Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, janeiro 10, 2025

O pretexto de Camilo

Do destino de rumar ao Panteão está o autor de A Queda de Um Anjo a salvo. Por sua expressa e perpétua vontade (antes de se matar?), Camilo Castelo Branco repousa no Cemitério da Lapa, no Porto, perto da escola onde Ramalho instruiu Eça e o coração de D. Pedro está guardado, sem receio de que o venham incomodar. Não fosse isto e já teria andado em bolandas entre o Porto, Samardã, Seide e o tal Panteão de Santa Engrácia, a não ser que os descendentes e órgãos deliberativos actuais sejam de tal forma insensíveis que não hesitem em violar esta sua vontade sagrada. É pouco provável, mas não impossível, se houver quem ligue mais aos restos mortais como "património cultural da nação" do que como pessoas (s)em carne e osso.



quinta-feira, janeiro 09, 2025

Eça no Panteão

Esta coisa de ver Eça no Panteão deixa-me de pé atrás. Cerimónia muito digna e bonita, pois claro, mas é o tipo de celebração que poderia figurar n´Uma Campanha Alegre.

Por mim, preferia vê-lo em Santa Cruz do Douro. Não pel´A cidade e as Serras, cuja conclusão bucólica se deve a um dos filhos do escritor e não ao próprio. Nem era a "terra onde ele nasceu", como vi alguns ignorantes escreverem, logo ele que esteve lá um par de vezes. E Eça sempre se sentiu bem em Lisboa. Mas pelo Panteão em si. Não bate certo. Está afastado do seu espírito, da sua prosa. Pena que Garrett não tenha tido honras de Panteão quando morreu, até porque este ainda não existia, mas assim veríamos os comentários de Eça.
Mas mais curiosidade teria de ver o escritor viver mais vinte anos: que diria da I República, da Grande Guerra, de Sidónio, ele que não era republicano e tecia larga crítica à monarquia liberal? Teria derivado para ideias republicanas, como os confrades Guerra Junqueiro ou Batalha Reis, ou inflectido para o Integralismo Lusitano, como o mestre e companheiro Ramalho Ortigão? Podemos sempre imaginar, mas teria sido interessante que José Maria Eça de Queiroz tivesse ficado por aqui mais uns tempos.








segunda-feira, setembro 30, 2024

O fim das livrarias do centro da cidade

A Fnac de Sta Catarina fechou hoje, para dar lugar a uma Primark, no edifício Palladium. Era um fim anunciado há meses, mas não deixa de provocar um sentimento de vazio. Era uma espécie de "homónima" portuense da Fnac do Chiado, uma loja-âncora em plena baixa. Nos últimos dias, quando por lá passei, já dava sinais de fim de época e de mudanças, sem boa parte dos produtos e com alas fechadas.

Desde que abriu, seguramente no início do século, por junto passei lá muitas horas, desde que os CDs, que eram aos milhares, ainda eram a melhor foma de adquirir música. Se pensarmos bem, uma Fnac naquele local era uma sorte, um luxo, aparentemente, já que a Baixa está reduzida cada vez mais, tirando as instituições públicas, a cafés, restaurantes, marcas para turista ver e hotéis (está planeado outro para o edifício de cor bordeaux em frente). Dizem vozes amigas que estão à procura de novo local para a reimplantar. Espero e estimo que o consigam, porque as rendas das Primarks desta vida estão cada vez mais difíceis de suplantar. Até lá, quem quiser comprar livros naquelas paragens sempre se pode socorrer à excelente Livraria Latina, quase em frente.

