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quarta-feira, setembro 28, 2016

Totti aos 40


Um dia destes, quando me decidir a dar uma arrumação séria na minha infindável tralha, hei de encontrar o autógrafo que Francesco Totti me deu há uns 15 anos, depois de uma inglória recepção do Boavista à AS Roma (uma boa exibição, uma derrota pela margem mínima e a arbitragem menos caseira que me lembro de ver), sobranceiro como um semi-deus romano. Já na altura era o capitão e máxima referência daquele clube da Cidade Eterna, onde dera os primeiros toques como profissional aos 17 anos.


Agora chegou aos 40, sem nunca ter conhecido outra camisola, excepto a da Squadra Azzurra, com a qual aliás se sagrou campeão do Mundo. Continua a ser o capitão e a referência, ainda maior, da Roma e até DE Roma. Aos 40. E uma Cidade Eterna dificilmente arranjaria melhor personificação do que por um jogador que parece eterno.


quinta-feira, janeiro 15, 2015

Uma selfie no relvado



Há jogadores que parecem feitos de encomenda para o clube que representam, e mais ainda, para a cidade defendida por esse clube e para os seus símbolos. Francesco Totti joga na AS Roma há mais de vinte anos. Aí por 2000, altura em que os clubes da capital romperam brevemente o domínio nortenho do futebol italiano, a Roma veio jogar ao Bessa com o Boavista, também a atravessar uma época memorável. A squadra romana era fortíssima, e caiu alguma decepção sobre o público quando se soube que Batistuta, o inesquecível artilheiro argentino, então na Roma, falhava o jogo por lesão. Mesmo assim, os romanos ganharam (ajudados por uma das piores arbitragens que tenho visto, é certo) e seguiriam em frente na competição da UEFA. À saída, vi passar duas das principais figuras do clube: o todo-respeitado treinador Fabio Capello e o capitão e estrela da equipa Francesco Totti, a quem pedi um autógrafo, que me rabiscou quase sem me olhar, como um deus do Olimpo passeando entre vis mortais.

Passados estes anos todos, muitos jogadores despontaram nas arenas e delas desapareceram, vários clubes se sucederam na domínio da competição e as equipas italianas estão longe dos seus melhores anos, mas Totti, com quase 40, continua a ser o capitão e estrela indiscutível da "sua" Roma. Mesmo num país onde a longevidade dos jogadores e a fidelidade ao símbolo é normal, não deixa de impressionar. Totti teve a possibilidade de ir para outros clubes, como o Real Madrid, mas nunca abandonou a casa mãe, mesmo que isso lhe desse poucos títulos (embora também os tenha, e não são menores: pelo meio ganhou uma Bola de Ouro de melhor marcador da Europa e sagrou-se campeão do Mundo em 2006, com a selecção italiana). Identifica-se com a Roma e com Roma, com o seu histrionismo em jogo, o seu catolicismo e, porque não, a sua antiguidade.

Este fim de semana marcou os dois golos da equipa no sempre quente derby contra a rivalíssima Lazio, no Olímpico da capital, que acabou empatado. No momento de festejar um deles, comemorou com um dos actos mais universais da actualidade efémera: tirou uma selfie, que registou a sua pose gozona e a claque em fundo, que com toda a certeza, o aclamava. Gestos só permitidos à rara estirpe dos que, mais do que talentosos, são símbolos vivos do jogo e dos seus clubes




segunda-feira, dezembro 16, 2013

Peter O´Toole 1932 - 2013

 
 
 
Lawrence da Arábia morreu pela segunda vez (um jornal diário roubou-me a graça). Mas agora, a valer. É que Peter O´Toole conseguiu ser mais Lawrence da Arábia do que o próprio T.E. Lawrence. Mas embora só esse filme, que conseguiu tornar o deserto no outro grande protagonista, fosse suficiente para o elevar à condição de mito vivo do cinema, "El Aurens" teve uma carreira de respeito, na qual recebeu de Hollywood sete nomeações ao Óscar de Melhor Actor, mas não conseguiu ganhar nenhum, excepto um Óscar honorário. E talvez essa eterna negação tenha igualmente contribuído para fazer dele um autêntico mito. Este Dezembro começa a ser um mês de desaparecimento de lendas vivas...

quinta-feira, julho 26, 2012

Os méritos de Hermano Saraiva



O desaparecimento de José Hermano Saraiva foi dos acontecimentos mais comentados nos últimos dias. Como seria de esperar, de resto, tanto pela morte propriamente dita, já que por aparições recentes parecia extremamente doente e envelhecido, como pelos sentimentos que o seu falecimento despertou.

Era uma daquelas figuras que me habituei sempre a ver na televisão, em sucessivos programas de título inspirado. Havia quem não tivesse a melhor das impressões dele, do seu desempenho no cargo de Ministro da Educação ao tempo da crise académica de 1969, e os célebres "gorilas" da Situação. Mas Hermano Saraiva conseguiu livrar-se em boa parte dessa imagem graças ao mediatismo televisivo que adquiriu mais tarde. Foi o ministro de Salazar que, a par talvez de Adriano Moreira (que tinha fama de "liberal"), melhor acolhimento teve no actual regime. Caricaturável, acarinhado por pessoas como Herman José, com grande audiência e o seu muito peculiar estilo e forma de apresentar, a sua voz roufenha com assomos de gravidade, os gestos sincronizados, as frases marcantes (o inconfundível "...aqui, precisamente aqui..."), transmitia alguma bonomia, e apesar de ser até ao fim admirador confesso de Salazar, nunca se mostrou um homem amargurado ou derrotado. A sua obra mais conhecida é a "História Concisa de Portugal", que deve existir em cada estante ou pequena biblioteca por esse país fora. Não era exactamente um académico de imensa craveira e prestígio como tal, e nas suas dissertações criava amiúde algumas situações fictícias (como a dos comerciantes que na Idade média desciam o Guadiana até Vila Real de Santo António...que se fundou por vontade do Marquês de Pombal, ou a forma como Camões perdeu o olho, outro dos episódios que lhe mereceu algumas críticas). Mas teve o não pequeno mérito de contar a História de Portugal e das suas terras aos portugueses, fazendo com que muitos ficassem a saber mais sobre o seu país, ou pelo menos mais curiosos sobre isso. Percorreu Portugal de lés-a-lés, andou por vilas e aldeias, visitou castelos, igrejas, conventos, solares, museus, ruínas de todo o tipo. Deu a conhecer o país pela televisão e não só, sugeria mesmo propostas líricas, como levar os jovens portugueses pelo Mediterrâneo fora, para conhecer os vestígios da Grécia Antiga. Podia ser um pouco efabulador e criador de mitos; mas não será precisamente através da busca do que é fascinante, de conhecer as fábulas, de procurar no lendário e no mitológico, que se percebe e se descobre a História?

