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terça-feira, dezembro 31, 2024

A glória póstuma de José Pinhal

O fenómeno é curioso, mas já sobejamente conhecido: José Pinhal, cantor romântico de "música de baile", usando normalmente um fato branco, um bigode afirmativo e um penteado à Rudi Voeller, frequentador dos circuitos musicais sobretudo no Norte do país, despareceu num acidente viário com pouco mais de 40 anos e ficou esquecido alguns anos até as suas cassetes serem encontradas no escritório do seu agente, digitalizadas e depois colocadas no Youtube, onde se começou a gerar um pequeno culto. Surgiu um grupo de tributo para recriar em palco as suas músicas, o José Pinhal Post -Mortem Experience, e desde então Pinhal conheceu postumamente a popularidade de que nunca gozou em vida, sendo mesmo objecto de um artigo do Guardian

Celebridade após a morte: o obscuro cantor popular português que é notícia  em Inglaterra – NiT

Vi a banda-tributo há meses, por alturas dos Santos Populares. Uma enorme multidão cantava de cor as músicas, para mim até então quase desconhecidas, transformando Pinhal numa autêntica estrela pop de além-túmulo e os músicos ali presentes nos seus mensageiros. Aí consegui ver o verdadeiro fenómeno em que se tornou este músico pouco conhecido no seu tempo e fora de moda para os parâmetros actuais e o culto que se gerou. Nos meses seguintes tornei a ouvir as músicas e a ver gente a trauteá-las de cor e salteado, sobretudo da meia-idade para baixo.

Toda essa descoberta inevitavelmente levou-me a pensar: e se Pinhal tivesse sobrevivido? Teria continuado nos seus circuitos de baile e ficado meramente conhecido nas festas de verão e em algumas danceterias (sim, ainda as há), com algumas cassetes editadas, daquelas que se vendem nas roulottes? Ou teria aproveitado a onda "pimba" que se gerou depois e alcançado o sucesso, sendo chamado regularmente para programas de tarde de fim de semana da TVI e SIC? Não tenho a menor dúvida de que não teria o êxito actual, sobretudo entre os mais novos. A sua morte, o seu relativo desconhecimento em vida, a descoberta do seu espólio e o crescimento paulatino da sua música criaram este culto, o de um homem que não conheceu a fama em vida e que por vicissitudes várias se tornou famoso postumamente. Não é caso único, o de encontrar sucesso muito tempo após a morte (e recorda também um pouco o de Sixto Rodriguez, que o teve em vida mas ainda a tempo de o saber), mas falamos de um conjunto de factores que permitiram que um homem relativamente desconhecido, com imagem ultrapassada e música fora de época gerasse este fenómeno de popularidade. Para isso permitiu também um certo revivalismo dos anos oitenta e noventa e o crescente interesse e consumo de música portuguesa, aliados a algumas tendências hipsters (também elas agora um pouco em baixo). Mas não haja a menor dúvida: a morte de José Pinhal, desencadeando todos estes passos, é que lhe deu o passaporte para a glória póstuma. Paz à sua alma, que a obra não a tem e continua a circular por esses palcos fora. 

 

Bom 2025 a todos. O possível.

sábado, outubro 26, 2024

Marco Paulo

A quantidade de posts e homenagens a Marco Paulo dá bem conta a importância musical que teve nas últimas décadas. Por muito que dissessem que era rústico, piroso, etc, teve um sucesso musical brutal como poucos neste país e de certa forma era um ícone social dos últimos 50 anos (talvez agora nem tanto, mas a extensa trunfa era só por si icónica). E era uma personagem, com aqueles caracóis, o menear do microfone e algumas atitudes um pouco irritantes de "Diva", que também demonstrou em algumas exibições mais recentes. Em tempos disseram dele que "era a maior fraude do país". Se era, geriu-o com inteligência e calculismo.

