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domingo, novembro 28, 2021

Das eleições no PSD


Rui Rio voltou a ganhar a presidência do PSD. Fica-me a dúvida: se perder as legislativas, permanece no cargo? Pareceu-me ouvi-lo dizer há tempos que não faria sentido perder duas legislativas e continuar no cargo. De resto, não me lembro de nenhum líder do PSD ou PS perder duas legislativas seguintes e continuar, tirando o caso de Mário Soares conta a AD, até porque eram intercalares e sabia-se que haveria nova eleição no ano seguinte. E se Rio não ficar, Rangel candidata-se de novo à liderança?

sexta-feira, outubro 01, 2021

Outras consequências da conquista de Lisboa

 Ainda sobre as autárquicas, a conquista de Lisboa pela coligação liderada pelo PSD pode ter outras consequências a médio prazo. Dizia-se, aquando da apresentação de Carlos Moedas como candidato, que uma eventual vitória poderia ser um trunfo para Rui Rio mas também uma ameaça, já que o ex-comissário europeu seria então uma forte hipótese para a liderança do partido.

Julgo que esse cenário é improvável. Recém chegado à câmara, e com muito trabalho pela frente, Moedas não deve estar certamentea pensar em liderar o partido. É verdade que a presidência da CML é tida como um trampolim para voos maiores, com propriedade, tendo em conta os casos de Sampaio, Santana e Costa. Mas será ainda muito cedo para pensar em algo mais, até porque não faltam outros candidatos à liderança laranja. De resto, Rio marcou pontos com as suas escolhas certeiras, como Coimbra e Funchal, e, evidentemente, a capital.

É no outro partido do poder que este resultado pode ser mais determinante. Perdida de forma inesperada a governação Lisboa, o seu grande trunfo, Fernando Medina viu certamente esfumar-se qualquer veleidade a chefiar o PS no pós-António Costa. Isso abre ainda mais o caminho a Pedro Nuno Santos, que com a sua combatividade e o conhecimento (e controlo) do aparelho socialista, vê crescer amplamente as suas ambições a liderar o partido no futuro. 

Sucede que, a ser este o cenário, aliás provável. Pedro Nuno herdará um PS desgastado pelo poder e pelos inúmeros problemas com que se deparou, alguns por culpa própria. Além disso, representa uma ala mais esquerdista do partido. O sempre decisivo eleitorado de centro, talvez agora menos numeroso, não deixará de olhar para o PSD como alternativa óbvia. Rio ou qualquer outro líder do partido terá então uma boa oportunidade para ganhar o poder, ou pelo menos de ficar em primeiro, a reboque e por via indirecta da conquista de Lisboa.






sexta-feira, janeiro 18, 2019

Momentos históricos


À entrada da reunião da Comissão Política do PSD, Rui Rio e Luís Filipe Menezes abraçaram-se e trocaram palavras amáveis. Depois disto, como não acreditar na paz entre israelitas e palestinianos e na reunificação pacífica das duas Coreias?

sábado, agosto 11, 2018

Setas vingativas


O PSD é uma instituição caótica desde a sua origem, com uma capacidade inesgotável de nos espantar. Quando tudo parecia ligeiramente pacificado, eis que surge Pedro Duarte com intenções de desalojar Rui Rio da liderança do PSD numa questão de meses (ou seja, às portas de um ano com duas eleições), deixando só uma pergunta por fazer: porque é que ele não avançou no tempo devido, nas primárias de Janeiro? A juntar a isto, Santana Lopes, com a ponderação que se lhe conhece, anuncia a saída do seu partido de sempre e a intenção de criar a tão esperada nova formação, o sempre adiado partido de Santana (será mesmo o PSL?). Não me vou alongar sobre os sucessos futuros desse partido, de que o Luís Menezes Leitão já falou há dias, com uma oportuna comparação à defunta Nova Democracia de Manuel Monteiro. Mas o processo de intenções de Santana traz dois desmentidos: a ele próprio, de que a história contada por Pacheco Pereira sobre a intenção de fundar um partido diferente era mentira; e aos seus indefectíveis, que juravam que "o Pedro" estava "diferente", mais maduro e mais estável. Isso antes de ele entrar na comissão de Rio, de sair da mesma, e de sair agora do próprio partido a cuja liderança concorreu há pouco mais de seis meses. Uma enorme estabilidade, como se vê, e Santana de novo a ser ele mesmo. Não é um novo Pedro, é mesmo o Pedro de sempre.

Alguém lembrou que no último Sábado, 4 de Agosto, se completaram 440 anos desde a batalha de Alcácer Quibir. O mesmo dia em que Santana anunciou a saída do PSD. Não sei se o gesto tinha algum cariz de efeméride ou de simbolismo, e se Santana quereria mostrar implicitamente que é o D. Sebastião da política portuguesa. Mas tendo em conta que o futuro lhe pode trazer sérios ferimentos políticos e o dardejamento de inúmeras "setas" (nem por acaso o símbolo do PSD) em forma de críticas e ataques, corre o risco é o de se transformar no S. Sebastião da política portuguesa.