PS: incrivelmente, a Latina também vai fechar. Com excepção da Bertrand da rua da Fábrica, a Baixa fica SEM UMA ÚNICA livraria, tirando um ou outro arfarrabista. Já teve várias, e prestigiadas, mas a Leitura é agora um bar e a Lello, essa, é um museu instgramável com armadilha para turistas de Harry Potter.

domingo, agosto 25, 2024

24 de Agosto, dia de início da Libertação de Paris

Há anos que tinha este livro na prateleira, pronto para ser lido. Resolvi-me finalmente a lê-lo neste Verão. Uma escolha feliz do subconsciente para a época, porque de repente uma notícia recordou-me que passam hoje exactamente 80 anos que a coluna blindada do general Leclerc entrou na cidade iniciando a Libertação de Paris, na madrugada de 25 de Agosto de 1944. Pena não ter sido um dia mais cedo, porque poderia sempre dizer que o meu dia de anos coincide com o de Paris libertada.







segunda-feira, agosto 19, 2024

Delon e Pivot

E já que as redes sociais se inclinam perante a morte de Alain Delon (justamente), eis um "questionário de Proust" feito ao mesmo por Bernard Pivot, também desaparecido este ano, e que fica assim como homenagem aos dois

terça-feira, abril 09, 2024

Identidade, família e liberdade (?)

O novo livro "Identidade e Família" tem atraído as atenções por servir de pretexto a Passos Coelho para um novo discurso político mas também porque colheu vitupérios bizarros, havendo logo quem o associasse à extrema-direita e ao conservadorismo político (que não são só são diferentes como muitas vezes se excluem, coisa que os ignorantes políticos desconhecem). Pelo que apurei, o conteúdo é muito diverso, tal como os seus autores - tenho sérias dúvidas de que Bagão Félix, Manuela Eanes, Frei Fernando Ventura, Vasco Magalhães ou Guilherme de Oliveira Martins sejam sequer próximos da extrema-direita - e há matérias que se aproveitam e outras que se dispensam.


Mas as reacções é que são de espantar. Uma delas, vinda de uma das zelotas de serviço, é de se tratar de "inimigos da liberdade". Uma jornalista chegou a insinuar que uma vez consagrados na lei o aborto e a eutanásia, opinar contra seria "ilegítimo". Ora se há uma manifestação de liberdade que se veja é precisamente a de expressão, livre opinião e debate de ideias. Ataque à liberdade é o que praticam algumas das críticas, que se pudessem proibiam o livro. E ainda dizem defenderem os "ideais de Abril". Nota-se. Até por isso a sua edição é bem vinda.


quinta-feira, junho 22, 2023

A quase extinção do homem analógico



Confesso: apesar de o meu Pai me garantir que era (até há dias, evidentemente) o maior escritor americano vivo, nunca li um livro de Cormac McCarthy e tanto quanto sei só vi um filme adaptado de uma obra dele - o famigerado No Country for Old Men. Este artigo de in memoriam de Paulo Faria (excelente tradutor, já agora), que em "leitura aberta" para não assinantes só se consegue ler o início, revela-nos um escritor que não só cresceu em viva comunhão com a natureza mas que acima de tudo NUNCA usou a net para absolutamente nada, recorrendo sempre, até morrer, à sua máquina de escrever.

Isto é absolutamente extraordinário, e traz-nos à memória antigos correspondentes de jornais, de mangas arregaçadas, por vezes fumando copiosamente, teclando furiosamente as suas Remingtons, para deixar pronto a tempo o artigo do dia seguinte com o melhor tratamento possível da língua. Não sei se seria o caso de McCarthy, mas não posso deixar de pensar em todas as discussões, críticas e debates exclusivamente na net sobre a sua obra e as respectivas adaptações que ele nunca viu nem imaginou. Era, pois, um ser em vias de extinção: uma pessoa absolutamente analógica. Isto escrevo eu, no meu computador, na net, da qual dependo imensamente, como a maioria das pessoas, com um tudo de nada de inveja e muita admiração.

domingo, janeiro 09, 2022

Os psicopatas americanos no Congresso

American Psycho, ou Psicopata Americano, é um romance, chamemos-lhe assim, escrito no início dos anos noventa por Bret Easton Ellis que retrata de forma crua, amoralmente ostensiva e exaustivamente descritiva a idade de ouro dos yuppies na segunda metade dos anos oitenta, no pré-crash de 1987. A narrativa centra-se no modo de vida de Patrick Bateman, um financeiro de Wall Street com menos de trinta anos, de início mais nas suas obsessões materiais - a casa, a decoração, os aparelhos de alta fidelidade, os produtos de beleza e de higiene, o culto do corpo, os fatos, as gravatas, os restaurantes de luxo, as drogas, as amantes e as prostitutas - e mais à frente na sua faceta (ainda) mais negra que justifica o título da obra, tudo entrecortado pelas detalhadas críticas musicais dos músicos favoritos da personagem, que surgem como curiosa Hybris normalmente em situações inesperadas.  

