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quinta-feira, agosto 23, 2018

Notas de verão


Durante muitos anos imaginei com seria uma série, um filme, ou qualquer coisa audiovisual passada em Moledo, farto que estava que as coisas só se passassem em Lisboa, por vezes no Porto, e que no Verão só o Algarve fosse devidamente filmado. Moledo só aparece por vezes em reportagens de jornais e revistas, para falar dos seus "notáveis", da nortada, do nevoeiro, e outros lugares comuns simplistas. Com os anos, esses pensamentos desvaneceram-se.

Mas eis que surgiu uma série passada aqui, de seu nome Verão M, inspirada no Verão Azul da nossa infância, em que um antigo casal de namorados se reencontra, e os respectivos filhos partem à descoberta destas paragens. Há alguns anacronismos (tapetes de flores do Corpo de Deus em Agosto?), alguns factos reais (a chaminé do barco afundado entre a Ínsua e a praia), muita imagem bonita de drones (fieis à realidade da beleza da terra), e uma narrativa simples e sem grande criatividade, mas que entretém. Não falta sequer o velho marinheiro retirado, que se torna amigos das crianças, e que mora inverosimilmente no moinho ao lado do pinhal - que há bem poucos anos esteve em risco de derrocada com os ataques do mar.

Enfim, talvez não fosse o que tinha em tempos em mente para filmar Moledo, mas serve. Não há coisas que desapareceram, com a extensão das dunas, a bola Nívea da praia e o único bar da altura, o extinto Pica-Pau, aberto todo o ano, os torneios de futebol e as míticas idas à Indústria Agrícola, encarrapitada nos montes de Cerveira, em que se via o amanhecer sobre o estuário do Minho, ou outras que permanecem, como os passeios de bicicleta, os jantares em Espanha, já do outro lado, ou as festas com viras e cana verde. Mas naqueles rapazinhos e rapariguinhas que se tornam amigos e que descobrem a terra e a sua envolvente, e nos pais que recordam os melhores verões das suas vidas e que tentam fazer regressar os momentos em que foram felizes (no meu caso, mais nestes), há algo de autobiográfico, de familiar, de próximo que não se consegue negar. Só por isso, valeu a pena exibir o Verão M. Porque sem este M, para todos os que passámos por isto
, não haveria Verão.
moledo.jpg

terça-feira, agosto 22, 2017

Uma conversa sobre Mosul em Moledo




É possível, numa noite de segunda-feira de nevoeiro, em Agosto, numa povoação balnear em que as pessoas estão sobretudo a pensar no dia seguinte de férias, nos viras que se tocam mais acima ou em conversas à volta da cerveja ou do whisky nocturno, levar um número apreciável de gente ouvir um testemunho de alguém que esteve nos locais mais deserdados deste Mundo - Afeganistão, Síria, RD Congo, Mosul? Absolutamente.

Gustavo Carona, anestesista no hospital Pedro Hispano de Matosinhos pertencente aos Médico sem Fronteiras, já com cinco missões em zonas particularmente difíceis, esteve recentemente em Mosul, na parte tomada ao Daesh, e parte em breve para a República Centro-Africana, deu o seu testemunho do que viu, do contacto que teve com populações atingidas por vários fogos e em situação crítica, e do que pensa sobre a guerra e as suas motivações, tanto de uns lados como de outros. A conferência (ou melhor, a tertúlia), teve lugar em Moledo, com a presença de Álvaro de Vasconcelos, conhecido especialista em assuntos internacionais e apresentado por João Pimenta (Pai do escritor destas linhas). E desenrolou-se uma conversa e um testemunho sem cinismos - uma das grandes fatalidades desta nossa era, em que tanta gente tem medo de expor sentimentos ou de dar "parte de fraca" - mas também sem lamechices ou sentimentalismos bacocos. Objectiva, clara, realista, e por vezes tocante. 

