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sábado, maio 14, 2016

Outras ameaças que não o fascismo


Rui Tavares (com quem ainda há pouco falei durante breves momentos, não sobre o post que se segue, depois da conferência que moderou com Claudio Magris no âmbito do LeV - Literatura em Viagens), escreveu um interessante texto no Público desta semana intitulado Uma Europa contra o fascismo. Não tenho muito a objectar. Apenas que nem todos os nomes que refere se podem considerar "fascistas": Orbán, por exemplo, é acima de tudo um oportunista autoritário; Kaczinsky é um reacionário excitado, e Farage um eurocéptico convencido. Mesmo Putin e Erdogan não são exactamente aquilo que poderíamos considerar "fascismo", atendendo às circunstâncias especiais e à cultura dos seus países. E o brasileiro Eduardo Cunha é outro oportunista, com problemas com a justiça.
O que eu tenho mesmo de fazer é acrescentar coisas ao texto. Não é só a recordação fascista que ameaça a Europa: do outro lado do espectro temos outras tantas ameaças. Não esquecer que durante meio século tivemos uma Cortina de Ferro a dividir a Europa livre da controlada pela URSS e da sua ideologia opressora e burocrática. E que na Guerra de Espanha se opunham acima de tudo duas ideologias que resvalaram para o totalitarismo. Hoje em dia vemos o sr. Pablo Iglesias e o seu movimento, onde há gente que recentemente invadiu capelas em trajes menores com cartazes dizendo "Ardereis como em 1936" (recordando as igrejas incendiadas antes e durante a guerra), unindo-se com os restos de comunistas da IU e alguns independentistas radicais a querer o poder de qualquer forma, vemos as derivas de Jeremy Corbyn no Partido Trabalhista, o Linke da Alemanha que tem entre si elementos que fizeram parte da STASI, e mais uns quanto movimentos radicais à esquerda que querem acabar com a Europa e "derrubar o capitalismo", muitas vezes com saudosismos do Pacto de Varsóvia ou admirando o lunático sr. Maduro e o seu regime que está a destruir a Venezuela. Por isso, a crítica de Rui Tavares, não sendo destituída de verdade e senso, peca por defeito. As ameaças não vêm só de um lado, e não é por ser de esquerda que . E a experiência que teve com o BE e o modo como Louça o tratou deviam fazê-lo reflectir.

quinta-feira, abril 21, 2016

A bola por essa Europa fora


O Benfica pode ter caído na Liga dos Campeões (de pé, como clube digno que é), mas a prova continua. Não tenho grandes favoritos, e acima de tudo queria que o Barcelona saísse, mas agora talvez dê o benefício da dúvida ao Atlético ou mesmo ao Bayern. Assim como assim, foram clubes com quem o Benfica se bateu, com algum equilíbrio (em Madrid até ganhou, ao contrário dos culés), o Real já tem muitas taças iguais e o City não tem dimensão para o troféu, ainda para mais subsidiado pelos árabes. já na UEFA, ou Liga Europa, como lhe chamam agora, pode ser qualquer um desde que não o insuportável e injustamente afortunado Sevilha. O meu favorito, o Athletic de Bilbao, caiu injustamente às mãos dos vis andaluzes; a melhor equipa era o Dortmund, mas uma vez que está fora, depois de um jogo fabuloso e de uma virada colossal do Liverpool, o clube de Meyerside pode perfeitamente ganhar. Se não, pode ser o Shaktar Donetsk, essa equipa quase apátrida, expulsa da sua cidade e do seu estádio. O Villareal também não me desperta grande entusiasmo.

Nas ligas nacionais, em França está tudo dito quanto ao vencedor do título principal (o infeliz Marselha vai à final da taça, mas tem feito um campeonato inenarrável), na Alemanha quase e em Itália idem, apesar de durante uns tempos ainda ter confiado no Nápoles. Depois temos a Espanha, numa corrida a três, que se repete noutros países menos mediáticos, como a Holanda, a Bélgica e a Rússia, com o improvável Rostov, ali do canto do Mar Negro, a comandar. E depois, claro, a Premier League, onde os habituais tubarões se têm devorado uns aos outros, sem que o Arsenal, apesar de tudo o mais bem classificado de entre os "grandes", se tenha conseguido aproveitar. O foco está todo concentrado no modesto Leicester, que incrivelmente se mantém à frente a poucas jornadas do fim, ainda por cima treinador por Claudio Ranieri, um treinador por quem ninguém dava nada há já uns bons anos. Toda a gente parece torcer pelo Leicester, mas o meu voto vai para o Tottenham, que está logo a seguir: é um clube tradicional que não ganha o campeonato há mais de 50 anos, fica normalmente atrás dos outros tradicionais e é alvo constante de zombaria dos rivais mais a sul do Arsenal, tem uma equipa jovem e que transborda talento (de custo muito inferior a outras) e pratica o jogo mais atractivo e vibrante do campeonato. O Leicester que me desculpe, mas o grande feito, para mim, seria os Spurs ficarem em primeiro.
E entretanto, o velho Rangers, clube mais titulado da Escócia, voltou à primeira divisão do seu país, para gaúdio dos fás, e não contente com isso, na mesma semana, voltou a jogar a Old Firm com o eterno rival Celtic, para a Taça, e conseguiu vencer nos penaltys. Uma antevisão para os próximos tempos, que serão menos fáceis para os "católicos" de Glasgow.
Ao mesmo tempo, o Parma, esse clássico tardio que tão grandes squadre apresentou nos anos noventa (sem contudo ganhar o scudetto), e que no ano passado tinha falido e caído para divisões obscuras, recomeçou a lenta caminhada para os níveis superiores, comandado pela mítico Nevio Scala e por Apolloni, ao subir para a 3ª divisão, num jogo em que teve 15 mil espectadores a apoiá-lo.
Razões para alguma esperança nos próximos anos, tão fartos que andamos de Barcelonas, Reais, Bayerns e clubes patrocinados por qataris e outros emirados.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Duas visões europeias opostas



