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quarta-feira, março 14, 2018

Helénicos mas balcânicos


Se acham que o futebol português seja uma acumulação de indignidades, falta de desportivismo e fanatismo, o melhor será compará-lo com o futebol grego para nos animarmos um pouco. 
O campeonato grego é fértil em incidentes que de tão repetidos já são rotina. É o caso das invasões de campo. Ou das recepções violentas a equipas adversárias. Este ano, com a possibilidade do crónico campeão Olympiacos do Pireu ser derrubado, a disputa é entre estes, os seus vizinhos do AEK de Atenas e o PAOK de Salónica, na longínqua Macedónia grega. No encontro recente entre o PAOK e o Olympiacos o jogo teve de ser interrompido pelo arremesso de objectos (um deles acertou no treinador dos do Pireu) e implicou a derrota administrativa dos de Salónica. Agora, no mesmo estádio, no encontro entre PAOK e AEK que muita influência teria no título, a decisão do árbitro, com razão, em anular mesmo no fim um golo dos da casa levou a nova fúria, com a entrada em campo não só do público como do próprio presidente do clube, um grego-russo dono de meia cidade e que não achou nada melhor que interpelar o árbitro de pistola no coldre, fazendo menção de a utilizar. 


Depois disso as autoridades competentes já suspenderam o campeonato. Entrar em campo de pistola à cinta é demais até na liga grega. Mas esta imagem caracteriza ainda mais um país que, por romantismo ou atavismo, muitos ainda acham que conserva a pureza civilizacional da Antiguidade, como se os gregos fossem de pura raça helénica, nada tendo em comum com os povos vizinhos, esses autênticos bárbaros.
A ideia vem de longe, já que ingleses e franceses ajudaram a moderna Grécia a tornar-se independente dos turcos muito por causa do romantismo vigente. Mas a verdade é que o farol civilizacional dos gregos actuais é mais Constantinopla do que Atenas, o cristianismo ortodoxo do que o Olimpo dos deuses, ou o Basileus do que a ágora (neste último caso fazem mal, já agora).
Sim, o "berço da democracia" - esse conjunto de cidades estado e pequenos territórios - mudou muito desde então. Tirando a língua, os nomes e a situação geográfica (e também o facto de não terem ficado sob influência comunista na Guerra Fria), os gregos pouco se distinguem dos seus vizinhos sérvios e búlgaros. E dos macedónios da chamada FYROM, já agora, com quem mantêm um litígio por causa do nome que consideram ser exclusivamente seu.
O irónico da coisa é que os gregos da Antiguidade consideravam a Macedónia uma terra de bárbaros por causa do seu sistema social, político e económico. Agora reivindicam o seu legado e do conquistador Alexandre Magno. No fundo, é terra de balcânicos que não se entendem.


quinta-feira, dezembro 31, 2015

A srª Varoufakis, a aspirante a common people, uma das melhores histórias do ano



Uma das revelações mais divertidas do ano terá sido a de que a inspiração de Common People dos   Pulp não só era real como adquiriu imenso mediatismo neste ano que acaba. A rapariga grega que had a thirst for knowledge, que studied sculpture at Saint Martin's College", cujo  her Dad was loaded e que queria to live like common people era, segundo a imprensa grega e a britânica, tão só Danae Stratou, a muito elegante mulher do ultra-mediático ex-ministro das finanças grego Yanis Varoufakis, umas das figuras mais em voga de 2015. tudo se conjuga: a sua passagem pela Saint Martin´s College nos anos oitenta (que confere com a idade), onde estudou escultura, o facto de ser filha de um abastado empresário grego, e sobretudo o facto de ter conhecido o vocalista e letrista dos Pulp, Jarvis Cocker, nesse período. Quis o destino que a música se tornasse em meados dos anos noventa no maior êxito dos Pulp e numa das grandes músicas da Britpop, superior à grande maioria, e numa fonte de inspiração para classes médias-baixas britânicas que aspiravam a algo mais. E que também Danae Stratou se tornasse numa artista plástica com algum reconhecimento internacional e que se casasse com Varoufakis, que se tornaria conhecido pela sua atitude (e pela imagem que criou, reconheça-se). Uma bom trabalho de investigação ou simples lembrança levaram ao enigma. Stratou não confirma nem desmente, antes manda a bola para Cocker, que sobre o assunto permaneceu mudo. A "musa" grega chegou a vir a Portugal há uns meses, ver a bienal de Cerveira, curiosamente a poucos quilómetros de Paredes de Coura - local onde tive o prazer de ver os Pulp e Mr. Jarvis a tocar ao vivo em 2011, e como não podia deixar de ser, a interpretar Common People, deixada para o fim para delírio do público - mas nenhum jornalista português ou galego perguntou o que quer que fosse. a inspiração de Stratou para o single dos Pulp é assim uma das boas histórias que 2015 nos trouxe.