PS: de referir também o desaparecimento de Helena Cidade Moura, responsável pela edição da obra de Eça tal como a maior parte a conhece hoje, pelas extensas campanhas de alfabetização pós-25 de Abril e antiga dirigente e deputada do MDP/CDE, e uma das promotoras da definitiva secessão daquele histórico movimento de esquerda fundado por católicos progressistas das coligações com o PCP. Aqui fica um excelente epitáfio.

terça-feira, junho 05, 2012

Alegrias futebolísticas


Acabada a época de futebol (de clubes), depois de enumerar as tristezas, e antes que o tal Euro na Ucrânia-Polónia comece, é justo referir as alegrias que a bola trouxe este ano. Não que as houvesse em grande quantidade, mas é justo recordar algumas coisas.

A mais mediática, e que me deu especial prazer, foi a vitória in extremis do Manchester City no campeonato inglês. Não que eu torça pelos "vizinhos barulhentos" azuis do United, até porque é daqueles clubes com fundos sem fundo, patrocinados por sheiks do petróleo, uma espécie que não faz nada bem ao desporto, pela forma como inflaciona os custos e é nociva para a concorrência. Mas gosto sempre quando há uma quebra de hegemonias - neste caso da equipa de Alex Fergusson - e quando equipas há muito afastadas dos títulos a eles regressam. Os citizens, equipa da maior parte dos habitantes de Manchester e dos irmãos Gallagher, depois do investimento brutal em jogadores nos últimos três anos, conseguiram chegar ao almejado título quando as coisas pareciam ir pelo cano abaixo. Estar a ganhar, em casa, depois sofrer o empate, passar a estar a perder, e nos minutos dos descontos, marcar o golo do empate e no último lance possível, o da vitória, que lhes dava o título maior, é coisa para deixar um estádio inteiro com sérios problemas cardíacos. Tanta emoção nem em 1989, quando ao minuto 89 Michael Thomas marcou o golo que dava ao Arsenal o título que não conseguiam há 18 anos, e no terreno do adversário directo, o Liverpool (o episódio ficou registado em Fever Pitch, de Nick Hornby ). Mas os segundos decisivos, cruéis mas intensos e felicíssimos, devolveram a alegria a um clube que dela estava precisado depois de anos a fio recebendo o desprezo dos vizinhos do United. Irónico que muitos terão festejado intensamente um golo de Aguero, genro de Maradona, que há vinte e tal anos se tornou provavelmente no homem mais odiado pelos ingleses.

Por falar em Maradona, outra das coisas a que achei piada foi a vitória do Nápoles na Copa Itália. O grande clube do sul de Itália não ganhava quaisquer títulos há mais de vinte anos. Aliás, desde a saída do Pibe passou por uma fase de decadência que o levou à segunda divisão e à bancarrota, conseguindo após alguns anos regressar à primeira, depois ás competições europeias (teve a honra de ser eliminado pelo Benfica num jogo memorável na Luz) e finalmente à Liga dos Campeões, onde se impôes este ano, e de onde acabou por ser eliminado algo surpreendentemente pelo Chelsea nos oitavos de final. O clube é agora presidido pelo produtor de cinema Aurelio de Laurentiis, sobrinho do mítico Dino de Laurentiis, goza de boa saúde desportiva e financeira e tem um enorme apoio popular. E conseguiu um feito: bater a Juventus, equipa que estava invicta em todas as competições e que este ano reconquistou o Scudetto, no último jogo possível (que marcou a despedida de Del Piero). com um temível ataque formado por Hamsik, Lavezzi e pelo extraordinário avançado-centro uruguaio Cavani, nem parece tão complicado. Mas era, e permitiu que o clube da decadente Nápoles e do sul empobrecido conseguisse ser o único a bater o mais titulado clube italiano, representante setentrional da indústria rica do Piemonte, propriedade dos Agnelli, quase mais francês que italiano. Diga-se no entanto que o regresso da Vecchia Signora de Turim aos títulos, depois de anos de abalo na penumbra por causa do Calciocaos, também é motivo de alegria para este blogue.



Outra motivo para festejar, embora tenha passado quase despercebido fora do seu país (com pequenas excepções): ao fim de trinta anos a vegetar nas divisões secundárias, o lendário Stade de Reims voltou à primeira divisão francesa. Quem conhecer minimamente a história do desporto-rei saberá que este clube, da capital de Champagne (uma cidade que nem é muito grande, à sombra da sua antiquíssima catedral), que dominou o futebol francês entre os anos quarenta e cinquenta, tinha  também uma das equipas mais fortes da Europa nessa época, competindo directamente com o todo-poderoso Real Madrid. Pensa-se até que a Taça dos Campeões europeus foi criada pelo jornal L ´ Equipe propositadamente para que o Reims ganhasse o troféu, que lhe daria a glória no Velho Continente. E a primeira final, em Paris, em 1955, quase que lhe deu a Taça, mas não conseguiu superar o Real Madrid, num fantástico jogo que acabou 4-3 para os merengues. Em 1959, nova final, mesmo adversário, e igual sorte. Entretanto tinha ganho uma Taça Latina, na Luz, frente ao Milan. Ostentava um futebol tecnicista, rendilhado, todo virado para o ataque, onde pontificavam Kopa e Just Fontaine, melhor marcador do Mundial de 1958, com 13 golos, um recorde que permanece imbatível. Depois da sua partida, assistiu-se a um delcínio abrupto e inexorável do clube, que caiu na bancarrota (teve de vender os troféus) e andou pelas divisões regionais, até começar a se recompôr. Esta época, enfim, ao fim de trinta anos, o histórico clube de Champagne regressa ao lugar onde devia estar há muito tempo, onde poderá defrontar Marselha, PSG e Saint-Etienne, que só alcançaram a glória depois de viverem na sombra do Reims.




