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sexta-feira, janeiro 28, 2022

António Costa não é nenhum indiano

Para além de todas as críticas a António Costa (merecidas, em grande parte), há uma coisa que francamente não suporto: é quando lhe chamam "monhé", "chamuças", "indiano" ou até "preto". Além de serem "argumentos" de tasco e declaradamente racistas - aqui não há qualquer dúvida - são próprios de gente que ou nunca saiu da terrinha ou não conhece o seu país e a cultura que deu ao Mundo.

António Costa não é indiano. É português, filho de um goês, tal como outros membros do seu governo, de governos anteriores, de outros partidos, como o Prof. Narana Coissoró, e de tantas áreas da sociedade. Só por aí se pode ver a importância de Goa e dos goeses nas elites portuguesas. Não é à toa que se fica mais de 400 anos num território. Goa representa o que de melhor a presença portuguesa deixou no mundo: uma mistura da cultura lusa e indiana, traços sólidos de civilização e uma população preparada, instruída e trabalhadora. É o melhor exemplo do que a lusofilia e a portugalidade podem apresentar. E se poucos que lá moram falam a língua portuguesa, os nomes de família conservaram-se orgulhosamente.

Não tenho propriamente um grande fascínio pela Índia, mas gostava de conhecer Goa. Lá não existe a pobreza confrangedora que se avista noutras partes da Índia. Um dia perguntei a uma rapariga indiana, que me disse ser da costa oeste do país, se era goesa. Ela respondeu, com ar resignado, que não, mas que viver em Goa seria um sonho, tanto para ela como para qualquer indiano.

sexta-feira, outubro 01, 2021

Outras consequências da conquista de Lisboa

 Ainda sobre as autárquicas, a conquista de Lisboa pela coligação liderada pelo PSD pode ter outras consequências a médio prazo. Dizia-se, aquando da apresentação de Carlos Moedas como candidato, que uma eventual vitória poderia ser um trunfo para Rui Rio mas também uma ameaça, já que o ex-comissário europeu seria então uma forte hipótese para a liderança do partido.

Julgo que esse cenário é improvável. Recém chegado à câmara, e com muito trabalho pela frente, Moedas não deve estar certamentea pensar em liderar o partido. É verdade que a presidência da CML é tida como um trampolim para voos maiores, com propriedade, tendo em conta os casos de Sampaio, Santana e Costa. Mas será ainda muito cedo para pensar em algo mais, até porque não faltam outros candidatos à liderança laranja. De resto, Rio marcou pontos com as suas escolhas certeiras, como Coimbra e Funchal, e, evidentemente, a capital.

É no outro partido do poder que este resultado pode ser mais determinante. Perdida de forma inesperada a governação Lisboa, o seu grande trunfo, Fernando Medina viu certamente esfumar-se qualquer veleidade a chefiar o PS no pós-António Costa. Isso abre ainda mais o caminho a Pedro Nuno Santos, que com a sua combatividade e o conhecimento (e controlo) do aparelho socialista, vê crescer amplamente as suas ambições a liderar o partido no futuro. 

Sucede que, a ser este o cenário, aliás provável. Pedro Nuno herdará um PS desgastado pelo poder e pelos inúmeros problemas com que se deparou, alguns por culpa própria. Além disso, representa uma ala mais esquerdista do partido. O sempre decisivo eleitorado de centro, talvez agora menos numeroso, não deixará de olhar para o PSD como alternativa óbvia. Rio ou qualquer outro líder do partido terá então uma boa oportunidade para ganhar o poder, ou pelo menos de ficar em primeiro, a reboque e por via indirecta da conquista de Lisboa.






segunda-feira, novembro 30, 2015

Análise parcial e fragmentada ao XXI governo



O tão anunciado governo da esquerda já aqui está. Em primeiro lugar, e também como primeira crítica, há que dizer que está longe de ser o governo da "maioria de esquerda", de que tanto se falou como o "sonho" próximo e o "cumprimento de Abril". O seu processo de formação, demorado, sinuoso e dependente de acordos ambíguos e alianças duvidosas, enfraquece ainda mais a sua legitimidade política: trata-se de um governo exclusivamente do PS, do partido que ficou em segundo lugar nas eleições, com a anuência (para já) dos partidos mais à esquerda. O objectivo era tão só o de impedir que PSD e CDS voltassem a governar. O "governo de esquerda" é, como se podia imaginar, uma ficção: mais uma vez, o PCP (e o seu apêndice PEV) e o Bloco ficam fora de um governo, por sua vontade, desresponsabilizando-se dos problemas que o novo executivo venha a encontrar ou com os erros que possa vir a cometer. Preferirão sempre o protesto e assumir uma condição moral que manifestamente não têm. Definitivamente não conseguem assumir responsabilidades reais, mas agora já não podem arguir que não tiveram a sua oportunidade.


Mas apesar de tudo, e já que a maioria dos deputados assim o quis, é  o governo que temos e com que teremos de viver. Não se sabe por quanto tempo, mas imaginar que um futuro presidente vá a correr dissolver o Parlamento se não houver razões plausíveis para isso só cabe na cabeça dos mais atarantados. Mas com os frágeis suportes que o sustentam, não é improvável que a legislatura não dure quatro anos.


Analisemos a sua composição. Passando António Costa, que finalmente chega ao cargo para o qual se preparou nos últimos anos (com alguns truques à mistura), temos alguns nomes esperados e algumas surpresas (nem todas agradáveis). A primeira delas desagradou-me francamente: Augusto Santos Silva. Estava curioso para saber quem seria o novo inquilino das Necessidades, sabendo de antemão que não seria Seixas da Costa. Desfeita a dúvida, sobram muitas mais. Santos Silva é um político arguto e culto, e não se lhe conhece qualquer historial de casos menos lícitos. Mas o seu perfil conflituoso e quase persecutório e o seu historial pouco amistoso e de progressiva agressividade verbal (sobretudo nos governos Sócrates) fazem dele a pessoa menos indicada para estar à frente da diplomacia portuguesa. Veremos, mas para já não é um bom sinal.
Mário Centeno é o menos inesperado dos nomes. O rosto do programa económico-financeiro do PS era já o ministro-sombra de costa, assim como Caldeira Cabral. Nada de novo, a não ser o magno pormenor do seu programa ter sido desvirtuado com os acordos à esquerda.


