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terça-feira, junho 27, 2023

Curiosidades do Adriático: o Sagrado Coração da Refundação

 



Entre a foto de cima e a de baixo medeiam quase vinte anos mas poucas outras diferenças.
A de cima é de Dezembro de 2003. A de baixo é de Maio passado. Trata-se da esquina da secção da Refundação Comunista do "sestiere - ou bairro - de Castello, em Veneza, na realidade a única que o partido mantém na Sereníssima. A Refundação é o que resta do antigo (e outrora poderoso, com votações à roda dos 30%) Partido Comunista Italiano, que no fim dos anos oitenta, na sequência do "eurocomunismo" lançado pelo seu antigo líder Enrico Berlinger, decidiu reformar-se de alto a baixo, transformando-se no Partido Democrático de Esquerda e, entre outras metamorfoses, seria parte integrante do actual Partido Democrático, também ele a atravessar algumas convulsões. Uma minoria não aceitou a mudança e juntou-se na Refundação, mantendo o espírito comunista original, que, como na maior parte dos países da Europa, está inserida numa coligação com outras formações de esquerda e escassamente representada nos parlamentos.
O curioso aqui é o nicho mesmo ao lado da entrada. Consta que aquele Sagrado Coração de Jesus já lá estava antes, havia décadas, quando aquilo era um tasco, e o partido manteve-o e tratou dele. Mas, se olharem bem (e a foto de cima não ajuda), verão uma diferença: em 2003 era aquele Cristo mais loiro e de olhos azuis, que costumamos ver em pequenas imagens tradicionais; agora, é um Jesus mais moreno, com feições mais semitas. Parece que os detentores quiseram dar-lhe um cunho mais "palestiniano", menos europeu e provavelmente até mais próximo do real aspecto de Jesus. E assim, utilizando a arte popular religiosa para alguns fins políticos, podem ter ficado mais próximos da verdade.
De resto, a secção tem um bar polvilhado com imagens de Che Guevara e de antigos líderes comunistas italianos, e, à volta, junta-se um público claramente esquerdista mas heterogéneo, entre velhos militantes do "partido" com respectivo crachá e gente de rastas a fumar cigarros de enrolar. Tudo isto numa Veneza com menos turismo, que vai rareando cada vez que se caminha para Norte em direcção a San Pietro di Castello, e onde, se não se estiver rodeado do silêncio que já indicia a proximidade da laguna, até se pode encontrar uma coisa rara e em vias de extinção: venezianos autênticos.

quarta-feira, junho 14, 2023

Curiosidades do Adriático (e não só)

Os venezianos adoram leões. Melhor dito, veneram-nos, como por osmose ao seu padroeiro, o Apóstolo e evangelista S. Marcos, de tal forma que colocaram o leão do santo no centro da sua bandeira, provavelmente a mais bela que um (antigo) estado já ostentou. Está por toda a cidade e arredores e em muitas antigas dependências, nos estandartes, nas pedras e nos papéis. 

Um dos mais conhecidos é o leão do Pireu. Esta imponente estátua de mármore, a principal de quatro estátuas de felinos, guarda a entrada do Arsenale de Veneza, o maior estaleiro naval e industrial europeu desde a Idade Média até À Revolução Industrial, base da poderosa armada da Sereníssima, que tanto contribuiu para o desfecho de Lepanto e do seu domínio partilhado do Adriático e do Mediterrâneo. 




A função do Leão do Pireu é quase mítica, constando de reproduções várias (Corto Maltese fica especado diante dele em Fábula de Veneza, por exemplo, em cujo enredo é parte importante), e esse misticismo advém das inscrições no seu dorso e da sua origem. Não é "do Pireu" por acaso. A estátua existe desde o séc. IV a. C. e guardava a entrada do porto de Atenas, por vezes conhecido como Porto Leone, tal a imponência do seu guardião.


Em 1687, numa das suas múltiplas guerras contra os otomanos (que tinham sido rechaçados recentemente de Viena, iniciando assim um lento declínio, coisa a que Veneza já assistia desde que Vasco da Gama chegara à Índia), os venezianos entraram na barra do Pireu e cercaram Atenas. Retiraram dias depois perante a chegada de reforços dos turcos, não sem antes saquearem inúmeras peças na região, em especial o leão que guardava o porto, que levaram como troféu, e, tão ou mais importante, de bombardear o paiol de munições dos otomanos, no cimo da Acrópole, cujo interior rebentou, deixando apenas de as paredes externas. Esse paiol era nada menos que o Pártenon, ainda hoje o mais belo edifício da Grécia, e é essa a razão de até aos nossos dias só conservar o exterior.

