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terça-feira, dezembro 22, 2020

Os méritos da comunicação social

Tenho lido por aí que só agora é que a comunicação social tem dado atenção ao caso Homenyuk, que durante nove meses não se ouviu nada, etc, etc. Lê-se isso nas redes sociais mas também de outras paragens inesperadas, como alguns jornalistas em guerra autofágica contra a própria classe. Nada mais injusto, nesta ocasião.


Pegando nas palavras de um dos responsáveis do que sucedeu, houve quem não ouvisse nada. Porque desde fins de Março que se conhecia o casos e os seus contornos, que se sabia que algo de muito errado se tinha passado com o ucraniano e os agentes do SEF, e tudo isto porque a comunicação social o divulgou. Se o caso não teve mais repercussões é porque as pessoas até agora tinham ligado pouco.

Em lugar de bater sempre na imprensa, que tantas vezes e ao contrário do que se passou agora não cumpre as suas funções, seria bom pensar que talvez as redes sociais não sejam assim tão informativas ou eficazes. Afinal de contas, soube-se disto em fins de Março, quando a pandemia tinha repentinamente surgido e estava tudo em casa. Lembro-me aliás de ter sido o primeiro caso que não o covid-19 a abrir os noticiários em muitos dias. E não foram com certeza os "jornalistas" de smartphone que divulgaram a situação. Algumas pessoas ligaram mais, de certa forma para se libertar do totalitarismo informativo covidiano, mas outras pouco terão ligado. Até agora, quando a viúva do pobre Homenyuk disse "odiar Portugal"(e poderemos nós censurá-la, por muito que nos custe?). Através da comunicação social, claro.

Por isso, culpe-se o SEF, a ANA, o governo que só agora é que resolveu dar uma compensação à família, o ministro Cabrita, o presidente ou outros, mas deixem de se atirar à comunicação social. Há imensas razões e oportunidades para criticá-la. Eu próprio já o fiz, aqui no Delito. Mas ao menos, e ao contrário do que acontece com inumeras páginas manhosas da net, que atraem sempre alguns discípulos hipnotizados, os artigos vêm sempre assinados e podemos saber quem foram os seus autores. Aqui é manifestamente injusto que assaquem as culpas à CS, porque é graças a esta que sabemos os contornos do caso.

PS: E já agora, um exercício de "achismo": sabendo-se que as máfias de países como a Ucrânia controlam amplamente o percurso dos emigrantes, extorquindo-lhes o que podem, não poderá ter havido uma qualquer infiltração no SEF por parte do crime organizado e a sessão de tortura sido uma acção punitiva ou para o obrigar a pagar algo?

sexta-feira, setembro 11, 2020

Vicente Jorge Silva

Fiquei surpreso com o desaparecimento de Vicente Jorge Silva. Costumava ler os artigos dele e já me tinha dado conta de que ultimamente rareavam. Provavelmente um dos jornalistas portugueses mais importantes do último meio século - esteve nos dois jornais que mais leio, o Expresso e o Público, que fundou - influenciou-me também por outra razão.

Quando tinha aí 16 anos estive nas manifs contra as globais, uma decisão da então ministra da Educação Manuela Ferreira Leite. Foram milhares e milhares de alunos do liceu a desfilar pelo Porto, qual cortejo da queima das fitas liceal. Recordo-me de ir na parte da frente do ajuntamento, de chegar à igreja de Santo Ildefonso e de ver lá em baixo multidões a descer a rua dos Clérigos. Pelo meio apareceram uns cartazes contra a ministra particularmente obscenos, demasiados maus até para uma porta de quarto de banho público. Esses cartazes surgiram na capa do Público do dia seguinte, o que levou o então director, Vicente Jorge Silva, a escrever em editorial a célebre frase "estaremos perante uma geração rasca?". Por ter estado nesses acontecimentos e fazer parte dessa geração é que me senti directamente visado, e durante bastante tempo, pode dizer-se, não ia com a cara do jornalista, até que me passou. As acções foram rascas, é verdade, mas a geração, quero crer, não. A expressão ainda hoje é utilizada.
Vicente Jorge Silva era um apaixonado pelo cinema e concretizou o sonho de realizar uma longa metragem, Porto Santo. O filme não teve grande sucesso (o próprio Público o afirma hoje, a saudosa Grande Reportagem também achou isso na altura), mas à guisa de homenagem fica aqui o único excerto que encontrei da fita, que alguma televisã bem podia passar um dia destes:



sexta-feira, abril 24, 2020

O Irão e a Austrália ficam no mesmo hemisfério

A propósito da questão da sazonalidade do covid, estava ontem a ver um artigo de um "jornal de referência" que duvidava da mesma porque o vírus tinha atingido em força a Austrália e o Irão, porque são "terras quentes".

Ora bem: a Austrália realmente recebeu o vírus no Verão, embora até nem tenha sido assim tão atingida (tendo começado bem antes, tem números claramente melhores que os nossos, tanto em contaminados como em mortes, e a maioria já recuperou). Mas o Irão estaria assim tão "quente"? A antiga Pérsia apanhou com isto em força em Fevereiro, sobretudo na região mais a Norte, onde fica Teerão e a cidade santa de Qom, principal foco da coisa. Não é preciso ir muito longe para se concluir que a neve nas montanhas da região, ali para o Elburz, não é propriamente artificial, e verificar que a temperatura média por ali entre Fevereiro e Março vai de 0 a 15 graus, com um clima frio e seco, o mais apropriado para este vírus. Quentíssimo, como se vê.
Às vezes o jornalismo de rigor devia preocupar-se em ser realmente rigoroso e não só a apregoá-lo.

terça-feira, setembro 17, 2019

Jornais e causas fracturantes não assumidas: o (mau) exemplo do Público


O consumo e a leitura de jornais têm caído imenso, e não é só o modelo em papel. As redes sociais ocuparam grande parte do seu lugar e ameaçam a imprensa tradicional. É algo preocupante, porque a informação torna-se selectiva, superficial, quando não falsa, reduzindo-se a títulos ou a agit-prop, e mesmo que a imprensa não seja isenta, ao menos sabemos quem escreveu os artigos e quem responsabilizar. O problema é que os jornais também não fazem grande esforço para a sua credibilização e continuam a cavar a sua própria cova.

