Mostrando postagens com marcador contrastes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contrastes. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, novembro 14, 2013

Alvorada dominical catalã


Numa passagem por Barcelona, cidade que não conhecia ainda, pela alvorada, eis o que presenciei entre o Barri Gotic e a Rambla:

- Um grupo de "perroflautas" italianos, provavelmente atraídos por alguma fama anarquista da   cidade, de aspecto imundo, a dormir na rua ou a beber

- Outros noctívagos a recolher dos bares espalhados pelas ruelas medievais

- Varredores começando a recolher os vestígios da noite que acabava

- Orientais passando com malas em direcção ao porto

- Corredores a fazer o primeiro running do dia

- Feirantes, ou coisa parecida, a erguer as suas bancas para uma anunciada feira de filatelia e selos, na Plaza Reial

- A Igreja de San Jaume de portas abertas, com frades e freiras a orar para o primeiro ofício de Domingo. Aqui, um homem que parecia uma mistura de peregrino com um mendigo, francês que fazia questão de falar catalão, parecia estar de guarda ao portal para impedir que alguém entrasse, e explicou-me que estavam a rezar dominicanos e franciscanos em conjunto, uma reunião não muito óbvia.

O amanhecer numa grande cidade europeia permite-nos esta mistura surpreendente, que não veríamos a outras horas nem talvez num dia de semana.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Ornatos vivos e pérolas arruinadas


É hoje que os Ornatos Violeta retornam aos palcos, no acolhedor anfiteatro de Paredes de Coura. Um regresso há muito esperado, como o comprovam os quatro concertos agendados para Outubro, no Porto e em Lisboa, há já algum tempo esgotados, mesmo com reforço de datas. No Alto Minho também não deve faltar público. Os Ornatos marcaram o fim dos anos noventa, e embora tenham lançado apenas dois álbuns, tornaram-se uma banda de (enorme) culto, ao mesmo tempo que se pulverizavam em inúmeros outros projectos, sobretudo do seu frontman, Manuel Cruz. Não deixarão certamente de tocar músicas como Ouvi Dizer, Capitão Romance (provavelmente sem o dueto com o vocalista dos Violent Femmes), a Dama do Sinal ou Punk Moda Funk.

Esta última, primeira faixa do primeiro álbum do grupo, abre logo a matar (com um corrosivo "quero mijar"), revelando a primeira faceta dos Ornatos, mais rocker, mais subversiva, com um vídeo ainda de qualidade incipiente. Mas chamou-me a atenção para um pormenor, o do lugar onde a banda encena a música.

 

Talvez pelo seu aspecto já decadente, escolheram a casa da quinta do Montado, ou Marques Gomes (nome do construtor), um palacete hoje decrépito no alto de uma colina em Canidelo, Gaia, perto da Afurada, bem visível da marginal da Foz do Douro. Não faltam na net imagens do exterior e dos interiores do palacete arruinado, com uma aura de imponência classicista, que, talvez pelo seu aspecto, tem, como não podia deixar de ser, fama de ser assombrado (pelo menos a acreditar num livro recente sobre o assunto).

Porque terão escolhido os Ornatos violeta semelhante cenário para o seu primeiro videoclip? É difícil de dizer. Mas há um interessante contraste entre as músicas corrosivamente juvenis do fim dos anos noventa e esta jóia arruinada. Talvez quisessem tomar um cunho de certa marginalidade e usassem um espaço devoluto, para acentuá-la, ainda que com requinte. O que é certo é que os Ornatos voltaram à vida e uma legião de fãs correm a assistir. Entretanto, todos podem também "assistir" ao palacete, e sem pagar bilhete. Mas neste caso, não se trata da sua ressureição, mas da morte lenta. O edil Luís Filipe Menezes, sempre pronto a abrir a bolsa, não tem nenhum plano para o local, ou já só pensa noutro edifício com uma torre, mas do outro lado do rio, no alto não de uma colina mas da Avenida dos Aliados?