O braço de ferro no interior da eurozona está para durar, como não podia deixar de ser entre partes que além de se quererem salvar, querem também salvar a face. Mas é curioso notar como tudo isto resulta sobretudo das intransigências de dois países, a Grécia, o país assistido e quase insolvente governado há semanas por uma coligação contra natura de esquerda radical com nacionalistas de direita, e a Alemanha, o "motor" da economia europeia, o líder oficioso da zona euro e principal credor dos gregos, governado pela coligação luterana CDU (e o apêndice católico CSU)- SPD, encabeçada pela temida e detestada Angela Merkel. Mais do que um choque político e económico, é um choque cultural.


Os dois países têm características muito diferentes, que em dose moderada são louváveis, mas que em excesso conduzem ao impasse como o que se verifica agora. A Grécia é um país intrinsecamente mediterrânico, uma terra de oliveiras e vinhas, de sol e de mar em abundância, com um povo histriónico e caloroso, que se orgulha (algo ilusoriamente) dos antepassados que ali criaram uma civilização que influenciaria todo o ocidente, ainda que verdadeiramente o que os norteia seja a cultura ortodoxa fundada no Império Bizantino e o caos balcânico. Esse caos é verdadeiramente admirável até determinado ponto, principalmente para quem, como eu, é apreciador de filmes de Kusturika, de ali tão perto. Aliás, o cinema mostrou ao mundo essa Grécia caótica, fogosa, apreciador das "coisas boas da vida" e algo tresloucada em filmes como Nunca ao Domingo e Zorba. O pior é a outra face do problema: uma administração pública tão caótica como as manifestações de anarquistas, vulgares na terra (as "manifs" são quase um desporto nacional), a fuga maciça aos impostos dê por onde der, uma corrupção generalizada e aceite tacitamente como uma instituição subterrânea. Não esquecer o significado do termo "balcânico", e que a Grécia fica no fim da península com esse nome.


Claro que tais características desagradam e confundem os alemães. A honestidade negocial hanseática, a disciplina prussiana, a eficiência no trabalho, a qualidade dos produtos, o cumprimento estrito da lei e das regras - um povo eminentemente jurídico, com provas dadas no direito - são qualidades de que os germânicos não prescindem. Só que essas características, levadas ao extremo, degeneram-se, e transformam-se também elas em adjectivos perniciosos: intransigência, autoritarismo, falta de flexibilidade, espírito punitivo. Não faltam teses que consideram que os alemães seguiram Hitler durante tanto tempo por causa do seu espírito de obediência à lei e à sua disciplina irredutível. E vários testemunhos (o de Eichmann, por exemplo), atestam-no, justificando alguns actos do Holocausto com ordens superiores e o sentido do "dever", sem qualquer juízo crítico.

São estes dois espíritos que agora se confrontam no meio de uma União Europeia expectante. Os gregos cederam em boa parte do que o Syriza prometia inicialmente e concordaram em largar várias exigências, a começar por perdões de dívida, mas é duvidoso se conseguirão inculcar alguma ordem na administração e no sistema fiscal. Os alemães continuam até agora inamovíveis, considerando que não há desvios às obrigações e que não há qualquer plano alternativo de alteração de prazos e juros a que os anteriores governos gregos se obrigaram. E no entanto, a sua opinião pública nem é assim tão inflexível.

Claro que não sabemos se realmente as coisas são exactamente desta forma. As negociações subterrâneas são feitas de cedências que não transpiram para a opinião pública. Mas bom seria que houvesse alguma compatibilidade, ou no mínimo, boa vontade e entendimento, entre estas duas visões, tão diferentes entre si, mas ambas tão europeias. O futuro próximo da UE exige-o. Se assim não for, teremos o caos da Grécia estendido a muitos mais países.


terça-feira, fevereiro 25, 2014

Efeitos directos e colaterais do congresso do PSD


Dizer se o congresso do PSD gerou alguma mudança visível no partido ou no governo é tarefa difícil. Permitiu que ex-líderes aparecessem de novo na ribalta, ou melhor, no palanque, que Santana mostrasse que não se esqueceu da vida política, que Menezes não engoliu ainda a derrota nas Autárquicas e que Marcelo, num estilo coloquial e descontraído semelhante ao das suas entrevistas dominicais, se afirmasse ainda mais, embora tacitamente (e sempre negando, como mandam as regras) a sua futura candidatura presidencial. Deu até para ver Miguel Relvas regressar destacado, no que terá sido o único tiro no pé de Passos Coelho.