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sexta-feira, julho 06, 2018

O Santana de sempre


Este tipo de assuntos desaparece dos radares em poucos dias, mas ainda estou a pensar nas últimas declarações de Santana Lopes e nas suas intenções, pela 145ª vez, de deixar o seu "PPD/PSD" e formar um novo partido. Para quem achava que "o Pedro" tinha mudado e ganho responsabilidade e maturidade, aí está a prova do contrário: é o Santana de sempre. O mesmo homem que ganhou a presidência do Sporting, garantindo que era para ficar, e que dez meses depois já tinha saído para concorrer à liderança do PSD. Ainda por cima a desmentir cabalmente aquilo que tinha negado há poucos meses - a intenção antiga de criar um novo partido. Afinal, aqueles que relembraram esta velha intenção tinham razão. E teve ele 40 e tal por cento dos votos dos militantes para liderar o partido de que diz estar farto. Há coisas que nunca mudam...

domingo, fevereiro 18, 2018

Congressos tensos e congressos ignorados


Fouçando de novo em seara alheia, não posso deixar de considerar simplesmente miserável esta "espera" que algumas figuras do aparelho laranja fizeram a Rui Rio no congresso do PSD, com a palma a ser ganha por Luís Montenegro e o seu discurso transbordante de rancor. Ganhou as eleições há menos de um mês e desde então não cessaram de se atirar a ele. Desde o Observador e os 758 artigos sobre o "caciquismo" de Salvador Malheiro (acho que o jornal online esgotou a palavra; louvável devia ser a actuação de Miguel Relvas), incluindo colunistas, como João Marques de Almeida, que depois de algumas crónicas laudatórias confessou fazer parte da equipa de Santana Lopes, até às conspirações de deputados em funções e às exigências desse grandíssimo vulto que é Miguel Pinto Luz (que na sua página de facebook se intitula de "figura pública"). 
O único caso que conheço com vagas semelhanças é o de Ribeiro e Castro à frente do CDS, e mesmo assim ficou aquém. A atitude mais decente seria deixar Rio trabalhar e depois se veria. Até lá, o PSD não passa de um saco de gatos, em que quem estica mais as garras são os derrotados que se acham com direito natural a mandar mesmo contra a opinião das urnas. 

Não posso deixar de reparar na diferença abissal entre a cobertura dos grandes e dos pequenos partidos e que ficou à vista nestes dias. O PSD teve direito a um fim de semana inteiro de directos, alteração da programação da TV, debates dirigidos para o próprio recinto, etc. Compreende-se. É o normal e todos queriam saber quais as propostas e as caras que o novo líder da oposição tinha para mostrar. Mas na semana passada houve o congresso do MPT (Partido da Terra, para os mais distraídos), que já tem 25 anos, que tem representação no Parlamento Europeu e que mudava de liderança, e não houve uma notícia nos principais jornais, nem uma reportagem da televisão, por minúscula que fosse, como acontecia antigamente, nem nada de nada. Quem soubesse do evento e o googlasse encontraria uma notícia da TSF e outra do DN da Madeira, e de resto, silêncio sepulcral. Não são só os meios e os militantes que distinguem o sucesso dos partidos: a cobertura jornalística tem também imenso peso. E quando há grupos que são não apenas ignorados mas condenados à inexistência, o discurso de "são sempre os mesmos partidos" tem aí muito por onde questionar.

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Bancadas e eleições


Tal como a Grande Enciclopédia do Ludopédio (o único programa de debate futebolístico que realmente interessa), também eu me lembrei do caso da pala de Alvalade a propósito da interrupção do Estoril-FCP, por causa de defeitos na estrutura da bancada. Já em tempos falei de mais este episódio pitoresco do futebol português, que reedito aqui: 

A cobertura datava da construção do estádios, nos anos 50, e um parecer técnico do LNEC (a mesma entidade que o Sporting queria que fizesse uma vistoria à cobertura da Luz), tendo detectado falhas estruturais, determinou a interdição daquela bancada e a remoção da pala. A secretaria de estado da Cultura, com Santana Lopes à frente, decidiu que o espaço teria de ficar suspenso até nova decisão. O sporting protestou e chamou o veterano Edgar Cardoso, um dos autores da obra, que passeando e saltando por cima da pala, afirmou que aquilo era seguríssimo e que não havia qualquer problema. Imediatamente se levantou a suspensão (em vésperas de um importante concerto rock programado para quele estádio), fizeram-se umas pequenas obras de melhoramento e não se pensou mais no caso, até à efectiva demolição do estádio, mais de dez anos depois. Só uma pessoa protestou contra o desfecho do caso: Maria José nogueira Pinto, que era Subsecretária de Estado da Cultura, e que, sentindo-se desautorizada e achando que tudo aquilo era uma insensatez, pediu a demissão.

A memória deste episódio é pertinente: é que se o jogo entre o Estoril e o Porto tivesse ocorrido uma semana antes, em plena campanha para a liderança do PSD entre Rio e o mesmo Santana Lopes, o episódio seria provavelmente recordado pelos apoiantes do primeiro e desvalorizado pelo segundo (que seria aliás presidente do Sporting três anos depois). Mas os dias não se cruzaram, impedindo a coincidência, e o episódio acabou por ser escassamente recordado. É pena, porque seria mais um pitoresco micro-caso a juntar futebol e política.

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segunda-feira, janeiro 15, 2018

O PSD de Rio


Rui Rio ganhou a liderança do PSD, como se começou cedo a perceber, à medida que os números da votação iam saindo cá para fora. Facilmente se adivinhava que ganhando praticamente todos os distritos do norte e centro do país (faltou Coimbra e Lisboa, insuficiente para dar a volta), onde está a maioria da população e o grosso dos votantes do PSD, que a vitória já não escaparia a Rio.