O livro, já de si um sucesso comercial e de crítica, foi adaptado ao grande ecrã em 2000, com Christian Bale a compor um impressivo Bateman num desempenho que projectou a sua carreira. Como já se percebeu, o protagonista espelha uma ganância e uma obsessão materialista tais (de que é exemplo o seu acesso de fúria só porque os correligionários têm cartões de apresentação mais caros e polidos que os dele, o que terá consequências funestas) que é capaz de transformar Gordon Gekko, outra personagem fictícia deste peculiar mundo dos yuppies, num voluntário caridoso. É claro que nem todas as partes das descrições torrenciais de Ellis puderam ser transpostas para o filme, mas o essencial manteve-se.


Uma das alusões na obra a figuras reais, mais presente no livro que na película, é o culto do peculiar universo que rodeia Bateman pelos bilionários ostensivos, em geral, mas com uma especial admiração: Donald Trump. Sim, Trump e as festas que ele dá, os locais que frequenta e os seus carros. Trump é o modelo, a bússola e farol, aquilo que esta mole de gente endinheirada, entediada e amoral pretende ser.

Recordei-me de novo do livro/filme e das suas alusões a propósito do primeiro aniversário da invasão do Capitólio por aquela horda estranhíssima e alucinada, que deixou como resultado cinco mortos e uma imagem de ultraje e vergonha à democracia americana, mais própria de um país do interior de África. Tinham vindo de vários pontos dos Estados Unidos, numa das alturas mais gélidas do ano, para ouvir o discurso de Trump em frente ao congresso. Um discurso aliás de acusação e de incitamento directo contra a câmara legislativa, na senda da não aceitação do resultado das eleições de dois meses antes e das alusões a supostas fraudes. As palavras eram demasiado explícitas para que não se possa ligá-las ao que sucedeu a seguir. Aliás, até parecia que alguns adoradores trumpistas, mesmo deste lado do Atlântico, já o estavam a pressentir, referindo-se a "demonstrações do triunfo do "America First" que iriam surgir em Washington. Até tinham razão, como se viu.


Trump flutua entre um instinto político eficaz e uma mitomania que se torna pública muitas vezes. Era sem dúvida este último sentimento que o dominava naquele dia. Provavelmente, no embalo daquele discurso a meio caminho entre um ditador sul-americano e o general Custer lançando ordens contra os índios, não previu que as consequências pudessem ser tão funestas. Mas foram (por pouco não o foram para o próprio Mike Pence) e são indissociáveis do seu discurso de raiva que levou aquela mole desvairada habituada a "informar-se" no Qanon a cometer um acto tão grotesco.


O contraste entre esta gente e a retratada em American Psycho é gritante, a começar pela forma de trajar e a acabar na capacidade económica. As respectivas mundividências também são abissalmente diferentes. O que as une é a admiração e a confiança quase ilimitada em Trump, embora por razões diversas. Mas é bem mais compreensível vinda dos segundos, já que Trump é ele próprio um símbolo do materialismo (e de muito exibicionismo, como se observa na sua Trump Tower e no seu avião, por exemplo) e da ganância de um lado mais perverso do "sonho americano", além de ser nova-iorquino e de ter vivido quase sempre na Big Apple. Já da parte dos invasores do Capitólio é bem menos lógico, pois falamos de gente mais proveniente do Midwest e do Deep South, menos cosmopolita e mais susceptível a propaganda e com muito menos poder económico. Trump e a fauna de Wall Street estão a anos-luz desta massa de proletários sem rumo, em muitos casos desprezando-os até, e são o oposto aos princípio cristãos (com uma interpretação muito própria do cristianismo, é certo, muito WASP) e aos modelos de família por eles defendidos.

