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quarta-feira, setembro 02, 2020

Lugares verdadeiramente históricos

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Os lugares e monumentos, testemunhas do passado e da História, moldaram o povo que somos hoje.


Falo, como já certamente repararam, daquele casarão amarelo torrado à esquerda. Ali começou Jorge Mendes a sua carreira de agente futebolístico, quando, ao explorar a discoteca Alfândega, conheceu o jovem guarda-redes Nuno Espírito Santo, que, entre investidas nos bares da Rua Direita e farto dos humores de Pimenta Machado, queria mudar de ares. Mendes tratou de tudo, levou-o num processo turbulento de Guimarães para o Deportivo da Corunha e mais tarde para o Porto, e ainda hoje Nuno, agora treinador do Wolverhampton, é representado por ele. Não fosse esse encontro e as carreiras de Cristiano Ronaldo, Mourinho, Di Maria, James Rodriguez e tantos outros seriam provavelmente diferentes.

Já agora, na casa em ruínas à esquerda, em baixo, nasceu o "Presidente-Rei" Sidónio Paes, uma das figuras mais marcantes da 1ª república. Deixou como legado à terra que o viu nascer um bolo de amêndoa e ovos que é altamente aconselhável.

Não interessa nada, mas a meio, entre a Rua Direita, a torre do relógio e a muralha em frente ao rio vemos a matriz de Caminha, do séc. XV, um dos mais belos edifícios religiosos em Portugal, com o seu exterior gótico e, dentro, um tecto de madeira em estilo mudéjar, com inúmeros motivos marinhos.

quinta-feira, agosto 30, 2018

Notas de um Verão a Norte - o regresso a Paredes de Coura.


Os jornalistas musicais portugueses costumam dividir a humanidade em dois grandes grupos: os que estiveram no concerto dos Arcade Fire no festival de Paredes de Coura de 2005 e os que não estiveram. Eu insiro-me numa terceira via: os que estiveram lá nesse mesmo dia e não viram os Arcade Fire.

Julgo que já aqui contei. Em 2005, por uma hora, dadas as recusas de última hora de dilectos amigos meus em seguir comigo, que já tinha bilhete, perdi o concerto dos estreantes Arcade Fire, que ao que asseguram os assistentes, ficou para a história como uma "epifania", o "espectáculo da década" que "catapultou o festival", etc. À época conhecia o grupo e já tinha ouvido algumas canções de Funeral, o álbum inicial, e ainda hoje Rebellion (Lies) continua a ser a minha faixa favorita dos canadianos. Mas como a minha ideia era ver os Pixies, precedidos dos Queens of the Stone Age, não liguei muito, mas ficou um travo de pena. Vi depois os Arcade Fire em Lisboa, num espectáculo memorável ao lado da ponte Vasco da Gama. Mas ainda havia uma lacuna por cicatrizar. Este sábado, finalmente, encontrei os canadianos em Paredes de Coura, treze anos depois de eles se terem ido embora antes de eu chegar. Com mais discografia em cima, e a entrega e a emoção de sempre. Talvez as expectativas que estavam muito lá em cima ficassem ligeiramente goradas, até por não ser a primeira vez que os via. E o último álbum, em destaque, é o mal amado da discografia dos Arcade. Mas começaram logo com ele, com uma bem disposta Everything Now (o vídeo atrás traduzia como "tudo agora"), seguida dos hinos do costume - Rebbelion, pois claro, e ainda faixas de Neon Bible, The Suburbs e Reflektor, tudo a acabar num muito celebrado Wake Up, com a plateia literalmente iluminada. No dia com mais público de sempre do festival, os Arcade Fire regressaram a terras do Alto Minho. 2005 está enfim vingado.
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quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Os Arcade Fire regressam ao local onde muitos foram felizes


Em 2005, por culpa de uns amigos que à última não quiseram ir, cheguei depois da hora prevista a Paredes de Coura e perdi o já mítico concerto dos Arcade Fire na sua estreia em Portugal, embora tenha visto os Pixies, afinal o meu grande objectivo, e ainda os Queens of Stone Age. (vejam só o luxo do cartaz). Vinguei-me poucos anos depois, quando vi os canadianos no SuperBock SuperRock, num relvado ao lado da Ponte Vasco da Gama. Mas ficou-me sempre um amargo de boca pelo concerto ao pôr do sol perdido.
Este ano os Arcade Fire regressam ao local onde muitos foram felizes por causa deles, substituindo Bjork (claramente ganha-se com a troca). Valerá a pena tentar vê-los de novo?




domingo, setembro 04, 2016

Memórias de um Agosto que passou

 
Moledo - faina do sargaço, 2016

Agosto acabou. A muito custo, há que passar à nova época e deixar os lugares sinónimos. Desde que me conheço que a imagem de Agosto é coada pelo Alto Minho. E no meu dia de anos é ali que devo estar, que me sinto em paz e onde o mundo inteiro se concentra. É verdade que já por muitas vezes pensei em viajar nesse dia, e que certamente o farei no futuro, mas por norma é ali que estou em casa, entre os meus. Não nasci aqui, mas quase. Salvo qualquer excepção, os meus anos serão em princípio sempre ali.