Como disse no outro post, o antigo presidente da CM Porto está longe de ser um génio político, uma figura redentora ou um estadista de alta craveira. É rigoroso, firme, possivelmente bem intencionado, mas não será, salvo grande surpresa, o salvador por que os militantes do PSD tanto esperam. Dificilmente ganhará a António Costa nas próximas eleições, a não ser que algo de surpreendente se passe (e a verdade é que em 1984 ninguém imaginava Cavaco no poder pouco tempo depois, tal como ninguém imaginaria em 2004 ver brevemente Sócrates à frente do governo). Pode acontecer que o PS ganhe com maioria relativa e precise do PSD para viabilizar um governo, permitindo assim a perda da influência da extrema-esquerda, um dos objectivos de Rio. De qualquer forma, estranho a tentativa de colagem de Rio à esquerda: é verdade que em matéria de costumes é mais libertário, mas quando esteve à frente da câmara do Porto, distinguiu-se pelo rigor nas contas e pelo baixo despesismo e investimento público, por uma postura autoritária e por desdenhar da cultura, o que o tornou num dos alvos preferidos da esquerda (e se pensarmos que o BE portuense é em grande medida constituído por actores e sociólogos...).

Mas entre Rio e Santana a escolha era óbvia. Parece incrível como é que em 2018 ainda haja gente a seguir o "menino-guerreiro", mas a verdade é que ainda conseguiu uns incríveis 46% dos votos. Mesmo depois do seu curto e desastroso governo, da sua errância, de quase nunca cumprir um projecto até ao fim e de os deixar sempre um legado endividado, e de já ter perdido uma eleição com António Costa em 2009 (que devia ser uma mancha no currículo mais que suficiente para nem se apresentar), ainda há muito quem acredite nele. Será por amizade, por ingenuidade, por ódio a Rio? Todas essas razões são válidas, mas 46% é muito.

Seja como for, o PSD pode gozar agora de um período de maior sanidade, mas não terá certamente a vida fácil nem gozará de um estado de graça.
Quanto a Passos Coelho, resolveu, e bem, sair do parlamento. Deve fazer a correspondente travessia política no deserto. Veremos o que o futuro lhe reserva. 

Já agora, a razão para se prever que Rio seria o novo líder do PSD é que até já havia um hino que lhe era dedicado. Caramba, os autores destas causas tinham certamente dons premonitórios: é que já me lembro de ouvir isto desde as "ondas laranjas" de Cavaco Silva.


sábado, janeiro 13, 2018

As vitórias efémeras de Santana


Não sou militante do PSD, mas quero sempre que para a liderança dos partidos vençam os melhores e, sinceramente, já tarda uma oposição eficaz ao actual (esquema de) Governo, e o CDS não basta, por mais que Assunção Cristas se esforce - com algum êxito. Por vezes Catarina e Jerónimo tentam preencher a vaga, mas é raro aventurarem-se em grandes indignações.

Vivi bastantes anos sob os mandatos de Rui Rio e pude ver os seus sucessos e os seus fracassos. É um homem rigoroso, minucioso com as contas, pouco influenciado por grupos de pressão e ameaças (lembram-se da manif dos Super Dragões?) e teimoso, para o bem e para o mal. Como pontos negativos é autoritário, tem uma visão limitada e demasiado genérica sobre diversos assuntos, como a justiça, e uma péssima relação com a comunicação social. Não parece ser a escolha ideal para líder da oposição e para primeiro-ministro, embora pudesse fazer um papel competente como ministro das finanças ou da administração interna. Ainda assim, prefiro alguém com as suas limitações mas com rigor e organização do que um viciado nas disputas políticas como Santana Lopes, que por onde passou deixou as finanças em pantanas, e que nem quando já tinha atingido finalmente uma aura de credibilidade "senatorial" resiste a vir disputar pela enésima vez a liderança do partido - que já teve, com o êxito que se viu - com uma leviandade que já se pensava ser coisa do passado.

E neste combate pela presidência do PSD, nestas tricas, acusações várias e respectivos desmentidos, tenho ouvido por mais do que uma vez que Santana é um "vencedor". Os únicos triunfos que lhe conheço são os das vitórias autárquicas na Figueira e em Lisboa. É sobretudo esta que os seus apoiantes recordam, com razão, porque vencer uma coligação entre o PS e o PCP com um presidente no cargo cujo mandato não tinha desagradado à população, e apenas com o PSD (e simbolicamente o PPM), era uma tarefa hercúlea. Mas as vitórias de Santana acabaram aí. E vale a pena lembrar que já depois de ter oferecido a maioria absoluta a Sócrates seria de novo candidato em 2009 à câmara de Lisboa, desta vez à frente de uma coligação que juntava PSD e CDS, e perdeu com o PS de António Costa apoiado pelo grupo de Helena Roseta.

