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segunda-feira, julho 16, 2018

Os Verdes do Bloco


O frentismo, ou se preferirem, a criação de vários grupos, partidos ou organizações sob a mesma orientação ideológica é, como se sabe, uma das tácticas preferidas do PCP. Desde 1976 que o decano dos partidos portugueses não concorre sozinho, indo sempre à luta eleitoral "coligado" com outras formações, seja o já extinto MDP/CDE, sejam Os Verdes ou a associação política Intervenção Democrática, uma cisão do MDP cujo único membro conhecido é o sempre disponível Corregedor da Fonseca. E depois há as inúmeras actividades extra-parlamentares desenvolvidas pela CGTP, pelo CPPC, e restantes organizações satélite.

Aparentemente, na interessante luta pela hegemonia da esquerda mais radical em Portugal, o BE resolveu utilizar as armas do PCP e recorrer ao frentismo como forma de influenciar a sociedade. Para isso, tem também ele uma espécie de Verdes, que se distinguem da formação de Heloísa Apolónia por sempre terem concorrido sozinhos e porque na sua génese não tinham grandes afinidades com o Bloco. Chama-se ele PAN - sigla de Pessoas, Animais e Natureza - e tem um deputado no Parlamento chamado André Silva.

Nesta legislatura, raras são as ocasiões em que o Bloco e o PAN não votam nos mesmos projectos, ou em projectos próprios similares, como os sobre a eutanásia. Estiveram juntos na aprovação de animais domésticos em cafés, na mudança de género aos 16 anos, na legalização do cultivo de cannabis, e mais recentemente na tentativa de proibição das touradas, entre muitas outras. De facto, difícil é descobrir um assunto em que não tenham estado de acordo. Desconfio que Os Verdes estiveram mais em desacordo com o PCP do que o Bloco e a formação animalista. 

Claro que o PAN corre riscos, apesar da grande vaga actual para os animais: é que as pessoas tendem a preferir o original à cópia, e como tal a novidade PAN pode-se esgotar. Talvez por isso, é notório que o BE é mais assertivo nas questões mais fracturantes e de costumes, ou as económicas, e o PAN manifesta-se mais ruidosamente no que toca aos animais; na prática, estão quase sempre do mesmo lado.

Não sei se tudo isto é combinado ou coincidência, mas a verdade é que quase nada os distingue. É claro que o partido mais antigo e mais abrangente tende a dominar o mais pequeno, por isso o BE ficará sempre a ganhar. Veremos se continuam a concorrer separadamente, mas não me admiraria se para o ano já houvesse um qualquer acordo nas europeias. Se o PAN estagnar, o Bloco tem aqui uma oportunidade de explicitamente juntar mais um movimento ao seu agregado de partidos, substituindo desse modo a ausência da FER, e a formação de André Silva terá sempre alguns lugares assegurados. Cada partido tem Os Verdes que merece. E será mais um motivo para seguir o particular duelo do domínio da esquerda à esquerda do PS.

be_pan.jpg

domingo, julho 19, 2015

Elefantes a banhar-se no "rio do esquecimento"


A imagem dos elefantes a banhar-se pachorrentamente no rio Lima, como se fosse no Ganges, diverte pelo sei ineditismo. O que à partida parece ser uma montagem é afinal bem real, graças aos tratadores do circo Cardinalli que por estes dias anda por Ponte de Lima. E junta-se assim a mais antiga vila portuguesa, com os seus solares, o seu vinho verde e a sua ponte secular, ao animal que representa a Índia que por tantos séculos esteve tão ligada a Portugal (sem esquecer que muitos representantes da espécie desembarcaram no Porto de Lisboa).
Não deixa de ser curioso pensar que os elefantes são também conhecidos pela sua enorme memória. Lobo Antunes lembrou-se desta característica para baptizar o seu primeiro romance, e há um conhecido anúncio na televisão a um comprimido para a memória que usa igualmente os paquidermes como exemplo. Ora o Lima era conhecido como Letes pelos romanos, que o associavam ao mítico rio do esquecimento com o mesmo nome. A lenda é conhecida, e a travessia de Décimo Júnio Bruto ajudou a que se desvanecesse o medo de que quem atravessasse aquele curso de água em plena Gallaecia esquecer-se-ia de tudo. Ninguém perde a memória por atravessar o rio Lima, mas caso subsistisse o mito, nada melhor do que elefantes e a sua memória para o fazer cair.




