Mostrando postagens com marcador BE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BE. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, maio 19, 2021

Gente sem condições

 

Hoje, depois de se saber que Rui Moreira ia a julgamento por causa do caso Selminho (oportuníssimo ser a cinco meses das eleições, mas adiante), dizia que não faltariam os oportunistas a tentar tirar proveito da situação.
Eles aí estão: Catarina Martins veio logo afirmar que "Rui Moreira não tem condições para continuar na câmara". Isto dito pela líder (ou "coordenadora") de uma formação que em cinco eleições possíveis NUNCA conseguiu elegeu um único vereador para a CM do Porto - talvez pelo Bloco portuense ser exclusivamente composto por sociólogos ou actores, como a própria Catarina - e que noutras autárquicas já apresentou candidatos que estiveram nas FP-25. Um deles apareceu mesmo no outro dia a escrever (entre outros textos com imensos erros) que não se arrependia de nada e que os assassínios cometidos "tinham mesmo de ser", antes de apagar a mensagem
Quem é que não tem condições mesmo?

quarta-feira, novembro 21, 2018

O inclusivo



Pedro Filipe Soares, o infeliz líder parlamentar do Bloco, escreveu ontem no Público um artigo a louvar a "linguagem inclusiva", sendo exemplo disso a expressão que ele usou na convenção do seu partido: "camaradas e camarados". A esse tipo de linguagem, para "mudar mentalidades", já George Orwell lhe deu um nome no "1984": chamou-lhe novilíngua. Seja como for, não deixa de ser estranho vermos alguém afirmar-se "inclusivo" dias depois de afirmar que "não fala da direita porque esta não conta para o futuro do país". E Pedro Soares, conta para o quê, para além da invenção de novos termos?

A imagem pode conter: 1 pessoa, telefone

sexta-feira, agosto 10, 2018

O Bloco imutável

Bem sei que o caso Robles já tem duas semanas, mas não queria deixar passar a nota. Se este fait divers provou alguma coisa  é que o BE não tem emenda. Não se ouviu um ligeiro arrependimento, uma postura ligeiramente mais humilde nas "explicações", um mínimo de respeito pela crítica. Houve a inevitável demissão, de acordo, mas ainda assim com uma rápida justificação de "opções privadas". Robles sai do cargo com a dignidade possível. Mas o triste papel a que se prestou o seu partido nos últimos dias mostra que ali nada mudou. Não, o BE responde contra as "mentiras e calúnias" com mensagens com escrita de SMS, provavelmente emitidas entre uma e outra sessão de "veganismo e antiespecismo" ou "a propriedade é um roubo" (este vem mesmo a propósito), algures no "espaço queer" do "acampamento da liberdade", refugia-se num hipotético decreto que vai trazer a salvação das almas, e chega mesmo a dizer, pelo profeta Louçã, que Ricardo Robles "combate a especulação", num movimento esquizofrénico que ora diz que não há ali nada de ilegal (até ver parece que não, mas a crítica nem é essa), ora protesta contra as zonas de Lisboa "onde podia morar gente e está reservada a turistas". O partido que usa a acusação de "hipocrisia" como arma de arremesso contra tudo e todos reage às provas da sua própria hipocrisia como se todos lhe devessem alguma coisa. Não aprenderam absolutamente nada de nada. O debate entre o Adolfo e uma embaraçada Mariana Mortágua revelou isso à saciedade. Por alguma razão João Semedo recebeu tantos elogios aquando da sua morte: era talvez o único daquela malta que sabia discutir e que não tratava os adversários políticos como seres menores. Agora ficámos reduzidos a ouvir o tonzinho de professores de moral da inefável Catarina Martins e do Prof. Rosas e as explicações apressadas do inatingível Robles, especulador nuns dias da semana e activista anti-especulação noutros.

robles martins.jpg
 (Imagem Público)

segunda-feira, julho 16, 2018

Os Verdes do Bloco


O frentismo, ou se preferirem, a criação de vários grupos, partidos ou organizações sob a mesma orientação ideológica é, como se sabe, uma das tácticas preferidas do PCP. Desde 1976 que o decano dos partidos portugueses não concorre sozinho, indo sempre à luta eleitoral "coligado" com outras formações, seja o já extinto MDP/CDE, sejam Os Verdes ou a associação política Intervenção Democrática, uma cisão do MDP cujo único membro conhecido é o sempre disponível Corregedor da Fonseca. E depois há as inúmeras actividades extra-parlamentares desenvolvidas pela CGTP, pelo CPPC, e restantes organizações satélite.