Como já não tenho 18 anos, fica sempre a sensação de que algo ficou por fazer. não é de espantar, porque as férias servem para preguiçar e para o dolce fare niente. Este ano, ao contrário do que reza o mito, o tempo foi condescendente, tanto que o Alto Minho se viu assolado por incêndios (eu próprio vi alguns entre os Arcos e Cerveira). A praia esteve convidativa, mas para além disso o tempo dividia-se entre as comemorações dos 50 anos da morte de António Pedro, as festas de Caminha, Viana e Ponte da Barca, que nunca perdem o encanto, e outras festas mais mundanas, os bares de Caminha e a redescoberta da velha Alfândega, os jantares com amigos em novas descobertas gastronómicas - o que não falta são restaurantes, inclusive do outro lado do rio Minho - passeios mais para o interior (finalmente conheci Sistelo e a Brejoeira), os cafés em Caminha, etc. Não houve oportunidade de voltar à Ínsua nem de arranjar uma bicicleta, nem quase de ir a Espanha, mas há sempre coisas que faltam, e por isso não há razão para queixas.

Entre as poucas coisas que tive pena de perder (em parte por uma alternativa, em parte por decisões de última hora) conta-se o festival de Vilar de Mouros. Não que fosse uma estreia - passei por lá duas vezes, com gratas memórias, além de que o local, à beira-Coura, vale bem um passeio - mas tinha alguma curiosidade em ver preciosas relíquias dos anos 80, em especial Peter Murphy, os OMD, os Happy Mondays ou Peter Hook (o que resta dos Joy Division, e tendo em conta que estes dois últimos actuaram na mesma noite, bem se podia dizer que os objectos do filme 24 Hours Party People se reuniram numa pequena freguesia do Minho), com a energia dos inclassificáveis Blasted Mechanism e a melancolia dos Tindersticks e o rock tuaregue de Bombino pelo meio. Outros planos, igualmente agradáveis se interpuseram pelo meio. Mas já depois do festival, soube que Peter Murphy, um dos pais do rock gótico, a cara dos Bauhaus (a banda, não a escola de arquitectura) e senhor de uma imagem e de uma voz poderosas e icónicas, andava a ensaiar no teatro Valadares, a renovada sala de espectáculos de Caminha, ali entre a matriz, a Alfândega e a movida da Rua Direita, em cujos bares me lembro aliás de ouvir algumas das suas músicas. E segundo conta, a apreciar a gastronomia local. Pena que não tenha visto o semi-mito a andar pela Rua Direita ou pela praça do chafariz, a experimentar um sidónio ou um cabrito à Serra d´Arga (apesar de saber que é muçulmano sufi, influência da sua estadia na Turquia). Provavelmente um criador do estilo gótico gostaria de saber que ao lado do local de ensaios existe uma ruela chamada Rua do Lobisomem. Noutros tempos, quem sabe, poderia servir de inspiração para uma canção. Paciência. Mas vou pensar que tenha acabado por saber de uma outra forma.
 
Sem a magia de Agosto, Setembro também é um mês que merece ser bem aproveitado.
 

domingo, julho 19, 2015

Elefantes a banhar-se no "rio do esquecimento"


A imagem dos elefantes a banhar-se pachorrentamente no rio Lima, como se fosse no Ganges, diverte pelo sei ineditismo. O que à partida parece ser uma montagem é afinal bem real, graças aos tratadores do circo Cardinalli que por estes dias anda por Ponte de Lima. E junta-se assim a mais antiga vila portuguesa, com os seus solares, o seu vinho verde e a sua ponte secular, ao animal que representa a Índia que por tantos séculos esteve tão ligada a Portugal (sem esquecer que muitos representantes da espécie desembarcaram no Porto de Lisboa).
Não deixa de ser curioso pensar que os elefantes são também conhecidos pela sua enorme memória. Lobo Antunes lembrou-se desta característica para baptizar o seu primeiro romance, e há um conhecido anúncio na televisão a um comprimido para a memória que usa igualmente os paquidermes como exemplo. Ora o Lima era conhecido como Letes pelos romanos, que o associavam ao mítico rio do esquecimento com o mesmo nome. A lenda é conhecida, e a travessia de Décimo Júnio Bruto ajudou a que se desvanecesse o medo de que quem atravessasse aquele curso de água em plena Gallaecia esquecer-se-ia de tudo. Ninguém perde a memória por atravessar o rio Lima, mas caso subsistisse o mito, nada melhor do que elefantes e a sua memória para o fazer cair.