Vi-o em actuação uma única vez, em Caminha. Mantinha a pose ensaiada, mostrava a devoção que sempre o acompanhou e, facto inegável, tinha uma voz incrível - essa não era fraude nenhuma. E o certo é que encheu completamente a praça central da vila.
Estava muito longe de ser um fã ou simpatizante, mas só por pedantismo se pode negar o impacto social e cultural que teve durante décadas. As notícias recentes tornaram a sua morte pouco esperada. Que tenha enfim encontrado Nossa Senhora, pela Qual nutria uma imensa devoção.










terça-feira, maio 15, 2018

Isto era mas é tudo para "branquear"


Sem querer passar por áugure, a fraca votação da canção portuguesa do Eurofestival da Canção não era propriamente imprevisível. Quem achou que tinha alguma hipótese de ganhar que se acuse. Porque para isso, em primeiro lugar, seria bom saber cantar. A música nem era má de todo - não era pior do que muitas das que se apresentaram a concurso, incluindo a vencedora, a que Salvador Sobral se referiu sabiamente como sendo "horrível" - mas a interpretação, com miados e sem conseguir chegar ao fim das notas, era sofrível.
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Mas escapam-me os critérios para apurar os vencedores: em primeiro lugar ficou uma canção pop cantada em inglês, de uma israelita gordinha vestida de gueixa (deve ser por isso que estavam sempre a falar de "diversidade"), que parece que versava sobre a igualdade das mulheres, e os direitos sociais, e em segundo uma cantiga fogosa (tanto que o título era Fuego), de uma cipriota com silhueta agradável e uma coreografia a tentar passar por uma Shakira do Levante, talvez por ser proveniente da "Ilha de Afrodite". Fosse eu a decidir e ficavam mais cá para o fim, ao contrário das músicas candidatas de Itália, Áustria ou Letónia, mas como sou um leigo na matéria tenho de me render às evidências. Não há como uma vitória portuguesa para nos dar algum interesse pelo evento.


Entretanto, e como o Luís já recordou, alguns "activistas", entre os quais o sempre pronto Bloco de Esquerda, encetaram uma campanha de boicote à música de Israel, porque esta, apesar de apelar a valores que à partida seriam caros aos bloquistas, era "uma forma de branquear a opressão do povo palestiniano  e a acção terrorista de Israel a nível internacional". Para além disso, consta que a autora esteve na marinha israelita (previsivelmente no tempo obrigatório de serviço das forças armadas israelitas), cuja missão parece que é "manter a Faixa de Gaza sob um bloqueio cerrado, manter o porto de Gaza bem fechado, manter a economia de Gaza totalmente paralisada e a população à beira do desastre humanitário total". Pior: a cantora entretinha os marinheiros com as suas músicas (o que já de si é um indício à notória cultura patriarcal e machista), em especial de um barco que anos mais tarde dispararia sobre palestinianos em Gaza, o que a torna cúmplice, por conhecimento prévio, desses crimes futuros.


A música, como se sabe, ganhou com os votos do público, indiferente à vileza da cantora, ao branqueamento dos crimes de Israel e aos sábios avisos dos pupilos de Catarina Martins (perdão, pupilxs, que como se sabe ali não há diferenças de género). Felizmente que se tratava do Bloco, feroz adversário de todos os preconceitos e fobias, senão poder-se-ia pensar que se tratava de puro anti-semitismo. Nunca a amálgama dos movimentos que em tempos aclamavam Mao, a Albânia e Trostky, esse judeu, poderia ser anti-semita.


O problema é que a vitória de Israel no eurofestival dá-se numa altura em que o país atacou posições iranianas em plena Síria e nas vésperas de completar setenta anos. Teme-se que o entusiasmo e os festejos provoquem mais fogo de artifício que transborde de novo para lá da fronteira com a Síria. E Benjamin Netanyahu, como já se percebeu, é um grande apreciador deste tipo de fogo de artifício.

segunda-feira, março 05, 2018

Sobre o Festival da Canção


Pela primeira vez desde os meus dez ou onze anos (saudades dos Da Vinci) dei alguma atenção ao Festival da Canção. Boa ideia, a de o realizar em Guimarães. E houve algumas boas canções e interpretações. Por isso mesmo, é ainda pior que a vencedora tenha sido uma rapariguinha com péssima voz que nem sequer consegue chegar ao fim das notas. Depois da vitória dos Sobral, é bem provável que regressemos aos tradicionais últimos lugares da geral. E em segundo lugar ficou um tipo com uma canção melosa que se destacou por responder aos jornalistas enquanto comia uma banana, e que notoriamente não sabe distinguir entre a excentricidade e a falta de educação. Acho que tão cedo não me apanham a seguir o Festival.

quinta-feira, maio 18, 2017

13 de Maio de 2017


O dia 13 de Maio último, dia do centenário das Aparições de Fátima, vai ficar gravado na memória dos portugueses por muitos e bons anos. Afinal de contas, conjugaram-se os famosos "3 Fs", na sua melhor verão, e não na caricatura depreciativa com que normalmente são chamado à baila.