Ficaram outros assunto para explanar aqui, mas deixo-os para Janeiro, ou seja, para daqui a pouco. Boas entradas e um bom 2016 para todos.

sexta-feira, julho 03, 2015

Grécia, um país em contradições



A dois dias do referendo relâmpago para se saber se os gregos votam a favor ou contra as propostas do Eurogrupo, noto com alguma perplexidade o apoio quase fanático ao actual governo grego, enquanto que se ignoram as especificidades daquele país. O primeiro-ministro Tsipras é considerado um "humanista", que luta "pela dignidade do seu povo", contra os "agiotas" e a "ditadura neoliberal" da UE e do Euro. E não faltam manifestações de "solidariedade com o povo grego", como se o povo grego não estivesse dividido e fosse de ideias monolíticas.
Aqueles que em boa parte se dizem "solidários com o povo grego" estão-mo na realidade com o seu governo e respectiva ideologia, mais do que verdadeiramente com os gregos. Toda esta discussão aliás voga em torno das simpatias ideológicas os estratégicas.

A Grécia é aliás um país de contradições. Fala-se de solidariedade, mas os gregos não são exactamente o povo mais solidário. Recordem-se as condições que Papandreou impôs para não vetar a entrada de Portugal e Espanha na CEE, em 1985. Ou as queixas que eu próprio ouvi de romenos e búlgaros, antes de entrarem na UE, da forma sobranceira como os gregos os tratavam por terem ficado do lado de cá da Cortina de Ferro e de serem mais abastados. E claro, não esquecer a querela com a vizinha Macedónia (ou FYROM, as suas iniciais em inglês).

E é precisamente com a Macedónia que reside outra contradição. Permanece, na Grécia e fora dela, a imagem romântica do berço da Democracia. Não sendo mentira (e aliás este blogue deve-lhe o seu nome), convém recordar que a Democracia abrangia a cidade-estado de Atenas, e não tudo o que constitui território grego. Esparta, por exemplo, estava longe de ser uma democracia. Um dos argumentos que muitos gregos evocam agora é precisamente o civilizacional, o de se tratar de uma guerra entre o "berço da Democracia" e entidades "não-democráticas". O problema é que a mesma Esparta é por vezes invocada como motivo de orgulho. Mais ainda: a Grécia impediu durante largos anos a vizinha República da Macedónia de usar esse nome - ainda hoje os países da UE referem-se-lhe oficialmente como "Antiga República Jugoslava da Macedónia" - com receio de irredentismos e de perda do seu próprio território macedónio, que abrange Tessalónica, e porque se considera a directa herdeira da memória de Alexandre, o Grande. Convém no entanto relembrar que a democracia ateniense acabou definitivamente por causa, precisamente, do domínio da Macedónia, iniciado já antes por Filipe II, e que até aí os macedónios eram considerados "bárbaros" pelos atenienses.