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Miguel Sousa Tavares escrevia há dias no Expresso, com mira afinada e não pela primeira vez, que o Público se tem tornado numa tribuna por excelência do politicamente correcto. E não é preciso procurar muito para provar até que ponto isso é verdade. O diário fundado por Vicente Jorge Silva, que tão bons trabalhos já proporcionou aos seus leitores, estafa-se em colocar artigos parciais sobre as novas questões fracturantes. O suplemento semanal Y e demais páginas culturais passam o tempo a apresentar os novos valores feministas, trans, negros, etc, vindos em grande parte do Brasil, e "que estão a mudar a face da música", mas quando se quer ver a crítica a um filme acabado de chegar, ou, como procurei em vão, a um festival pop-rock como o de Vilar de Mouros, é o vazio total.

Nos últimos tempos é a defesa da "diversidade de gênero" que o jornal da SONAE tem empreendido, qual Duarte de Almeida a defender o pendão real em Toro. No dito Y, no dia 30 de Agosto, logo na segunda página, vemos um dos guardiões mais encarniçados destas questões, António Guerreiro, a falar da ideologia "atávica e obscurantista" que condena a ideologia de gênero (que curiosamente não considera uma ideologia, colocando-a entre aspas). De resto, os inúmeros artigos publicados no jornal sobre o assunto falam sempre dos seus opositores com um tom de mal disfarçado desprezo e dão apenas a palavra à parte contrária, normalmente os prestimosos especialistas em diversidade de gênero, uma disciplina que parece que tem boas saídas de emprego, além de artigos de opinião semanais de representantes do Observatório de Justiça, do professor Boaventura Sousa Santos, como uma investigadora de seu nome Ana Cristina Santos, que neste exemplo cabal acusa Ricardo Araújo Pereira de "ridicularizar a inclusão social na linguagem", de "defender o pendor autoritário do senso comum", porque " se há pessoas que se sentem excluídas pelo uso do universal masculino...considerandos estéticos deixam de ter cabimento". Ou como alguém, se se sentir incomodada com a língua, esse mero "considerando estético", pode exigir a sua mudança. A autora até ajuda e dá como exemplo o "tod@s" ou "tdxs" como linguagem inclusiva. Ou seja, a "inclusão" não é mais que um uma novilíngua infantil que desvirtua algo que devia ser superiormente protegido, mas que para alguns não passa de "considerandos estéticos". Já se sabe, nada de ideologia.

Nas últimas semanas tem sido um sem fim de artigos que referi em cima. Podia ser uma discussão proveitosa se se colocassem dois pensamentos e dois grupos de argumentos e confronto, mas não. Neste outro artigo lá vem a costumeira reportagem com "os jovens do futuro", em que avulta um rapazinho que critica os professores «que partem do princípio que os alunos são todos homens "cis"», e que "as associações de estudantes deviam representar as lutas sociais dos estudantes negros, comunidade LGBT ou questões feministas...sem qualquer tipo de preconceito ou conservadorismo". O jovem é identificado como militante do Bloco, coisa bastante crível dado o tipo de linguagem e de causas. Mas é pena que o jornal, uma vez que lhe dá voz, não lhe pergunte se as associações não deviam defender todos os estudantes, e não apenas as minorias que o BE estabelece (que podem nem existir em tantas escolas), ou se não percebe a contradição de, achando que não deve haver "conservadorismo", como se não pudesse haver estudantes conservadores, isso ser um preconceito da sua parte.

Por fim, mais uma peça apresentada quase como um estudo, mas de novo apenas com uma parte, sobre a questão "há ou não ideologia de gênero", a que o jornal generosamente responde que não, recorrendo de novo a uma parte da barricada, que acusa todos os que acham que se trata realmente de uma ideologia de serem "uma sombra (…) que ameaça direitos das pessoas LGBTI, saúde sexual e reprodutiva das mulheres e estudos de gênero". Nada de diferente, excepto talvez uma maior radicalização da linguagem. Mas aqui expõe-se tremendamente. É que o artigo online é só para assinantes, mas na versão em papel pode-se ler, mesmo no fim, que "as despesas da viagem foram pagas pela ILGA-Europa. Sim, isto é um problema. Ao aceitar ser custeado por uma organização que tem todo o interesse que o jornal escreva aquilo só com a "sua" versão, o Público prostitui-se declaradamente. Não está a apresentar um artigo de discussão, ainda que pendendo mais para um lado, mas a sua verdade com a patrocínio de uma entidade externa longe de ser neutra.