(Fotografias de José Costa Lima)

quarta-feira, abril 08, 2015

A Páscoa nas margens do Homem




Continuando com o assunto do post anterior, lembremo-nos que a Páscoa ainda agora começou. Ao folhear o suplemento dominical do Público, deparo-me com as fotografias de Alfredo Cunha cobrindo várias manifestações pascais no Minho, em especial a procissão de barcas pelo rio Homem abaixo (além de outras, como as procissões da Sexta-Feira Santa em Braga), na segunda-feira de Páscoa, lembrando um tempo em que as pontes eram longínquas. Tenho algumas raízes exactamente nessa região (e cheguei a ir lá num Domingo de Páscoa, mas por motivos funéreos) e nunca tinha ouvido falar de semelhante manifestação fluvial. Mas apenas vem demonstrar quão variadas e ricas podem ser as celebrações pascais. Lembro-me, quando tinha os meus dez anos, de ir passar a pascoela à casa dos meus tios-avós, aí perto, a poucos metros do Homem, na zona de Vila Verde. Era nesse Domingo, e não no de Páscoa, que se recebia o compasso, seguido de banda de música. Na minha memória ficou-me a admiração de saber então que o compasso só passava uma semana depois da Páscoa (e imaginava o pequeno grupo carregando a cruz, por todas aquelas freguesias, dia e noite, sem parar).
Outras formas de celebrar a Páscoa em terras de entre Homem e Cávado. Muitas e variadas. E o que é fantástico é que ainda hoje me conseguem surpreender e comover.
 
 

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Pela Serra amarela, em Dezembro



Levantar quase de madrugada, ainda escuro, num domingo de Dezembro, sem quaisquer obrigações de maior, pode parecer bizarro, mas justifica-se se for para uma volta por regiões portuguesas tão longínquas como apelativas. Se for no Gerês, mais ainda. Há muito por onde escolher. A Serra Amarela, ali entre a Serra do Soajo e a da Peneda, a Norte, o vale do Lima, a Oeste, e a barragem de Vilarinho da Furna, a Sul, é uma das muitas alternativas. E não é por ser no Inverno que é menos atractiva, mesmo sem neve.








quarta-feira, setembro 17, 2014

São João d´Arga








Já ouvia falar há muito tempo, tinham-me dito que era das mais genuínas e tradicionais festividades do Minho, sabia de  documentários feitos de propósito e só não consegui ir antes por manifesta impossibilidade.


No meio da serra e das aldeias que lhe dão o nome (e no entanto tão perto do mar), encravado lá em baixo entre os montes, num ermo, fica o Mosteiro de São João de Arga. Todos os anos, a 28 e 29 de Agosto, vindos de inúmeros pontos da região, afluem lá milhares de pessoas numa romaria concorridíssima, a pé, de mota ou de automóvel (que por causa da estreiteza das estradas podem ficar encravados em plena via). Os estradões que descem para o mosteiro, desertos durante o resto do ano, transformam-se numa feira, onde se vende desde roupas até as habituais farturas, cachorros, bifanas, etc. E na noite de 28 para 29, o recinto do mosteiro enche-se de bandas de música, desgarradas, rusgas, tocadores de concertinas e castanholas e rodas de danças minhotas.



Os "quartéis" laterais à capela, que em tempos acolheram peregrinos e permitiram acções tendentes à "fertilidade", transformam-se em tascas onde se vendem, além da inevitável cerveja, especialidades da região, em especial o hidromel, aquela mesma bebida alcoólica tão popular nas terras nórdicas durante a Idade Média. Acompanha com porco no espeto e o afamado cabrito à Serra d ´Arga, que se assam fora do recinto, além dos mais corriqueiros cachorros e bifanas. E lá dentro, as concertinas, as danças e as voltas à capela, para cumprir promessas, o que implica uma esmola ao santo e outra ao diabo. O sagrado mistura-se com o profano, mas só aí até às 4 da manhã, altura em que se deixam os peregrinos descansar - já não nos quarteis, mas em tendas - e se prepara tudo para a procissão do dia seguinte. E às nove da manhã lá parte o cortejo, em que os participantes desfilam com trajes da região. A festa profana prossegue de tarde, com menos animação, já a caminhar para o fim. Antes que acabe tudo e o mosteiro de S. João de Arga volte à habitual tranquilidade, que salvo grupos de excursionistas, só voltará a ser quebrada no próximo ano, nas mesmas datas. 