A conferência também serviu para (re)apresentar o livro que coordenou, 1001 Cartas para Mosul, e a sua venda reverte para os Médicos Sem Fronteiras (cuja história e missão também explicou) e para a Plataforma de Apoio aos Refugiados. O livro, como o título indica, é composto de mil e uma mensagens - que nos remetem para as Mil e Uma Noites, também com origem no que é o actual Iraque - em português, inglês e árabe, destinadas à população daquela desgraçada cidade, totalmente destruída e parcialmente liberta, já que os sunitas residentes têm sofrido abusos às mãos das milícias xiitas, eles próprios também vítimas da violência sunita.
De qualquer forma, prova-se que em férias também é possível haver conversas sérias, objectivas, anti-cinismos, e que atraem assistências numerosas (não se fiem na fotografia).

sábado, fevereiro 25, 2017

Almada em Moledo


Em 1934, Almada Negreiros e Sarah Afonso passaram férias de Verão em Moledo, em casa de António Pedro, antes deste se mudar definitivamente para a aldeia minhota, onde morreria em Agosto de 1966. Entre idas ao areal e convívios vários entre outras figuras das artes e das letras, criaram-se numerosos programas. Um deles consistiu numa ida de barca à Ínsua (para quem não saiba, é uma ilhota entre a desembocadura do rio Minho e a praia de Moledo, face a o início de Espanha) e um piquenique. À vinda, as condições do mar, que ali tem correntes traiçoeiras, iam provocando sérios problemas ao barco, mas tudo se resolveu. Isso inspirou Almada a criar um pequeno filme animado, em formato "lanterna mágica", com 64 desenhos em papel de seda, mudo e com legendas, recriando o quase-naufrágio, e produzido pela efemeramente inventada "Moledo Filmes", para animar os serões de convívio. "O Naufrágio da Ínsua" esteve todos estes anos escondido do público e dos especialistas, até ser reencontrado e exibido agora na monumental exposição na Gulbenkian, até 2 de Junho, e que mostra 400 obras de Almada, das mais icónicas e reconhecíveis às até agora desconhecidas, como este simpático inédito de animação que pode ser visto no piso de baixo. Um aviso: a exposição não se despacha numa simples hora. Vale a pena visitá-la com calma. Permite-nos revisitar Almada e os seus estilos diversos, conhecer novas obras e até saber que já nos anos trinta Moledo era destino de férias e de encontros entre as gentes das artes e das letras, muito antes de se tornar a praia conhecida que é hoje, tantas vezes caricaturada como apenas um local ventoso e elitista.








domingo, setembro 04, 2016

Memórias de um Agosto que passou

 
Moledo - faina do sargaço, 2016

Agosto acabou. A muito custo, há que passar à nova época e deixar os lugares sinónimos. Desde que me conheço que a imagem de Agosto é coada pelo Alto Minho. E no meu dia de anos é ali que devo estar, que me sinto em paz e onde o mundo inteiro se concentra. É verdade que já por muitas vezes pensei em viajar nesse dia, e que certamente o farei no futuro, mas por norma é ali que estou em casa, entre os meus. Não nasci aqui, mas quase. Salvo qualquer excepção, os meus anos serão em princípio sempre ali.

Como já não tenho 18 anos, fica sempre a sensação de que algo ficou por fazer. não é de espantar, porque as férias servem para preguiçar e para o dolce fare niente. Este ano, ao contrário do que reza o mito, o tempo foi condescendente, tanto que o Alto Minho se viu assolado por incêndios (eu próprio vi alguns entre os Arcos e Cerveira). A praia esteve convidativa, mas para além disso o tempo dividia-se entre as comemorações dos 50 anos da morte de António Pedro, as festas de Caminha, Viana e Ponte da Barca, que nunca perdem o encanto, e outras festas mais mundanas, os bares de Caminha e a redescoberta da velha Alfândega, os jantares com amigos em novas descobertas gastronómicas - o que não falta são restaurantes, inclusive do outro lado do rio Minho - passeios mais para o interior (finalmente conheci Sistelo e a Brejoeira), os cafés em Caminha, etc. Não houve oportunidade de voltar à Ínsua nem de arranjar uma bicicleta, nem quase de ir a Espanha, mas há sempre coisas que faltam, e por isso não há razão para queixas.

