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sexta-feira, janeiro 17, 2025

Vinte e um anos a blogar

Este blogue tem 21 anos, feitos hoje. Não é para todos. 

Era só para dizer isso.





quarta-feira, novembro 27, 2024

25 de Novembro, 49 anos depois

As cerimónias de 25 de Novembro, as primeiras que houve, foram meramente protocolares, sem grandiosas manifestações nem descidas das avenidas, mas francamente também não serviram para isso. Contudo, teve graça ver alguns a fingirem ser o que não foram há 49 anos, como o PS, que fugiu da comemoração dos factos de 1975 para os quais contribuiu mais do que qualquer outro partido, fingindo não ser nada com ele, até Pedro Delgado Alves, o tribuno da ocasião (podiam ter posto algum deputado que falasse mais devagar: Delgado Alves parece estar sempre a ler recomendações de medicamentos, tal a velocidade), desculpar-se com um "para o ano é que é importante".

O Chega, pelos ditos de Ventura, parecia ter sido o autor do 25 de Novembro, ou que o Grupo dos 9 eram todos filiados no movimento, até contraditoriamente dizerem que "a corrupção começou a partir daí" (como se antes não houvesse). Daqui a nada dizem que "não era para isto que fizeram o 25 de Novembro". Sabiamente, o General Eanes, ao ouvir Ventura saudar o seu nome, fingiu que nem estava ali.
O PCP nem apareceu, supostamente revoltado pelos "comunismo nunca mais", embora na realidade deva ao 25/11 a sua existência e até influência durante muitos anos, ou não tivesse recuado na altura ciente de que em caso de confronto iria apanhar por tabela. Em parte Cunhal reconheceu isso.
Os outros estiveram mais ou menos dentro das disposições do que se lhes pedia, confirmando o Bloco, pela irada Mortágua 2, o seu saudosismo pelo PREC e pela reforma agrária, Deus os acuda.
Do pouco que ouvi, bom discurso do Presidente da AR, na senda de um trabalho que tem sido bastante digno, e discurso pedagógico do PR, que se lembra bem dos factos.
Merecidas, sempre, as homenagens ao general Ramalho Eanes (só não se levantou numa), que na ausência de todos os outros vultos os representou com a dignidade de sempre, mostrando de novo que o 25 de Novembro não era uma nova revolução mas sim um ajuste necessário, e que por isso se deve comemorar serenamente e na justa medida.
Esperemos, pelos 50 anos, daqui a um ano se Deus quiser.

terça-feira, agosto 13, 2024

Tristes ironias olímpicas

Não me consigo decidir se a morte de José Manuel Constantino, presidente do COP em dia de encerramento de Jogos Olímpicos, para mais aqueles em que Portugal obteve os melhores resultados de sempre, algo inesperados, é de uma ironia cruel ou de justiça poética. Porque se por um lado soa a injustiça, por outro um dirigente olímpico não devia pedir melhor dia para morrer, caso escolhesse, do que o cair do pano de uns jogos olímpicos com troféus assinaláveis, para os quais certamente contribuiu. Espero que pelo menos tenha conseguido ver a magnífica vitória de Leitão/Oliveira em Madison, de que eu próprio só apanheio o final.

E os JOs acabaram com uma cerimónia que, pela ausência de falatório, não se deve ter revestido das polémicas blasfemas" e "terroríficas" (para mim o ponto baixo é a parte da cabeça de Marie Antoinette a cantar o "Ça ira"), com a chama olímpica a deixar a Montgolfière no cenário imponente das Tuilleries/Louvre e a passar o testemunho a Los Angeles.
E por falar em medalhas portuguesas e Los Angeles: passaram hoje precisos 40 anos que Carlos Lopes ganhou a medalha de Ouro ao ganhar a maratona num novo tempo recorde, aos 38 anos e semanas depois de ter sido atropelado. Um dos maiores feitos desportivos portugueses, na cidade que voltará a acolher os jogos daqui a 4 anos