Decisão a sério, só uma: a designação de Paulo Rangel como cabeça de lista da "AD" às próximas europeias, e, por via do seu eficaz e incisivo discurso, desafiando António José Seguro a revelar o seu candidato, a resposta pronta, embora antes de tempo, do PS, que apresentou Francisco Assis às eleições.
Teremos dois candidatos válidos, com experiência no Parlamento Europeu, cultos, longe dos lugares-comuns político partidários, e, por coincidência, cronistas no mesmo jornal, antigos candidatos à liderança dos seus partidos contra os actuais líderes, e originários do distrito do Porto - Rangel de Gaia e Assis de Amarante. Ao menos aqui as qualidades dos políticos não podem ser postas em causa.


segunda-feira, maio 16, 2011

O futuro do acordo


Decididamente, não se percebe. Agora que os homens da Troika (horrível termo, que muito deve agradar a Jerónimo de Sousa mas que devia dar uma processo disciplinar a quem o cunhou para esta situação), os partidos que aprovaram o plano não se entendem não só quanto à sua aplicação, mas também sobre alguns pontos acordados. O PSD quer ir mais além, o PS distorce vários pontos - já desde o anúncio do "excelente acordo", em que se revelou o que não se ia fazer, escondendo o pior - o CDS-PP já tinha proposto tudo "mas ninguém quis saber na altura". Abstraindo da extrema-esquerda, que como sempre nada apresenta de alternativo (ou então são coisas de fazer arrepiar o maior leigo em questões económicas), dir-se-ia que se prossegue no caminho da demência.


Para mais, e muito embora o plano acordado tenha alguns pontos positivos, embora duros, que podem alterar realmente a pesadíssima super-estrutura estadual, trazem alguns pontos controversos, como a da reestruturação local. Extinguir municípios seria a maior estupidez possível, mas disso falaremos mais tarde. Para já, fiquemo-nos pelas taxas elevadas cobradas pela UE, que implicam um esforço considerável para pagar o empréstimo, coisa que Sócrates não disse logo ao país para nos fazer crer no melhor dos mundos. Irónico como o FMI é sempre tratado como o mau da fita (embora já não sejam os "homens sem rosto"), e a simpática UE, sempre tão pródiga em fundos, é quem nos cobra a maior taxa. Que dirá o Dr. Constâncio?

domingo, junho 07, 2009

Primeiras impressões da noite eleitoral


- Vitória do PSD por números não muito longe das sondagens
- Derrota incrível do PS, abaixo de qualquer previsão
- Subida grande do BE, dentro do que se esperava
- CDU com um bom resultado, por pouco não conseguia o 3º
- CDS-PP aguenta-se bem, e como sempre teve mais votos do que o anunciado
- Pequenos partidos aquém do que prometeram (o MEP conseguiu apenas 1,5% dos votos)
- Brancos e nulos inesperadamente elevados
- Abstenção igual a si própria nas europeias: enorme. E nem sequer estava bom tempo
Sócrates é o principal derrotado da noite; o seu rosto grave e sem sorrisos assim o denotava; Vital é o rosto da derrota, levando o PS ao seu pior resultado desde os anos oitenta. A campanha da vitimização e as acusações da "roubalheira" voltaram-se contra ele. Parece-me que o seu fugaz regresso a terreno eleitoral mais não foi do que o esboço de um zombie político, cuja carreira nessa área há muito tinha acabado.
A CDU tem um resultado melhor do que o previsto e por pouco não ia ao 3º lugar. Sem figuras de proa, é possível que a enorme manifestação em Lisboa lhes tenha dado outra dinâmica. O Bloco pode cantar vitória, pelo 3º lugar e 3º deputado, em cima da meta. Mais mérito de Portas e compagnons de route do que de Louçã, que já apareceu com as "superioridades morais" do costume.
O CDS-PP como sempre ficou além do que as sondagens previam e conseguiu mesmo a melhor percentagem de há sete anos para cá. Meteu dois deputados, contra todos os vaticínios, e tem legitimidade para estar satisfeito.
Vencedor da noite: Paulo Rangel. Manuela Ferreira Leite tem o seu mérito, como é evidente, mas Rangel, que apareceu há relativamente pouco tempo na política nacional, mostrou uma imagem de rigor e combatividade que era o tónico de que o partido provavelmente precisaria. A vitória é escassa, apesar da diferença de 5 pontos para o PS, mas imprimirá certamente uma maior dinâmica eleitoral ao PSD, que parte agora reforçado para novos combates.
Ainda ontem, num jantar com amigos que também travaram conhecimento com Rangel carteiras e nas orais da faculdade, havia quem dissesse que ele iria "ser um dia Primeiro-Ministro". não sei se isso vai acontecer ou não, mas o certo é que Paulo Rangel marcou hoje definitivamente o seu espaço e tornou-se uma figura de monta na política nacional.

quinta-feira, junho 04, 2009

O Espaço de Vital


No cartaz da JS de que falei há dias houve um pormenor de que na altura não me dei conta, e que passou ao lado de todos, a começar pelos seus autores: o slogan "A Europa é Vital". Sabendo que o cabeça de lista do PS é federalista, esta frase é muito infeliz. É que recorda outro modelo europeu de federação muito em voga nos anos 30 e 40, o do Espaço Vital, o Lebensraum alemão, que motivou a expansão do 3º Reich e a 2ª Grande Guerra. O trocadilho acaba por ser inevitável. Por sorte, o slogan e o nome Vital não são de nenhum candidato de outro partido, senão ainda tínhamos o "Professor Doutor de Coimbra", que muito tem falado de "roubalheiras", a tecer acusações de nazismo e fascismo. No fundo, nada que ele não tenha já feito de forma mais velada.

quarta-feira, junho 03, 2009

Relembrar Lucas Pires


(Imagem tirada do Ephemera, via Portugal dos Pequeninos)

A minha atitude é sempre de infinita atenção. Tanto não adormecer sobre uma história que galopa, não adormecer em cima do cavalo - estar atento. a atenção é a única regra. (1983)