Azeredo Lopes é, de todo o elenco governamental, o que melhor conheço, mesmo que seja dos menos mediáticos (embora tenha tido a responsabilidade de regular os media). Conheço-o de há muito das aulas de Direito Internacional Público na UCP do Porto e de vários seminários que organizou. Especialista em DIP, comentador televisivo de assuntos internacionais, colunista do JN, antigo presidente da ERC, era ultimamente, além das funções académicas que exercia, chefe de gabinete de Rui Moreira na câmara do Porto, depois de ter sido porta-voz da sua candidatura, chega agora ao governo, e logo numa pasta com alguma visibilidade. Nem sempre sendo de trato fácil, terá de se socorrer dos seus conhecimentos de política internacional em tempos de choques entre potências, contestação da NATO, terrorismo e secessões (o tema da sua tese de doutoramento). E terá também de gerir os cacos e os conflitos deixados pelo seu antecessor.

Depois, velhos conhecidos de anteriores governos socialistas que voltam aos lugares onde foram mais ou menos felizes, como Vieira da Silva, Capoulas Santos, e, de certa forma, Manuel Heitor e Maria Manuel Leitão Marques. Destaques para a nomeação de uma magistrada, a discreta Francisca Van Dunen (embora o facto de ser a primeira negra num governo português e das suas funções em tempos da prisão de Sócrates lhe dar algum destaque), e de João Soares, que chega finalmente ao cargo de ministro, no caso da cultura, depois de ser falado para a pasta da defesa. Não é de estranhar: ocupa uma vaga governamental para o soarismo e a área não lhe é exactamente estranha - recordar, por exemplo, que era vereador da cultura em tempos da Lisboa Capital da Cultura 94, antes de se tornar presidente do município - além de que se afastam os sempre salivantes "agentes culturais" que se atiravam ao cargo, não dando azo a tantas invejas.

De Matos Fernandes (ambiente) e de Constança Urbano de Sousa (administração interna) apenas posso dizer que ouvi excelentes referências. E para além de Santos Silva, o nome que mais se assemelha a equívoco é o de Tiago Brandão Rodrigues: chamar um académico, um investigador científico de 38 anos, que há 15 estava no Reino Unido para a sempre difícil pasta da Educação não lembra ao diabo. Compreendia-se se fosse para a ciência e ensino superior. Para a educação, ficamos a pensar que os restantes candidatos ao cargo seriam péssimos.

Os dados estão lançados.

sexta-feira, abril 24, 2015

Os méritos do programa do PS


O programa - provisório, ao que parece - do PS para revitalizar a economia nacional nos próximos anos, com a reposição dos salários dos funcionários públicos, a descida do IRS e do IVA nas empresas de restauração e o aumento de alguns benefícios sociais pode ser demasiado optimista, demasiado despesista, um risco para a segurança social e levar-nos a situações em que já caímos noutras ocasiões, precisamente com o PS no poder (e Paulo Trigo Pereira, um dos autores do documento, alerta precisamente para isso). Mas tem o imenso mérito de separar as águas e de marcar de novo o debate político. Os partidos do governo tiveram uma reacção infantil, quando disseram que o plano não tinha credibilidade sem o terem lido. Podiam antes dizer que as linhas gerais eram diferentes do que aquilo que defendiam, e reservar críticas mais construtivas para mais tarde. Mas pelo menos há aqui uma diferença ideológica, entre os que pretendem revitalizar a economia por via do consumo e do aumento dos benefícios sociais e do rendimento, e os que preferem fazê-lo através da descida dos impostos e dos custos de trabalho às empresas. Não se poderá acusar os partidos do arco do poder de "proporem todos o mesmo". Pelo menos agora pode-se optar por mais do que uma visão, que dependerá de se considerar que o estado deve ser mais ou menos interventivo na economia. As divergências de opinião serão sempre de carácter ideológico, não tanto de tribalismo político ou de casos de corrupção o que só ajuda o debate político.

sábado, novembro 22, 2014

O fantasma


Uma das coisas que me deixa curioso com a detenção de Sócrates (que seria a bomba política do ano, não fosse a derrocada do banco de todos os regimes BES, cuja relevância partilha ex aequo ) é como será o estado de espírito do congresso do PS, que se realiza já no próximo fim de semana. O acto formal de entronização de António Costa, que tinha tudo para ser uma união à volta do novo líder e uma forte alavanca para uma maioria sólida nas legislativas do próximo ano, terá um grande fantasma a esvoaçar, o fantasma de José Sócrates. Será que o vão exorcizar? Ou procurar defendê-lo? Cenas do próximo episódio da vida política portuguesa em 2014.


Adenda: o sentido de oportunidade do Câmara Corporativa, o blogue oficioso do PS socratista, é digno de estudo. Veja-se o post, supostamente irónico, que eles colocaram a propósito da discussão do fim das subvenções vitalícias...poucas horas antes da detenção de Sócrates.

terça-feira, setembro 30, 2014

O futuro novo primeiro-ministro


O resultado das primárias do PS impressionou pela mobilização e pela robustíssima vitória de António Costa. Negá-las é desviar a realidade dos olhos ou inventar desculpas de mau pagador. Pode-se achar que o PS se dividiu, que se lavou a roupa suja em público, que tem de conquistar o país, etc, mas é inegável que com as primárias (e todos os seus passos em falso) o partido marcou pontos e que António Costa tem uma posição extremamente sólida. Depois de ser deputado, eurodeputado, ministro (três vezes) e presidente da câmara de Lisboa (até quando?), Costa consegue chegar ao topo do partido, com amplas hipóteses de no futuro próximo levar o PS de novo para o governo. Tem, é claro, os seus anticorpos, a imagem à frente da capital não é tão positiva como isso e terá de gerir muito bem as divisões partidárias, em especial a herança socratista, e dar credibilidade ao PS, que bem precisa dela. Mas não se duvide: com este resultado esmagador, ainda mais legitimado com os votos dos simpatizantes, só muito dificilmente é que António Costa não será o próximo Primeiro-Ministro de Portugal.
 
