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domingo, março 22, 2020

O ar que respiramos


Milan has second worst smog in Europe – WHO - Wanted in Milan



Eis uma explicação racional (mas não a única, obviamente) para a quantidade de mortes em Hubei, Norte de Itália e Norte do Irão. Tudo zonas que pela sua densidade populacional, geografia (zonas planas rodeadas de cordilheiras, que limitam a circulação do ar) e sobretudo indústria pesada e, no caso de Itália, posse de automóveis per capita, das maiores do mundo (e todos sabemos como os italianos apreciam carros), levam a que haja muito pior qualidade do ar, doenças respiratórias e a situação tão complicada que temos vindo a assistir nessas regiões.
Mais uma razão para pensarmos que há questões prementes a ser resolvidas, e que o ar que respiramos é sem dúvida uma delas. Até lá, resta-nos aprender com as lições, por duras que sejam. A economia tem de reerguer-se e o ar ficará novamente mais poluído, mas convinha voltar a este assunto, que aliás esteve no ordem do dia no último ano logo que possível. Talvez muito do cenário terrível que temos vindo a assistir fosse mais ténue.  Que este ar mais limpo que respiramos agora nos ajude a perceber isso, e a curto prazo nos ajude. 

quarta-feira, março 27, 2019

Acre, cobiçada por todos, pertencente a muitos


Não sendo imune ao chamamento das grandes metrópoles, tenho uma particular atracção pelas cidades médias ou pequenas, que tantas vezes fogem ao roteiro dos guias turísticos e às campanhas das agências e das companhias aéreas. E sobretudo as que têm uma amálgama de influências culturais diversas e uma historia respeitável.

Acre cumpre totalmente esses requisitos. Está ali na ponta da baía de Haifa, com essa cidade portuária do outro lado, dominada pelo monte Carmelo, e o Líbano a poucos quilómetros a norte. Vem de tempos imemoriais, e desde a Antiguidade que é um dos principais portos do Levante. Por ela passaram fenícios, persas, egípcios, judeus, gregos, macedónios, romanos, bizantinos, árabes, cruzados europeus, turcos, ingleses e de novo judeus. Sofreu inúmeros cercos e conquistas. O mais famoso terá sido o de 1291, quando era o último bastião do Reino Latino de Jerusalém, e caiu nas mãos dos mamelucos egípcios. Os vestígios cruzados nunca desapareceram totalmente, mas a arquitectura e a configuração da cidade alteraram-se bastante com os seus novos ocupantes, e sobretudo com os turcos, que se lhes seguiram. Napoleão também tentou apoderar-se daquele ponto estratégico, no seguimento da campanha no Egipto, mas o seu cerco não surtiu efeito e os otomanos resistiram. Acre passaria ainda para as mãos dos ingleses, no decorrer da Grande Guerra, que a mantiveram durante o Mandato Britânico da Palestina, e estava incluída no território palestiniano projectado com a divisão do território planeada pela ONU, mas o primeiro conflito entre os países árabes e o novo estado de Israel determinaria que ficasse no território deste.

A cidade novo de Acre, moderna e sem graça, é habitada por judeus. Ultrapassada a primeira cintura de muralhas, já do tempo dos turcos, entra-se numa cidade quase exclusivamente árabe e turca. Mas os vestígios do passado pré-muçulmano estão lá. A antiga cidadela dos Hospitalários impõe-se e recebe os visitantes no seu comprido refeitório, nas suas torres e na praça de armas desta ordem que depois de andar séculos entre ilhas do Mediterrâneo com a "casa às costas, converteu-se na actual Ordem de Malta. O edifício serviu já no século XX de prisão de rebeldes judeus que combatiam o Mandato Britânico da Palestina.


A partir daí começa a cidade árabe, com a esplendorosa mesquita turca El Jazzar, e segue-se o miolo urbano formado por ruelas serpenteantes que se desdobram em mais ruelas, num labirinto interminável e algo espantoso numa cidade de dimensão reduzida. Ao contrário do resto do país, as placas estão quase todas em árabe, não em hebreu, nem são bilingues. Sucedem-se pequenos souks ou lojas de rua. Mas mais uma vez a herança cruzada (já) não está totalmente escondida. Nos anos noventa, um banal problema de terrenos levou à descoberta de um túnel subterrâneo, com centenas de metros de extensão, pertencente aos antigos templários, que se acolhiam do lado ocidental da cidade, quase junto ao mar. O túnel começa precisamente junto às muralhas já a tocar na água e desemboca num dos muitos becos do centro. Nalgumas extensões não ultrapassa o metro e meio de altura e naturalmente a humidade invade-o. Nas paredes de blocos graníticos, e entre os arcos de ligação, podem-se ver algumas explicações gráficas da obra, enquanto uma gravação nos tenta explicar os contornos daquela construção. Hélas, está em hebraico e os esforços são inúteis. Mas imagina-se o afã dos cavaleiros do Templo em tempo de cerco.


Pelo bairro, pelas muralhas batidas pelas ondas, no pequeno ancoradouro, outros nomes trazem-nos as memórias de antigos detentores do burgo: praça dos genoveses, praça dos venezianos, bairro dos templários, porto pisano, etc. Os baluartes defensivos são já quase todos do tempo dos turcos, mas pode-se imaginar, até em pequenos troços do seu tempo, os cruzados a defender tenazmente o último bastião do condenado Reino Latino. Será mais fácil pensar que aqueles mesmos muros resistiram às tentativas inúteis de Bonaparte de tomar a cidade. Os canhões que ainda lá estão decerto testemunharam este episódio. Agora são testemunhas de um belíssimo pôr-do-sol, com a silhueta de Haifa do outro lado da baía.