terça-feira, março 15, 2011

O regresso da manifestação dos "rascas"


Estive na manifestação "apartidária, laica e pacífica" da "geração à rasca". Estive seriamente para não aparecer, pela mensagem vaga e ambígua, pela falta de substância já esperada nos protestos e por estar à espera de ver gente que tudo exige e nada quer dar.
Mas à última da hora compareci nos Aliados - porque a multidão já tinha transbordado do "ponto de encontro" inicial, na praça da Batalha. Fi-lo porque apesar de tudo a maior parte dos que protestavam faziam parte da "Geração Rasca", da qual sou membro de pleno e flagrante direito, uma vez que participei nas manifestações contra as provas globais no longínquo Maio de 1994, cujos excessos escritos e escatológicos levaram a que no dia seguinte Vicente Jorge Silva inventasse a classificação.


Estava realmente uma enorme multidão, de várias idades e aparências. Claro que o que se fazia notar eram os cartazes mais ousados ou originais, e, para não variar, os sempiternos anarquistas, que entre tranças e fumos duvidosos não perdem uma ocasião para reclamar pela "auto-gestão" e clamar contra a "exploração capitalista". Havia quem levasse animais de estimação, bandeiras, fatiotas bizarras e as suas reivindicações pessoais em cartaz. Havia também um microfone para que todos os que o desejassem pudessem falar. Aí percebia-se melhor o ecletismo da massa. Havia quem se queixasse de não arranjar emprego e andar a recibos verdes, e também quem carpia mágoas por não conseguir montar a sua própria empresa ("o simplex não passa de uma treta", ouvi a certa altura a um orador). Havia empresários desiludidos e ociosos exigentes. Provavelmente estariam ali ideias muito divergentes quanto às soluções para que a sociedade se "desenrascasse" (e também quem queria simplesmente acabar com a sociedade, como os anarcas). Por fim, havia os curiosos, a tirar fotografias, num misto de solidariedade e curiosidade sociológica.


Devo dizer que não me senti exactamente entre "os meus", até pelos poucos conhecidos que encontrei. Muito do que vi e ouvi nada tinha a ver comigo nem o defendia minimamente. Mas toda aquela multidão, a do Porto e de todas as outras cidades, por muito vaga e equívoca que estivesse, não pode ser ignorada nem menosprezada. Representa boa parte da sociedade civil activa (oportunismos das juventudes partidárias à parte), uma fatia de leão da faixa etária entre 20 e 35 anos, e personifica um mal-estar colectivo que se detecta em qualquer café de bairro ou transporte público. É a esse mal-estar que, embora pacífico, convém estar atento e dar-lhe muita atenção, sob pena de se tornar explosivo num futuro não muito longínquo e de uma geração inteira se perder. A ela e ao país.

terça-feira, dezembro 21, 2010

De Yaoundé ao Monte Ararat

Apoula Edel é um guarda-redes nascido nos Camarões, que cedo se mudou para o Pyunik Yerevan, clube da capital da Arménia, e que depois de alguns anos se naturalizou arménio, passando a defender a baliza da selecção daquele estado do Cáucaso. Passou ainda pelos romenos do Rapid de Bucarest, antes de desembocar no Paris Saint-Germain. Actualmente é titular na equipa da capital francesa.


Dificilmente conseguirei encontrar melhor caso para exemplificar a globalização. Perfeito era que o keeper passasse ainda pelo Atletico de Cali, da Colômbia, pelo South Perth, da Austrália, antes de acabar a carreira no Qatar. Isso sim, era O futebolista global (ou sem pátria, se quiserem) por excelência. Mas assim como está já é bom.


Só mesmo o futebol, para nos mostrar arménios nascidos nos Camarões, que trocam a humidade do Equador pela sombra do Ararat. Também assim se comprova a beleza deste desporto.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Cobardias e contrastes

Estranhos tempos, estes, e estranho continente, aquele em que habitamos. Vemos chegar o presidente de um estado que não permite a liberdade de expressão, de manifestação, que reprime as religiões e que comete um genocídio cultural sobre o Tibete (para não falar das atrocidades cometidas contra o seu povo por via armada). Quase ninguém se manifesta, e mesmo esses, aliás pacíficos, são afastados para a margem da margem.