A poucos dias das "europeias", resolvi folhear e ler em parte A Revolução Europeia, uma antologia de textos de Francisco Lucas Pires publicada pelo gabinete português do Parlamento Europeu. Antes de se pensar em"discutir a Europa" de forma abstracta e blasée, confundindo-se agruras nacionais com problemas comunitários que nem sempre são os mesmos, ou magicando em "cartões amarelos" ao "sistema", faríamos melhor em ler o legado dos que pensaram na Europa na sua estrutura comunitária, mas também na sua essência e nas suas especificidades e contradições, como Lucas Pires. Também na blogoesfera nos chegaram os seus escritos. É claro que com o passar dos anos alguns ficaram datados, mas há sempre matéria para nos fazer pensar. E fica-se sempre a pensar em que lugar ou no que estaria ocupado o antigo dinamizador do "Grupo de Ofir" e líder do CDS se ainda fosse vivo.

quarta-feira, maio 20, 2009

Blogotúlia com Paulo Rangel


Ainda devia estar no comboio quando começou a tertúlia no Café Nicola, e por isso só cheguei a meio, perdendo a apresentação e as discussões da 1ª metade. Eis um relato, entre o simplificado e o denso, do que ouvi.

O que se seguiu ao intervalo trouxe confirmações do que já se sabia, tais como a opção pelo federalismo (o mainstream não é ser federalista, é ser eurocéptico), as diferenças para o PS no investimento público ("target, timely, temporarily"), recusa do referendo ("quem for a favor tem aqui a oportunidade de o mostrar pelo voto").

Mas falou da também a sua visão económica - que se traduz numa visão mais liberal do que a média portuguesa mas dentro dos parâmetros do Estado Social Europeu, que considerou, apesar das diferentes concretizações e do seu grau de aplicação, ser o mesmo. Do ponto de honra na recondução de Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia, e da confusão no PSE quanto a esse assunto. De uma certa "identidade europeia", assinalando provas disso mesmo, como a supressão de fronteiras, a moeda única e até os programas ERASMUS. Da sua própria visão dos "costumes", reafirmando-se como "católico progressista", ficou a intransigência quanto ao aborto e eutanásia, a sua posição gradualista de uma hipótese de "terceira via"no caso do "casamento gay" e a oposição à nova lei do divórcio, que considerou que transforma o casamento numa "união de facto reforçada", misturando duas figuras que deveriam ser distintas.


Para o fim, ficaram questões que devido à inexorável passagem do tempo, ficaram para trás. Depois de uma "questão" de Miguel Morgado, à partida sobre uma assembleia constituinte europeia que acabou por ser uma sabatina sobre sistemas constitucionais comparados (não tenho bem a certeza porque cedo perdi o fio à meada), com concordância algo condicionada do candidato, falou-se finalmente das relações externas. Falou brevemente da possibilidade que Portugal tem em trazer dinâmicas à UE pelo seu relacionamento privilegiado com África e Magrebe (com a concorrência da França), América Latina (com proeminência da Espanha) e mesmo com a Ásia. Nas relações com o Leste, Rangel avisou que não se podia abandonar a Sérvia, depois do golpe do Kosovo Lembrou casos relativamente simples de possíveis alargamentos, como a noruega, Islândia e Suíça. E falou dos casos verdadeiramente bicudos; a Turquia, para começar, a cuja entrada deixa sérias dúvidas, embora não se oponha frontalmente, mas que deveria, caso isso não acontecesse, ser objecto de uma sólida parceria estratégica por parte da UE; a Ucrânia, que traz consigo não apenas uma parte russófona e russófila mas também a Crimeia e a base de Sebastopol; o Cáucaso, em especial a Arménia e a Geórgia, com problemas semelhantes aos dos ucranianos, mas também parte da identidade europeia; a Bielorrússia, em que Lukashenko parece ter iniciado uma tímida aproximação à UE. E por fim a Rússia; Paulo Rangel lembrou João Paulo II, a sua visão de uma Europa ao Urais e o seu combate não somente ao comunismo mas igualmente ao capitalismo selvagem; e que a cultura russa, começando na literatura e na música, era parte integrante da cultura europeia. Ou seja, nunca a UE poderia olhar para o gigante russo como uma entidade totalmente estranha, mas a entrada na organização/federação já lhe parecia exagerada senão impossível.

(Já que se falou de tantas possíveis entradas, é pena que ninguém tenha lançado as hipóteses Israel e Cabo Verde, com tanto direito como a Turquia).

Final em beleza: na senda da recordação de Karol Woytila, a ideia de que em Portugal é muito difícil falar-se publicamente utilizando linguagem religiosa e teológica, quando se usa para todas as outras vertentes, porque logo aparecem demagogos bramindo pela "violação do estado laico". Uma ideia afinal tão fiel às liberdades públicas e políticas que Paulo Rangel pretende defender, em S. Bento ou em Estrasburgo.

terça-feira, maio 12, 2009

Um debate com todos


Infelizmente só pude ver a segunda metade do debate das Europeias, com os 13 candidatos, no belíssimo espaço do Museu da Electricidade, em Lisboa. Afinal havia espaço e tempo para todos, e sem os aplausos e chinfrineira do público a coisa correu razoavelmente bem. Pelo pouco que vi, não consegui ficar com uma ideia de todas as candidaturas. Havia candidatos que não conhecia, como o do Partido Humanista e o do MMS. Alguns são bloggers. A disposição esquerda/direita provocou-me algumas dúvidas (com o MEP, por exemplo).