Em suma, Patrick Bateman admira Trump não só pelas suas posses mas sobretudo por não olhar a meios para atingir os seus fins e por possuir um ego do tamanho do mundo - pela fortuna, antes de mais, e depois pelo poder político - o que o faz sentir-se quase uma divindade omnipotente perante os outros seres que o rodeiam. Combina o dinheiro, o poder e o sexo, a avaliar pelas suas bravatas. Aquela frase de que "podia dar um tiro a alguém na Quinta Avenida que não perdia um voto" seria certamente do agrado de Bateman e poderia perfeitamente ser dita por ele. Ao criar a personagem, Ellis pôs muito de Trump nela, embora não pudesse prever que uma tal levaria à invasão do Capitólio. Com a diferença de que Patrick sabe certamente muito mais de música popular contemporânea do que Donald.

quinta-feira, abril 16, 2020

Dias sombrios para a literatura sul-americana


Terríveis dias para a literatura sul-americana, estes. Hoje perdeu-se Luís Sepúlveda, que até tinha provocado uma onda de pânico há pouco mais de um mês, na Póvoa, quando veio ao festival Correntes d´Escrita, e afinal ninguém mais ficou doente, só ele. Escreveu um punhado de boas obras e lembro-me em especial de um excelente livro de viagens Mundo no fim do Mundo, de que cheguei a escrever uma pequena recensão no jornal da faculdade, há já muitos anos, ou do Diário de um Killer Sentimental, espécie de romance policial noir com laivos de humor.

E ontem deixou-nos Rúben Fonseca, de morte natural, que tinha uma escrita seca, dura, directa. Criou o advogado/detective/boémio Mandrake e o "romance histórico" Agosto, sobre os últimos dias de Getúlio. Se pesquisarem no youtube encontram as respectivas adaptações televisivas. E é irónico como no Dia Mundial da Arte desapareceu o homem que escreveu A Grande Arte.

sexta-feira, janeiro 03, 2020

Um mentor de génios


A Foz velha, em tempos separada do Porto, de tal forma que ainda há lá quem diga "vou ao Porto" quando pretende ir ao centro da cidade, é em boa parte atravessada por uma rua estreita, empedrada e de traçado ligeiramente curvado, que liga a ainda mais estreita Rua da Cerca e a Esplanada do Castelo (de S. João Baptista da Foz) até à mais movimentada Diogo Botelho, continuando ainda do outro lado. Nela se podem ver mercearias tradicionais, restaurantes premiados mas de fachada discreta, uma via sacra, a antiga casa da câmara, dos tempos em que S. João da Foz era município, e a velha discoteca Dona Urraca/Pop, que recebeu gerações seguidas de movida. Essa velha artéria, em tempos chamada de Rua Central da Foz, é hoje a Rua do Padre Luís Cabral.

O padre Luis Gonzaga Cabral, nascido na Foz em 1866 e ordenado padre da Companhia de Jesus em 1897, depois de ter estudado filosofia em Espanha e teologia em França, tornar-se-ia professor no Colégio de Campolide (então dos jesuítas - hoje Campus da Universidade Nova de Lisboa) e seu reitor em 1903, numa altura em que a ordem fundada por Santo Inácio de Loyola era um dos alvos preferidos dos republicanos e da Carbonária. Exerceu essas funções precisamente quando um jovem aluno e o seu irmão mais novo, órfãos de mãe e deixados até então pelo pai em casa de tios de Lisboa depois da sua vinda de S. Tomé, ingressaram no colégio e lá permaneceram. O mais novo chamava-se António. O mais velho, que tomava conta do irmão, tinha como nome José Sobral de Almada Negreiros.