Contradições e complicações num país caótico cuja referência é mais Constantinopla que Atenas, que prefere a Igreja Ortodoxa aos deuses do Olimpo, e que terá de  decidir o que quer na UE, se quer ficar no Euro e o que fará para o conseguir.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Duas visões europeias opostas



O braço de ferro no interior da eurozona está para durar, como não podia deixar de ser entre partes que além de se quererem salvar, querem também salvar a face. Mas é curioso notar como tudo isto resulta sobretudo das intransigências de dois países, a Grécia, o país assistido e quase insolvente governado há semanas por uma coligação contra natura de esquerda radical com nacionalistas de direita, e a Alemanha, o "motor" da economia europeia, o líder oficioso da zona euro e principal credor dos gregos, governado pela coligação luterana CDU (e o apêndice católico CSU)- SPD, encabeçada pela temida e detestada Angela Merkel. Mais do que um choque político e económico, é um choque cultural.


Os dois países têm características muito diferentes, que em dose moderada são louváveis, mas que em excesso conduzem ao impasse como o que se verifica agora. A Grécia é um país intrinsecamente mediterrânico, uma terra de oliveiras e vinhas, de sol e de mar em abundância, com um povo histriónico e caloroso, que se orgulha (algo ilusoriamente) dos antepassados que ali criaram uma civilização que influenciaria todo o ocidente, ainda que verdadeiramente o que os norteia seja a cultura ortodoxa fundada no Império Bizantino e o caos balcânico. Esse caos é verdadeiramente admirável até determinado ponto, principalmente para quem, como eu, é apreciador de filmes de Kusturika, de ali tão perto. Aliás, o cinema mostrou ao mundo essa Grécia caótica, fogosa, apreciador das "coisas boas da vida" e algo tresloucada em filmes como Nunca ao Domingo e Zorba. O pior é a outra face do problema: uma administração pública tão caótica como as manifestações de anarquistas, vulgares na terra (as "manifs" são quase um desporto nacional), a fuga maciça aos impostos dê por onde der, uma corrupção generalizada e aceite tacitamente como uma instituição subterrânea. Não esquecer o significado do termo "balcânico", e que a Grécia fica no fim da península com esse nome.


Claro que tais características desagradam e confundem os alemães. A honestidade negocial hanseática, a disciplina prussiana, a eficiência no trabalho, a qualidade dos produtos, o cumprimento estrito da lei e das regras - um povo eminentemente jurídico, com provas dadas no direito - são qualidades de que os germânicos não prescindem. Só que essas características, levadas ao extremo, degeneram-se, e transformam-se também elas em adjectivos perniciosos: intransigência, autoritarismo, falta de flexibilidade, espírito punitivo. Não faltam teses que consideram que os alemães seguiram Hitler durante tanto tempo por causa do seu espírito de obediência à lei e à sua disciplina irredutível. E vários testemunhos (o de Eichmann, por exemplo), atestam-no, justificando alguns actos do Holocausto com ordens superiores e o sentido do "dever", sem qualquer juízo crítico.

São estes dois espíritos que agora se confrontam no meio de uma União Europeia expectante. Os gregos cederam em boa parte do que o Syriza prometia inicialmente e concordaram em largar várias exigências, a começar por perdões de dívida, mas é duvidoso se conseguirão inculcar alguma ordem na administração e no sistema fiscal. Os alemães continuam até agora inamovíveis, considerando que não há desvios às obrigações e que não há qualquer plano alternativo de alteração de prazos e juros a que os anteriores governos gregos se obrigaram. E no entanto, a sua opinião pública nem é assim tão inflexível.

Claro que não sabemos se realmente as coisas são exactamente desta forma. As negociações subterrâneas são feitas de cedências que não transpiram para a opinião pública. Mas bom seria que houvesse alguma compatibilidade, ou no mínimo, boa vontade e entendimento, entre estas duas visões, tão diferentes entre si, mas ambas tão europeias. O futuro próximo da UE exige-o. Se assim não for, teremos o caos da Grécia estendido a muitos mais países.


