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sexta-feira, setembro 29, 2017

O fenómeno dos dinossauros municipais


Continuando com o assunto das  autárquicas do último post, há um assunto que não deixa de me espantar, sobretudo pela magnitude que atingiu para estas próximas eleições: o regresso em massa dos "dinossauros" autárquicos. Não são apenas Isaltino Morais, Narciso Miranda (que muito oportunisticamente lançou a sua candidatura em dia do Senhor de Matosinhos, alcunha pela qual era conhecido quando estava à frente da câmara), Valentim Loureiro ou Avelino Ferreira Torres: temos também os regressos de Ana Cristina Ribeiro, a única autarca do Bloco, que volta à arena em Salvaterra de Magos; ou Fernando Costa, que depois de quase 30 anos na CM das Caldas da Rainha e de ser vereador em Loures, se candidata agora a Leiria; ou mesmo o prezado Gabriel Albuquerque Costa, antigo presidente da câmara de Penalva do Castelo pelo CDS e PPM (o último autarca que este partido teve), que depois de ser candidato pelo PS, recandidata-se novamente pelo PSD/CDS.

Exemplos não faltam, de norte a sul, de antigos presidentes de câmara que regressam, quase todos
pelo município que governaram, de Montalegre a Almodôvar, passando por Pombal, Covilhã e Golegã (há excepções, como Fernando Seara, Joaquim Raposo ou o antigo autarca de Castelo de Paiva que concorre agora ao Marco), e casos até de presidentes até 2013 que defrontam os seus substitutos (o referido caso de Salvaterra de Magos, Caminha, Elvas, etc). Normalmente concorrem pelo partido a que pertenciam, mas há, claro, a questão dos independentes. São esses os casos mais bicudos: postos à margem pelo partido, concorrem por listas próprias, muitas vezes com o seu nome e com alguns fiéis seguidores que trouxeram dos seus mandatos. Usam vulgarmente expressões como "muitos cidadãos anónimos têm-me vindo prestar apoio na rua", ou "ponderei durante largos meses e decidi candidatar-me", ou ainda aludem às famosas "ondas de fundo" (muitos surfistas há entre os dinossauros autárquicos).

Mas afinal qual é a razão de regresso destes representantes do Jurássico municipal? Uma real vontade de resolver os problemas da terra? O serviço de missão ao partido? Uma séria indignação com os sucessores? Ou o vício do poder e a vaidade própria de quem se julga um quase proprietário da terra e quer continuar a ser amado/temido no seu quinhão? A avaliar por algumas declarações de representantes da espécie, que falam da gestão municipal como "uma paixão" ou "um vício", a resposta deverá estar aí mesmo. O poder inebria, vicia, por vezes corrompe. Pode ser um "afrodisíaco" mais forte que o dinheiro. E depois, muitos destes antigos autarcas já não sabem fazer muito mais coisas quando se afastam da respectiva ex-câmara, ou simplesmente, como são normalmente pessoas de acção e de execução, não têm espírito para ficar parados. Daí que a possibilidade de regresso cative muitos. Para felicidade de muitos munícipes, mas nem sempre a bem do supremo interesse da terra.