sábado, agosto 23, 2014

Que não nos falte nada


Festas de Viana, festas de Ponte da Barca, festival de Paredes de Coura, festas das revistas "cor de rosa", festas privadas...o Alto Minho parece estar numa enorme festa colectiva, este fim de semana. E no entanto, entre a nortada e as estradas que atravessam pinhais e campos de milho, é possível escapar-lhes e gozar de luz e o silêncio, dois bens preciosos nesta vida. Para quem quiser, ou mesmo apenas por algum tempo, antes de se voltar á música (de preferência de concertinas), às danças e ao convívio. Há de tudo, nesta terra.

quinta-feira, julho 31, 2014

O decano dos festivais voltou (e as respectivas vaquinhas também)


Vilar de de Mouros, o mítico festival nas margens do Coura, está de volta, depois de alguns anos de interrupção. Um cartaz morno, com grupos por demais conhecidos e até repetentes (por exemplo, os Stranglers, que actuaram no auge da popularidade em 1982, ao lado dos U2, estão de regresso), mas é sempre bom ver regressar eventos míticos como este. Para quem não se lembrar, é o mais antigo festival do género em Portugal, nascido em 1972 como o "Woodstock português", com Elton John e a banda da GNR a tocar lado a lado. Actualmente o país regurgita festivais pop-rock, em todos os distritos e com todos os patrocínios (é a crise, dizem), mas no tempo de Marcelo Caetano era uma autêntica bomba que caía na aldeiazinha do Alto Minho, entre azenhas e campos de milho. Voltou em 1982 e em 1996, para se tornar anual, até definhar e parar há uns anos. Também por lá passei na edição de 1996, que encerrou com os Madredeus, e em 2004, ano em que um prodigioso cartaz trouxe ao Minho Bob Dylan, The Cure, Peter Gabriel e P.J. Harvey. Depois, Paredes de Coura ganhou a dianteira no campeonato de festivais de rock nas margens do rio Coura.

Mas há coisas que nunca acabam, felizmente, e Vilar de Mouros parece ser uma delas. Outra é o símbolo do festival, a famosa vaca malhada. Hoje descobri a razão: um casal da terra, já com certa idade, que há décadas leva as vacas a pastar todos os dias, com ou sem festival, e que para isso tem de atravessar a ponte românica sobre o Coura. A imagem dos ruminantes a cruzar a ponte atraiu a atenção de inúmeros fotógrafos, que desde 1996 fizeram delas o ex-líbris do evento (com anuência do casal, que ainda hoje na TV dizia sentir certo orgulho). Há inúmeras variações das vacas, de várias formas e feitios, e a sua evolução pode ser vista no After Eight, talvez o mais antigo (e seguramente o mais sossegado) bar da Rua Direita de Caminha, decorado com cartazes de todas as edições do festival sobre paredes brancas. Mas nenhum chegou à engraçadíssima rês deste ano: uma vaca rocker, com cabedal, piercings e tudo. Vilar de Mouros forever!


domingo, agosto 25, 2013

Imagens dos dias que correm


 



Os dias correm quase literalmente, levados pela furiosa nortada que sopra aqui pelo litoral do Minho. Por um lado é bom, porque revigora as mazelas resultantes das festividades populares que aqui há quase diariamente, de Caminha a Ponte da Barca. Por outro, levam tudo pelo ar, proíbem oficiosamente a entrada na praia e fazem-nos dar voltas à cabeça sobre como ocupar o tempo (alternativas não faltam, falta é decisão a tempo e horas). Agora que cheguei aos 35, a antiga "meia-idade", devia começar a organizar mentalmente melhor o meu tempo, de forma a perdê-lo menos, coisa que faço com mestria. Por estes dias, entre praias, nortadas, viras e gastronomia local, também se perdem muitas horas a olhar para ontem. Mas afinal de contas, as férias são isso mesmo. E pelo meio vou encontrando coisas novas nestas terras que conheço desde sempre, como trechos do Caminho Português da Costa -  de Santiago - que passam entre o mar e as floresta e nos quais nunca tinha reparado. Vendo bem, os dias que correm não são tempo nada mal gasto.