É este o pormenor que merece ser apontado: caso ganhe a presidência do PSD, Santana terá pela frente não João Soares mas António Costa, o que significa que a conquista de 2001 perdeu a validade. Já agora, é bom lembrar que Rui Rio cometeu uma proeza semelhante, ao conquistar o Porto nessas mesmas eleições (que ditaram a demissão de Guterres) a um PS de Fernando Gomes considerado absolutamente imbatível. Rio manteve-se na câmara por três mandatos, crescendo sempre nas sucessivas eleições que disputou, sempre com uma coligação PSD/CDS. Fica a nota para quem se apoia demasiado em actos eleitorais que já lá vão. Até porque os votos não são dos candidatos, são dos eleitores, e eles podem mudar o seu sentido sempre que tiverem oportunidade.

terça-feira, março 08, 2016

Sobre a retirada de cena de Cavaco Silva

 
 
 
Agora que Cavaco Silva está a poucas horas de se reformar fazem-se os balanços da vida sob o político que mais anos dominou esta terceira república. Na maior parte dos casos bate-se no homem. Não sou cavaquista e nem nunca votei nele, até porque em parte das ocasiões nem sequer tinha idade para tal. Nunca fui grande devoto do cavaquismo, que marcou uma década em Portugal, do seu triunfalismo, do arrivismo e do novo-riquismo que espalhou, ainda por cima com a sensação de que apanhou o poder no regaço e o manteve com uma boa dose de sorte e com uma grande dívida para com o PRD e a CEE. E muito menos gostei da sua face mais ressabiada e manipuladora em Belém, que revelou uma suceptibilidade e uma incapacidade de perceber inúmeras situações que não são dignas de um chefe de estado.

Dito isto, é bom recordar que se Cavaco esteve tanto tempo em S. Bento e Belém é porque alguém o colocou nas respectivas cadeiras. Ganhar três eleições legislativas, duas delas com maioria absoluta (e com 50%), não é para todos. Junte-se a isso duas vitórias nas presidenciais à primeira volta. Nem Mário Soares, com a sua alardeada popularidade, chegou a tanto. Como disse, o PRD, em 1985, ao roubar votos ao PS, e em 1987, ao canalizá-los para a enorme maioria laranja, a entrada na Europa, com os seus dinheiros, e a política de austeridade do Bloco Central ajudaram em muito à edificação do cavaquismo. Hoje é de bom tom criticar-se aqueles tempos, as construções faraónicas, o desperdício de dinheiro, a "destruição da pesca e da agricultura", etc. O que é certo é que a partir de 1986 houve uma sensação de melhoria, de começo de prosperidade e de paz social muito bem gerida pelos governos PSD. Construiu-se muito? Verdade, mas as auto-estradas, que servem em conversas jocosas como símbolo da "betonização" desse tempo são hoje em dia essenciais na vida do país, até porque as que foram então construídas ligavam os principais pontos do país. Ou alguém imagina a fazer Porto-Lisboa na velha Nacional 1? Ou a ir às capitais de distrito do interior nas velhas estradas às curvas? Quanto à agricultura e pescas, bastava que se recusasse o dinheiro oferecido em troca do abandono dessas actividades. Ainda me lembro de aprender que os países que se dedicavam mais ao sector primário eram os mais subdesenvolvidos. Na altura, poucos foram os que protestaram. em suma, grande parte da população sentia-se bem com o cavaquismo, ainda que o criticasse. Talvez porque se reconhecesse no governo e no político de Boliqueime e até no seu modo de vida.

A esquerda nunca gostou nem um bocadinho dele, responsabilizando-o por tudo, desde as acusações de ter pertencido à PIDE (uma acusação falsa e rancorosa, embora Cavaco não tivesse ajudado com a concessão de reformas a antigos pides) até ao tal despesismo (como se a esquerda fosse poupada), ou, ultimamente, de ter feito uma presidência de apoio ao governo de Passos Coelho, não se quedando assim "abaixo dos partidos" (quando Jorge Sampaio nomeou Santana Lopes, Ferro Rodrigues demitiu-se do PS acusando-o do oposto: de não ter sido fiel ao eleitorado de esquerda). A direita, sobretudo a mais classista e particularmente a que rodeava O Independente, nunca lhe desculpou o suposto provincianismo, a vulgaridade, o desdém pelas letras e as origens sociais de muitos vultos do cavaquismo (como aliás pôde ser comprovado com maior amplitude no recente livro sobre o jornal).
 
Mas o que é incrível é que apesar de tanta oposição, tanto achincalhamento e tanto desprezo (temperados por muitos "adesivos" e apoiantes oportunistas, em especial autarcas de outros partidos e artistas), e muitos o terem dado como acabado politicamente quando perdeu as presidenciais de 1996 para Sampaio, Cavaco Silva acabou por ser o político com mais sucesso do actual regime. Talvez não tenha sido directamente o sucesso de um país, mas resultou directamente de uma vontade popular que se reviu em Cavaco e no que ele representava. Bom ou mão, Cavaco é um produto do Portugal democrático. Reforma-se amanhã, finalmente. Os estudiosos vindouros aclararão o que realmente constitui o cavaquismo mais nas décadas que se lhe seguiram do que nos anos em que dominou o país.

quinta-feira, maio 07, 2015

Perderam a cabeça ou querem perder de propósito?