No mesmo dia, um Papa é recebido em Barcelona com insultos, provocações e cartazes de protesto. Os opositores estão longe de ser uma multidão, mas os diversos órgãos de comunicação social dão mais ênfase a isso do que aos muitos mais que o acolhem. A viagem papal tinha o duplo objectivo de visitar Santiago de Compostela em ano de Xacobeo e de consagrar a Catedral da Sagrada Família como Basílica. A obra-prima de Gáudi, eternamente incompleta, é já o símbolo máximo da cidade condal, mas nem sempre os seus habitantes a respeitaram ou preservaram. Os anarquistas já foram a maioria em Barcelona, em alturas da guerra civil, por isso o seu anti-clericalismo já vem de longe. Os manifestantes que vimos nas imagens são descendentes da miscelânea de anarquistas, comunistas, trotsquistas, socialistas e demais republicanos que se juntaram um pouco contra natura para combater os nacionalistas de Franco (e entretanto, para se combater entre si). Coragem teve o Papa em passar entre fileiras de gente que o odiava, de um lado, e que o aclamava, do outro - uma boa metáfora da Espanha actual. A Sagrada Família (porventura a única verdadeira razão que me levaria àquela cidade) e mestre Gaudi mereciam-no, e a mensagem cristã, para ser espalhada, também exige coragem. Mas é espantoso como muitos vêem o Papa como uma real ameaça física, como se os Estados Pontifícios ainda existissem e tivessem a prerrogativa de organizar Cruzadas, a não ser que o vejam como uma ameaça no campo das ideias e de influência moral, e aí já lhes mais razão. Mas a prova do limitado poder terreno do Sumo Pontífice é exactamente o exibicionismo dos seus contestatários e os órgãos de comunicação social, mostrando-os até à medula, levados pelos airs du temps. Caso contrário, nem se atreviam a mostrar o nariz num raio de dez quilómetros. Como aconteceu com Hu Jintao, cujo regime foi olimpicamente ignorado por quase todos por mero temor reverencial e económico e em troca de alguns yuans. Com esses os "corajosos" apupadores do Vaticano não tugem nem mugem.

quarta-feira, junho 23, 2010

Odiozinhos desnecessários


Entre as numerosas reacções da morte de Saramago, houve um pouco de tudo, desde as loas esperadas ou as comparações com Camões, até manifestações de maior azedume. A ausência de Cavaco parece-me pouco significativa. Talvez devesse lá comparecer, mas não vale a pena esbracejar, como o tentou fazer Louçã e uns quantos jornalistas, até porque na altura estava nos Açores. Chamou-me mais a atenção uma outra reacção e um contraste. O Observatore Romano comentou a morte do escritor de forma extremamente dura e amarga, referindo-se-lhe como "populista e extremista", de "ideologia anti-religiosa e marxista", sem "nenhuma admissão metafísica".

Bem sei que a relação entre o escritor e a Igreja era difícil e até hostil. Para além de alguns dos seus livros, ainda houve os constantes remoques de Saramago, como as picardias a propósito do seu último livro, ou quando disse, num acesso de primarismo, que "as religiões só serviram para dividir os homens". Nunca simpatizei particularmente com a criatura. Mas a Igreja tem como missão salvar as almas e espalhar a Boa Nova, procurar a conciliação e o perdão. Deve procurar que qualquer criatura humana atinja a salvação, mesmo que tenha tido toda uma vida contrário aos valores cristãos. Não é fazendo obituários ressentidos que dá o bom exemplo. Só consegue assim mostrar espírito vingativo e prolongar as querelas para além da morte do velho adversário. Para mais, numa altura em que o Papa tenta a reaproximação entre a Igreja e a Cultura, esta atitude atira por terra uma boa parte desse esforço, qual Sísifo ressabiado. Não é possível querer chegar aos agentes culturais atirando-se àqueles que a vituperam na hora da sua morte.