 
Já agora, uma das frases da noite, em que pouca gente reparou, devia ser a declaração de Jerónimo de Sousa: o secretário-geral do PCP acha que "estas primárias foram uma farsa". Ouvir o líder do partido mais fechado de todos, onde o debate é nulo e os dirigentes escolhidos antes de serem eleitos (por unanimidade) criticar umas eleições, que, com todos os seus defeitos se tentou abrir à sociedade portuguesa, é de rir à gargalhada e de perguntar a Jerónimo se acha que tirando o militantes do PC, alguém acredita naquilo. Éo mesmo que comparar o "referendo" na Crimeia com o da Escócia. Jerónimo provavelmente acha que este último também é "uma farsa". E ainda há quem sonhe com a "união das esquerdas". 

domingo, setembro 28, 2014

Antes das primárias


Antes de se saberem os resultados das primárias do PS, há que enaltecer um tal processo, inédito na vida partidária portuguesa. É certo que a "fronda" de António Costa é oportunista (ficou claramente à espera do resultado das europeias) e lembra aquilo que já aconteceu antes no CDS, quando Portas apeou ribeiro e Castro (com resultados visíveis) ou no PSD, quando Menezes substituiu Marques Mendes (com consequências patéticas). Mas teve pelo menos a virtude de levar o seu partido a umas eleições primárias, bem mais abertas do que as "directas" que até agora observávamos nos partidos, e que era um solução pior do que as votações em congressos. Além de esvaziarem boa parte da utilidade (e porque não dizê-lo, da emoção) das "reuniões magnas", continham o velho truque de arrebanhar novos militantes para se conseguir determinado resultado político. Estas primárias poderão não ser uma solução milagrosa e tem alguns riscos e contradições (a possibilidade de simpatizantes políticoa adversários tentarem por esta via um resultado nocivo para o partido em questão), mas sempre permitem que a sociedade para lá da estrita militância aparelhista se possa pronunciar.

Quanto à campanha, admira-me que pouco se tenha distinguido de outro qualquer acto pré-eleitoral, além do dinheiro gasto na coisa. António José Seguro bem pode fazer-se de desgraçadinho, mas a verdade é que a postura calimérica, cinzenta e pouco mobilizadora não ajudou, e muito menos aquele patético filme de campanha envolvendo cravos e cortes. Além de que a sua sofreguidão pelo lugar vago logo na noite de 2011, em que o PS de Sócrates perdeu, também não ajuda. E a proposta de dmiminuir o número de deputados é das mais populistas e feitas em cima do joelho de que há memória.

De resto, é inegável que António Costa é dez vezes melhor que Seguro, tem menos cara de pau e é muito mais convincente. E tem a enorme vantagem mediática de sr simpático e não perder a compostura (comparando com Sócrates, então...)Mas devia tomar cuidado com o que propõe nos debates: neste último, ouvi bem ou ele falou mesmo em diminuir o desemprego com base (entre outras coisas), na reabilitação urbana? Não seria melhor olhar primeiro para o município a que preside? É que se a reabilitação urbana for para a frente como tem sido no centro de Lisboa não é de prever grande descida da taxa de desemprego, por essa via.

quinta-feira, maio 29, 2014

No PS afiam-se espada e contam-se espingardas



Os dois partidos socialistas da península Ibérica passam por convulsões internas de monta. A diferença é que enquanto o PSOE já andava a arrastar-se há algum tempo e teve um resultado muito fraco nestas europeias, abaixo do do descredibilizado governo do PP, o que levou à demissão do secretário-geral Rubalcaba, que enquanto ministro do interior desmantelou a ETA, o PS português ganhou as eleições, meses depois de ganhar as autárquicas. À partida, deveria significar um reforço do partido face ao desgaste e à impopularidade do governo. Afinal, voltam-se a contar espingardas. Seguro, depois do delirante discurso da "grande vitória", vê-se de novo confrontado com a ameaça de António Costa.
Não é novo na política portuguesa que um líder partidário seja objecto de uma tentativa de derrube sem antes passar pela prova de umas legislativas (casos de Marques Mendes e Ribeiro e Castro), mas no PS tal nunca sucedeu. Houve demissões a meio do mandato por vontade dos próprios (Constâncio e Ferro Rodrigues), mas nunca por golpes palacianos.
Pode parecer uma facada da parte de Costa, mas punhamo-nos no seu lugar: Seguro é tão atractivo como um cacto e tem o carisma de um arbusto. Ao contrário do ex-homólogo espanhol, não tem obra que se visse. O resultado das europeias é pouco satisfatório. Provavelmente é a única hipótese que o edil de Lisboa tem de alcançar a liderança do PS e levá-lo a um resultado razoável nas próximas legislativas. Imaginar Seguro como primeiro-ministro, para mais em minoria, é aterrador. António Costa pode ser muitas vezes sobrevalorizado e com boa imprensa, mas tem bem mais sentido de estado, instinto e capacidade política que o secretário-geral que escolheram para o PS. E depois, falando em "traições partidárias", é bom recordar que na própria noite da derrota de 2011, mal Sócrates disse que se afastaria da vida política, de imediato Seguro disse, com um tom pomposo e um sorrisinho irritante, "a título oficial", que estava disponível para o que o partido precisasse. Como se fosse difícil adivinhar...O trabalho de sapa junto do aparelho estava feito, e não precisou de muito para vencer internamente Francisco Assis.

Resta saber se Seguro convocará o congresso extraordinário e irá à luta. Mas em qualquer situação o PS ganhará algumas feridas. Se não houver o tal congresso, a situação interna aprodecerá e poderá ser fatal para os objectivos do partido. Se for e derrotar Costa, reforçará em definitivo a sua posição, mas o combate causará sempre mossa. Se Costa lhe arrebatar a liderança, os apoiantes de Seguro não lhe perdoarão e causarão um ambiente de difícil respiração. Em qualquer dos casos, o PS vai passar por dias turbulentos. E Passos Coelho e Portas só esperam que esses dias sejam demorados.

domingo, dezembro 15, 2013

As tristes figuras de uma estrela ressabiada

 
Edite Estrela sempre me pareceu uma pessoa de uma arroganciazinha irritante, num tom de pedagoga que não admite réplica. Agora confirmou isso tudo e ainda conseguiu ir mais além.
 