Dá ideia que um vento de loucura percorreu a cúpula do PSD. Quando vi o vídeo com os elogios de Pedro Passos Coelho a Dias Loureiro, em Aguiar da Beira, pareceu-me um acesso de estupidez dificilmente ultrapassável. Quem é que dispararia um tiro de canhão no pé daqueles? Paulo Portas devia estar a trepar pelas paredes.
Com a publicação da biografia política de Passos, a desenterrar o caso "irrevogável" e a fazer o possível por deixar Portas mal na fotografia, uma escassa semana depois da oficialização da coligação PSD-CDS, a suspeita passa a ser a de loucura total. Ou é uma brincadeira de muito mau gosto no pior timing possível, ou é propositado, e nesse caso há que saber as razões. Não falamos de um movimento com aspirações à representação parlamentar: é a coligação dos dois partidos que estão no poder a ser posta em causa pelo actual primeiro-ministro.


Como diz um dirigente do CDS, "só se for para garantir que a coligação está coesa e motivada". Ou, como se sussurra, parece que querem perder as eleições. Pelo menos parecem fazer tudo para isso, sem grandes camuflagens. Se fosse de propósito, não fariam melhor Como é que se pode confiar num chefe de governo assim?

terça-feira, fevereiro 25, 2014

Efeitos directos e colaterais do congresso do PSD


Dizer se o congresso do PSD gerou alguma mudança visível no partido ou no governo é tarefa difícil. Permitiu que ex-líderes aparecessem de novo na ribalta, ou melhor, no palanque, que Santana mostrasse que não se esqueceu da vida política, que Menezes não engoliu ainda a derrota nas Autárquicas e que Marcelo, num estilo coloquial e descontraído semelhante ao das suas entrevistas dominicais, se afirmasse ainda mais, embora tacitamente (e sempre negando, como mandam as regras) a sua futura candidatura presidencial. Deu até para ver Miguel Relvas regressar destacado, no que terá sido o único tiro no pé de Passos Coelho.

Decisão a sério, só uma: a designação de Paulo Rangel como cabeça de lista da "AD" às próximas europeias, e, por via do seu eficaz e incisivo discurso, desafiando António José Seguro a revelar o seu candidato, a resposta pronta, embora antes de tempo, do PS, que apresentou Francisco Assis às eleições.
Teremos dois candidatos válidos, com experiência no Parlamento Europeu, cultos, longe dos lugares-comuns político partidários, e, por coincidência, cronistas no mesmo jornal, antigos candidatos à liderança dos seus partidos contra os actuais líderes, e originários do distrito do Porto - Rangel de Gaia e Assis de Amarante. Ao menos aqui as qualidades dos políticos não podem ser postas em causa.


quinta-feira, fevereiro 13, 2014

As regras são para todos, até para Capucho



As ameaças de Aguiar-Branco não foram levadas avante, mas os processos no PSD contra os militantes que se candidataram contra o partido nas últimas autárquicas, embora menos abrangentes do que se chegou a pensar, levaram à expulsão de Marco Almeida, que se candidatou como independente por Sintra, e António Capucho, que era candidato à assembleia municipal dessa autarquia. Já sei que a maioria deplora a expulsão deste último, considerando até que o processo que levou à sua saída é "estalinista". Compreende-se: para além de estar com o PSD desde os primeiros dias, Capucho é um representante da história do partido e ocupou um sem número de cargos (no governo, na AR, no Parlamento Europeu, de que chegou a ser cabeça de lista numas eleições, na câmara de Cascais). Pode dizer-se que é um dos famosos "barões" laranjas, já a resvalar para um título nobiliárquico mais elevado. Para mais, tinha razão, como se comprovou, quando se opôs à patética candidatura de Pedro Pinto a Sintra, esse autêntico pau-para-toda-a-colher do PSD, que obviamente, e como qualquer pessoa de inteligência abaixo da média podia prever, teve um resultado vergonhoso.

Mas os partidos não podem ficar sempre reféns de cálculos eleitorais convenientes: têm também de seguir as regras que estabeleceram previamente. Qualquer agremiação, clube, partido - até um país, vejam lá - que estabeleça um conjunto de normas para se reger deve cumpri-las minimamente, sem ceder a discricionariedades convenientes. Chama-se a isso domínio da Lei e do Direito, e é exactamente por tanta gente se furtar a ele e procurar subterfúgios que o chico-espertismo tem tanto sucesso em Portugal.

Além disso, Capucho é também um dos autores dos estatutos que que previam expressamente a expulsão (e não a simples suspensão) de militantes que se candidatassem em listas opostas às do partido. Ficar-lhe-ia bem seguir o que ele próprio estipulou e devolver o cartão do partido. Outros o fizeram, em situações idênticas. Guilherme Pinto, por exemplo, deixou o PS. E a propósito, não me lembro de ver tanta indignação e acusações de "estalinismo" quando o PS expulsou Narciso Miranda. As regras não são gerais e abstractas? Ou são particulares e concretas e aplicam-se consoante a "importância" do prevaricador? Nesse caso, a igualdade será uma grandessíssima treta e as regras só servem para decorar códigos e empregar juristas. Capucho podia ser um dos mais válidos militantes laranjas, Passos Coelho pode ser um medíocre Primeiro-Ministro e quem dirige o PSD actual um péssimo exemplo da política nacional. Mas que eu saiba as regras continuam iguais para todos, e devem ser cumpridas em primeiro lugar por quem as institui. A não ser que nesta república das bananas as normas sejam vãs. Quem acha que as regras só são para se cumprir quando é mais conveniente e se levantou contra a expulsão de Capucho pelas razões que ele próprio criou que não venha depois invocar, por tudo e mais alguma coisa, esse ambíguo princípio da igualdade.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

