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sexta-feira, dezembro 16, 2016

Recordações e curiosidades dos mancusianos em Portugal

A recordação de concertos dos Pixies e Cure levou-me um que vi dos James, há dois anos, por esta altura, no pavilhão multiusos de Guimarães, por ocasião do início das festas Nicolinas. Não era a primeira vez que os via, não achei que tivesse sido o melhor concerto da minha vida, embora o público tivesse enchido o recinto, mas teve a sua piada. Não tanto, provavelmente, como o outro que tinha havido na véspera, em que a banda inglesa, muito habituada a vir a Portugal (e que até tem elementos a viver cá na terra), tinha dado em pleno átrio da estação S. Bento

Os James, de Manchester, são uma banda com mais de trinta anos e com uma discografia de respeito. Nos seus primórdios, Morrissey disse serem o melhor grupo do Mundo, mas ficaram aquém do que valiam. Talvez por serem perseguidos por duas estranhas maldições: uma é a de que (defendiam eles) os títulos dos álbuns se reflectiam na vida da banda, pelo que decidiram fazer um chamado Millionaires (embora as vendas nem tivessem sido nada do outro mundo). A outra é a de que alguns grupos que fizeram as primeiras partes dos seus concertos acabariam por se tornar maiores do que os James. A lista é elucidativa: Nirvana, Radiohead, Coldplay, Stone Roses (aqui a "grandeza" de um grupo que só lançou dois álbuns é mais duvidosa)...Não sei se houve outros, mas os exemplos atrás mencionados parecem confirmá-lo. Assim, se algum grupo quiser alcançar a fama e a glória, é fazer as primeiras partes dos James, já que as probabilidades de êxito são grandes, mesmo nestes tempos de desmaterialização e "partilha" (o roubo) de música, em que já não se vendem milhões de CDs.

Em todo o caso, honra aos James, que continuam a lançar discos com regularidade, contra ventos e marés. Fiquem com um pequeno excerto do concerto que deram no átrio de S. Bento, entre azulejos que contam a história de Portugal e uma pequena multidão em delírio.

sexta-feira, novembro 25, 2016

Ilustres visitas a Portugal em dias seguidos



Esta semana correu bem no que toca a concertos de pop-rock "independente": tivemos a visita, em dias seguidos, dos Pixies e dos The Cure. Os primeiros ao Coliseu do Porto, os segundos ao Pavilhão Atlântico (agora com outro nome qualquer) em Lisboa. um luxo que em tempos mais recuados daria origem a histerismos.

Como algumas reportagens dedicadas ao assunto salientaram, tanto uma como outra vivem mais do fulgor do passado do que de rasgos do presente. Mas além de serem lideradas por vocalistas carismáticos e bizarros, tiveram imensa influência nos anos 80 e 90. Os Cure do desgrenhado e maquilhado Roberto Smith, como guias do movimento gótico, embora menos soturnos do que a maioria e com capacidade para criar luminosas e magníficas músicas pop, autênticos e respeitosos dinossauros entre as bandas britânicas, dos que nunca interromperam a carreira para se voltarem a juntar anos mais tarde em tournées de "saudade". Os Pixies, é certo, fizeram-no, quando mais de dez anos de se terem separado se reuniram de novo, até hoje. O grupo de Boston, regido por Francl Black (ou Black Francis, apesar de se chamar Charles) produziram um rock poderoso e melódico ao mesmo tempo, que se não teve imediatos reflexos comerciais, ao menos influenciou outros grupos e movimentos. É espantoso pensar como os Nirvana quiseram fazer um disco que soasse à Pixies e criaram Nevermind, que vendeu muito mais do que a soma de todas as obras do grupo de Franck Black, seus inspiradores, e se tornou o ex-líbris do Grunge e Kurt Cobain em estrela rock, contra a sua vontade (sabemos no que deu). A verdade é que os nirvana já lá vão e os Pixies rodam por aí.