A votação desta semana no Parlamento Europeu de um relatório sobre "direitos sexuais" das mulheres, em que se recomendava, entre outras coisas, o acesso livre ao aborto em todos os estados e a introdução de educação sexual desde o ensino primário, da autoria da mesma Edite, acabou com o chumbo por parte do Partido Popular Europeu. Qual a reacção da sua mentora? Ao melhor estilo das radicais do Bloco ou do grupo Femen, queixou-se de que "a hipocrisia e o obscurantismo se tenham sobreposto aos legítimos direitos das mulheres”. A velha conversa, embora nunca tenha percebido como é que pessoas que defendem valores que consideram fundamentais possam ser considerados fundamentais possam ser consideradas hipócritas; e obscurantistas porquê, será Estrela a dona da verdade?
 
Como Nuno Melo naturalmente respondesse a isto, acusando-a de "democrata de circunstância " por não poupar ao insulto quem discordou da sua recomendação, Estrela conseguiu uma emenda pior que o soneto: a resposta do eurodeputado do PPE dever-se-ia à necessidade de fazer uma "prova de vida", porque a ele ninguém o conheceria, ao passo que ela é "a deputada mais famosa do Parlamento Europeu", e preveniu ainda os eleitores que "no momento da votação não é indiferente eleger uns ou outros deputados".
 
Pois não. Nisso, e apenas nisso, concordo com Edite. Porque não votar em Estrela traria sem dúvida uma maior higiene democrática ao PE. É que esta triste figura a que se prestou causou-me asco, vergonha e pena. Asco por fazer passar a estafada ideia do aborto sem restrições como um direito fundamental; vergonha por lançar-se em acusações inanes a quem votou de forma contrária; pena por não controlar a sua mitomania e julgar que é, mais do que meramente está escrito no seu apelido, a "estrela" do euro-hemiciclo.

quarta-feira, junho 05, 2013

A impossível convergência das esquerdas


Acho muita piada a estas "convergências das esquerdas" que Mário Soares anda a tentar arranjar, na esteira do Congresso das Alternativas, depois de anos de tentativas falhadas, com o propósito de constituir novo governo depois de derrubar o actual. Esquece-se é de uns meros pormenores: o executivo em funções só pode cair ou por dissolução do parlamento por Cavaco Silva, ou se o CDS romper com a coligação e esvair-se a maioria parlamentar. Ou seja, não é pela esquerda que o Governo cai. Mais importante, quem iria ocupar o lugar? O PS? Com certeza, mas sem maioria? E que estas "convergências" esquerdistas são muito bonitas e muito utópicas, mas esquecem-se do magno problema da natureza de cada um dos partidos: como é que um partido como o PS, que assinou o memorando da "Troika" e apoia a NATO, pode convidar para um executivo elementos de um partido que manda condolências pela morte de Kim jong Il ao mesmo tempo que vota contra votos de pesar a Vaclav Hável, e outro que se diz "anticapitalista" e se que divide em facções de esquerda radical? Nem para as autárquicas se conseguem coligar, quanto mais a nível nacional. Se surgir um qualquer movimento mais moderado, como aconteceu na Alemanha, com pessoas como Daniel Oliveira, talvez o PS possa pensar em coligações à esquerda. Até lá, terá de se desenrascar e continuar a acenar discretamente a Paulo Portas.

quinta-feira, agosto 04, 2011

A ascensão de Seguro


Com as minhas falhas actuais, ainda nem tinha comentado a nova liderança do PS. Aliás, com os acontecimentos na Noruega, a crise económica, etc, parece que ficou para segundo plano.


Mas sim, o Partido Socialista tem um novo líder, depois da era de José Sócrates, que coincidiu quase na totalidade com o domínio do executivo. A luta entre Francisco Assis e António José Seguro prometia no início, com a não candidatura de António Costa. Mas o antigo líder da JS tinha o aparelho socialista nas mãos. Há muito aliás, que Seguro parecia conhecer os meandros do partido e as suas estruturas, como o seu ar pouco expectante e tranquilo fazia supor. Assis reuniu à sua volta algumas figuras de relevo e as distritais do Porto e de Lisboa, mas nem assim logrou aproximar-se do seu adversário. O prestígio angariado como líder parlamentar e a sua postura respeitável não só foram insuficientes como pareceram mesmo ser um obstáculo na corrida à liderança. Quando Assis resolveu pegar no assunto do clientelismo partidário e lançá-lo na praça pública, afirmando que o PS tinha-o em demasia e que dele precisava de se libertar, o tiro de canhão saiu pela culatra directamente para o pé. Dizer alto e bom som que um partido que depende do poder e de um sem fim de prebendas e de clientelas que se deve livrar deles é obviamente uma táctica suicida. Só mesmo por desespero de causa é que um político experiente como Assis pode tê-lo feito. Se as coisas não lhe estavam a correr bem, com essa atitude entregou o partido a Seguro.



Com a coincidência, recordada por todos os jornais e revistas, de que os dois maiores partidos têm agora à frente antigos líderes das respectivas jotas, para mais coincidentes no tempo, parece que a geração que era adolescente ou criança no 25 de Abril tomou enfim conta dos destinos do país. Não sei se é bom ou mau. Tenho as minhas esperanças, mas já não fico tão optimista quando vejo pessoas que cresceram chefiando um grupo de políticos juvenis mais preocupados (já nesse tempo) com eventuais cargos do que com combates ideológicos à frente dos destinos nacionais ou respectivas oposições.