Se os templos são quase todos muçulmanos, avista-se também uma ou outra igreja, como a maronita encostada à muralha. E além da arquitectura militar e religiosa, há outros edifícios notáveis, como o Khan al-Umdan, o único caravançarai em território israelita que se pode arrogar desse título, uma construção imensa com um amplo terreiro rodeado de arcos, e rematada por uma torre do relógio, que domina a vizinha Praça dos Venezianos. Diz-nos a sempre prestável Wikipedia que neste edifício é que Bahá 'u`lláh, refugiado da Pérsia, começou a divulgar as suas ideias religiosas numa escola para o efeito, começando aí a pregação da fé Bahai, cujos principais templos podem ser encontrados à volta de Acre e sobretudo em Haifa. Nas redondezas há ainda os banhos turcos e a Khan al Sawarda, uma praça mercantil rectangular com uma curiosa fonte no meio, de arquitectura indiscutivelmente otomana. Tudo isto a dois passos do porto, outrora comercial e de guerra, hoje mais ligado à pesca e ao turismo, a única parte que não está rodeada de muralhas. Acre, a antiga cidade dos cruzados que pertence a Israel mas que permanece árabe/turca; a comprová-lo, a voz do muezzin ouve-se nos altifalantes das mesquitas ao fim da tarde e ecoa sobre todas aquelas memórias.

Nota: talvez o muezzin fosse novo, já que ocorreu há pouco tempo uma curiosa história: o responsável pelo chamamento dos fieis da mesquita El-Jazzar era reconhecido como tendo uma voz "que nem em Meca se encontrava uma tão bela". Mas dedicava-se também à musculação e ao bodybuilding, e tinha até representado Israel em competições internacionais da modalidade. Ora o responsável ministerial pelos assuntos religiosos considerou que tal prática não era compatível com a de muezzin, até pela exposição pública com pouca roupa, e determinou a sua demissão do posto. A decisão despoletou vários protestos entre os muçulmanos de Acre, que consideraram que as duas coisas não eram incompatíveis, e que pediam ao menos uma segunda oportunidade, mas tudo leva a crer que será em vão. Resta ao inconformado ex-muezzin dedicar-se agora em exclusivo ao seu próprio ginásio. 

quinta-feira, novembro 24, 2016

O DN despede-se da sua casa.

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Tal como vinha sendo anunciado desde o início do ano, o Diário de Notícias deixou mesmo a sua histórica sede na Avenida da Liberdade, em Lisboa, construída de propósito por Porfírio Pardal Monteiro para o albergar, que recebeu o Prémio Valmor e onde estava há 76 anos vindo directamente do Bairro Alto, esse antigo bastião da imprensa portuguesa, qual Fleet Street lisboeta (e a própria Fleet, coitada), onde só resiste inexpugnavelmente A Bola. O jornal com mais de 150 anos de idade vai-se transferir para umas incaracterísticas torres de betão e vidro, perto da segunda circular, um qualquer espaço moderno, asséptico e longe das ruas. O edifício, esse, será transformado em apartamentos de luxo, com a obrigação de conservar a fachada, as letras góticas anunciando o jornal e os painéis de Almada Negreiros, no átrio. Do mal o menos, fica o espaço físico da memória. Mas é mais um símbolo da imprensa e da vida urbana que deixa o centro de uma cidade reservado quase só para o turismo, a restauração e as habitações de preço superlativo. Os serviços, a actividade administrativa e económica e restante faina vão sendo empurrados para a periferia. Causa estranheza a indiferença com que o jornal teve de abandonar a sua casa. E no entanto, perante cenário idêntico, há já uns anos, houve um movimento que impediu que o edifício fosse então usado para outras funções, como testemunha Pedro Correia. Desta vez ninguém, ou quase ninguém, se mexeu, limitando-se a menear a cabeça melancolicamente.

Espero que a sede do JN, no Porto, aquele altaneiro edifício brutalista, não siga o mesmo destino em breve. A ameaça existe. Se a quiserem levar avante, terá de haver mais reacção do que com o DN. Para abandono de sedes históricas da imprensa já bastou (mais) esta.


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Desenho de Stuart Carvalhais, natural da terra da minha Mãe, do ano da inauguração do DN

segunda-feira, março 09, 2015

Andar nas metrópoles, por baixo da terra e pelo ar

 
Para além de ser uma metrópole trendy, cool, hispter, e tudo o que sejam categorias urbanas contemporâneas, em simultâneo com o peso institucional e tradicionalista, Londres parece querer agora também tornar-se a grande cidade ecológica por excelência (lá está, juntando a vanguarda com a tradição ferroviária). Segundo o Observador, o projecto London Underline pretende transformar linhas de metro abandonadas em vias subterrâneas com uma via para peões e uma ciclovia. Londres é uma cidade perfurada no seu subsolo, não só pela extensíssima rede de metropolitano mas também pelos serviços postais (Post Office Railway), pelo Bank of England, entre outros (sim, não se ficam por aqui). É natural que algumas linhas tivessem ficado esquecidas pelo seu menor uso. Assim, a ideia é recuperá-las e rentabilizá-las, com bicicletas já à entrada dos túneis para serem usadas, e ainda um piso cujo atrito cinético dos passos e das rodas gera electricidade utilizada para a iluminação. Pode até nem passar do papel (ou do vídeo), mas é uma ideia muito interessante, imaginativa e ecológica, que permitirá circular a pé ou de velocípede numa grande cidade sem a preocupação do trânsito nem do clima londrino.