Entre as poucas coisas que tive pena de perder (em parte por uma alternativa, em parte por decisões de última hora) conta-se o festival de Vilar de Mouros. Não que fosse uma estreia - passei por lá duas vezes, com gratas memórias, além de que o local, à beira-Coura, vale bem um passeio - mas tinha alguma curiosidade em ver preciosas relíquias dos anos 80, em especial Peter Murphy, os OMD, os Happy Mondays ou Peter Hook (o que resta dos Joy Division, e tendo em conta que estes dois últimos actuaram na mesma noite, bem se podia dizer que os objectos do filme 24 Hours Party People se reuniram numa pequena freguesia do Minho), com a energia dos inclassificáveis Blasted Mechanism e a melancolia dos Tindersticks e o rock tuaregue de Bombino pelo meio. Outros planos, igualmente agradáveis se interpuseram pelo meio. Mas já depois do festival, soube que Peter Murphy, um dos pais do rock gótico, a cara dos Bauhaus (a banda, não a escola de arquitectura) e senhor de uma imagem e de uma voz poderosas e icónicas, andava a ensaiar no teatro Valadares, a renovada sala de espectáculos de Caminha, ali entre a matriz, a Alfândega e a movida da Rua Direita, em cujos bares me lembro aliás de ouvir algumas das suas músicas. E segundo conta, a apreciar a gastronomia local. Pena que não tenha visto o semi-mito a andar pela Rua Direita ou pela praça do chafariz, a experimentar um sidónio ou um cabrito à Serra d´Arga (apesar de saber que é muçulmano sufi, influência da sua estadia na Turquia). Provavelmente um criador do estilo gótico gostaria de saber que ao lado do local de ensaios existe uma ruela chamada Rua do Lobisomem. Noutros tempos, quem sabe, poderia servir de inspiração para uma canção. Paciência. Mas vou pensar que tenha acabado por saber de uma outra forma.
 
Sem a magia de Agosto, Setembro também é um mês que merece ser bem aproveitado.
 

quarta-feira, agosto 17, 2016

António Pedro, cinquenta anos depois da sua partida


Há exactamente 50 anos, a 17 de Agosto de 1966, morria aos 56 anos o artista António Pedro da Costa na sua casa de Moledo do Minho, vítima de asma. António Pedro, como era simplesmente conhecido, nasceu em Cabo Verde, veio para a metrópole aos 4 anos, onde estudou no colégio jesuíta de La Guardia, e depois nas universidades de Coimbra e Lisboa. Nunca concluiu os seus cursos. Era um autodidacta tremendo que não podia ficar agarrado somente a uma área. Esteve ligado ao Nacional Sindicalismo, de Rolão Preto, dirigindo o jornal do movimento, o Revolução, mas rapidamente deixou a política e dedicou-se mais às artes. A todas as artes.

Passou por Paris, Brasil e Londres, privando com figuras gradas das artes e ligando-se a movimentos vanguardistas. Em Portugal criou a primeira galeria de arte, a U.P., e mais tarde envolver-se-ia com o grupo surrealista, com o qual é mais conotado, embora não possa ser colocado apenas nas redomas oníricas do surrealismo. Era pintor, caricaturista, ceramista, encenador, dramaturgo, poeta, contista, ensaísta, etc. Um artista total, um pouco como Almada, com quem também se deu. Incrementou o Teatro Experimental do Porto, e as carreiras de actores que ganhariam nome no palco, como Eunice Muñós e José Viana, ou de pintores, como Vieira da Silva. Por toda a parte, mas sobretudo na região Norte, e em particular no Minho, deixou a sua marca, fosse em programas das RTP (muitos dos quais desapareceram, com o reaproveitamento das suas bobines), em guiões para cinema e curtas-metragens, nos seus contos e poemas, nas casas que projectou, nos azulejos que desenhou (como os que podem ser vistos na garrafeira Baco, em Caminha), no símbolo do Ínsua Clube, que fundou, e que se assemelha ao peixe paleocristão, e nos vestígios do teatro que tentou construir em Moledo, que ficou a meio, popularmente conhecido como "as ruínas", e que hoje em dia alberga um conhecido bar e um auditório com o seu nome. Seria em Moledo que morreria, há 50 anos. E é em Moledo, em Caminha e Viana que a sua memória é recordada por estes dias, em inúmeras e diversificadas iniciativas. Para recordar este talentoso multi-artista e re-divulgar a sua figura, que bem o merece.