Seguro deu uma razoável imagem de elemento contra a corrente neste período em que o PS era poder e o socratismo imperava. Vê-se agora que era sobretudo uma estratégica paciente mas eficaz de alcançar a liderança do PS, recolhendo os cacos deixados a 5 de Junho, que ele sabia que forçosamente teriam de ser apanhados. As frases que pronunciou com a maior cara de pau, declarando (numa declaração semi-oficial) estar aos dispor do que o partido precisasse, mal Sócrates anunciou a retirada, revelaram cristalinamente as suas intenções. Seguro estava morto por apanhar a liderança, e preparou-se bem para o efeito. Arrisca-se é a ficar demasiado tempo na oposição e a ser imolado em futuras eleições, ainda que as autárquicas de 2013 lhe possam correr bem. Mas se ganhou o aparelho partidário, a ausência de carisma e de currículo fora do partido e alguma desconfiança do público pela avidez do rapaz de Penamacor serão obstáculos difíceis de ultrapassar. A não ser que o poder um dia lhe caia no regaço, coisa que não é assim tão raro acontecer (Sócrates, Durão e Santana sabem-no bem).


E agora, poder-se-à falar no "segurismo"? O soarismo está quase acabado, o gamismo extinguiu-se há muito, o guterrismo é coisa rara, e boa parte dos seus adeptos desertaram para o socratismo. "Assismo" é coisa que não parece existir. Parece, no entanto, que o sampaismo ainda mexe, transmutado no ferrismo. Uma corrente de migrantes do antigo MES que desaguou no PS e formou uma corrente mais à esquerda, primeiro com Jorge Sampaio e depois com Ferro Rodrigues (embora Manuel Alegre não se insira nesse grupo). Disse-se que Assis era a continuidade de Sócrates, numa linha mais pragmática e menos ideológica. Tenho as minhas dúvidas, embora o encaixe nalgum guterrismo não declarado. Já Seguro, sinceramente, não o consigo rotular. Nalgum socratismo de discurso mais ponderado e suave? Decididamente, o PS é um partido complicado e dividido em inúmeras franjas. Ao menos já houve um resultado prático: os debates no Parlamento estão muito menos crispados do que no tempo de Sócrates, e os pequenos desafios ad hominem deram lugar a mais discussão política. Valha-nos isso.

quarta-feira, abril 27, 2011

A foleirização da bancada do PS



José Lello escreveu, na sua página de Facebook, que Cavaco Silva era "um presidente foleiro". Já se sabe que deste porta-voz das mensagens (ainda mais) sujas de Sócrates não se pode esperar grande coisa, mas mesmo assim não deixa de espantar pela leviandade. Em sua defesa, Lello diz que escreveu "involuntariamente", que se soubesse que era pública diria que "o presidente devia ser mais abrangente nos seus convites"...involuntariamente, quando se publica numa página visível por milhares? Além de grosseiro, o deputado do PS faz das pessoas parvas com as suas desculpas esfarrapadas.



Cheguei a achar que possuía um certo sentido de humor quando todos os anos, no Expresso, dedicava sempre livros a determinadas personalidades que se identificassem com os seus títulos. Provavelmente limitava-se a procurar em catálogos. Mas a situação não incomoda apenas por causa de Lello, que já nos habituou às suas faltas de respeito e aos seus truquezinhos: o problema é que grande parte dos deputados dos principais grupos parlamentares não são assim tão diferentes. A grosseria e a crispação instalaram-se em S. Bento, em boa parte devido ao estilo de Sócrates, mas sem pinga de irreverência ou humor que caracterizavam gente como Francisco Sousa Tavares ou Natália Correia. Os funcionários partidários promovidos à cadeira limitam-se a espalhar ditos sem graça e sem nível. Neste particular, o PS tem dado o maior exemplo, e a sua bancada é uma sombra de antigamente. Vejam-se os principais candidatos pelo Porto: além de Lello, temos ainda o eterno bonzo Alberto Martins e o deprimente Renato Sampaio, outro yes man que mal sabe escrever e cuja ideia mais brilhante que se lhe conhece foi a proposta de proibição de piercings. Safa-se Francisco Assis e pouco mais. Apesar de tudo, ver Ferro Rodrigues e Basílio Horta naquela bancada será um oásis naquela manada de gentinha rasca, constituída por Lellos, Renatos e Telmos. E faço figas para que os outros grupos parlamentares sejam, como me parece que são, bastante melhores.



sexta-feira, março 25, 2011

A maior irresponsabilidade

A cara de pau que o núcleo duro socratista assume quando fala na "irresponsabilidade da oposição" seria uma boa piada se a situação não fosse tão grave. Se houve irresponsáveis foram os que permitiram que a situação financeira, política e moral chegasse a este ponto. Andar a prometer mundos e fundos, e TGVs, e barragens, e aeroportos, e a aumentar salários antes das eleições deu na tenebrosa situação a que estamos sujeitos, quase a pedir ao FMI que venha cá e que os juros monstruosos e incomportáveis baixem um pouco, finalmente. É verdade que culpados houve muitos, antes de Sócrates e os seus muchachos. Mas nunca como aqui a irresponsabilidade e a sede de poder tinham ido tão longe (se bem que Santana Lopes tenha dado mostras disso em apenas seis meses de governação).

Isto verificou-se de forma cristalina na apresentação traiçoeira do PEC 4, passando por cima de acordos anteriores com o PSD sem avisar nem o Presidente, a oposição, ou qualquer outro orgão de sobernia, incluindo o próprio grupo parlamentar. Uma tão grande partida merecia, como mereceu, que toda a gente passasse a desrespeitar o governo e a entender que o prazo de validade se esgotara. Continuo sem saber se Sócrates acreditava que à última o PEC iria passar ou se era uma partida para fugir sob a capa da vitimização (ou reforçar o seu poder numa eventual reeleição). Apesar de muito se falar numa provocação para causar a fuga, talvez a primeira hipótese não seja descabida. A cara dele no debate no Parlamento dizia tudo, o que talvez explique a saída abrupta com menos de meia hora de sessão. Talvez essa imagem seja a mais elucidativa. No momento mais delicado, quando o seu governo corria seriíssimos riscos de caír, quando Teixeira dos Santos começou a falar, o Primeiro-Ministro, com ar vexado, de quem sabia que tudo estava prestes a acabar, abandonou o palco de combate, deixando as tarefas mais espinhosas ao seu mais atacado ministro e a um resistente Francisco Assis. Apesar de tudo, julgava que Sócrates mantinha uma réstia de coragem. Quem não consegue enffrentar os adversários políticos no Parlamento quando está em baixo não se pode vangloriar de enfrentar a "crise internacional". Entre todas as outras, esta terá sido a sua irresponsabilidade mais notória e eloquente.