Atenas não perdeu todo o Parténon, mas perdeu o leão e as suas inscrições laterais, runas nórdicas, uma das suas curiosidades. Pensei durante algum tempo que tinha sido alguma incursão dos vikingues e um ataque ao Pireu, mas não se tratou exactamente disso. Nas suas viagens até ao Mar Negro, os nórdicos encontraram-se inevitavelmente com os bizantinos. Tão impressionados ficaram estes últimos com a sua valentia que o imperador bizantino tomou a seu cargo uns quantos para a sua guarda pessoa, a célebre guarda Varegue. Segundo parece, foram estes que num episódio no Pireu deixaram os seus grafitis em forma de runa no dorso do leão (já naquela altura os monumentos gregos eram vandalizados com inscrições, e muito mais tarde Byron também daria o seu mau exemplo no templo do cabo Sounion). 

O Leão tornou-se, com dois mil anos de idade, o fiel guardião do Arsenal de Veneza, até hoje, quando as instalações ficaram reduzidas a funções mais modestas e não permitem a entrada do público em geral. Quanto ao significado das inscrições, a Wikipedia explica.


Já agora, ainda que a marinha veneziana tenha sido respeitável durante séculos, já não existe. Em contrapartida, uma das suas rivais, a marinha portuguesa, continua por cá, ainda que com contratempos. Ficam aqui uns registos do recente Dia da Marinha, no qual pela primeira vez a NRP Sagres acostou ao cais do Porto, na Ribeira (até aí apenas estivera do lado de Gaia), trazendo a imagem de proa do Infante D. Henrique até bem perto da casa onde ele nasceu.








sexta-feira, março 11, 2022

Odessa



"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel".

No mini-clássico A Ideia da Europa, de George Steiner, fica-nos desde logo este trecho. Odessa, a maior cidade e maior porto do Mar Negro ("a Paris do Mar Negro"), cenário dos contos de Babel também famosa por ser o cenário de O Couraçado Potemkin, esse clássico do cinema mudo de Einsenstein, está à espera da força bruta que se prepara a atacar do mar, sabe-se lá com que armas. Há umas décadas foram as SS alemãs, Agora são os russos.
Há uns anos, vislumbrando uma oportunidade de ir finalmente a Istambul, não me quis ficar pela metrópole do Bósforo e desenhei um percurso que me levaria de barco, ferry ou cargueiro, se fosse possível, até Odessa, através do oeste do Mar Negro, que em parte já conhecia. Iria à "Paris do Mar Negro", daria um pulo a Tiraspol, capital dessa estranha micro-URSS chamada Transnístria, agora mais conhecida pelo clube Sheriff que o Braga eliminou, e daí iria conhecer Kiev, antes de voltar para Portugal.
Hoje esse percurso tornou-se absolutamente inviável e só existe em sonhos, como outros em que aliás já tinha pensado. Traçar planos para viagens mais extensas é quase impossível nos dias que correm. Espero que Odessa e outras cidades da região permaneçam intactas, sobretudo as suas populações e o seu espírito.

sábado, maio 13, 2017

Pelos Caminhos de Fátima


Estive a ver a chegada do Papa a Fátima e a procissão das velas. Mesmo o mais empedernidos dos descrentes deve ter sentido uma pontinha de comoção ao ver toda aquela alegria e devoção. Não estou em Fátima, com pena minha, mas não estou especialmente treinado para fazer longos percursos em bicicleta em pouco tempo, como me propuseram, e combinações de última hora acabaram por não surtir efeito. Por isso, assisto às cerimónias pela televisão.
 
Todos os anos sucedem-se as peregrinações a pé até Fátima. A esmagadora maioria dos peregrinos segue pela estrada, com todos os perigos que isso acarreta. Mas não têm necessariamente de o fazer.
Têm caminhos alternativos, por troços secundários e mais seguros, tal como acontece como os que vão para Santiago.
Os Caminhos de Fátima são um projecto do Centro Nacional de Cultura e uma ideia original de Helena Vaz da Silva. Pretendem levar os peregrinos em segurança desde o ponto de partida, seja ele qual for, até ao santuário de Fátima. Para já não há muitos albergues e pontos de descansos. Mas há indicações, muitas, que mostram a quem por eles segue a direcção do seu destino. As setas azuis, em fundo branco ou não, indicam o rumo até à Cova da Iria.

 
Nas últimas semanas, e com a aproximação do Centenário de Fátima, várias equipas de voluntários, entre os quais o escritor destas linhas, entretiveram-se a desenhar ou redesenhar as setas do caminho. Boa parte do traçado é dividido com o Caminho de Santiago, aproveitado para fins idênticos, indo cada uma na direcção inversa do outro. Assim, as setas azuis "esbarram" nas amarelas.

 
Os Caminhos de Fátima dificilmente alcançarão a importância cultural dos de Santiago. Há que recordar que os trajectos até à cidade do Apóstolo vêm desde tempos imemoriais, têm mais de mil anos, e durante séculos foram as únicas vias terrestres a servir esse importantíssimo ponto de peregrinação. Os Caminhos de Fátima nasceram na época do GPS, da net, das autoestradas e do transporte individual, e portanto nunca alcançarão a mesma notoriedade, nem são para já um "clássico" das peregrinações a pé. Mas cumprem o seu propósito, dando aos peregrinos uma segurança que não têm na estrada. Além disso, permitem-lhes conhecer melhor o país, observar mais atentamente a paisagem e descobrir pormenores singulares. No troço que coube à minha equipa, por exemplo, e que começava em Conímbriga, (a mais importante estação arqueológica romana de Portugal), passei por uma aldeia chamada Fonte Coberta que nem consta dos mapas, mas que em tempos acolheu o grão-duque da Toscana Cosme III de Médicis na sua ida para Santiago e o Marechal Soult na sua debandada da 3ª Invasão, por caminhos de floresta onde se praticava motocross, por vales de rios secos e perto de castelos no alto de penhascos aparentemente inacessíveis.
 