Mas essa conjugação só se tornou possível uns três dia antes. Se todos os momentos das comemorações de Fátima estavam previstos, e se não houvesse surpresas, tudo correria bem, já a possibilidade do Benfica conquistar o inédito tetra já neste Sábado, precisamente no 13 de Maio, só se colocou quando acabou o jogo em Vila do Conde, no Domingo anterior. E na quarta-feira, a meio da semana, Salvador Sobral qualificou-se para a final do Eurofestival da canção, com as apostas a darem-lhe boas hipóteses. Começou-se a prever que poderia ser um 13 de Maio especial, mesmo para além de Fátima.

Das celebrações pouco há a dizer, já que as palavras não descrevem suficientemente as emoções. As diversas manifestações de Fé, a chegada do Papa a Portugal, celebrada nos ecrãs espalhados no santuário como se fosse um golo marcado num estádio, a chegada ao recinto, o silêncio que se instalou por momentos quando Francisco se encontrava frente a frente com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, e que se repetiria à noite na feérica e lindíssima Procissão das Velas. E no dia 13, volvidos exactamente cem anos sobre os primeiros acontecimentos naquele local, a canonização de Jacinta e Francisco (com a feliz coincidência, mas só mesmo isso, de terem apelidos iguais aos do actual Bispo de Leiria-Fátima, o anfitrião e meu antigo professor de Mundividência Cristã), a a Procissão do Adeus, com o Papa visivelmente comovido, antes do regresso a Roma. a chuva, que tinha parado na véspera, voltou a cair mal sua Santidade deixou solo português.

À tarde, o nervosismo com a recepção ao Vitória de Guimarães. Sem razões para isso. Exibição imperial do Benfica e o inédito tetracampeonato. Mas disso falarei à parte.

À noite, ainda com as comemorações do título, a notícia do triunfo de Salvador Sobral, a primeira vez que uma música de Portugal ganhou a Eurovisão. Cinquenta anos de fiascos e ténues esperanças vingados com a maior pontuação de sempre. Confesso que há já largos anos que não ligava ao evento. Mais: a primeira vez que vi Sobral a cantar Amar pelos Dois não gostei nem da música nem da interpretação, e achei o intérprete estranhíssimo, com aquele visual homeless-chic e aqueles gestos que davam ideia de graves problemas motores. Ou seja, estive longe de "sempre ter acreditado que ele ia ganhar". Com o tempo, vieram as revelações sobre os seus problemas de saúde, as suas preferências musicais, e a sua ainda incipiente carreira, e aos poucos conciliei-me. Na noite da Eurovisão vi a sua entrada, mas já não assisti em directo à notícia da sua vitória, mais embrenhado nas comemorações do Tetra (consegui ver a tempo o seu dueto, aliás muito justo, com a irmã Luísa, autora da música). Obviamente não pude deixar de aplaudir e agora até ouço a música com gosto, vejam lá.
Mas houve um momento incrível que juntou as vitórias do Tetra e dos Sobrais: quando no Marquês de Pombal o speaker de serviço interrompeu a algazarra para anunciar que "o grande benfiquista Salvador Sobral" tinha grande a Eurovisão. e depois dos aplausos, puseram Amar pelos Dois como música de fundo. E o Marquês, mais habituado a manifestações ruidosas, e que ainda há dois anos testemunhou (tal como eu, aliás) cenas de pancadaria e violência, calou-se para ouvir aquela suave melodia. Minutos inolvidáveis, esses de ouvir uma música tão delicada a pôr em silêncio milhares e milhares de adeptos eufóricos.
 
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PS: outra coincidência: é que a estátua do Marquês de Pombal foi inaugurada precisamente a um 13 de Maio, de 1934. Algum adepto não benfiquista que passasse pela imensa praça naquela noite poderia repetir o velho queixume dos republicanos sobre o regresso dos jesuítas: " Desce daí, ó Marquês, que eles já cá estão outra vez".

sexta-feira, outubro 14, 2016

The Times they are Changing, ou uma nomeação justa


A nomeação de Bob Dylan para o Nobel da Literatura deste ano apanhou a maioria de surpresa. A mim também, em parte, porque já noutros anos tinha ouvido falar na possibilidade de escritores de canções, com Dylan e Leonard Cohen à cabeça, poderem ganhar o galardão, mas era sempre uma hipótese remota. Mas houve algum choque pelo meio, mesmo nos membros da Academia. Percebe-se agora melhor a demora e os sucessivos adiamentos na atribuição do prémio.