 

quinta-feira, agosto 23, 2012

Fanáticos do nosso tempo


Na semana passada registaram-se duas situações paradigmáticas do maior grupo de fanáticos da nossa era. Num apartamento do Porto, um cão mordeu e matou uma criança de ano e meio. Imediatamente, a Associação animal veio queixar-se de que "diabolizavam animais sem culpa nenhuma" e que "o caso acabaria com a morte de dois inocentes" (a criança e o cão). Para quem tanto se bate pelos direitos dos animais, a desculpabilização ultrapassa o absurdo: os cães têm direitos, mas quando têm comportamentos agressivos a culpa cabe apenas e só aos donos, sendo que os animais são "inocentes". São sujeitos de direitos mas totalmente inimputáveis. Reparem como há aqui mais lamentos pela sorte do cão do que da criança.

Neste fim de semana, nas Festas da Senhora da Agonia, voltaram as corridas de Touros a Viana do Castelo, numa arena amovível montada nos campos da Areosa. As opiniões dividiram-se violentamente: os aficionados da Festa Brava aplaudiram ruidosamente, os adversários protestaram e convocaram várias manifestações de desagrado, encabeçados pela dita associação Animal e por Defensor Moura, ex-presidente da câmara de Viana e, como todos se lembrarão, ex-candidato à presidência da república não se sabe bem porquê. Como se sabe, Defensor conseguiu aprovar, em 2009, em reunião camarária, um regulamento que tornava Viana do Castelo em "município anti-touradas". Sempre achei esta regra bastante descabida, porque não só contrariava as leis nacionais como transpunha as convicções pessoais de um autarca para todo um município, proibindo uma tradição antiga em Viana e obrigando os seus habitantes a declarar-se anti-touradas. Precisamente por isto é que a associação PróToiro obteve o deferimento de uma providência cautelar, suspendendo tal deliberação camarária e permitindo a realização da corrida.
 
No Domingo, entre ameaças, manifs, urros e insultos, a corrida teve mesmo lugar. Contou com perto de 2500 assistentes. Cá fora, 300 manifestantes gritavam contra. A comunicação social (a que eu vi, ao menos), noticiou o evento de forma bastante parcial. A RTP, televisão pública, apresentou uma peça mostrando que "os vianenses estavam contra a corrida" (entrevistou apenas cinco). Os jornais mostravam apenas os manifestantes anti-tourada, e as opiniões dos editores iam no sentido de que a proibição de um "espectáculo bárbaro" tinha toda a razão de ser.
 
Não sou propriamente aficcionado nem nunca assisti a uma tourada, mas estando bastante próximo de Viana, tive ganas de ir a esta (só não fui porque o excelente dia de praia me impediu). Não vejo qualquer ilicitude nestes espectáculos. Ninguém estima e conhece bem os touros do que quem com eles lida, ao contrário de muitos auto-denominados "amigos dos animais". É um espectáculo com o seu quê de primitivismo e violência, mas demonstrativo de coragem, do simbolismo do confronto entre um homem e um animal, e que tanto inspirou inúmeros artistas  ao longo dos séculos. Há quem seja grande apreciador e quem abomine. Ninguém é obrigado a ver, da mesma forma que ninguém deve ser obrigado a não ver. Por isso, acho que qualquer regra que declare parte do território nacional como "anti-touradas" é abusiva e totalitária.

Sobre a tal Associação Animal, vejam-se os perfis dos seus dirigentes mais visíveis: são vegans, e como tal, acham que «é inconcebível partilhar casa com um carnívoro, quanto mais namorar ou casar(...) É nojenta a ideia de beijar alguém que esteve a degustar alegremente um animal morto. Seria pactuar com algo altamente imoral». Cada vez mais acho que os defensores mais radicais dos direitos dos animais são os grandes fanáticos do nosso tempo. Já chegaram a matar (lembram-se de Pim Fortuyn e do seu assassino?), mas por aqui limitam-se às ameaças cada vez que há um espectáculo taurino. Tratar bem os animais? Sem dúvida. O problema é quando há uns extremistas que querem fazer a "equiparação da espécie", quais Calígulas e o seu cavalo-senador. Adolf Hitler, aliás, também encaixava nos pressupostos. É bom que se dê alguma atenção a estes indivíduos, e já agora, que se pergunte o que fariam aos animais carnívoros. Obrigá-los-iam a comer vegetais?
 

quinta-feira, agosto 09, 2012

Memórias vagas de um "sequestro"