(Fotografias de José Costa Lima)

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Fóruns nauseabundos


Confesso que tenho a incurável mania de correr caixas de comentários de redes sociais, jornais online, etc. Vício muito pouco saudável, porque além de nos fazer perder tempo precioso, põe-nos em contacto com a lama opinativa: frustrações pessoais, insultos rascas, ignorância inimaginável, remoques grosseiríssimos, enfim, todo o tipo de rasquices e misérias.
 
Dois exemplos: uma notícia pavorosa, em que uma criança de um ano e meio tinha morrido depois de ser atacada por um pitbull, em Beja. O sentimento geral devia ser de consternação, mas o que se nota é a apologia feita ao cão, que coitadinho, estava "mal educado e maltratado", era "guardado numa varanda", "devia-se sentir muito infeliz e reagiu assim", seguindo-se uma discussão sobre se a culpa é do cão, dos pais ou dos donos, quais as responsabilidades destes, se o cão seria realmente responsável, etc. Parece que a morte de um bébé que mal devia saber andar é uma questão de somenos. Por muita culpa que tenha o responsável pelo cão e os seus tratos, é impossível dissociar-se o animal (ainda por cima de uma raça potencialmente perigosa) da morte. Para cúmulo, a suspeita do costume nestes casos, a associação Animal, vem pôr em causa o relatório da autópsia insinuando que os ferimentos que provocaram a morte da criança não têm origem na mordedura do cão, e no seguimento disso lançou agora uma petição para se impedir o abate do cão, porque o cão, se atacou, "é porque teria algum motivo" e "merece uma segunda oportunidade". Eu, que nunca vi ser dada uma segunda oportunidade a um infanticida, nem justificá-lo com "um qualquer motivo", fico pasmado com estas pessoas que estão tão ruidosamente a manifestar-se por um cão (algumas chegam a dizer que "é a única vítima"), dando as desculpas mais ridículas e infames como se não tivesse acontecido nada de especial. E ainda há algumas que querem criminalizar os pais, como se a tragédia não bastasse. Gostava de saber qual seria a reacção se lhes tivesse acontecido o mesmo. Esta gente defende os animais raiando a loucura e é tão cruelmente desumana.

Ao mesmo tempo, sabe-se que Assunção Cristas, a Ministra da Agricultura e do Ambiente, está grávida do quarto filho. Uma novidade, ao que parece nunca um membro do governo tinha engravidado no exercício de funções. Implicará a sua substituição interina, como aliás prevê a Constituição, sem grandes problemas. Num país de baixíssima natalidade, ver uma mulher com pesadas responsabilidades públicas ser mãe deveria ser motivo de regozijo. Pois bem, vi uma caterva de comentários afirmando que "era uma afronta às trabalhadoras que não tinham meios para gerar filhos", que se quem desempenha funções governamentais "não pode ficar grávida", que "ia beneficiar de clínicas privadas com o dinheiro de todos", e coisas ainda mais baixas, incluindo desejos de que o parto corra mal. Sim, parece que Cristas se tornou numa criminosa e que engravidar é uma terrível ofensa, ao mesmo tempo que se defende o direito a abortar sem razões aparentes e com direito a pagamentos e subsídios pós-aborto pelo estado. Num país a envelhecer cada vez mais, recorde-se.

O que estas duas notícias revelam aparentemente têm pouco a ver. Mas há um elo em comum: uma inversão de valores, em que crianças são consideradas abaixo de cão e uma grávida se torna num alvo de insultos pelo horrendo crime de ser ministra e ser remunerada por isso. As redes sociais e os "fóruns" tornaram-se emissores destes excrementos escritos. Aquilo que só se via em tascas, obras e portas de casas de banho públicas cai no espaço comum de forma nauseabunda. E vemos assim o terrível código de valores contemporâneos no seu ponto mais baixo. Bem sei que não é toda uma sociedade que se revê naquilo, mas uma boa parte dela, o que mostra que a doença que a afecta é grave. Mais do que a pobreza material, a pobreza moral, o desprezo pelo Homem, a ignorância atrevida, a inveja e a pura maldade saltam à vista. A bem da sanidade mental, é melhor fingir que nem existem.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Ciganos, ursos dançantes e cisnes assados.