Os jornais de hoje noticiavam largamente a decisão e interrogavam escritores, músicos e especialistas na matéria. As opiniões e as razões mais que se dividiam. Se uns se regozijavam, outros não escondiam a indignação, o desprezo e até algum sentimento de ultraje. E não faltaram as piadinhas da praxe nas sempre activas "redes sociais".Se alguma qualidade este prémio tem é o de pôr as pessoas novamente a discuti-lo. Até agora, era a relevância e a notoriedade do galardoado o maior motivo de discussão. Duas características que não faltam a Dylan, pelo que o que se debate agora é a própria natureza da literatura, ou, quando muito, o seu conceito. Para os mais críticos, a escrita de canções é algo de inteiramente diferente da literatura. Pertence ao domínio de outra arte, a música, e logo nas suas vertentes menos "nobres", nomeadamente a pop. A literatura "a sério" serão pois a poesia e a ficção em prosa. E vá lá, a dramaturgia, senão Beckett e outros teriam de ser desnobelizados.

Por muita estranheza que este prémio possa causar, não me parece que se afaste do essencial. Falamos de música, evidentemente, mas acima de tudo da poesia que se emaranha nos sons para firmar as suas letras. Bob Dylan é um letrista exímio, um poeta da música, uma inspiração para os seus contemporâneos e para as gerações seguintes, um activista social através da poesia e dos sons que a sua guitarra emana. Mudará talvez a forma como é exprimida, mas como escreveu o agora nobelizado, The Times They are Changing . as premissas para ganhar o prémio estão lá. E depois, se só se aceita o puro trinómio poesia/ ficção/dramaturgia, como é que Churchill, com as suas memórias de guerra, ou Bertrand Russell, podem ter ganho o respectivo Nobel da Literatura, já que as suas obras não se encaixam nessas premissas?

Não sou um fã de primeira água de Bob Dylan nem conheço a fundo a sua obra. Mas pelo que apesar de tudo sei, tanto do que criou como da sua vida, e não sendo uma absoluta surpresa, compreendo a opção. Antes isso do que uma escolha politicamente correcta por um qualquer obscuro autor da Suazilândia ou do Laos. Só tenho mesmo pena que os de língua portuguesa continuem a ser olimpicamente ignorados desde Saramago.
 E claro, posso mesmo dizer que já assisti ao vivo a uma actuação do agora galardoado, no cenário espantoso de Vilar de Mouros.

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2016 ao homem que nasceu Robert Allen Zimmerman é inteiramente justa.

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sábado, abril 23, 2016

Prince


O ano ainda não tem quatro meses completos e já viu partirem dois dos maiores gênios de sempre da música pop. Primeiro Bowie, agora Prince. É uma razia demasiado grande para tão pouco tempo.

Tal como o Camaleão, o Artista que durante algum tempo se fazia representar por aquele símbolo impronunciável não era das minhas grandes preferências musicais. Mas é impossível negar que era um geniozinho musical que conseguia misturar a pop, o soul, o funk, que mudava de rumo mesmo quando as coisas não pareciam correr bem, que estava constantemente a criar música, que serviu de inspiração a outros músicos, de Beck a Pedro Abrunhosa, passando por Sinead O´Connor e as Bangles (que lhe devem a escrita dos seus maiores êxitos), e que com Michael Jackson e Madonna, era uma das grandes estrelas pop legadas pela cultura norte-americana (na altura com suporte fundamental da MTV) dos anos oitenta, embora provavelmente mais talentoso do que os outros dois.
A prova do seu ecletismo e busca de outras formas musicais viu-se nos últimos anos, em que ainda experimentou o fado, na sua parceria com Ana Moura, o que o levou a tocar A Casa da Mariquinhas  acompanhando a fadista num festival em Portugal há não muito tempo.
Aí por 1993, na época dos grandes concertos de estádio, actuou em Alvalade, seguindo-se um concerto em Santiago de Compostela. Na altura estava de férias no Alto Minho, como sempre, e houve uma vaga ideia de gente mais graúda de ir vê-lo, no que teria sido o primeiro concerto pop a sério da minha vida. A coisa não se concretizou, mas lembro-me ainda de ver os cartazes a anunciar a vinda do músico de Mineappolis nas paredes de Vigo. Não o veria em concerto, mas fico com uma certa pena de não ter visto a sua actuação ao lado de Ana Moura.