O tacticismo de Marcelo



Duvido muito que Marcelo Rebelo de Sousa, ao contrário do que disse na sua crónica semanal televisiva, tenha desistido da candidatura presidencial. Já há anos que alimenta esse objectivo e sabe que tem popularidade e notoriedade para o conseguir. Mas bom tacticista como é, preferiu revelar a ideia aos telespectadores para obter reacções de desagravo do PSD (Passos coelho já veio apressadamente desmentir) e o apoio por parte do público, que de outra forma nem ligaria à moção do actual PM. E é verdade que esta impressiona pela sua tonteria e credulidade de que irá fatalmente ganhar as eleições de 2015 e impor o seu candidato presidencial, para além da arrogância em fazer crer que bom, bom, é um presidente imóvel e meramente institucional. Se é para isso, mais vale fazer como na Alemanha ou em Itália e pôr o parlamente a votar num "venerando senador". Poupava-se dinheiro e seria menos um argumento a favor da república. Mas Marcelo sabe que as divisões no PSD, a impopularidade do governo e as duvidosas hipóteses de Durão e Santana jogam a seu favor. Até porque se o aparelho laranja o afastar explicitamente em favor de outro, pode sempre recorrer a um exemplo vitorioso e fresco na memória: Rui Moreira.

segunda-feira, outubro 07, 2013

Aguiar-Branco, o McCarthy do PSD


Os pedidos de ajustes de contas no PSD depois da derrota (e particularmente das humilhações) das autárquicas revelam-nos o que de pior há  na política partidária. E de quem à partida não imaginaríamos. Enquanto Passos Coelho e Marco António assobiam para o ar para mudar de assunto, Aguiar-Branco pede sangue e atira-se aos antigos compagnons de route com uma fúria raivosa que não se lhe conhecia. Para o Ministro da Defesa, há que punir «"aqueles que estiveram na sombra a apoiar os adversários do partido”, numa alusão a Rui Rio, e os que “escreveram artigos contra a lei de limitação de mandatos”, numa indirecta a Paulo Rangel», além de que "censurou Rui Rio, Paulo Rangel e Valente de Oliveira por não terem apoiado Luís Filipe Menezes no Porto, que registou a maior derrota do PSD desde 1976". Ou seja, o actual titular da defesa (e ex-candidato à presidência da assembleia municipal do Porto) vai atrás não apenas dos que estiveram noutras candidaturas que concorreram com o PSD, mas também de supostas conspirações "na sombra" e ainda daqueles que expressaram uma posição jurídica própria (e com moral para isso). Se no primeiro casos ainda se aceita, mesmo que revele uma notória falta de pluralismo, no outro mostra uma sanha persecutória, e acima de tudo uma total intolerância com "delitos de opinião" jurídicos. Recordo que é um ex-Ministro da Justiça, que já teve importantes responsabilidades na Ordem dos Advogados, que tem este comportamento digno do Senador McCarthy (para não dizer pidesco), ou soviético, como o acusaram.
 
Ainda podia admitir que se tratasse de uma reacção à rasteira que Rangel lhe pregou nas anteriores eleições à liderança do PSD, mesmo que da pior forma (punir por uma divergência jurídica) e reveladora de um imenso rancor. Mas o cúmulo da deslealdade é atirar-se desta forma a Rui Rio, que sempre esteve ao seu lado, e que inclusivamente foi a única figura de primeiro plano do partido a não o abandonar na dita eleição para a liderança laranja. É difícil imaginar  um comportamento mais viperino. Não poupa, pelo caminho, Valente de Oliveira (que deve estar preocupadíssimo com o assunto), e calculo que diga o mesmo de Miguel Veiga, o homem com quem estagiou e que o levou para a política.
 
 
Mas porque é que o habitualmente pacato Aguiar-Branco se revela de repente mais passista que Passos? A única explicação é a de que está a ver o futuro do Governo (e do PSD) negro, e não quer deixar de assegurar o seu lugar como deputado, se possível como cabeça de lista no Porto. Mas esta sanha contra os "traidores" e quem pense pela sua cabeça, mais própria do PC ou de um grupúsculo extremista do que de um partido democrático e supostamente pluralista, mostra bem o desvario do ministro da Defesa, aliás a revelar-se absolutamente medíocre, com a questão da privatização às três pancadas do estaleiros de Viana e a absurda ideia de juntar o Colégio Militar ao Instituto de Odivelas, acabando na prática com esta instituição de séculos. Revelada a nulidade política que é, sem o menor peso eleitoral, restará a Aguiar-Branco um lugar nos bancos traseiros do Parlamento, murmurando "apoiados" e pouco mais.

quinta-feira, setembro 19, 2013

As dificuldades de Abreu Amorim


Também num debate, igualmente da Porto Canal, mas em Gaia, reuniram-se os candidatos à edilidade local (ou seja, os que vão aguentar com a conta deixada por Menezes). Só vi uns segundos, mas chegaram para apanhar uma declaração surpreendente: Carlos Abreu Amorim, candidato do PSD/CDS, e antigo blogger, afirmou alto e bom som que Luís Filipe Menezes era provavelmente "o melhor autarca da democracia". Surpreendente, porque vindo de um liberal assumido como CAA, seria pouco previsível ouvir um elogio destes a um autarca que se destacou precisamente pela enorme despesa e por gastos de dinheiros públicos. E também porque não hesitou em falar do púlpito de uma igreja numa campanha encapotada, coisa que deveria escandalizar o anticlerical Abreu Amorim. Ou talvez não. Pode ser que o anticlericalismo seja coisa do passado, uma vez que o candidato agora até vai a Fátima. Realmente, como o próprio CAA dizia, "é difícil ser liberal em Portugal". Tão difícil que mal se encabeça uma candidatura autárquica, esse liberalismo é logo atirado para a valeta.
 