Do que ouvi, e menos do que queria, Paulo Rangel esteve demasiado virado para a crítica interna no seu apelo final; Nuno Melo e Miguel Portas iam com a lição bem estudada. Ilda limitou-se a desfiar a bobine, embora tenha feito valer a sua experiência em Estrasburgo. Gostei de ver Laurinda Alves recordar os "pais da Europa" e o espírito cristão que levou à constituição da CECA, já que a memória é tantas vezes abastardada. Do Partido Humanista viram-se inócuas boas intenções. Do MMS também pouco retive. O Frederico, pelo PPM, desafiou abertamente a RTP e parece-me que saiu penalizado por isso (pena a troca "Nobre Guedes", por Nobre da Costa, no fim, e o esquecimento de Calvo Sotelo, em Espanha, mas o tempo era escasso). Carmelinda Pereira deve-se achar em 1976 (nacionalizar a banca para ser gerida por comissões de trabalhadores? Deus meu!). Orlando Alves mostrou-se combativo, como determina o lema do partido, mas com moderação. Alguma moderação também da parte de Humberto Nuno Oliveira, mas com as ideias já bem conhecidas. Quartim Graça pareceu-me ponderado mas mais discreto do que o desejável. Quanto a Vital Moreira, se dúvidas havia, dissiparam-se hoje: como cabeça de lista é um erro crasso. Mantém toda a presunção de "lente de Coimbra", tentou negar o indesmentível (a promessa de referendo ao Tratado Europeu) de maneira inconcebível, não estava totalmente dentro das matérias e nem sequer conserva a sua antiga qualidade, de resposta fácil e aguçada, que lhe permitia outrora esgrimir com os seus floretes verbais de forma muito eficaz. Cada vez que aparece, o PS perde votos, e nem as "Marinhas Grandes" ocasionais lhe valem.


Tirada inesperada da noite, de Miguel Portas: "que a direita ouça por uma vez os bispos quando falam da emigração, porque falam bem". Espera-se nos próximos dias o consequente protesto da Associação Ateísta pela "vergonhosa referência a uma confissão religiosa num debate laico".

quarta-feira, abril 15, 2009

A estranha escolha de Paulo Rangel
Paulo Rangel é um jurista com uma carreira sólida, conhece bem o direito internacional (matéria que leccionou) e comunitário, é um bom tribuno e conhecerá como poucos as grandes questões europeias, sobretudo no que à justiça dizem respeito. É além do mais alguém que pensa pela sua própria cabeça, tanto quanto o seu cargo lhe permite. A sua fulgurante ascensão na política não terá deixado indiferente Rui Rio, que vê o seu antigo conselheiro ultrapassá-lo em notoriedade política, e que por isso mesmo tentou pôr Marques Mendes como cabeça de lista do PSD às próximas eleições europeias. Rangel tem ainda a invejável condição de não ser um ex-jota laranja ou um boy acomodado. E o confronto com Vital Moreira, constitucionalista de outra geração, será certamente excitante. Mas não deixa de ser estranho que meses após o convidar para dirigir a tribuna social-democrata na Parlamento, Manuela Ferreira Leite o alcandore agora a primeiro dos eurodeputados. Com tantas opções no seu partido (entre os quais Marques Mendes, precisamente), apostar um mesmo trunfo para duas funções diferentes - e incompatíveis - no espaço de um ano parece táctica desconexa da líder laranja. Talvez uma tentativa de se afirmar, lançando um nome conotado consigo, mas que corre o risco de abrir ainda mais brechas no PSD. Espera-se agora os seguintes nomes da lista, para que se possa falar do que importa.

terça-feira, março 31, 2009

O ciclo da esquerda



Entre as ligações que o Samuel faz saltou-me à vista o texto de João Marques de Almeida, com o título "O Mundo não vai virar à esquerda", como resposta a um artigo do Público de Domingo da outra semana, que perguntava precisamente se o mundo virara à esquerda.


Em princípio, assim parece. Na Casa Branca, Obama promete uma nova relação do Estado com as pessoas e uma maior regulação das instituições financeiras – os recentes casos dos violentos sermões aos gestores da AIG são disso um bom exemplo. Na América do Sul, o Brasil, a Argentina, o Chile e o Uruguai têm governos de esquerda moderada, enquanto que a Bolívia, o Equador, a Nicarágua e agora o Paraguai são regidos por uma esquerda mais radical, com a Venezuela à frente. Também no El Salvador a esquerda acaba de derrubar a ARENA, que há vinte anos estava no poder. No México, o populista PRI (cuja classificação ideológica é ambígua, enquadrando-se mais no "extremo centro") ameaça tomar de novo as rédeas. Isto sem falar em Cuba. Já na Europa, até os governos de direita de países como a França, a Alemanha, a Itália e a Grécia tiveram de intervir mais na economia.


As excepções contam-se pelos dedos, mas também as há. No Chile, por exemplo, a direita está à frente das intenções de voto, com o esvaziamento do estigma Pinochet. E mais casos haverá, certamente. Mas ainda não se percebeu bem se é um reflexo da crise financeira e económica que se abateu sobre o Mundo e a rejeição do liberalismo outrora triunfante ou se se trata de um novo ciclo para vários anos, mais estrutural que conjuntural.