quarta-feira, janeiro 17, 2024

Vinte anos

Este blogue faz hoje vinte anos. Como não blogava antes, concluo que já blogo há vinte anos, desde que naquela longínqua e fria noite de inícios de 2004 estreei A Ágora, nos então anos de ouro da blogosfera. Bem sei que não tenho sido muito assíduo, mas convenhamos que numa altura em que a maior parte dos blogues da época - e os que vieram depois - desapareceu, escrever, mesmo que pouco, ao fim de vinte anos é obra. É uma data redonda, e faz-me recordar com alguma saudade aqueles anos em que se descobria gente até então anónima a escrever maravilhosamente, sem redes sociais, inteligência artificial tal como é entendida agora e com bem menos notícias falsas. 

Vinte anos de blogue é muito tempo e poucos haverá com a mesma marca. Mas prometo ir passando por cá e se possível escrever mais. Perdoem-me a imodéstia, mas parabéns a A Ágora. Merece-os bem.



domingo, janeiro 22, 2023

Dezanove anos

 



Este blogue completou a 16 de Janeiro 19 anos. É pois um blogue adulto, mas numa idade algo instável e indolente. Não sei se alguém reparou, mas alguns posts foram acrescentados nos últimos tempos já depois dos acontecimentos a que se referiam. Eram rascunhos que não tinham sido editados ou acabados, e que fui actualizando tardiamente. 2022 representou o ano de menor productividade desta página. E este é o primeiro post de 2023, passado mais de meio mês. Mas se o blogue está preguiçoso, não deixa de estar vivo. Mais textos virão, espero que devidamente actualizados. Bem hajam os que ainda cá vêm.

domingo, janeiro 17, 2021

Dezassete

Só para avisar que já blogo há dezassete anos, e que consequentemente este blogue, se sobreviver, atingirá a maioridade daqui a um ano. Esperemos que sim.




domingo, janeiro 19, 2020

16




E há dois dias este blogue chegou aos dezasseis anos. Assim se explica a parca actividade: ainda está na adolescência, o que o leva a descurar obrigações e a esquecer-se de deveres. Tem por isso desculpa. Antes isso que andar na droga, perdão, nas redes sociais. Mas os assuntos que mais tem debatido continuam a ser os mesmos, como no primeiro dia. Afinal, nem tanta coisa mudou.

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sábado, junho 17, 2017

Seis Dias que abalaram o Médio Oriente

 
Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.

Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, que arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscada, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.

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 A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.

A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel conseguia o velho sonho de se apoderar de toda a Jerusalém, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

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A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes superiores em número e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia permanecem na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.

sexta-feira, março 31, 2017

Nos sessenta anos do Tratado de Roma


A propósito dos 60 anos do Tratado de Roma, celebrados a 25 de Março com alguma cerimónia e descrição (tirando o discurso de Donald Tusk), em pleno processo do Brexit, lembrei-me, a propósito das nuvens negras que a UE atravessa e da contestação que sofre sendo o ponto culminante precisamente o referendo que deu no Brexit, daquela célebre frase popularizada durante a ditadura militar brasileira: "Ame-o ou deixe-o". Se é certo que a actual UE não desperta exactamente grandes amores, mais certo é que os tempos em que os "soberanistas" e nacionalistas dominavam deram nos piores desastres no Velho Continente. Não será preciso amá-la para não a deixar. Basta que não se limite a ser uma burocracia internacional, apenas importada com os procedimentos de cumprimento dos défices (e de apenas alguns países), e com outras "magnas questões", como a eventual proibição de fumar na praia ou a curvatura dos pepinos.