Aparentemente, na interessante luta pela hegemonia da esquerda mais radical em Portugal, o BE resolveu utilizar as armas do PCP e recorrer ao frentismo como forma de influenciar a sociedade. Para isso, tem também ele uma espécie de Verdes, que se distinguem da formação de Heloísa Apolónia por sempre terem concorrido sozinhos e porque na sua génese não tinham grandes afinidades com o Bloco. Chama-se ele PAN - sigla de Pessoas, Animais e Natureza - e tem um deputado no Parlamento chamado André Silva.

Nesta legislatura, raras são as ocasiões em que o Bloco e o PAN não votam nos mesmos projectos, ou em projectos próprios similares, como os sobre a eutanásia. Estiveram juntos na aprovação de animais domésticos em cafés, na mudança de género aos 16 anos, na legalização do cultivo de cannabis, e mais recentemente na tentativa de proibição das touradas, entre muitas outras. De facto, difícil é descobrir um assunto em que não tenham estado de acordo. Desconfio que Os Verdes estiveram mais em desacordo com o PCP do que o Bloco e a formação animalista. 

Claro que o PAN corre riscos, apesar da grande vaga actual para os animais: é que as pessoas tendem a preferir o original à cópia, e como tal a novidade PAN pode-se esgotar. Talvez por isso, é notório que o BE é mais assertivo nas questões mais fracturantes e de costumes, ou as económicas, e o PAN manifesta-se mais ruidosamente no que toca aos animais; na prática, estão quase sempre do mesmo lado.

Não sei se tudo isto é combinado ou coincidência, mas a verdade é que quase nada os distingue. É claro que o partido mais antigo e mais abrangente tende a dominar o mais pequeno, por isso o BE ficará sempre a ganhar. Veremos se continuam a concorrer separadamente, mas não me admiraria se para o ano já houvesse um qualquer acordo nas europeias. Se o PAN estagnar, o Bloco tem aqui uma oportunidade de explicitamente juntar mais um movimento ao seu agregado de partidos, substituindo desse modo a ausência da FER, e a formação de André Silva terá sempre alguns lugares assegurados. Cada partido tem Os Verdes que merece. E será mais um motivo para seguir o particular duelo do domínio da esquerda à esquerda do PS.

be_pan.jpg

domingo, dezembro 04, 2016

O Bloco e a birrinha anti-monárquica


Aquela atitude imatura e parvinha dos tipos do BE não se levantarem com o Rei de Espanha presente no Parlamento (em contraste com os do PCP, que não aplaudiram mas se levantaram) recordou-me a homenagem feita às vítimas do regicídio, cem anos depois, a 1 de Fevereiro de 2008, no Terreiro do Paço. Estava presente uma multidão ainda numerosa, quando já para o fim surge, e pára a uma distância ainda "segura", uma trupe de mascarados com uma faixa que dizia em letras garrafais mais ou menos isto: "viva o Buiça, viva o Costa" (apelidos dos regicidas), enquanto iam gritando vivas aos mesmos. Ficaram ali uns minutos a guinchar, sempre de máscara, e quando sentiram demasiados olhares a virar-se para eles, bateram em retirada, espalhando panfletos com slogans anarquistas, ou coisa vagamente parecida. Mas na tal faixa grande que levavam à frente notavam-se ainda inscrições de uma qualquer campanha do Bloco, com símbolo e tudo. E certamente que o folclórico grupo de entusiastas dos regicidas não o encontrou no lixo. Aliás, entre os tipos que regularmente fazem uma romagem ao cemitério para homenagear os ditos assassinos, conta se o major Tomé, antigo líder da UDP e um dos fundadores do BE. Donde o antimonarquismo do Bloco, que incluiu louvores aos regicidas, já vem de longe, e portanto não será de ficar muito admirado com parvoíces no hemiciclo. Até porque, recordemos, há ali afinidades grandes com o Podemos, que não hesita em suspirar por esses "belos" tempos dos anos 30 e da efémera república espanhola, que tão bons resultados trouxe, e que o deputado Soeiro não deixou de relembrar.
 
No fundo, é uma velha tradição que o Bloco se esforça por proteger. O que não deixa de ser paradoxal, num movimento que se diz tão anti-tradicional.
 
Resultado de imagem para assembleia republica rei espanha
 
 
 

segunda-feira, dezembro 15, 2014

As razões da queda do Bloco

 
A razão da contínua decadência do Bloco de Esquerda é consequência de uma velha tradição portuguesa. Mas o Bloco, por desconhecimento (com um número tão grande de sociólogos que não lhe servem para nada) ou por colectivismo ideológico, não parece chegar lá.