Ainda no mesmo jornal e na mesma cidade, há ainda o projecto algo megalómano de Norman Foster de construir ciclovias por cima das imensas linhas ferroviárias de Londres, com mais de duzentos quilómetros, dez faixas de rodagem e duzentos pontos de entrada. Eis uma das ideias para melhorar a circulação viária e complementar um meio de transporte limpo com o comboio. Embora perfeitamente viável, também não deverá ser para os próximos tempos. Mas é bem possível que daqui a uns anos muitas linhas férreas urbanas tenham um "tecto" constituído por extensos lances de ciclovias. Aproveitar as infraestruturas existentes e circular por baixo da terra e pelo ar: eis as alternativas à circulação nas grandes cidades.

sexta-feira, abril 12, 2013

Mais que merecido

 
 
 
O prémio Sir Geoffrey Jellicoe, o maior que se pode atribuir a arquitectos paisagistas, atribuído esta semana a Gonçalo Ribeiro Telles, coroa uma carreira de verticalidade na defesa do ambiente, do ordenamento do território e da terra (em todos os sentidos) da erosão e da especulação urbana que a ameaçam. Aos noventa anos não desistiu de lutar pelos valores mais genuínos do nosso país, e ao que parece começou por fim a ser ouvido. Que seja uma lição para todos os que o ignoraram ou encolheram os ombros quando falava de agricultura nas cidades, de construção em sobre cursos de água encanados ou de corredores verdes, em lugar de meros jardins de bairro.

quinta-feira, março 07, 2013

Crónicas urbanas

 
Gosto muito das crónicas urbanas que vêm na página final da revista 2, o suplemento de Domingo do jornal Público. Os textos revezam-se semanalmente entre Lisboa e Porto, sendo respectivamente escritos por Alexandra Prado Coelho e Manuel Jorge Marmelo (mas nem sempre) e ilustrados por desenhadores vários, como Eduardo Salaviza.
Através dessas crónicas vamos recordando aspectos das cidades de que já estávamos esquecidos, reparando em pormenores nunca antes apercebidos e conhecendo lugares bizarros e por vezes semi-escondidos cuja existência nem sequer imaginávamos. Por causa disso mesmo, já tenho recortado e guardado várias desses textos.
 
Mas embora sejam um imenso manancial de ideias e de escrita, Lisboa e Porto também têm os seus limites, quanto mais não seja de criatividade. Assim, e antes que as crónicas dêem lugar a outra rubrica qualquer, sugiro aos editores do Público que comecem já a olhar para as outras cidades do nosso país. Podem ser subúrbios, de onde também brotam sempre histórias, como Matosinhos, Almada, Barreiro ou Maia (incluindo os que oficialmente não são cidades, e a Cascais e Estoril não faltam certamente matéria para histórias). As velhas cidades de Norte a Sul, Braga, Évora, Bragança, Coimbra, Viseu, Funchal, Guimarães, etc. E as novas cidades, que adquiriram o estatuto mais ou menos recentemente, como Famalicão, Portimão, S. João da Madeira, Caldas, e tantas outras. Comecem já a enviar os vosso escribas por esse país fora, ou a desencantar outros. Garanto que ficam com matéria para magníficas crónicas urbanas por mais um ror de tempo.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Delenda Aleixo!




Se há plano da Câmara do Porto com o qual estou absolutamente de acordo é com a demolição do Bairro do Aleixo, tal como ele existe neste momento. Aquele autêntico gueto onde idosos e crianças convivem diariamente com dealers e drogados injectando-se em pleno dia, onde as pessoas vivem em meia dúzia de torres de betão horríveis em que não raras vezes os elevadores estão avariados, merece ir abaixo sem mais contemplações. Se alguém que não é de lá, por inadvertência ou qualquer necessidade, tiver de entrar no bairro, deparar-se-à com barreiras de gangues fiscalizando quem entra e quem sai (já me ia acontecendo, quando certa vez quis cortar caminho num S. João). Desde as demolições de alguns bairros na zona oriental que o Aleixo piorou e tornou-se no grande supermercado de droga do Porto. A CMP pretende derrubá-las (o sonho é antigo, já Fernando Gomes queria fazer o mesmo), realojar os moradores pela cidade e fazer ali novas urbanizações de luxo.



