linhas.

quarta-feira, julho 03, 2013

Vão marcando a data


Está um homem aqui posto em sossego a pensar em postar sobre as maravilhas do nosso país quando de súbito a realidade, que não pára, se antecipa. Ou neste caso, antecipa certos actos, como a demissão de Paulo Portas, apenas prevista para daqui a uns tempos. Estaria já por dias, a ser calculada para o melhor momento, ou terá sido a saída de Gaspar (melhor dizendo, a sua substituição por Maria Luís Albuquerque) a gota de água num copo que já desde a história da TSU ameaçava transbordar? As versões de Pedro e Paulo são contraditórias. A verdade é que Portas tem um registo interessante de facadinhas dadas, mas ao longo destes dois anos teve várias ocasiões de experimentar as que lhe eram discretamente atiradas por Passos, Relvas, Gaspar & Cia. E a paciência tem limites. Houve alturas em que o vimos como nunca o víramos antes, sem saber bem o que fazer. Até que bateu com a porta, e com ele os outros ministros do CDS.


Ficando o PSD em minoria, contando na melhor das hipóteses com pontuais apoios do CDS no Parlamento, a melhor solução seria a demissão de Passos Coelho e a nomeação de outro governo, com base na mesma maioria e que de preferência se estendesse ao PS. Mas o Primeiro Ministro inviabilizou totalmente essa hipótese, a manter-se teimosamente à frente do governo. Não percebeu que o seu tempo está contado. Deve ser das pouquíssimas pessoas em Portugal e não entender isso. Numa época de profunda crise, temos um político sem a menor habilidade, instinto ou inteligência política a governar-nos. O resultado, a curto prazo, é fácil de prever: eleições. Marquem a data para o provável dia 29 de Setembro. Juntando-se às autárquicas, sempre se poupam uns euros.


sábado, setembro 08, 2012

Adriano, aos noventa


 
Os noventa anos de Adriano Moreira foram amplamente celebrados, com várias entrevistas, reportagens e homenagens. É mais que justo. Adriano é não apenas um digno Senador ou ancião, no melhor sentido da palavra, quando o havia, mas um dos políticos mais lúcidos e dignos que Portugal teve no último meio século. Transmontano de raiz, habituado a lutar com pouco, tem uma distintíssima carreira académica, com a criação de cursos em Angola e Moçambique, a direcção do ISCSP e a presidência actual da Academia de Ciências de Lisboa. Ocupou lugares governamentais de destaque no anterior regime, onde percebeu bem a questão colonial, e em que tomou medidas de justiça ímpar, como a extinção do Estatuto do Indigenato, passando assim todos os habitantes dos territórios ultramarinos a ser reconhecidos como cidadãos portugueses. Depois de um breve tempo no Brasil, dada a situação do PREC, voltou a Portugal, foi eleito deputado por Bragança pelo CDS, e mais tarde liderou este partido. Mas eleições de 1987, com a onda laranja, os eleitores prefeririam o "Portugal de sucesso" de Cavaco e deram ao CDS o seu pior resultado, reduzindo-o ao célebre "partido do táxi". Adriano deixou assim a liderança do partido e a política activa, dedicando-se à carreira académica.
 
Ao ouvi-lo numa entrevista televisiva, vi-o demonstrar de novo a sua sabedoria tranquila e as suas preocupações. Que diferença para com os governantes dos últimos anos, falhos de cultura, carreira académica, idoneidade moral e sentido de serviço público! É sintomático que da única vez que se apresentou a eleições lhe tenham dado tão poucos votos: afinal, a classe política é o espelho do povo que neles vota. Felizmente, Adriano Moreira continua aí, como referência moral política indispensável, respeitado à esquerda e à direita. Parece estar em melhor forma que Mário Soares, por exemplo. É curioso que o outro vulto que melhor aconselha à boa governação do país, com ideias que tardam em ser adoptadas, Gonçalo Ribeiro Telles, também tenha este ano chegado aos noventa. Ao que parece, a sabedoria  e a dignidade política são hoje quase exclusivas de nonagenários. Ouçamo-los e sigamo-los enquanto é tempo.
 

quarta-feira, junho 08, 2011

Rescaldo (à direita)


Esta análise vem com dois dias de atraso, bem sei. Mas gosto de fazê-las com calma, e o tempo é um bem escasso.