Assumir posições políticas inequívocas é não só aceitável como desejável. Os leitores sabem ao que vão. Em Portugal, como é sabido, a maioria dos jornais não assume qualquer posição política, à excepção dos jornais partidários, como o Avante!, ou de uma ou outra publicação, como o extinto Independente. Mesmo o Observador, claramente à direita, é muito ambíguo no seu estatuto editorial. O Público sempre pendeu para uma esquerda moderada. Porque estará tão freneticamente empenhado agora em questões tão ostensivamente fracturantes? Vontade de agradar a um certo público? Seja o que for, só contribui para que se diga que tem uma agenda política mal disfarçada, porque aparentemente tem mesmo - e como é sabido, o termo "agenda" hoje em dia é entendido de forma pejorativa, como uma conspiração maléfica. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Os jornais ou se assumem ou então que deixem de ser tão explicitamente implícitos, sobretudo em questões que não são pacíficas. E é por coisas como estas, como diria Manuel Alegre, que aparecem os Bolsonaros. Prontos a apoucar a imprensa e a espalhar sem filtro tudo o que lhes sirva nas redes (as)sociais fora.

domingo, fevereiro 18, 2018

Congressos tensos e congressos ignorados


Fouçando de novo em seara alheia, não posso deixar de considerar simplesmente miserável esta "espera" que algumas figuras do aparelho laranja fizeram a Rui Rio no congresso do PSD, com a palma a ser ganha por Luís Montenegro e o seu discurso transbordante de rancor. Ganhou as eleições há menos de um mês e desde então não cessaram de se atirar a ele. Desde o Observador e os 758 artigos sobre o "caciquismo" de Salvador Malheiro (acho que o jornal online esgotou a palavra; louvável devia ser a actuação de Miguel Relvas), incluindo colunistas, como João Marques de Almeida, que depois de algumas crónicas laudatórias confessou fazer parte da equipa de Santana Lopes, até às conspirações de deputados em funções e às exigências desse grandíssimo vulto que é Miguel Pinto Luz (que na sua página de facebook se intitula de "figura pública"). 
O único caso que conheço com vagas semelhanças é o de Ribeiro e Castro à frente do CDS, e mesmo assim ficou aquém. A atitude mais decente seria deixar Rio trabalhar e depois se veria. Até lá, o PSD não passa de um saco de gatos, em que quem estica mais as garras são os derrotados que se acham com direito natural a mandar mesmo contra a opinião das urnas. 

Não posso deixar de reparar na diferença abissal entre a cobertura dos grandes e dos pequenos partidos e que ficou à vista nestes dias. O PSD teve direito a um fim de semana inteiro de directos, alteração da programação da TV, debates dirigidos para o próprio recinto, etc. Compreende-se. É o normal e todos queriam saber quais as propostas e as caras que o novo líder da oposição tinha para mostrar. Mas na semana passada houve o congresso do MPT (Partido da Terra, para os mais distraídos), que já tem 25 anos, que tem representação no Parlamento Europeu e que mudava de liderança, e não houve uma notícia nos principais jornais, nem uma reportagem da televisão, por minúscula que fosse, como acontecia antigamente, nem nada de nada. Quem soubesse do evento e o googlasse encontraria uma notícia da TSF e outra do DN da Madeira, e de resto, silêncio sepulcral. Não são só os meios e os militantes que distinguem o sucesso dos partidos: a cobertura jornalística tem também imenso peso. E quando há grupos que são não apenas ignorados mas condenados à inexistência, o discurso de "são sempre os mesmos partidos" tem aí muito por onde questionar.

quinta-feira, novembro 24, 2016

O DN despede-se da sua casa.

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Tal como vinha sendo anunciado desde o início do ano, o Diário de Notícias deixou mesmo a sua histórica sede na Avenida da Liberdade, em Lisboa, construída de propósito por Porfírio Pardal Monteiro para o albergar, que recebeu o Prémio Valmor e onde estava há 76 anos vindo directamente do Bairro Alto, esse antigo bastião da imprensa portuguesa, qual Fleet Street lisboeta (e a própria Fleet, coitada), onde só resiste inexpugnavelmente A Bola. O jornal com mais de 150 anos de idade vai-se transferir para umas incaracterísticas torres de betão e vidro, perto da segunda circular, um qualquer espaço moderno, asséptico e longe das ruas. O edifício, esse, será transformado em apartamentos de luxo, com a obrigação de conservar a fachada, as letras góticas anunciando o jornal e os painéis de Almada Negreiros, no átrio. Do mal o menos, fica o espaço físico da memória. Mas é mais um símbolo da imprensa e da vida urbana que deixa o centro de uma cidade reservado quase só para o turismo, a restauração e as habitações de preço superlativo. Os serviços, a actividade administrativa e económica e restante faina vão sendo empurrados para a periferia. Causa estranheza a indiferença com que o jornal teve de abandonar a sua casa. E no entanto, perante cenário idêntico, há já uns anos, houve um movimento que impediu que o edifício fosse então usado para outras funções, como testemunha Pedro Correia. Desta vez ninguém, ou quase ninguém, se mexeu, limitando-se a menear a cabeça melancolicamente.

Espero que a sede do JN, no Porto, aquele altaneiro edifício brutalista, não siga o mesmo destino em breve. A ameaça existe. Se a quiserem levar avante, terá de haver mais reacção do que com o DN. Para abandono de sedes históricas da imprensa já bastou (mais) esta.


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Desenho de Stuart Carvalhais, natural da terra da minha Mãe, do ano da inauguração do DN

terça-feira, outubro 11, 2016

Uma reunião no telhado (com provas fotográficas)

 
E se numa viagem de lazer subir a um ponto alto no centro de uma cidade histórica, tirar uma fotografia a um edifício nobre numa cota um pouco mais baixa, e ao vê-la reparar que estão pessoas a discutir com ar tenso no telhado desse edifício? E publicar essa mesma fotografia nas redes sociais, e nas horas seguintes os jornais locais e nacionais a reproduzirem incessantemente?