domingo, novembro 03, 2013

No desaparecimento de Zé da Guiné, um bom testemunho


Morreu Zé da Guiné, um dos pioneiros da movida lisboeta dos anos oitenta. Morte pouco surpreendente, já que sofria de uma doença degenerativa neurológica, semelhante à que vitimou Zeca Afonso. Antes de vir para Portugal, chegou a ser guerrilheiro na Guiné-Bissau, na guerra colonial. Já em Lisboa, trabalhou como modelo - surpreendia os transeuntes do Chiado ao aparecer vestido à escocês com dois dobermans pela trela - dedicou-se à prática de Karaté a ao atletismo, e "atirou-se" à noite da capital, tendo contribuído para a abertura de vários bares inovadores no Bairro Alto, até ali pouso reservado de prostitutas, jornalistas e taberneiros e no Cais do Sodré, frequentado por fauna idêntica, só trocando os jornalistas pelos marinheiros. Mais tarde, transformou o palácio Almeida Carvalhais, que dividia com a sede do Casa Pia, na zona do Conde-Barão, entre o Cais do Sodré e Santos, num espaço de diversão conhecido como "noites longas", e que o eram, literalmente, antes deste se transformar no famoso B.leza. A vida boémia nocturna e cultural lisboeta mudou bastante depois disso, mas deve-lhe muito. Também por isso, um documentário sobre a sua vida, com inúmeros testemunhos, intitulado Zé da Guiné, Crónica de um africano em Lisboa, foi exibido há uns três anos, exclusivamente em salas de Lisboa. Fiquei bastante curioso, mas como na altura tinha regressado ao Porto, não o consegui apanhar. Até agora: passa amanhã, Segunda, dia 4, na RTP2, às 20:44. Quem quiser testemunhar esse período da história cultural lisboeta tem agora uma boa oportunidade.
 
 

segunda-feira, setembro 23, 2013

Nos cinemas, a última viagem marítima de descoberta

 
 
 
Já tinha deixado expresso o meu desejo de que este filme passasse em Portugal, e as distribuidoras fizeram-me a vontade. As salas de cinema (poucas, e só em Porto e Lisboa) exibem agora Kon-Tiki, o filme norueguês que chegou a ser nomeado para o Óscar de "melhor filme estrangeiro", e que como o nome indica, relata a viagem imprevisível que o aventureiro Thor Heyerdahl empreendeu em 1947, desde as costas do Peru até à Polinésia. Um percurso de quase 7000 kilómetros e mais de cem dias, em que seis homens singraram numa jangada construída segundo métodos de outrora, para desvendar que os habitantes da Polinésia descendiam não de povos vindos da Ásia mas sim das Américas, e que por meio de jangadas tinham percorrido boa parte do Pacífico, à mercê dos elementos. Heyerdahl queria a todo o custo provar a sua teoria, e com mais cinco companheiros singrou pelos mares fora, anotando tudo o que lhe parecia relevante, filmando e realizando uma película que ganharia o Óscar de Melhor Documentário. Agora, a sua aventura é contada em filme, mostrando as teorias, as hesitações, a determinação para levar a cabo uma empresa na qual ninguém acreditava, o sacrifício da vida familiar, os momentos de angústia (a imensa calmaria no meio do Pacífico, a fauna oceânica a rondar, as tempestades), o companheirismo, a Fé...não sendo uma obra-prima, é um filme de aventuras à antiga, e ainda por cima baseado numa aventura autêntica, das últimas viagens de descoberta feitas no nosso planeta antes do Google Maps desvendar todos os recantos. Deixem os filmes da moda para depois, porque ainda ficam mais uns tempos, apanhem este antes que saia das salas e apreciem uma aventura marítima dos tempos modernos feita numa jangada vetusta, que seguiu a direcção do Sol.
 
 

segunda-feira, julho 08, 2013

Para uma belíssima história de espionagem (real)


As histórias de espionagem têm sempre umas lascas de romance amoroso ou de humor. A da fuga de Edward Snowden para países pouco dados à liberdade de expressão, além de irónica, parece querer juntar uns pozinhos que a podem tornar ainda mais apetecível: agora é Anna Chapman, a "Mata-Hari russa", a sensualíssima espia presa nos Estados Unidos e recambiada para a Rússia numa troca de espiões, que se quer casar com Snowden para que este adquira cidadania russa que impeça qualquer extradição para os EUA. O americano, que está há vários dias na zona de trânsito do aeroporto de Moscovo, não se negou a este plano (e alguém o pode criticar?), que pode pôr fim à sua fuga. Chapman já tem uma história que seguramente dava um bom livro ou filme (rave partys e casamentos em Inglaterra, espionagem em Nova York, actividades na juventude do partido do poder na Rússia como recompensa, etc), e esta novidade promete um bom desenvolvimento. Espera-se que John Le Carré ou qualquer autor de semelhante gabarito se cheguem à frente para redigirem esta belíssima (como a protagonista) história de espionagem que já está praticamente escrita.
 