Como já tinha dito, estas eleições não trouxeram nada de especificamente surpreendente, tirando a diferença entre PSD e PS. Num ou noutro caso, no essencial, houve algumas surpresas, mas não há eleição que não as tenha. No essencial, nada espantou.



O PSD é o grande vencedor mais pelos números do que pela vitória em si. Como tinha notado na arruada que presenciei em Santa Catarina, os sociais democratas levavam já uma dinâmica de vitória, ao passo que o PS estava já pouco entusiasmado. Tudo isso depois de semanas de "empates técnicos". Até Abril/Maio, o PSD tinha uma vantagem muito confortável nas sondagens. Perdeu-a quando o discurso começou a tergiversar, com vários dirigentes a falar cá para fora a diversas vozes, por vezes em contradição com Passos Coelho. Mais do que o debate (onde Passos não se deixou intimidar por Sócrates e que marcou alguns pontos), o silenciamento de algumas figuras, como Catroga ou Leite Campos, e a união em volta do líder foram fundamentais.


Antes do anúncio dos resultados, o PSD já sabia seguramente que tinha vencido as eleições, mas talvez não por aquela margem. o número de deputados conquistados, que ainda vão aumentar com a emigração, permite-lhe um certo desafogo nas negociações já em curso com o CDS-PP e se for necessário, prescindir dos votos madeirenses para impedir qualquer veleidade chantagista a Alberto João Jardim.

Há números curiosos. Para além das habituais zonas de implantação laranja de Trás-os-Montes, Beira Interior e Leiria, o PSD ganhou em todos os concelhos do Algarve, onde obteve mais um deputado (o meu antigo companheiro de quiz, Cristóvão Norte, filho do deputado homónimo que nos anos setenta era o único deputado laranja do distrito). Em Setúbal, onde em 1975 estava impedido de fazer comícios, o PSD também ganhou. Em Beja recuperou o deputado perdido há vinte anos. E até venceu no "Socraquistão" de Castelo Branco e Portalegre (aqui com apenas mais 14 votos).


Como seria de esperar, em Vila Real, Passos coelho obteve o seu segundo melhor resultado. Num distrito fortemente PSD, a proveniência do líder só podia reforçar as contas. Melhor só mesmo em Bragança. Há que felicitar o cabeça de lista vencedor. Ainda por cima, o distrito já há algum tempo que não vota tanto à direita como no início, quando se dizia que os comunistas comiam criancinhas e os socialistas roubavam galinhas.


Até por estes números simbólicos, Pedro Passos coelho é um vencedor inequívoco. Apesar de todas as gaffes, confusões e polémicas. Não tendo grande biografia (Cavaco também não tinha, segundo Soares), parece-me antes de mais um indivíduo decente e correcto, ideia que também recolhi de conhecimentos familiares de Vila Real. Claro que o carácter nem sempre é tudo num líder que se quer forte e corajoso, mais a mais numa situação como a actual, mas é sempre o princípio de tudo. O resto dependerá do apoio que tiver.



E o CDS-PP? Conseguiu alcançar todos os objectivos a que se propunha, mas as expectativas nos votos (cheguei a ouvir alucinações de "17%") foram goradas, não há que disfarçá-lo. Não percebi se a relativa calma que se vivia no Caldas e a prudência de Paulo Portas no seu discurso tinham directamente a ver com isso ou se era já o pensamento no dia seguinte, mas parece-me indissociável a água na fervura das expectativas e a placidez dos militantes na noite eleitoral. Em 2009, se bem se lembram, foi um delírio com os "dois dígitos". As sondagens voltaram a enganar-se, mas ao contrário. Agora, a entrada no governo está assegurada e corre os seus termos, e a esquerda radical está lá para trás. Mas os populares fariam bem em dar atenção a um aspecto. É verdade que cresceram em votos sobretudo nas zonas urbanas, e ao que parece, também no voto "jovem". Isso reflectiu-se nas enormes subidas em Setúbal e Lisboa. Em contrapartida, noutros círculos com votações tradicionalmente interessantes, como Viseu, Braga, Leiria e Aveiro, o CDS estagnou ou perdeu mesmo votos - é o caso de Aveiro, por onde corre Portas. Se num escrutínio nacional o partido pode captar mais votos graças a algumas ideias, a um líder carismático ou a razões circunstanciais, já nas locais a coisa tende a cair por terra, como as autárquicas muito bem o comprovam de eleição para eleição. O CDS já teve um bom número de câmaras, incluindo várias capitais de distrito. Hoje está reduzido a Ponte de Lima. As estruturas locais ou são fracas ou não têm capacidade de atracção de figuras de prestígio e eleitores, e o triste facto dos municípios estarem convertidos em agências de emprego. Um partido que pretende ser influente na vida nacional precisa de assentar nalgumas estruturas municipais, regionais ou sociais (o PCP tem os sindicatos e algumas regiões de grande peso). Se os militantes do CDs não pensarem nisso, arriscam-se a ter sérios dissabores daqui a uns anos.