quarta-feira, fevereiro 16, 2011

O adeus do fenómeno


Ronaldo, o Fenómeno, o Ronaldinho que encantou Eindhoven, Barcelona, Milão e Madrid, entre outras, o melhor marcador de sempre de fases finais de Mundiais, campeão de Selecções por duas vezes (em 1994 e 2002), anunciou ontem a despedida dos relvados. Um problema de tiróide, que o impedia de perder peso, obrigou à arrumação das chuteiras. As lesões graves que teve na carreira já o tinham remetido para segundo plano nos seus últimos anos. Curiosamente, ganhou quase tudo mas nunca logrou vencer uma Taça dos Campeões Europeus, chegando ou partindo sempre no ano errado. Para a memória fica um dos mais geniais jogadores de sempre, os seus arranques supersónicos, as suas fintas como quem dança samba, os problemas que teve no dia da final do Mundial de 1998 (onde acabou batido por outro gigante da bola, Zidane), as lágrimas quando sofreu uma grave lesão nos ligamentos, a euforia dos golos da final do Mundial asiático. E golos como este, que correram Mundo nos anos em que encantava o futebol espanhol, e que ficaram para a história do desporto.


domingo, julho 04, 2010

O mítico Uruguai revive


E a Celeste ganhou mesmo. Com lesionados e expulsos à mistura, com um estádio todo a puxar pelos adversário, ultrapassou o Gana, depois de estar à beira da eliminação no último minuto do prolongamento. Os seus jogadores voltaram a exibir uma resistência sobre humana às adversidades, que já não mostravam há muito, mas que os levou aos grandes momentos da sua história futebolística.

Também em 1950, na final do Campeonato do Mundo, num Maracanã a abarrotar de gente (o jogo com mais espectadores de sempre), apoiando furiosamente o Brasil, ao qual bastava o empate para se sagrar pela primeira vez campeão mundial, os uruguaios pareciam meros convidados formais, condenados a ser parte de uma mera formalidade a que toda aquela multidão tinha vindo assistir. Mas não era isso que estava escrito, e, comandados pelo capitão Obdúlio Varela, resistindo a um ambiente adverso e a um golo de avanço do Brasil, entraram mesmo na baliza à guarda de Barbosa, pelo grande avançado da equipa Juan Alberto Schiaffino, primeiro, e depois por Ghiggia, que deu a estocada final. O Brasil não mais conseguiu marcar e perdeu a final num silêncio sepulcral, ao passo que os uruguaios, por quem ninguém dava nada, levaram com eles a Taça. Houve suicídios, lágrimas e culpas para muitos, a começar no guarda-redes. Desde então, s selecção brasileira deixou a camisola branca e adoptou o amarelo, com a qual ainda hoje se veste.

O Uruguai ainda disputou as meias finais quatro anos depois, na Suíça, caindo perante a fabulosa Hungria de Puskas. Muitos dos seus jogadores foram depois jogar para Itália e passaram mesmo a jogar pela selecção transalpina, numa altura em que isso era possível, dado que muitos eram filhos de imigrantes italianos. Com isso, a Celeste perdeu a sua força anterior, começou a falhar Mundiais, e só em 1970 voltaria a umas meias finais. Conseguiu-o de novo agora, numa campanha épica e de muito sofrimento. É pouco provável que consiga ir mais além, com uma moralizada Holanda pela frente, e sem alguns elementos importantes, mas se conseguiram vencer o Brasil no Rio de Janeiro, quem é que pode assegurar que os sucessores de Schiaffino & Companhia não voltam a surpreender?

sexta-feira, julho 02, 2010

O Adamastor espanhol



Não passámos à fase seguinte, afinal. O adversário também não ajudava. Provou-se que a Espanha é realmente forte, e não o produto de um Campeonato Europeu ganho por mera felicidade. Esta selecção espanhola congrega uma grupo de jogadores que estão no auge das suas capacidades, e quererá mostrar isso aos habituais candidatos ao título mundial.
 

Cair nos oitavos de final perante a Espanha, com apenas um golo sofrido, e depois de se temer o pior na fase de grupos está longe de ser vergonhoso. O que me dá pena nem é a derrota em si, mas a absoluta incapacidade e falta de audácia para tentar dar a volta ao resultado. Portugal não só não atacou depois do golo de Villa como ainda podia ter sofrido mais. Valeu-nos um par de centrais competentes e com experiência, um lateral esquerdo irreverente e um guarda-redes gigante. Fosse a equipa constituída por 11 Eduardos e a história teria acabado de outra maneira.


A primeira razão do desaire é a Espanha ser uma equipa superior. A segunda, quase tão importante, é que Portugal não tem um técnico à altura do evento. Isso já se sabia, mas a passagem aos oitavos camuflou um pouco. Carlos Queiroz não tem autoridade nem consegue fazer alterações necessárias a meio de um jogo, sobretudo quando perde. Ficou provado (espero que definitivamente) que não é de maneira nenhuma um bom treinador principal. Desde a sua passagem pelo Real Madrid que se percebeu isso. A propósito, o treinador de Espanha, Vicente del Bosque, uma velha raposa do futebol, antecedeu-o como técnico dos Merengues, na complicada altura em que os Galácticos queriam sobressair. Ganhou dois campeonatos de Espanha, duas Ligas dos Campeões, uma supertaça europeia e uma Taça Intercontinental. Queiroz deixou a equipa em quarto lugar. Diferença pequena, não é?


Depois tivemos um Cristiano Ronaldo entre o abúlico e o desamparado. Pouco se viu, tirando o "golo de mochila" contra a Coreia e algumas bolas na barra. Fica como o craque desilusão do certame, ao lado de Rooney.


Por fim, há a razão do fado lusitano, desta vez bem personificado. O jogo realizou-se na Cidade do Cabo. No primeiro, o tal contra os norte-coreanos, Madaíl e Queiroz deixaram uma coroa de flores na estátua de Bartolomeu Dias. Uma acção de louvar, rara nestes meios. Mas imediatamente começaram as frases fáceis, como "vamos voltar a ganhar na Boa Esperança e dobrar o Cabo das Tormentas". Se se lembrassem da história, talvez não tivessem invocado o nome do Cabo em vão. Sim, fomos os primeiros europeus a arribar à zona, e Bartolomeu Dias ultrapassou o mítico obstáculo, abrindo o caminho para as Índias. Mas nunca haveria de lá chegar. Acompanhou Vasco da Gama na sua viagem até certo ponto, e em 1500, na expedição de Pedro Álvares Cabral, depois do desvio pelo Brasil, seguiu para Oriente. Ao passar o cabo, as tempestades afundaram quatro navios, entre os quais o de Dias, que pereceu ao largo do Cabo que tinha ultrapassado em primeiro, e que legaria o seu nome à história. As Tormentas com que o tinha baptizado foram-lhe fatais.