A tendência mui portuguesa para que as pessoas sigam formações com um líder forte, carismático, ou pelo menos, que represente uma identificação mínima com o movimento que lidera, é situação que qualquer pessoa que siga minimamente a política percebe. Nem é preciso ir a Salazar, ao "líder providencial" ou ao sebastianismo: fiquemo-nos pela Terceira República. O agora de novo tão badalado Sócrates, por exemplo. O "animal feroz", homem que agrega ódios (de quem acha que é o maior ladrão de sempre) e paixões (aquela mulher a bradar "mesmo que ele seja ladrão, eu voto nele!") levou o PS à sua maior vitória de sempre, em 2005, e resistiu a um grande desgaste em 2009. Acabou por perder quando tinha tudo contra ele.
Outro caso recente: o CDS estaria hoje no governo se não fosse a persistência de Paulo Portas, cujo acrónimo é comparado ao do próprio partido? Não é ele o principal elemento agregador de uma formação que tem votações razoáveis em eleições nacionais e fracas nas locais?
Veja-se o PSD: Cavaco já teve melhores dias, mas então tornou o seu partido hegemónico e o país a pintar-se de laranja.
E o velho PCP? Chegou aos 20% com Cunhal, decaiu com a estabilidade política e a queda do comunismo em 1989. Com Carvalhas, definhou. Com Jerónimo, resistiu e cresce de novo. Apesar de durante anos o vetusto partido comunista raramente apresentar caras nos seus cartazes, que eram autênticas "sopas de letras", para realçar o elemento "colectivo", todos sabiam que havia homem no leme, ou melhor, à frente do comité central.
Quanto ao cometa dos anos oitenta, o PRD, só surgiu porque estava colado à imagem de Eanes. é verdade que o general não tinha grande queda para a vida partidária, mas quando ele desistiu o partido simplesmente desapareceu.
E podíamos ainda falar do fenómeno Marinho Pinto e do extraordinário resultado que ele sozinho obteve nas últimas europeias. Ou recuando mais de vinte anos, recordar como o PPM teve interessantes resultados quando apareceu com a cara de Miguel Esteves Cardoso. Tudo para demonstrar como os nomes e os líderes são importantes na política partidária portuguesa. Sem isso, não têm o menor sucesso. O bloco cresceu com um aglomerado de gente, mas sempre com a figura tutelar de Francisco Louçã. A solução bicéfala revelou-se um erro. As emendas foram piores que o soneto: tudo encravado numa convenção com número ímpar de delegados e acabaram por criar uma liderança exacéfala, com a antiga "co-coordenadora", por sinal o elo fraco da liderança dual, no papel de porta-voz. Cada vez mais irrelevante e com uma sangria de elementos válidos e mediáticos, o Bloco parece perseguir o seu suicídio assistido intransigentemente. A liderança conjunta entre dirigentes que já não se dão bem entre si, de facções diferentes e adversas, só pode conduzir ao desastre. Apostar no "colectivo" na política não dá bom resultado, nem é como no futebol. E mesmo aí tem de haver um "mister" para liderar o grupo e levá-lo a bom porto. O Bloco encalhou nos recifes.

domingo, novembro 18, 2012

O futuro do Bloco de Esquerda


Desde o tombo das Legislativas de 2011 que o Bloco de Esquerda parece vir a quebrar-se. As coisas já não estavam muito sólidas depois do apoio a Alegre nas últimas presidenciais, com os resultados que se conhecem, e da recusa em encontrar-se com o trio de fiscais internacionais, vulgo Troika, mas verdadeiramente a pressão só veio acima com o desaire eleitoral. A queda abrupta e o encolhimento do grupo parlamentar (em especial a não eleição de José Manuel Pureza, que nem sequer era inesperada) ditaram a contestação inédita que a direcção do movimento, e em especial o seu "coordenador" Louçã, sofreram posteriormente. Se os apelos à responsabilização pelos resultados e até para o afastamento já se sucediam, o caso de Rui Tavares, que bateu com a porta em litígio com Louçã, entre acusações de mentiras e falsidades, contribuiu ainda mais para o transbordamento do copo. Seguiram-se as eleições na Madeira, em que o Bloco conseguiu ser o único partido a não eleger um deputado regional (!), e mais recentemente nos Açores, em que ficou com apenas um lugar. No último Verão houve notícias, a propósito da sucessão de Louçã, de querelas e troca de acusações entre o "coordenador" cessante e Daniel Oliveira, e a facção mais radical, correspondente à FER de Gil Garcia, optou por abandonar o Bloco para constituir o MAS. Muitos problemas num espaço de tempo curto para uma formação que teve uma ascensão relativamente rápida e segura, mas que parece estar sem frescura muito por força da insistência nos "temas fracturantes" e que parece não estar a conseguir capitalizar o descontentamente com o Governo.


