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terça-feira, junho 27, 2023

Curiosidades do Adriático: o Sagrado Coração da Refundação

 



Entre a foto de cima e a de baixo medeiam quase vinte anos mas poucas outras diferenças.
A de cima é de Dezembro de 2003. A de baixo é de Maio passado. Trata-se da esquina da secção da Refundação Comunista do "sestiere - ou bairro - de Castello, em Veneza, na realidade a única que o partido mantém na Sereníssima. A Refundação é o que resta do antigo (e outrora poderoso, com votações à roda dos 30%) Partido Comunista Italiano, que no fim dos anos oitenta, na sequência do "eurocomunismo" lançado pelo seu antigo líder Enrico Berlinger, decidiu reformar-se de alto a baixo, transformando-se no Partido Democrático de Esquerda e, entre outras metamorfoses, seria parte integrante do actual Partido Democrático, também ele a atravessar algumas convulsões. Uma minoria não aceitou a mudança e juntou-se na Refundação, mantendo o espírito comunista original, que, como na maior parte dos países da Europa, está inserida numa coligação com outras formações de esquerda e escassamente representada nos parlamentos.
O curioso aqui é o nicho mesmo ao lado da entrada. Consta que aquele Sagrado Coração de Jesus já lá estava antes, havia décadas, quando aquilo era um tasco, e o partido manteve-o e tratou dele. Mas, se olharem bem (e a foto de cima não ajuda), verão uma diferença: em 2003 era aquele Cristo mais loiro e de olhos azuis, que costumamos ver em pequenas imagens tradicionais; agora, é um Jesus mais moreno, com feições mais semitas. Parece que os detentores quiseram dar-lhe um cunho mais "palestiniano", menos europeu e provavelmente até mais próximo do real aspecto de Jesus. E assim, utilizando a arte popular religiosa para alguns fins políticos, podem ter ficado mais próximos da verdade.
De resto, a secção tem um bar polvilhado com imagens de Che Guevara e de antigos líderes comunistas italianos, e, à volta, junta-se um público claramente esquerdista mas heterogéneo, entre velhos militantes do "partido" com respectivo crachá e gente de rastas a fumar cigarros de enrolar. Tudo isto numa Veneza com menos turismo, que vai rareando cada vez que se caminha para Norte em direcção a San Pietro di Castello, e onde, se não se estiver rodeado do silêncio que já indicia a proximidade da laguna, até se pode encontrar uma coisa rara e em vias de extinção: venezianos autênticos.

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

Sobre a "terrível influência das religiões" no debate de ideias


Já me tinha saltado à vista em 2018, por ocasião da mesma discussão, e na altura fiquei calado. Mas voltei a reparar agora. Parece que há muita irritação da parte de alguns defensores da despenalização da eutanásia por haver pessoas que são contra por razões religiosas. Vai daí, lançam-se numa diatribe a favor da "laicidade do estado" (os mais suaves) ou contra "a intromissão das religiões", "os ratos de sacristia" ou a "igreja do cardeal Cerejeira" que "parece querer voltar aos tempos da Inquisição".

Convém relembrar o óbvio: a laicidade do estado significa a separação entre este e as instituições religiosas, não a supressão destas ou a sua hostilização por parte dos poderes públicos. Quanto à inquisição contemporânea e outros delírios, que eu saiba numa sociedade pluralista as religiões têm o seu lugar e as pessoas podem perfeitamente defender os seus princípios baseados na sua fé, políticos incluídos. Por isso sim, há pessoas contra por razões religiosas e isso é perfeitamente legítimo. Assim como a maioria é influenciada por razões políticas ou de outra ordem, e têm igual legitimidade. Aliás é curioso verificar como por vezes a defesa da "liberdade religiosa" para alguns parece ser ou a defesa de apenas determinados cultos ou uma atitude de "sim, tenham lá a fé que quiserem mas exprimi-la em público ou expressar ideias baseadas nela é que não pode ser". Sobretudo numa altura em que tantas opiniões são exprimidas com base em variados conceitos novos e não poucas vezes intrigantes quanto ao contexto - no outro dia lia algo sobre "uma abordagem ao colonialismo do ponto de vista LGBT(?)". Por isso, protestar contra a influência da religião no pensamento dos seus seguidores não é laicidade nenhuma, é apenas desagrado com algo que o emissor não aprecia, mas que numa sociedade aberta (ou diversa, como se diz agora), terá de aceitar, assim como as confissões tiveram de aceitar a legalidade da blasfémia. Caso contrário, não contem comigo para regressar às políticas da 1ª República de má me
mória.