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segunda-feira, janeiro 16, 2017

Treze


Treze é um número aziago. O número do azar, da má fortuna, de dias temerosos que impõem receios, de crenças mais ou menos infundadas, de tradições obscuras e bruxarias imaginadas. E também é o número de anos em que eu ando nisto. Este blogue faz esta noite treze anos (não sei ao certo a que horas nasceu, mas por esta altura em que escrevo, e precisamente no quarto onde me encontro), e como tal entra na adolescência. Como se sabe, é a pior das idades. Não fiquem espantados se houver manifestações próprias da "idade do armário".
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quarta-feira, janeiro 04, 2017

Bodas de prata de uma discografia excepcional


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Já estamos em 2017, mas como o ano mal começou e não há ainda grande história, lembrei-me que 2016 tinha sido um ano de bodas de prata para uma época incrível da música pop-rock, sobretudo a do outro lado do Atlântico, e que valia a pena fazer um apanhado.

Em 1991, já há 25 anos, em que Portugal entrou assistindo ao Crime na Pensão Estrelinha, que em poucas horas revelou um par de criações fantásticas de Herman José, foram lançados uma quantidade rara de álbuns que entraram para a história do pop-rock. Começo pelos meus favoritos: Out of Time, onde se insere a hipnotizante Losing My Religion, levou os REM ao grande público, à venda de milhões de discos e a um patamar reservado aos nomes maiores do rock americano, de onde não mais sairiam (e que confirmariam um ano depois, com o muito diferente mais genial Automatic for the People).


Também os U2 fizeram aqui uma viragem na carreira, até de imagem, com o seu Achtung Baby, influenciado, como o próprio nome indica, por Berlim, um disco ligeiramente mais electrónico que os anteriores, menos "militante", ou menos espiritual, mais virado para a mediatização contemporânea, seguido de digressão sofisticada e feérica. Nem por isso deixou de vender milhões em todo o mundo.

E depois, claro, 1991 é o ano do aparecimento súbito do grunge, com os Nirvana à cabeça de um esquadrão de grupos, de Seattle e não só, que ganhou notoriedade sob o uniforme desse subgénero do rock menos polido, mais cru, sem laivos de romantismos charoposos ou metalices inconsequentes. Kurt Cobain quis fazer uma canção "à Pixies", de quem era fã, e saiu Smells Like Teen Spirit, que rebentou pelas MTV fora e levou Nevermind a um dos discos mais idolatrados, vendidos e estudados desses anos. Atrás dele vieram Ten, portentosa estreia dos Pearl Jam, que se tornaria numa das maiores bandas rock das duas décadas seguintes, Badmotorfinger, dos Soundgarden, e, mais discretamente, um disco, Gish,  de um grupo que daria muito que falar poucos anos depois: os Smashing Pumpkins. E curiosamente, os Pixies, que tanto influenciaram Kobain, também lançaram o seu Trompe leMonde, mas nem de longe nem de perto com tanto impacto comercial, ainda que tenham continuado a ser um grupo de culto.

Também nos Estados Unidos, os Metallica levaram o seu Black Album a números e a um êxito junto do público que o heavy metal até aí não tinha conhecido. Deixava de ser um nicho de mercado para passar a ser música de estádio para as grandes massas (ou que não significou necessariamente falta de qualidade, mas algumas "baladas" como Nothing Else Matters ajudaram a chegar a novos públicos).

E também o funk rock ganhou nova visibilidade com o enorme êxito que Blood Sugar Sex Magic, a opus dos Red hot Chili Peppers (até Californication), teve em todo o Mundo, não só nesse ano como nos seguintes, com os riffs mágicos das guitarra em refrões de músicas como Give It Away ou no início de Under the Bridge.

E depois, aquela que era provavelmente a banda mais popular do mundo no início da década não podia ficar de fora. Os Gun´s Roses, pois claro, lançaram não um, mas dois álbuns ao mesmo tempo, Use Your Ilusion I e II, que como não podia deixar de ser, treparam as tabelas de vendas. Aos singles, entre os quais algumas baladas longuíssimas, como November Rain e Don´t Cry , tinham videoclips com  pretensiosismo q.b.. E não faltava também um cover, Knockin on Heaven´s Door, um original de Bob Dylan que se ouvia por toda a parte no Verão de 1992. Mas os Gun´s tinham crescido em demasia, e a esse tempo seguiu-se uma travessia no deserto, com zangas entretanto sanadas (vêm actuar a Portugal daqui a meses com a composição quase original).
 