As críticas ao projecto são precisamente as de que os terrenos, com uma excelente vista para o Douro, estarão reservadas para os mais ricos. Não é mentira. Simplesmente, o bairro é camarário e os seus ternos pertencem à municipalidade. Correspondeu a um projecto dos anos setenta de tirar pessoas da Ribeira/Barredo, à época um lugar infecto e sobrelotado, e levá-las para os campos do Ouro. Como se sabe, o encerramento naquelas torres de betão criou um antro de criminalidade, sem paz nem lei, ao passo que o centro histórico do Porto se desertificava. Agora, a câmara quer corrigir o erro, eliminando o bairro e respectivas metástases, e, com a verba angariada com a venda dos terrenos, realojar os moradores, sobretudo no centro. Não sei se tudo correrá conforme o previsto, se as pessoas se irão integrar nas novas casas, para onde irá o tráfico de droga. Muitos dos que lá viviam tinham apesar de tudo estabelecido laços comunitários em trinta anos de vivência partilhada num espaço difícil. mas, tal como o apresentam, este plano é de longe desejável a qualquer alternativa, e incomparavelmente melhor do que a situação actual.



A primeira torre vai abaixo na sexta de manhã. A quem puder, não perca o início de uma zona finalmente limpa. Delenda o velho Aleixo!

sábado, abril 09, 2011

Psicadelismo na Laguna Veneta


A propósito do espectáculo The Wall live, que passou por Lisboa há dias, sem que tivesse podido ir vê-lo, perdendo assim muito provavelmente a última oportunidade de ver ao vivo o que restava dos Pink Floyd e seus shows únicos, lembrei-me de um exemplar da megalomania do supergrupo britânico.
No Verão de 1989, os Pink Floyd actuaram em Veneza, para encerrar a tourné do álbum A Momentary Lapse of Reason (aquele da capa da praia com camas a perder de vista). Não na cidade, obviamente, tendo em conta o equilíbrio da Serenissima sobre a laguna, mas num palco-barcaça entre a praça de San Marco e a Giudecca. Entretanto tinha saído Roger Waters, o artífice de The Wall, e David Gilmour, que era já o principal vocalista, liderava agora o grupo.

Naturalmente, acorreram autênticas multidões para presenciar o inédito espectáculo, que reerguia assim o esplendor cénico da cidade dos Doges, há muito que reduzida a uma peça de museu. Ao anoitecer, o psicadelisdmo e o habitual sistema de luzes da banda invadiu a laguna, e o público também. Apinhados na Piazza, nas gôndolas, nas lanchas e demais estruturas flutuantes, centenas de milhares de pessoas viram os Pink Floyd actuar sobre as águas.

O evento seria filmado e ficaria testemunhado em VHS e DVD. Todos os que o viram ficaram com uma recordação memorável. E ao show seguiu-se um enorme fogo de artifício, sobre as águas da laguna. Mas a factura seria pesada para os venezianos: o lixo acumulado no dia seguinte era imenso, alguns canais viraram autênticas latrinas, e acima de tudo a concentração de tamanha multidão teve o efeito mais temido: as estruturas da cidade afundaram-se cerca de 3 centímetros. A partir de então, nunca mais foram permitidos espectáculos tão desproporcionados na Serenissima. A megalomania dos Pink Floyd ficou assim ligada ao afundamento de Veneza e à restrição de grandes concertos.

Como já se disse, ficou o registo em video. Nunca o vi, a não ser em excertos do Youtube, mas conto assistir qualquer dia a uma transmissão.


terça-feira, maio 18, 2010

A redenção do Terreiro do Paço
O espaço que hoje tem o nome oficial de Praça do Comércio, mas que é para todos o Terreiro do Paço, passou ao longo dos séculos por inúmeras convulsões. Invasões, ocupações, defenestrações, sismos, tsunamis, desfiles triunfais, regressos de derrotas, revoluções, regicídios, de tudo assistiu aquela praça, entre a grande mudança cosmética que levou no século XVIII. E também autos-de-fé, ao que consta.
Nunca na sua longa vida tinha tido uma missa rezada pelo Papa. Outros estadistas foram lá recebidos, como Isabel II, com pompa e circunstância, mas nunca o Sumo Pontífice da Igreja Católica. E na semana que passou, a praça teve mais um grande momento na sua história. Sob um céu azul e o ar tépido (parece que São Pedro ajudou mesmo o seu sucessor), com pendões nos edifícios ocres e fragatas e veleiros como cenário de fundo, encheu-se de gente para ver e ouvir o Papa. O altar, simples mas imponente, era o remate ideal para a cerimónia. Viam-se pessoas de todas as idades, estratos e feitios, portugueses e estrangeiros - isto sim, uma autêntica demonstração de pluralidade. Apesar de toda aquela mole humana, não havia a sensação de sardinha em lata; o espaço estava ocupado, mas sem estar compacto. Pode-se descrever o ambiente como de solenidade animada, que percorreu todo aquele imenso espaço quando o Papa rezava a homilia, e que explodiu no fim quando saiu. A destoar naquela manifestação de paz, só mesmo os snipers nos telhados dos ministérios. Mas tanto a emoção da cerimónia como a sua beleza estética e gráfica, enquadrada por uma das mais belas praças da Europa, vestida de gala para receber o ilustre convidado, não saíram beliscadas. Tudo correu na perfeição. Como se depois de tantos infortúnios e tragédias, a praça quisesse agora acolher uma manifestação de harmonia. E redimir-se, purificando-se com uma banho de multidão. Afastar definitivamente as memórias sinistras dos autos-de-fé de outras eras, fazendo as pazes com uma Igreja que lhe devolveu a importância e o seu cargo de sala de visitas dos grandes acontecimentos.

quinta-feira, maio 06, 2010

A Expo de Xangai
Abriu oficialmente há dias a Expo 2010 em Xangai, a exposição mundial que sucede à de Saragoça, em 2008. Estive na cerimónia de apresentação a Portugal, no Casino de Lisboa, Parque das Nações, cenário apropriado e propositado por ter sido também uma outra exposição mundial. Esta Expo 2010 tem como tema "Melhor cidade, Melhor Vida", o que mais do que um exemplo, deverá constituir um desafio para a china, tendo em conta a forma repentina e caótica como crescem as suas urbes, cujos mapas mudam em poucos meses. E Xangai é precisamente a maior das cidades chineses, uma megalópolis a caminho de se tornar a maior do Mundo, e também a mais cosmopolita do país, por razões históricas.