Também na nossa segunda passagem pelo Cabo, neste Mundial, acabamos por naufragar, e logo perante o velho adversário castelhano (bem guarnecido de catalães, é certo). A nossa carreira no Campeonato do Mundo teve um estranho paralelo com o destino de Bartolomeu Dias. Os Descobrimentos fazem parte da nossa História, mas o Adamastor pertence à nossa Mitologia, e agora apareceu com vestes castelhanas. Falta-nos é um Camões que reze esta nova e tímida gesta.

sábado, janeiro 16, 2010

Haiti: sobre a miséria, o apocalipse


Só na noite de quarta-feira é que soube da catástrofe haitiana. E só no dia seguinte é que pude ver as suas proporções. Mais do que uma catástrofe humanitária, viu-se o colapso de um estado, já de si pouco seguro e corroído pela sua instabilidade, violência e estranhas tradições.

Os sismos não raras vezes desencadeiam cataclismos imensos, como aqueles que assistimos normalmente na Ásia nos últimos anos (China, Paquistão, Irão, Malásia, etc), e deixam marcas profundas. Por aqui, o Sul do país também para sempre ficou marcado pela terramoto de 1755, do qual nos lembramos em momentos em que a terra se lembra de mexer um pouco, como aconteceu em Dezembro último, com uns abanõezinhos que puseram imensa gente a aderir a grupos no Facebook com nomes como "eu sobrevivi ao sismo de Dezembro", como se uma grande peripécia se tratasse.

Neste caso, à magnitude dos estragos junta-se a visibilidade de um país e suas estruturas de governação literalmente por terra. As ruínas do palácio presidencial e da catedral ilustram isso na perfeição. O que não sucederia aos frágeis bairros de lata ou às casas alcandoradas nas colinas de Port-au-Prince.


O Haiti é uma das terras mais estranhas e miseráveis do globo. Dividindo a ilha da Hispaniola, a segunda maior das Caraíbas, com a vizinha República Dominicana, este estado montanhoso, onde a população é negra ou mulata e fala francês e crioulo é o país mais pobre das Américas. Quando há uns anos, na faculdade, tive de fazer algumas pesquisas para a cadeira de Direito Internacional Público sobre as acções de peacekeeping em 1994, na altura da eleição de Jean-Bertrand Aristide, vi imagens da miséria profunda daquele povo: os bidonvilles com lixeiras à mistura, onde sobressai a enorme Citée du Soleil, onde por vezes se queimam pneus com homens presos lá dentro, as pessoas a tomar banho nos esgotos, as gaivotas penduradas no Porto, antes de servirem de refeição, etc.


A metade francófona da Hispaniola tem um história trágica e violenta. Era a colónia francesa de Saint-Domingue, preciosa e fértil, movida pela força dos escravos trazidos de África, mas estes revoltaram-se em 1803, chefiados pela intrépido Toussaint Louverture. O líder negro conseguiu grandes feitos, mas acabou por ser preso pelos franceses, e morreria numa fortaleza do Jura. Mas a revolta triunfou e o Haiti proclamou a independência. Seguiu-se um século de auto-proclamados imperadores, como Dessalines, tiranetes vários, uma prolongada intervenção norte-americana, até à chegada, em 1957, de François Duvalier, o célebre Papa-Doc. Este impôs um sinistro regime, brutalizando e aterrorizando a população com a sua milícia pessoal, os sinistros Tonton Macoutes, e com práticas vodu, que a população segue, a par do cristianismo. Depois da sua morte, sucedeu-lhe o estouvado filho, Baby-Doc, até que uma revolução em 1986 o expulsou. Depois de anos de instabilidade, Aristide foi eleito presidente, prometendo uma nova era de prosperidade e justiça social, em que os paupérrimos negros teriam as mesmas oportunidades que a elite mulata, que vivia nos seus bairros desafogados nas colinas. Teve de fugir por causa de um golpe de estado, mas com a ajuda dos Estados Unidos voltou ao Haiti em 1994. Mas o seu governo nada resolveu, caracterizou-se por opressão e corrupção, e também Aristide acabou por deixar o cargo no seguimento de revoltas. René Préval seguiu-se na presidência, até agora. Com um pouco mais de estabilidade, mas na miséria de sempre.



É este país de mulatos remediados e negros miseráveis, montanhoso, pobre, com uma larga história de violência, imerso no vodu e no culto a figuras como o Baron Samedi, que está agora a atravessar o caos. Mais de cem mil mortos, mais de um milhão de desalojados (o epicentro deu-se na capital, Port-au-Prince), corpos amontoados, todas as estruturas estatais destruídas, falta de hospitais para os feridos, doenças, fome, e provavelmente, tumultos e pilhagens. O desespero, em suma. E neste país, que apenas nominalmente o é, podemos ver o inferno dos que não tinham quase nada e que mesmo isso perderam. Escombros, lama e ajuda humanitária, é tudo o que resta num território, que de facto, já não é um estado. Ou talvez seja apenas o estado pós-apocalíptico.

quarta-feira, outubro 21, 2009

O Maradona de Kusturica



A propósito da Argentina e do seu treinador, tenho aqui a oportunidade de postar uma coisa pensada há já algum tempo.
Entre Fevereiro e Março passou discretamente pelas salas de cinema o filme de Maradona, do realizador/músico sérvio Emir Kusturica. O género estaria oficialmente dentro do documentário, mas na prática trata-se de um filme de propaganda, um pouco ao estilo de Michael Moore. Kusturica, nacionalista sérvio, activista anti-independência do Kosovo e realizador de filmes memoráveis (particularmente nos anos noventa), tem-se dedicado mais nos últimos tempos à sua carreira com os No Smoking Orchestra, com a qual tem visitado Portugal regularmente. Não deixou contudo de desenvolver um projecto antigo, o de homenagear o ídolo dos argentinos e napolitanos, vencedor quase a solo do Mundial de futebol 1986 e tristemente caído nas malhas da cocaína, Diego Maradona. Para isso, deslocou-se várias vezes à Argentina, onde o esperava um ex-craque com o volume de um tonel, assistiu a ritos da igreja maradoniana, levou-o a Belgrado e não cessou de focar a sua "mensagem revolucionária". Um dos pontos altos do filme é aliás um comício de Hugo Chavez, com el pibe ao lado, em que o presidente venezuelano brindou os assistentes com as suas habituais pantominices.