domingo, julho 11, 2010

Um moço de recados desprestigiante


 
Se há político que pelas suas atitudes mancha absolutamente a sua classe, tem um nome em Portugal: José Lello. Mancha que espalha, aliás, reiteradamente, como se nada fosse. Depois de dizer que Manuel Alegre tinha aproveitado voos pagos pelo seu partido para fazer acções de promoção dos seus livros nos Açores (coisa que era mentira), e de vir em socorro a Vital Moreira, quando este acusou o PSD de estar ligado às "roubalheiras do BPN", mandando pelo caminho recadinhos a Maria de Belém quando esta disse não se rever em tais declarações, vem agora com a sua última bojarda. Um projecto recente do Parlamento previa que os deputados viajassem em voos de classe económica em viagens de tempo inferior a três horas, excluindo o Presidente da AR. Todavia, Jaime Gama renunciou à regalia e colocou-se ao nível dos restantes deputados. Não se sabe vindo de onde, Lello surgiu dizendo que seria "desprestigiante"o Presidente da AR não viajar sempre em executiva.

Não sei o que leva a criatura a dizer tantos disparates. Será o porta-voz das coisas que a cúpula pensa e não pode dizer? Terá alguma propensão clínica para a asneira? Ou acumulará tantos ódios de estimação que não se contém e revela-os publicamente? Seja como for, cada vez que fala queima-se publicamente. Estranho que não perceba que a atitude de Gama revela sentido de estado e cai bem na opinião pública. Não sei como Lello se mantém no Parlamento, ou que valia trará actualmente ao PS, mas este ofício de moço dos recados estapafúrdios e trauliteiros (agora a visar o próprio Jaime Gama) não deve trazer muitos votos. Alguém lhe diga, com todas as letras, que desprestigiante é a sua figura quando se lembra de abrir a boca com um microfone à frente.

terça-feira, agosto 04, 2009

A piada política da silly season


O caso do convite do PS a Joana Amaral Dias entra por mérito próprio para o anedotário político do ano. A acusação de Louçã, com o seu habitual tom de Savoranola trotsquista, de que José Sócrates teria convidado a ex-deputada bloquista para as suas listas de Coimbra e para um cargo num qualquer instituto público, despoletou uma reacção enérgica do Primeiro Ministro, com acusações mútuas de "mentiras" e "falta de vergonha". Assistiu-se a trocas de mimos, acirrando ainda mais a crispação entre o PS e o BE. durante dias não se percebeu quem dizia a verdade. Houve tomadas de posição, esgrimiram-se argumentos de parte a parte, escreveram-se inúmeros posts; uns deram a razão a Sócrates fosse pelo seu direito a convidar quem quer que fosse, ou pela ausência de provas do hipotético convite; outros acharam que Sócrates vinha com uma das habituais "aldrabices" e davam razão a Louçã. E todos perguntavam onde estaria Joana, que só ela poderia repor a verdade dos factos.


Até que finalmente a ex-menina bonita do BE apareceu publicamente, a esclarecer tudo. Com o seu habitual ar blasée com uma cobertura de petulância, que, reconheça-se, lhe fica muito bem, perante Ana Lourenço (uma boa escolha e um bom contraste), explicou que o convite lhe tinha sido endereçado pelo Secretário de Estado das Obras Públicas Paulo Campos, seu conterrâneo de Coimbra, pelo telefone, e não através de contactos "íntimos e privados" (como Campos dissera anteriormente), mas que "não havia condições políticas" e por isso declinou. Ao que parece, o governante não era assim tão seu amigo e só se tinham visto uma vez.


Não me parecendo muito ético que se ande por aí a convidar gente de outros partidos para as próprias listas eleitorais, certo é que casos destes são frequentes noutras situações, como as autárquicas, por exemplo. Ao que tudo indica, o PS tentou aproveitar o ostracismo a que Amaral Dias tem sido votada no BE para a "pescar" e conseguir assim um trunfo à esquerda, roubando votos ao BE. É possível que Sócrates não estivesse realmente informado e que a iniciativa tivesse partido dos socialistas de Coimbra, nomeadamente Paulo Campos.

Do que não há a menor dúvida é que o convite, ou sugestão, ou seja lá o que for, não era exactamente uma notícia a ser divulgada pelo pregoeiro. Assim, fica-se a pensar como é que Francisco Louçã teve acesso à informação: ou Joana Amaral Dias lhe disse, o que dadas as circunstâncias parece de todo improvável, ou alguém soube e transmitiu ao "coordenador" bloquista, que aproveitou logo para alardear o caso aos quatro ventos e atirar-se a Sócrates.

Parece-me que Amaral Dias consegue sair desta historieta sem grandes beliscaduras, embora seja o cerne da questão. Se desta vez não ingressou como candidata rosa, há de acabar fatalmente no PS, probabilidade séria desde que foi mandatária da juventude de Soares. Sócrates também escapa entre os pingos da chuva, porque não parece que a ideia tenha vindo dele. Piores na imagem ficam mesmo Louçã e o até agora discreto secretário de estado. O primeiro porque não soube respeitar assunto alheio e utilizou-o para representar o habitual papel de moralista sem podres, fazendo uma triste figura. E Paulo Campos porque sai como o jogral de serviço, que fala de supostos contactos com uma "amiga" que afinal só viu uma vez, se desmente e se vê de novo desmentido pela "convidada" em directo no noticiário. Sobretudo aquela expressão "contactos íntimos e privados", acompanhada de um sorrisinho entre o cândido e o sarcástico de Joana Amaral Dias, deu-lhe uma imagem patética de tentativa D. Juan instrumental (sem sucesso notório) ao serviço da causa rosa.

quarta-feira, maio 27, 2009

Educação sexual e o direito ao i-Pod


A discussão sobre o ensino de educação sexual tinha de dar numa tentativa de "fracturar" o tema. Vindos da costumeira JS, que em ano tri-eleitoral precisa ainda mais de ganhar votos ao Bloco. A educação sexual é matéria cuja implementação no ensino há muito que se discute. As divergências mais esperadas rondam a obrigatoriedade ou não da disciplina e as matérias a ser leccionadas, dependendo da ideia que os pais têm do assunto. Depois de anos de discussão, e apesar de severas desconfianças da Associação de Planeamento Familiar, não vejo assim com maus olhos a entrada de tal inovação no plano curricular, desde que seja dada nas competentes disciplinas, ou seja, em ciências naturais. apesar de tudo, confio no bom senso de Daniel Sampaio.