É sabido que o Bloco é uma aglutinação heterogénea de formações de esquerda radical que decidiram em fins dos anos noventa que a união faria a sua força. Os trotsquistas do PSR juntaram-se então aos maoístas da UDP e aos ex-MDPs e ex-comunistas (por sua vez vindos da Plataforma de Esquerda) do Política XXI, aglutinaram o grupúsculo FER, e formaram o Bloco. Esta miscelânea, com vários líderes mas representada por Louçã, o mais conhecido e de discurso mais eficaz, conseguiu não só aguentar-se como subiu ao longo dos anos nos lugares do Parlamento, e acima de tudo no mediatismo. Não há ninguém no país que não conheça o Bloco, os tiques de Louçã e a sua agenda fracturante, mesmo que no domínio da caricatura.

Apesar desta ascensão, que desmentiu quem achava que o movimento seria um PRD de esquerda, com uma carreira efémera, também havia quem previsse há algum tempo que o radicalismo afastaria algum capital de simpatia e que com o esgotamento da agenda fracturante aceite pelo grande público - porque a certa altura muito poucos estarão dispostos a aceitar mais pretensos "avanços civilizacionais" - o Bloco perderia peso e reduzir-se-ia ao plano da caricatura. Não sendo esse o caso, o facto é que não se sabe qual o melhor caminho. Miguel Portas, uma das mais populares e lúcidas figuras do Bloco, desapareceu há meses, não sem que antes apelasse à renovação dos quadros dirigentes primordiais. Fernando rosas percebeu isso mesmo e afastou-se, Louçã preferiu manter-se no cargo até agora, antes de ceder o lugar à nova liderança bicéfala (ou "paritária", como preferem dizer), não sem antes se despedir da "coordenação" e do Parlamento com a populista tirada sobre  a "caridadezinha", num exercício de demagogia que desgraçadamente sempre o acompanhou, apesar de toda a sua preparação e inteligência.

O novo modelo de liderança do Bloco é claramente inspirado pelo dos Verdes alemães, que começou como um movimento radical até à actual institucionalização quase ao centro, dando ideia que há uma vontade de evoluir para uma maior moderação de forma a poder no futuro suportar um governo com o PS. Ainda assim, o novo tipo de liderança terá as suas desvantagens, desde logo na dificuldade em escolher um rosto que represente o partido (nos debates entre lideranças, por exemplo). João Semedo tem uma imagem de competência e moderação que contrasta claramente com a de Louçã, conseguindo ao mesmo tempo não ser uma figura apagada ou cinzenta, mas Catarina Martins, além de não grandemente conhecida, representa a influência da facção UDP, o que não abona a favor da moderação desejada por muitos. Luís Fazenda, o outro fundador que resta no Parlamento (e precisamente o líder de facto do grupo da UDP), não tem claramente popularidade nem boa aceitação junto de um público menos dado a radicalismos, como se provou no falhanço da sua candidatura à câmara de Lisboa. Com um deputado equilibrado na liderança, mas dividindo-a com uma co-coordenadora oriunda de um sector mais radical, a saída de personalidades prestigiadas e influentes na opinião pública, uma renovação de quadros geradora de muitas dúvidas e a necessidade de disputa do terreno com o PCP e alguns sectores do PS, resta saber se o Bloco caminhará para uma maior moderação de forma a apoiar um futuro governo do PS ou se permanecerá nas suas trincheiras radicais e contestatárias inconsequentes. Pode obter dividendos mas também pode perder: na primeira hipótese, a de uma parte ser engolida pelo PS e outra pelo PCP; na segunda, a de estagnar e definhar, caindo na irrelevância. São caminhos sempre arriscados, mesmo num cenário que lhe é favorável, que a dupla Semedo/Martins terá de trilhar na obrigação de não esconder o que realmente pretende.