Na sua actual forma rubicunda, Maradona revela, como se esperava, um ego do tamanho do mundo. Considera-se um a espécie de self made player com ajuda divina. Diz tudo o que pensa de forma desbragada, mesmo que leve a contradições estranhas. Mostra o bairro onde cresceu, em La Boca, Buenos Aires, a ida para a Europa, Barcelona, primeiro (e a épica cena de pancadaria num jogo com o Athletic Bilbao), e Nápoles, depois. Na Campânia cometeu as maiores proezas, só igualadas pela conquista do Mundial de 1986 e a famosa "Mão de Deus" contra Inglaterra, cena repetida vezes sem conta no filme.

A meio da fita vem a sua declaração de amor a Cuba e a Fidel Castro. Utilizando um jargão muito comum na América Latina, El Pibe afirma que "graças a Fidel é que não falamos inglês", mostrando o quão gosta dos Estados Unidos. É uma teoria um pouco rebuscada, porque dificilmente se imagina como é que uma ilha das Caraíbas conseguiu tal proeza - não me lembro de nenhum muro impedindo a presença de norte-americanos - e mesmo em tempos pré-1959 a população falava espanhol. Há recriminações à ditadura militar dos anos setenta e oitenta, pois claro, mas a seguir diz que recusou-se a cumprimentar o Príncipe de Gales porque este teria "as mãos manchadas de sangue". Suponho que se estaria a referir à Guerra das Malvinas. Quem efectivamente esteve lá foi o Príncipe André, não Carlos, e quanto à guerra, nunca chegou a ser efectivamente declarada (pela Rainha), antes se tratou de uma resposta do governo britânico face à invasão argentina. Além de incriminar o príncipe sabe-se lá porquê, acaba por tomar o partido da junta ditatorial argentina, responsável pelo início das hostilidades e pela humilhante derrota que acabaria por ditar a sua queda. No fundo, a mesma posição de Fidel Castro, que numa posição contra-natura prestou o seu apoio àquele regime. Diga-se também que enquanto durou a sangrenta ditadura argentina, el Pibe jogou sempre pela equipa nacional. Transparece logo um violento sentimento anti-anglo-saxónico, confirmado ao longo do filme com pequenas recriações animadas e satirizantes do "Golo do Século", marcado no mesmo jogo contra a Inglaterra em 1986, em que sucessivamente Maradona finta e bate Thatcher, Reagan, Blair, Bush e a Rainha Isabel II, ao som de God Save the Queen - a dos Sex Pistols. Todos ao molho, desbaratados pelo talento do pequeno argentino.


Duas conclusões se tiram da singular ideologia de Maradona: uma é o sentimento de "latinidade", muito bolivariano e guevarista, em que supostamente a América do Sul e Central são uma só nação, desunida por fronteiras, e que transcende mesmo as ideologias opostas. A outra é a do sentimento contra tudo o que seja anglo-saxónico, talvez até mais contra os EUA do que o Reino Unido.

Há ainda o Maradona "homem de família" com mulher e filhos, e as suas queixas do tempo em que estava agarrado à cocaína. Mas é no jogador e no revolucionário que o filme se demora. É uma personagem complexa e irreverente, mas a que parece faltar inteligência para as suas escolhas e os seus actos, para não falar no discurso. Baseia-se no instinto e no coração, nunca no cérebro. Confunde frequentemente as coisas e nota-se em alguns assuntos um desconhecimento espantoso do que fala, aliado a uma espécie de dogmatismo messiânico ("o das barbas [Deus]não me deixou afundar e puxou-me"). Parece encarnar o "realismo mágico", de tão sul-americano que é, e note-se que curiosamente teve o apogeu da sua carreira no ano da morte de Jorge Luis Borges. Bola, família, truculência, latinidade, anti-anglo-saxonismo, fervor místico, um percurso errático com imensos vícios: eis Diego Armando Maradona.
Kusturica, naturalmente, quis fazer este filme atraído pela figura irreverente do génio da bola que despertou paixões e ódios como poucos, cocktail explosivo de bola e truculência revolucionária que bem podia vir da sua Sérvia. Podia igualmente ser uma personagem dos seus filmes, com personalidade tão balcânica. Sendo real, ficou-se por um documentário. Mas para além da familiaridade que viu em Maradona há ainda o carácter político e panfletário da obra: um nacionalista sérvio como é o realizador não podia deixar de aproveitar uma figura conhecida mundialmente que disparasse tão ferozmente contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, os mesmos que bombardearam Belgrado há dez anos e que acabaram com a Jugoslávia, dando a machadada final com a independência de facto do Kosovo. Assim, além de conhecer tal personagem bigger than life, usa-o como pregoeiro das suas próprias causas. As gargalhadas maquiavélicas e algo juvenis que dá amiúde quando entrevista Maradona, ao longo do filme, revelam bem a alegria que sente perante os torpedos verbais contra os ódios de estimação.
O documentário acaba por divertir medianamente, sobretudo nos passeios por entre as ruas de Nápoles e Belgrado, com algumas imagens de arquivo preciosas e recordações de jogadas de futebol realmente geniais. Enfastia nos discursos políticos e nas sequência familiares, a apelar à lágrimazinha. Mas a cena em que se vê o burlesco e a loucura que envolve Maradona é o casamento pela Igreja Maradoniana: perante uma cópia das orações cristãs adaptadas ao seu vocabulário próprio, um casal jura perante a "bíblia maradoniana" e uma bola de futebol que Maradona é o melhor jogador de sempre. Depois, para firmar o matrimónio, têm de marcar um golo com a mão, imitando o do seu ídolo em 1986. A cara do noivo gritando golo vale quase só por si o bilhete do filme e resume bem a personagem tão irreverente como patética que o inspira.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Heróis improváveis no Rio da Prata




É incrível como os mais improváveis peões surgem do desespero para salvar as figuras bigger than life, mesmo as grotescas. Na Quarta à noite jogava-se a passagem para o Mundial da África do Sul de duas míticas selecções de futebol. À carga emocional e histórica do jogo acrescia o facto de se tratar do mesmo cenário e dos mesmos actores da final do primeiro Mundial de futebol, em 1930: o estádio Centenário, em Montevideu, Uruguai contra Argentina. Nesses tempos longínquos os jogadores da camisola celeste bateram o enorme vizinho da margem sul do Rio da Prata, criando uma rivalidade entre irmãos que periodicamente se renova em partidas como esta.


