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sexta-feira, novembro 28, 2014

Uma minoria na presidência da Roménia



Interrompa-se por uns momentos as atenções sobre a prisão (agora efectiva) de José Sócrates e rume-se a outras paragens, para desanuviar. As eleições presidenciais da Roménia, há poucos dias, trouxeram um factor novo (não, não é o falhanço incrível das sondagens que já não é novidade). O favorito a ganhar à segunda volta, que já tinha ganho por larga margem na primeira, o actual  primeiro-ministro socialista Victor Ponta, acabou por ser surpreendentemente derrotado pelo seu adversário, o líder do Partido Nacional Liberal (também do presidente cessante Traian Basescu) e presidente da câmara da encantadora Sibiu Klaus Ihoannis. Para além da surpresa, a novidade é ver um representante duma minoria à frente dos destinos da Roménia. Não é vulgar que isso aconteça em qualquer estado do antigo Pacto de Varsóvia (alguém imagina um judeu ou cigano à frente dos destinos da Hungria?), e ainda menos na Roménia, um país que no passado enviou milhares de judeus para os campos de concentração, desterrou ciganos e turcos para planícies desoladas e expulsou grande parte dos húngaros e germânicos que viviam no seu território havia séculos, pondo termo a uma interessante experiência multiétnica.


Não é o primeiro romeno de etnia saxónica (alemã) a ser objecto de grande reconhecimento nos últimos anos: a escritora Herta  Muller, que entretanto se tinha radicado mesmo na Alemanha, ganhou o prémio Nobel da Literatura em 2009. Se recuarmos muito no tempo, ainda podemos incluir Johnny Weissmuler, o atleta que se imortalizaria no papel de Tarzan. E no entanto, a minoria germânica, que se divide por várias regiões, em especial o Banato e a Transilvânia, que lá habita há vários séculos, está reduzida a umas escassas dezenas de milhares de representantes. Em tempos que já lá vão chegou a ser uma percentagem muito considerável do território da actual Roménia. Foram eles que elevaram cidades como Hermmanstad (Sibiu) ou Kronstad (Brasov), aldeias, igrejas e castelos, e que fizeram a prosperidade daquelas terras, estabelecendo laços comerciais com a Europa central e também com os otomanos. Com a 2ª Guerra, o regime comunista e a confusão que se seguiu à sua querda, a maioria emigrou para suas as origens remotas da Alemanha. ficaram uns poucos, entre os quais Klaus Iohannis, que agora chega ao cargo mais alto da nação. Se os saxões da Roménia perderam muito em número, não parecem ter perdido em relevância nem em influência da vida do país. Ainda vamos ver teóricos da conspiração a ver o longo braço de Merckel estendido até ao Mar Negro...


segunda-feira, setembro 26, 2011

O Benfica regressa à Roménia


Amanhã o Glorioso volta à Roménia, que já lhe trouxe boas recordações. Nunca perdemos nesse país, já lá tivemos reviravoltas históricas e empates que nos levaram a finais europeias. Terá o Benfica de Jesus capacidade para triunfar fora de casa na competição rainha entre clubes? Tudo indica que sim. Os últimos jogos foram auspiciosos. O empate no Inferno da Luz com o Manchester, que antes do jogo seria motivo de satisfação pela força como os mancunians têm arrasado tudo o que lhes aparece à frente, acabou por saber a pouco. Já a igualdade a dois em casa do Porto é um resultado positivo, dado que tivemos de recuperar duas vezes de situações de desvantagem, perante um adversário que acabou sem ideias e a queixar-se, em estratégia claramente combinada para ver se convencia a maralha, que não ganhou porque o árbitro não se deixou ir nas suas ridículas teatradas. Um Benfica inteligente ganha perfeitamente aos romenos.


Acresce que o jogo é em Bucareste, no novíssimo Stadionul National (julgo mesmo que é o primeiro jogo oficial que recebe), o que poupa os jogadores a uma viagem maçadora até aos confins da Moldávia, para burgos banhados por rios que nem ponte têm e só se atravessam de barcaça (ver o fim deste post). Sempre é um descanso, mas traz o risco de vermos um estádio semi-despido; tudo depende da força de vontade das claques de Galati. Mas com dificuldades ou não, é um jogo a sério a ser encarado com tanto respeito como contra o Manchester. Saiba Jorge Jesus explicar isso aos jogadores, para manter a tradição de resultados positivos na Roménia.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Ciganos, ursos dançantes e cisnes assados.




Escrevi muito sobre impressões romenas nos últimos tempos, e das suas minorias germânicas e húngaras. Não me lembrei de falar sobre aquela que mais dores de cabeça tem trazido, a mais óbvia: os ciganos. Já todos terão visto ciganos romenos a pedir ou a tocar música na rua e nos transportes públicos (às vezes com um cãozinho ou um macaco para enternecer), ou em certos casos a vender revistas como o Borda d´Água ou a lavar vidros dos carros nos semáforos. Não são pessoas que se olhe sem franzir o sobrolho ou de forma paternalista, dado o seu aspecto muitas vezes hirsuto, os modos duvidosos, e a fama que sempre acompanhou este povo, tanto por preconceito como por razões mais válidas. O seu nomadismo e os seus ancestrais hábitos de comunidade fechada, que não se rege por leis externas dos estados onde se acolitam, tornam-nos visitas incómodas.

Mas na Roménia, ao contrário do que cá se pensa, são também uma minoria. Raramente são bem vistos e frequentemente são discriminados. Tal como noutros países, vivem à margem da sociedade. Acredita-se que sejam provenientes da Índia e que tenham vindo da Ásia com os guerreiros mongóis da Horda Dourada. Espalharam-se pela Europa toda no Século XV, mas permaneceram sobretudo no leste do continente. Até ao nascimento do moderno estado romeno, em meados do Século XIX, permaneceram num regime de servidão e semi-escravatura. Com o regime pró-eixo do Conducator Ion Antonescu, muitos foram deportados para a Bessarábia, e grande parte morreu em campos de concentração. Depois, Ceausescu deportou muitos deles para a inóspita planície de Barragan, onde seriam menos visíveis. Mesmo após 1989 a sua situação não mudou logo, se bem que os mais recentes relatórios da União Europeia testemunhem progressos no seu tratamento. Ainda assim, não se sabe correctamente o seu número: os dados oficiais romenos dizem 500 mil; mas a UE estima que sejam perto de dois milhões d ciganos. Claro que a sua Diáspora torna todas as estimativas muito mais complicadas. Também já ouvi dizer, a pessoas que conhecem melhor o país, que não passam de duzentos mil; outros afirmam que os viram por toda a parte, a começar pelo aeroporto. E o incómodo com esse povo continua, como testemunhou Madona, há pouco tempo, em Agosto, poucos dias antes da minha passagem, quando num concerto em Bucareste ouviu vaias do público ao referir-se à discriminação dos ciganos.