Aconteceu isso, sem tirar nem pôr, ao Frederico Duarte de Carvalho. Numa fotografia tirada ao acaso do Monumento a Victor Emanuel (também conhecido como o "bolo de noiva"), que apanhou a parte de cima do palácio da Piazza do Campidoglio que serve de sede ao município de Roma, surge a "sindaca" da capital romana, Virginia Raggi, numa discussão com o seu assessor, no telhado do edifício. Nesse mesmo dia soube-se que a Cidade Eterna desistira de organizar os Jogos Olímpicos de 2024, além de outras mudanças da estrutura interna do município. Publicada no Facebook e no Twitter, a foto, com a legenda "supresas nos telhados de Roma", espalhou-se nas redes sociais italianas (ou tornou-se "viral", se preferirem"), e no próprio dia já era difundida pela imprensa transalpina. Alguns jornais citaram o nome do Frederico, outros não, mas o certo é que a foto tirada por "um jornalista português de férias" tornou-se a mais comentada em Itália por aqueles dias.







Se alguns, como o mítico Unitá, antigo órgão do Partido Comunista Italiano, citado nos livros de Don Camillo e hoje despojado de boa parte do seu conteúdo ideológico (mas ainda alinhado à esquerda), a fotografia enche a capa, noutros, como o La Repubblica, também é motivo de notícia, mesmo que não tenha honras de primeira página. E ainda houve caricaturas a satirizar a estranha reunião.



O que é certo é que depois das redes sociais e das capas de jornais houve várias reacções políticas, a começar pela própria Raggi, que tentou ironizar com a situação, coisa que o primeiro-ministro, Mateo Renzi, de que o movimento a que autarca pertence é adversário, não se coibiu de fazer, tentando ridicularizá-la um pouco mais.
Resta saber se depois de se apropriarem da foto, os jornais pagarão os direitos de autor ao Frederico Carvalho. Ou as imagens de Facebook são de livre disposição?

domingo, setembro 18, 2016

Saraivadas e coelhices

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Ao longo dos anos fui antipatizando mais e mais com José António Saraiva e o seu narcisismo patético, a achar-se o cronista mais influente da sua era, com as suas pequenas estupidezes (como chamar "portistas" aos portuenses), a sua pretensa superioridade em relação a qualquer crítica ("a coluna mais influente e mais atacada da imprensa portuguesa") e o seu cinismo entediante. Mas nunca pensei que o homem que afirmou estar certo de que um dia ganharia o Nobel da Literatura descesse tão baixo, publicando um livro sobre a vida íntima dos políticos que conheceu, ou seja, revelando conversas privadas e devassando a vida alheia, nalguns casos de pessoas que já morreram.
 
Pior só mesmo um líder da oposição, ex-Primeiro Ministro e candidato a voltar ao cargo, que se dispõe a apresentar uma pasquinada semelhante. Passos Coelho terá ficado louco? Os seus assessores são mentecaptos ou prepararam um golpe partidário interno? Ou já viu que não vai lá e arranjou um pretexto para sair da liderança do PSD? É que se apresentar mesmo tal "obra", a credibilidade de Passos cai por terra. Contabilizados os estragos, mais vale desistir a tempo.

PS: e desistiu, tarde mas ainda a tempo. a imagem não ficou lá muito bem cuidada, o seu discernimento menos ainda, mas antes isso do que a imagem constrangedora do que seria se se dispusesse a apadrinhar o livro.

sábado, maio 07, 2016

Paulo Varela Gomes


Há poucos dias morreu Paulo Varela Gomes. A notícia entristece, mas não surpreende, já que o seu estado de saúde era público. Aliás, o texto que escreveu na Granta do Verão passado (uma coisa tocante e comovente, um autêntico murro no estômago), tão inclassificável como o seu autor, seria amplamente divulgado e espalhado na net.
Impressiona talvez um pouco por sobreviver ao seu pai, que completara 90 anos dias antes. Mas melhor será invocar a sua vida multifacetada e generosa. Varela Gomes fora um revolucionário ligado à extrema-esquerda, primeiro ao PCP, e depois, como tantos outros, "dissidentou" e com Miguel Portas ajudou a fundar o Política XXI, aquele grupo político que constituiria depois a ala moderada do Bloco. Não ficou muito tempo na política. A sua área era a história da arte e da arquitectura, que lecionou, primeiro no liceu, depois na universidade, tendo-se doutorado pelo meio em Coimbra em História e Teoria da Arquitectura. Teve também duas séries documentais de televisão, O Mundo de Cá e Malta Portuguesa (sobre a ilha no Mediterrâneo, que desconhecia até agora e que gostava de ver). Viveu por duas vezes em Goa, nos anos noventa e em fins dos anos 2000, como delegado da Fundação Oriente, e se não me engano, a sua colaboração com o jornal Público começou (que costumava ler, todas as semanas) nessa segunda experiência goesa. De volta a Portugal, resolveu ir viver para o campo, na Beira interior, e essa vida campestre surgia muitas vezes nas suas crónicas. Depois, a descoberta da doença levou-o a acelerar uma nova faceta, a de ficcionista, e a publicar quatro romances, o último dos quais, Passos Perdidos, com poucos semanas desde que saiu do prelo. Dele ressalvo, para além das crónicas dominicais no Público (ultimamente quase exclusivas sobre história da arte, com um cunho contemplativo), algumas intervenções televisivas, como aquele sobre Lisboa em que defendeu publicamente o trabalho de Duarte Pacheco, ou um programa de debate que teve em tempos com Carlos Abreu Amorim.