A semana passada parecia uma página de necrologia, com as mortes de Gore Vidal, da actriz Carla Lupi ou de Eurico de Melo, entre outros. Sobre este último, histórico do PSD e antigo ministro todo-poderoso do cavaquismo outrora conhecido como "vice-rei do Norte", muito se disse. Mas houve uma história rocambolesca de que me lembro de ouvir falar na altura, ainda era pequeno, e que ninguém referiu, nem consegui encontrar registos na net. Aí por volta de 1988, um caso obscuro levou a que o FC Famalicão, acabado de subir à 1ª divisão de futebol, voltasse de imediato à Segunda. Beneficiou o FC Fafe, que se estreou entre os "grandes". Por causa disso, e numa visita da época a Famalicão, Eurico de Melo e o jovem delfim Marques Mendes ficaram retidos, quase sequestrados, por uma turba furiosa, durante umas boas horas. Tudo por razões futebolísticas. Alguém se lembra disso ou não há registos possíveis?

domingo, janeiro 22, 2012

Guimarães é enfim capital



Guimarães está de parabéns. É finalmente Capital Europeia da Cultura e brindou os presentes com um belo espectáculo de abertura. Pelo ano fora haverá uma extensa agenda de eventos à escolha do freguês. Se na hipótese improvável nenhum agradar a quem visitar o velho burgo, o centro histórico da cidade (distinguido pelo UNESCO, não esquecer) e zonas vizinhas são razão mais do que suficiente para justificar a deslocação.


Claro que a preparação da Capital Europeia da Cultura não ficou isenta de polémicas, discussões e pequenos choques de egos (ainda assim numa dimensão muito mais pequena que a do Porto 2001, e presumo que a de Lisboa 1994 também). É impossível evitá-lo. Mas numa região (entre Cávado e Ave) há muito economicamente deprimida pela crise da indústria têxtil, mas com enorme património histórico, e num ano bastante difícil, pode vir a ser muito importante para alguma reabilitação da economia regional, juntando a isso o facto de Braga também ser Capital Europeia da Juventude deste ano, mostrando que a rivalidade entre as duas cidades está presente em todas as dimensões. Além disso, nada como alguma festa e distracção para desanuviar as mentes dos tempos mais sombrios que atravessamos.


O facto de uma cidade média do nosso país ostentar essa distinção europeia deve ser motivo para orgulho nacional. Pena é que a generalidade dos blogues, ao menos pela rápida revista que tenho feito, se tenha alheado quase por completo do acontecimento. O provincianismo endémico de pretensas elites é algo a que já nos habituámos. E também os canais privados, que preferiram abrir os seus noticiários com uma refrega entre grupos de extremistas de esquerda e direita em Lisboa. Mais um bom exemplo para justificar a existência de um serviço público de televisão, nem que se resuma a um canal.

sábado, agosto 20, 2011

Let´s all meet up at the year 2011




Em meados dos anos noventa, a Britpop tomou o Mundo (ou melhor, o Reino unido, mas os autóctones confundem as duas coisas) de assalto. Entre a working class dos Oasis e a upper-middle-class do Blur, formou-se uma terceira via - numa altura em que o conceito era muito popular e levaria Blair ao poder - constituído pelos Pulp, que representavam a middle class. Embora mais antigos que os outros, os Pulp, liderados pelo desengonçado Jarvis Cocker, pouca visibilidade tinham no panorama musical, até 1994, e sobretudo, 1995/96, quando chegaram ao primeiro lugar dos tops britânicos com o seu Different Class. Desilusões amorosas de juventude, fantasias impossíveis de concretizar e aspirações de classe média, inseridas em hinos pop e seus telediscos retro como Common People e Disco 2000 (provavelmente uma das melhores canções pop de sempre) deram-lhes popularidade e fama naquela onda musical que varreu o Reino Unido. Pelo meio, Jarvis cocker aproveitou para deixar Michael Jackson malvisto em público. Depois, This is Hardcore, um álbum mais difícil, mas digno de ser descoberto (o tema título tem também um excelente videoclip e poderia ser uma banda sonora de um film noir) arrefeceu um pouco a ascensão comercial. Entrou o novo século como We Love Life, e pouco tempo depois a banda separou-se, tendo Cocker iniciado uma carreira a solo.