Em quem não tenho confiança absolutamente nenhuma é nos meninos da JS e nos seus apologistas jornalísticos. A representante da esquerda radical na redacção do Público, São José Almeida, atirou com um abjecto artigo na edição do último sábado, em que acusava os deputados do PS que se opõem à distribuição gratuita de preservativos nas escolas de medo ao "lobby católico". No meio da sua defesa incansável da JS e das propostas do seu "genial" dirigente, Duarte Cordeiro, e com uma linguagem em que só faltariam os termos "medieval" e "obscurantismo", a senhora não se deu certamente conta de que a oposição à ideia da se andar alegremente a dar preservativos às meninas e aos meninos ia da direita até ao centro-esquerda, e que só a partilhavam a ala mais à esquerda do PS, o Bloco e o PCP, minoritários. E que isso pode apenas ser motivado por um mero sentido de responsabilidade. Se os adolescentes quiserem adquirir preservativos, há farmácias e máquinas para o efeito. E sim, pode haver influências e princípios religiosos que levem a que as pessoas pensem de uma certa maneira, por muito que isto custe entender a São José Almeida (que estranho, usar nome tão canónico), que provavelmente também escreverá motivada pelas suas ideias radicais. A religião e o sentido do transcendente sempre influenciaram os homens e inculcaram-lhes princípios, e é com base neles que fazem as suas escolhas. O problema é que a mera referência a isso desperta logo os laicistas de serviço, que vêm logo "um ataque ao estado laico". Não só querem as referências religiosas fora do espaço público como pretendem ainda afastá-las da consciência dos que crêem.


Cada um acredita no que quer, mas não me parece nada gravoso que os responsáveis nacionais sejam influenciados pela doutrina cristã e pelos ensinamentos da Igreja, que afinal foram os que nortearam o país na sua história e que fazem parte do seu ADN. Bem pior e bem menos isento é que as normas que regem a sociedade fiquem sob os ditames de uma juventude política que tudo faz para que olhem para ela e para impedir a fuga de votos, e que como todas as "jotas", é composta sobretudo por carreiristas e oportunistas.



Ah, e o último cartaz da JS tem imensa piada: diz que "a Europa é Vital" (perceberam a graça, não perceberam? Europa...Vital com maiúscula...), e entre os slogans aparece um curioso "pelo direito ao TGV". Afinal, o comboio rápido não é uma necessidade, nem ao menos um "desígnio": é um direito, que por certo o Prof. Vital quererá que seja aposto nos Direitos Económicos, Sociais e Culturais da CRP. Se assim é, na plena posse da minha cidadania, invoco o meu direito ao i-Pod, que não tenho nenhum. Prezados jotinhas socialistas, dá para fazer um outdoor com a inscrição "pelo direito ao i-Pod"?

terça-feira, abril 28, 2009

Os erros de Elisa


Depois de cogitações, rumores, discussões e apelos, Elisa Guimarães Ferreira tornou-se efectivamente na candidata do PS à Câmara do Porto. Reúne o currículo necessário para a empresa: tem experiência política e administrativa como deputada em Estraburgo e S. Bento e como Ministra do Ambiente e do Planeamento, cargos em que mostrou firmeza, convicção e conhecimento das matérias. Não é uma carreirista e, não sendo filiada no PS, não precisa de "ascender no partido". A sua candidatura foi lançada atempadamente. Não é uma populista, mas é conhecida e respeitada na cidade. Será sem dúvida uma candidata temível para Rui Rio. Ou seria.


A candidatura parecia à primeira vista ter todas as condições para triunfar, recolhendo alguma vantagem do desgaste e de alguns anticorpos dos oito anos da administração de Rio. Mas desde o início foram cometidos vários erros que podem afectar a sua credibilidade. Para começar, espalhar uma série de outdoors pela cidade inteira desde Fevereiro não parece ser de muito bom tom, tanto pelos gastos que comportam numa altura de crise financeira e económica, em que o PS deveria ser o primeiro a mostrar sobriedade, como pelas autárquicas ainda estarem longe. Dá ideia que se desvalorizam as europeias e se se dão as legislativas como dado adquirido.


Depois, e mais grave que isso, a candidatura conjunta ao Parlamento Europeu (num lugar elegível) e à CMP são um rude golpe na credibilidade que se exige a alguém que tem reais pretensões a ocupar a Câmara. Tal como acontece com Ana Gomes, para Sintra. Diz Elisa, como justificação, que se for eleita para a CMP não deixará de ocupar o lugar, desistindo do PE. Óptimo. Mas e se perder? Pelo que me disseram, recusar-se-ia a ficar como vereadora (ao contrário do que sucedeu com Francisco Assis) e regressaria a Estrasburgo, dado que o seu estatuto e o seu currículo não lhe permitiriam liderar a oposição. Não vi essas declarações, apenas mas contaram, pelo que carecem de confirmação. Mas caso sejam verdadeiras, são um golpe em qualquer mensagem de seriedade que se queira fazer passar. Além de considerar a Câmara como coisa menor se não for a presidência, a mensagem que fica é que falhada a eleição autárquica terá sempre um lugar à sua espera, e um dos mais cobiçados. Como se não bastasse, faz ver que o seu currículo pesa mais do que a intenção de servir a causa pública, não admitindo ficar na vereação. Considerará o lugar "desonroso", depois de ter sido ministra? Talvez fosse bom olhar o exemplo inverso de Francisco Assis, que ocupou o seu lugar na edilidade, ainda que sem pasta, mesmo tendo permanecido como eurodeputado.