A frase mais badalada da noite, sem a menor dúvida, era o "cumpriu-se o sonho de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente". Formalmente, cumpriu-se neste 5 de Junho, sim. Mas na prática o objectivo do fundador do PSD já tinha sido atingido post mortem em 1982, com a primeira revisão constitucional, que afastou os generais do poder e transformou o Conselho da Revolução em Conselho de Estado. No Domingo, apenas se cumpriu o slogan da AD. Saberemos nos capítulos seguintes quais as suas consequências práticas.

sábado, dezembro 04, 2010

4 de Dezembro


A cada 4 de Dezembro, e mais ainda de dez em dez anos, é-se bombardeado com a memória de Sá Carneiro (e mais modestamente, Amaro da Costa). Discute-se se a tragédia que os levou se tratou de acidente ou atentado, milhentos barões e respectivos assessores falam na "herança de Sá Carneiro", mostram-se enésimas imagens dos amores felizes do fundador do PPD e de Snu Abecassis. Não vale a pena discutir essa avalanche, porque é uma fatalidade conhecida, e as fatalidades são imunes a qualquer discussão. Saúdam-se no entanto as novas biografias de Sá Carneiro, entre as quais uma reedição do livro de Maria João Avilez, muito embora a de Amaro da Costa me pareça uma obra epistolar que pouco revela da sua visão do Mundo. Mas podia-se então aproveitar para mudar boa parte da toponímia urbana que se apoderou de praças tão respeitáveis como a Velasquez e a do Areeiro. Dê-se o nome de Sá Carneiro a novos arruamentos e retomem-se os nomes originais (isto vale para o aeroporto de Pedras Rubras, cujo nome oficial parece uma brincadeira de mau gosto). Quanto a Amaro da Costa, julgo que não haverá grandes alterações a fazer, embora o Largo do Caldas seja conhecido assim por todos, a começar pelas gentes do seu partido. Mais útil seria recuperar o seu arquivo, perdido nalguma sede partidária do CDS do distrito de Beja, onde como se sabe, são às centenas...

quarta-feira, setembro 30, 2009

O líder da direita


Não considero Paulo Portas um exemplo de sólido carácter nem merecedor de especial confiança. A sua carreira no Independente e no PP atestam-no. Os casos Moderna e da sua passagem pelo governo, os cumprimentos a Rumsfeld, as quezílias com Monteiro, e por fim a forma como voltou à liderança do partido, afastando Ribeiro e Castro, e depois disso o silêncio sobre a demissão de Nobre Guedes e outros problemas internos não contribuíram em nada para o tornar mais credível.

Mas há que lhe tirar o chapéu: o homem é um autêntico animal político, esteja onde estiver. Já no Independente o era, mesmo que fora da prática partidária. Consegue fazer pose de estado no Parlamento e nos ministérios, vai para os debates bem preparado e com os factos bem estudados (e o seu inseparável "oiça"), e anda por toda a parte, pelas ruas, pelas feiras, pelos mercados; cumprimenta, fala, toca pandeireta; tem experiência de campanha e de como se deve comportar perante a comunicação social; sabe, talvez por causa desses factores acumulados, que as campanhas mais eficazes são as do contacto directo, o "trabalho de formiga", e não as dos outdoors brilhantes ou carros de som, e por isso o CDS, dos cinco principais partidos, conseguiu ser de longe aquele que menos gastou; por fim, uma mensagem clara e fácil de perceber, populista na medida certa mas aquém da demagogia. O resultado está à vista.
Pensava que o partido iria crescer, mas nunca passar da casa dos 8%. Afinal, surpreendeu a maioria. Aproveitou o voto indeciso de direita do PSD, ultrapassou os dois dígitos, quase duplicou o grupo parlamentar e voltou a enganar as sondagens. Alcandorou-se assim no terceiro lugar, colocando sérios embaraços ao PS sem maioria, para previsível irritação de Francisco Louçã, cuja subida do Bloco, aquém dos 10% (por acaso achei que não ia chegar lá), tem um sabor agridoce. E voltou a ser o mais destacado líder da direita portuguesa, que ao contrário do que dizia o "coordenador" bloquista, não é assim tão estúpida.