Estive tentado em ir ver os norte-americanos na não sei quantésima vez que vêm a Portugal em dez anos, mas uma pesada constipação dissuadiu-me. E os britânicos não mereceriam a viagem a Lisboa. Até porque felizmente já tive oportunidade de os ver, a uns e a outros, em anos seguidos e em terras do Alto Minho, em dois concertos memoráveis (se consultarem os arquivos encontrarão a descrição de cada um deles, incluindo a frustração de não ter visto a estreia dos Arcade Fire na noite dos Pixies - sim, já actuaram em Portugal NA mesma noite), com os Queens of the Stone Age pelo meio). Mas com a queda que têm por concertos e com o apreço pelo nosso país, é natural espero, que os volte a ver. Cá os espero, meus caros.

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sexta-feira, agosto 17, 2012

Ornatos vivos e pérolas arruinadas


É hoje que os Ornatos Violeta retornam aos palcos, no acolhedor anfiteatro de Paredes de Coura. Um regresso há muito esperado, como o comprovam os quatro concertos agendados para Outubro, no Porto e em Lisboa, há já algum tempo esgotados, mesmo com reforço de datas. No Alto Minho também não deve faltar público. Os Ornatos marcaram o fim dos anos noventa, e embora tenham lançado apenas dois álbuns, tornaram-se uma banda de (enorme) culto, ao mesmo tempo que se pulverizavam em inúmeros outros projectos, sobretudo do seu frontman, Manuel Cruz. Não deixarão certamente de tocar músicas como Ouvi Dizer, Capitão Romance (provavelmente sem o dueto com o vocalista dos Violent Femmes), a Dama do Sinal ou Punk Moda Funk.

Esta última, primeira faixa do primeiro álbum do grupo, abre logo a matar (com um corrosivo "quero mijar"), revelando a primeira faceta dos Ornatos, mais rocker, mais subversiva, com um vídeo ainda de qualidade incipiente. Mas chamou-me a atenção para um pormenor, o do lugar onde a banda encena a música.

 

Talvez pelo seu aspecto já decadente, escolheram a casa da quinta do Montado, ou Marques Gomes (nome do construtor), um palacete hoje decrépito no alto de uma colina em Canidelo, Gaia, perto da Afurada, bem visível da marginal da Foz do Douro. Não faltam na net imagens do exterior e dos interiores do palacete arruinado, com uma aura de imponência classicista, que, talvez pelo seu aspecto, tem, como não podia deixar de ser, fama de ser assombrado (pelo menos a acreditar num livro recente sobre o assunto).

Porque terão escolhido os Ornatos violeta semelhante cenário para o seu primeiro videoclip? É difícil de dizer. Mas há um interessante contraste entre as músicas corrosivamente juvenis do fim dos anos noventa e esta jóia arruinada. Talvez quisessem tomar um cunho de certa marginalidade e usassem um espaço devoluto, para acentuá-la, ainda que com requinte. O que é certo é que os Ornatos voltaram à vida e uma legião de fãs correm a assistir. Entretanto, todos podem também "assistir" ao palacete, e sem pagar bilhete. Mas neste caso, não se trata da sua ressureição, mas da morte lenta. O edil Luís Filipe Menezes, sempre pronto a abrir a bolsa, não tem nenhum plano para o local, ou já só pensa noutro edifício com uma torre, mas do outro lado do rio, no alto não de uma colina mas da Avenida dos Aliados?


quinta-feira, maio 03, 2012

O regresso da Sétima Legião (no Porto)


Emotivo regresso da Sétima Legião aos grandes palcos, na Casa da Música, no Domingo. É verdade que os seus elementos ocasionalmente dão uns concertos para os amigos no Frágil, no Bairro Alto, mas aí não se pode falar propriamente em "palcos". Com o pretexto dos trinta anos para voltar à "estrada", desejo há muito alimentado por Rodrigo Leão (o membro da banda que mais sucesso obteve fora dela, a solo ou nos Madredeus), o grupo pop-rock-folk-mistico-nacionalista que tanta sensação causou nos anos oitenta/noventa levou uma data de gente, onde se inclui o autor destas linhas, a recebê-los na cidade onde, segundo reza a lenda, ouviram os primeiros aplausos de carreira, muito embora sejam lisboetas até à medula. Passaram hinos como Noutro Lugar, Sete Mares, Por Quem não Esqueci, e lá mais para o fim, a primeva Glória, escrita por Miguel Esteves Cardoso, quanto o autor das letras ainda não era o actual chefe de gabinete de Passos Coelho. O público pouco se aguentou nas cadeiras almofadadas e aplaudiu longamente, de tal forma que obrigou a banda a um segundo encore, com direito a repetição de algumas músicas, que fechou da melhor forma um concerto que começou algo tímido mas cujo tom aumentou a pouco e pouco. 