Quem o lia ou às suas ideias podia ficar algo confusa. Um pedagogo, que se dizia "comunista reacionário", ou seja, alguém que supostamente crê na marcha imparável do comunismo e no determinismo histórico, e que ao mesmo tempo descrê do progresso e se guia por elementos do século XVIII e pelas estações do ano, não era fácil de perceber. Essas aparentes contradições apenas revelavam um espírito crítico, dinâmico que não caia em compartimentos estanques. Para mais, nos últimos tempos, Paulo Varela Gomes parecia ter-se aproximado da fé religiosa, como o próprio deu a entender. Ao que tudo indica, a começar pelo supracitado artigo na Granta, isso deu-lhe outra serenidade e outra coragem para enfrentar a doença. Mas perdeu-se um dos mais interessantes, imaginativos e pedagógicos cronistas portugueses.

sábado, dezembro 12, 2015

O declínio dos jornais



As últimas semanas têm sido negras para a imprensa portuguesa. As más novas não são exactamente uma surpresa, embora se fique sempre com esperança de que ocorram o mais tarde possível. Mas inevitavelmente acabam por acontecer.
As aquisições de grupos de comunicação social em situação deficitária por empresas estrangeiras (sobretudo angolanas) já faziam temer um futuro sem suporte quando os novos donos perdessem o interesse. Assim, o Sol, jornal fundado por José António Saraiva para rivalizar com o Expresso de que fora director e com o qual se incompatibilizara, perdeu as ajudas iniciais do BCP e acabou por ser adquirido pela Newshold de Álvaro Sobrinho; notou-se logo a mudança quando o preço surgiu também em kwanzas. Da mesma forma, o I, um jornal inovador no grafismo e atraente na estética(tanto que ganhou vários prémios) e nos artigos algo minimalistas, embora não desprovidos de informação, começou por ser propriedade do grupo Lena, passou por Jaime Antunes e por mais alguns proprietários, e acabou também na empresa de Sobrinho.
Agora, com a saída da Newshold, haverá um enorme remodelação dos dois jornais. O I continuará à semana e o Sol como jornal semanário. O modelo será este nos próximos meses, em que se avaliará se o projecto continua ou não. Entretanto, e com as remodelações, serão despedidos dois terços dos trabalhadores, mais de cem pessoas, em grande parte jornalistas.


Mas os despedimentos não se ficam por aqui ou por estes dois jornais. Também o Público se prepara para "reestruturações" e vai despedir mais umas dezenas de trabalhadores para fazer face aos défices repetidos. E a revista dominical, a 2, vai acabar. Julgo que será a primeira vez que o jornal não terá uma revista ao domingo, desde o pioneiro Público Magazine, a menos que haja algum sucedâneo menos dispendioso.


Ao mesmo tempo, surge a notícia de que as sedes do DN e do JN deverão ser vendidas. Sim, o histórico edifício da Avenida da Liberdade, construído por Pardal Monteiro nos anos quarenta para servir de raiz de quartel-general do DN, e que se tem mantido nessa função até agora, e o prédio brutalista da Gonçalo Cristóvão, símbolo maior do JN, vão ser alienados e os dois diários, embora sólidos, terão de procurar outro poiso. Felizmente já tive oportunidade de visitar a sede do jornal portuense. Convém despachar-me se quero ainda conhecer o DN por dentro no seu ambiente natural.









Desde que há imprensa que os jornais vão e vêm. Morrem títulos e outros surgem no seu lugar. Mas há já uns anos que assistimos ao desaparecimento de órgãos da imprensa sem que haja grande substituição. Nos últimos quarenta anos, depois de monstros como o Século, o República e o Diário Popular e o Diário de Lisboa, assistimos à despedida do Comércio do Porto e da Capital, de tablóides como o Tal e Qual e o 24 Horas e de jornais mais recentes mas que deixaram história, como o Independente. O Primeiro de Janeiro, outrora o melhor jornal português, está reduzido a um boletim. E se alguns dos edifícios que lhes serviram de poiso conservam em alguns aspectos a memória, como o de O Século (hoje Ministério do Ambiente), ou o d´O Comércio do Porto (uma sede bancária com a célebre garagem atrás sempre mantendo as funções originais), outros, como o de O Primeiro de Janeiro, hoje um shopping, só ficaram com a fachada.

Muitos prenunciam o fim dos jornais como o conhecemos - a versão em papel - e o advento definitivo do digital. Quero crer que isso ainda vem longe, até porque os livros têm resistido bem melhor do que se anunciava. Mas estas quedas de vendas, com os consequentes fechos de títulos, são já um sinal de que o papel tem muito menos importância de que outrora. Até porque hoje se dá grande importância à notícia curta e de preferência sensacionalista. As consequências negativas serão o "autojornalismo" de rede social, a informação deturpada ou mal tratada, a falta de profundidade e a ausência de artigos relevantes e explicativos. Nem sempre o progresso é amigo do conhecimento.

quinta-feira, março 26, 2015

Orpheu, cem anos depois




Há cem anos surgia a revista literária que deixaria a já de si caótica 1ª República em estado de ebulição. O Orpheu surgiu com estrondo e desapareceu como um meteoro, com apenas dois números, suficientes, no entanto, para mostrar ao país a mais brilhante geração artística e literária daquele século que ainda estava no início. Por entre os ecos da Grande Guerra, em que Portugal ainda não se tinha envolvido, a "ditabranda" de Pimenta de Castro e o regresso ao poder dos "demagogos" republicanos, a Orpheu revelou o inclassificável Fernando Pessoa, na companhia de Caeiro, Reis e Campos, o genial Almada Negreiros, o efémero Santa-Rita Pintor, o derrotista Mário de Sá Carneiro, o autêntico louco Ângelo de Lima, e ainda Luís de Montalvor, José Pacheko, Alfredo Pedro Guisado, etc. O modernismo e o futurismo em Portugal sairiam desta revista e dos génios de todos estes artistas. Se a publicação duraria apenas mais um número, a sua influência perduraria pelas décadas fora, e alguns dos nomes que a compunham mais ainda.