Fátima é um ponto de chegada, de fé e de devoção, mas pode ser também um caminho de esforço e de resiliência sem ser um tormento, e sobretudo sem ser um perigo latente que obrigue a caminhar na margem da estrada. Talvez os Caminhos não sejam ainda muito usados nem sejam ainda vistos como a alternativa aos mais conhecidos. Por isso mesmo, este Centenário pode significar não uma oportunidade menos aproveitada mas sim a alavanca para percursos mais seguros e interessantes e que dê  a quem os use uma nova perspectiva do país, até aí escondida pelas "ruas da estrada"e pelo trânsito incessante.

sexta-feira, maio 27, 2016

Passagem pelo Colmeal


Há já muitos anos que tinha curiosidade de conhecer o Colmeal, a par de outros locais remotos e quase mágicos da Beira Alta sugeridos por velhos livros ou fotografias apelativas. Aqui tratava-se de uma aldeia abandonada perdida no meio dos vales, já quase esquecida, cujos únicos vestígios do passado eram as pedras que restavam dos edifícios. A oportunidade surgiu no último Verão, numa viagem entre a Guarda e Trás-os-Montes, e incluiu outras paragens, como Castelo Rodrigo ou Pinhel.
Estas duas antigas sentinelas de pedra que defendiam a raia das incursões leonesas estão ligadas por uma estrada às curvas apelidada, compreensivelmente, de "excomungada". Um pouco antes do alto da serra da Marofa, um desvio por um estradão, mais umas curvas, e chega-se à paisagem desolada do Colmeal.


As razões do completo abandono da aldeia devem-se a um caso estranhíssimo, e provavelmente único, no Portugal pós-absolutismo. Nos anos cinquenta, todo o território onde estava inserida a aldeia pertencia a uma herdeira dos proprietários que a tinham adquirido aos Condes de Belmonte (o título não aparece aqui por acaso, como se verá à frente), que sob pretexto dos seus habitantes não lhe pagarem a renda devida, moveu-lhes uma acção de despejo, ganha em Tribunal (que considerou ser aquilo uma quinta e não uma aldeia pública), e que seria cumprida coercivamente. Numa manhã de Julho de 1957, um grupo de guardas da GNR assaltou a aldeia e expulsou dali os habitantes e os seus haveres. Diz-se inclusivamente que chegou a haver mortes entre os que resistiram. Todos os habitantes tiveram de abandonar as casas e procurar outro sítio para morar.
Depois da tragédia, a farsa: para pagar os serviços do advogado, a proprietária teve de vender o terreno àquele causídico (outra ironia: um opositor ao regime vigente, que depois do 25 de Abril seria governador civil da Guarda) e a alguns sócios. A propriedade passou por várias mãos, incluindo a Portucel, até aos actuais donos, possuidores de um território que era a sede de uma freguesia e paróquia, e que foi considerado pelas instâncias judiciais não como tal, com os foros e direitos ancestrais da população reconhecidos em séculos anteriores, mas como uma propriedade privada, uma quinta pertencente a uma família e cujos habitantes seriam arrendatários.



A aldeia ficou ali perdida, estes anos todos, com a bizarria de dar nome a uma freguesia cuja sede obrigatoriamente estava noutro lugar. Mas quando lá cheguei esperava encontrar uma paisagem totalmente abandonada, salvo outros viajantes curiosos, como eu, e afinal havia traços de ocupação. Uma casa acima da igreja estava ocupada por uma família que vigiava as obras que ali se estavam a realizar, para um hotel, contaram-me. Um antigo solar que ali existia, comprovado pela dimensão de uma ruína bastante maior que as outras, modestas casas de xisto, estava a integrar no seu interior um novo edifício. A antiga construção pertencera à família dos Cabrais, de onde provinha Pedro Álvares Cabral, que ao que se diz ali residiu. O brasão assim o comprovava (não o vi na altura, só mais tarde em imagens), e daí a propriedade ter pertencido aos Condes de Belmonte, descendentes do descobridor do Brasil (e natural dessa vila beirã), até inícios dos séc. XX. Mas isso não impediu que tivesse escapado à ruína, como tudo o resto. O estado da igreja (do séc. XV, talvez) fazia particular impressão, há muito sem telhado, completamente escavacada, sem vestígios da função sacra que em tempos teve. Apesar das obras, paradas nessa dia, podia-se sentir o isolamento do lugar. Nos montes à volta não se viam outras construções humanas e poucos metros acima pairavam aves de rapina.