Mas estamos em época de reuniões de antigos grupos e de regressos esperados. Por isso, também os Pulp voltaram ao terreno este ano e mostraram-se ao público. Felizmente, quiseram fazê-lo também em Portugal, para mais em Agosto e em Paredes de Coura, não longe de onde me encontro habitualmente nesta altura. Reapareceram assim em todo o seu esplendor, no palco ao fundo do anfiteatro natural que desce até ao rio Coura (essa massa fluvial que inspira festivais de Verão, como o sabem os veteranos de Vilar de Mouros), entre algum psicadelismo luminoso e mensagens de boas-vindas. Jarvis Cocker tem mais cabelo e barba, mas agora não tira os óculos de massa por nada e conserva os mesmos gestos de dança de uma sensualidade desengonçada de desenho animado. As músicas que lhes conhecíamos desfiaram pela noite fora - é emocionante ouvir os primeiros riffs de Disco 2000 ao vivo. E quem se deu ao trabalho de ir ao Alto Minho interior não deu o tempo por perdido. O bom gosto acabar sempre por imperar. Long Life aos Pulp!

domingo, outubro 10, 2010

Um cinco de Outubro em Guimarães

A proclamação de lealdade a D. Duarte, em Guimarães, no dia em que se (deveria) comemora(r) o Tratado de Zamora, em em que as entidades oficiais, mais do que o povo, celebra o "5 de Outubro" de 1910, foi talvez o acto mais marcante dos movimentos monárquicos desde a homenagem às vítimas do Regicídio, em 2008.

(Fotos recolhidas da Guimarães TV)

Fiquei um pouco temeroso à chegada ao Paço dos Duques de Bragança, porque quase só via turistas, até encontrar os primeiros traços do evento e perceber que estavam todos no pátio e salas daquele edifício construído pelo filho de D. João I e fundador da Casa que viria a reinar em Portugal. Não consegui quase ouvir as palavras de D. Duarte, com toda aquela gente, mas acompanhei a marcha que precedeu o momento mais solene. Nela seguia um pouco de tudo: pessoas mais vestidas a rigor, com os seus melhores trajes (alguns com o habitual "bigode retorcido" à finais de oitocentos), outros com um estilo mais fashion, outros ainda de t-shirt com as armas reais; a bandeira azul e branca do liberalismo e as da Restauração; anciãos, jovens, crianças, gente com ar mais institucional ou mais "activista": em suma, para ouvir as palavras do Duque de Bragança estavam pessoas de todo o tipo e de várias zonas do país.


Há já vários anos que não ia a Guimarães (coisa indesculpável para quem vive a apenas cinquenta quilómetros), mas tencionava lá ir antes de 2012, quando a Cidade-Berço for Capital Europeia da Cultura. Surgiu a oportunidade no melhor dia possível. E reconheça-se que é a urbe ideal para uma manifestação monárquica. Todo o enquadramento do centro histórico ajuda, com as suas apertadas ruelas de traço medieval, as casas brasonadas, o granito a espreitar sempre. Os nomes e decoração de alguns bares e restaurantes também ("El-Rei", "Cara e Coroa", etc). Mas a quantidade de bandeiras de D. Afonso Henriques em janelas e varandas espanta; nalguns casos, via-se a bandeira com a cruz de Santiago. As tabuletas com os nomes de alguns estabelecimentos comerciais pareciam estar ali de propósito, com inúmeras alusões aos reis, às armas, etc. E ao espanto inicial dos transeuntes que vinham à janela ver que marcha era aquela começaram a chegar as primeiras palmas e "vivas".

O cortejo continuou até ao largo da Oliveira, onde se ergue o Padrão do Salado, mandado construir por D. Afonso IV para recordar a vitória que lhe deu o cognome de O Bravo, e a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, obra do tempo de D. João I, em agradecimento à vitória de Aljubarrota. Mas naquele espaço, dos mais característicos da cidade, também existe, numa das esquinas o edifício dos antigos paços do concelho, e sob a suas arcadas, que dão para a Praça de Santiago, havia uma mini-exposição da república organizada pelo PCP local. Como os bolcheviques normalmente só apreciam "monarquias" do jaez da Coreia do Norte, uma meia dúzia de camaradas desatou aos berros, dando vivas à república ou contra as "provocações". A marcha acabou aí, com uma evocação à Senhora da Oliveira, e talvez tenha sido a altura ideal, por causa de algumas discussões que se levantaram entre os "provocadores" e os "provocados". Naquele momento, mais uma vez se revelava a tolerância tão democrática dos defensores de 1910, e mais ainda, dos vencidos de 1975. Uma tresloucada fazia exclamações vitoriosas sobre o Regicídio, e um indivíduo com ar de quem trabalha em duvidosas actividades nocturnas inquiria sobre a "legalidade" da manifestação; claro que quando lhe perguntaram onde estava a legalidade das alterações ocorridas em 1910, respondeu com tíbias referências ao "povo".