Sendo os mais pobres dentro da pobreza romena, espalharam-se pela Europa e causaram aí sérios embaraços ao governo romeno, que estava em negociações para a adesão à UE. Alguns primam pelo caricato:



Entre outros acontecimentos estranhos desse êxodo, alguns grupos de ciganos capturavam cisnes dos lagos de Viena para os assar e comer, à vista de todos. A coisa provocou pânico entre os negociadores romenos, mas, como se sabe, tudo acabou em bem e a Roménia aderiu à UE. Um dos efeitos imediatos, aliás, recaiu sobre uma ancestral e mítica prática cigana: a UE proibiu as exibições de ursos dançantes, treinados pelos seus donos, os ursari, que desde há séculos os levavam a dançar em feiras, circos, cerimónias religiosas e até políticas, da era do Império Bizantino (e também na Europa ocidental até certa altura). Agora, com os tempos modernos e os defensores dos "direitos dos animais", graças ao qual a Playmobil não lançou um boneco representando estes bichos, não mais se verão saltimbancos a exibir ursos a dançar nas feiras. Em compensação, as memórias burlescas mas deprimentes dos cisnes a assar no espeto nos parques vienenses são mais duradouras, e são ilustrativas de um povo que vive num enclave permanente, onde quer que esteja, e que é quase um conjunto de zombies por onde quer que passe.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Inspirações no Danúbio


Revi o Concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena, emissão que tento nunca perder mesmo que tenha de gravar. É verdade que é sempre igual, do edifício à narração de Eládio Clímaco, com os eternos japoneses a assistir, mas já se tornou um hábito de estimação de boas vindas ao novo ano. Quando a orquestra atacou o Danúbio Azul, a intemporal valsa de Johann Strauss (a que Kubrick emprestou uma memorável cena espacial), viram-se imagens do percurso do rio, desde o começo, a Floresta Negra, até ao seu termo, o Mar Negro, desdobrando-se na teia do delta. Só aí reparei no contraste entre as "cores" dos extremos do rio, e a da valsa que o imortalizou. Curiosa a razão porque terá invocado Strauss a cor azul, mas deve ser porque em Viena atinge por vezes uma coloração magnífica - quando não está cinzento. E provavelmente para dar um tom de encantamento à então capital do Império dos Habsburgos.


Danúbio é também o nome da opus magna do italiano Claudio Magris. Da(s) nascente(s) ao Delta, o professor de literatura alemã da Universidade de Trieste percorre todo o curso do rio e regiões circundantes, mesmo algumas mais afastadas, estudando a sua história, os seus povos, o seu espírito, entre a ocidental Alemanha e a margem leste da Europa, isto numa altura em que o Muro de Berlim ainda não tinha caído. É talvez o guia que melhor expõe a Mitteleuropa e a herança dos Habsburgos. O meu recente percurso na Roménia não levei guias, porque não os encontrei. Assim, socorri-me de Danúbio, tanto para ficar com uma ideia mais clara do país como para deixar as minhas impressões. O que aprendi da Transilvânia deve-se em muito a Magris.


Na parte referente à Roménia, falando do Banato, região cuja capital é Timisoara e que até há uns anos tinha uma colónia germânica apreciável, Magris referia-se a vários novos autores suabos de língua alemã. Entre eles, estava uma jovem escritora apenas conhecida localmente chamada Herta Muller. O italiano, que é todos os anos colocado como um dos grandes aspirantes a ganhar o prémio Nobel, dificilmente poderia imaginar na altura que aquela jovem e obscura romena de etnia alemã vivendo sob o regime de Ceausescu iria, mais de vinte anos depois, suplantá-lo na corrida para o prémio. É a lógica da atribuição do galardão a autores menos conhecidos, mas que têm a "sorte" de representar num determinado ano o povo certo ou de escrever no idioma indicado.





quarta-feira, dezembro 30, 2009

Imagens da Roménia - Bucareste


Para finalizar o périplo romeno, eis-nos em Bucareste, a capital da Valáquia, e com a aglutinação da Transilvânia e Moldávia, também capital nacional desde 1859. Segundo a tradição, deve o seu nome a um pastor de nome Bucur, que a teria fundado.


A cidade teve o seu período de esplendor na altura entre-guerras. Depois da destruição causada pelos zeppelins da Alemanha Imperial, ergueram-se sumptuosos edifícios art-deco e art-nouveau, bulevarduls e jardins, palácios e bairros, o que lhe deu o cognome de "Paris do Leste".

Como se sabe, grande parte desapareceu na época anterior a 1989. O regime da altura arrasou boa parte do centro da cidade para construir uma nova centralidade. Assim, o ex-libris de Bucareste passou a ser o enorme palácio erguido por Ceausescu, o segundo maior edifício do Mundo, depois do Pentágono, que domina a capital, com uma imensa avenida à sua frente, que na altura da abertura se pretendia que rivalizasse com os Champs Elysés.


O palácio, inicialmente chamado Casa Poporului, alberga as duas câmaras do parlamento, a presidência e o governo, e tem ainda auditórios, restaurantes, etc, e é visitável pelo público em geral. Ainda assim, não é totalmente aproveitado, por manifesta falta de entidades administrativas suficientes, dado o gigantismo da coisa. há inúmeros átrios, escadarias majestosas e um imensos salão de baile. Das suas varandas, os governantes pronunciavam os seus discursos, numa posição de domínio sobre a multidão reunida defronte. Nelas, Ceausescu assistiu atónito à revolta do seu povo, quando esperava ser aclamado. Nas caves e subterrâneos do palácio, quase com a mesma área dos andares à superfície, diz-se, tinham túneis de comunicação e respectivos transportes para o exterior, a distância considerável. Mas na altura em que mais podiam provar a sua utilidade, as hesitações e medos do ditador fizeram com que não se servisse deles.