Lembrei-me desse desvio ao Colmeal por causa dos anúncios ao novo Countryside Hotel nalguma imprensa, em especial na última revista do Expresso. Os actuais proprietários resolveram formar aquele empreendimento turístico, aproveitando a tranquilidade do lugar, os apoios camarários e comunitários, e até a generosidade agrícola, que permite a plantação de vinha e de oliveiras e a criação de abelhas, cujo mel aparentemente terá dado nome à aldeia. Percebe-se a vontade de devolver a vida a uma povoação morta, com todo o potencial que esta tem. Mas pergunto-me se este afã turístico que aparentemente quer exibir a bucólica aldeia do Colmeal não acabará por torná-la antes num mero resort campestre, sem memória nem nada que a distinga. Há também a questão patrimonial; é muito duvidoso que construir uns monos de betão por cima de um solar antiquíssimo seja a melhor opção de reabilitação, esteticamente e ao nível dos materiais usados (mesmo que se possa pensar que se a aldeia nunca tivesse sido abandonada, hoje estaria repleta de casas de cimento de todas as cores e feitios, sem vestígios das habitações de xisto). E há sobretudo a questão da população que se viu escorraçada das suas casas por causa de um reconhecimento anómalo de uma propriedade e de uma interpretação no mínimo estranha do que é a propriedade pública e privada, e que não parece que vá gozar muito do novo estatuto de aldeia histórica do Colmeal. E assim corre-se o risco de transformar uma ruína de más memórias num conjunto de bungalows sem memória nenhuma. Um dia ainda hei de lá voltar para ver se a transformação acabou por ser positiva ou se mais valia não lhe tocar. Uma coisa é certa: com aqueles acessos, dificilmente se quebrará  isolamento. Valha-nos isto.



Adenda: não faltam sites e blogues com referências ao Colmeal e à expulsão da população. Neste artigo recente há mais pormenores sobre a história da infeliz aldeia.

segunda-feira, agosto 31, 2015

We´ll always have Astúrias beaches








E o solo sagrado de Covadonga também, por isso um dia lá iremos

segunda-feira, agosto 17, 2015

O Verão na Beira interior



Andar pela Beira interior em pleno Agosto pode ser uma proposta interessante. Se for para trabalho rural, na terra, literalmente, mais ainda. O trabalho no campo não tira férias, há que limpar terrenos, regar culturas e em Setembro é tempo de colheitas. Tudo nas horas em que o calor aperta menos, ou seja, entre o meio da manhã e o meio da tarde o sol dá menos tréguas. Pelo meio, vê-se o fenómeno dos emigrantes de volta à terra, as festas populares, a animação cultural proporcionada pelos municípios, e testemunha-se, mesmo que à distância, o grande flagelo do Verão: os incêndios.
E claro, é também um oportunidade de conhecer vilas e aldeias da raia, normalmente fortificadas, muitas com o sufixo "castelo" no nome (Castelo Rodrigo, Castelo Mendo, Castelo Bom, Castelo Melhor), que depois de décadas ou séculos de decadência, estão de novo reavivadas com o turismo e com algumas formas de comércio. A antiquíssima Trancoso, terra do Bandarra, a isolada Pinhel, ("guarda-mor de Portugal", cidade desde o século XVIII e antiga diocese), essa extensa fortificação que é Almeida, Sortelha saída da rocha, o Sabugal, o seu castelo das cinco quinas, as suas capeias arraianas, que têm lugar nesta altura nas aldeias do concelho, e a serra da Malcata, a vigia dos Castelos de Celorico e de Linhares, a fortíssima Sé da Guarda, a dominar a cidade, rodeada por casas nobres, torreões, a judiaria e a taberna do Benfica, as velhas aldeias fortificadas entre a Guarda e Vilar Formoso, Castelo Rodrigo, a pequena Ávila, lá em cima do distrito e do monte que coroa, com as ruínas do palácio de Cristóvão de Moura como se de um chapéu se tratasse, e antes, a aldeia abandonada do Colmeal, cujos habitantes foram despejados num dos mais insólitos casos judiciais, onde agora se constrói um "countryside hotel". Sim, isso tudo e muito mais é a Beira Alta, e só no distrito da Guarda. E ao lado ainda há Espanha e a muitas vezes esquecida mas muito recomendável Ciudad Rodrigo. São os "meses de inferno", mas suportam-se mais do que os meses de Inverno.





terça-feira, março 31, 2015

Périplo por Espanha


Aqui ao nosso lado há uma imensa terra, tão fabulosa como diversa. Espanha é o único país com que temos fronteira, e no entanto nem sempre aproveitamos essa porta aberta (sobretudo desde 1986). Há anos que olho para os mapas do país vizinho, fazendo itinerários, organizando jornadas e excursões mentais, listando locais, fazendo contas. Mesmo a Galiza, a região que conheço melhor, ainda me reserva muitas surpresas. Se pudesse, faria umas quinze viagens em Espanha, todas diferentes, e muito ficaria por ver. De quando em quando, lá consigo fazer uma. E há dias percorri uns bons quilómetros, passando em todas as regiões do Norte do país, excepção feita à Catalunha e à costa cantábrica e Astúrias.