Escrevi muito sobre impressões romenas nos últimos tempos, e das suas minorias germânicas e húngaras. Não me lembrei de falar sobre aquela que mais dores de cabeça tem trazido, a mais óbvia: os ciganos. Já todos terão visto ciganos romenos a pedir ou a tocar música na rua e nos transportes públicos (às vezes com um cãozinho ou um macaco para enternecer), ou em certos casos a vender revistas como o Borda d´Água ou a lavar vidros dos carros nos semáforos. Não são pessoas que se olhe sem franzir o sobrolho ou de forma paternalista, dado o seu aspecto muitas vezes hirsuto, os modos duvidosos, e a fama que sempre acompanhou este povo, tanto por preconceito como por razões mais válidas. O seu nomadismo e os seus ancestrais hábitos de comunidade fechada, que não se rege por leis externas dos estados onde se acolitam, tornam-nos visitas incómodas.

Mas na Roménia, ao contrário do que cá se pensa, são também uma minoria. Raramente são bem vistos e frequentemente são discriminados. Tal como noutros países, vivem à margem da sociedade. Acredita-se que sejam provenientes da Índia e que tenham vindo da Ásia com os guerreiros mongóis da Horda Dourada. Espalharam-se pela Europa toda no Século XV, mas permaneceram sobretudo no leste do continente. Até ao nascimento do moderno estado romeno, em meados do Século XIX, permaneceram num regime de servidão e semi-escravatura. Com o regime pró-eixo do Conducator Ion Antonescu, muitos foram deportados para a Bessarábia, e grande parte morreu em campos de concentração. Depois, Ceausescu deportou muitos deles para a inóspita planície de Barragan, onde seriam menos visíveis. Mesmo após 1989 a sua situação não mudou logo, se bem que os mais recentes relatórios da União Europeia testemunhem progressos no seu tratamento. Ainda assim, não se sabe correctamente o seu número: os dados oficiais romenos dizem 500 mil; mas a UE estima que sejam perto de dois milhões d ciganos. Claro que a sua Diáspora torna todas as estimativas muito mais complicadas. Também já ouvi dizer, a pessoas que conhecem melhor o país, que não passam de duzentos mil; outros afirmam que os viram por toda a parte, a começar pelo aeroporto. E o incómodo com esse povo continua, como testemunhou Madona, há pouco tempo, em Agosto, poucos dias antes da minha passagem, quando num concerto em Bucareste ouviu vaias do público ao referir-se à discriminação dos ciganos.

Sendo os mais pobres dentro da pobreza romena, espalharam-se pela Europa e causaram aí sérios embaraços ao governo romeno, que estava em negociações para a adesão à UE. Alguns primam pelo caricato:



Entre outros acontecimentos estranhos desse êxodo, alguns grupos de ciganos capturavam cisnes dos lagos de Viena para os assar e comer, à vista de todos. A coisa provocou pânico entre os negociadores romenos, mas, como se sabe, tudo acabou em bem e a Roménia aderiu à UE. Um dos efeitos imediatos, aliás, recaiu sobre uma ancestral e mítica prática cigana: a UE proibiu as exibições de ursos dançantes, treinados pelos seus donos, os ursari, que desde há séculos os levavam a dançar em feiras, circos, cerimónias religiosas e até políticas, da era do Império Bizantino (e também na Europa ocidental até certa altura). Agora, com os tempos modernos e os defensores dos "direitos dos animais", graças ao qual a Playmobil não lançou um boneco representando estes bichos, não mais se verão saltimbancos a exibir ursos a dançar nas feiras. Em compensação, as memórias burlescas mas deprimentes dos cisnes a assar no espeto nos parques vienenses são mais duradouras, e são ilustrativas de um povo que vive num enclave permanente, onde quer que esteja, e que é quase um conjunto de zombies por onde quer que passe.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Amigos dos animais?

Como tantas outras pessoas, vi as famosas vacas açorianas a pastar em Lisboa, na Praça de Espanha, cercadas num redil provisório (e com a relva quase toda comida), como publicidade às ilhas. Passei lá de noite, à boleia, já que naquele sítio quase não se pode circular sem ser de carro e rimo-nos com a imagem.


Ao contrário do Nuno Castelo Branco, nada tenho contra a operação de marketing. Afinal de contas, ninguém melhor do que os tratadores sabem do que elas precisam. Além de que os bichos não tinham um ar nada maltratado, bem pelo contrário: estavam com ar bem nutrido e pachorrento, como se nunca tivessem saído dos habituais verdes prados a que estão habituadas. Mesmo não sendo dos Açores, mas do Ribatejo, zona onde a humidade é mais que muita.