O espectáculo de apresentação teve uns números musicais mornos. Bem mais megalómano é o espaço da exposição, a maior de sempre, dez vezes a área da Expo 98. O tema poderá ser algo em que os chineses não serão um grande exemplo, mas a extensão tem tudo a ver com o gigantismo tão próprio da China e das suas ambições. Como compete a qualquer grande potência emergente, a organização deste tipo de eventos é mais uma forma de afirmação mundial, como o fora os Jogos olímpicos, como o Brasil também o demonstra. Já Portugal também tem uma representação bem à sua medida, numa pavilhão de cortiça. Se servir de incremento ao consumo de vinho português e à cortiça sempre servirá para alguma coisa.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Nova Yorke também pode ser pia
Tal como pensava, em Wathever Works, Larry David é um alter ego de Woody Allen, só que ainda mais neurótico que o realizador. Um misantropo desagradável, niilista e com complexos de toda a ordem (a começar pelos de superioridade), que só se amacia com uma mente simples.
No filme, uma família típica do Sul profundo, do Mississipi, chega em diferentes vagas e por razões diferentes (mas interligadas) a Nova York, e com o tempo e os contactos com os indígenas, esquece os seus hábitos conservadores, abandona a religião e adopta modos de vida pouco convencionais, que até aí lhe eram estranhos.
Tal metamorfose cria a impressão que a Big Apple é mesmo a "Babilónia" dos tempos modernos, a cidade "sem Deus", hedonista e niilista, segundo certos grupos evangélicos americanos. Isso e o dia de hoje recordaram-me a minha passagem pela cidade, há uns anos, também em Fevereiro. Era Quarta-Feira de Cinzas (felizmente passei o Carnaval sem sequer me lembrar da data), tal como agora. Visitando a St Patricks´s Cathedral, vi multidões de pessoas formando filas e mais filas para que os sacerdotes lhes colocassem na testa a marca das cinzas, em forma de cruz. Recebiam-nas e depois saíam, indo à sua vida. Havia de tudo, de todas as classes sociais, de todas as raças, de todas as idades. Havia executivos de gabardina e pasta, adolescentes vestidos à break-dancer, mulheres com ar de estar entre a escola dos filhos e o trabalho, velhos com todo o tempo do Mundo. No fundo, o que ali estava era uma pequena representação de Nova York: uma grande parte dos seus crentes, levados naquela manhã ao tempo pela sua Fé, tão multiplicadamente heterogénea e cosmopolita como a própria cidade.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Imagens da Roménia - Bucareste


Para finalizar o périplo romeno, eis-nos em Bucareste, a capital da Valáquia, e com a aglutinação da Transilvânia e Moldávia, também capital nacional desde 1859. Segundo a tradição, deve o seu nome a um pastor de nome Bucur, que a teria fundado.


A cidade teve o seu período de esplendor na altura entre-guerras. Depois da destruição causada pelos zeppelins da Alemanha Imperial, ergueram-se sumptuosos edifícios art-deco e art-nouveau, bulevarduls e jardins, palácios e bairros, o que lhe deu o cognome de "Paris do Leste".

Como se sabe, grande parte desapareceu na época anterior a 1989. O regime da altura arrasou boa parte do centro da cidade para construir uma nova centralidade. Assim, o ex-libris de Bucareste passou a ser o enorme palácio erguido por Ceausescu, o segundo maior edifício do Mundo, depois do Pentágono, que domina a capital, com uma imensa avenida à sua frente, que na altura da abertura se pretendia que rivalizasse com os Champs Elysés.


O palácio, inicialmente chamado Casa Poporului, alberga as duas câmaras do parlamento, a presidência e o governo, e tem ainda auditórios, restaurantes, etc, e é visitável pelo público em geral. Ainda assim, não é totalmente aproveitado, por manifesta falta de entidades administrativas suficientes, dado o gigantismo da coisa. há inúmeros átrios, escadarias majestosas e um imensos salão de baile. Das suas varandas, os governantes pronunciavam os seus discursos, numa posição de domínio sobre a multidão reunida defronte. Nelas, Ceausescu assistiu atónito à revolta do seu povo, quando esperava ser aclamado. Nas caves e subterrâneos do palácio, quase com a mesma área dos andares à superfície, diz-se, tinham túneis de comunicação e respectivos transportes para o exterior, a distância considerável. Mas na altura em que mais podiam provar a sua utilidade, as hesitações e medos do ditador fizeram com que não se servisse deles.


A zona onde agora está o ciclópico edifício foi totalmente arrasada, entre bairros elegantes, igrejas, jardins e recintos desportivos, numa fúria demolidora que ficou conhecida como Ceauşima (Ceausescu + Hiroshima). Em casos pontuais, certas construções mais preciosas foram transladadas para outras partes da cidade, que ficou irreconhecível depois desta extensa terraplanagem.