segunda-feira, junho 28, 2010

Controleiros culturais
Nesta coisa da morte de personalidades ligadas à literatura há sempre episódios menos edificantes por razões extra-literárias. Se o artigo do Observatore Romano era infeliz, que dizer do que se passou com a proposta de voto de pesar pela morte de António Manuel Couto Viana, que antecedeu em poucos dias a de Saramago? O caso passou despercebido, mas Eduardo Pitta resume-o aqui: alguns deputados do PS apresentaram a proposta, mas retiraram-na depois da recusa e dos protestos do Bloco e do PCP com o pretexto de que tinha combatido na Guerra Civil Espanhola ao lado dos Nacionalistas (ou seja, quando era um adolescente). Não sei de onde vem essa desinformação; mesmo que fosse verdade, estou certo de tais partidos que aplaudiriam outrém que fosse veterano das fileiras republicanas (que também cometeram as suas atrocidades). O que é certo é que a mesma gente que se indignou com a ausência de Cavaco Silva no funeral de Saramago vem agora invocar razões políticas - e falsas - para recusar um mero voto de pesar a um vulto respeitável da poesia e do teatro. Um voto de pesar, note-se, não uma homenagem, ou dias de luto. Ficaram claros os argumentos culturais desta gente: se não pertencem à sua trincheira, devem ser esquecidos e ostracizados. É a velha tara marxista de que a arte será sempre um meio para atingir objectivos "sociais", nunca um fim em si. E ainda se atrevem a zurzir quem não se curvou perante Saramago. Mal estiveram igualmente os proponentes, que deviam ter insistido na votação. Mas bom será que este caso não caia no esquecimento, e que seja recordado o seu papel de controleiros culturais quando os excelentíssimos deputados bloquistas e comunistas invocarem qualquer "perseguição" a algum vulto do respectivo "sector intelectual".

sexta-feira, junho 04, 2010

O TGV também se pinta de vermelho

 

As manifestações sindicalistas do passado fim de semana, em Lisboa, tiveram o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda, ou não fossem as mesmas organizadas pela CGTP, pelo que estranho seria que os citados partidos não as apoiassem, em especial o primeiro (se bem que o Bloco também tivesse as suas razões, até porque pelo meio andou um grupo de radicais anarquistas, mais preocupados em atirar objectos à polícia). A manif destinava-se a protestar contra as recentes medidas de austeridade do Governo.

Entre as reivindicações do costume neste tipo de eventos contavam-se o aumento de salários, a manutenção "dos direitos que Abril nos deu", a não privatização de empresas públicas, etc, etc. Mas quando se trata de saber como há de o governo diminuir o défice, a resposta ou é uma evasiva lírica para demonstrar que isso é um assunto "secundário", ou fala-se logo na diminuição de proveitos de políticos ou administradores de empresas, pelo menos a avaliar por um recente outdoor bloquista, que aponta uma série de empresários, mesmo que alguns sejam do sector privado (que curiosamente são os que auferem menores rendimentos, se as contas do Bloco baterem certas).

Mas foram precisamente estes partidos que ainda há dias reiteraram o seu apoio ao avanço das grandes obras públicas, a começar pelo TGV, de entre todas a de rentabilidade mais que duvidosa. Para mais, os que irão utilizar tal transporte serão certamente aqueles que têm mais posses, e não os que participaram nas manifestações. Não é por haver TGV que as chusmas de pessoas que viajam em Intercidades entre Lisboa e Porto o vão deixar de fazer - caso contrário, fá-lo-iam de avião (o Alfa foi pensado para fazer as vezes do transporte aéreo, em versão um pouco mais vagarosa). Será que os dirigentes comunistas e bloquistas estariam a pensar em exclusivo neles próprios? Nesse caso, trata-se de uma inapelável traição aos valores colectivistas que apregoam e a rendição ao consumo puro. E uma coisa é certa: eles, que apontam sempre o dedo ao PS, PSD e CDS pelos males do país ficam a partir de agora co-responsáveis pelas futuras crises orçamentais e pelos atascanços nas finanças que tivermos. Quem se lança em aventuras deste calibre, contrariando descaradamente a sua doutrina, só tem que ser responsabilizado pelos seus actos. Ao lado dos partidos do "arco governamental", os partidos de esquerda radical e autoritária têm desde já a sua quota parte quando o défice nos voltar a bater à porta. é bom que ninguém se esqueça disso, na hora em que se pedir contas.
 

quarta-feira, outubro 07, 2009

A sapiência republicana do discípulo de Trotsky


Retido no fim de semana sem net, acompanhei ao de leve as comemorações da implantação da república, desta vez sem presidente. Parece todavia que as comemorações monárquicas tiveram mais impacto e maior adesão. Houve variadas formas de manifestações, à cabeça das quais o desfraldar da bandeira azul e branca na sede da Causa Real, ao Chiado. Desde Janeiro que não era ali hasteada (já tinha reparado nisso, e até pensei que tivessem mudado de instalações). Segundo as balbuciantes justificações da CML, um qualquer regulamento municipal proibia-o, embora até hoje, e durante sessenta anos, nunca tivesse havido a menor proibição por parte da edilidade lisboeta.