Neste pequeno trecho podemos ouvir António Pedro e acompanhar um pouco do seu trajecto, incluindo o testemunho de Joaquim Guardão, ainda vivo, e que tive a honra de conhecer. Há mais, no site da Companha de Dança de Lisboa.

domingo, setembro 09, 2012

Concurso desfalcado


Estava ali a dar na TV a cerimónia de "escolha" das sete praias mais maravilhosas de Portugal, ou como se chama o concurso. Não lhe dei grande importância, embora a parte que tenha ouvido, felizmente, tenha sido a vitória da praia da albufeira do Azibo, em Trás-os-Montes (antes assim), e recusei-me absolutamente a votar nisso. É que um programa que quer eleger as melhor praias de Portugal e não apresenta como concorrente a praia de Moledo, que seria uma maravilha nacional até num concurso que não fosse exclusivamente de praias, não vale a ponta de um chavo.
 
 

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

O mar e as suas razias

As tempestades que na semana passada fustigaram a costa portuguesa, com ondas que chegaram aos dez metros, não pouparam nenhuma região.

As vagas atacaram as dunas de Moledo (que já de si estavam vulneráveis, e que há vinte anos que têm vindo a recuar), derrubaram o passadiço de madeira e a marca das milhas, uma sentinela de pedra que ali estava para lá da memória, e por pouca não fizeram o mesmo ao moinho que serve de abrigo de veraneantes. O mar merece sempre respeito, especialmente no Inverno e em estâncias balneares, mas neste caso, e para quem conhece Moledo, provoca sobretudo temor. As imagens da duna tão frágil e do moinho sobre o precipício são angustiantes. Urge reconstruí-la e devolver a imagem de marca e a dignidade da praia mais setentrional de Portugal.



Fotografias retiradas de A Origem das Espécies.

segunda-feira, agosto 24, 2009

A península ocasional



Protegendo a embocadura do rio Minho, dominado pelo galego Monte de Santa Tecla, equidistante de duas costas, mas indubitavelmente portuguesa, a Ínsua cumpriu, ao longo dos séculos, a sua função de convento, fortaleza e farol. Hoje é uma curiosidade para os turistas (que tanto vandalismo lhe fizeram) que apanhem um barco para lá, já que as correntes do Minho só aos nadadores de elite permitem que a alcancem à força dos braços. As muralhas estão em perfeito estado de conservação, mas as casamatas são semi-escombros e o convento está meio arruinado. Os azulejos da capela há muito foram roubados e resta o pequeno claustro, com um mínimo de dignidade, além da mina de água doce, que poucos encontram. Tal é o estado actual da fortaleza setecentista que defendeu Portugal nos combates com os vizinhos da Galiza e que impediu os exércitos franceses a mando de Soult atravessassem logo ali para Portugal (os poucos que o conseguiram perderam-se no pinhal do Camarido e foram presa fácil para os pescadores locais). Tiveram de dar a volta e só atravessaram em...Chaves.


Diz a vox populi local, e comprovam-no os factos, que de cinquenta em cinquenta os movimentos de mares e de areias transformam durante alguns dias a Ínsua numa península. Da última vez que deveria ter acontecido, no Verão de 2001, a coisa ficou a meio, mas sempre se chegava lá a pé com água pela cintura. Já lá tinha ido algumas vezes de barco, pelo que a sensação de atravessar o canal a pé foi inédita; era ver dezenas e dezenas de pessoas a fazer o mesmo, numa marcha de banhistas que dificilmente alguma outra época teria repetição.


A verdade é que noutras eras atravessava-se para a ilha a pé enxuto, e a comprová-lo estão as fotografias que se podem ver nas paredes do Palma, um dos mais populares bares/restaurantes de Moledo. Em 1947 a Ínsua converteu-se brevemente em península, e organizaram-se marchas e procissões para lá ir.