Contudo, entre os edifícios megalómanos e o que restou da cidade pré-2ª Guerra, fervilha uma verdadeira capital europeia, em que o trânsito flui lentamente pelos bulevarduls e pelas largas praças que comunicam umas com as outras através de avenidas longuíssimas. O centro da cidade é dominado pelo Palácio do Parlamento, pelo eixo entre a praça Unirii e a da Universidade (com o grande volume do Hotel Intercontinental) e pelo que resta da zona histórica, que se desenvolve entre a rua Lipscani e a Calea Victoriei. A primeira é a histórica rua comercial da cidade, e deve esse nome aos comerciantes de Leipzig (Lipsia), que desciam o Danúbio para vender os seus produtos, e que dinamizavam uma boa porção do comércio local. Pela via fora espalhavam-se os diferentes artesãos, e a meio, perpendicular, o mercado Lipscani, com as suas portadas de ferro, converteu-se numa zona de galerias de arte, ou seja, depois da venda de legumes tornou-se o Soho ou a Miguel Bombarda de Bucareste. Na rua, agora esventrada para repavimentação, permanecem inúmeras lojas, um teatro de Revista, tal e qual como em Portugal, agências bancárias e um dos restaurantes mais bonitos da cidade, o Carne cu Biere (embora o encanto do estabelecimento seja inversamente proporcional ao profissionalismo de quem serve, mais ocupado a promover espectáculos de danças "latinas"). Numa das extremidades estão as ruínas do palácio mandado erguer por Vlad Tepes, no Século XV, e a seu lado a mais antiga igreja da capital, a Curtea Veche.

A Calea Victorei é uma comprida rua com edifícios em estilo neoclássico, como o do Cercul Militar National, com alguns do período comunista lá enfiados. A meio, a praça da Revolução, antiga praça do Palácio, abre-se em frente ao Museu Nacional de Arte da Roménia, o antigo palácio real, habitado pelos reis até à extinção da monarquia, e à Biblioteca da Universidade. No centro fica um curioso monumento à Revolução de 1989, que teve um dos seus momentos mais quentes precisamente nesta praça. A estranha obra de arte, ou "Memorial do Renascimento", é comparada a uma batata no espeto, pelo que se pode considerar o correspondente ao monumento ao 25 de Abril, de João Cutileiro, que está no alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa.
Mais atrás uma das razões porque Bucareste ficou conhecida como "Pequena Paris do Leste": a passagem Macca-Vilacrosse, uma rua em galeria coberta de vidro dourado, com a forma de ferradura, ocupada por cafés e bares, em especial egípcios, como se nota pela numerosa assistência fumando narguilé. A par desta mistura arquitectónica algo caótica, dos grandes parques e do comércio com todas as marcas internacionais, pode ser considerada uma imagem da nova Bucareste, menos carrancuda do que no antigo regime.

terça-feira, junho 16, 2009

Provincianismos pseudo-urbanos

Ainda do Minho desiludi-me com o novo figurino da velha estrada entre Moledo e Vila Praia de Âncora. Repararam o pavimento que estava muito gasto e fizeram uma ciclovia, o que se aceita (apesar de eu ter feito dezenas de vezes aquele troço de bicicleta sem o menor problema). Pena é que o carácter rural nocturno tenha desaparecido com as dezenas de novos candeeiros eléctricos plantados de dois em dois metros, estrada fora. Transformou-se uma estrada bucólica numa avenida sem casas e para mais gasta-se imensa electricidade. E é para isto que se anda a montar parques eólicos no alto das serras. Ah, o progresso, o desejo de ser urbano e moderno de qualquer forma...


Outra demonstração da ânsia de "urbanidade" são as novas cidades e vilas. As candidatas ao galardão urbano lá conseguiram o seu objectivo: Senhora da Hora (tinha mesmo necessidade de vida urbana, com o Porto e Matosinhos do outro lado da estrada), Samora Correia, Borba, Valença e S. Pedro do Sul(!) são agora cidades. Os meus pequenos parabéns, mas tirando, e a muito custo, Valença (já que a única cidade do seu distrito era até agora Viana), considero que nenhuma delas o mereceria ser. Aliás, freguesia alguma deveria ser cidade, por maior que fosse. E os critérios de atribuição (sobretudo os "históricos, culturais e arquitectónicos") deviam ser mais rigorosos. Para já, reina a total discricionariedade.


Por causa desta vontade sem razão, vemos vilas medianas a alcançar este estatuto sem razão aparente. Já aqui deixei alguns exemplos. Dá-me arrepios só de pensar nas próximas a ser promovidas. Mais uma vez, a ânsia de ser urbano a todo o custo, de se poder dizer que se é "da cidade", de fugir da ruralidade como o diabo da cruz, leva não só a estes disparates como ao êxodo para os grandes centros urbanos, geralmente para os subúrbios, que crescem na directa proporção da desertificação dos centros. Um erro provinciano de resultados desastrosos. Como se viver numa aldeia ou vila, às vezes com outra qualidade de vida, fosse por si só uma vergonha. Provavelmente até o será, segundo a mentalidade pequeno-burguesa que converteu automaticamente a ruralidade em "atraso" e a vida urbana definitivamente em "evolução". Joguinhos semânticos mascarados de progresso, não percebendo que o mundo rural e o urbano são diferentes sem serem necessariamente inferiores ou superiores. E que além do mais foram os responsáveis por grande parte da destruição patrimonial do país, à boleia com o desaparecimento progressivo do espaço rural.