Como é sabido, Almada seria talvez o artista português mais genial e prolífico dos cem anos seguintes. E essa genialidade deu-se a descobrir em Campolide. Dotado para a escrita e para o desenho (mas também para o desporto, o que provavelmente lhe seria precioso para os anos vindouros de bailarino, e para a mecânica), com uma imaginação fértil e um espírito endiabrado, teve a felicidade de se encontrar numa instituição conhecida por apostar no talento dos seus instruendos. Reparando naquele imenso talento em bruto, os jesuítas e o seu director arranjaram-lhe um quarto/atelier para que pudesse desenvolver as suas pinturas e desenhos, permitindo-lhe aceder amiúde à biblioteca do colégio, chegando mesmo a dispensá-lo de aulas e de um conjunto de outras obrigações. A genialidade do jovem Almada Negreiros justificava-o. Certo dia, o director, presumivelmente Luís Cabral, apanhou-o em veloz corrida entre as salas do colégio e atirou-lhe a frase que se colaria a Almada a partir daí: "tenho 360 alunos e todos têm olhos na cara, porque é que só tu tens a cara nos olhos"? Resta saber se teria dito isto pelo talento impressionante do aluno ou pelos seus enormes olhos, a que era impossível ficar indiferente e que seriam sempre a sua imagem de marca, a par da sua assinatura.

Em 1910, com a implantação da república, os jesuítas seriam expulsos do país, não sem alguma dose de violência, e as suas instituições encerradas. Luís Cabral, que era então já Provincial da Companhia, teve de fugir apressadamente para Espanha, disfarçado de vendedor de máquinas de escrever. Ao contrário de outros não se instalou em La Guardia, mesmo em frente a Caminha, onde surgiria novo colégio dos jesuítas portugueses, mas seguiria para a Bélgica, onde continuou a dedicar-se  ao ensino, até à Grande Guerra o expulsar de novo, desta feita para o Brasil.


Em 1916 começou a leccionar no Colégio António Vieira, em Salvador da Bahia, do qual se tornaria director em 1930. Em solo baiano, destacar-se-ia na fundação de várias instituições culturais. Mas teria novo papel decisivo na formação de alguns alunos.

Em Jorge Amado, Uma Biografia, obra escrita pela jornalista baiana Josélia Aguiar sobre a vida do conhecido escritor brasileiro, editada em Portugal há poucos meses, menciona-se logo a influência que "padre Cabral" teve em Amado, que frequentava o colégio. Aos dez anos, «obedecendo a um pedido do padre Cabral, para quem toda a classe devia preparar uma descrição do mar, colocou no papel a memória da praia verde do Pontal, nos arredores de Ilhéus, aquela em que brincava com a filha do canoeiro. Ao trazer os deveres corrigidos, o professor anunciou com ares de solenidade para todos escutarem:´"este vai ser escritor"». Noutro depoimento do próprio Jorge Amado, sobre o mesmo episódio, lemos o seguinte: "minha vocação literária foi despertada pelas aulas desse jesuíta, aplaudido orador sacro, grande estrela do colégio. A sociedade baiana vinha em peso ouvir seu sermão dominical”. Contou que “em determinado dia, emsala de aula, o mestre deu como atividade a escrita de um texto sobre o mar. O menino Jorge, em vez de tratar, como a maior parte dos seus colegas, dos “mares nunca dantes navegados” de Camões, preferiu escrever sobre o mar de Ilhéus, cidade da região cacaueira onde morou e da qual sentia saudades. O Padre Cabral levou os deveres para corrigir em sua cela. Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela salade aula. Pediu que escutassem com atenção o que ia ler. Tinha certeza, afirmou, que o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido. Não regateou elogios".

Luís Gonzaga Cabral, o "padre Cabral", ficaria na Bahia o resto da sua vida, embora ainda tenha voltado a Portugal. Esteve sempre ligado ao ensino e à escrita e a tentar encontrar, como bom jesuíta que era, o melhor que os seus alunos tinham e o talento que poderiam desenvolver. É possível que outros se tenham destacado graças ao seu empenho. Do que não há dúvida é que tanto Almada Negreiros como Jorge Amado lhe deveram a descoberta das suas vocações e o empurrão necessário para se tornarem nos artistas que a cultura lusófona reconhece e celebra.