Em claro contraste com o artigo do jornal, a Igreja católica portuguesa, através do comunicado emitido pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, lamentou a morte do escritor, e muito embora recordasse as polémicas que com ele manteve, não deixou de o considerar um "grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura", aludindo ainda ao seu interesse pelo texto bíblico e a "vivacidade do debate" que daí decorreu. Não deixou que as suas amargas críticas se sobrepusessem à criação literária e à relevância artística do autor. Deu um salautar exemplo de cristinianismo - caridade, sensibilidade cultural, conciliação - que devia fazer pensar os jornalistas do Observatore Romano.

Bento XVI veio a Portugal também com o intuito de mostrar aos nossos prelados alguns exemplos de boa prática eclesial, universalidade do catolicismo e divulgação cristã, para além de discursos redondos e cerimoniazinhas sem nexo que por cá se vêem. Mas por uma vez, a Igreja portuguesa mostrou-se à altura de dar algumas lições a Roma. Que a aproveitem.

sexta-feira, abril 30, 2010

A greve e a falsa colisão de direitos



O direito à greve é coisa que não me entra na cabeça. Falo em sentido amplo, bem entendido. Que um grupo de pessoas se manifeste por um direito que entende merecer ou contra uma situação presumivelmente injusta é coisa que percebo perfeitamente, mesmo que discorde. O que eu francamente não entendo é o direito à greve tal como está plasmado na actual Constituição. Dá-se mais direitos aos grevistas do que a quem quer trabalhar. E estes últimos podem fazê-lo por uma quantidade de razões, como a de precisar mesmo de trabalhar por atravessar uma situação económica grave, ou não concordar com os motivos da greve. Assim, a permissão constitucional a piquetes de greve é uma aberração completa, que só prejudica quem trabalha. Os "vermelhos" acabam por ter mais direitos que os "amarelos" por razões que deviam ser inversas.


E o mesmo se pode dizer de todos os que são torpedeados pelas greves na função pública. A simples proibição da CRP de não haver alternativas aos transportes públicos é não apenas uma vénia aos senhores que por qualquer razão resolveram parar as suas actividades, mas também uma quebra de compromissos para com os utentes. Um serviço público não é uma agência de empregos nem uma associação sindical: serve para desempenhar determinada tarefa considerada essencial para a fruição da população, para prosseguir uma finalidade considerada necessária, e que exige por isso determinadas atenções. Assim, se aos grevistas é permitido formar piquetes e não se pode assegurar serviços mínimos que permitam que as pessoas se desloquem para os seus locais de trabalho, quando muitas vezes não têm qualquer alternativa, o Estado penaliza quem nada tem que ver com as birras grevistas e ainda tem que aguentar por vezes com penalizações salariais. Por causa de uma pequena classe profissional, como os maquinistas da CP, centenas de milhares de pessoas vêem-se prejudicadas, quando muitas vezes não podem elas próprias "furar" o trabalho. Qual a sua legitimidade, pergunta-se? E já agora porquê a proibição a alternativas? O direito à greve da minoria sobrepõe-se ao direito ao trabalho, à remuneração e ao transporte da maioria? Não sei quais os fundamentos politico-ideológicos de tais preceitos constitucionais que ainda existam, mas bem podiam ser objecto de uma revisão constitucional futura, dada a sobreposição de direitos, que por isso mesmo, nem sequer colidem.