É bem provável que a segunda hipótese esteja mais próxima da verdade. O momento lembra, e o artigo do Público também, o início dos anos oitenta, pela sua inversão, quando Tatcher e Reagan ascenderam ao poder por muitos anos, ao mesmo tempo que outras figuras tão diferentes de direita, como Khol ou mesmo a nossa "modesta" AD, ao passo que na América Latina predominavam os ditadores militares anti-comunistas, com o beneplácito dos EUA. E, tal como agora, a França ia em sentido contrário, dando uma forte maioria a uma coligação de socialistas e comunistas e elegendo Miterrand para a presidência.

As diferenças estruturais viam-se no modelo económico - mais estatista em fins dos anos setenta, mas liberal agora - e sociológico, aqui mais nos Estados Unidos. Mas Revolução Conservadora iniciada por Reagan, com a conquista do Midwest e das classes médias, parece ser um modelo esgotado. Os fracassos da Administração Bush e do seu Compassionate Conservatism, mais a crise, assustaram os americanos e empurraram-nos para os braços dos liberals.


Não significa isto que os Estados Unidos virem "socialistas". Tal não aconteceu na presidência de Clinton e nem sequer nos tempos do New Deal. Há coisas que fazem parte do código genético americano e que jamais desaparecerão. Uma certa independência dos poderes federais e um característico Do it Yourself são parte constitutiva desses genes. Mas as loucuras de Wall Street e o optimismo do mercado levaram a uma mudança de atitude. E é preciso não esquecer que o Congresso já tinha maioria Democrata desde 2006. Mais do que uma mudança abrupta, há algo de simbólico na ascensão de Obama à Presidência, que é a marca do fim desses trinta anos de conservadorismo.

A verdade é que não havia um domínio direitista absoluto do mundo, nem sequer ocidental. Mais depressa se verificava uma derrota da esquerda mais radical, com a queda do Pacto de Varsóvia e da URSS e a metamorfose da China em potência capitalista, e a conversão da esquerda moderada sob a forma da Terceira Via, protagonizada pelo New Labour de Blair e o abandono de uma política de nacionalizações e de apoio nos sindicatos. O que se nota agora é mais uma derrota de várias direitas (e mais um abandono do modelo liberal, para que volte dentro de anos, como sempre) e o consequente predomínio da esquerda em sua substituição. Um ciclo definitivo? Só para os entusiasmados do momento, que quando as suas facções ganham adquirem ou reforçam uma visão determinista das coisas. Continuará a haver ciclos consoante as circunstâncias e os acontecimentos favoreçam esta ou aqueloutra ideologia. Mas não tenhamos dúvida de que nos próximos tempos será sobretudo a esquerda a mostrar-se triunfante.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Isto é de loucos!

Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, decidiu condenar Portugal por ter impedido a entrada do chamado "Barco do Aborto"* em porto nacional. Não deixa de ser uma novidade, esta invocação dos direitos humanos para esse tipo de actividades extra-curriculares de uma certa medicina. A ser assim, num futuro bem próximo, veremos o mesmo Tribunal criar um novo tipo de prémio destinado a recompensar a título póstumo, as experiências dos doutores Morell, Mengele e claro está, dos peritos soviéticos na ablação do córtex e do hipotálamo. A bem de um prometedor progresso da humanidade. O pior disto tudo é que fiquei muito ralado, porque ao ser condenada desta forma, a chamada república portuguesa acabou de subir um ponto na minha consideração. Será preocupante?

*Com a experiência que a História nos deu, a bandeira hasteada nesta traineira é um perfeito substituto da Jolly Rogers de outros tempos. Não está mal. É a tradição batava.


Na altura, achei (e continuo a achar) que a actuação do ministério da defesa, com o envio de fragatas armadas, pecou por demasiado ostensiva, mas as razões em si eram válidas: impedir que um barco estrangeiro cometesse ilegalidades em território português (ainda por cima abortos). Esta decisão apenas descredibiliza a entidade que o pronunciou, e retira-lhe legitimidade, já que considera que uma hipotética liberdade de expressão legitima um crime punível com prisão. Não sei se há possibilidade de recurso, mas o Estado Português não devia deixar passar isto sem protestar. Ao dar razão a extremistas, como as criaturas da Womens on Waves e da UMAR, para quem o aborto é "um direito humano", o Tribunal converte-se num caricatura cuja respeitabilidade fica seriamente posta em causa.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Israel e o futuro próximo

Um dos magnos problemas com que Obama se deparará será com o intrincado e quase irresolúvel problema israelo-palestiniano. Décadas de ódio e ameaças não permitem ver uma solução à vista; sempre que se avista uma luz de um lado, do outro alguém se encarrega de criar problemas. Tem sido um pesadelo recorrente de qualquer presidente americano, pressionados que são por todo o tipo de lóbis.


Não falei da actual frente de batalha de Gaza, momentaneamente parada, que começou no fim de 2008. Os "foguetões" do Hamas faziam prever a ofensiva israelita, como muito bem sabiam os detentores de Gaza. Israel naturalmente tinha de ripostar e mostrar aos integristas islâmicos que controlam aquela faixa caótica que não estava disposta a aceitar o seu comportamento. O problema é o mesmo de sempre: as razões de direito e de facto assistem aos israelitas, o modus operandi é que é sempre discutível.


Ataques por ar, terra e mar provocariam sempre razias no caos humano e material que é Gaza. Sabendo-se que depósitos de armas são instalados em escolas e outros armazéns pouco ortodoxos, percebe-se logo que os custos humanos serão duros. Torna-se difícil aos israelitas evitá-los, e não são panfletos atirados do ar a avisar qual alvo dos bombardeamentos com meia hora de antecedência que vão permitir o contrário. Mais culpas terão de ser assacadas pelos responsáveis pela destruição de um hospital da ONU bem identificável, além de outros equipamentos. A legitimidade de Israel é por vezes levada ao exagero e provoca abusos nítidos, como já acontecera no Líbano, há dois anos.