A ausência de Cavaco Silva dos habituais discursos em frente à câmara de Lisboa revela bem o diminuto interesse atribuído ao "5 de Outubro". A razão oficial foi a aproximação das eleições autárquicas. O quer só reforça a ideia da importância menor destas comemorações, para mais presididas pela presidente da AML: em 2001, em pleno dia de reflexão das presidenciais, Jorge Sampaio e todos os outros candidatos - à excepção de Ferreira do Amaral, por casmurrice - estiveram presentes na cerimónia de abertura do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura. Tendo em conta um e outro acto eleitoral e o impacto de cada um dos eventos, forçosamente se conclui que a relevância do "5 de Outubro" roça a nulidade.

Mas as movimentações monárquicas fazem-se notar. Francisco Louçã passou a semana a disparar contra tudo e todos, depois do tão anunciado terceiro lugar do Bloco se converter numa miragem. O alvo era agora Paulo Portas, que ouviu tudo, desde a acusação de ser de "extrema-direita", até ter "destruído o país", e de "remar contra a maioria da população portuguesa no referendo à IVG". Muito interessante, vindo do "coordenador" de um movimento com laivos de extrema-esquerda, cujos componentes ajudaram à destruição da economia do país em 1975, e que tanto gostam de se anunciar como grupo de protesto, "contra-corrente", "ovelha negra", etc. Todas as dúvidas sobre a honestidade intelectual e o fanatismo ideológico do representante da Quarta Internacional em Portugal ficaram definitivamente dissipadas.


Mas como a querer afirmar isso de forma ainda mais acentuada, Louçã veio agora chamar aos monárquicos "um pequeno grupo de patuscos atrás de um milionário banqueiro que conduziu um dos maiores escândalos da criminalidade económica em Portugal," que "lá apareceu pelo Tejo a gritar as saudades da monarquia", porque são todos de "direita reaccionária" que "reclama o regresso ao passado, o regresso ao atraso, à monarquia e à diferença”. A coisa resvalou para o insultozinho piadético sem piada nenhuma, a guetização ideológica, o lugar-comum marxista e a pura calúnia. Onde é que as acções de Teixeira Pinto levaram à "criminalidade económica"? Tem Louçã provas do que diz ou é mais uma das suas atoardas justiceiristas, querendo-se mostrar como o homem probo (talvez um sub-gênero do envelhecido "Homem Novo") no meio do "pântano da corrupção"? E porque razão quiseram as cúpulas do BCP afastar Teixeira Pinto quando este tinha um processo de renovação do banco, não se recordará o deputado trotsquista?

Quanto à confinação dos monárquicos na "direita reaccionária", só mostra o sectarismo e mesmo a ignorância de quem desconhece(?) que há monárquicos de diversos quadrantes políticos, à esquerda e à direita, em todos os estratos sociais e em todas as instituições. Muitos mais do que na sua miscelânea de esquerda radical e tocadores de djambé que atrai pontualmente alguns descontentes com o PS. Para Louçã, todo aquele que não faça parte do seu círculo ideológico próximo é imediatamente rotulado de "direita", e se for monárquico, torna-se um "reaccionário" (só falta mesmo "fascista"). Acresce que só o poder moderador cabe ao Rei, que reina mas não governa, que a vassalagem já não existe, excepto nominalmente a nível de protectorados que nada têm a ver com a monarquia, e que qualquer súbdito de um reino ou principado europeu tem tanta ou mais liberdade e direitos que qualquer república. Sobre o regresso ao atraso, calculo que deva haver aí certa confusão entre a liberdade que a monarquia sempre trouxe, fosse em 1385, 1640 ou 1834 (perdoem-me os tradicionalistas), e o PREC, do qual deve sentir muitas saudades. Tudo coisas que Francisco Louçã deveria saber, com toda a importância que se atribui. Mas mesmo que lho provassem na cara, a sua desonestidade intelectual e o seu radicalismo, que o impede de compreender ideias alheias, tornariam qualquer argumentação sólida num imenso desperdício de tempo.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Assim vale a pena