A zona onde agora está o ciclópico edifício foi totalmente arrasada, entre bairros elegantes, igrejas, jardins e recintos desportivos, numa fúria demolidora que ficou conhecida como Ceauşima (Ceausescu + Hiroshima). Em casos pontuais, certas construções mais preciosas foram transladadas para outras partes da cidade, que ficou irreconhecível depois desta extensa terraplanagem.


Contudo, entre os edifícios megalómanos e o que restou da cidade pré-2ª Guerra, fervilha uma verdadeira capital europeia, em que o trânsito flui lentamente pelos bulevarduls e pelas largas praças que comunicam umas com as outras através de avenidas longuíssimas. O centro da cidade é dominado pelo Palácio do Parlamento, pelo eixo entre a praça Unirii e a da Universidade (com o grande volume do Hotel Intercontinental) e pelo que resta da zona histórica, que se desenvolve entre a rua Lipscani e a Calea Victoriei. A primeira é a histórica rua comercial da cidade, e deve esse nome aos comerciantes de Leipzig (Lipsia), que desciam o Danúbio para vender os seus produtos, e que dinamizavam uma boa porção do comércio local. Pela via fora espalhavam-se os diferentes artesãos, e a meio, perpendicular, o mercado Lipscani, com as suas portadas de ferro, converteu-se numa zona de galerias de arte, ou seja, depois da venda de legumes tornou-se o Soho ou a Miguel Bombarda de Bucareste. Na rua, agora esventrada para repavimentação, permanecem inúmeras lojas, um teatro de Revista, tal e qual como em Portugal, agências bancárias e um dos restaurantes mais bonitos da cidade, o Carne cu Biere (embora o encanto do estabelecimento seja inversamente proporcional ao profissionalismo de quem serve, mais ocupado a promover espectáculos de danças "latinas"). Numa das extremidades estão as ruínas do palácio mandado erguer por Vlad Tepes, no Século XV, e a seu lado a mais antiga igreja da capital, a Curtea Veche.

A Calea Victorei é uma comprida rua com edifícios em estilo neoclássico, como o do Cercul Militar National, com alguns do período comunista lá enfiados. A meio, a praça da Revolução, antiga praça do Palácio, abre-se em frente ao Museu Nacional de Arte da Roménia, o antigo palácio real, habitado pelos reis até à extinção da monarquia, e à Biblioteca da Universidade. No centro fica um curioso monumento à Revolução de 1989, que teve um dos seus momentos mais quentes precisamente nesta praça. A estranha obra de arte, ou "Memorial do Renascimento", é comparada a uma batata no espeto, pelo que se pode considerar o correspondente ao monumento ao 25 de Abril, de João Cutileiro, que está no alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa.
Mais atrás uma das razões porque Bucareste ficou conhecida como "Pequena Paris do Leste": a passagem Macca-Vilacrosse, uma rua em galeria coberta de vidro dourado, com a forma de ferradura, ocupada por cafés e bares, em especial egípcios, como se nota pela numerosa assistência fumando narguilé. A par desta mistura arquitectónica algo caótica, dos grandes parques e do comércio com todas as marcas internacionais, pode ser considerada uma imagem da nova Bucareste, menos carrancuda do que no antigo regime.

terça-feira, dezembro 22, 2009

A última revolução violenta



Há precisamente vinte anos dava-se a última revolução sangrenta da Europa. Foi o culminar da derrocada do Bloco de Leste nos últimos meses de 1989. Depois de todas as outras "democracias populares" ligadas ao Pacto de Varsóvia caírem, só restava a Roménia, paradoxalmente o mais independente regime do bloco face à URSS, e ao mesmo tempo o mais paranóico, megalómano e controlado. Décadas de projectos de expansão industrial com vista à autonomia energética e de obras faraónicas em contraponto com estrito rigor orçamental no que tocava aos bens essenciais, insufladas por um culto de personalidade a Ceausescu, levaram à explosão social e às primeiras revoltas em Timisoara, perto da Hungria, de onde sopravam os ventos de mudança.

As autoridades reagiram com toda a dureza possível, alvejando os manifestantes, o que multiplicou a revolta. A 21 de Dezembro, o ditador convocou um aparatoso comício de apoio na capital, em frente ao Palácio do Povo, o enorme edifício que congregava os vários poderes, símbolo máximo daquele regime totalitário que não hesitou em destruir o centro histórico de Bucareste. Às primeiras palavras que correram na imensa praça fronteira, recebeu aplausos dos apoiantes, sobretudo da Securitate, a polícia política. A pouco e pouco, os manifestantes começaram a entoar gritos de protesto entre a multidão, e como uma bola de neve os apupos aumentaram, até o povo gritar em uníssono "Timisoara" e "abaixo o tirano". impotente, Ceausescu retirou-se do local e ordenou que as forças de segurança ripostassem. As tropas pretorianas leais ao regime dispararam sobre a multidão, espalhando o caos no centro da capital, mas as forças regulares não se moveram. a reacção apenas gerou mais revolta por parte da população, à qual se começaram a juntar unidades militares.