Pedro Oliveira mantém a sua voz  grave (melhor ao vivo do que pensava), Paulo Abelho continua a saltitar pelo palco com instrumentos de percussão, Rodrigo Leão é canhoto e Francisco Ribeiro de Menezes toca umas teclas, e os músicos por vezes trocavam instrumentos entre si. O ecletismo dos sons, uma das imagens de marca da Sétima Legião, mostrou-se de forma vincada, com a entrada de um grupo de gaiteiros e de bombos, juntando-se às guitarras eléctricas, bateria, sintetizadores, outros gaitas de foles, acordeões e adufes. Faltaram as versões de músicas de Zeca Afonso, que teriam ligado bem com tais instrumentos, e também as amostras da fase "electrónica" do grupo, presente no último disco de originais. Seriam mais umas cerejas no topo, mas o bolo já estava bem assim. O grupo estava realmente animado, talvez por contágio do público que o obrigou a regressar ao palco. Parece que já anunciaram novo regresso ao Porto, lá para o fim do ano, significando que a coisa pegou mesmo. Mas a Casa da Música, muito embora não seja talhada para concertos mais "mexidos", proporcionou as condições acústicas ideais para se desfrutar de toda a panóplia sónica dos "sete rapazes da Avenida de Roma", como lhes chamava Rui Reininho (eu contei nove). A volta da Sétima Legião aos grandes palcos nacionais é das boas notícias musicais do ano.



                      
                          (Foto retirada do Facebook, os autores que me desculpem)

terça-feira, novembro 15, 2011

Aniversário no Coliseu

 

No concerto que os GNR deram no último Sábado, no Coliseu do Porto, para comemorar os seus trinta anos, notou-se a arriscada aposta em tocar alguns clássicos alterados do seu último Voos Domésticos, um álbum aconselhado para ouvir com headphones nos ouvidos (e em viagem, segundo me disseram). Pronúncia do Norte, por exemplo, acabou com um ritmo chill out mais digna de Hall de hotel do que da melodia poética telúrica que emociona plateias(que saudades de Isabel Silvestre!). Podia ter sido uma sessão desenxabida, que não ficaria na memória, e pena seria, já que a banda comemorava três décadas entre os "seus". Mas o final salvou tudo o resto, Dunas pôr milhares de pé, e mais um punhado de clássicos antigos e modernos deixou o público em comunhão com a Rui Reininho e companheiros, que despediram-se a brindar com espumante. Daqui a dez lá estaremos para comemorar os quarenta (com direito a nova placa no átrio do Coliseu?), mas esperemos que as músicas de sempre não estejam travestidas. Os GNR, esses, pela energia que mostraram, provavelmente estarão iguais.


(Fotografias recolhidas graças a uma Zona Franca)

terça-feira, maio 24, 2011

Do isqueiros ao i-phone


No soberbo concerto que os National deram ontem no coliseu, não faltou a já previsível comunhão da banda com o público, com o vocalista Matt Berninger a percorrer as coxias e a ir até ao fundo da sala, convivendo efusivamente com a plateia em delírio, e o final acústico, um clímax sereno. Mas dei-me conta de uma marca dos tempos: os tradicionais isqueiros, que costumavam acompanhar as baladas, desapareceram, substituídos pelos telemóveis e i-phones. Não há concerto hoje que não tenha um testemunho de três minutos. As luzes permanecem, mas sutentadas em baterias e digitalismos, e não mais em combustível. Terríveis tempos tecnológicos, estes.