Estrada sempre a direito na Tierra de Campos, entre Benavente e Palência, a parte verde do imenso planalto castelhano.



Depois de largas centenas de quilómetros por estrada, com paragem em Logrono, para experimentar os vinhos da Rioja, o objectivo da nossa viagem: o viaduto da futura autoestrada que ligará a Navarra a Jaca, sempre com os Pirenéus ao lado, e que passará sobre as águas da albufeira de Yesa. O terreno ainda está enxuto, mas por pouco tempo. A obra é da autoria de engenheiros espanhóis e portugueses, entre os quais o que me convenceu a ver a nova via naquela paisagem singular. 



A pequena aldeia de Sigués ficará separada da albufeira por um dique. Todo o terreno que vemos em primeiro plano será submerso. O que quer dizer que Sigués acabará comprimida entre a água vedada e a montanha atrás, cortada por um estreito vale.


Mais atrás, ou mais para montante, a paisagem em Salvatierra de Escat, nome meio castelhano meio aragonês (suponho eu), já em plenos Pirenéus.


Voltando para oeste, contornando á Álava e Burgos (onde não houve tempo para parar, com pena minha, para finalmente apanhar a catedral aberta, coisa que me escapou noutras ocasiões), regresso a Castela, ou mais precisamente a Léon, com a sua altaneira catedral no centro da cidade, entre o casco histórico e outros monumento com as memórias do antigo reino leonês.
 
 
Como a Basílica de Santo Isidoro, onde está enterrado o próprio Santo Isidoro de Sevilha, arcebispo de Sevilha na época do reino visigodo reconhecido como Doutor da Igreja, além de vários reis de Leão, no respectivo panteão. Ali tiveram lugar as Cortes de Leão de 1188, que incluiu representantes populares e da burguesia, menos conhecidas que a Magna Carta, mas igualmente precursoras do que seria o modelo parlamentar e a defesa de direitos fundamentais.


 
Mais recente mas não menos admirável, a Casa Botines, da autoria de Gaudi, projectada para ser um palacete residencial, mas que se tornaria na sede bancária da Caja España. Note-se à esquerda, em baixo, a estátua ao arquitecto catalão sentado no banco, desenhando o edifício. A meio da imagem, uma barraquinha de propaganda da Union del Pueblo Leonés, um partido regional cujo objectivo maior é formar uma região autónoma separada de Castela, correspondente ao antigo Reino de Leão.




Pormenor do frontão sobre a entrada, com S. Jorge a trespassar o dragão.
 
                        Dia de mercado em frente ao Ayuntamiento, na Plaza Mayor de León.
 
 
Mais a oeste, no meio do planalto leonês e da Maragateria, a antiquíssima Astorga, pequena cidade com uma imponente catedral, construída sobre a sua antecessora medieval. Importante cruzamento na época dos romanos (como comprovam os marcos no Gerês, que indicavam as distâncias entre Bracara Augusta e Astúrica Augusta), recuperou importância na Idade Média com o Caminho de Santiago. Aqui morreu o Conde D. Henrique, pai do fundador. A catedral tem traços arquitectónicos até Séc. XVII, visíveis nas torres. O templo impõe-se sobre a cidade, mais ainda pelo facto de em frente quase não haver praça.
 
 
Ao lado, outro das raras construções de Gaudi fora da Catalunha: o palácio episcopal, hoje Museu dos Caminhos de Santiago, um edifício de contos de fadas, ainda sem as linhas curvas que caracterizariam a obra do genial catalão.


O conjunto da Catedral-palácio episcopal




Descendo El Bierzo, para baixo de Ponferrada, e já a caminho da Galiza, Las Médulas. Aquilo que parece uma gigantesca termiteira era na realidade a maior mina de ouro do Império Romano. Uma montanha esventrada que assim ficou, até aos nossos dias, mostrando uma paisagem alucinante no meio dos montes e do verde.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Pela Serra amarela, em Dezembro



Levantar quase de madrugada, ainda escuro, num domingo de Dezembro, sem quaisquer obrigações de maior, pode parecer bizarro, mas justifica-se se for para uma volta por regiões portuguesas tão longínquas como apelativas. Se for no Gerês, mais ainda. Há muito por onde escolher. A Serra Amarela, ali entre a Serra do Soajo e a da Peneda, a Norte, o vale do Lima, a Oeste, e a barragem de Vilarinho da Furna, a Sul, é uma das muitas alternativas. E não é por ser no Inverno que é menos atractiva, mesmo sem neve.








domingo, setembro 30, 2012

Notas sobre a Bulgária - das montanhas de Rila ao Mar Negro


Aqueles a quem modernamente chamamos "búlgaros" são no fundo um conjunto de etnias amalgamadas ao longo dos tempos. Aos trácios, o povo original da região (dos quais os mais famosos terão sido Spartacus e o mitológico Orfeu), juntaram-se mais tarde tribos eslavas, seguidos dos búlgaros originais, da região do Volga e de origem túrquica. Pelo meio receberam a "visita" de macedónios, gauleses e romanos. Esse cocktail étnico deu origem ao primeiro e segundo império búlgaro, que se formaram após a conversão ao cristianismo, e que duraram toda a Idade Média, até à anexação otomana, que abriu caminho à queda de Constantinopla. O jugo dos turcos manteve-se por mais de quatrocentos anos, até que em 1878 os búlgaros obtiveram definitivamente a sua independência.