 
 
 
 

domingo, março 10, 2013

Antes da deslocação à Gironde

 
O Benfica lá conseguiu vencer os girondinos, por escasso 1-0, graças a uma bomba de Rodrigo (que a UEFA, no seu futebolisticamente correcto, atribuiu ao guarda-redes Carraso), e pouco mais. É provável que em Bordéus se ultrapasse a equipa da casa, mas vai ser preciso suar um pouco mais. Verdade seja dita que os franceses não têm a mesma equipa que se sagrou campeã em 2009, sob a batuta de Gourcuff, nem contam com um Pauleta, um Chalana, e muito menos um Zidane. E acima de tudo não têm um líder com bolsos largos como o que presidiu ao clube nos anos oitenta, Claude Bez. Este excêntrico presidente, que contratou o "pequeno genial" Chalana por um valor recorde em 1984 (graças ao qual o Benfica fechou o Terceiro Anel), e que tinha uma imagem de milionário americano do Texas (usava um chapéu de texano, farto bigode e conduzia um Cadillac, mesmo quando ia a estádios adversários), tornou o Bordéus a força dominante do futebol francês da década de oitenta, tomando o lugar ao Saint-Etienne. Contratou grandes jogadores, como o génio do Barreiro, conquistou alguns títulos, e pelo meio venceu o Benfica numa eliminatória, antes do Marselha lhe arrancar a hegemonia do futebol gaulês, liderado por um dos grandes inimigos de Bez, o celebérrimo Bernard Tapie (mas esse não conseguiu ultrapassar o Glorioso).
 
Os anos oitenta passaram, Bez também, mas o Bordéus de vez em quando lá ganha um campeonato francês. Desta vez perdeu com o Benfica, e se tudo correr bem ficará pelo caminho. Agora tem um presidente que, com a época a correr pior, chama aos jogadores "passarinhos e galinhas". Não sei se Bez lhes dizia tais coisas no seu tempo, mas como o clube estava na mó de cima, é difícil imaginar. Pena, pena, é que cada vez mais os clubes tenham à sua frente gestores cerebrais com boas referências das empresas financeiras por onde passaram - ou pior, sheiks árabes ou oligarcas russos - e não líderes de carisma e amor paternal ao clube, que com todas as suas excentricidades, erros e frases fortes, marcam as colectividades e o seu tempo.
 
 

terça-feira, janeiro 29, 2013

Surfando uma muralha de água


Hoje é impossível escapar a esta imagem avassaladora, ainda que igualmente enganadora. Ainda estamos em Janeiro, mas uma das fotos do ano será inevitavelmente esta que está reproduzida em baixo. E Garrett McNamara, se realmente ultrapassou o seu próprio recorde, vencendo uma onda de trinta metros, torna-se por direito próprio no maior cavaleiro de ondas à escala mundial.
 
 

terça-feira, janeiro 22, 2013

Sucesso no "Dakar"


O "Dakar" de 2013 chegou ao fim, e Ruben Faria ficou em segundo lugar na prova de motas, a melhor posição de sempre de um português na competição. Para um auxiliar do seu companheiro e estrela da equipa, numa prova dificílima, é um resultado soberbo e que merecia maior atenção, tanto mais que num tempo de depressão colectiva (ou eufemisticamente falando, pior humor), as boas notícias de feitos portugueses devem ser sempre tidas em conta.
 
Mas reportando-me ao post anterior, e tendo em conta que a prova, que se mudou para a América do Sul e para o Atacama há uns anos por medidas de segurança, conserva símbolos do traçado original pelo Norte de África (a começar pelo nome, que inicialmente até era Paris-Dakar), pergunto-me se o logótipo irá permanecer? É que alguns tuaregues, outrora com uma imagem pacífica, ficaram conotados com o jihadismo e fanatismo islâmico, principalmente os do Ansar Dine. Conservar-se-à a imagem gráfica, símbolo de exotismo e aventura, ou, para não enaltecer o fundamentalismo maometano, será a prazo substituída por qualquer logótipo estilizado de um inca do Atacama?
 