Não deixa de ser curioso que exactamente cem anos depois desapareça Herberto Hélder, considerado o nome maior (ao lado de sophia, é certo) da poesia portuguesa desde o Orpheu, e particularmente, desde Pessoa.


Leia-se, já agora, este artigo de António Valdemar, no Público, que menciona as discordâncias políticas no seio do Orpheu e o conflito que surgiu a propósito da célebre "fuga" de Afonso Costa de um eléctrico, (ao ouvir um estampido, julgando que era um atentado contra ele próprio)


Quem estiver por lá pode, até dia 29 de Março, ver a exposição Almada Negreiros: o que nunca ninguém soube que houve, no Museu da electricidade, em Lisboa. Não é bem, bem inédito, mas é sempre interessante e está situado no belíssimo edifício industrial da Central tejo.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Links


Alguns textos aconselháveis, no Observador mas não só.


No Observador, um texto já com uns dias, da autoria de Gustavo Plácido dos Santos, que explica o crescimento do Boko Haram, a dificuldade de o fazer recuar, e a perversa ambiguidade do sistema política nigeriano, pouco interessado, por ora, em o rechaçar.

Ainda no mesmo, jornal, confesso que tenho gostado muito dos artigos do Padre Gonçalo Portocarrero de Almada. Como este, sobre a Blasfémia. Ou o mais recente, acerca dos "hippies de Deus".


Um bom artigo de Jorge Almeida Fernandes, no Público, sobre um assunto de que eu já tinha falado antes: o fim do ´"cartel" das famílias políticas gregas.

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Setenta anos de A Bola


2015 só leva um mês mas já comemorou efemérides com números redondos. À cabeça, os setenta anos da libertação, ou do fim de Auschwitz. Como é assunto demasiado dramático e muito comentado nos últimos dias, fica só a nota, sobretudo numa época em que o anti-semitismo claramente continua vivo.

Houve outras comemorações de setenta anos, curiosamente. Há exactamente dez, no meu primeiro voo transatlântico, entretive-me, entre outras coisas, com uma revista, um suplemento desportivo especial com o título "Sessenta Figuras do Desporto Português" (ou coisa parecida) que aliás ainda tenho guardada algures. O número não era por acaso: servia para comemorar os sessenta anos de existência do jornal A Bola, essa bíblia do desporto nacional ("jornal de todos os desportos", é o seu subtítulo), fundada por Cândido de Oliveira, com os melhores colunistas e os melhores textos, e que ainda por cima é conotada com o Benfica, o que só a torna mais respeitável.

Tudo isso para lembrar que dez anos depois, há poucos dias, A Bola chegou aos setenta anos. Uma excelente idade para um jornal desportivo, que mantém toda a sua qualidade e até tem um canal de televisão próprio. Mas conserva ainda outra característica, que o distingue de todos os outros: é o único jornal que se mantém no Bairro Alto, essa Fleet Street lisboeta (em comum entre o castiço bairro de bares e tascos e a nobre rua londrina que leva à Catedral de S. Paulo só mesmo o facto de terem sido habitados por jornais) em versão inclinada e estreita. Todos os outros se foram para outras paragens, deixando traços na toponímia e no edificado - o mais notório é a antiga sede do extinto jornal O Século, que hoje é o Ministério do Ambiente. Só A Bola ficou, na Travessa da Queimada, como âncora da memória dos periódicos que faziam daquela zona o seu espaço natural. E também por isso está de parabéns.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Depois do massacre


Dizia eu no último post que nada tinha mudado e é-se surpreendido com a notícia da matança brutal dos desenhadores e redacção do Charlie Hebdo. A primeira reacção é de choque e raiva, evidentemente, mais um acto de barbárie dos islamitas, era preciso era agarrá-los e dar cabo deles todos... Mais a frio, permanece um pouco o choque e o medo, mas as ideias já se cruzam com mais sentido.

Um tal atentado, por muito que possa chocar, não é exactamente surpreendente. Há muito que havia ameaças em França, um país onde não faltam radicais islâmicos (é dar uma volta por certos bairros de Marselha, por exemplo). O jornal satírico era um alvo evidente e já com ameaças -  numa das últimas edições houve uma estranha premonição sobre isso - e há muito que se falava do que poderia acontecer com o regresso de combatentes originários da Europa provenientes da Síria e do Iraque e do dito califado que ali montaram. A resposta está dada: alguns desses combatentes desmobilizados, com a experiência militar que adquiriram, são extremamente perigosos e não hesitam em eliminar o objecto dos seus ódios.

Mais do que o atentado em si, surpreende por ter sido realizado à luz do dia, em plena Paris, perto da Bastilha (e ironicamente, quase ao lado do Boulevard Voltaire, sempre citado em questões de liberdade de expressão), por três indivíduos que não disfarçaram de qualquer forma ao que iam, gritaram a plenos pulmões os seus gritos de ordem e ainda mataram um pobre polícia já ferido a sangue frio.

Já quase tudo se disse, entretanto. Que é um ataque à liberdade de expressão (e à Vida, ainda mais) e aos valores do ocidente democrático. Que se trata da mais hedionda barbárie e intolerância. E que o terrorismo não pode instalar a censura e que ninguém se pode calar. Por causa disso mesmo, milhares de pessoas se têm manifestado nas ruas ou organizado vigílias, e nos jornais de todo o mundo e nas redes sociais aparece, sob fundo negro, a frase já quase icónico Je suis Charlie. E referiu-se mesmo a ligação que o decano do jornal, Georges Wolinsky, tinha com o Porto, onde vinha amiúde e onde era membro do júri do Porto Cartoon.