Ir ao Restelo (estádio que não conhecia), convidado para ver o jogo, numa tarde soalheira e com uma maré vermelha no interior do recinto é sempre apelativo. Se dá para ver o Benfica a golear com os Jerónimos, o Tejo e os transatlânticos como cenário do fundo, melhor ainda. Tal como aconteceu ontem, em que uma equipa terrivelmente eficaz não deu hipóteses a um Belenenses de poucas ideias. Tudo isto num ambiente fantástico, com o público a cantar ininterruptamente com a marcha do marcador. E, repita-se, à tarde, como "antigamente". Únicos senãos: os acessos e as bilheteiras do estádio, a precisar de arranjos, e ter perdido o meu velho cachecol do Benfica; como estava com uma camisola do Steaua de Bucareste (azul e vermelha, portanto), ninguém saberia dizer qual dos clubes estava a apoiar. Pequenas misérias à parte, uma óptima tarde de futebol, antecedida de uns pasteis de Belém, e um "Benfica à Benfica". assim vale a pena.

(Imagem tirada daqui)

terça-feira, agosto 04, 2009

A piada política da silly season


O caso do convite do PS a Joana Amaral Dias entra por mérito próprio para o anedotário político do ano. A acusação de Louçã, com o seu habitual tom de Savoranola trotsquista, de que José Sócrates teria convidado a ex-deputada bloquista para as suas listas de Coimbra e para um cargo num qualquer instituto público, despoletou uma reacção enérgica do Primeiro Ministro, com acusações mútuas de "mentiras" e "falta de vergonha". Assistiu-se a trocas de mimos, acirrando ainda mais a crispação entre o PS e o BE. durante dias não se percebeu quem dizia a verdade. Houve tomadas de posição, esgrimiram-se argumentos de parte a parte, escreveram-se inúmeros posts; uns deram a razão a Sócrates fosse pelo seu direito a convidar quem quer que fosse, ou pela ausência de provas do hipotético convite; outros acharam que Sócrates vinha com uma das habituais "aldrabices" e davam razão a Louçã. E todos perguntavam onde estaria Joana, que só ela poderia repor a verdade dos factos.


Até que finalmente a ex-menina bonita do BE apareceu publicamente, a esclarecer tudo. Com o seu habitual ar blasée com uma cobertura de petulância, que, reconheça-se, lhe fica muito bem, perante Ana Lourenço (uma boa escolha e um bom contraste), explicou que o convite lhe tinha sido endereçado pelo Secretário de Estado das Obras Públicas Paulo Campos, seu conterrâneo de Coimbra, pelo telefone, e não através de contactos "íntimos e privados" (como Campos dissera anteriormente), mas que "não havia condições políticas" e por isso declinou. Ao que parece, o governante não era assim tão seu amigo e só se tinham visto uma vez.


Não me parecendo muito ético que se ande por aí a convidar gente de outros partidos para as próprias listas eleitorais, certo é que casos destes são frequentes noutras situações, como as autárquicas, por exemplo. Ao que tudo indica, o PS tentou aproveitar o ostracismo a que Amaral Dias tem sido votada no BE para a "pescar" e conseguir assim um trunfo à esquerda, roubando votos ao BE. É possível que Sócrates não estivesse realmente informado e que a iniciativa tivesse partido dos socialistas de Coimbra, nomeadamente Paulo Campos.

Do que não há a menor dúvida é que o convite, ou sugestão, ou seja lá o que for, não era exactamente uma notícia a ser divulgada pelo pregoeiro. Assim, fica-se a pensar como é que Francisco Louçã teve acesso à informação: ou Joana Amaral Dias lhe disse, o que dadas as circunstâncias parece de todo improvável, ou alguém soube e transmitiu ao "coordenador" bloquista, que aproveitou logo para alardear o caso aos quatro ventos e atirar-se a Sócrates.

Parece-me que Amaral Dias consegue sair desta historieta sem grandes beliscaduras, embora seja o cerne da questão. Se desta vez não ingressou como candidata rosa, há de acabar fatalmente no PS, probabilidade séria desde que foi mandatária da juventude de Soares. Sócrates também escapa entre os pingos da chuva, porque não parece que a ideia tenha vindo dele. Piores na imagem ficam mesmo Louçã e o até agora discreto secretário de estado. O primeiro porque não soube respeitar assunto alheio e utilizou-o para representar o habitual papel de moralista sem podres, fazendo uma triste figura. E Paulo Campos porque sai como o jogral de serviço, que fala de supostos contactos com uma "amiga" que afinal só viu uma vez, se desmente e se vê de novo desmentido pela "convidada" em directo no noticiário. Sobretudo aquela expressão "contactos íntimos e privados", acompanhada de um sorrisinho entre o cândido e o sarcástico de Joana Amaral Dias, deu-lhe uma imagem patética de tentativa D. Juan instrumental (sem sucesso notório) ao serviço da causa rosa.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