domingo, outubro 12, 2008

Toponímia republicana



Dizem as regras da toponímia que se devem conservar os nomes tradicionais dos arruamentos, mormente se consagram uma recordação importante, como a do nome do local que existia nesse espaço numa época passada. Não se deve mudar em prol de um acontecimento ou figura de existência recente, excepto se já houver outra artéria ao lado com o mesmo nome, uma travessa ou um beco, por exemplo.
Essas regras nem sempre foram seguidas em Portugal, como se sabe. Normalmente eram quebradas pelos vários regimes políticos que se quiseram perpetuar no tempo e na memória. Caso exemplificativo é o do amplo terreiro à frente do Mosteiro de Alcobaça, que se chamou Praça Oliveira Salazar no Estado Novo e se chama hoje Praça 25 de Abril. Antes disso, era simplesmente o Rossio. Aliás, o mais conhecido espaço com esse nome, em Lisboa, também mudou oficialmente nos anos setenta, passando a constar das missivas e mapas urbanos como Praça D. Pedro IV. Por sua vez, o Rei-Soldado, que dava nome à antiga Praça Nova do Porto, o largo central da cidade oitocentista, perdeu o nome para Praça da Liberdade, sendo que temos hoje o absurdo de não haver na cidade qualquer artéria com o nome de D. Pedro IV, que até deixou o seu coração na Igreja da Lapa, em agradecimento à cidade que o acolheu durante as Guerras Liberais.



No processo de modificação do nome das ruas, nenhum regime se mostrou tão activo como a 1ª República. Por toda a parte os nomes foram alterados ao saber dos novos donos do país, e velhas ruas e praças das principais localidades viram-se renomeadas com nomes outubristas. Surgiram assim as novas artérias da república, de cinco de Outubro, ou dos "heróis" e propagandistas republicanos. Quem se passear por Lisboa, sobretudo nas Avenidas Novas, encontrará fatalmente os habituais Elias Garcia, João Crisóstomo, António José de Almeida, etc. E isso também explica a razão de praças centenárias, como a de Viana do Castelo, terem ganho "República" no nome. Mas a maior marca do processo de lavagem foram os milhares de "Cândido dos Reis" e "Miguel Bombarda" que nasceram como cogumelos. Duas figuras que, tendo morrido nas vésperas de cinco de Outubro, um porque se matou, outro porque um doente do manicómio que dirigia o assassinou, foram guindados a "mártires" e serviram para dar nome de ruas e avenidas. Não há concelho no país que não tenha uma destas figuras, cuja importância na história portuguesa é residual e datada, a decorar o letreiro da rua. Em compensação, muitas figuras maiores estarão com certeza ausentes da toponímia local. É difícil explicar a quem não sabe porque razão é que os dois sobrevalorizados activistas ocupam espaços tão relevantes - muitas vezes os largos principais de algumas localidades - tendo uma relevância tão pequena. Quantos Padres António Vieira ou D. Diniz, por exemplo, haverá na mesma proporção?
Essa ocupação hiperbólica da República demonstra não somente o carácter quase "santificado" dessa empresa como também uma certa insegurança ao nível da sua própria justificação, o que obrigou a que o regime, quando tomou o poder, tivesse de fazer uma gigantesca lavagem histórica e toponímica para impor os novos "heróis". Sendo "mártires", os dois finados seriam como que os novos "santos" republicanos a que urgia prestar respeito, e que por isso tinham os seus nomes em locais visíveis ao cidadão comum. Assim encontrou a 1ª República uma forma duvidosa de marcar o seu domínio, refazendo a história portuguesa e instaurando novas personalidades, de forma a criar uma sociedade radicalmente diferente, à sua imagem. Assim também a alteração de alguns símbolos, como a bandeira, ou a introdução da figura feminina meia desnudada.
Não houve, como se disse no início, regime algum que não tivesse a tentação de marcar a sua própria toponímia. Mas a República, como em tudo o resto, mostrou-se radical e caiu no ridículo de consagrar duas figuras que as pessoas, hoje em dia, não reconhecem ou ouviram falar vagamente. Lembro-me de uma entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Francisco Louçã, em que os dois confessavam não saber quem era o Almirante Reis que dá o nome à avenida lisboeta. Não sei se não sabiam mesmo ou se não lhes ocorreu, mas o certo é que deu uma amostra da pouca importância de dois vultos usados para que um regime que não tinha o apoio da maioria do povo se impusesse de forma mais dominadora.

sábado, outubro 04, 2008

Dez cidades de Espanha

...que gostava de conhecer e ainda não tive oportunidade:

-Cádis
-Toledo
-Granada
-Leon
-Córdova
-Zamora
-Ávila
-Alcalá de Henares
-Santander
-Segovia

Também nunca estive em Barcelona, ou Valência, mas dessas fala-se tanto que acaba por se perder toda a curiosidade.

terça-feira, setembro 23, 2008

Sic transit gloria urbi
Agora são Samora Correia, Borba e a Senhora da Hora que querem ser cidades. A vila ribatejana até pode ser populosa, ali em plena lezíria, com a já suburbana Vila Franca por perto, mas a alentejana tem pouco carácter citadino. Sobre a freguesia dominada pelo NorteShopping, não compreendo como é que tendo o Porto e Matosinhos à frente e do outro lado da estrada precisará de ser cidade. Sempre vi a Senhora da Hora como pacato subúrbio residencial, atravessado pelo comboio (agora metro), jamais como uma urbe em si.