terça-feira, janeiro 27, 2015

Tempos interessantes esperam a Grécia




A vitória do Syriza na Grécia, no limiar da maioria absoluta, terá as suas virtudes, mas para quem como eu não se revê minimamente naquele partido que agrupa diversas formações de esquerda radical, a menor de todas não será o fim do domínio da política grega pelos clãs familiares que há décadas fazem dela a sua propriedade - os Papandreou, Karamanlis, Mitsotakis, etc. Ou talvez não, porque estas famílias já existiam antes da junta dos coronéis e renasceram com o regresso da democracia.
Outras vantagens: Tsipras e o seu Syriza terão oportunidade de demonstrar que há alternativas para além das políticas actuais, o que levará forçosamente a algumas mudanças de rumo. Ou então mostram que não passam de meros populistas e o Syriza será a vacina contra as formações populistas que ganharam novas esperanças com este resultado. Seja como for, o futuro da Grécia é perfeitamente imprevisível. E não se pode deixar de reparar na rapidez com o novo governo se formou e tomou pose, ainda que se estranhe a aliança com um partido de direita (embora Tsipras nem pudesse colocar gravata ao menos na cerimónia de empossamento. Nem imagino o que dirá João Carlos Espada).

Entretanto, a derrotada Nova Democracia teve um apesar de tudo honroso resultado de perto de 30%, ainda que muito longe dos que alcançava antigamente, mesmo na oposição. O PASOK o outro grande partido grego, ficou-se por uns irrisórios números abaixo de 5%. E Papandreou, com o seu novo partido da mesma área, nem conseguiu votos para ser eleito deputado.
Entretanto, os neonazis do Aurora Dourada, mesmo com o líder preso, ficou em terceiro, e os neoestalinistas do KKE aguentaram-se acima do PASOK. Tanto externa como internamente, a vida política na Grécia a médio prazo promete ser interessante. Espera-se que os gregos não sofram mais à conta disso.

sexta-feira, junho 22, 2012

Gregos e alemães: uma história que vem de longe


A história entre alemães e gregos já é longa. Começou com as paragens dos cruzados que iam a caminho da Terra Santa, e que por vezes ali chegavam com intenções duvidosas, com expoente máximo na 4ª Cruzada de 1204, em que se deu o saque de Constantinopla, e a agonia lenta do Império Bizantino, até cair perante os otomanos, em 1453. Muito depois, a guerra da independência na primeira metade do Século XIX criou a Grécia moderna. Por razões estratégicas, fazendo recuar os turcos, no que se empenharam ingleses, franceses e russos, mas também ideológicas, porque o romantismo era o grande ideal da época. Com ele vinha o também nacionalismo, de que a restauração do berço da democracia e da filosofia era um dos maiores imperativos. Não tendo tomado parte na contenda, os alemães, expoentes do romantismo, criaram as fundações do estado grego, uma administração mínima, e até lhes cederam um rei, o impopular e inadaptado Otto I, um monarca bávaro que não percebeu o que era o seu novo país não chegaria ao fim do seu reinado.

Gregos e alemães voltariam a encontrar-se na I Guerra mundial, ainda que no "papel", já que as forças helénicas defrontaram os turcos, búlgaros e austro-húngaros, e não directamente os seus aliados germânicos. Mas na II Guerra, e depois de rechaçar as tropas italianas, a Grécia sofreu em pleno a invasão alemã, como plano geo-estratégico de fechar o Mediterrâneo aos aliados. A ocupação teve efeitos nefastos e marcantes, como o desaparecimento total da antiga e numerosa comunidade judaica de Tessalónica e a morte de milhares de gregos. A célebre fotografia da suástica no Parténon é um dos testemunhos mais perturbadores dos anos de ocupação, além de que constituíram um símbolo do esmagamento da democracia (no seu sentido primordial) pela totalitarismo.


Seguiu-se a guerra civil, a democracia instável, o regime dos coronéis, a queda da monarquia e o regresso da democracia, embora muito amparada nas dinastias políticas e no clientelismo, que a entrada na CEE e a chegada dos fundos subsequentes ajudaram a disfarçar.

Agora, os gregos atravessam uma crise financeira, económica e política que os coloca nas primeiras páginas dos jornais. Dada a proeminência e poderio económico da Alemanha, Angela Merkel tornou-se a figura mais detestada na Grécia e os alemães já são alvo de acções de xenofobia e ódio.