Fechado no seu "bunker" Ceausescu não se decidia a fugir pelos inúmeros subterrâneos do palácio, quando a situação piorou para o seu lado, e incapaz de aceitar a queda iminente ou sequer de negociar, decidiu fugir de helicóptero com a sua mulher, Elena, e dois ou três fieis. A fuga. No dia 22, foi vista por todos e registada, mas ou por engano, ou por dificuldades mecânicas, o aparelho aterrou na cidade de Targoviste. Prisioneiro, o casal Ceausescu passou uma noite no calabouço, antes de enfrentar um julgamento militar sumário que acusou o ditador de tentativa de genocídio e de "roubar a alma da Roménia". Este ripostou com acusações aos traidores "fascistas e anti-nacionalistas". Lida a sentença de morte, um pelotão de fuzilamento levou para fora e metralhou Nicolae e Elena, que permaneceram juntos no fim, recordando Mussolini e Clara Pettaci. O fim dos Ceausescu foi proporcional ao regime de opressão, miséria e estalinismo que instituiu na Roménia. O anterior Conducator romeno, Ion Antonescu, líder de um governo aliado de Hitler, fora também ele fuzilado após a guerra. Agora, a mesma sorte cabia ao intitulado Conducator comunista, na manhã do dia de Natal de 1989. As imagens dos corpos dos Ceausescu correram mundo, e torjnar-se-iam o símbolo e a prova de toda a violência e fúria que por aqueles dias atravessaram o país.
Seguiu-se um governo nacional com figuras recicladas e vagamente opostas ao ex-ditador. A década de noventa seria conturbada e difícil e só recentemente o país obteve algumas melhorias sociais e económicas, o que lhe permitiu, com reservas, aderir à União Europeia em 2007. Quanto à herança de Ceausescu, basta ir ao centro de Bucareste para se avistar a sua marca mais visível.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Imagens da Roménia - Transilvânia 2

Decididamente a Transilvânia tem uma fama que não corresponde de todo à realidade. Em lugar da precipícios profundos e de gargantas escuras, com lobos de olhar flamejante a uivar, como consta em qualquer lenda vampírica, vêem-se campos de cereais, pequenas colinas e aldeias ao longo da estrada, com casas iguais e por vezes com uma igreja fortificada, herança dos saxões. É o caso de Saschiz (ou Keisd, em alemão), assim como muitas outras.

A Transilvânia era conhecida pelos saxões por Siebenburgen, ou as sete cidades fortificadas. Eram elas Bistritz (Bistrita), Kronstad (Brasov), Hermannstadt (Sibiu), Sächsisch Regen (Reghin), Mediasch (Medias), Mühlbach (Sebes) e Schässburg (Sighisoara), além das supracitadas aldeias.


Sighisoara (Castrum Sex, em latim, Schäßburg em alemão, Segesvár em Húngaro) é uma cidade mesmo no coração da Roménia. Está dividida entre a parte baixa e uma cidadela habitada de onde sobressaem as suas torres, em particular a do relógio, que faz lembrar o de Praga. A "Nuremberga romena" está classificada pela UNESCO como Património da Humanidade. Os seus torreões tardo-medievais protegendo as entradas da cidade, as suas muralhas, as passagens cobertas de madeira e os arcos justificam a distinção. Pelas suas ruas, infelizmente em grande parte com obras e sem pavimento, se nos abstivermos dos inúmeros turistas, podemos imaginar os artesãos e negociantes saxões que aqui habitaram durante séculos (as entradas das casas, com portadas e bancas de madeira, e alguns vendedores ambulantes e de recordações "medievais" também ajudam), ou os que passavam neste próspero centro de comércio, nas rotas entre o Mar Negro, Constantinopla e o Sacro-Império, ao qual veio a pertencer.
As corporações de artesãos dominavam a cidade e a sua economia, de tal forma que as várias torres que formam o seu skyline tinham o nome de cada uma delas: Torre dos Alfaiates, Torre dos Sapateiros, Torre dos Ferreiros, Torre dos Talhantes, etc. Construídas por volta do Séc. XV, chegaram a ser catorze e são o traço mais visível da arquitectura germânica da cidade.


Como não podia deixar de ser, o elemento marcante da cidade é a Torre do Relógio, que vigia a entrada na cidadela com os seus 64 metros. Uma construção possante e de onde, através do balcão a todo o seu diâmetro lá no alto, se vê todo o burgo, tanto a parte velha como a cidade baixa, mais recente, e as colinas que a circundam. Foi construída no Séc. XVI, mas nas várias camadas de reparações acabou por ficar sobretudo com elementos barrocos. Serviu como baluarte, arquivo e de centro do poder municipal. Hoje em dia é um museu de história militar, mas a principal atracção é o seu relógio, instalado nos anos 1600, e retocado ao longo dos séculos. Ao longo do dia, um conjunto de figurinhas alegóricas - anjos, Deuses do Olimpo, entre outros - vão anunciando as horas. O mecanismo pode ser admirado nas escadas que levam ao balcão que circunda a torre, e que liga os seus pisos.




Se as torres são o ex-líbris marcante do burgo, assim como as passagens de madeira e as de pedra, em túnel, sê-lo-ão de forma mais "camuflada", a casa mais conhecida é sem dúvida a amarela, na praça central: ali nasceu Vlad Tepes, o Empalador. Se no Castelo de Bran se fantasiava e forçava a presença do príncipe da Ordem do Dragão, em Sighisoara não é necessário haver subterfúgios: é mesmo a terra natal do inspirador do Conde Drácula. Alvo das fotos dos turistas, a casa é hoje um restaurante, à qual justificadamente não falta clientela. Escusado será dizer que boa parte das recordações prendem-se com o ilustre mas sanguinário filho da terra.


Mais para Sul, chega-se a uma das maiores cidades da região. Sibiu, ou Hermannstadt, como os cartazes recordam por toda a parte, chegou a ser capital do principado da Transilvânia. A cidade velha, na sua parte baixa, está rodeada de muralhas e bastiões fortificados. Mesmo no centro fica a principal praça da cidade, a Piata Mare, dominada pela sua torre do conselho municipal. Quem aqui chegasse e não soubesse qual o país pensaria porventura tratar-se duma cidade alemã ou austríaca, tal o cuidado, o aprumo e a ordem daqueles edifícios construídos entre os sécs. XVI e XVIII, muitos deles barrocos. Uma volta pelos inúmeros restaurantes e excelentes esplanadas do centro revelaria que os preços são bem inferiores aos praticados naqueles países. A razão do cenário tão diferente do comum das cidades romenas, mesmo da Transilvânia, é simples: Sibiu foi Capital Europeia da Cultura em 2007 e recebeu avultados investimentos para a recuperação e conservação dos edifícios históricos. Ainda se vendem muitas recordações e objectos relacionados com a distinção.