 

terça-feira, dezembro 21, 2010

De Yaoundé ao Monte Ararat

Apoula Edel é um guarda-redes nascido nos Camarões, que cedo se mudou para o Pyunik Yerevan, clube da capital da Arménia, e que depois de alguns anos se naturalizou arménio, passando a defender a baliza da selecção daquele estado do Cáucaso. Passou ainda pelos romenos do Rapid de Bucarest, antes de desembocar no Paris Saint-Germain. Actualmente é titular na equipa da capital francesa.


Dificilmente conseguirei encontrar melhor caso para exemplificar a globalização. Perfeito era que o keeper passasse ainda pelo Atletico de Cali, da Colômbia, pelo South Perth, da Austrália, antes de acabar a carreira no Qatar. Isso sim, era O futebolista global (ou sem pátria, se quiserem) por excelência. Mas assim como está já é bom.


Só mesmo o futebol, para nos mostrar arménios nascidos nos Camarões, que trocam a humidade do Equador pela sombra do Ararat. Também assim se comprova a beleza deste desporto.

quinta-feira, julho 23, 2009

Pirataria


A vaga de pirataria que assola o Índico e a saída do Mar Vermelho com origem na Somália é tema corrente dos últimos meses. Uma das mais concorridas rotas marítimas do globo, ponto de ligação entre o Mediterrâneo e o Índico, e portanto da Europa e Ásia, passa por momentos de tensão e risco acentuados pela crise económica e financeira global.

Os habituais articulistas do tão ouvido "como é possível em pleno Século XXI" espantar-se-ão com este fenómeno que parece tão afastado dos "nossos dias". Hoje, pirataria é sinónimo de assaltantes de aviões, hackers informáticos e falsificadores de suportes musicais (e daquele partido sueco que ganhou um lugar no Parlamento Europeu). Por piratas originais, os dos mares, lembramo-nos sempre do Jolly Roger, dos desafortunados que dão sempre de caras com Astérix e Obélix, os corsários Drake e Jean Laffite, o sanguinário Black Beard e capitão Kidd; e, claro, Long John Silver e respectiva pandilha do imortal A Ilha do Tesouro, de Stevenson, que todos lemos no início da adolescência. Pelo cinema também nos veio o mito dos "Ladrões do Mar", através de Errol Flynn, Douglas Fairbanks, Gene Kelly, Roman Polansky (numa deriva mais descontraída, com Walter Matthau, e cujo navio do filme, o Neptuno , pode ser admirado no porto de Génova), e, mais recentemente e com grande sucesso, Johnny Depp e série Piratas das Caraíbas.


Ora o espanto nem terá muita razão de ser. Se os mares das Caraíbas já não são pasto de ingleses e holandeses renegados, e se os turcos e barbarescos já não aterrorizam o Mediterrâneo e as ilhas Atlânticas, os Mares da China e do Sudoeste Asiático já há muito que conhecem bem o fenómeno nos tempos actuais. O que se passa entre o Corno de África e o Golfo de Adem passa-se igualmente no Estreito de Malaca, onde o tráfego marítimo entre o Índico e o Pacífico (um quarto do comércio mundial) é constantemente ameaçado pelos ataques a navios mercantes de potentes embarcações que surgem entre as numerosas ilhas entre a Malásia e a Indonésia. Apesar de tudo, a pirataria decresceu consideravelmente a partir de 2006 desde os acordos com as guerrilhas de Aceh e de um maior patrulhamento da zona.