A ser verdade, tudo isto é deprimente e só dá gasolina aos que acusam os políticos de serem "todos iguais" e de "só quererem poleiro". Semelhante atitude não cairia bem entre o eleitorado portuense. Para mais, o PS-Porto, essa farândula de mediocridades em constantes lutas pelas migalhas do poder, que representa o pior dos aparelhos partidários (como se vê pelo episódio Narciso Miranda), não deve ver com bons olhos uma independente a encabeçar a tentativa de conquista da CMP e dificilmente deixará as suas conspiraçõezinhas de lado. Provavelmente não aprenderam nada com o choque da derrota de Fernando Gomes, o melhor autarca que o Porto teve em décadas, em 2001, depois de uma campanha sobranceira em que, tal como parece acontecer agora, se considerou a câmara como mero sucedâneo de poder. E podiam ainda ir buscar outro exemplo, mais antigo, este ao PSD, quando em 1993 candidataram António Taveira à CMP. Já depois do anúncio da candidatura, o senhor tomou posse como Secretário de Estado, para poucos meses depois se auto-exonerar para concorrer às autárquicas, como toda a gente sabia que ia acontecer. Sofreu uma derrota esmagadora perante esse mesmo Fernando Gomes. Curiosamente, Taveira era marido de...Elisa Ferreira, a própria.
É espantoso como os maus exemplos mais próximos não parecem servir de emeda. Depois ainda se admiram de Rio ganhar.

quinta-feira, julho 31, 2008

Modas e fracturas
A Moda é uma poderosa força de evolução, seja em que sentido for. Aspectos físicos, ideias, projectos de maior ou menor envergadura, pouco escapa à sua capacidade de influenciar as acções em determinada época ou de determinar o curso das coisas. O parecer inovador ou moderno, o querer fazer parte deste ou daquele grupo, ou ainda escapar a qualquer anátema de ridicularidade, são as maiores expressões da tremenda força da moda.
Para nos cingirmos a aspectos mais visíveis, olhe-se para a fisionomia masculina ao longo dos últimos cem anos: do uso de bigodes arqueados ou enrolados até à cara rapada e ao cabelo engordurado em brilhantina, seguindo-se as gedelhas combinadas com barbaças ainda maiores e depois, novamente, a cara rapada. Neste momento, é moda usar-se uma barba de 8 dias, indefinidamente.

Depois de ter falado em Alberto Martins, não resisto a voltar-me de novo para gente do PS, desta vez para aqueles que mais aniosamente perseguem (ou o que eles julgam ser) a moda, mesmo mais do que José Sócrates: a Juventude Socialista.
A JS, como se sabe, além de servir para animar comícios e preencher em massa os serviços públicos disponíveis, como qualquer juventude política que se preze, tem como passatempo favorito lançar "causas fracturantes", embora de há uns anos para cá tenha o saudável convívio do BE nessa matéria. Há dias, em convenção, na passagem de testemunho de Pedro Nuno Santos para o novo líder da estrutura, Duarte Cordeiro, este não deixou de mostrar os seus projectos mais urgentes para o futuro, a começar pelo casamento de homossexuais. Seguiu-se na mesma ordem de importância a discussão acerca da eutanásia e da despenalização das drogas. Num grau menos elevado, falou-se apressadamente do desemprego e nada sobre justiça social.
O que é que isto revela? Que a JS continua agarrada ao seu vício de "fracturar" sem procurar soluções nem ao menos diagnóstico para os males do país e dos jovens que dizem representar. Propostas que dêm escândalo, eis o que têm para oferecer. O que é importante é o casamento de homossexuais e a adopção de crianças por casais gay, porque é "progressista" sem que ao menos se estude com honestidade as consequências graves desta segunda ideia (bem como da eutanásia). Os problemas sociais, o desemprego de novos e velhos, a miséria que aumenta de braço dado com a fome, tudo isso escapou aos jovens "progressistas". É natural: a pouco mais de um ano das legislativas, convém começar a tirar eleitorado ao Bloco. As Jotas servem para isso mesmo, além das razões descritas: para coneguir arrancar alguns votos indecisos para o partido a que pertencem, sob o lema da irreverência. Mesmo que isso implique aparecer com a bandeira das causas mais discutíveis e inúteis. Estas "juventudes" servem para dar umas migalhas aos seus partidos. Fora disso, a sociedade em geral não precisa delas para absolutamente nada.

segunda-feira, julho 28, 2008

O cinzentão
Depois de ouvir a resposta de Alberto Martins à entrevista de João Cravinho sobre os perigos de aumento da corrupção em larga escala (resumindo: "o PS não recebe lições de combate à corrupção"), não pude resistir a deixar aqui umas palavras. É que este tipo é o protótipo da vacuidade política, do cinzentismo da classe, da absoluta falta de convicção em tudo o que diz e faz. É inconcebível pensar como é que chegou a líder estudantil numa altura em que era perigoso sê-lo, a deputado e a ministro. Provavelmente, apanhou a carruagem e deixou-se habilidosamente ir. Como deputado é um soporífero, e na pasta da Reforma do Estado, que ocupou durante 3 anos, não se lhe reconhece qualquer obra ou resultado deixado.

Basta ouvir uma conjunto de declarações ou uma pequena entrevista para perceber que dali não vem uma ideia, um rasgo, um dito mais incendiário. Quem tiver ouvido as justificações oficiosas sobre a recuo no protesto que o Grupo Parlamentar do PS se preparava para fazer às críticas do anterior embaixador norte-americano à política externa portuguesa, entenderá. Nada de tons pessoais, nada de emoções por ténues que fossem, nem de explicações minimamente satisfatórias. Apenas retórica, e mesmo essa está longe de ser inflamada. E nem se pode dizer, como sobre o Pacheco, de Eça, que "tem um imenso talento". Não. A linguagem é banal e pouco apelativa, as ideias próprias não existem, a imagem é de um cinzento imaculado. Para além de ser o político desta cor por excelência, Martins é um digno representante da demagogia da 1ª República, mas sem bombas ou revólver no casaco. Como dizia Pedro Mexia, num engraçadíssimo artigo de há uns anos, tem o tom de um tribuno de Viseu dos anos vinte, e só se teme que pronuncie o termo "debalde". E daí, porque não? Sempre faria rir um pouco.