Apenas ficou a faltar isto:

sábado, abril 09, 2011

Psicadelismo na Laguna Veneta


A propósito do espectáculo The Wall live, que passou por Lisboa há dias, sem que tivesse podido ir vê-lo, perdendo assim muito provavelmente a última oportunidade de ver ao vivo o que restava dos Pink Floyd e seus shows únicos, lembrei-me de um exemplar da megalomania do supergrupo britânico.
No Verão de 1989, os Pink Floyd actuaram em Veneza, para encerrar a tourné do álbum A Momentary Lapse of Reason (aquele da capa da praia com camas a perder de vista). Não na cidade, obviamente, tendo em conta o equilíbrio da Serenissima sobre a laguna, mas num palco-barcaça entre a praça de San Marco e a Giudecca. Entretanto tinha saído Roger Waters, o artífice de The Wall, e David Gilmour, que era já o principal vocalista, liderava agora o grupo.

Naturalmente, acorreram autênticas multidões para presenciar o inédito espectáculo, que reerguia assim o esplendor cénico da cidade dos Doges, há muito que reduzida a uma peça de museu. Ao anoitecer, o psicadelisdmo e o habitual sistema de luzes da banda invadiu a laguna, e o público também. Apinhados na Piazza, nas gôndolas, nas lanchas e demais estruturas flutuantes, centenas de milhares de pessoas viram os Pink Floyd actuar sobre as águas.

O evento seria filmado e ficaria testemunhado em VHS e DVD. Todos os que o viram ficaram com uma recordação memorável. E ao show seguiu-se um enorme fogo de artifício, sobre as águas da laguna. Mas a factura seria pesada para os venezianos: o lixo acumulado no dia seguinte era imenso, alguns canais viraram autênticas latrinas, e acima de tudo a concentração de tamanha multidão teve o efeito mais temido: as estruturas da cidade afundaram-se cerca de 3 centímetros. A partir de então, nunca mais foram permitidos espectáculos tão desproporcionados na Serenissima. A megalomania dos Pink Floyd ficou assim ligada ao afundamento de Veneza e à restrição de grandes concertos.

Como já se disse, ficou o registo em video. Nunca o vi, a não ser em excertos do Youtube, mas conto assistir qualquer dia a uma transmissão.


sexta-feira, outubro 08, 2010

G revelado no Porto

Já tinha deixado aqui no blogue a música, mas entretanto surgiu o respectivo (e soberbo) videoclip do novo single dos Golpes, Vá Lá Senhora, onde têm a companhia de Rui Pregal da Cunha, o carismático vocalista e showman dos Heróis do Mar. Para apresentar as suas novas músicas, Os Golpes deram dois concertos, em Lisboa e no Porto, onde se distribuiu em exclusivo o seu novo "meio CD", intitulado muito simplesmente G, em edição limitada e capa em pele, com a supracitada Vá Lá Senhora logo no início.
Num Hard Club novo em folha, aconchegado no mais que centenário mercado Ferreira Borges, que domina o Infante e a Bolsa, a banda ofereceu um espectáculo que começou morno e acabou em êxtase. Também acabou alagado em suor, por causa da falta de refrigeração, mas nem isso impediu que fosse uma hora e tal extremamente bem conseguida, que teve o seu ponto alto quando Rui Pregal da Cunha (com um traje napoleónico!) entrou em palco, para entoar o novo single, e ainda, como brinde, a velhinha Paixão, dos Heróis do Mar. Como se pode imaginar, a sala ficou ainda mais ao rubro. E deu para perceber que Os Golpes já têm um pequeno culto atrás de si, e que a sua pose revivalista e as suas referências dos anos oitenta - uma delas, por sinal, estava ali em carne e osso - os vão continuar a caracterizar e acompanhar, na sua Marcha levada pela nova vaga de música pop cantada em português.