A cidade é rica em igrejas, fortificações, casas e ruas medievais, que descem dos largos centrais para a parte mais baixa. Possui uma animada vida cultural e tem duas catedrais, a ortodoxa e a luterana. Apesar da primeira ser naturalmente mais frequentada, é a segunda, implantada num ponto mais central, que domina a cidade com a sua esguia torre gótica. É a herança dos saxões, que apesar de serem hoje em dia uma minoria de resistentes, continuam a marcar a vida de Hermannstadt.

De Sibiu já se avistam de novo os Cárpatos. Tomando a estrada que segue ao longo do Olt, entra-se num desfiladeiro de Turno Rossu, formado pelo vale deste rio, que corta a cordilheira e saí da Transilvânia. Antes, ainda se passa por uma ou outra aldeia, com casas de estilo saxão, como sempre, de telhados inclinados e largo portão de madeira ao lado, povoações compridas dispostas ao longo da estrada, e onde circulam mais carroças do que os omnipresentes Dacias.


sexta-feira, dezembro 18, 2009

Imagens da Roménia - Transilvânia

Em Setembro deixei interrompido um périplo pela Roménia. Retomo-o agora, um pouco tardiamente, a poucos dias dos vinte anos da Revolução romena de 1989.

Da Moldávia para a Transilvânia segue-se por uma planície sem fim à vista, de campos e rectas, até que se avistam os cumes dos Cárpatos. Atravessá-los, de noite, em estradas de curvas e contra-curvas, é tarefa de resistência. Quase não se vêem outros carros, não há iluminação, e a paisagem em redor, formada por montanhas imponentes e barragens lá em baixo, que se distinguem pelo brilho da água, mete respeito. Pela cabeça passam as lendas e histórias maléficas em que esta região é fértil...
Chegar ao fim da travessia e ao planalto onde começa a Transilvânia é por isso um alívio. Daí a pouco, vêem-se as luzes de Brasov. Depois dos Cárpatos, não deverá haver cidade mais acolhedora.

Como a maior parte das urbes nesta região, Brasov tem o seu nome romeno, alemão (Kronstad) e húngaro (Brassó). A Transilvânia é uma mescla destes três povos, mas durante centenas de anos foram os saxões que predominaram. Residem aqui desde o Séc. XII, quando os Reis magiares os trouxeram para que povoassem a região. Com o tempo, criaram raízes profundas, adquiriram privilégios, tornaram-se agricultores, artesãos, comerciantes. Esta burguesia próspera ergueu castelos e povoações, e mais tarde desenvolveu grande actividade cultural e literária. Foram maioritários em tempos. Hoje, depois das Guerras Mundiais e do regime comunista, são uma ínfima minoria.

A cidade estende-se pelo planalto, mas protege-se à sombra de um imponente massivo, onde o seu nome está inscrito de forma Hollywoodesca. Não faltam edifícios medievais, do renascimento ou classicistas. A par do edifício da municipalidade, a Casa Sfatului, a construção que domina a cidade é a Igreja Negra, ou Biserica Neagra, templo evangélico luterano de ar austero, com os seus 89 metros de altura, "a maior igreja gótica entre Viena e Istambul". Dentro está decorada com um conjunto de magníficos tapetes turcos, que recordam o domínio otomano nos séculos XVI e XVII, sobre um principado semi-autónomo da Transilvânia. O espaço fronteiro é pequeno para se admirar o templo, e para isso isso há que trepar a uma das elevações próximas, onde estão a Torre Branca e a Torre Negra, sentinelas que vigiam de perto o bastião fortificado que segue ao longo de um pequeno canal. Das torres colhe-se o melhor skyline da cidade velha.

A Torre Branca, uma das sentinelas da cidade

Na fachada lateral da igreja vê-se a estátua de Johann Honterus, um cartógrafo germânico de Brasov que introduziu e difundiu o protestantismo na Transilvânia. À sua frente, do outro lado da rua, a instituição que fundou, o liceu Honterus, ainda hoje a escola alemã da cidade, e uma das referências dos saxões que por aqui permaneceu. Lobriga-se a escadaria do liceu, com um busto do seu inspirador a meio, no patamar.

Estátua de honterus, ao lado da Igreja Negra, e o liceu alemão com o seu nome em frente.

No Verão, o evento mais mediático é o festival de música Cerbul Aur, ou Cervo de Ouro. Já dura há uns anos e realiza-se na praça Sfatului, no coração da cidade, à sombra da imponente edifício municipal. É uma espécie de festival internacional da canção ao ar livre, onde por vezes acorrem músicos mais conhecidos (Scorpions e Kylie Minogue, por exemplo).


Outra das atracções de Brasov é a Colina Tampa, uma formação montanhosa que domina a cidade, e cujo ponto mais elevado fica a quase mil metros de altitude. Um santuário natural, onde até por vezes os ursos perambulam. Um teleférico faz a ligação até lá acima, por sobre o arvoredo que cobre a colina. Dali se avista a cidade, e a região circundante, até aos Cárpatos. O mirante com melhor visibilidade é o que está ao lado das letras hollywoodescas de Brasov. As estruturas de apoio são escassas - pouco mais do que um bar - o que de certa forma impede que o local se torne uma feira turística.

Por trás da colina de Tampa seguem as estradas que conduzem a Poiana Brasov, provavelmente a melhor estância de inverno (e de ski) da Roménia, e que aos poucos vai ganhando reconhecimento internacional, atraindo inúmeros visitantes da Europa Central. No Verão tem uma cor verde invejável. Não faltam vários hotéis e demais estabelecimentos turísticos; há mesmo uma igreja, construída recentemente em madeira, no mesmo estilo das igrejas de Maramures, do mesmo material, e que recorda os templos evangélicos noruegueses. Não sei qual a origem desta arquitectura de madeira nem que relação haverá entre estas igrejas ortodoxas, bem diferentes das de pedra, e as nórdicas.