Não admira que o país sofresse tantas marchas de tantos invasores. A Norte fica o vale do Danúbio, dividido do resto do país pelos montes Balcãs, que se prolongam também para a Sérvia; a Sul são os Ródopes que o dividem da Grécia; e no miolo destes sistemas montanhosos situa-se a extensa planície trácia, algo semelhante ao Alentejo, com intermináveis campos de girassóis e matagais, vendo-se aqui e além algumas cidades. Se as montanhas exigem algumas dificuldades em transpô-las, a planície, que se estende até ao Mar Negro, facilitava qualquer invasão.

A Bulgária é um país desprovido de grandes palácios ou castelos, talvez devido ao longo domínio turco. A sua grande riqueza patrimonial são as igrejas e sobretudo os mosteiros. O mais conhecido (e visitado) é o de Rila, incrustado num apertado vale entre montanhas imponentes. Fundado pelo eremita São Ivan Rilsky, que se refugiou naquelas inóspitas serranias em oração e por muito austero espírito monástico, é um vasto conjunto, formado pelo mosteiro propriamente dito, com vários pisos, onde continuam a viver monges, pela torre central, e pela igreja, a meio do complexo de edifícios. Boa parte do mosteiro foi reconstruído nos séculos XVI e XIX. A igreja é, à boa maneira ortodoxa, uma explosão de frescos, ícones e talha dourada, uma combinação admirável, com as enormes montanhas cobertas de floresta como fundo.

Há ainda outros mosteiros, como o de Bachkovo, e uma profusão notável de túmulos trácios por toda a parte. Mas há ainda outros vestígios. Plovdiv é a segunda cidade búlgara, e situa-se na planura trácia, junto ao rio Miritsa. Distingue-se da paisagem envolvente pelas suas estranhas colinas, e tem marcas visíveis dos povos que por lá passaram ao longo dos milénios. Chamou-se Filipópolis quando Filipe II da Macedónia a tomou, mudando o nome para Trimontium no tempo dos romanos. Os eslavos chamaram-lhe Paldin, os turcos Filibe, em latim continuou a ser Philippopolis, até que a língua búlgara a transformou em Plovdiv, que manteve até hoje. Dos romanos sobejam vestígios, como o antigo estádio, de que só uma parte das bancadas é visível à superfície, já que o resto se estende por baixo das ruas centrais da cidade, e sobretudo o teatro, bem conservado, provavelmente o ex-líbris da cidade, semelhante ao que existe em Mérida. Entre os dois vestígios romanos, também no centro, situa-se o maior legado dos turcos, uma enorme mesquita.


O teatro romano, virado para a zona plana, está encostado numa colina, para onde partem ruelas empedradas, algumas delas medievais, com casas de estilo revivalista búlgaro (mais do século XIX, como aquela em que ficou hospedado o poeta francês Lamartine), igrejas, torres, até à "fortaleza trácia", de onde se colhe estranha antena de televisão e outra um memorial ao exército soviético. Talvez devido ainda ao seu passado multicultural e à sua localização no cruzamento de diversas vias, são visíveis pela cidade as minorias turcas (forçadas pelo regime comunista a mudar os seus apelidos) e ciganas. Nota-se a dada altura um certo ambiente mais asiático do que balcânico. Existe também uma sinagoga, mas é pouco crível que haja muitos judeus, apesar do auxílio prestado pelos búlgaros durante a Segunda Guerra. De gregos e arménios que lá viveram tampouco há sinais.



De Plovdiv segue-se pela interminável planície que só acaba no Mar Negro, que surge quase sem se anunciar. Entre as principais cidades costeiras, Burgas e Varna, situam-se as grandes estâncias balneares, como as tradicionais Nessebar e Pomorie, a pitoresca Sozopol, uma estreita península com inúmeras casas de madeira, e a movimentada Sunny Beach. Esta espécie de cruzamento entre uma Ibiza de Leste e Lloret del Mar, em que até o nome é anglicizado, é destino de famílias inteiras e adolescentes desenfreados, contando-se ingleses, alemães, russos, turcos, e outras nacionalidades bizarras, como bielorrussos. Há também bastantes israelitas, atraídos pela relativa proximidade do Mar Negro e pelos casinos. De tal forma que há pouco tempo houve mesmo um atentado ali ao lado, em Burgas, contra um autocarro israelita que provocou vários mortos e feridos. Em Sunny Beach, entre filas de hotéis majestático-pirosos, bares, restaurantes, discotecas, interminável comércio de produtos de marca falsificada, e a comprida praia que se estende até ao promontório mais próximo, quase não se vê uma tabuleta em cirílico. Há também consumidores búlgaros, mas a maior parte está lá para trabalhar para as hordas que os visitam, que entram e saem dos restaurantes da comida rápida, assistem aos jogos de futebol da Premier League a da Bundesliga, e invadem os discos onde ecoa desde o house mais rasca até aos grandes hits da actualidade, incluindo o omnipresente Ai se eu te Pego e Dança Kuduro. A globalização do turismo faz que dentro dos resorts não se veja nada de absolutamente inesperado. a não ser, talvez, pequenas provas de como a religiosidade dos búlgaros tem marcas em toda a parte: mesmo nos bares mais barulhentos e com ambiente mais hedonista, não falta, junto às garrafas de vodka ou à caixa registadora, um ícone de um Cristo Pantocrator ou de um santo, em especial o padroeiro S. Jorge ou os venerados S. Cirilo e S. Metódio.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Notas sobre a Bulgária - Sófia