terça-feira, janeiro 20, 2009

A fulanização do PP

 

Não percebi lá muito bem as mais-valias que Paulo Portas trouxe de um congresso em que foi o "Rei-Sol" quase sem oposição. Houve-a, muito tímida e frouxa, para que as moções ganhadoras não tivessem percentagens kimilsungescas, e nada mais. Se ao menos Nobre Guedes lá tivesse ido sempre se discutiria alguma coisa; já nem falo dos grandes embates Monteiro vs Basílio vs Lobo Xavier, em 92, Portas vs Nogueira Pinto em 98, ou Portas vs monteiro em 2002, salvo erro, em que nem faltou uma cena de pugilato entre Avelino Ferreira Torres e um dos seus odiados "copos de leite". Mas esta reunião nacional serviu, talvez, para ganhar alguma notoriedade nos media, mostrar a unidade da "família centrista" e reintronizar Portas e o seu discurso costumeiro.

Olhando para as sondagens, é possível que o PP, em eleições nacionais, se aguente nas urnas, com resultados pouco diferentes dos dos últimos actos. Mas a sangria constante de militantes, como o deputado José Paulo Carvalho e algumas dezenas de Bragança, mostram um partido cada vez mais exíguo. Ao contrário do que dizem os seus admiradores, Portas já não tem a frescura de outrora, já não é o factor novidade, pese o seu carisma. Em vez de aguentar a sua "travessia no deserto", em 2005, não aguentou e voltou a tomar o partido de assalto na primeira oportunidade. É, como disse (numa das raras vezes que acertou) José António Saraiva, um "lobo solitário", que faz várias sortidas sem acumular poder. E os resultados locais comprovam-no. Escrevia há dias Carlos Manuel Castro na Câmara de Comuns: Adelino Amaro da Costa dizia que o Poder Local estava para o CDS como os sindicatos para o PCP. Se o PCP ainda hoje controla muitos sindicatos, o CDS está a definhar no Poder Local. Nada mais certo. O CDS teve uma base municipal com algum peso, detendo capitais de distrito como Aveiro, Bragança, Viseu e Leiria, e outras autarquias importantes, como Paredes, São João da Madeira, Cascais, Esposende, Póvoa de Varzim e Mirandela. Hoje resta-lhe uma, o eterno bastião de Ponte de Lima, e é parte de algumas coligações relevantes, como no Porto. Dificilmente aumentará esse número. Diz-se que poderá coligar-se com Santana Lopes em Lisboa. Se assim for, poderá ser um suporte importante para o "Menino Guerreiro", e assim disfarçar os resultados humilhantes de 2007, consequências da saída intempestiva de Nogueira Pinto. Mas será apenas e só mais uma tábua de salvação para um partido que se fulanizou, que descurou as bases e que se centralizou à volta de uma mesma personagem, que, ironia do destino, cada vez mais se confunde com a sigla.

quarta-feira, julho 25, 2007

Sinais de declínio

Ainda outra coisa relacionada com as eleições da CML (o hiato entre artigos leva-me a estes atrasos) e que demonstra bem o declínio do CDS-PP: já se sabe que de todos os líderes do partido, só restam Portas, Ribeiro e Castro e Adriano Moreira - e estes últimos retirados. Dos candidatos que o CDS já apresentou à Câmara de Lisboa, só já lá está Portas e Telmo (não sei quem candidataram em 1976). Abecassis, à frente da edilidade durante os anos oitenta, já morreu; Pedro Feist e Maria José nogueira Pinto desvincularam-se e até apoiaram outros candidatos; Marcelo Rebelo de Sousa e Ferreira do Amaral, que chefiaram mini-ADs, são do PSD. Por aqui se vê a enorme sangria daquele partido e se percebe o porquê da diminuição da sua base eleitoral, sobretudo a nível local.