Muito embora a culpa da situação a que chegaram caiba em primeiro lugar aos helenos e à sua displicência e corrupção, a dívida do saldo entre as relações greco-gerânicas continua a pertencer mais aos alemães. É isso que os gregos vão tentar cobrar hoje, no jogo contra a Mannschaft, mesmo que os recursos técnicos sejam bem menores. Acredito mais na vitória dos germânicos, que até terão em Gdansk (a antiga Dantzig prussiana) uma falange muito maior a apoiá-los, mas dada a gana da equipa de Fernando Santos nesta altura, a incrível coincidência deste jogo e a oportunidade que proporciona, prefiro não fazer grandes apostas.


PS: evidentemente, muitos, como o Herdeiro de Aécio e o jornal Público, lembraram-se desta famosa "partida" entre filósofos gregos e alemães, uma das mais geniais criações dos Monty Python. Ei-la, na sua versão (mal) traduzida em "luso-brasileiro".

 

domingo, junho 17, 2012

A condicionante grega


"O futuro da Europa joga-se hoje, nas eleições francesas e gregas", diz-se. Francesas? Lá voltamos ao mesmo. Em França, discute-se a segunda ronda das legislativas. À partida, os socialistas e seus aliados conseguirão a maioria, mesmo estando empatados em números com a UMP e aliados, consequência do sistema uninominal vigente e da queda abrupta dos centristas de Bayrou. como tal, a nova Frente Nacional conseguirá um número residual de lugares, e a esquerda radical de Melenchon mais alguns, mesmo com menor percentagem de votos. Curiosidades só mesmo nos casos locais: por exemplo, se LePen ou Segoléne Royal (tramada pelo twiter actual companheira do seu ex-marido e actual presidente) conseguirão ser eleitas.

Na Grécia sim, está muita coisa em jogo. Se o Syriza ganhar, com quem formará governo? E se recusa o plano da UE, como é que vão pagar as contas e os salários? Vendendo as ruínas do Parténon aos chineses? O apoio de Louçã à esquerda radical grega é elucidativo e mostra bem até que ponto o populismo e a demagogia (não por acaso uma palavra grega) podem levar a resultados catastróficos. E parte da opinião pública continua a acreditar na fábula dos pobres gregos esmagados pelos tirânicos alemães, como se as contas falsificadas, o clientelismo e a corrupção não fossem da responsabilidade dos modernos helenos.  Assim, mais de dois mil anos depois de terem servido de barragem à invasão persa, moldando provavelmente de maneira radical a História da Europa, os gregos modernos arriscam-se agora a ser os coveiros do Euro e sabe-se lá que mais.
Só que a alternativa é a velha Nova Democracia, o partido que, com ajuda do PASOK, levou a Grécia a este estado de coisas. Seria quase imoral que ganhasse, mas talvez seja o mal menor. A tragédia grega prossegue. Valha-lhes Fernando Santos e Karagounis, que conseguiram o autêntico milagre de levar a sua envelhecida selecção a ultrapassar a fase de grupos à custa de equipas bem melhores. Uma delas, directamente afastada, é a Rússia, que ironicamente pode vir a estender a sua área de influência aos gregos caso estes saiam do euro.