O Bloco e o poder

O Bloco de Esquerda realizou a sua convenção, com apelos a medidas económicas "anti-capitalistas". O tempo passou e o nosso Bloco já vai em dez anos. Quem diria. Mas a verdade é que já nos vamos habituando à sua presença, e o movimento tornou-se sinónimo de "esquerdismo" e "politicamente correcto" por excelência, com a já desbotada expressão "esquerda-caviar".

Continua a ser um partido de díficil caracerização nas famílias ideológicas, quase tanto como o PSD. Amálgama de neo-trostquistas, ex-comunistas, maoístas recauchutados e desertores socialistas que se uniu para entrar no parlamento, talvez a classificação mais próxima seja a de esquerda radical.


O mais interessante - ou inquietante, dependendo das sensibilidades políticas - é que este partido é a mais bem sucedida tentativa de quebrar o domínio parlamentar de trinta e tal anos dos 4 habituais residentes do parlamento. De tal forma que já nem se deve falar em tentativa, mas em concretização. O caso mais conhecido até aqui fora o PRD inspirado e depois liderado pelo General Eanes, que logo na estreia, em 1985, entrou a matar com 18% e 45 deputados. Mas o deslumbramento e a irresponsável moção de censura ao governo de Cavaco foram disparos no pé e levaram-nos abaixo dos 5% primeiro, em legislativas antecipadas, e quatro anos depois à saída inglória do parlamento e posterior extinção. Houve também o caso do PSN, dos reformados de Manuel Sérgio, que conseguiu um mandato, mas a solidariedade derivou para a divisão e para as zangas e o partido escoou-se tão lesto como viera. Outros partidos que tiveram representação parlamentar iriam fazer parte do BE. A UDP chegou a entrar em S. Bento só de per si, com aquele inenarrável Américo Duarte, e mais umas legislaturas, com o PCP. O MDP-CDE, que nas constituintes obteve perto de 5% (quando Vasco Gonçalves dizia que iria ganhar as eleições), só também sumergido na APU voltou a entrar no hemiciclo.


Com a aliança PSR-UDP-Política XXI (herdeiro do extinto MDP)-FER, formou-se o Bloco de esquerda como o conhecemos. De resultados modestos nos primeiros anos, muito embora tivesse conseguido alguns deputados, ultrapassou os 6% em 2005 e pelas sondagens promete não ficar por aqui. A nível local é que as coisas parecem correr menos. Sem dúvida uma consequência sociológica dos seus apoiantes.


O Bloco é um partido com tendência a crescer em alturas de crise, com as suas iras, os seus protestos por tudo, o seu apoio incondicional às causas fracturantes, o seu aproveitamento mediático. E nota-se que cresce aproveitando a onda de contestação social às políticas de Sócrates, face à anémica ou atabalhoada oposição dos partidos à direita do PS ou a algumas limitações do PC em conseguir chegar a novo eleitorado. O Bloco vive da crise e da contestação, da crítica demolidora e de apelos constantes do contra. Cresce mais nas eleições nacionais porque aproveita o descontentamento, mas fica-se por resultados modestos nas locais por falta de implantação no terreno.


Na última convenção, Loução apelou a uma nova economia "socialista e anti-capitalista", o que significa que o discurso pode estar a radicalizar-se. Mas apelou igualmente a alianças como "movimentos de cidadãos", numa clara colagem ao MIC de Alegre e Roseta. À primeira vista parece uma inocente abordagem a independentes, mas numa altura destas, com perspectivas de crescimento nas sondagens, percebe-se a verdadeira ideia: a de ganhar mais votos aqui e ali (Sá Fernandes era outro exemplo, mas já lhes fugiu), a de conseguir o poder com as coligações que precisar, aproveitando o descontentamento e as divisões no PS. No fundo, a ideia de rejuvenescimento político do BE está a esgotar-se, e fica a clara sensação de um partido como os outros, que busca poder. Outra forma de o camuflar é haver um "coordenador" e dizer que não há líderes, como se Louçã não o fosse há anos. Nisso e em muitas outras coisas, parece-se com Paulo Portas. A sede de protagonismo e poder é outra característica, demasiado visível para se mascarar. Pode ser é que quando a situação económica e social, dê o seu tombo, quanto mais não seja por saturação.