E para dominar todos os tops, cereja em cima do bolo, também Michael Jackson regressou, anos depois de Bad, com o seu Dangerous e os seus videoclips com actores da moda, e Prince lançou Diamonds and Pearls.
 
Ou seja, dos Estados Unidos não faltou quase ninguém.

No Reino Unido não houve tantos lançamentos de monta, mas também surgiram alguns destaques. Ouvia-se sobretudo o insuportável Stars, dos Simply Red, mas nesse ano apareceram os Blur, com Leisure, ainda ligeiramente shoegazing, mas já a prenunciar a britpop. E os Primal Scream lançavam Screamadelica, com o seu rock dançável ligeiramente psicadélico. Os Genesis regressaram com o bem disposto e comercialmente bem sucedido We Can´t Dance, os Dire Straits editaram On Every Street, sucessor do monstruoso êxito de guitarras que fora Brothers in Arms. E no fim do ano despedia-se Freddy Mercury, depois dos Queen terem lançado o último álbum em vida do seu vocalista, Innuendo, e ainda a tempo de ver o seu Greatest Hits editado.

E por cá? Rui Veloso lançou o Auto da Pimenta, mas Mingos e Samurais, do ano anterior, ainda ecoava e acabou por ser um dos álbuns mais vendidos de 1991. De resto, saliente-se a estreia dos Resistência, e pouco mais. O que quer dizer que, inversamente ao que aconteceu nos Estados Unidos, a discografia pop-rock portuguesa em 1991 é muito curta. A diferença de dimensão não explica tudo. Mas os anos seguintes seriam melhores.

quarta-feira, outubro 12, 2016

O discurso de Unamuno


No Delito de Opinião, Pedro Correia recorda que passam oitenta anos do corajoso e tonitruante, se não no tom de voz pelo menos na sua carga moral e emocional, discurso de Miguel de Unamuno na Universidade de Salamanca, em frente a Millan Astray, Carmen Polo e José Maria Péman. Aconteceu em 12 de Outubro de 1936, e seria a última aparição pública do velho filósofo da Geração de 98, numa altura em que Espanha mergulhava na mais horrível e dramática das guerras.

 

quarta-feira, abril 27, 2016

Um século sem Mário de Sá Carneiro



Parece que ontem fazia cem anos que Mário de Sá Carneiro morreu, ou antes dizendo, se matou com estricnina num quarto de hotel em Paris, com premeditação e assistência.


Vão longe os tempos em que a sua poesia me cativava (e que me levou mesmo a declamar alguns dos seus poemas em momentos infaustos), embora nunca tenha sido um ávido leitor do género, e que me levou também a explorar a sua prosa, esse romance inclassificável e irreal que é A Confissão de Lúcio
Mas ontem, vendo as efemérides, lembrei-me de novo de Sá Carneiro e da sua obra (e da sua contribuição para a revista Orfeu, onde também colaborou Amadeo de Souza Cardozo, que por coincidência tem vindo a ser muito falado por estes dias pela exposição da sua obra em Paris). Creio que por não ser, como disse, um grande seguidor de poesia, nunca tinha deixado nenhuma aqui no blogue. Em honra de Sá Carneiro, da sua obra genial e dos seus tormentos, fica aqui uma ode à inacção e à vontade de desistência que todos nós desejamos num ou noutro momento da vida.


Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.



domingo, novembro 01, 2015

Dias de Finados e o de Todos os Santos.