segunda-feira, maio 07, 2012

Uma tragicomédia grega


Entre eventos eclécticos que propõem arremesso de coktails molotovs na Praça Syntagma, brindes de Ouzo nas esplanadas da Plaka e a contemplação do horizonte no Pireu (com sorte, no cabo Sounion,) à espera de salvação ou prevendo o salto para fora, segura momentaneamente por novo resgate europeu e alguns perdões, a Grécia teve finalmente novas eleições ao fim do desastre dos três últimos anos.
Lucas Papademos, primeiro-ministro cessante da Grécia, tem uma qualidade rara entre os que ocuparam o cargo: é dos poucos que não pertence a um dos clãs familiares políticos do país, que já dominam a vida política helénica há várias décadas, atravessando os vários regimes e mantendo-se sempre à tona. Nesse aspecto (como em vários outros, aliás), a Grécia mais parece um país asiático, o que não deixa de ser irónico, tendo em conta que ali se estabeleceu um dos berços da civilização ocidental e um dos baluartes contra a ameaça dos inimigos vindos de Oriente, talvez uma das maiores razões orgulho dos gregos. Talvez derive da longa ocupação otomana, mas o que é certo é que os gregos actuais pouco herdaram dos seus antepassados a não ser as ruínas, a língua - modernizada - e os nomes. Acima de tudo, é um povo balcânico, cuja herança directa é muito mais bizantina e ortodoxa do que helenística, conservando ainda alguns traços dos odiados turcos. Da verdadeira democracia ateniense, da filosofia da ágora e das ilhas onde o tempo sobejava, do espírito de sacrifício de Esparta, na da sobrou. Até mesmo o empreendedorismo naval, das poucas coisas que tinham em comum com a Grécia clássica, está moribundo, sem Onassis ou Niarchos que lhe valham.

A Grécia é um país à deriva, com taxas altíssimas de desemprego, pobreza crescente e poder de compra em constante quebra, além de enorme crispação social e política e da corrupção endémica. Junte-se a isso tudo um clientelismo monstruoso e poderosas instituições que, ao invés de cimentarem e servirem de exemplo à sociedade, constituem um pesadíssimo lastro, como as forças armadas, jogando com a ameaça turca e a divisão de Chipre, a Igreja Ortodoxa, força moral do país desde a independência mas que continua a não pagar impostos e a ser a maior proprietária do país, e os sindicatos, meros grupos subsidiados pelo estado. Mas pelo menos alguma coisa vai mudar com estas eleições: as tradicionais famílias políticas vão por agora ser afastadas. Pode-se falar de autênticas dinastias que dominam os partidos e os governos atravessando transversalmente os regimes. São os Papandreou, que deram três primeiros-ministros nos últimos sessenta anos (George, no regime antes da ditadura, Andreas, fundador do PASOK e figura maior do actual regime, antes e depois da ditadura, e o seu filho George, que chefiou o governo até há poucos meses), os Karamanlis (Konstantinos, várias vezes primeiro-ministro, em dois regimes diferentes, presidente da Grécia nos anos oitenta e fundador da Nova Democracia, e o seu sobrinho, Kostas, que chefiou o governo da ND até 2009, responsável maior do descalabro financeiro do país), e os Mitsotakis (Konstantinos, primeiro-ministro e líder da ND, a sua filha, antiga presidente da câmara de Atenas e ministra, e que por sua vez são descendentes de Eleftherios Venizelos, talvez o mais proeminente político grego do século XX, que chefiou o governo noas anos trinta, inspirou várias correntes partidárias até hoje e deu até o seu nome ao aeroporto de Atenas). Os partidos tradicionais livraram-se por ora deles. A Nova Democracia é liderada por Antonis Samaras e o PASOK pelo mastodôntico Evangelos Venizelos (que ao contrário do que disseram alguns comentadores portugueses, nada tem a ver com Elephterios Venizelos). Uma das muitas reformas imperativas (e refrescantes) do país é precisamente o afastamento destas corporações familiares, autênticas fontes de clientelismo e nepotismo em larga escala.



                      (Karamanlis e Papandreou: uma história de gerações)

Com as eleições de Domingo, o cenário partidário grego estilhaçou-se com a queda abrupta do PASOK e o bisonho resultado da ND. O SYRIZA - Bloco de Esquerda do sítio, a quem Louçã deu apoio directo - ganhou o segundo lugar e pode formar governo, por mais impensável que isso possa ser. Ou então, poderá até ser de novo o PASOK, com os seus 13%, a fazê-lo, já que a ND assumiu a sua incapacidade em formar um executivo nacional. A esquerda mais moderada e a direita saída da ND exigem condições impossíveis de cumprir. Os comunistas do KKE, que sonham com uma Revolução de Outubro transposta para a Grécia de 2012, e os skins descaradamente admiradores de Hitler do Aurora Dourada nem foram tidos em conta (pudera). O cenário é caótico, e admitem-se novas eleições no próximo mês, se não houver governo. Já aconteceu, em 1989, mas desta vez, dada a terrível situação económica e social do país e a ausência de  verdadeiras reformas, a dispersão de votos e a ascensão de extremistas e radicais prometem tempos complicados para a Grécia, o Euro e a União Europeia. qualquer novo governo terá um trabalho hercúleo pela frente, no saneamento financeiro, reajustamento administrativo, recuperação da economia e resistência às corporações e corrupção que minam a sociedade helénica. Em todo o caso, a saída de cena dessas dinastias políticas "asiáticas" não resolve muito, mas bem pode ser um começo para algo novo.