Mas a sua natureza é insular, como o comprova o nome, tornou-se um ex-líbris da região e deu o nome a um conhecido clube de Moledo (fundado entre outros por António Pedro da Costa). Já se pensou em convertê-la em resort, mas o difícil acesso, e as condições precárias no Inverno, aliadas ao mar que por vezes bate nas muralhas do forte, tornam a empresa incomportável. Antes assim. Continuará a ser a sentinela solitária do Minho, com a ajuda do seu farol, e dará sempre um toque único ao cenário de uma das mais belas praias à face da Terra.

domingo, agosto 09, 2009

Férias

Também entrei ontem de férias, vindo descansar uns dias para o sítio do costume. Lá para os dias vinte darei um salto aos Cárpatos, mas antes disso há que revigorar o corpo e a alma com o sal do mar, o iodo e o aroma dos pinhais e das camarinhas. O nevoeiro por vezes aparece, mas isso até se aguenta. O pior é a nortada, mas arranjam-se sempre sucedâneos à praia. Mas a blogoesfera e a saída de posts não fica esquecida, isso não. Quanto muito, ligeiramente menos constante. E mais relaxada.

quinta-feira, agosto 28, 2008

A guerra chegou a Moledo
Através de um comentário, pude ver mais visões igualmente distorcidas sobre Moledo. Felizmente nem todos vão para o Algarve, ou fazem-no apenas por uns dias (imagine-se aquela sobrelotada região ainda com mais gente em Agosto). No meu caso, não me lembro da primeira vez que vim a Moledo porque tinha meses, e por poucos dias não tenho no meu BI uma naturalidade diferente. E felizmente nunca tive de pedir guarida a ninguém, excepto à minha família mais próxima. Quanto ao Clube, é engraçado nas tardes de ventania, para se tomar café e ler tranquilamente nos cadeirões de verga cá fora. Á noite não o frequento porque tenho mais de 17 anos e menos de 45, e entre essas idades não se encontra lá ninguém.
Era precisamente do Ínsua Clube que queria teclar: a ilustre instituição estival andou pelos noticiários e secções de crime de vários jornais por causa de uns embuçados que entraram pelo campo de futebol adentro, com canivetes e bastões, ao que consta por causa de um ajuste de contas. Devo dizer que poucas horas antes tinha estado lá a almoçar, para comemorar o meu aniversário com a família, na modorra pardacenta de Domingo; já na praia, ouviram-se logo umas exclamações sobre o "jogo de futebol interrompido", "pancadaria" e "ambulâncias". Dentro das instalações do Clube decorria a Assembleia Geral; nenhum dos sócios reunidos ouviu os desacatos.
Cenas de pancadaria, vandalismo e demais brincadeiras parvas, sobretudo à noite, não são novas pelo Alto Minho, particularmente em fins de Agosto, mas encapuçados é coisa que ainda não se tinha visto. A princípio tratar-se-iam de miúdos que passam férias lá, e que desgarrados da alçada dos pais, se metem a fazer tropelias. Fala-se agora também em malta mais local e em questões particulares entre eles, ou mesmo de gangues que viriam do Porto para ajustes de contas. Não sei se será tudo romanceado e se não se tratarão apenas de "veraneantes" com sobejo desrespeito e falta de chá, teenagers que não receberam puxões de orelhas suficientes e que se acham no supremo direito de fazer tudo o que lhes apetece. Uns redimem-se a tempo, outros não.
A conversa da "insegurança" não me costuma comover muito, mas confesso que com tiros quase diários, crescentes operações policiais e uma data de crimes a que já não estávamos habituados começo a ficar incomodado. Não estamos ao nível da Colômbia nem da África do Sul, mas pergunto-me se não estaremos realmente a passar por um período de aumento real da criminalidade. Não seria nada estranho nem inédito. Bem sei que os desacatos de Moledo estão a um nível mais baixo do que o recente assalto falhado a uma dependência bancária em Lisboa, mas fica aqui uma pequena contribuição para revelar alguma pequena criminalidade que não se verificava há uns anos, mesmo onde se pensava que ela não chegaria.
Só duas notas: voltando ao início do post e ao link que lá se encontra, acho estranho ouvir falar de "almoços no Palma" quando nesta altura só servem jantares. E segundo reparo: um dos agredidos pelo bando de encapuçados era um remador do Sporting Clube Caminhense. O menor fulgor actual desse clube talvez tenha sido o azar desse atleta, já que antigamente não era raro ver remadores de Caminha (e da referida agremiação) representar, e bem, Portugal nos Jogos Olímpicos. Estivesse o agredido em Pequim e nada lhe teria sucedido. Infelizmente para ele, os atletas do Minho foram substituídos pelos do Cávado.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Visões parciais de Moledo