Noutros tempos, o Dia de Finados, 2 de Novembro, servia para que cada um fizesse a sua romaria pessoal aos cemitérios, mas com a extinção do feriado desse dia, reservou-se esse dever para o anterior, de Todos os Santos, que entretanto também perdeu a dignidade feriadal. Ainda assim, e mesmo com o recuo do gesto de revisitar a memória dos que já morreram, para mais ensombrado pelo mais descontraído e mais carnavalesco Halloween, uma coisa vinda do imaginário celta/new age das Américas que pouco atingiu a minha geração, grande número de pessoas continua a fazê lo. Outros não o fazem, por mudança de hábitos, desconhecimento, a pouca importância que dão ao assunto, ou porque o medo da morte simplesmente os incomoda, uma coisa muito frequente nestes dias de intenso materialismo e de fuga ao que natural fim da vida (embora paradoxalmente haja um certo gosto pelo macabro e pelo mórbido). Mas outros continuarão sempre a fazê-lo. É bom que este hábito se mantenha, pela memória, pelo respeito e saudade dos que nos deixaram, e porque afinal nenhum de nós vai ficar cá para sempre. E os cemitérios não têm de ser necessariamente locais de morbidez, como os ultra-românticos tanto gostavam; podem muito bem representar cenários de reflexão, de silêncio e de paz, coisas tão necessárias e terapêuticas à mente humana. Pela minha parte, e porque tanto um como o outro dia me tocam por fortíssimas razões pessoais e familiares (uma delas intrinsecamente relacionada com a própria data), não deixarei nunca de os recordar e celebrar.


Vila Real,  a 31 de Outubro, véspera do dia de Todos os Santos.

quarta-feira, abril 15, 2015

Dez anos com a Casa da Música



A Casa da Música tem já dez anos. Alguns admiram-se com o facto de o edifício que mudou a rotunda da Boavista ter já alcançado uma década de idade, embora devessem admirar-se ainda mais com os seus quase 15 anos: afinal de contas, as primeiras previsões apontavam para a inauguração em Dezembro de 2000, nas vésperas do Porto se tornar Capital Europeia da Cultura de 2001. Tornou-se por isso mesmo um símbolo de despesismo, atrasos no cumprimento de prazos em infra-estruturas e esbanjamento de dinheiros públicos em obras de vulto, típicos dos anos de "vacas gordas". Esses anátemas, ligados a um certo sentimento de usurpação do espaço da antiga remise dos eléctricos na rotunda e à sua forma estranha e bojuda, enchendo completamente aquele espaço, levou a sentimentos de desconfiança e de desagrado de muitos.


Mas com os anos, a Casa da Música acabou por ser aceite e ocupar o seu lugar como símbolo do Porto contemporâneo. Começando, claro, pelos seus muitos e ecléticos concertos, que tanto misturam música erudita como música electrónica, Bach e John Cale, música sacra e os populares clubbings, que acabam com o bar/restaurante transformado em pista de dança ao som de um qualquer DJ que até pode ser Adolfo Luxúria Canibal, além de outras actividades (o bar dos artistas, com grandes janelas envidraçadas para a avenida, é muito procurada), sobretudo relaccionadas com a cidade, como o S. João. O prestígio que alcançou deve-se tanto aos seus programas como à arquitectura provocante de Rem Koolhaas. 
Nem tudo correu bem, mas a Casa da Música, dez anos depois da sua abertura, tornou-se um ex-líbris portuense e a instituição musical mais prestigiada do país. Poderemos sempre lamentar a destruição da estação dos eléctricos, que levou a enormes discussões no Porto, mas podemos também estabelecer comparações com o que aconteceu com o convento de S. Bento de Avé Maria e estação de S. Bento, que ocupou o seu lugar. Apesar da perda de um edifício de grande valor, construiu-se uma estação de comboios belíssima no seu lugar. O que se ganhou terá sido superior ao que se perdeu.