quarta-feira, novembro 02, 2011

A caminho do abismo ou de evitar novos coronéis?


Não sei se é dos ares de Atenas e da inspiração da Democracia (se bem que o que lá vigore actualmente seja mais a anarquia), ou se de ter nascido nos Estados Unidos, uma democracia ininterrupta desde o século XVIII, o que é certo é que a decisão de George Papandreou de levar a proposta de ajuda e reestruturação da Grécia que já havia sido aprovada em cimeira a ser referendada pelos helenos deixou tudo de boca aberta e mãos na cabeça. Não haja dúvida que depois de promessas de referendo não cumpridas (sim, estou a pensar em Sócrates) e de vermos constantemente decisões relevantes da UE ou da Zona Euro tomadas ao telefone pelos Srs Sarkozy e Merkel, como se o resto fosse paisagem, tivemos finalmente o assomo de uma decisão verdadeiramente democrática, e não também de uma "democracia real", como exigem os "indignados", até porque a "rua" não se pode agora queixar de que as decisões não são tomadas pelo povo.




A aposta é muito arriscada, e as dúvidas são compreensíveis. Se ganhar o referendo, Papandreou legitima o seu governo e a sua política e ganha nova consideração entre os homólogos europeus. Se perder - e é para aí que as sondagens apontam - falham os planos de resgate do país,, e na melhor das hipóteses, faltará o dinheiro para coisas tão simples como pagar salários; na pior, a Grécia sai do Euro, com todas as consequências que daí advêm, a banca é arrastada e será o princípio do fim da Moeda Única




A demissão das chefias dos ramos das Forças Armadas pode também não ser estranho a isso. A decisão foi tomada de rompante, o que indicia um certo temor de que houvesse uma acção das altas instâncias militares. Seria facto inédito na UE, embora não na Grécia. Apesar dos desmentidos, tudo leva a crer que não se tratou de mera coincidência burocrática. Se realmente os militares tivessem dicidido passar à acção, seriam mais da tendência "junta dos coronéis", ou mais "Vasco Lourenço", e a sua promessa anual de "se for preciso fazemos um novo 25 de Abril"? Certo é que Papandreou, contestado pelo seu próprio partido, vituperado pela rua grega, tratado de forma condescendente pelo "directório" e agora ameaçado pelos militares, tratou de pôr cobro à ameaça mais imediata através de uma cartada muitíssimo arriscada. E vale a pena recordar que a Grécia tem um arsenal de respeito - enquanto aqui se discute pela compra de dois submarinos, os helenos compraram seis - e muitos dos gastos dos últimos anos foram em armamento bélico, o que de certa forma ajuda, entre outras coisas, a explicar como é que caíram no abismo financeiro, e agora político.




quinta-feira, outubro 20, 2011

O Borrusia expiatório

Ontem viveu-se um dia agitado em Atenas - um pleonasmo nos últimos tempos - com dezenas de milhares na rua em protesto, anarquistas a incendiar objectos e a meter-se em refregas com a polícia, uma greve geral de dois dias, enquanto o parlamento, com os uivos que se ouviam da Praça Syntagma, aprovava novas e duras medidas de austeridade. Apesar de greve geral, que incluía os transportes, nem por isso o estádio do Olympiacos (o clube do Pireu e tradicionalmente das "classes trabalhadoras") deixou de encher para o jogo da Liga dos Campeões. Não sei como o fizeram, com a míngua de transportes públicos e de Euros nos bolsos, mas o certo é que o jogo serviu como excelente e simbólica catarse: o Olympiacos ganhou por 3-1, e logo frente ao campeão alemão. Certamente que a rapaziada do Borrussia de Dortmund não estava à espera que fosse a sua classificação no grupo a servir de bode expiatório ao momento conturbado dos gregos e às indecisões e declarações da Chanceler do seu país.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O costume dos protestos gregos