Os ataques de piratas à volta do Corno de África datam, mais a sério, de 2005. A pulverização do estado somali, em 1991, entre vários territórios e Senhores da Guerra, conduziu à anarquia e à guerra civil, a que nem a intervenção da ONU conseguiu pôr cobro, gorada depois das imagens de corpos de marines americanos arrastados em Mogadíscio. A ausência de ordem no território (com a possível excepção da Somalilândia, a Norte), a miséria e as constantes guerras entre os Tribunais Islâmicos, o "governo "interino moderado apoiado pela Etiópia e os EUA, e milícias várias levaram à procura de novos meios de subsistência, e que logo se converteram nova fonte de lucros. Sem autoridade em terra, pescadores e guerrilheiros iniciaram-se em actos de pirataria, utilizando para tal barcos velozes e facilmente manobráveis, armados até aos dentes com armas ligeiras e levando até consigo contabilistas, tradutores e técnicos munidos de computadores portáteis, não só para se orientar no mar mas igualmente para calcular os valores apreendidos. Têm base em cidades costeiras como Haradhere, que graças à pirataria conhecem uma nova era de prosperidade. Multiplicam-se os pontos de fornecimento de produtos, restaurantes e locais de entretenimento, e a construção civil também prospera, com o efeito dominó do boom desta economia clandestina (como tudo na Somália). Não admira assim que piratas tenham o apoio maciço da população local e de vários senhores da guerra, já que todos beneficiam directamente com isso. A guerra e a luta pela sobrevivência que se verificam naquela terra sem dono, ou com demasiados donos, prolongam-se consequentemente no mar, sem autoridade que as impeça. E continuará a vingar enquanto não existir uma Somália minimamente normalizada. Ou seja, pode durar ainda muitos anos, porque a situação não dá mostras de melhorar. Antes pelo contrário, como se vê numa Mogadíscio sem rei nem roque, dividida entre duas facções que a pretendem controlar a qualquer preço.



Também a capacidade de actuação aumentou imensa e espantosamente, não só no raio de acção mas também na dimensão física das capturas. Em Novembro apoderaram-se do super petroleiro saudita Sirius Star, de 330 metros de cumprimento e com uma carga de dois milhões de barris de crude, a 450 milhas marítimas da costa de África, que causou grande espanto até mesmo em Haradhere. Só através de um resgate de perto de 15 milhões de dólares é que libertaram o navio e respectiva população. e em Setembro do mesmo ano capturaram o Faina, navio ucraniano que transportava tanques russos T-72 e artilharia anti-aérea. Devolveram-no à procedência contra o pagamento de 3 milhões de dólares.



Com tais perturbações ao comércio marítimo mundial, foi necessária a intervenção da Task Force internacional com base no porto de Djibouti, cujas tarefas eram até então de apoio a tropas americanas no Médio Oriente, e de vários outros estados, como a Rússia, a china e a Índia. Também a NATO enviou uma força naval permanente, uma flotilha de oito navios, comandados pela fragata portuguesa Corte-Real. A armada portuguesa teve por isso de patrulhar aquela vastíssima área e consegui impedir ataques a vários navios, capturando algumas embarcações piratas. Teve porém de libertar os seus ocupantes porque a Convenção da ONU sobre Direito do Mar só considera cmpetentes para julgar piratas as autoridades do próprio país de onde são provenientes ou daquele ao qual pertenceriam os eventuais lesados.

 
A Corte-Real regressou há dias a Portugal, mostrando com assinalável orgulho algumas lanchas capturadas aos piratas somalis. Pode parecer pouca coisa, mas só a presença portuguesa em águas do Índico revela não só o cumprimento dos seus deveres a nível internacional (o comércio marítimo afecta a todos), mas é igualmente uma mostra de prestígio e da confiança que é atribuída ဠnossa força naval por parte da NATO. E ainda outro aspecto importante, este mais do domínio da memória: quatro séculos depois de dominar o Índico, de ocupar a entrada do Golfo Pérsico e respectivos portos estratégicos de Ormuz e Mascate, de ameaçar subir o Mar Vermelho até ao Egipto, sob os Almeidas e os Albuquerques que tanto temor inspiraram naquelas paragens, Portugal regressa com a sua força naval para ajudar a limpar aquela região da pirataria que a infesta. A diferença é que num Mundo multipolar e tecnológico abarcando organizações internacionais de variada natureza, já não é uma actuação solitária, mas inserida num conjunto de várias nações unidas com um objectivo comum.