PS: outra coisa em comum nos dois artistas poderá ser a inspiração do alto Minho. Almada, como é sabido, casou com a vianense Sarah Affonso e passou férias e a lua de mel em Moledo, e Amado era visita da célebre pastelaria Manuel Natário, de viana do Castelo.

quarta-feira, abril 27, 2016

Um século sem Mário de Sá Carneiro



Parece que ontem fazia cem anos que Mário de Sá Carneiro morreu, ou antes dizendo, se matou com estricnina num quarto de hotel em Paris, com premeditação e assistência.


Vão longe os tempos em que a sua poesia me cativava (e que me levou mesmo a declamar alguns dos seus poemas em momentos infaustos), embora nunca tenha sido um ávido leitor do género, e que me levou também a explorar a sua prosa, esse romance inclassificável e irreal que é A Confissão de Lúcio
Mas ontem, vendo as efemérides, lembrei-me de novo de Sá Carneiro e da sua obra (e da sua contribuição para a revista Orfeu, onde também colaborou Amadeo de Souza Cardozo, que por coincidência tem vindo a ser muito falado por estes dias pela exposição da sua obra em Paris). Creio que por não ser, como disse, um grande seguidor de poesia, nunca tinha deixado nenhuma aqui no blogue. Em honra de Sá Carneiro, da sua obra genial e dos seus tormentos, fica aqui uma ode à inacção e à vontade de desistência que todos nós desejamos num ou noutro momento da vida.


Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.



quinta-feira, julho 03, 2014

Sophia no panteão

 
Sophia de Mello Breyner Andresen repousa no Panteão, depois de uma das mais pacíficas e unânimes escolhas da transladação de um vulto nacional para Santa Engrácia - relembre-se as discussões a propósito de Aquilino, ou da possibilidade de Eusébio ir para lá. É mais que justo. A Poeta nascida no Porto, que passou a maior parte da vida na Graça, em Lisboa, e que se inspirava no mar e nas praia, como a Granja e a Meia-Praia, no Algarve castiço pré-massificação, no Egeu e a herança helénica deixou-nos um legado precioso e único em todo o século XX. A ela devo-lhe, mais do que qualquer outra coisa, a descoberta da leitura, nas primeiras letras, naquelas obras infantis mágicas, inspiradas nos locais que tão bem conheceu, como as praias supracitadas e a quinta Andresen, onde nasceu, e que por milagre ou simples bom senso pode ser vista por todos na sua actual missão de Jardim Botânico - ainda há lá algumas árvores de A Floresta, e o Rapaz de Bronze também lá se mantém.
 
E talvez tenha sido essa mescla de vários portugais que a tornaram a Poeta e a autora que era. E daí a justa transladação e a correspondente cerimónia, solene e digna.  Pena mesmo o discurso do Presidente, o único que não se dirigiu à família, provavelmente ainda a remoer questões com Miguel Sousa Tavares; e também que a tenham posto junto de Aquilino, que não era pessoa que Sophia apreciasse particularmente. Como sempre, a falta de grandeza e de sensatez continuam a ser características indeléveis da "nossa" república.

terça-feira, março 11, 2014

Uma boa solução



A solução encontrada pela Câmara Municipal do Porto para recuperar a Feira do Livro é um excelente exemplo de como entidades públicas podem fazer incentivos à cultura sem ceder às habituais chantagens dos "agentes culturais" e dos oportunistas da subsidiodependência do ramo. No ano passado, Rui Rio não quis ceder às exigências da APEL (que pretendia um acordo por vários anos com 75 mil euros anuais de subsídio) e quebrou a corda, deixando a cidade sem a Feira pela primeira vez em 80 anos. Agora, os senhores da APEL voltaram a exigir as mesmíssimas condições (i.e. subsídios e contrato prolongado, para além de todas as facilidades logísticas) depois de acordarem verbalmente que não as receberiam. Resultado: a Feira do Livro do Porto não se realiza em Junho, na rotunda da Boavista (para onde estava planeado regressar), mas sim nos jardins do Palácio de Cristal, em inícios de Setembro, organizada pela própria CMP. Não se perde nada, apenas se espera um pouco mais, o local é muito mais agradável e com melhores condições do que entre o trânsito da rotunda, há o apoio precioso da biblioteca Almeida Garrett e nessa altura ainda é Verão. A APEL que pense duas vezes, para a próxima.