Ora precisamente, não é necessário "être Charlie" para repudiar estes assassínios bárbaros. Do jornal apenas conhecia algumas caricaturas, algumas que me fizeram sorrir e outras que achei detestáveis. Sim, acho que faziam demasiado enfoque nas religiões e eram por vezes ofensivos, insultuosos, achincalhantes. Em qualquer sociedade libre, existe discórdia, tensão, provocação. Algo completamente diferente de achar que deviam ser calados, ainda por cima pela força das armas. Mas, por muito que compreenda as manifestações de pesar e repúdio por este acto terrorista, não posso deixar de pensar que outros atentados, mais graves, não levantaram a comoção que este teve. Talvez por se tratar de uma publicação conhecida e temerária, ou por serem rostos conhecidos. Mas apostaria mais que a razão é por ser na Europa, e logo em Paris. Será o mundo inteiro que está comovido, ou apenas o ocidental? E remeto para este texto, já com uns anos, mas perfeitamente actual, em que relembrei o síndrome Luisinha Carneiro (outra excelente criação de Eça): quando houve o massacre de bombaim, que causou dezenas de mortos e o pânico naquela grande cidade, quantas "acções de comoção" houve na Europa? A distância, sempre a distância, a ditar a nossa indiferença e os nosso sentimentos.

Quanto aos assassinos, que queriam "vingar Maomé", talvez o tenham feito temporariamente. Mas terão conseguido sobretudo assinar a própria sentença de morte, alertar a Europa para os retornados das guerras do "califado", fazer surgir muitos mais Charlie Hebdos e dar mais uns milhares de votos à Frente Nacional.

sábado, setembro 06, 2014

Uma igreja de ovelhas tresmalhadas


O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada tem-se distinguido nos últimos anos nas tribunas dos jornais com a sua pena irónica  inteligente, nem sempre caridosa, algumas vezes injusta, outras mais certeira. Como a que escreveu esta semana. Recomendada aos virtuosos, puros e demais neo-fariseus.

terça-feira, novembro 19, 2013

Ousar jogar, ousar vencer!


A Selecção Nacional em versão mural-MRPP, com Cristiano Ronaldo em pose Arnaldo Matos, ou uma capa de A Bola que se deverá recordar (pela estética, certamente, mas esperemos igualmente que pela premonição). Contra a reacção ibrahimovista nórdica! Ousar jogar sem ser a defender o 1-0, ousar vencer!
 

terça-feira, outubro 08, 2013

Facciosismo opinativo ou incompetência jornalística?

 
A questão da falta de isenção jornalística e da ausência de critérios voltou a marcar os últimos dias, e a blogosfera não tem deixado o caso por mãos alheias: segundo Ribeiro e Castro, a Caminhada pela Vida, uma manifestação em defesa da Vida contra as regras actuais que regulam o aborto, teve a participação de perto de duas mil pessoas, mas ao que parece, exceptuando a Renascença, nenhum órgão de comunicação social se lembrou de noticiá-la, optando por um pedregoso silêncio. Ao mesmo tempo, a manifestação dos "Que se lixe a Troika" teve ampla difusão dos media, embora só tenha tido trinta participantes, mas como ululavam, pugnavam por "causas justas", gritavam slogans circunstancialmente correctos e ainda tiveram a benesse de um deles ser detido. Depois fica a ideia sempre abusiva de que uns falam em nome "do Povo" (como se houvesse um grupo específico que pudesse representar toda a população) e que outros nem sequer existem. Critérios...
 
Mais patético ainda parece ser esta situação descrita no Corta-Fitas: o Diário de Notícias mostrando uma vintena de saudosistas da 1ª República a homenagear os revolucionários de 1910, enquanto que lá atrás passa a Marcha pela Vida...que não tem a menor referência no jornal (ainda por cima a redação é mesmo ali em frente). Os repórteres estariam demasiado distraídos ou não falaram da marcha voluntariamente? Em qualquer uma das hipóteses, incompetência ou facciosismo, trata-se de jornalismo de novela, sem critérios editorais que o guie e que nem ao menos sabe disfarçar as  gaffes. Mais do que tendencioso, é puramente anedótico.
 
 

sexta-feira, maio 31, 2013

O Expresso ou um manifesto fraquinho do PSOE?


Quando leio um artigo de jornal sobre política internacional, ou sobre factos passados noutras paragens, longe ou perto, confio que tenham um mínimo de isenção. Não é o caso do último artigo de Angel Luis de la Calle no Expresso, sobre o que se passa em Espanha. Todos sabemos da delicadíssima situação do país vizinho, com um desemprego monstruoso, uma situação bancária insuportável, ameaças de separatismo, acusações à coroa e descrédito dos partidos políticos. Escrever sobre tudo isto pretensas colunas informativas com óbvios preconceitos políticos é mera desinformação grosseira. O título já é logo apocalíptico: "genocídio social a pretexto da crise". Depois, De la Calle afirma que  o governo do PP quer instalar um modelo de "neoliberalismo" e "neocon", como "a ala mais à direita do Partido republicano nos EUA". Se a comparação já é infeliz, a confusão de conceitos, entre um modelo económico e uma teoria política, ainda é mais. Com a inevitável farpa à influência da "hierarquia católica", nos casos do aborto, células estaminais e eutanásia, acaba eloquentemente a declarar que "a maioria da população(...) não está disposta a seguir a tendência nacional-populista (deus, pátria e família) que tenta impor-se na Europa". A conclusão não é apenas facciosa: é puramente estúpida, porque além de na Europa a trilogia "Deus-Pátria-Família" tem sido severamente fustigada e mesmo abertamente desdenhada, o autor parece não se lembrar que foi precisamente depois de instaurar medidas fracturantes e regras aberrantes (como a permissão de aborto abaixo dos 16 anos sem permissão dos pais, ou a imposição do politicamente correcto nas escolas) que o PSOE teve a sua maior derrota de sempre e o PP a maioria mais ampla.
De La Calle pode ser um saudosista da república a vontade, mas pede-se-lhe que comente a situação com factos e descrições, não com opiniões pouco isentas que levem o português ao engano. Para ler panfletos políticos vou à procura de um, não preciso de abrir a secção Internacional do jornal Expresso.