A Bulgária não é exactamente um dos destinos mais comuns para os europeus do sul, e como tal, os guias não abundam. Para conhecer melhor o país, fiz uma data de leituras, que foram de Gonçalo Cadilhe a Claudio Magris, passando por Michael Palin. E quase todos eram unânimes: aquele território no extremo sudeste da Europa é um dos menos conhecidos do continente, uma terra incógnita até há não muito tempo, mais usada como passagem do que como destino, conhecida sobretudo  pelos produtos à base de rosas, pela sua talentosa equipa de futebol dos anos noventa (da qual muitos jogadores passaram por Portugal) e pelos caracteres em cirílico, que nasceram precisamente aí. E pouco mais.
 
Mas vale a pena conhecer mais. A Bulgária, nação balcânica muito tardiamente independente dos turcos, em 1878, após mais de quatrocentos anos de domínio otomano, com um povo meio eslavo meio trácio, com turcos e ciganos pelo meio, sofreu duas derrotas nas Guerras Mundiais, e tornou-se um valete previlegiado da URSS, antes da queda do comunismo e da entrada na UE, em 2007. Nos últimos cem anos, como se vê, teve uma história muito atribulada e uma herança confusa, com a qual os búlgaros ainda não sabem bem lidar.
 
Vejamos a capital, Sófia. Uma cidade de perto de um milhão de habitantes, quase sem subúrbios, dominada pelo maciço de Vitosha, é bastante mais pequena do que algumas cidades de países vizinhos, como Bucareste, Atenas ou Istambul. Testemunhou a passagem de vários povos, mas as severas destruições no século XX não lhe deixaram um grande legado histórico. Ainda assim, tem inúmeros motivos de interesse.

O monumento mais conhecido é provavelmente a Catedral de Alexandre Nevsky, uma das maiores igrejas ortodoxas do Mundo, que tem o nome do príncipe russo imortalizado por Eisenstein em homenagem aos soldados russos mortos na guerra da independência da Bulgária, O sentimento de irmandade (ou de paternidade) entre russos e búlgaros tornou-se evidente a partir dessa altura, para além de um grande afinidade cultural e religiosa (o alfabeto cirílico, usado pelos russos, teve origem na Bulgária), danificada quando ficaram em lados opostos nas guerras mundiais, e sobretudo com o advento do regime comunista, visto como uma quase anexação por parte de Moscovo. O sentimento dentro do templo é de mais fervor do que curiosidade turística. Ao lado, uma conhecida feira de antiguidades, onde se podem comprar ícones e  memorabilia com símbolos comunistas e nazis (entre os mais interessantes contavam-se uma charuteira e um copo misturador de coktails com as insígnias das SS), além de produtos à base de rosas, condecorações, matrioskas, armas cortantes, t-shirts, etc.


A capital tem aquele skyline que esperamos encontrar numa cidade balcânica, com igrejas ordtodoxas e mesquitas, e alguns arranha-céus, além da herança comunista. Mas nem toda resistiu ao tempo.
Depois da queda do Pacto de Varsóvia e da confusão subsequente, os governos esforçaram-se por apagar os vestígios do comunismo da face do país. Um dos maiores era o mausoléu de Georgi Dimitrov, o Estaline búlgaro, que fielmente copiou o "mestre" até nas homenagens póstumas. O enorme mausoléu, todo em pedra e mármore, fronteiro ao antigo palácio real, demorou apenas seis dias a ser construído, e o mesmo tempo a ser demolido, à força de explosivos. Hoje resta apenas um ligeiro vestígio de terraplanagem, junto a um jardim (há-os em grande quantidade, em Sófia).