Mas à parte alguns comentários pacíficos, vieram os radicais do costume, em busca de protagonismo mediático. Destacou-se aqui uma associação chamada "ANIMAL", dirigida por um certo Miguel Moutinho. Ao que parece, a campanha é absurda porque, além dos animais estarem "stressados", estão igualmente a ser «usados» em publicidade, que é é condenável em si mesmo, uma vez que se baseia numa visão utilitária dos animais, que assim são tratados como peças que podem ser usadas em manobras publicitárias e não como indivíduos inerentemente respeitáveis .

Eu não olho para os animais como "meros objectos inanimados", como preconizam as teses mecanicistas cartesianas, mas "indivíduos inerentemente respeitáveis"? Indivíduos, uma manada de vacas? Bom, por esse caminho, não tarda nada temos petições a exigir o direito a casar com as vacas, ou que os simpáticos ruminantes possam votar e ser eleitos em cargos políticos. e se são indivíduos, porque é que não podem ser utilizados em publicidade? Ou serão mais do que os actores? É caso para perguntar: afinal, onde está realmente o absurdo?


Podia ser um mero fait-divers, não fosse o mesmo indivíduo e o seu grupinho de pretensos "amigos dos animais" um reincidente no disparate de querer equiparar animais a pessoas. Já tinha ficado com uma ideia do que é esta ANIMAL. Num artigo de jornal falava-se num filme documental sobre touradas, Pega de Caras, em que a meio há um debate entre um ganadeiro e o mesmíssimo Miguel Moutinho. Diz o segundo: "O nosso objectivo é acabar com as touradas. A tourada é um acto bárbaro, não tem lugar no nosso tempo". Responde o ganadeiro: "Eu respeito as instituições protectoras dos animais. Mas eles também têm de respeitar a minha profissão e o espectáculo dos touros. Porque se há alguém que cuida e ama a festa dos touros e os touros são os próprios toureiros". Que respondeu o ANIMAL-mor? "Dizer que os toureiros são os melhores amigos dos touros é o mesmo que dizer que os pedófilpo são os melhores amigos das crianças e que os proxenetas são os melhores amigos das prostitutas".


Para terminar, a mesma personagem escreveu um texto qualquer intitulado "O Vegetarianismo como Obrigação ética". Deixa portanto o vegetarianismo de ser uma opção alimentícia e de vida para ser uma "obrigação ética". Pudera: o contrário implicaria o sacrifício de "indivíduos inerentemente respeitáveis".

Percebo e concordo com algumas medidas de salvaguarda dos animais, como as condições de transporte, de tratamento e de abate. Abomino os abandonos de pobres animais domésticos, e nem consigo perceber para que é que a pessoa os quer se depois os abandonam. Tive um cão quando era pequeno e jamais me passaria pela cabeça abandoná-lo (ainda me lembro do desgosto que tive com a morte dele). Mas estas atitudes primam pelo radicalismo, pela ignorância e pela insensatez. Ao ouvir coisas destas dá-me a sensação de estar perante um filme dos irmãos Marx. Entre todas as modas activistas, esta é uma das mais perniciosas, desenvolvida por neo-hippies com vagas influências orientais e em certas ocasiões com uma linguagem próxima do terrorismo. Pense-se no assassino do polémico Pim Fortuyn, ou em Brigitte Bardot, uma das pessoas que mais ódio devota à espécie humana (comparou a sua gravidez a um cancro no ventre) transformada em caquética fã de Le Pen, no apologista do infanticídio Peter Singer ou nos insultuosos PETAs e o seu terrorismo publicitário e fica-se com uma ideia até que ponto podem chegar os mais radicais desta causa.


Mas o que mais me irrita é que a maioria destas pessoas vem de um ambiente urbano e jamais teve vivência rural. As respostas dadas pelo dirigente da ANIMAL aos ganadeiros revelam, além de fraca educação, uma pesporrência, uma arrogância intelectual despropositada e patética. São os parolos da cidade, os criadores de animais em aquário, os ecologistas de manual, que não fazem a menor ideia do que é a vida rural, tal como a maioria dos portugueses, citadinos ou suburbanos. Não sou aficionado nem nunca assisti a uma tourada, mas tenho mil vezes mais simpatia pelos campinos, forcados e ganadeiros, que sabem o que são as agruras do campo e convivem com os animais, deles tratam e preservam as ainda existentes tradições de valentia, do que a patetice urbano-chique dos auto-intitulados "amigos dos animais".