Ah, e o "meio cd" limitado a quem fosse aos concertos, com o nome gravado no couro, G, além de ser muito bonito a nível estético (o cd em si parece personalizado para aquele concerto, com uma ponte D. Luiz gravada), será com certeza um dia uma peça de colecção, extremamente difícil de encontrar. Espero conservá-lo, nesses tempos, para me recordar deste concerto dos Golpes numa noite chuvosa, no velhinho Ferreira Borges.


sábado, outubro 02, 2010

Os tempos mudam, o pop-rock também
Coimbra está uma rebaldaria inédita por causa do duplo concerto dos U2. É certo que os Rolling Stones também já por lá passaram (até inauguraram o estádio), mas era só uma noite. Desta vez, o quarteto de Dublin leva dezenas de milhares à Lusa Atenas, para ver o seu palco aracnídeo e o espectáculo megalómano. Nunca vi os U2, e ainda tive ideias de ir a um dos concertos, mas a loucura em seu redor (até com fanáticos a querer ir aos dois dias), a falta de paciência para estar horas para comprar um bilhete para daí a um ano e o elevado preço dos que restavam tirou-me quaisquer veleidades. Fico por isso à espera de futuras digressões, com esperança que depois de Vilar de Mouros, em 1982, e as tournées da Zoo TV, Pop, a de 2005 e esta, queiram regressar e haja mais bilhetes disponíveis.
Só que o cartaz de concertos de bandas pop-rock e afins em Portugal não se fica pelos U2. Não faltam espectáculos para todos os gostos nos tempos mais próximos. E se os U2 têm a mesma popularidade que há vinte anos, outros há que decresceram, embora o seu nome continue a arrastar multidões, casos do R.E.M., que mereciam mais, e dos Gun n´Roses. Como muitos se recordarão, os Guns foram a banda mais popular de início do anos noventa, e levaram milhares a Alvalade, em 1992, num concerto atribulado. Agora, Axel Rose e nova companhia regressam a Portugal , ao Pavilhão Atlântico, no dia 6. Se fosse há 15 anos, provavelmente precisariam de um dois estádios. Muita gente deve dar graças a Deus e ao passar dos tempos: é que se os concertos das duas bandas coincidissem na mesma semana em princípios dos anos noventa, teriam de fazer contas à vida e lá se ia metade do orçamento nos primeiros dias do mês.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Inspirações no Danúbio


Revi o Concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena, emissão que tento nunca perder mesmo que tenha de gravar. É verdade que é sempre igual, do edifício à narração de Eládio Clímaco, com os eternos japoneses a assistir, mas já se tornou um hábito de estimação de boas vindas ao novo ano. Quando a orquestra atacou o Danúbio Azul, a intemporal valsa de Johann Strauss (a que Kubrick emprestou uma memorável cena espacial), viram-se imagens do percurso do rio, desde o começo, a Floresta Negra, até ao seu termo, o Mar Negro, desdobrando-se na teia do delta. Só aí reparei no contraste entre as "cores" dos extremos do rio, e a da valsa que o imortalizou. Curiosa a razão porque terá invocado Strauss a cor azul, mas deve ser porque em Viena atinge por vezes uma coloração magnífica - quando não está cinzento. E provavelmente para dar um tom de encantamento à então capital do Império dos Habsburgos.


Danúbio é também o nome da opus magna do italiano Claudio Magris. Da(s) nascente(s) ao Delta, o professor de literatura alemã da Universidade de Trieste percorre todo o curso do rio e regiões circundantes, mesmo algumas mais afastadas, estudando a sua história, os seus povos, o seu espírito, entre a ocidental Alemanha e a margem leste da Europa, isto numa altura em que o Muro de Berlim ainda não tinha caído. É talvez o guia que melhor expõe a Mitteleuropa e a herança dos Habsburgos. O meu recente percurso na Roménia não levei guias, porque não os encontrei. Assim, socorri-me de Danúbio, tanto para ficar com uma ideia mais clara do país como para deixar as minhas impressões. O que aprendi da Transilvânia deve-se em muito a Magris.