sábado, outubro 20, 2012

Manuel António Pina, 1943 - 2012



Manuel António Pina deixou-nos ontem. Os seus problemas de saúde eram conhecidos, mas estava longe de saber que eram tão graves. O poeta, escritor cronista, contador de histórias infantis que gostava de gatos e mantinha sempre a bonomia ganhou no ano passado o Prémio Camões, o mais importante galardão literário lusófono, com largo consenso. Ainda bem que não o adiaram, como acontece tantas vezes. Fizeram justiça a um homem talentoso e afável, beirão que há muitas décadas vivia no Porto, que vai fazer muita falta ao não só à cidade mas ao país, à cultura e à imprensa, que por estes dias tem andado tão por baixo. Assim fica imortalizado, e ao contrário do que profetizava, daqui a cem e mais anos continuará a ser lembrado. Esperemos.
 
 

terça-feira, outubro 16, 2012

Os noventa anos de Agustina


Já estamos a 16. Mas associo-me a vários blogues que não deixaram passar em branco o 15 de Outubro, dia em que Agustina Bessa-Luís completou 90 anos. Mesmo com a saúde bastante debilitada, a senhora de Amarante (hoje talvez mais do Porto, ali tão perto dos Caminhos do Romântico) é um dos grandes vultos da nossa literatura que ainda nos restam. As homenagens foram discretas, mas dignas, e contaram com o lançamento de alguns textos inéditos e de um círculo literário debruçado na sua obra. Será que os "agentes culturais" que tanto se manifestaram no sábado contra a "morte da cultura" se lembraram da data?

segunda-feira, maio 16, 2011

Alegre espanto

 




Devo dizer que recebi a notícia da atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina com certo espanto. E mais espantado fiquei quando soube que a decisão tinha sido tomada por unanimidade, e com curta duração na escolha. Talvez pela familiaridade que o autor me desperta, por julgar sempre que estes prémios vão para nomes consagradíssimos conhecidos no mundo inteiro, parecia-me complicado ser ele o galardoado.


Ou então por, algo alheio à poesia, não conhecer tão bem a sua obra poética como o seu talento de cronista. No tasco onde habitualmente tomo o café da manhã, pego muitas vezes no policial JN de propósito para ler as suas crónicas na coluna direita da última página, e raras vezes saio arrependido. Uma das últimas, aliás, sobre Marinho Pinto, é deliciosa no seu sarcasmo prudente com que mimoseia o Bastonário. Mas que a leitura de Pina não se fique por aqui e se estenda ao resto da sua obra - obrigação que eu próprio deveria seguir.


O que interessa é que o maior prémio literário de língua portuguesa fica com ele. Não sei a opinião da maior parte dos homens de letras (essa classe tão complicada e dada às invejazinhas de carreira) lusófonos, mas por mim fiquei radiante, depois do pasmo inicial, e se o encontrar aí pela Boavista, ou numa qualquer sessão da Feira do Livro, dou-lhe imediatamente os parabéns. É mais um prémio de grande vulto para uma figura da cultura portuense, depois do galardão de Eduardo Souto Moura, embora a maioria ignore e prefira dar relevo às diatribes do sr. Pinto da Costa e sus muchachos.


Um grande bem haja, Manuel António Pina.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

A vida imita a ficção (uma vez mais)



O caso do homicídio de Carlos Castro e todos os pormenores do sórdido caso fazem-me recordar este inquietante filme, adaptação do livro de Patricia Highsmith. Assemelha-se-lhe na amoralidade do autor do crime, na vontade de subir a todo o custo, na absoluta ausência de escrúpulos em busca da ascensão social ou de manutenção de um certo estilo de vida, nem que isso implique eliminar outrém.

É certo que também recorda um pouco a obra de baixo, no delírio de um aspirante a super-homem que mais tarde se redime. Mas para isso, seria necessário que o criminoso em questão expiasse os seus pecados, buscando a redenção. Mas até agora, nem ele nem os mais próximos parecem importar-se muito com isso.