quarta-feira, abril 15, 2015

Dez anos com a Casa da Música



A Casa da Música tem já dez anos. Alguns admiram-se com o facto de o edifício que mudou a rotunda da Boavista ter já alcançado uma década de idade, embora devessem admirar-se ainda mais com os seus quase 15 anos: afinal de contas, as primeiras previsões apontavam para a inauguração em Dezembro de 2000, nas vésperas do Porto se tornar Capital Europeia da Cultura de 2001. Tornou-se por isso mesmo um símbolo de despesismo, atrasos no cumprimento de prazos em infra-estruturas e esbanjamento de dinheiros públicos em obras de vulto, típicos dos anos de "vacas gordas". Esses anátemas, ligados a um certo sentimento de usurpação do espaço da antiga remise dos eléctricos na rotunda e à sua forma estranha e bojuda, enchendo completamente aquele espaço, levou a sentimentos de desconfiança e de desagrado de muitos.


Mas com os anos, a Casa da Música acabou por ser aceite e ocupar o seu lugar como símbolo do Porto contemporâneo. Começando, claro, pelos seus muitos e ecléticos concertos, que tanto misturam música erudita como música electrónica, Bach e John Cale, música sacra e os populares clubbings, que acabam com o bar/restaurante transformado em pista de dança ao som de um qualquer DJ que até pode ser Adolfo Luxúria Canibal, além de outras actividades (o bar dos artistas, com grandes janelas envidraçadas para a avenida, é muito procurada), sobretudo relaccionadas com a cidade, como o S. João. O prestígio que alcançou deve-se tanto aos seus programas como à arquitectura provocante de Rem Koolhaas. 
Nem tudo correu bem, mas a Casa da Música, dez anos depois da sua abertura, tornou-se um ex-líbris portuense e a instituição musical mais prestigiada do país. Poderemos sempre lamentar a destruição da estação dos eléctricos, que levou a enormes discussões no Porto, mas podemos também estabelecer comparações com o que aconteceu com o convento de S. Bento de Avé Maria e estação de S. Bento, que ocupou o seu lugar. Apesar da perda de um edifício de grande valor, construiu-se uma estação de comboios belíssima no seu lugar. O que se ganhou terá sido superior ao que se perdeu.


Ainda assim, podemos também pensar no que nunca chegou a ser. E se a localização ideal da Casa da Música não seria no Parque da Cidade, como chegou a ser defendido por Agostinho Ricca no seu projecto para um "palácio da música" naquela mesma zona.





quarta-feira, dezembro 31, 2014

Curiosidades e ironias que 2014 nos mostrou



Ao cair do ano olhemos rapidamente para outros pontos do globo. Para a Ucrânia, por exemplo, um dos países mais falados em 2014. E para a Rússia dos últimos tempos. Por muito hábil que seja o jogo de Vladimir Putin, a verdade é que os dias do presidente russo não estarão a ser muito calmos (ninguém sabe o que está para vir). E certamente não foram nada agradáveis naquele fim de semana de 22-23 de Fevereiro, em que viu o governo do seu aliado Viktor Yanukovitch a cair na Ucrânia. É certo que lhe permitiu anexar de facto a Crimeia e espalhar a desordem no Leste e Sul dos vizinhos, mas provavelmente preferiria, para já, que o anterior presidente se mantivesse em funções.

A verdade é que o derrube do anterior presidente coincidiu com o encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, para os quais a Rússia não se poupou a gastos nem dispensou espectáculos visuais impressionantes nem uma segurança apertadíssima, por causa dos recentes atentados em Volgogrado. Até então, a vida corria bem a Putin: a Rússia marcara pontos e ganhara legitimidade moral internacional no conflito da Síria, as Pussy Riot e Mikhail Khodorkovsky foram indultados, amaciando a dureza do regime russo, e os jogos correram bem, sem nenhum incidente e com comemorações em grande. Só uma pedra no sapato: naquele preciso fim de semana, o amigo Yanukovitch era derrubado e substituído por um governo interino adverso à Rússia. E as coisas começaram a descambar precisamente aí. O período de graça de Putin acabou aí (fora da Rússia, porque lá dentro a sua popularidade só aumentou).