 

quarta-feira, julho 03, 2013

Vão marcando a data


Está um homem aqui posto em sossego a pensar em postar sobre as maravilhas do nosso país quando de súbito a realidade, que não pára, se antecipa. Ou neste caso, antecipa certos actos, como a demissão de Paulo Portas, apenas prevista para daqui a uns tempos. Estaria já por dias, a ser calculada para o melhor momento, ou terá sido a saída de Gaspar (melhor dizendo, a sua substituição por Maria Luís Albuquerque) a gota de água num copo que já desde a história da TSU ameaçava transbordar? As versões de Pedro e Paulo são contraditórias. A verdade é que Portas tem um registo interessante de facadinhas dadas, mas ao longo destes dois anos teve várias ocasiões de experimentar as que lhe eram discretamente atiradas por Passos, Relvas, Gaspar & Cia. E a paciência tem limites. Houve alturas em que o vimos como nunca o víramos antes, sem saber bem o que fazer. Até que bateu com a porta, e com ele os outros ministros do CDS.


Ficando o PSD em minoria, contando na melhor das hipóteses com pontuais apoios do CDS no Parlamento, a melhor solução seria a demissão de Passos Coelho e a nomeação de outro governo, com base na mesma maioria e que de preferência se estendesse ao PS. Mas o Primeiro Ministro inviabilizou totalmente essa hipótese, a manter-se teimosamente à frente do governo. Não percebeu que o seu tempo está contado. Deve ser das pouquíssimas pessoas em Portugal e não entender isso. Numa época de profunda crise, temos um político sem a menor habilidade, instinto ou inteligência política a governar-nos. O resultado, a curto prazo, é fácil de prever: eleições. Marquem a data para o provável dia 29 de Setembro. Juntando-se às autárquicas, sempre se poupam uns euros.


segunda-feira, abril 15, 2013

A remodelação e os aparelhismos


A nomeação de Luís Marques Guedes para o lugar que era de Miguel Relvas e de Miguel Poiares Maduro para o Desenvolvimento Regional é um feliz acontecimento, num Governo com falta de boas notícias (por culpa própria, em boa parte). O primeiro é um político experiente, idóneo, competente e respeitado pelos adversários. O segundo é um jurista brilhante, especialista em direito comunitário (e ao que parece, não é pior nos domínios da cozinha), professor em Florença e com carreira no TJCE. Se era para mostrar as diferenças com Miguel Relvas e o seu nulo percurso académico, a comparação não podia ser mais avassaladora. Temos ainda novos secretários de Estado, entre os quais Pedro Lomba, como adjunto de Poiares Maduro. É caso para a blogoesfera rejubilar: um dos seus fundadores chegou ao Governo.
Não sei se algo de essencial irá mudar, ou se o currículo académico dará necessariamente origem a um bom governante. não sei se se exigira uma remodelação mais profunda. Mas dá-me muito mais conforto ver que um chico-esperto aparelhista como Relvas substituído por gente acima de qualquer suspeita, bem mais preparada juridicamente, e aparentemente sem esqueletos no armário. O PSD puro e duro e as suas "bases" é que parecem não ser da mesma opinião: aprovaram um voto de louvor a Relvas, com a excepção notável da histórica Virgínia Estorninho, e ao que parece, não viram com bons olhos a entrada de Poiares Maduro. Aparelhismos...

quinta-feira, agosto 09, 2012

Memórias vagas de um "sequestro"


A semana passada parecia uma página de necrologia, com as mortes de Gore Vidal, da actriz Carla Lupi ou de Eurico de Melo, entre outros. Sobre este último, histórico do PSD e antigo ministro todo-poderoso do cavaquismo outrora conhecido como "vice-rei do Norte", muito se disse. Mas houve uma história rocambolesca de que me lembro de ouvir falar na altura, ainda era pequeno, e que ninguém referiu, nem consegui encontrar registos na net. Aí por volta de 1988, um caso obscuro levou a que o FC Famalicão, acabado de subir à 1ª divisão de futebol, voltasse de imediato à Segunda. Beneficiou o FC Fafe, que se estreou entre os "grandes". Por causa disso, e numa visita da época a Famalicão, Eurico de Melo e o jovem delfim Marques Mendes ficaram retidos, quase sequestrados, por uma turba furiosa, durante umas boas horas. Tudo por razões futebolísticas. Alguém se lembra disso ou não há registos possíveis?

quarta-feira, junho 08, 2011

Rescaldo (à direita)


Esta análise vem com dois dias de atraso, bem sei. Mas gosto de fazê-las com calma, e o tempo é um bem escasso.


Como já tinha dito, estas eleições não trouxeram nada de especificamente surpreendente, tirando a diferença entre PSD e PS. Num ou noutro caso, no essencial, houve algumas surpresas, mas não há eleição que não as tenha. No essencial, nada espantou.