O Público anda a publicar uma série de reportagens sobre "praias tradicionais" a Norte do Tejo. O "dossier" começou por Moledo, provavelmente por razões geográficas. E o que escreveu sobre a mais nortenha das praias portuguesas deixou-me de pé atrás sobre as restantes. A reportagem tem algumas curiosidades com a sua piada, focando-se principalmente no Moledo antigo. Mas comete alguns erros, até porque se baseia na visão de apenas duas pessoas, de um meio muito próprio.


Tratar alguém pela sua alcunha (que aliás detestava), como fizeram a "Trifaldino" Aguilar (que se chamava na realidade Manuel) é qualquer coisa de bradar aos céus. Ou presumir que as vendedeiras de bolos vendessem os frágeis caminhenses na praia, coisa que jamais aconteceu, até porque se estragariam com a maior das facilidades. Ou ainda considerar que pessoas que por lá passaram uma ou outra vez, como João José Cochofel, eram habituées normais.

Depois, há olhares demasiado parciais e datados nas divisões políticas. Não sabia que os monárquicos se reuniam em casa do Visconde de Sousa Rego, que ainda existe. Mas acho muito duvidoso que o Ínsua Clube tenha sido fundado para servir de pouso aos republicanos. Sei de vários monárquicos que não só o frequentaram desde então como até presidiram aos seus órgãos sociais. Além do mais, como é possível falar de republicanos em Moledo sem referir que Bernardino Machado, duas vezes presidente da República, era um assíduo frequentador da praia, assim como os seus descendentes, conhecidos como "os Bernardinos" (ainda há uns 15 anos me lembro de ver um senhor extremamente idoso, filho do próprio Bernardino)?


A própria divisão da praia está errada, ou não já corresponde à realidade. Se a esquerda continua a ser uma zona popular, a direita da praia, a do Clube, está reservada a um sector mais "social", e o meio é para quem quer fugir à maralha. Divisões políticas são coisas que já não têm lugar no areal.


O que se pode dizer do artigo em geral? Revela um pouco do Moledo de antigamente, com as suas famílias numerosas que se conheciam todas umas ás outras, a importância de António Pedro, o Ínsua Clube como único local de encontro, a par da praia, ou o tempo em que o Pica-Pau era o único bar disponível da praia, durante todo o ano (hoje já não existe). Apreciável também, a lembrança da saudosa Pensão Ideal, hoje demolida, em cujo café bebi as minhas primeiras cervejas. Mas se tivessem interrogado outros assíduos moledenses a reportagem por certo que seria menos hermética e daria outra visão de conjunto. Não faltam personalidades conhecidas que pudessem falar, como Vitorino de Almeida, Jorge Miranda, Mariano Gago. E quem não conhece Moledo poderia não só conhecer melhor o passado, como os ardentes torneios de canasta, a célebre visita de Zeca Afonso ao Clube, e os passeios de burro pela trela do Maestro Vitorino. Quanto ao presente, em que a segunda quinzena vê chegar uma onda de gente, não há só zaragatas na Avenida de Santana no regresso das noites da Alfândega e da Indústria (embora haja os seus problemas, como já tive oportunidade de fazer notar), mas também alguns bons dias de praia, longas conversas nocturnas no Palma, passeios pelo pinhal do Camarido e incursões a Espanha ou a outras localidades minhotas em dias de mau tempo.


É assim o Moledo actual. De imutável só mesmo os montes circundantes - Facho, Santo Antão e o imponente Santa Tecla - o vento, a Insua e o mar.

Moledo, Agosto de 2008 (com um tempo excelente)

quarta-feira, agosto 01, 2007

Agosto
Em Agosto, zarpo para o sítio do costume, que de ano a ano, se cobre ainda mais de tédio. não é que tenha grande vontade, mas por agora não vejo muitas mais opções de fuga. Fiquemo-nos para já por aqui, à falta de melhor, entre a nortada e a nebulosidade.