Mas o aspecto simbólico que gostava de mostrar é outro, e permaneceu na festa de Sochi. Nas cerimónias de abertura, destacou-se o conhecidíssimo Coro do Exército Vermelho, a cantar uma divertida versão de Get Lucky, dos Daft Punk, uma das músicas mais tocadas dos últimos anos nas pistas de dança de todo o Mundo. Um espectáculo com piada, e que é um hino à globalização: um grupo de rapazes russos a cantar, numa cerimónia internacional no litoral do Cáucaso, uma música em inglês da autoria de um duo francês, um dos quais com apelido português.

E é precisamente daqui que vem a outra curiosidade: o elemento de origem lusitana é Guy-Manuel de Homem-Christo, francês de terceiro geração, trineto do jornalista e polemista republicano Homem-Cristo (pai), reconhecido na toponímia aveirense, e bisneto de Francisco Homem Cristo (filho), que se destacou por ter sido o primeiro grande intelectual e propagandista do fascismo em Portugal, e cuja biografia política, Do Anarquismo ao Fascismo, e da autoria de Miguel Castelo Branco. De tal maneira ganhou a confiança de Mussolini que se tornou logo um dos principais "embaixadores" do Duce para espalhar a nova doutrina pela Europa, e mesmo para organizar um congresso do fascismo em Itália. Morreu em 1928, em Roma, num desastre de automóvel, no decurso dessas actividades políticas, quando já vivia e tinha família em França.

O irónico disto tudo é que provavelmente o Coro do Exército Vermelho, surgido como o próprio nome indica no tempo da União Soviética, não imaginaria sem dúvida estar a cantar uma música da autoria do bisneto de um notório propagandista do fascismo, inimigo mortal (ou outra cara da moeda?) da URSS. E com toda a certeza Homem Cristo Filho, admirador e defensor do fascismo italiano, jamais pensou que um seu descendente directo comporia músicas em inglês que seriam cantadas pelo coro do Exército Vermelho. Não seria essa, com certeza, a divulgação que pretenderia, mas o certo é que um seu descendente com o seu nome acabou por se tornar mundialmente conhecido pela sua música, e não certamente pela sua ideologia política (nem pela sua cara, já que o duo há anos que só aparece em público mascarado).

Bom 2015 a todos.

terça-feira, dezembro 02, 2014

A justa consagração da identidade alentejana


O reconhecimento do cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO surpreendeu-me pela rapidez da aprovação. Julgava que ia demorar anos, que iriam esperar algum tempo depois de igual reconhecimento do fado, e que por comparação, a música do Alentejo estaria uns degraus abaixo. Mas olhando bem, vêem-se tantas tradições culturais a receber  a mesma "categoria", e algumas delas que até nos parecem muito mais irrelevantes, que este galardão afinal acaba por ser lógico e perfeitamente justo. Será o cante, com a sua melodia arrastada, melancólica e misteriosa, legado das passagens de árabes e judeus pelo território agora de Portugal, inferior, por exemplo, ao Carnaval de Alost? Talvez daqui a alguns anos outras tradições culturais musicais, como o vira, o fandango ou corridinho, tenham a mesma sorte. Para já, há que nos congratular com o facto do cante alentejano, ter sido ouvido em Paris por estes dias (há quem ache que pode ser um novo chamariz turístico, para além do sol e da praia), e por ser ensinado de geração em geração nas escolas, uma vez que na agricultura é coisa quase impossível. Um abraço a todos os alentejanos que o fazem ouvir, nos grandes auditórios de Paris ou nas tabernas de Serpa.



segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Bond girl à falta de melhor


Vi há tempos o último James Bond, Skyfall, e fiquei dividido. Por um lado, não faltam boas cenas de acção, incluindo uma explosão na sede do MI-6 (curiosamente, dias depois de ver o filme ocorreu em Vauxhall, em frente ao mesmo edifício, do outro lado do rio, um choque entre um helicóptero e um guindaste, que provocou dois mortos e levantou suspeitas de atentado aos serviços secretos), um vilão ambíguo e torturado, o tradicional londrino e a curiosa homenagem a Sean Connery, indo às próprias raízes de Bond (além de uma espécie de eterno retorno em círculo ao início da carreira).
Por outro, a quase completa ausência de Bond girls, absurda e imperdoável falha, por certo com medo de acusações "sexistas", os irritantes estados de alma de 007, demasiado "introspectivo",  e claro, uma vez mais o próprio Daniel Craig, demasiado louro, demasiado atarracado, demasiado carrancudo.
 