quinta-feira, março 07, 2013

Crónicas urbanas

 
Gosto muito das crónicas urbanas que vêm na página final da revista 2, o suplemento de Domingo do jornal Público. Os textos revezam-se semanalmente entre Lisboa e Porto, sendo respectivamente escritos por Alexandra Prado Coelho e Manuel Jorge Marmelo (mas nem sempre) e ilustrados por desenhadores vários, como Eduardo Salaviza.
Através dessas crónicas vamos recordando aspectos das cidades de que já estávamos esquecidos, reparando em pormenores nunca antes apercebidos e conhecendo lugares bizarros e por vezes semi-escondidos cuja existência nem sequer imaginávamos. Por causa disso mesmo, já tenho recortado e guardado várias desses textos.
 
Mas embora sejam um imenso manancial de ideias e de escrita, Lisboa e Porto também têm os seus limites, quanto mais não seja de criatividade. Assim, e antes que as crónicas dêem lugar a outra rubrica qualquer, sugiro aos editores do Público que comecem já a olhar para as outras cidades do nosso país. Podem ser subúrbios, de onde também brotam sempre histórias, como Matosinhos, Almada, Barreiro ou Maia (incluindo os que oficialmente não são cidades, e a Cascais e Estoril não faltam certamente matéria para histórias). As velhas cidades de Norte a Sul, Braga, Évora, Bragança, Coimbra, Viseu, Funchal, Guimarães, etc. E as novas cidades, que adquiriram o estatuto mais ou menos recentemente, como Famalicão, Portimão, S. João da Madeira, Caldas, e tantas outras. Comecem já a enviar os vosso escribas por esse país fora, ou a desencantar outros. Garanto que ficam com matéria para magníficas crónicas urbanas por mais um ror de tempo.

quinta-feira, novembro 01, 2012

Fim de uma era?


 
Muito se tem falado na crise da imprensa, em Portugal e no mundo, e o caso não é para menos. As últimas semanas não têm poupado os jornais tais como os conhecemos. Em Portugal tivemos as greves na Agência Lusa e no Público, uma por causa dos cortes salariais, a outra devido aos despedimentos anunciados de dezenas de funcionários e jornalistas, cuja escolha dependerá, dizem as más línguas, das boas relações que mantêm com a direcção do jornal. Fala-se mesmo na sobrevivência a curto prazo do Público, que desde 1990 só apresentou resultados positivos num ano, e que só existe graças às contribuições do proprietário/mecenas Belmiro de Azevedo.
 
Entretanto, Joaquim Oliveira resolveu vender a sua Controlinveste a um grupo angolano, de que ninguém sabe sequer o nome, a não ser provavelmente o próprio Oliveira. Recorde-se que no grupo empresarial português estão o Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Jogo, o Jornal do Fundão e o Açoriano Oriental, o mais antigo título de imprensa publicado em Portugal. tudo isto pode ir parar às mãos de um grupo angolano sem rosto. O negócio ainda não se concretizou porque as garantias financeiras ainda não foram enviadas ("Não há graveto, não há negócio", terá dito Oliveira), mas a confirmar-se, depois do Sol, é praticamente metade da imprensa portuguesa que passará a ser negociada em kwanzas. E com que objectivos?
 
A juntar a isto, a pior notícia nem vem de Portugal. A histórica revista Newsweek, que em tempos cheguei a assinar, um dos grandes nomes da imprensa norte-americana, a rival de sempre da Time, anunciou que a partir de 2013 só vai existir em formato digital. Acabou a Newsweek nas bancas, na caixa de correio, nas bibliotecas. Agora, só por computador e sobretudo, só por assinatura.
é todo um mundo que acaba? Esperava que a invenção de Gutenberg perdurasse, mas receio que outros imitem o gesto da revista norte-americana. O Guardian esteve quase a fazê-lo, mas recuou.
 
 
Mas para além da questão da radical mudança de hábitos, de razões ecológicas inerentes, dos custos das edições em papel e dos despedimentos que tudo isto acarretará, sobram ainda outras questões. Pensará tudo que o conhecimento vai ficar arquivado na net, passe a expressão? Acabaram-se as bibliotecas em detrimento de um kindle ou de um i-qualquer coisa? O conhecimento ficará sempre robotizado? E será isso um prenúncio do novo "homem biónico", como alguns já profetizaram?
Ainda que tais mudanças não sejam tão radicais, e possamos viver com os modelos em papel e digitais lado a lado, como seria um mundo em que os jornais só existissem em formato digital? Imagine-se que faríamos uma pesquisa a um número de há muitos anos, para um estudo científico, uma investigação jornalística, ou por simples amadorismo ou passatempo. Haverá a possibilidade de chegarmos a números antigos, ou o perigo de que qualquer artigo melindroso possa ser apagado é real? No formato em papel, podemos sempre guardar o que nos interessa, via recorte ou outro. E com o formato digital, guardamos numa pen? Os meus conhecimentos técnicos destas questões não me permitem respondê-las, mas não me sinto muito seguro num Mundo em que os jornais percam a sua base palpável e passem a meros sites de informação.