Na parte referente à Roménia, falando do Banato, região cuja capital é Timisoara e que até há uns anos tinha uma colónia germânica apreciável, Magris referia-se a vários novos autores suabos de língua alemã. Entre eles, estava uma jovem escritora apenas conhecida localmente chamada Herta Muller. O italiano, que é todos os anos colocado como um dos grandes aspirantes a ganhar o prémio Nobel, dificilmente poderia imaginar na altura que aquela jovem e obscura romena de etnia alemã vivendo sob o regime de Ceausescu iria, mais de vinte anos depois, suplantá-lo na corrida para o prémio. É a lógica da atribuição do galardão a autores menos conhecidos, mas que têm a "sorte" de representar num determinado ano o povo certo ou de escrever no idioma indicado.





quarta-feira, outubro 28, 2009

Os Quais



Além de escritor, dramaturgo, colunista da bola e blogger, Jacinto Lucas Pires é agora também músico, ou mais exactamente vocalista de Os Quais, banda que divide com Tomás Cunha Ferreira, e que lançou este ano Meio Disco, com o selo da AmorFúria. Vi no outro dia na FNAC do Chiado, em Lisboa, a sua performance e os seus gostos musicais (e a sua colecção de vinyl), e achei uma certa piada. Pop simultaneamente etérea e saltitante, mas despretensiosa. Os videoclips, que também os há, são simples nos meios, mas imaginativos e com talento q.b. Em até há "violência gratuita", "romance", e clérigos pelo meio. Saramago bem se podia aproveitar disso.



quarta-feira, setembro 30, 2009

O regresso dos Green Day





Os Green Day passaram pelo Pavilhão Atlântico na Segunda-Feira. Trouxeram o seu carrossel punk/opera rock e deram um concerto que sem ser extraordinário teve bastantes momentos altos.
 
A banda de Billy Joe (sempre com o seu ar de louco e os seus olhos esbugalhados) marcou-me, como a muito, na adolescência. Em meados dos anos noventa, o que estava a dar era o fulgurante Dookie e as suas músicas incandescentes de três minutos, como Basket Case e When I Come Around. Havia a concorrência dos histéricos Offspring para ver quem dominava o "teenager punk rock" californiano e conseguia mais discos de platina.
 
Os Green Day continuaram no mesma caminho, com alguns momentos marcantes, mas já em ligeiro declínio, até aos anos 2000, em que apareceram a fazer as primeiras partes de concertos de bandas que eram meras cópias pueris deles próprios, como os Blink 182, e ainda vendo os Offspring mantendo o sucesso. Já quase todos se tinham esquecido deles quando resolveram inverter o rumo e lançar o disco de opera-rock American Idiot. Como se sabe, um sucesso retumbante: regresso aos primeiros lugares das tabeças de vendas, boas críticas musicais e imensos Grammys e MTV Awards. Em suma, o regresso da glória dos tempos de Dookie, mas em versão crescida. Ao mesmo tempo, os Offspring definhavam entre a sua berraria e os Blink e restantes clonagens de punk para adolescentes sumiam de cena.


Este ano lançaram novo disco, 21st Century Breakdown, que tal como o anterior ainda traz consigo a crítica à guerra ao Iraque, aos efeitos da Administração Bush e a parte da sociedade americana (o espírito punk não desapareceu por completo). Vieram agora mostrá-lo ao vivo, em Portugal. Era uma daquelas bandas que me apetecia mesmo ver, e já não o esperava, mas chegou um bilhete salvador à última da hora. Assim, juntaram-se milhares de nostálgicos dos anos noventa, meia dúzia de tipos de crista, correntes e roupa negra esfarrapada julgando estar na Londres dos anos setenta, e uma legião de teenagers (um até chegou a ir tocar ao palco e nem se deu nada mal) com variadas t-shirts dos artistas, além dos fãs dedicados de camisa preta e gravata vermelha, à Billy Joel. Ficou na memória a expressão de louco nos ecrãs gigantes do vocalista, que até lançou camisolas com um canhão, a pirotecnia, o entusiasmo do público e o fim do concerto, com a belíssima Time of Your Life tocada a solo, sob um único foco de luz. Ficou apenas a faltar, entre uma ou outra, a velha When I Come Around, que tanto passava nas rádios em 1995. E talvez uns minutos a mais de espectáculo.