Porém, há uma coisa há que desempata o julgamento: o tema título, de Adele, é do melhor, senão mesmo o melhor, que já ouvi em toda a saga. E isso já ajuda a decidir pela compra do bilhete, embora o filme já esteja a dar as últimas nos multiplexes. Mas não há problema, mesmo que resulte melhor com o resto da fita e no grande ecrã, não é preciso aturar a carranca de Craig para a ouvir. Adele é definitivamente a Bond girl do filme.

 

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Um Credo punitivo...


...segundo Johnny Cash

domingo, julho 15, 2012

Música nos jardins



E a propósito do recente trabalho de Miguel Araújo (Jorge), o próprio vai estar esta tarde nos jardins do Passeio Alegre a dar música aos transeuntes e a todos os que se disponham a lá ir, em mais uma sessão do Porto Sunday Sessions, que já vai na terceira sessão e que funcionará até ao fim do Verão. Tardes de Domingo passadas em jardins portuenses, com um DJ diferente em cada semana, colocando música mais alegre ou mais relaxante. Este mês as sessões funcionarão no Passeio Alegre, passando para o jardim de S. Lázaro em Agosto e para o Parque da Cidade em Setembro. À excepção deste último espaço, a música será emitida dos coretos dos respectivos jardins, verdadeiros pontos de referência, tal como acontecia outrora, quando era trivial as famílias dirigirem-se aos jardins públicos para ouvirem as bandas tocarem nesses grandes quiosques musicais. Os coretos voltam agora à sua função original, de espaços musicais, se bem que de forma ligeiramente alterada. Como diria o Príncipe de Salina, "é preciso que mude uma ou duas coisas para que tudo permaneça igual"


sábado, julho 14, 2012

Novas músicas portuguesas



A música portuguesa continua a demonstrar uma saudável avalanche criativa e a oferecer-nos também pequenas pérolas visuais. Exemplos recentes:
Os Capitães da Areia, espalhando ao redor o seu Verão Eterno, trazem-nos agora As Raparigas da Minha (sua?) Idade, num ritmo de electro-roque quase em looping, provocador e dançável.


Os Salto prosseguem no seu caminho para o estrelato e laçaram o single Deixar Cair, também numa toada entre a electrónica e o roque (riffs bem destacados), com um video irresistível composto por umas dezenas de personagens sub-30.


Uma das músicas mais tocadas nas rádios nacionais nos últimos meses, Os Maridos das Outras. Num intervalo entre dois discos dos Azeitonas, do qual é compositor e co-vocalista, Miguel Araújo Jorge subtraiu o último nome, ficando simplesmente Miguel Araújo (depois de usar o pseudónimo "Mendes" nos duetos com João Só), e lançou o disco Cinco Dias e Meio. As músicas revelam letras irónicas e agridoces, entre a observação da pequena vida contemporânea urbana e uma certa nostalgia de tempos dos fins da infância, que será familiar a muita gente que ande entre os trinta e os trinta e cinco. Fica aqui o video, que perde em qualidade o que ganha em genuinidade, de Os Maridos das Outras em versão ukelele.

quinta-feira, maio 03, 2012

O regresso da Sétima Legião (no Porto)


Emotivo regresso da Sétima Legião aos grandes palcos, na Casa da Música, no Domingo. É verdade que os seus elementos ocasionalmente dão uns concertos para os amigos no Frágil, no Bairro Alto, mas aí não se pode falar propriamente em "palcos". Com o pretexto dos trinta anos para voltar à "estrada", desejo há muito alimentado por Rodrigo Leão (o membro da banda que mais sucesso obteve fora dela, a solo ou nos Madredeus), o grupo pop-rock-folk-mistico-nacionalista que tanta sensação causou nos anos oitenta/noventa levou uma data de gente, onde se inclui o autor destas linhas, a recebê-los na cidade onde, segundo reza a lenda, ouviram os primeiros aplausos de carreira, muito embora sejam lisboetas até à medula. Passaram hinos como Noutro Lugar, Sete Mares, Por Quem não Esqueci, e lá mais para o fim, a primeva Glória, escrita por Miguel Esteves Cardoso, quanto o autor das letras ainda não era o actual chefe de gabinete de Passos Coelho. O público pouco se aguentou nas cadeiras almofadadas e aplaudiu longamente, de tal forma que obrigou a banda a um segundo encore, com direito a repetição de algumas músicas, que fechou da melhor forma um concerto que começou algo tímido mas cujo tom aumentou a pouco e pouco. 