Agora, no meio de futebol mal jogado, com lances muito duros (Maxi Pereira por mais do que uma vez ia lesionando Di Maria) e alguns jogadores inexplicavelmente a titulares, o resultado acabou por ser ditado pelo mal amado Bolatti, emprestado pelo Porto a um clube argentino, que deu a vitória e o apuramento ao seu país no templo desportivo uruguaio, a poucos minutos do fim. Menos do que o que faltava quando no anterior (e igualmente decisivo) jogo da Argentina contra o Peru, Martin Palermo, o veterano avançado que um dia falhou três penaltis no mesmo jogo, deu nos descontos a vitória aos das Pampas, aguentando-a na contenda definitivamente decidida em Montevideu.


Resta aos desiludidos Charruas uruguaios classificar-se no play-off. Maradona, esse, rebentando no seu anoraque qual boneco da Michelin azul-escuro, passou em meia hora da euforia saltitante à acusação ressentida. Só na América do Sul do "realismo mágico"é que a loucura e beleza do futebol alcança tais possibilidades literárias . Esperemos agora que o Uruguai se classifique e que a Argentina encontre a Inglaterra de Fabio Capello na África do Sul.

segunda-feira, agosto 24, 2009

A península ocasional



Protegendo a embocadura do rio Minho, dominado pelo galego Monte de Santa Tecla, equidistante de duas costas, mas indubitavelmente portuguesa, a Ínsua cumpriu, ao longo dos séculos, a sua função de convento, fortaleza e farol. Hoje é uma curiosidade para os turistas (que tanto vandalismo lhe fizeram) que apanhem um barco para lá, já que as correntes do Minho só aos nadadores de elite permitem que a alcancem à força dos braços. As muralhas estão em perfeito estado de conservação, mas as casamatas são semi-escombros e o convento está meio arruinado. Os azulejos da capela há muito foram roubados e resta o pequeno claustro, com um mínimo de dignidade, além da mina de água doce, que poucos encontram. Tal é o estado actual da fortaleza setecentista que defendeu Portugal nos combates com os vizinhos da Galiza e que impediu os exércitos franceses a mando de Soult atravessassem logo ali para Portugal (os poucos que o conseguiram perderam-se no pinhal do Camarido e foram presa fácil para os pescadores locais). Tiveram de dar a volta e só atravessaram em...Chaves.


Diz a vox populi local, e comprovam-no os factos, que de cinquenta em cinquenta os movimentos de mares e de areias transformam durante alguns dias a Ínsua numa península. Da última vez que deveria ter acontecido, no Verão de 2001, a coisa ficou a meio, mas sempre se chegava lá a pé com água pela cintura. Já lá tinha ido algumas vezes de barco, pelo que a sensação de atravessar o canal a pé foi inédita; era ver dezenas e dezenas de pessoas a fazer o mesmo, numa marcha de banhistas que dificilmente alguma outra época teria repetição.


A verdade é que noutras eras atravessava-se para a ilha a pé enxuto, e a comprová-lo estão as fotografias que se podem ver nas paredes do Palma, um dos mais populares bares/restaurantes de Moledo. Em 1947 a Ínsua converteu-se brevemente em península, e organizaram-se marchas e procissões para lá ir.


Mas a sua natureza é insular, como o comprova o nome, tornou-se um ex-líbris da região e deu o nome a um conhecido clube de Moledo (fundado entre outros por António Pedro da Costa). Já se pensou em convertê-la em resort, mas o difícil acesso, e as condições precárias no Inverno, aliadas ao mar que por vezes bate nas muralhas do forte, tornam a empresa incomportável. Antes assim. Continuará a ser a sentinela solitária do Minho, com a ajuda do seu farol, e dará sempre um toque único ao cenário de uma das mais belas praias à face da Terra.

domingo, junho 28, 2009

No Olimpo da música moderna


Se Michael Jackson desapareceu relativamente novo, há que não esquecer outros monstros sagrados da música do último século. Além de Lennon, assassinado à porta de casa, temos casos tragicamente semelhantes como Elvis, Piaf, Morrisson, Hendrix, Marley ou Brel (ou, noutra escala, Cobain). A morte prematura elevou-os à condição de lendas e impediu-os que envelhecessem em mansões de cinquenta quartos, realizando digressões pontuais e decadentes e relançando "ultimates collections" em nome da editora. Aos desaparecidos em actuação é o que os mantém imortais. Jackson tem companheiros à altura no Olimpo da música moderna.

sexta-feira, junho 26, 2009

Michael Jackson 1958-2009



Ainda que não seja totalmente surpreendente, por todos os problemas que o "Rei da Pop"tinha de sobra, tanto que se especulava se poderia fazer nova tournée agendada para Julho, a notícia repentina da morte de Michael Jackson não deixa de impressionar. Nunca fui particularmente fã da sua música, mas é inegável que marcou uma época e que se tornou autenticamente num dos grandes ícones do fim do Sec. XX. Não esquecer que é o seu o disco mais vendido da história - Thriller, de 1982, com mais de quarenta milhões de cópias vendidas - além de outros êxitos maiores, como Bad, Dangerous ou HIStory, que não impediram porém de contrair imensas dívidas. Para além de todas os escândalos, controvérsias, taras e problemas de saúde que o levariam a este triste desfecho, fica para a história um dos mais famosos músicos de sempre, dançarino de excepção, cujas músicas e sobretudo os fabulosos telediscos se tornaram uma marca da cultura do seu tempo.
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PS: ainda protagonizou uma aventura juvenil no Porto, em pleno S. João. Consegue-se imaginá-lo a jogar à bola com os miúdos da Ribeira?

domingo, junho 14, 2009

Tradições minhotas de Monção a Tarascon

Aproveitei os feriados para ir ao Alto-Minho. Entre as celebrações do Corpo de Deus e a festa do mar em Âncora, só tardiamente me apercebi que em Monção era dia da ancestral Festa da Coca.