A grande ausente do concerto

segunda-feira, julho 13, 2009

Maldição no Bessa?
O Boavista anda mesmo com azar. Num evento em que certamente ganharia alguns euros, o cancelamento do concerto dos Depeche Mode no âmbito do Festival Super Bock Super Rock é um autêntico balde de água fria. Claro que quase ninguém iria só por causa dos delicodoces Nouvelle Vague e das restantes bandas suporte. Pôr à última hora os estafados Xutos e os inócuos The Gift não deve ter amarrado lá muito público. Não sei se o Boavista seria compensado pelo número de bilhetes vendidos ou se teria uma verba fixa; na primeira hipótese, é mais uma desgraça a juntar ao rol interminável; na segunda, já seria o Bessa a emanar essa pouca sorte, qual maldição axadrezada. Há já muito que naquele estádio não acontece nada de bom. Exige-se rapidamente a água benta do Padre Carrara, ou se não for suficiente, um exorcista. Mas do mal o menos: não se lembrarem de chamar os Ban em lugar de Xutos e Gift já evitou desgraças maiores.

segunda-feira, abril 20, 2009

Há um ano

mais coisa menos coisa, o reencontro entre GNRs.





Com Pronúncia do Norte na Capital do Império



"Os corpos no lago eram de gente no desemprego"


Infelizmente não estive lá.

quinta-feira, março 19, 2009

Placebo em Paris

Reparo num post antigo que falei de um video fazendo apenas a sua ligação. Acho que na altura não sabia transpôr o Youtube directamente para o blogue. Assim, cá fica Where is my Mind, dos Pixies, cantado pelos Placebo em Paris, com a presença do intéprete original, Franck Black.

terça-feira, julho 22, 2008

A febre dos festivais

Localização de concertos à parte, reparei noutra coisa; na quantidade de festivais de pop-rock que houve e haverá este ano. Começou com o megalómano Rock in Rio, em Lisboa. Depois, o Alive, em Algés, roubou público à fase lisboeta do SBSR (mas não à portuense), embora preferisse mil vezes ouvir Duran Duran e Beck aos Rage Against the Machine, ainda que ladeados pelos Hives e pelos Gogol Bordello. No Sábado, Lou Reed competiu directamente com Leonard Cohen. E ainda faltam os Delta Tejo, Sudoeste e Paredes de Coura. Fala-se tanto na crise económica e social e na carestia de vida e nunca tivemos um overdose de música pop-rock como este ano, com dezenas de milhares de pessoas a acorrer em massa a inúmeros festivais. É um daqueles paradoxos em que Portugal é fértil. E nem sequer vai haver Vilar de Mouros. Mas os menos remediados sempre podem ir assistir ao Carviçais rock, perto de Moncorvo; escusam de gastar tanto dinheiro e sempre animam o deprimido interior transmontano, que merece todos os pretextos do mundo para o visitarem. Não esquecer que o Sabor, ali ao lado, não ficará intacto muito mais tempo.
Resolvida a questão

Aproveitando a breve referência ao festival Marés Vivas, que se realizou entre o Cabedelo e a Afurada, na margem Sul, trazendo artistas em hibernação (Sisters of Mercy) ou que precisam mais de pagar a renda da casa (James, Peter Murphy), penso que está encontrada a resposta à pergunta "é possível organizar um festival no Porto"? Sim, claro que é. Já no "queimódromo" do Parque da Cidade decorreu uma parte (a pior, com todo o respeito pela carreira dos emblemáticos ZZ TOP) do SBSR, num local desconfortável mas que já por si se presta a isso. E haverá certamente quem se lembre do Imperial ao Vivo, que em dois dias trouxe ao parque da Alfândega do Porto nomes como Beck, Smashing Pumpkins ou Charlatans; ou então os Pulp e o Nick Cave, nos antigos campos de treino das Antas. Mas se esses dois locais não são grande coisa, este ano da Graça de 2008 provou-nos que há espaço, tempo e público para mais eventos deste tipo. As dúvidas estão desfeitas e não há mais desculpas para não trazer mais coisas dessas ao Porto.