Esta moda de ser tudo cidade pegou de há vinte anos para cá, como se pode verificar. Se até ao fim da Idade Média só um determinado grupo de burgos era cidade (mais concretamente, as dioceses), o seu conceito começou a alargar-se a partir do momento em que Bragança, importante referência defensiva no Nordeste e pertença da Casa com o mesmo nome, adquiriu esse estatuto. Depois vieram as algarvias Tavira, Lagos e Faro, que substituiu Silves como centro de diocese, as açorianas, o Funchal, e entre os Sécs. XVI e XVII surgiram mais algumas dioceses e respectivas cidades, normalmente por razões estratégicas ou políticas, tais como Miranda, Pinhel, Elvas ou Penafiel. Nos anos de oitocentos, algumas atingem dimensão para se elevarem a essa categoria, como Santarém, Guimarães, Tomar ou Setúbal. Com a República vêm mais algumas (Vila Real foi a última capital de distrito a tornar-se cidade, apenas em 1925!), mas o Estado Novo mostrou-se mais avaro e só Almada, Póvoa de Varzim e Espinho é que lá chegaram, e só nos anos setenta. A 3ª República começou por ser prudente, mas em meados dos anos 80 surgiu nova fornada de cidades, mais no interior. Nos anos 90 e 2000, perdeu-se todo e qualquer sentido de urbe, mesmo que a Lei só permita, salvo condições especiais, que as cidades necessitem no mínimo de 8000 habitantes e de um conjunto de equipamentos equivalente. Mas por razões que me escapam ou por qualquer excepção, vilas houve que foram elevadas a cidade sem se perceber porquê. Tarouca, por exemplo, construiu uns prédios, uns arruamentos e alcançou assim o mesmo estatuto que a sua vizinha, a antiquíssima e nobilíssima Lamego, na sombra da qual esteve durante séculos. Na Beira vamos ainda encontrar Meda, Sabugal, Santa Comba, etc: tudo cidades, mesmo que algumas nem no concelho inteiro comportem habitantes suficientes para um burgo minimamente aceitável. Temos além disso cidades no Algarve que muito me espantam (Quarteira, e Lagoa), ou na Madeira, em que até um sítio de que nunca tinha ouvido falar, chamado Caniço, foi elevado a cidade! À febre também não escaparam as pacatas Porto Santo e Santana, que com aquelas casinhas engraçadas lembra antes uma aldeia de conto de fadas.
Aveiro também é pródiga, e só Santa Maria da Feira tem 3 para amostra: além da própria Feira, há ainda Lourosa e Fiães. Na Bairrada, está feito o pleno, com Anadia, Mealhada e Oliveira do Bairro, e a Gafanha da Nazaré é uma imensa cidade-bairro de pescadores e marnotos.
O distrito do Porto, então, bate tudo: concelhos que não são cidade temos apenas Lousada e Baião, Deus assim as conserve. Há depois uma infinidade de freguesias-cidade, como Lixa ou Freamunde. O exemplo mais burlesco vem do concelho de Paredes (também cidade, claro está): quando quiseram elevar Lordelo à categoria superior, Rebordosa e Gandra, de tamanho semelhante, também quiseram. Salomonicamente, ficaram as três com a graça urbana. A Gandra, aliás, ganhou população depois da instalação de um pólo de faculdade de medicina dentária. Alguns estudantes começaram a ficar por ali, construíram-se casas, depois prédios para a população, vieram alguns bares para animar a estudantada, e agora bem se pode considerar um "cidade universitária". Pitoresco. Será que têm tradições académicas próprias?
Fora os casos em que pela dimensão e importância social o mereceriam, tudo isto revela um imenso sentimento de provincianismo: querer ser cidade a todo o custo mostra uma ansiedade em ser urbano, em dizer que se é da "cidade de tal" e "ser moderno", em distanciar-se do campo e de qualquer ligação à ruralidade. Essa ideia imbecil que "a cidade é que importante" é uma das causas da suburbanização e falta de sentido estético que hoje se vê em Portugal (e não só, sejamos justos). Além de ser perigosa: reduzir o mundo rural a quase nada, ou a uma mera atracção turística, terá consequências graves no futuro. A alimentação ainda não vem dos laboratórios. E as cidades arriscam-se a ficar sobrelotadas, não já no miolo mas nos seus arredores, e a tornar-se de novo centros infectos de doenças e epidemias várias.
Tivesse eu poder sobre estas categorias e umas cinquenta cidades passavam a ser vilas. Aliás, nem acho que freguesia alguma devesse ser cidade. A distinção entre esta, a vila e a aldeia deve estar correctamente feita, sem que isso represente qualquer sentimento de inferioridade para as duas últimas categorias. Que olhem para os exemplos de Ponte de Lima, Cascais e Oeiras: à questão de saber se queriam ser cidades, puxaram dos galardões e recusaram liminarmente. Bem hajam!