quarta-feira, maio 01, 2013

Pelos Caminhos de Santiago


Passei esta semana sem blogar, o que por vezes é mentalmente higiénico, por força da minha peregrinação a Santiago de Compostela. Já lá tinha ido umas vezes de carro e por auto-estrada. A pé, submetido às intempéries, por caminhos com séculos e séculos, as coisas são bem diferentes.

Os Caminhos de Santiago são percorridos há mais de mil anos pelos peregrinos, aos quais devem essa mesma designação (per ager, pelos campos). Apesar da grande afluência e utilização, permanecem afastados das grandes rotas viárias modernas, que os pouparam, e em muitos troços não serão muito diferentes do que eram na Idade Média. Existem, como se sabe, muitos Caminhos de Santiago (o Inglês, o aragonês, os de Portugal, que são vários, o de Finisterra, etc), mas o mais frequentado, aquele que percorri, é o Caminho Francês, que começa em Saint-Jean-Pied-de-Port, passa para a mítica Roncesvalles e daí, por Pamplona, Burgos, Léon e Sarria, até Santiago. O Caminho assume muitas vezes forma de trilho florestal, o que é particularmente agradável quando as ávores são autóctones, ou de via campestre, não raras vezes coberta de lama ou quase leito de riacho, o que os torna complicados no Inverno.Ppelo meio, pequenas aldeolas de pedra,  que parecem esquecidas no tempo, mas que vivem graças ao Caminho, cada qual com o seu café-venda onde se acrescenta um novo carimbo à credencial do peregrino, necessária para se obter a Compostela, o certificado que atesta que se cumpriram mais de cem quilómetros a pé (duzentos se for a cavalo ou de bicicleta).
 
Encontram-se caminhantes das mais variadas nacionalidades, sobretudo espanhóis e irlandeses. A maioria por Fé e devoção, mas também por aventura, desafio ou quaisquer outras razões. Grande parte transporta a sua mochila, por vezes um bastão, e quase sempre a Vieira, símbolo inconfundível de Santiago, a par da sua Cruz. A solidariedade entre peregrinos é grande, e presume-se que a sua idoneidade também, tanto assim é que há vendas à beira do caminho onde se serve do produto e se deixa o valor...sem que haja um vendedor ou quem quer que seja que controle. Mas além dos grupos de caminhantes, há também os que fazem solitariamente, alguns deles singulares. Encontrar numa floresta um templário com as suas vestes pode levar-nos a pensar que recuámos ao Século XIII, mas não é impossível: alguns fazem-no, recordando os cavaleiros que outrora tinham como missão proteger os Caminhos, e deixam mesmo um registo bloguístico.


Depois de um caminho encantador mas exaustivo (e que deixa mazelas), a chegada à praça do Obradoiro (provavelmente uma das mais bonitas do mundo) e a contemplação da soberba catedral, com o Apóstolo a acenar-nos lá em cima, é gratificante. E se se apanhar a missa do peregrino mais ainda: entre os muitos caminhantes que assistem à homilia, agradecemos a protecção divina no caminho e contemplamos o Botafumero no seu pêndulo majestoso, a derramar incenso sobre os assistentes.

Depois, com o objectivo cumprido, abraça-se o Santo, apresentam-se as credenciais na Casa do Peregrino para que obter a Compostela, recuperam-se forças na taperia mais convidativa e começa-se a pensar em novo percurso numa data futura qualquer.

                       
                              O peregrino, escritor destas linhas, contempla a Catedral de Santiago, meta desta sua viagem

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Um Credo punitivo...


...segundo Johnny Cash