Tempos inquietantes, estes. E tivesse as manias que tivesse, ou mesmo fosse o autor de um sem número de intrigazinhas sociais menores, Castro é uma vítima desta amoralidade vigente.

terça-feira, novembro 30, 2010

Notas catalãs


Não haja dúvida que a Catalunha passa por dias animados, neste gélido início de Inverno. No Domingo, a velha CiU voltou a ser maioritária no parlamento regional e ocupará por certo a Generalilat. A experiência da esquerda tripartida à frente do governo não correu muito bem, e o PSOE pagou por isso, com muitos a verem o fim de um ciclo e a prever o princípio do fim do governo de Zapatero. Pior ainda ficou a Esquerda Republicana Catalã, reduzida a menos de metade pelas tolices do inenarrável Carod Rovira, e que ainda se viu ultrapassada pelo PP. Mais atrás ainda ficaram os comunistas e umas franjas de independentistas. Será que os anarquistas da CNT votaram em alguém?



Um dia depois, o motivo de todas as conversas: os cinco golos sem resposta do Barcelona ao Real Madrid. Jamais Mourinho tinha encaixado uma derrota por estes números (embora o resultado não seja inédito: basta recuar a 1994 e aos tempos em que Romário fazia levantar o Camp Nou), com um jogo avassalador da cantera culé sem hipótese de reacção dos merengues e de Cristiano Ronaldo, como sempre muito desacompanhado. Barcelona conseguiu por uma vez vingar-se do "tradutor", mas por muito abatido que este estivesse, desconfio que ainda vai virar as contas e retribuír a gentileza no Santiago Bernabéu, onde presumivelmente já contará com Káká. É não conhecê-lo e à sua capacidade de emergir.


Fica uma nota de uma ironia curiosa: a fustigada dupla de centrais do Real era constituída por Pepe e (Ricardo) Carvalho, precisamente o nome do detective criado pelo mais conhecido escritor catalão de livros policiais, Manuel Vazquez-Montálban, que chegou até a fazer parte dos corpos sociais do FC Barcelona. Nos histórias, Carvallo queimava livros; no relvado, a dupla homónima queimou a própria equipa. Se Mourinho tivesse estado mais atento à literatura contemporânea catalã, talvez a coisa não lhe tivesse passado em claro.

sexta-feira, novembro 19, 2010

A terceira mais bela


A Livraria Lello foi considerada a terceira mais bela do Mundo pela Lonely Planet. Está longe de ser uma novidade, já quem em 2008 o Guardian deu-lhe o mesmo galardão, e a mesma posição. A diferença é que nessa votação era uma livraria holandesa, estabelecida numa antiga igreja, que estava em primeiro, e agora é uma americana, de S. Francisco. Em segundo permanece a de Buenos Aires, num antigo teatro (pelo que talvez a Lello seja a mais bela das construídas de raiz para a função).
Não é surpresa nenhuma, mas é um orgulho para o Porto e para Portugal. Agora só falta que a Lello se torne numa livraria realmente boa, e não apenas um alfarrabista onde também se compram livros novos, e que a disposição e organização também sejam aperfeiçoadas. Também teria a sua piada ver os livros transportados de novo naqueles carrinhos que circulavam nos carris de metal que ainda são visíveis entre o soalho do centenário estabelecimento.

Eis a Ateneo Grand Spirit, de Buenos Aires

E a nova campeã de beleza das livrarias, em S. Francisco. Pergunto-me quanto terão pago pela distinção, sabendo-se que destronaram a fantástica livraria que se vê em baixo, a Boekhandel Selexyz Dominicanen, de Maastricht.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Loucuras em livro
Depois de mais de um ano de cartas atrevidas e bem humoradas enviadas a todo o tipo de entidades (e respectivas respostas, das secas às delirantes), de boa-disposição e seguramente muitos nervos, Mário Dias, a.k.a. João Pinto Costa, vê agora as suas loucuras publicadas em livro. o Mail de um Louco passa ao papel, mas não deixa de estar online. E de todas as formas de humor, o nonsense é sempre um excelente antídoto contra os enfados e as micro-depressões quotidianas. Façam bom proveito.