Entretanto, viram-se as manifs do costume. Milhares de pessoas desfilando contra "o genocídio em Gaza", misturando anarco-libertários, radicais, pacifistas, comunistas (de protestar contra a repressão no Tibete é que estes nunca se lembram) e extremistas islâmicos, queimando bandeiras israelitas e americanas e ostentando cartazes com coisas tão edificantes como "God bless Hitler" ou "Islam will dominate the world". Uma mistura perigosíssima de fanáticos, que de comum têm esse mesmo fanatismo. Contra natura, pois claro, mas Hitler e Estaline também assinaram pactos de não-agressão.



Entretanto, a intervenção israelita em Gaza está interrompida. Os mísseis do Hamas pararam de silvar. Mas ninguém acredita que isto fique por aqui. Enquanto a ordem e os tratados não forem cumpridos no essencial, nada se pode esperar de bom. E o essencial é que Israel cumpra as disposições contidas nas tréguas, que o Hamas recue e seja dominado, e que se reconstrua Gaza. Tudo isso demorará tempo a fazer, se o fizerem, claro. Até porque os ódios não se apagam de um momento para o outro.


Importante será que o Likud não alcance a maioria nas próximas legislativas. Se o conseguir, a situação piorará inevitavelmente. Diz-se cinicamente que a intervenção no Líbano é uma campanha pré-eleitoral mais acirrada. Pode ser. Mas se servir para Tzipi Livni se mantenha no poder em coligação com os trabalhistas, até servirá para algo mais do que enfraquecer militarmente o Hamas. O regresso de Netanyahu ao poder significará uma posição intransigente e a expansão dos colonatos.


A União Europeia, que já treina a polícia palestianana e que tem sido generosa na ajuda financeira e na construção de infra-estruturas, teria aqui uma oportunidade de ouro de fazer valer os seus galões: a deslocação de uma força militar para Gaza, com mandato onusiano, que controlasse os radicais do Hamas e os impedisse de lançar rockets, fazendo com que Israel recuasse militarmente mostraria um Europa com mais do que soft-power. Mas isso, claro, é uma ideia peregrina. Para controlar o Hamas, que conta com bom armamento e milhares de voluntários prontos a matar-se, só mesmo uma força numerosa e que não se ficasse pelos disparos para o ar. Mas os tempos económicos são pouco favoráveis a projectos desse tipo. Para mais, subsistem os problemas do costume: a Europa não é um todo, e teria de haver disponibilidade e comum acordo entre os principais países, só que a Grã-Bretanha só pensa em retirar, a Alemanha só tem tropas de "vigia", proibidas de intervir activamente, em Espanha Sapatero é um ambíguo com que dificilmente se pode contar, a França enviaria um pequeno contingente excepto se fosse muito do seu interesse nacional, e a Itália, militarmente falando, pouco conta (os italianos são tão maus soldados!). A "nova Europa" poderia enviar uma força de algum peso, mas lá está, a crise financeira não o permite, e quanto ao resto, Portugal unido, tem pouco peso, sem contar com países neutrais, como a Suécia (longe vão os tempos de Gustavo Adolfo). Para mais, não se sabe o que diria a opinião pública, que, a avaliar pelas manifestações dos últimos tempos, tem imenso receio em afrontar os radicais islâmicos. Numa delas, aliás, ficou a imagem inquietante de uma turba em Milão, que, depois de queimar a bandeira de Israel na praça do Duomo, se deitou a rezar para Meca em frente às escadarias da Catedral. Uma demonstração do despeito de certos fanáticos, mas que entretanto já teve consequências: o governo italiano proibiu manifestações frente a templos religiosos. Berlusconi sempre serve para alguma coisa. Mas se alguém se lembrasse de fazer uma missa campal em frente a uma mesquita, nem digo na Arábia Saudita, mas no Paquistão ou na Argélia, o que sucederia?

terça-feira, setembro 02, 2008

O site de Dragan Dabic

Mais de um mês após a detenção, o site pessoal do Doutor Dragan Dabic, aliás Radovan Karadzic, continua no ar. Não explica é se os utentes que quiserem recorrer à sua medicina alternativa têm de se deslocar à Haia. Os bósnios muçulmanos não terão certamente vontade nenhuma de recorrer aos seus serviços.

quarta-feira, julho 23, 2008

Tudo tem um fim

Radovan Karadžić está finalmente preso, depois de anos e anos de fugas e de interrogações sobre o seu paradeiro. Estava afinal de contas em Belgrado, sob a aparência de um pacato e barbudo especialista de medicina alternativa. O responsável por alguns dos piores crimes de guerra na Europa desde a Segunda Guerra (como os do cerco a Sarajevo e o massacre de Sebrenica), ex-líder dos sérvios da Bósnia e um dos homens mais procurados do Mundo poderá agora enfrentar a justiça do TPI da Haia. É o fim de uma longa perseguição e de muitas interrogações. Pergunto-me como terão reagido os comunistas do calibre dos nossos e os nacionalistas de extrema-direita, que nestas questões costumam adoptar posições muito idênticas (vide Milosevic).