O PSD é o grande vencedor mais pelos números do que pela vitória em si. Como tinha notado na arruada que presenciei em Santa Catarina, os sociais democratas levavam já uma dinâmica de vitória, ao passo que o PS estava já pouco entusiasmado. Tudo isso depois de semanas de "empates técnicos". Até Abril/Maio, o PSD tinha uma vantagem muito confortável nas sondagens. Perdeu-a quando o discurso começou a tergiversar, com vários dirigentes a falar cá para fora a diversas vozes, por vezes em contradição com Passos Coelho. Mais do que o debate (onde Passos não se deixou intimidar por Sócrates e que marcou alguns pontos), o silenciamento de algumas figuras, como Catroga ou Leite Campos, e a união em volta do líder foram fundamentais.


Antes do anúncio dos resultados, o PSD já sabia seguramente que tinha vencido as eleições, mas talvez não por aquela margem. o número de deputados conquistados, que ainda vão aumentar com a emigração, permite-lhe um certo desafogo nas negociações já em curso com o CDS-PP e se for necessário, prescindir dos votos madeirenses para impedir qualquer veleidade chantagista a Alberto João Jardim.

Há números curiosos. Para além das habituais zonas de implantação laranja de Trás-os-Montes, Beira Interior e Leiria, o PSD ganhou em todos os concelhos do Algarve, onde obteve mais um deputado (o meu antigo companheiro de quiz, Cristóvão Norte, filho do deputado homónimo que nos anos setenta era o único deputado laranja do distrito). Em Setúbal, onde em 1975 estava impedido de fazer comícios, o PSD também ganhou. Em Beja recuperou o deputado perdido há vinte anos. E até venceu no "Socraquistão" de Castelo Branco e Portalegre (aqui com apenas mais 14 votos).


Como seria de esperar, em Vila Real, Passos coelho obteve o seu segundo melhor resultado. Num distrito fortemente PSD, a proveniência do líder só podia reforçar as contas. Melhor só mesmo em Bragança. Há que felicitar o cabeça de lista vencedor. Ainda por cima, o distrito já há algum tempo que não vota tanto à direita como no início, quando se dizia que os comunistas comiam criancinhas e os socialistas roubavam galinhas.


Até por estes números simbólicos, Pedro Passos coelho é um vencedor inequívoco. Apesar de todas as gaffes, confusões e polémicas. Não tendo grande biografia (Cavaco também não tinha, segundo Soares), parece-me antes de mais um indivíduo decente e correcto, ideia que também recolhi de conhecimentos familiares de Vila Real. Claro que o carácter nem sempre é tudo num líder que se quer forte e corajoso, mais a mais numa situação como a actual, mas é sempre o princípio de tudo. O resto dependerá do apoio que tiver.



E o CDS-PP? Conseguiu alcançar todos os objectivos a que se propunha, mas as expectativas nos votos (cheguei a ouvir alucinações de "17%") foram goradas, não há que disfarçá-lo. Não percebi se a relativa calma que se vivia no Caldas e a prudência de Paulo Portas no seu discurso tinham directamente a ver com isso ou se era já o pensamento no dia seguinte, mas parece-me indissociável a água na fervura das expectativas e a placidez dos militantes na noite eleitoral. Em 2009, se bem se lembram, foi um delírio com os "dois dígitos". As sondagens voltaram a enganar-se, mas ao contrário. Agora, a entrada no governo está assegurada e corre os seus termos, e a esquerda radical está lá para trás. Mas os populares fariam bem em dar atenção a um aspecto. É verdade que cresceram em votos sobretudo nas zonas urbanas, e ao que parece, também no voto "jovem". Isso reflectiu-se nas enormes subidas em Setúbal e Lisboa. Em contrapartida, noutros círculos com votações tradicionalmente interessantes, como Viseu, Braga, Leiria e Aveiro, o CDS estagnou ou perdeu mesmo votos - é o caso de Aveiro, por onde corre Portas. Se num escrutínio nacional o partido pode captar mais votos graças a algumas ideias, a um líder carismático ou a razões circunstanciais, já nas locais a coisa tende a cair por terra, como as autárquicas muito bem o comprovam de eleição para eleição. O CDS já teve um bom número de câmaras, incluindo várias capitais de distrito. Hoje está reduzido a Ponte de Lima. As estruturas locais ou são fracas ou não têm capacidade de atracção de figuras de prestígio e eleitores, e o triste facto dos municípios estarem convertidos em agências de emprego. Um partido que pretende ser influente na vida nacional precisa de assentar nalgumas estruturas municipais, regionais ou sociais (o PCP tem os sindicatos e algumas regiões de grande peso). Se os militantes do CDs não pensarem nisso, arriscam-se a ter sérios dissabores daqui a uns anos.



A frase mais badalada da noite, sem a menor dúvida, era o "cumpriu-se o sonho de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente". Formalmente, cumpriu-se neste 5 de Junho, sim. Mas na prática o objectivo do fundador do PSD já tinha sido atingido post mortem em 1982, com a primeira revisão constitucional, que afastou os generais do poder e transformou o Conselho da Revolução em Conselho de Estado. No Domingo, apenas se cumpriu o slogan da AD. Saberemos nos capítulos seguintes quais as suas consequências práticas.