Acabada a marcha e as histerias que nem por isso a estragaram, andei um pouco por aquela cidade que tanto diz a Portugal. A região tem sido das mais afectadas pelo declínio da indústria portuguesa, há já largos anos, mas conserva a altivez das suas pedras e é prodigioso observar como está arranjada. Do Toural ao Castelo, passando pela alameda de S. Gualter, tudo está limpo e organizado, e por toda a parte se encontram plantas do centro histórico e informações sobre os monumentos relevantes. Antes de partir, ainda vi um traço da cerimónia protagonizada por D. Duarte: uma coroa de flores aos pés da estátua de D. Afonso Henriques. Para muitos vimaranenses, soube-o nesse dia, a nacionalidade nasceu com a batalha de S. Mamede, ali ao lado. Mas a verdade é que se não houvesse o reconhecimento por parte de Castela em Zamora, o país provavelmente não teria passado daí. Deve-o a esse tratado, firmado num longínquo 5 de Outubro.

quarta-feira, agosto 26, 2009

A igualdade segundo os "primeiro-republicanos"



Na exposição sobre Sidónio Pais que está aberta ao público em Caminha até Outubro, vê-se, entre documentos, objectos pessoais (como a célebre farda azul) e notícias e invocações várias ao "Presidente-Rei", um panfleto anónimo da época, fortemente anti-sidonista e pró-República Velha, que acusava Sidónio, entre outras coisas, de reabilitar e "trazer monárquicos para o poder" (ou seja, permitir que voltassem do exílio). Mas o que mais saltava à vista era a acusação de que a eleição por sufrágio universal do presidente, a primeira de sempre da república, era um truque para que "os caciques monárquicos da província manipulassem os seus eleitores" e chegassem ao poder através do presidente por si eleito. Por outras palavras, os eleitores em geral - e os da "província" em particular - eram uns tontos controlados pelas tais "elites monárquicas" e convinha que as mentes esclarecidas dos republicanos de Lisboa e Porto fossem zelosos e salvaguardassem a situação, elegendo, através da sua esmagadora maioria parlamentar escolhida num universo eleitoral conscensiosamente limitado, a figura decorativa e emproada que melhor lhes servisse no momento. Tudo em nome da suposta "república democrática" e da "liberdade e igualdade". Sidónio mudou as regras do jogo, e tal como seria de esperar, acabou varado pelos tiros na Estação do Rossio, forma usual dos republicanos radicais se livrarem de que lhes fazia frente.


Sem ser sidonista, coisa que hoje faz pouco sentido, mas como homenagem à alma do "Presidente-Rei", saí da exposição e fui comer um "sidónio", delicioso bolo de amêndoas e ovos que tem esse nome em memória do estadista nascido em Caminha.

domingo, junho 14, 2009

Tradições minhotas de Monção a Tarascon

Aproveitei os feriados para ir ao Alto-Minho. Entre as celebrações do Corpo de Deus e a festa do mar em Âncora, só tardiamente me apercebi que em Monção era dia da ancestral Festa da Coca.


Como em todas as tradições em que S. Jorge mata o dragão, o combate entre o Bem e o Mal dá-se entre um cavaleiro e um gigantone com rodas, empurrado por vários homens, cobertos com a "carapaça" da coca, em forma de dragão malévolo, com um pescoço que se move. Tem lugar no centro da vila, na praça DeulaDeu, que relembra a grande heroína de Monção. O cavaleiro tem de cortar a orelha à Coca e só desta forma é considerado vencedor. O problema é por vezes o próprio cavalo, que foge com medo da figura, provocando o riso geral e impossibilitando a façanha a "S. Jorge". Esta é a tal festa que perdi e que o meu pai chegou a assistir noutros tempos da sua infância, que passou por aquela vila debruçada sobre o Minho.



A representação da Coca lembra-me a Tarasque, o monstro lendário, de enormes dentes, forte carapaça e cauda de escorpião que atormentava a Provença, e que segundo a lenda, terá sido amansado por Santa Marta, que ali andava em evangelização. A cidade de Tarascon (também conhecida pelo célebre Tartarin de Tarascon, das novelas de aventuras de Alphonse Daudet) deveria o seu nome à Tarasque. Alguma ligação haverá entre esta tenebrosa criatura e a Coca, já que em algumas cidades de Espanha, nas procissões do Corpo de Deus, surgem figuras simbolizando a Tarasca. Mais ainda: Monção está geminada com Tarascon-sur-Ariége, que fica já perto dos Pirinéus mas cujo nome não deverá ser alheio à origem do da Tarascon da Provença. Mais indícios que indicam que entre a Tarasque e a Coca haverá um qualquer parentesco. E que há sempre um santo por perto capaz de os dominar.