Mas a maior atracção da região de Brasov é sem dúvida o Castelo de Bran, mundialmente conhecido como "Castelo do Drácula". É uma estrutura impressionante mas longe de ser sinistra, construída pelos cavaleiros Teutónicos, estrategicamente localizada num vale junto à aldeia do mesmo nome. Não se percebe o porquê da ligação a Vlad Tepes, o "Empalador", que inspirou a Bram Stocker a personagem do morto-vivo vampírico. Tepes, um príncipe da Valáquia do Séc. XV, intrépido inimigo dos emergentes turcos, raramente passou por aqui. Terá ficado uns dias, quanto muito, para orientar este bastião defensivo. O Castelo serviu de morada à rainha Maria, viúva do Rei Fernando e mãe de Carol II, nos anos posteriores à 1ª Grande Guerra. Recentemente, os tribunais romenos devolveram a propriedade aos descendentes da família real, que dele tinha sido expropriada pelo regime comunista. De qualquer maneira, é a memória de Vlad Tepes que se lembra aqui. O castelo, profusamente decorado com mobiliário do Séc. XI e algumas relíquias mais antigas, e pintado de branco, atrai incontáveis turistas. À sua volta, uma autêntica feira de bancas e barracas de produtos relacionados com Drácula. Para quem não aprecie tal ambiente turístico e de comércio nómada talvez seja preferível conhecer a fortaleza de Rasnov, mais a Norte, entre Brasov e Bran, e facilmente identificável no alto da montanha...e pelas letras também hollywoodescas que a assinalam.


Brasov: uma cidade interessantísima e cuidada, o que pode levar a algumas megalomanias publicitárias ou cinematográficas.

quinta-feira, outubro 08, 2009

E o Nobel da Literatura vai para uma alemã de origem romena que antes era romena de origem alemã

 


Tal como se esperava, a Academia de Estocolmo, sempre fiel às suas tradições, atribuiu o Nobel da Literatura deste ano a uma autora quase desconhecida, Herta Müller. Os especialistas na matéria, como sempre, apostavam nos consagrados Philip Roth, Vargas Llosa, Amos Oz, Milan Kundera, etc. Enganaram-se uma vez mais. Já era tempo de saberem que os suecos adoram trocar as voltas às apostas e nomear alguém de terceira linha. Mais vale não fazer prognósticos sobre os "consagrados", para ver se eles assim ganham algum ano - isso sim, seria surpreendente. Basta dar uma vista de olhos à lista dos galardoados dos últimos anos para perceber essa imensa evidência.

Observe-se agora: responsáveis da Academia disseram recentemente que o prémio "tem sido muito eurocêntrico". Entretanto, já é o terceiro autor de língua alemã a ganhá-lo nos últimos dez anos. É certo que os autores germanófonos deram não poucas contribuições à literatura europeia e mundial, mas tenho sérias dúvidas se actualmente serão superiores aos lusófonos - em maior número e distribuídos por mais países. Passa-se a vida a ouvir dizer que "como o Saramago ganhou em 98, dificilmente algum escritor lusófono ganhará nos próximos anos". E agora temos a senhora Herta Müller a juntar-se a Günter Grass (nada a opôr) e a uma Jelinek qualquer. Se há medíocres que escrevem em alemão a ganhar o Nobel, porque não um bom brasileiro ou um razoável português?

 
Ainda outra observação: Herta Müller nasceu em Timisoara, na região romena do Banato, mas mudou-se para a Alemanha, onde adquiriu a respectiva nacionalidade nos anos oitenta, daí dizerem que é alemã de origem romena. Na realidade, poder-se-ia dizer o inverso (como se deduz pelo nome e apelido), já que pertence ao grupo dos suabos, outrora maioritários, mas hoje uma minoria germânica do Banato. Um regresso às origens, como tantos outros naturais da mesma região e da Transilvânia (estava mesmo para escrever um post sobre isso, no seguimento de outro que deixei há dias). O assunto é particularmente focado em obras como Danúbio, do italiano Claudio Magris, que não por acaso também faz parte do distinto grupo dos eterno candidatos a ganhar o Nobel.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Uma imagem verdadeira da Roménia (agora a sério)


O meu post anterior era uma paródia suave a uma Roménia que cabe dentro daquilo que imaginação colectiva ocidental idealizou sobre os países balcânicos. Por falta de arte e engenho, e também de tempo, acabou por não ser uma coisa descabelada e alucinante, perceptível à primeira vista. Trata-se de um relato misturando factos reais, outros mais exagerados e algumas invenções.

O aeroporto não é assim tão rudimentar (e só levava bagagem de mão), não andei de táxi, pelo que a imagem dos taxistas é decalcada da caricatura portuguesa, não vi colunas armadas ou salteadores de estrada; as cidadelas estão apesar de tudo recuperadas e não há famílias ciganas lá a viver (aí, confesso, recordei-me das famílias africanas que se instalaram nos edifícios construídos nas cidades moçambicanas, como o Hotel Polana); os resorts não apontam quaisquer restrições étnicas. Não há muitos petroleiros mesmo à vista à beira-mar, como é óbvio, embora haja lanchas e jet-skis, e as únicas advertências quanto a indumentária respeitam a restaurantes que proíbem a entrada a gente em fato-de-banho (ainda por cima a maioria dos homens usa tangas). E já agora, o que escrevi sobre Bucareste é obviamente um exagero, embora não totalmente afastado da realidade (o problema dos cães era real mas está atenuado).
No entanto, e como diz António Teixeira no comentário a esse post, muitos dos que se referem a Portugal como "a cauda da Europa" poderiam ir dar uma volta à cintura de Bucareste, só para não se afastarem muito, ou à região da Moldávia (não ao país com o mesmo nome) para se tornarem mais benevolentes com o nosso país.


Quem tente ir de carro do aeroporto Optopeni, que serve a capital, a Constança, terá muitas dificuldades em chegar à auto-estrada, porque as indicações são nulas. Com algum azar, seguirá na direcção contrária, rumo a Oeste. Se se orientar, percorrerá a cintura de Bucareste em direcção à via pretendida, mas terá de ser paciente com as filas de pára-arranca por causa das obras; no tempo despendido, poderá admirar os inúmeros stands, barracões e estabelecimentos pré-fabricados de carácter comercial que se alinham junto à estrada, muitas vezes servidos de caminhos de terra. Pelo meio, na estrada e nas margens, passam cães de todo o tipo. Os indígenas é que nem sempre têm muita disposição para esperar e muitos ultrapassam celeremente as filas para se reenfiarem lá mais para a frente; o chico-espertismo português pede meças à forma de conduzir romena.