Mas os vestígios comunistas de maior dimensão permaneceram e foram reaproveitados. Depois dos bombardeamentos dos Aliados na II Guerra, o centro da cidade estava em escombros. Os novos senhores do país aproveitaram para erguer um conjunto de estruturas de poder com a emblemática e esmagadora arquitectura estalinista. Ao lado da mesquita de Banya Bashi e do edifício termal, abriu-se o Largo, um espaço onde se concentravam alguns edifícios gêmeos, sendo um deles uma enorme "loja do povo", hoje um centro comercial em parte albergando ministérios, e outro, fronteiro, era e é composto pela presidência da república, na parte traseira, e por mais ministérios (hoje em dia é também parcialmente ocupado pelo hotel Sheraton, à frente). No espaço central conservou-se a antiquíssima igreja de S. Jorge, um templo redondo do século IV tido como a estrutura mais antiga de Sófia. Entre esses dois enormes edifícios, e um pouco atrás, está um terceiro, que porventura era o mais importante desse trio e de onde emanava o poder: a antiga sede do Partido, outrora encimada por uma estrela, arrancada durante a revolução e substituida pela bandeira nacional. Serve hoje em dia de apoio ao parlamento, que se situa num palacete menos megalómano.

 
 O comunismo teve poucas contemplações com a prática religiosa. Inúmeras mesquitas, por exemplo, foram derrubadas, começando pelos seus minaretes, para lhes retirar o simbolismo e préstimo. Ainda assim, conservam-se inúmeros templos na cidade. Em frente à mesquita de Banya Bashi, uma sinagoga. Mais adiante uma igreja católica fronteira a uma antiga igreja ortodoxa, que aliás não faltam, ou não fosse a Bulgária uma velha nação ortodoxa, onde a religiosidade irrompeu de novo com a queda do regime comunista. Ali ao lado, na catedral de Sveta Nedelya, em 1925, durante a cerimónia fúnebre de um general, um enorme atentado, provocado por explosivos colocados por militantes do partido comunista, vitimou 150 pessoas e feriu centenas, entre os quais numerosos representantes da leite militar e política búlgara. O rei Boris III não se encontrava presente, já que tinha ido a outro funeral. Os desmandos comunistas no país começaram verdadeiramente aí...

 
 Os dois edifícios gêmeos, os vestígios romanos nas obras do metro, a igreja de Sveta Sofia e o monte Vitosha, lá atrás
 
No centro encontram-se ainda outras antigas igrejas, teatros, edifícios universitários, as antigas instalações termais (é possível beber-se água termal em fontes na própria rua) , e, desenterradas pelas obras do metro, as ruínas da antiga cidade trácia e romana de Serdica. A meio da avenida principal, em frente, directamente virada para o Largo, uma estátua à alegórica Santa Sofia, com uma coruja no braço - provavelmente o legado cristão da deusa Atena, da Sabedoria - substituiu nos anos noventa outra estátua, de um russo chamado Lenine.
 

Esta cidade balcânica, com herança estalinista (que limparam o mais que puderam) que pretende a todo o custo seguir as modas do ocidente, situa-se num largo planalto, cercado pelos montes Balcãs a Norte, pelos de Rila a Sul, e pelo impressionante maciço Vitosha a Oeste, dominando toda a cidade. É para este que os habitantes da capital se dirigem, no Inverno, para fazerem uma pausa ao fim do dia ou da semana, nas suas estâncias de desportos de neve.
 

terça-feira, setembro 04, 2012

Pela Bulgária

A região balcânica é tão visitável no Verão como outro local qualquer. A meio, a Bulgária, rodeada de vizinhos instáveis, pode ser um excelente percurso para quem quiser conhecer a história da zona e a evolução de um dos últimos estados eslavos a obter a independência do Império Otomano. É por me encontrar precisamente lá que este blogue tem andado mais parado, mas voltará muito em breve à sua actividade normal. Entretanto, fique-se a saber que Sófia, a capital nacional, tem quase tantos McDonalds como templos das várias religiões todas juntas. Um misto de culto misturado com a entrada em força do consumismo depois da queda do comunismo, aque aqui foi particularmente virulento.

quinta-feira, maio 31, 2012

Recordando périplos portugueses



A RTP está a transmitir o programa Mar das Índias, em reposição às segundas-feiras à noite, na 2, como homenagem ao seu mentor, Miguel Portas. Os dois primeiros episódios, respectivamente sobre a costa da África oriental e a Etiópia, já foram transmitidos, faltando os outros dois. Perdi o primeiro mas consegui apanhar o segundo, precisamente o que mais me interessava. É um documentário fascinante no grande estado cristão no interior de África, que conta a aventura portuguesa e dos jesuítas nas supostas terras do Prestes João, e traça um périplo no Norte daquele país, com um Miguel Portas mais novo e muito longe da habitual actividade política. Ainda me lembrava do programa (motivo da minha única troca de palavras com Portas), mas revê-lo permitiu-me ficar com uma ideia mais precisa de uma das zonas do globo que mais gostava de visitar. Infelizmente, os portugueses não têm actualmente tanto interesse no mais antigo estado africano como tiveram os seus antepassados dos séculos XV e XVI (ou os italianos dos anos trinta). Este episódio de Mar das Índias é, para quem o viu, uma excelente forma de conhecer a Etiópia. Como complemento útil aconselha-se também Histórias Etíopes, súmula de descrições, narrativas e desenhos da autoria de Manuel João Ramos, um conhecedor daquelas paragens.