Como em todas as tradições em que S. Jorge mata o dragão, o combate entre o Bem e o Mal dá-se entre um cavaleiro e um gigantone com rodas, empurrado por vários homens, cobertos com a "carapaça" da coca, em forma de dragão malévolo, com um pescoço que se move. Tem lugar no centro da vila, na praça DeulaDeu, que relembra a grande heroína de Monção. O cavaleiro tem de cortar a orelha à Coca e só desta forma é considerado vencedor. O problema é por vezes o próprio cavalo, que foge com medo da figura, provocando o riso geral e impossibilitando a façanha a "S. Jorge". Esta é a tal festa que perdi e que o meu pai chegou a assistir noutros tempos da sua infância, que passou por aquela vila debruçada sobre o Minho.



A representação da Coca lembra-me a Tarasque, o monstro lendário, de enormes dentes, forte carapaça e cauda de escorpião que atormentava a Provença, e que segundo a lenda, terá sido amansado por Santa Marta, que ali andava em evangelização. A cidade de Tarascon (também conhecida pelo célebre Tartarin de Tarascon, das novelas de aventuras de Alphonse Daudet) deveria o seu nome à Tarasque. Alguma ligação haverá entre esta tenebrosa criatura e a Coca, já que em algumas cidades de Espanha, nas procissões do Corpo de Deus, surgem figuras simbolizando a Tarasca. Mais ainda: Monção está geminada com Tarascon-sur-Ariége, que fica já perto dos Pirinéus mas cujo nome não deverá ser alheio à origem do da Tarascon da Provença. Mais indícios que indicam que entre a Tarasque e a Coca haverá um qualquer parentesco. E que há sempre um santo por perto capaz de os dominar.

quarta-feira, junho 03, 2009

A despedida dos guerreiros


No post anterior falava de um jogador quase esquecido. Neste fim de semana, despediram-se dos relvados três futebolistas que certamente não o serão - até porque fazem parte da era da televisão, da internet e do marketing da modalidade, em que a imagem por vezes conta tanto como as jogadas. Falo evidentemente de Paolo Maldini, o mais internacional de sempre pela Squadra Azurra, o capitão do Milan que se sagrou por cinco vezes campeão europeu, o melhor defesa esquerdo de sempre, que na sua carreira só conheceu duas camisolas, a azurra da Selecção e a rossoneri de Milão; Pavel Nedved, o virtuoso maestro checo, visível ao longe pela sua melena loura, que comandou o seu país ao longo de vários torneios e que merecia mais troféus; e, obviamente, Luis Figo, o ídolo de toda uma geração, o mais internacional jogador português de sempre, o génio que despontou com os campeões de Riade e Lisboa e nunca mais parou de somar sucessos, atingindo o auge em 2001 - em que ganhou o prémio da FIFA de melhor jogador do Mundo (depois do Ballon d ´Or de melhor da Europa no ano anterior) e a Liga dos Campeões. Figo, o melhor de sempre desde Eusébio, de quem guardo um autógrafo do tempo em que ainda estava no Sporting, numa tarde em que o encontrei num hotel do Porto, e com quem viria a cruzar-me anos mais tarde em Frankfurt.

É todo um capítulo da história da modalidade que se vira, com a partida destes mitos dos relvados. E uma certa época que acabou: o futebol dos anos noventa.


domingo, maio 31, 2009

Jaguaré, o primeiro "loco latino" das balizas



Passada a final da Liga dos Campeões, em que os falhanços de Cristiano Ronaldo (ou, pela linguagem SMS, CR7), que dariam grandes golos, determinaram a vitória do Basel da Catalunha, passemos às memórias futebolísticas, aquelas do tempo em que mesmo pela rádio era difícil acompanhar um jogo, e em que as transferências entre a América do Sul e a Europa se faziam de transatlântico. Recordo Jaguaré, estrela brasileira dos anos trinta.

Jaguaré Bezerra de Vasconcelos nasceu no Rio de Janeiro em 1940, em data incerta. De origem modesta, começou a trabalhar como estivador, o que decerto o dotou de braços poderosos, e jogava a guarda-redes como passatempo, como de resto era comum na época. Até que chegou a o Vasco da Gama e à Selecção Brasileira, tendo-se tornado um ídolo das massas. Provavelmente foi o elemento primordial da enorme linhagem dos loucos guarda-redes sul-americanos, que teve como recentes representantes Higuita e Chilavert. Defendia com apenas um braço, driblava atacantes adversários e tinha como imagem de marca fazer girar a bola com o dedo indicador, qual malabarista.
Numa digressão à Europa, em princípios dos anos trinta, O Vasco de Jaguaré jogou em Espanha e em Portugal, contra uma equipa formada por jogadores do Benfica e do Casa Pia...e ganhou. A tournée produziu efeitos e o Barcelona contratou logo o guarda-redes, mas como teria de ser suplente do mítico Zamora, regressou logo ao Brasil, para representar o Corinthians, até que o Marselha o contratou em 1937. Tornou-se um ídolo na Provença, conquistou o título de campeão de França, e, momento histórico, marcou um penalti, no que se crê ter sido o primeiro golo de sempre marcado por um guarda-redes.

Com a aproximação da Guerra, Jaguaré deixou França e regressou ao Brasil. O que poucos sabem é que teve uma breve passagem pelo Académico do Porto, clube que na altura tinha uma equipa na 1ª divisão e que posteriormente abandonou o futebol profissional (teve êxito noutras modalidades, como prova a carreira da sua atleta Rosa Mota). Não sei se por oportunidade na escala entre Marselha e o Brasil, se por necessidade de emprego, o certo é que teve uma breve passagem por Portugal.
Depois do percurso europeu, voltou definitivamente ao Brasil. Com a carreira acabada e o dinheiro gasto, voltou à estiva, começou a beber e afundou-se na cachaça. O antigo artista dos relvados estava no fim. Em 1946, num desacato com a polícia acabou por ser espancado e morreu dos ferimentos, tendo sido enterrado como um vulgar vagabundo.
Triste fim para um autêntico aventureiro da bola e da sua época. "Le Jaguar", como era conhecido em Marselha, ofereceu saltos e emoções aos espectadores dos estádios, quando o futebol era ainda amador e os seus praticantes jogavam por amor à camisola ou simples gozo. Cruzou os oceanos rumo a uma Europa em ebulição, espartilhada por paixões e ódios. Passou por Espanha nos dias pré-Guerra Civil e espantou os estádios de uma França marcada pelo governo da Frente Popular, pela ameaça alemã e pelos confrontos intelectuais e de rua entre comunistas e socialistas contra os legitimistas Camelots du Roi, a Croix de Feu e o nacional sindicalista Faisceau. Pelas diabruras armadas em campo e por ser, segundo os anais do desporto, o primeiro guardas-redes goleador, tornou-se também por direito próprio o primeiro dos "locos latinos", os guarda-redes sul-americanos para quem, acima de tudo, o que conta é o espectáculo.