Assim se retomam velhos ciclos: a pirataria, que tantos julgavam coisa do passado, aí está, com outros meios mas com propósitos iguais. E Portugal, que no passado tanto combateu com assinalável sucesso naquela mesma região, envia o navio-almirante de uma importante operação naval da NATO. Há coisas que nunca mudam definitivamente.

Sugestão: e já que falamos em piratas, a Cinemateca Nacional exibe por estas alturas um ciclo de filmes de piratas, sempre às 22.30 na Esplanada. Quem estiver em Lisboa e puder ir tem aqui um bom entretenimento, bastante aconselhável a apreciadores do gênero.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Outro aventureiro: Thesiger


Falando em aventureiros árabes, há que relembrar igualmente Wilfred Thesiger, esse incansável caminhante dos desertos, que morreu há escassos cinco anos. Se tivesse ido mais além faria inveja a Corto Maltese. Deixou-nos as suas memórias dessas expedições no livro Pelos Desertos das Arábias (Arabian Sands), em Portugal publicado na Europa-América.

Recordando Sir John Bagot Glubb, comandante da Legião Árabe
A recordar este autêntico aventureiro das Arábias, Glubb Pasha, faço apenas um pequeno acrescento: a sua demissão deu origem a um mal entendido entre Nasser e Anthony Eden, e à fúria do Primeiro-ministro britânico, o que avolumou as tensões que levaram à crise do Suez, em 1956. Pensa-se também que em caso de ataque israelita à Jordânia, as tropas inglesas (e a Legião Árabe) não actuariam, seguindo ordens do próprio Glubb. Uma exoneração ainda com muitas interrogações por parte do Rei Hussein, mas que nem assim quebrou a amizade entre os dois homens.

domingo, julho 13, 2008

A toxicodependência idolatrada

É fácil criticar e até ser moralista quando se fala de Amy Winehouse, como disse um jornalista do Público. Concedo. Mas também não é difícil ouvir-se as suas músicas a toda a hora, ler-se coisas sobre os seus desvarios, as suas detenções, os problemas conjugais, os concertos falhados, etc. que acabam por fatalmente criar uma opinião no público, que ora a desculpa, ora a condena, ou então limita-se a dizer que "esse mundo é mesmo assim".

Ora acontece que eu simpatizo pouco com Winehouse, as suas birras e a sua popularidade. Lembro-me dela no início da sua carreira (que em casos normais faria com que a apreciasse, naquele sentimento tão comum e possessivo do "eu conheci-a muito antes"), quando a vi num videoclip, ainda sem os vestidos curtos e o cabelo comprido e enrolado que a caracterizam hoje. Era num qualquer café, à noite, e comentei com um amigo que achava a voz poderosa, mas que a total falta de graciosidade da rapariga não lhe dariam notoriedade no futuro. Enganei-me redondamente, como está à vista. Mas se Amy é hoje muito conhecida, deve-se bem mais aos seus problemas pessoais do que à sua voz ou aos temas que canta. Não há semana que não passe que não se ouça falar da prisão do marido, de um espectáculo falhado ou de uma tentativa de reabilitação gorada, de tal forma que o seu maior êxito, Rehab, trata mesmo da recusa de se tratar. No recente Rock in Rio de Lisboa, voltou a fazer uma figura deprimente (quase não se aguentava em palco), perante 90 mil pessoas e em directo para rádios e televisão. Nos habituais comentários bloguísticos, houve quem condenasse tais atitudes e houve também que a defendesse, até com um comovente "ela mostrou que era tão humana como qualquer pessoa". A mim parece-me o contrário: quantos indivíduos se podem dar ao luxo de aparecer sob o efeito de álcool e estupefacientes no trabalho, reiteradamente, não cumprindo as suas tarefas com um mínimo de competência? Dir-se-á que com os artistas é diferente, que a criatividade tem os seus custos, que desde que cumpram não tem importância, que aquele mundo é mesmo assim. Poderá ser, e até não fará mal ao mundo se cumprirem em palco, mas acontece que de Amy mal se percebiam certas palavras, e que as pessoas que enchiam o recinto tinham dado uns preciosas 53 €uros sobretudo para a ouvir.