Pedro Oliveira mantém a sua voz  grave (melhor ao vivo do que pensava), Paulo Abelho continua a saltitar pelo palco com instrumentos de percussão, Rodrigo Leão é canhoto e Francisco Ribeiro de Menezes toca umas teclas, e os músicos por vezes trocavam instrumentos entre si. O ecletismo dos sons, uma das imagens de marca da Sétima Legião, mostrou-se de forma vincada, com a entrada de um grupo de gaiteiros e de bombos, juntando-se às guitarras eléctricas, bateria, sintetizadores, outros gaitas de foles, acordeões e adufes. Faltaram as versões de músicas de Zeca Afonso, que teriam ligado bem com tais instrumentos, e também as amostras da fase "electrónica" do grupo, presente no último disco de originais. Seriam mais umas cerejas no topo, mas o bolo já estava bem assim. O grupo estava realmente animado, talvez por contágio do público que o obrigou a regressar ao palco. Parece que já anunciaram novo regresso ao Porto, lá para o fim do ano, significando que a coisa pegou mesmo. Mas a Casa da Música, muito embora não seja talhada para concertos mais "mexidos", proporcionou as condições acústicas ideais para se desfrutar de toda a panóplia sónica dos "sete rapazes da Avenida de Roma", como lhes chamava Rui Reininho (eu contei nove). A volta da Sétima Legião aos grandes palcos nacionais é das boas notícias musicais do ano.



                      
                          (Foto retirada do Facebook, os autores que me desculpem)

terça-feira, novembro 29, 2011

Fado


Não sei bem se a distinção do Fado como Património Imaterial da Humanidade será assim tão boa. À partida é, mas depois dos festejos, o que restará? E não poderão estas distinções feitas "em série" acabar por nivelar tudo, retirando-lhe importância? É uma questão que terá resposta daqui a uns dez anos. Até lá, saudemos a qualificação e ouçamos.


domingo, outubro 30, 2011

Questão que me ocorreu neste tempo outonal

O que é feito de João Coração e do seu neo-trovadorismo?

sexta-feira, julho 29, 2011

Auto-destruição anunciada




A morte de Amy Winhouse surpreende à primeira, mas apesar da "bomba", é perceptível após a surpresa inicial. A cantora já vinha num longo processo de auto-destruição há muito tempo (lembram-se do fiasco no Rock in Rio de Lisboa, há três anos?). O seu desaparecimento é de certa forma um corolário lógico, indiciado pelas tristes figuras, pelas passagens pelas clínicas e pelos apelos da família para que a deixassem. Nunca fui grande fã de Amy nem dos seus despropósitos, mas não posso deixar de sentir piedade por ela. É o caso, já clássico, da incapacidade de fazer conviver o talento (e a voz) com a fama e o sucesso mediático. Amy pagou caro. Mas de certa forma, premonitoriamente, ela recusou o afastamento dos vícios e do caminho para a ruína, quando na sua canção mais conhecida dizia não à reabilitação. Paz à sua Alma, já que em vida teve pouca.

quinta-feira, maio 19, 2011

Boataria

Ouvi falar, nos últimos dias, da "ausência do Benfica de Dublin". Quem disse?


segunda-feira, maio 02, 2011

G produzido em série


Houve tempo em que pensei que G era um meio álbum limitado oferecido pel´Os Golpes a todos os que se dispuseram a ir ver a apresentação ao vivo de Vá Lá Senhora, com Rui Pregal da Cunha vestido à Napoleão e tudo. Pensava que era um dos felizes contemplados com o CD em capa de couro, com o monograma "G" gravado e os esboços da ponte Luiz I no próprio disco, recordação de uma noite superlativa no Hard Club. E que mais tarde seria uma recordação rara de um registo de uma banda marcante inícios dos anos 10 deste século.



Acontece que Vá Lá, Senhora galgou Youtubes, passou por galas de televisões e pela Operação Triunfo, até que chegou às telenovelas. Aí, Os Golpes renderam-se aos pedidos das massas e colocaram G à venda nas lojas. Agora, todo aquele que estiver munido de menos de 10 €uros pode ficar com o suporte materal e mais um versão de Paixão, dos Herois do Mar. Acabou-se a exclusividade de que pensava ser um dos raros detentores. Mas fica pelo menos o consolo de saber que capa em pele, só os nossos. O disco agora lançado não tem a beleza gráfica nem o pormenor deluxe do álbum primordial. Há que separar o artefacto original do produto industrial em série.