(Mais informação aqui e aqui)

segunda-feira, novembro 10, 2008

Recordando Sir John Bagot Glubb, comandante da Legião Árabe
A recordar este autêntico aventureiro das Arábias, Glubb Pasha, faço apenas um pequeno acrescento: a sua demissão deu origem a um mal entendido entre Nasser e Anthony Eden, e à fúria do Primeiro-ministro britânico, o que avolumou as tensões que levaram à crise do Suez, em 1956. Pensa-se também que em caso de ataque israelita à Jordânia, as tropas inglesas (e a Legião Árabe) não actuariam, seguindo ordens do próprio Glubb. Uma exoneração ainda com muitas interrogações por parte do Rei Hussein, mas que nem assim quebrou a amizade entre os dois homens.

domingo, outubro 12, 2008

Toponímia republicana



Dizem as regras da toponímia que se devem conservar os nomes tradicionais dos arruamentos, mormente se consagram uma recordação importante, como a do nome do local que existia nesse espaço numa época passada. Não se deve mudar em prol de um acontecimento ou figura de existência recente, excepto se já houver outra artéria ao lado com o mesmo nome, uma travessa ou um beco, por exemplo.
Essas regras nem sempre foram seguidas em Portugal, como se sabe. Normalmente eram quebradas pelos vários regimes políticos que se quiseram perpetuar no tempo e na memória. Caso exemplificativo é o do amplo terreiro à frente do Mosteiro de Alcobaça, que se chamou Praça Oliveira Salazar no Estado Novo e se chama hoje Praça 25 de Abril. Antes disso, era simplesmente o Rossio. Aliás, o mais conhecido espaço com esse nome, em Lisboa, também mudou oficialmente nos anos setenta, passando a constar das missivas e mapas urbanos como Praça D. Pedro IV. Por sua vez, o Rei-Soldado, que dava nome à antiga Praça Nova do Porto, o largo central da cidade oitocentista, perdeu o nome para Praça da Liberdade, sendo que temos hoje o absurdo de não haver na cidade qualquer artéria com o nome de D. Pedro IV, que até deixou o seu coração na Igreja da Lapa, em agradecimento à cidade que o acolheu durante as Guerras Liberais.



No processo de modificação do nome das ruas, nenhum regime se mostrou tão activo como a 1ª República. Por toda a parte os nomes foram alterados ao saber dos novos donos do país, e velhas ruas e praças das principais localidades viram-se renomeadas com nomes outubristas. Surgiram assim as novas artérias da república, de cinco de Outubro, ou dos "heróis" e propagandistas republicanos. Quem se passear por Lisboa, sobretudo nas Avenidas Novas, encontrará fatalmente os habituais Elias Garcia, João Crisóstomo, António José de Almeida, etc. E isso também explica a razão de praças centenárias, como a de Viana do Castelo, terem ganho "República" no nome. Mas a maior marca do processo de lavagem foram os milhares de "Cândido dos Reis" e "Miguel Bombarda" que nasceram como cogumelos. Duas figuras que, tendo morrido nas vésperas de cinco de Outubro, um porque se matou, outro porque um doente do manicómio que dirigia o assassinou, foram guindados a "mártires" e serviram para dar nome de ruas e avenidas. Não há concelho no país que não tenha uma destas figuras, cuja importância na história portuguesa é residual e datada, a decorar o letreiro da rua. Em compensação, muitas figuras maiores estarão com certeza ausentes da toponímia local. É difícil explicar a quem não sabe porque razão é que os dois sobrevalorizados activistas ocupam espaços tão relevantes - muitas vezes os largos principais de algumas localidades - tendo uma relevância tão pequena. Quantos Padres António Vieira ou D. Diniz, por exemplo, haverá na mesma proporção?
Essa ocupação hiperbólica da República demonstra não somente o carácter quase "santificado" dessa empresa como também uma certa insegurança ao nível da sua própria justificação, o que obrigou a que o regime, quando tomou o poder, tivesse de fazer uma gigantesca lavagem histórica e toponímica para impor os novos "heróis". Sendo "mártires", os dois finados seriam como que os novos "santos" republicanos a que urgia prestar respeito, e que por isso tinham os seus nomes em locais visíveis ao cidadão comum. Assim encontrou a 1ª República uma forma duvidosa de marcar o seu domínio, refazendo a história portuguesa e instaurando novas personalidades, de forma a criar uma sociedade radicalmente diferente, à sua imagem. Assim também a alteração de alguns símbolos, como a bandeira, ou a introdução da figura feminina meia desnudada.
Não houve, como se disse no início, regime algum que não tivesse a tentação de marcar a sua própria toponímia. Mas a República, como em tudo o resto, mostrou-se radical e caiu no ridículo de consagrar duas figuras que as pessoas, hoje em dia, não reconhecem ou ouviram falar vagamente. Lembro-me de uma entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Francisco Louçã, em que os dois confessavam não saber quem era o Almirante Reis que dá o nome à avenida lisboeta. Não sei se não sabiam mesmo ou se não lhes ocorreu, mas o certo é que deu uma amostra da pouca importância de dois vultos usados para que um regime que não tinha o apoio da maioria do povo se impusesse de forma mais dominadora.

sábado, setembro 13, 2008

A frase de Salina

 
Esta noite revi o O Leopardo, o magnífico filme de Visconti inspirado no livro de Lampedusa. E tirei a limpo uma dúvida que já tinha há algum tempo. Quando se refere a obra - o livro ou o filme, tanto faz - costuma-se invocar uma frase proferida pelo Príncipe de Salina da seguinte forma: é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma. Parecia-me que a frase não era exactamente assim, e hoje confirmei-o: na realidade, o Príncipe/Burt Lancaster diz é preciso que uma ou duas coisas mudem para que tudo fique na mesma.
A prova mais evidente da sabedoria dessa máxima é que a correcção que serviu de propósito a este post não lhe retirou qualquer sentido.