Depois, claro, além de toda a condescendência com os vícios dos artistas apenas por o serem, há as habituais desculpas para quem se droga, talvez porque o vício surja em momentos de particular debilidade emocional ou psicológica. Mas neste caso exagera-se. A droga é mais claramente tolerada do que o álcool e do que o fumo (de tabaco, evidentemente). Aquelas incríveis noções de um qualquer site que para aí havia, em que um betinho era alguém "desprezível" que não tomava drogas são elucidativas. Segundo algumas correntes, um tipo que se droga ou é um herói, caso se trate de uma figura pública, mormente do espectáculo, ou um coitadinho sem culpa nenhuma, mesmo que ninguém o tenha obrigado a ir por aí. Daí que muitas vezes um bêbado (e nos tempos mais recentes um simples fumador) seja visto com mais desprezo que um frequentador de um CAT. E que um música famoso tenha logo desculpas por ser "humano".


A um músico não se pede para ser desumano, pese toda a idolatria e endeusamento que deles se apropriam, e que por vezes são responsáveis por essas situações: pede-se que caso tenha público e deseje mantê-lo, o respeite e deixe as figuras deprimentes para os momentos de ócio. Que as pessoas dêem por bem gasto o dinheiro dos espectáculos e não recorram à pateada. E que não venham fazer-se de vítimas para a comunicação social. As pessoas comuns não têm jornais para as defender dos seus problemas do quotidiano, nem margem para se pedrar à vontade.

Eis porque aguento muito pouco Amy Winehouse. Para mais, continua com aquele rosto canino que tinha desde a primeira vez que a vi.

Mas já agora aproveito para falar de um amigo seu por quem tenho igual "estima": Peter Doherty. Um tipo que consegue ser ainda mais drogado, que acabou com a sua anterior e mui promissora banda, os Libertines, e que é mundialmente conhecido por ter namorado com Kate Moss e por andar sempre aos tombos. De tal forma que quando veio recentemente a Lisboa com a sua nova banda, os Babyshambles, para um concerto no Lux, a piada que circulava era "onde estáDoherty? Em Monsanto". As dependências tiraram-lhe o ar vivaço que já teve e tranformaram-no no que é hoje: um alucinado com cor de vampiro antes da refeição sanguínea, roupa e chapéu retirados do Madame Toussaud e aspecto geral cadavérico é o grande herói do rock dos nossos tempos. Havia tantos por onde escolher e tinha de ser logo um zombie destruidor de bons grupos musicais.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

O adeus do Je Mantiendrai e a recordação de Thesiger

O Je Mantiendrai fechou as portas. O distinto blogue, que se apresentava com a divisa neerlandesa, vai pregar noutra freguesia. Achava-lhe uma certa piada pela estética nobilesca e requintada, entre a aristocracia inglesa, a iconografia militar japonesa e demais preciosidades orientais, mais do que propriamente as ideias, demasiado pré-modernas para meu gosto.
O anónimo autor comunica-nos que irá para "terras mais distantes". Deixa-nos, como despedida, abundante prosa e imagens remetendo-nos para os aventureiros ingleses, que depois de cursarem em Eton e Oxford, e antes da reforma nos respectivos clubes, defenderam o Império Britânico onde o havia; para os exploradores do mundo ignoto; para os que não se limitaram aos livros mais trepidantes sobre o assunto, fazendo da sua carreira matéria para mais um, nos campos de batalha, nos mares, nas selvas, nas areias escaldantes. E a propósito do deserto, é pena que não tenha incluído algém um pouco arredado da memória nestas ocasiões, e que cumpriu esse desempenho de maneira exemplar: Sir Wilfred Thesiger.