domingo, fevereiro 24, 2008

Enfim os No Smoking Orchestra ao vivo


Outro que certamente não apreciou a secessão do Kosovo e o seu reconhecimento pelo bloco ocidental é Emir Kusturica. Há umas semanas tive oportunidade de o ver ao vivo, no meio dos seus No Smoking Orchestra, depois de algumas tentativas falhadas em que não vieram ao Porto. Quando se decidiram a vir às duas principais cidades, eu estava por Lisboa nesse fim de semana e comprei bilhete para o Coliseu dos Recreios.
Quem conhece a obra cinematográfica do realizador sérvio mas não conhece a banda (que já tem uns largos anos de carreira) poderá saber sempre ao que vai se se lembrar das bandas sonoras de Underground, Gato Preto, Gato Branco e A Vida é um Milagre. Ou ainda do mais antigo Tempo dos Ciganos, que nunca vi e sobre o qual assentava esta tournée. O estilo é o popular "gipsie punk", e tem alguns seguidores, como os ainda mais frenéticos Gogol Bordello, cujo líder, Eugene Hutz, poderá ser visto em breve protagonizando a primeira incursão de Madonna na realização. Os elementos da banda são inúmeros e tocam tanto guitarra, baixo e bateria como violino, harmónica e saxofone. Uma salada balcânica simultaneamente ruidosa e melodiosa.
Os No Smoking Orchestra faziam parte da lista de grupos musicais que queria realmente ver in loco. Além dos filmes, o meu conhecimento da sua obra vinha de um disco ao vivo (há também o DVD) de um concerto que deram há uns anos em Buenos Aires. O que vi não andou nada longe do que já suspeitava.

Cheguei ao Coliseu com receio de que o concerto estivesse no início, mas ainda demorou uns minutos; já sabia que o Benfica estava a ganhar em Guimarães (um jogo decisivo), e queria tirar a limpo se todos os espectáculos da banda começavam da mesma forma. Pude confirmá-lo ao ouvir os acordes do hino russo, com o qual os artistas entraram em cena.
É certo que Kusturika, com a sua guitarra, é o principal chamariz, mas a verdade é que meio espectáculo fica por conta do incansável vocalista Nele Karajlić, que se exibiu com um fato e uma camisola desportiva por baixo (do Partizan?) e que não parou de chamar pelo público, de se passear entre o palco e a plateia ou de pôr todo o recinto com gritos de apoio ao Partizan, e creio que ao Kosovo sérvio também.
O carrossel balcânico rolou com profissionalismo e alegria, embora me pareça que tivesse faltado uma pitada a mais para ser um concerto memorável. Senti que carecia daquele espírito anárquico que se encontra na obra de Kusturica. Afinal, era o tour de Tempo dos Ciganos. Uns actos de loucura, mais do público que dos músicos, eram bem vindos. Só que os peninsulares presentes (fora alguns germânicos) eram ibéricos, não da montanhosa região a sul dos Habsburgos.
Mas nem por isso o concerto desmereceu grandes elogios. Houve alguns episódios memoráveis, como certos gritos de incitamento do vocalista imitados pelos ouvientes, a apresentação individual dos músicos (chamou-se de tudo ao realizador sérvio, de Von Karajan a David Bowie), e dois músicos tocando violino pegando cada um na vara com a boca, com as cordas por cima - Kusturica conseguiu o mesmo com a sua guitarra eléctrica. Não faltaram as míticas Bubamara, Unza Unza Time, Pitbull Terrier e Wanted Man, embora tenha sentido a ausência da frenética Vasja

O que eu não sabia é que o concerto acabava com o mesmo hino russo, depois da saída dos músicos. Houve até um grupinho que acompanhou a majestosa sinfonia de punho no ar e pose inspirada, não sei se por brincadeira ou convicção. Mas mesmo sem a anarquia do concerto de Buenos Aires, não dei por perdido o tempo e pude riscar mais um dos "concertos-que-tenho-de ver-até ao-fim-da-vida" da lista (além de que o Benfica ganhou à mesma hora por3-1). E até quem sabe, voltar a avistá-los num qualquer regresso, ou noutra ocasião em que se proporcione nova espiadela aos No Smoking Orchestra, que, está visto, dão-se bem em terreno de palco ou a coberto das imagens dos filmes do seu guitarrista. Pena mesmo é que tenham perdido o Kosovo. Que tal um novo tour para colher apoios para a causa?