Os distúrbios prosseguem na Grécia. Talvez o Natal consiga aplacar o caos reinante, mas há em terras helenas um rasto de destruição, de feridos, presos e tensão. Para além da morte do manifestante de quinze anos, o detonador de toda esta Intifada à grega, misturam-se os problemas do país, que em grande parte são os do Mundo. Todos têm uma causa para explicar os motins: a crise financeira, o desemprego, a corrupção, a falta de oportunidades, o "autoritarismo" da polícia, etc. Acrescente-se o coração do problema, o bairro ateniense de Exárchia, onde param enxames da extrema-esquerda e de anarquistas, cerne da violência destruidora. É um facto que os ânimos se exaltam com os problemas sociais e económicos actuais, e que prometem aumentar. E nos grandes partidos gregos, sucedem-se, desde antes do regime dos coronéis, os dirigentes das grandes dinastias, como os Papandreou e os Karamanlis, cujo último exemplar preside ao governo grego. O país tem vivido alguns momentos mais duros, como os calamitosos incêndios do ano passado. Nestas condições, um episódio mais grave e a revolta de uns quantos anarquistas podem ser a acendalha para fazer irromper a onda de destruição e protesto que se tem verificado.


Acrescento-lhe, no entanto uma outra: a predisposição natural dos gregos para as manifestações violentas e maciças. Não sei se é um "costume" que vem da altura do regime dos coronéis ou antes, mas o que é facto é que na Grécia não faltam exemplos de exaltações populares, embora as deste ano sejam particularmente violentas. Em 2003, aquando da invasão do Iraque, as primeira manifestações começaram logo na noite do início das operações militares, com apedrejamentos à embaixada americana e iraquianos a perfilar-se com as suas bandeiras (ainda hei de postar uma foto com isso). Dias depois, um gigantesco protesto, com a anuência do governo, praticamente impedia ou dificultava a entrada e a saída da cidade. Quem lá fosse antes das manifestações teria de amargar até que tudo aquilo acabasse. E nos dias que se seguiram, não faltaram novas manifestações, e na Praça Sintagma via-se um enorme lençol pintado de vermelho com caracteres anti-guerra.

Sejam quais forem as razões da violência nas ruas, é altamente improvável que os manifestantes obtenham um resultado vantajoso. Não sendo a Grécia actual uma Tirania, não há razões para a violência dos motins contra um governo com legitimidade democrática. E é duvidosos que a maioria da população goste muito de ver os seus carros e os centros das cidades a arder. Não se percebe bem o que é que a maioria destes anarquistas ou candidatos a isso quer - provavelmente a violência é um fim em si mesmo, para andar à pancada - e se o governo cair, convocam-se novas eleições e o mais certo é a Nova Democracia regressar ao poder. Se é para melhorar alguma coisa a nível económico, depois da destruição de edifícios, bancos e outros estabelecimentos, e da ocupação de universidades, só se a construção civil tiver alguma incremento para algumas reconstruções, porque tais actos só devem ter assustado os investidores e consumidores. O problema é que essa gente não parece ser particularmente inteligente. Talvez nas obras se safem, e dêem o tal empurrão à construção. Quem sabe destruir deve aprender a reconstruir, tal como as crianças pequenas.
PS: as minhas suspeitas tinham fundamento. Afinal, é mesmo anterior aos coronéis. O Guardian também acha:
Rebellion is deeply embedded in the Greek psyche. The students and school children who are now laying siege to police stations and trying to bring down the government are undergoing a rite of passage.