Convém também recprdar que a Sérvia cumpriu mais uma das suas obrigações. Cabe à comunidade internacional e sobretudo à UE tomar isso em conta e não ignorar olimpicamente como aconteceu em 2000.

terça-feira, julho 08, 2008

Bela Crkva e os traços do Império


Recordando mais um texto de há uns tempos atrás do sempre indispensável Herdeiro de Aécio, sobre cidades prussianas que se tornaram polacas, alterando dessa forma o seu nome (o exemplo dado é o de Sttetin/Szczenin) e forçando as suas populações a emigração maciça, lembrei-me também dos casos, geograficamente mais a sul, das cidades do Império Austro-Húngaro. Essas não mudaram necessariamente de nome: algumas são conhecidas consoante a nacionalidade dos que se lhes referem. Noutros casos, porém, algumas designações perderam uso.
Na babel de etnias e de línguas que era o Império, todas as localidades tinham um nome germânico, ao qual se lhes acrescentava, caso ficassem fora de zona onde se falava alemão, o nome do idioma do território onde se situavam. O melhor exemplo disso vem no livro Danúbio, do italiano Claudio Magris, que acompanha o curso do grande rio e que é talvez a obra que melhor explica o espírito da Mitteleuropa, principalmente na passagem onde descreve os vários nomes de uma cidadezinha do Banato (região entre a sérvia, a Hungria e a Roménia), Bela Crkva.
O ponto de partida das nossas incursões é Bela Crkva (Igreja Branca), (...). O velho horário ferroviário geral do Império Habsburgo, em 1914, assinalava-a como Fehertemplom, segundo o critério de aplicação da designação predominante do lugar; a cidade, hoje jugoslava, fazia parte do Reino da Hungria. Agora os letreiros oficiais trilingues referem Bela Crkva, Fehertemplom, Biserica Alba - ou seja, os nomes sérvio, húngaro e romeno; o nome alemão, Weisskirchen, quase desapareceu.
Neste caso, tratando-se de uma cidade com um nome traduzível, qualquer língua o poderia fazer. Mas o mesmo se passa noutros sítios. A capital do Banato, por exemplo, é a cidade romena de Timisoara. Como denominações alternativas tem ainda Temešvár (em checo e eslovaco), Temeschburg (alemão), Temesvár (húngaro), ou Temišvar (sérvio-croata). Repare-se que além dos nomes alemães, os territórios sob soberania da coroa da Hungria tinham também o seu nome na "língua do Diabo", além do local. Bela Crkva é um exemplo quase extremo, por se situar no Voivodina - antes no Império, em território húngaro, hoje região da Sérvia - muito perto da fronteira com a Roménia e das Portas de Ferro, enorme garganta onde o Danúbio divide os dois países.
Mas designações desse tipo há várias. Encontram-se sobretudo nas fronteiras de estados da Europa Central ou de Leste (embora também seja comum na Croácia, por acaso antigo domínio húngaro, haver cidades que por vezes apresentem os antigos nomes italianos, sinal da presença veneziana), como Danúbio no-lo demonstra. Embora algumas tenham caído em desuso, são por vezes das poucas, senão mesmo o único traço, do domínio dos Habsburgos numa Europa hoje mais dividida, por ser tão multiétnica e multilingue.
Aqui podem encontrar-se inúmeros exemplos de cidades com nomes diversos.

sábado, junho 14, 2008

Democráticos? Pois sim

Dizem que agora é preciso um «plano B». Como assim, um plano B? Este «Tratado de Lisboa» já era o plano B. Não se esqueçam que o plano A, a infame «Constituição», foi rejeitado por países que ninguém se atreve a deixar para trás. Talvez apareça então um «plano C» que consista precisamente em deixar para trás a velhaca Irlanda. Já sabemos que quem discorda das ideias eurobeatas merece «castigo». Eis a «Europa democrática» destas santas cabeças.

Como bem ironiza Pedro Mexia, a "Europa Democrática" mostra a sua face quando é apanhada de calças na mão. Porque a referendo na Irlanda mostra exactamente como funciona a vontade do povo contra os euroburocratas bem pensantes que julgam possuir a panaceia para todos os males. Podem-lhes chamar nacionalistas, eurocépticos, atrasados, o que quiserem: os irlandeses exerceram o seu legítimo direito a recusar um modelo de construção europeia que lhes é estranho. E se mais referendos fossem feitos, outros resultados semelhantes surgiriam com certeza, como bem mostraram franceses e holandeses em 2005.
Põe em risco o "Tratado de Lisboa"? Põe. Mas paciência. Os senhores membros do Conselho Europeu deviam pensar que um tal passo jamais poderia ir contra a vontade popular, uma das pedras basilares desta mesma Europa dos 27. Caso contrário, se pensarem que bastam as suas magnas decisões por se imaginarem inatingíveis, não estarão muito distantes do Doutor Salazar no tempo em que a única Europa que tínhamos era a EFTA e as remessas dos emigrantes.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

E se não tívessemos aderido à CEE?

Não estivessemos na Europa integrados e pelas minhas contas já teríamos presenciado meia dúzia de pronunciamentos militares desde 1976, seguindo a velha tradição inaugurada por Saldanha em meados do século XIX.

Este pensamento do Combustões, mostrando algumas das virtudes da UE e do seu modelo de delegação de poderes, merecia ser mais explorado, como uma espécie de "wath if" caso não tívessemos assinado nada nem em 1986 nem daí em diante. A ideia não é contudo nova: Mário Soares confidenciou certo dia que se isso não tivesse acontecido, teríamos mergulhado numa guerra civil. Vai nova antologia de contos no seguimento deste?