Ainda assim, podemos também pensar no que nunca chegou a ser. E se a localização ideal da Casa da Música não seria no Parque da Cidade, como chegou a ser defendido por Agostinho Ricca no seu projecto para um "palácio da música" naquela mesma zona.





quinta-feira, março 26, 2015

Orpheu, cem anos depois




Há cem anos surgia a revista literária que deixaria a já de si caótica 1ª República em estado de ebulição. O Orpheu surgiu com estrondo e desapareceu como um meteoro, com apenas dois números, suficientes, no entanto, para mostrar ao país a mais brilhante geração artística e literária daquele século que ainda estava no início. Por entre os ecos da Grande Guerra, em que Portugal ainda não se tinha envolvido, a "ditabranda" de Pimenta de Castro e o regresso ao poder dos "demagogos" republicanos, a Orpheu revelou o inclassificável Fernando Pessoa, na companhia de Caeiro, Reis e Campos, o genial Almada Negreiros, o efémero Santa-Rita Pintor, o derrotista Mário de Sá Carneiro, o autêntico louco Ângelo de Lima, e ainda Luís de Montalvor, José Pacheko, Alfredo Pedro Guisado, etc. O modernismo e o futurismo em Portugal sairiam desta revista e dos génios de todos estes artistas. Se a publicação duraria apenas mais um número, a sua influência perduraria pelas décadas fora, e alguns dos nomes que a compunham mais ainda.


Não deixa de ser curioso que exactamente cem anos depois desapareça Herberto Hélder, considerado o nome maior (ao lado de sophia, é certo) da poesia portuguesa desde o Orpheu, e particularmente, desde Pessoa.


Leia-se, já agora, este artigo de António Valdemar, no Público, que menciona as discordâncias políticas no seio do Orpheu e o conflito que surgiu a propósito da célebre "fuga" de Afonso Costa de um eléctrico, (ao ouvir um estampido, julgando que era um atentado contra ele próprio)


Quem estiver por lá pode, até dia 29 de Março, ver a exposição Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve, no Museu da electricidade, em Lisboa. Não é bem, bem inédito, mas é sempre interessante e está situado no belíssimo edifício industrial da Central tejo.

sexta-feira, janeiro 16, 2015

Onze



A Ágora tem o prazer de anunciar que chegou à sua primeira capicua: onze anos. Será difícil chegar a outras, mas esta já ninguém nos tira.


Onze é um número estranho. Representa o número da unidade, mas como é duplicado, torna-se ambíguo ou mesmo mentiroso. É o primeiro depois da dezena, é a primeira capicua como disse em cima, e a sua estranheza dever-se-à também a vir depois do número redondo dez. É o número da ressaca depois do festejo da dezena.

E depois desta filosofia digna de gabinetes de auto-ajuda, e não querendo repetir os discursos de outros aniversários, deixo apenas imagens do dia. De como é atravessar a serra do Marão num dia como o de hoje.
 



quinta-feira, agosto 28, 2014

Há setenta anos, um grande acontecimento pouco recordado


Pouco se falou disso, mas na última segunda-feira, dia 25, passaram setenta anos da libertação de Paris, com a entrada das força Aliadas na capital francesa e a rendição das tropas alemãs comandadas por von Choltitz. Houve comemorações na cidade, claro, sob o patrocínio de François Hollande, decerto mais preocupado com a crise governamental do executivo Valls, mas por cá pouco se noticiou a efeméride. A verdade é que durante a ocupação alemã, não poucos franceses colaboraram ou toleraram os ocupantes, a par dos que resistiram e a sofreram na pele, enquanto a maioria procurava fazer a vida de todos os dias como podia. Mas é bom não esquecer que para além do simbolismo da libertação de uma cidade como Paris, depois de aos de domínio pelas tropas de um estado totalitário (coisa inédita desde os hunos e vergonha imensa para o orgulho francês), evitou-se a destruição à bomba e pelas consequentes inundações de uma das cidades mais magnificentes do globo. As ordens de Berlim eram claras: Paris só cairia nas mãos das tropas anglo-britânicas em ruínas, depois de se rebentar com a quase totalidade da cidade, a começar pelos edifícios e monumentos mais importantes. Ou seja, só por cima do seu cadáver de escombros fumegantes. Von Choltitz esteve à beira da tentação de cumprir as ordens de um acossado e enfurecido Hitler, com ameaças pendentes sobre a própria família, mas acabou por resistir e ordenar a rendição sem levar avante o terrível plano. O filme Diplomacia, de Wolker Schalondorff, baseado na peça do mesmo nome (e com os mesmos actores), e que esteve há bem pouco tempo nas salas de cinema, baseado na conversa durante a noite de 24 para 25 de Agosto de 1944 entre o general alemão e um cônsul sueco, é um bom instrumento para perceber todas as difíceis decisões que pesaram na rendição das tropas ocupantes e as suas (não) consequências. E que devia te sido tão comemorado como outros acontecimentos da guerra. Infelizmente, a falta de memória e o Verão quente (não em sentido metereológico) que vamos atravessando empurraram essa comemoração para uma quase irrelevância e secundarização que definitivamente não merecia.