 
A auto-estrada que conduz à região do Mar Negro é boa, até porque atravessa a extensa planície da Valáquia, mas infelizmente ainda não está concluída, pelo que atravessado o Danúbio se tem de ir por estrada normal, com imenso trânsito à frente; na margem das estradas somam-se os tascos, restaurantes e bares, aguardando por locais ou camionistas.


Depois, a costa romena, pouco extensa. Constança, a capital natural dessa região, deve a sua importância ao facto de ser o grande porto do país (e o maior do Mar Negro), mas faz gala do passado grego e romano. a memória da cidade recorda Ovídio, o poeta exilado nestes lados. A referência da cidade é a praça com a sua estátua, atrás da qual há um museu de arqueologia e um conjunto de mosaicos romanos.

A Praça Ovídio


Mas a grande atracção de Constança é o soberbo casino, debruçado sobre o mar, a meio da corniche. Infelizmente está fechado; acredito que seja para remodelação, porque de outro modo não se entende como se desperdiça uma pérola semelhante, como casino propriamente dito ou como centro de recepções, festas ou celebrações. Não é difícil imaginar, na Belle Epoque, o rei Carol II, acompanhado pela sua Magda Lupescu, e dignitários romenos e convidados estrangeiros, nos salões e nas varandas debruçadas sobre o mar, antes dos ventos que sopravam na Europa e ameaçavam o país.


Além do casino e dos vestígios romanos, há ainda perto o farol genovês, uma mesquita e algumas igrejas dignas de nota e variados museus. Mas Constança, a antiga Tomis dos gregos, parece algo maltratada, apesar do seu estatuto de estância balnear e de aí afluir muita gente no Verão. Mas os tratos - pisos quebrados, cabos eléctricos pendentes por toda a parte, quais lianas, casas com valor arquitectónico abandonadas e quase a cair - não devem ser muito diferentes no resto do país.


Para sul, a costa está povoada com aqueles resorts artificiais do tempo do regime comunista, com nomes de planetas (ou Deuses) como Saturn, Jupiter ou Neptun. Alguns blocos de apartamentos, restaurantes perto do mar e praias semi-concessionadas. Ao que julgo saber, noutros tempos, Cunhal passou férias nestas bandas. Uma das praias parece o Nordeste brasileiro, tal a afluência de gente, o comércio de bugigangas e os pronto a comer nos caminhos de terra que levam ao areal. Ainda mais para sul há estaleiros e uma base naval, até se atingir a fronteira com a Bulgária, para lá da qual se estendem campos de cultivo, que imediatamente recordam a antiga propaganda soviética da produção cerealífera.

A Norte de de Constança fica a mais selectiva zona de Mamaia, uma península estreita ladeada de hotéis e alamedas, com a praia logo atrás. Há um cuidado maior nesta zona. O comércio é florescente e há até uma portagem para se lá entrar. Lembra um pouco mais "a Europa civilizada".

Toda esta região do Mar Negro sofreu bastante a influência otomana. Por isso, nas aldeias e pequenas cidades que se encontram ao longo da estrada, como Babadag - o nome é claramente turco - vêem-se invariavelmente mesquitas, e gente de tez mais morena do que o comum dos romenos. Muitas casas são de madeira, e nalgumas aldeias têm todas poços à sua frente, com bermas fundas na estrada, que indiciam saneamento muito básico (ou inexistência do mesmo). Mulheres de idade com lenços coloridos à cabeça conversam nos umbrais das portas. E há três coisas com que se pode contar sempre: cães, carroças puxadas por burro ou cavalo e carros de modelo Dacia 1200.



Esses sinais estão igualmente presentes em Tulcea, a última cidade em terra firme antes do Delta do Danúbio, uma enorme região natural formada por canais braços de rio e lagunas, por onde se espalha o grande rio. Uma zona bastante procurada por turistas, tanto que a cidade, estendida numa curva do rio, vive muito dessa actividade, para além de alguma indústria e do porto e comércio fluvial. Há barcos, barquinhos e vapores que levam os visitantes pelo três braços do Delta, entre os pântanos e os bosques, e os ecossistemas naturais, até à fronteira da Ucrânia, quase ali ao lado, ou mesmo a Sulina, a pequena cidade costeira, onde é quase impossível chegar por terra e que marca o fim do grande rio. Pelo meio, as aldeias desse povo expatriado e quase anfíbio, pescadores de origem russa e de longas barbas que são os lipovenos, descendentes dos que em tempos fugiram por quererem conservar os ritos da velha Igreja Ortodoxa Russa.

Para Oeste da região do Delta fica a Moldávia romena. Em Braila, que tal como a sua vizinha Galati é uma cidade de gruas e fábricas, procura-se a ponte para se atravessar o Danúbio, sempre omnipresente com os seus vários canais. Não há: tem de se cruzar o rio no transbordador de ocasião e perde-se um tempo imprevisto. Passam barcaças carregadas de sucata e madeira. Tem de se atravessar Braila, com os seus prédios decrépitos, os seus rails metálicos e as suas avenidas mal empedradas. A paisagem que se deixa para trás recorda-nos inevitavelmente os filmes de Kusturica.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Uma breve e realista imagem da Roménia




Saída há vinte anos de uma longa tirania nacional-comunista (depois de antes e durante a guerra ficar sob alçada de governos autoritários e pró-fascistas), com uma grande instabilidade política nos anos que se seguiram e há dois na União Europeia, a Roménia é um país singular que tarda em desenvolver-se.




Começando pelo aeroporto, dir-se-ia antes um imenso aeródromo, onde a bagagem é despejada num monte no meio de uma sala e os seus proprietários têm de procurá-la em conjunto com os outros passageiros. À saída, quem quiser apanhar um táxi (geralmente um Dácia" com 30 anos) poderá fazê-lo; os preços são à partida baixos, mas é costume que os clientes tenham de dar a volta de quase 360º à cintura de Bucareste, quando não são levados a dar um passeio a Urcizeni ou terras semelhantes pelos façanhudos taxistas, que têm em regra no retrovisor um galhardete do Steaua ou do Dinamo e passam o tempo a reclamar contra os ciganos ou a dizer "Isto precisava era de um Antonescu/Ceausescu em cada esquina!" O nome do ditador varia consoante a idade dos taxistas.



Antes da capital, fale-se do resto do país. Para começar, vêem-se cães por toda a parte, muitos deles com três patas (dizem-nos contudo os indicadores de desenvolvimento que a percentagem de quadrúpedes propriamente ditos tem aumentado muito nos últimos tempos). As estradas são razoáveis nas regiões planas do sul, já que são alcatroadas e há apenas que prestar atenção aos buracos. Em zonas de curvas, apanhar uma carroça ou uma coluna do exército em manobras ou um rebanho de porcos pode ser motivo de demora. As aldeias são pitorescas, com as suas casas de telhados inclinados cobertos de colmo, as suas ruas de terra batida e as suas bermas e poços em frente a cada casa (o saneamento é algo básico); na região mais a leste cada uma tem a sua mesquita de tipo turco; não convém no entanto parar pela possibilidade de se ser alvo de ataque de salteadores armados de bacamarte ou de crianças ciganas lavando os vidros (também na cidade).


Os monumentos são grandiosos: as cidadelas da Transilvânia ostentam uma imponente e germânica silhueta entre a paisagem de colinas. no entanto, o visitante que se aproxime reparará nas ameias tombadas e nos telhados a precisar de reparações, para além das inúmeras famílias ciganas que as habitam. Fardos de palha acumulam-se nas praças interiores. Escapa a esta imagem o famosa Castelo de Bran (mais conhecido como "castelo do Drácula") já que recebeu avultados investimentos para receber os turistas. Nos campos em redor das cidades são mais notórios nas estradas os tractores e as carroças com fardos de palha.




Os resorts do Mar Negro, outrora reservados à elite do Partido, sofreram algumas melhorias. É vedada a entrada até um raio de cem metros das praias a ciganos, turcos, lipovenos e gente que ostente símbolos estrangeiros que não os americanos, da UE ou da NATO (ou pagando bem, russos). Quem tomar banho no mar - com a indumentária permitida - deverá tomar atenção às lanchas da polícia e ao óleo deixado pelos petroleiros que passam perto



Na capital, o trânsito flui demoradamente como qualquer grande cidade europeia, ou talvez mais, visto que 20% dos veículos é de tracção animal, e os restantes automóveis de gama média da marca Lada, na sua maioria anteriores a 1990 (cópias dos Renaults 12).




O tipo de pessoas que passa nas ruas não é muito diversificado: grande parte da população continua a vestir-se com trajes das zonas de origem, visto que dois terços dos habitantes de Bucareste são camponeses, muitos à trazidos quase à força; para deixar esses hábitos ancestrais, muitos usam uniforme militar (uma herança do antigo regime); reconhecem-se ainda skinheads, que por vezes funcionam como sucedâneos das forças policiais sempre que os problemas não tenha a ver com eles, e ciganos, vestidos como tal. A recente modernização do país e a entrada na UE mudou alguns estereótipos e já se vêm pessoas mais novas ostentando as camisolas dos clubes desportivos locais ou alguma roupa copiada aos ídolos O-Zone. Mais do que pessoas, há cães por toda a parte, muitos em matilha, pelo que andar em parques a partir do fim da tarde pode constituir uma aventura suicida. Anualmente há uma média de oitenta mortes na capital por ataques de cães, mas crê-se que o número será maior porque não se tem em conta quem vive na rua.


As compras fazem-se mais em mercados do que em lojas. Uma novidade recente são os DVDs, mas ainda não têm grande saída, já que os respectivos leitores são quase inexistentes, por isso a maior parte da população ainda recorre a cassetes VHS e Beta.



O símbolo de Bucareste é, como se sabe, o enorme Palácio do Povo. Construído por Ceausescu para reunir todos as grandes instituições administrativas do país, com as escadas de degraus à medida dos passos do Conducator e as famosas torneiras de ouro, abriga hoje não só as câmaras do Parlamento mas também a residência oficial do presidente e de todos os membros do governo - concubinas incluídas - e também dos ex-presidentes, e ainda salas para conferências, sedes de bancos e, nas caves, depósitos de armas e munições, não se dê o caso de haver outra revolução como em 1989. Tem também um imenso salão de baile onde Elena Basescu, filha do presidente e recentemente eleita deputada europeia, costuma dar as suas festas privadas.




A vida nocturna vive dos bares situados invariavelmente em caves, normalmente antigos abrigos subterrâneos, muitos dos quais proibidos a mulheres (outra situação que tem mudado com a entrada na UE), ciganos, turcos e húngaros. As bebidas normais costumam ser a cerveja artesanal feita na própria casa, cujo estranho sabor faz suspeitar dos seus componentes, vinho, aguardentes de castanha e licores variados de teor elevado de álcool. Os preços em Euros podem chegar até 1,50€ pelas bebidas mais caras, quase inacessíveis ao comum da população. Refira-se que a moeda romena, o Leu, vale cerca de 2,5 cêntimos, e que as notas de valor mais elevado chegam aos mil Lei.




Quase posta de parte no regime comunista, a religião voltou em força desde 1990. Da quase proibição passou-se para a quase obrigatoriedade, e os soldados que vão em missão juram pela pátria e pela Santa Igreja Ortodoxa Romena, com a protecção de São Constantino Brancoveanu. Também as cerimónias públicas têm sempre a benção da igreja.




O tempo no Verão é soalheiro, mas a indústria pesada e os poços de petróleo em constante laboração fazem com que uma permanente nuvem de poluição envolva as principais cidades, pelo que o sol raramente se vê em Bucareste. Um problema acrescido à frágil indústria turística romena, como tantos outros, mas cujos desenvolvimentos recentes dão motivos de esperança num futuro melhor.