terça-feira, agosto 05, 2014

Nos cem anos do início da 1ª Grande Guerra



Há exactamente cem anos começava o conflito depois conhecido como Grande Guerra, ou Primeira Guerra Mundial. A pesada efeméride não tem passado despercebida também em Portugal, que embora não tenha sofrido acções bélicas no seu território europeu, travou encarniçados combates em África e na Flandres, onde milhares de portugueses sem experiência de guerra nem material condizente com as circunstâncias (apesar do patético "Milagre de Tancos" com que se quis impingir a ideia de um exército devidamente treinado em poucas semanas) morreram em condições tremendas para defender " o prestígio da república".
Não faltam agora séries, documentários, edições especiais e livros (um agradecimento especial ao Expresso que editou em vários fascículos, e gratuitamente, o pesado tijolo da autoria de Martin Gilbert, que há muito queria ler) sobre o acontecimento, pelo que durante os próximos meses não faltarão ocasiões para o relembrar, às suas batalhas e aos protagonistas.
É curioso notar como alguns mitos hoje em dia são tão apregoados, apesar de terem sido supostamente erradicados pela Grande Guerra (ou pela lógica dela resultante).
Um deles é o da necessidade de um Mundo "multipolar", por oposição ao controlo por uma ou duas superpotências, como se verificou depois da 2ª Guerra, e sobretudo no pós-1989. É que a guerra de 1914-18 deu-se precisamente pela explosão das tensões entre diversas potências europeias, como o Império Britânico, a França, a Rússia, o Império alemão e o Austro-Húngaro, aos quais se juntaram o Otomano, os EUA e o Japão, entre outros. Potências a mais redundaram numa guerra sem quartel. A multipolaridade não impediu a guerra, antes a incitou.
O outro é o dos benefícios infinitos da técnica e da tecnologia. Uma das características da Grande Guerra foi que a revelação de que as velhas tácticas, instrumentos e demais elementos de combate se tinham tornardo obsoletas com a profusão de novos equipamentos, como os tanques de guerra, os aviões (e em parte os zepellins), os submarinos ou os gases venenosos. A tecnologia serviu apenas para ceifar ainda mais vidas e deixar um rasto incalculável de mortos e estropiados nas trincheiras, e um cenário de incrível destruição entre as jovens gerações europeias, que não estavam de todo preparadas para o que iam enfrentar.
Começou há cem anos.


segunda-feira, junho 30, 2014

À memória de Franz Ferdinand e de Sofia de Hohenberg


Antes comemorar os centenários de uma língua do que de um assassinato, sobretudo quando este, além de inspirar o nome de estimável banda rock escocesa, levou à eclosão de uma guerra cruel, estúpida e que não mudou nada para melhor. A maior, até então. Até aparecer outra ainda maior.

O velho Hobsbawm tinha alguma razão quando dizia que o século XX tinha começado e acabado em Sarajevo. E para os alucinados que sempre sonharam em matar os membros da aristocracia, eis a prova de como isso tem funestos resultados.