E não esperem os senhores dos sindicatos de transportes públicos qualquer "solidariedade" para com a "sua luta". Quem não respeita os outros não pode pedir qualquer tipo de compreensão.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Um deserto?
Eis o possível futuro resultado do sorvedouro de recursos, gente e meios que é o litoral português, entre Braga e Setúbal, em especial a Grande Lisboa. Os aziagos áugures que profetizavam um deserto em Portugal podiam estar cobertos de razão. A visão da travessia de um deserto entre uma e outra pequena cidade é bem real, infelizmente. Impõe-se a pergunta costumeira e sem resposta: que fazer? Certo é que se um país condena uma parte do seu território a tornar-se um deserto, perde também a soberania correspondente.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Uma desilusão, um exemplo e um equívoco



A maior desilusão destas autárquicas, mesmo antes dos votos, tem um nome: Elisa Ferreira. Começou com a bi-candidatura ao Parlamento Europeu e à CMP, com desculpas apressadas e convincentes. Houve depois um período de acalmia antes de cair numa espiral de disparates: a história da "gamela" de Bruxelas (onde revelou que se trabalha pouco), acusações sem sentido, uma lista para a câmara de notáveis da cultura que não se imagina a trabalhar a tempo inteiro na câmara, uma campanha gráfica confusa e populista, e agora vem com a futebolização das eleições. Elisa acha que Rio, com as suas desavenças com o FCP, colheu "o apoio de seis milhões de benfiquistas", e ainda que "quem se portou impecavelmente foram os portistas, que disseram que uma coisa é futebol, outra é política e até o elegeram". Não diz é porque raio é que o autarca quereria esse apoio dos benfiquistas. Somos assim tantos no Porto? Nunca me apercebi. Toda a minha vida devo ter tido ilusões de óptica, ou então não conheci as pessoas certas. Mais um tiro na água de quem se esperava mais. Nem o apoio de Pinto da Costa lhe vale.
Também no Porto, e para que conste, relembro as circunstâncias da primeira vitória de Rui Rio. Fernando Gomes, que gozava de grande popularidade na cidade (tanto que teve maiorias esmagadoras), resolveu experimentar o cargo de ministro da Administração Interna e renunciar à Câmara. As coisas não correram bem, e voltou algum tempo depois a concorrer à CMP. Para grande surpresa, perdeu as eleições. Além de algum desgaste do seu projecto, a sua ida para Lisboa e a ideia de que regressava meramente para ocupar um lugar onde se tinha acomodado não caiu bem entre os portuenses, que não o reconduziram ao lugar. Uma lição cívica e um sinal de inteligência dos eleitores
Santana Lopes foi eleito para a CML em 2001. Em 2004, como se sabe, rumou ao Governo; antes, porém, acautelou-se e suspendeu o mandato autárquico, sem renúncia. Derrotado em Fevereiro de 2005, não assumiu o lugar de deputado e voltou a ocupar o gabinete da presidência na autarquia, desapossando Carmona Rodrigues a contragosto deste. Impedido por Marques Mendes de se recandidatar, conseguiu apanhar a candidatura este ano, colocando Manuela Ferreira Leite perante um facto consumado. Como se nada se tivesse passado antes, nem nunca tivesse circulado entre cargos mais apetecíveis no momento, Santana quer voltar a presidir à CML. Mais do que o seu percurso errático e das dívidas que deixou pelo caminho (e sem esquecer os casos dos contentores de Alcântara e promessas incumpridas por António Costa), seria bom que os lisboetas se lembrassem disto e meditassem no salutar exemplo que os portuenses deram há alguns anos.

sexta-feira, junho 05, 2009

O declínio dos comícios



No livro de memórias de Freitas do Amaral, (A Transição para a Democracia, Bertrand Editora), publicado há uns meses, está uma fotografia nas páginas centrais que mostra um comício do CDS no Porto, em 1976. Pasma-se perante a amplitude da manifestação, com gente a perder de vista, provavelmente enchendo toda a Avenida dos Aliados. Noutras imagens vêem-se outros comícios dos centristas, em Ponte de Lima, Trás-os-Montes e Póvoa do Varzim (ocupando toda a praça de touros). Durante o PREC havia manifestações gigantes, como os comícios de Soares na Fonte Luminosa e nas Antas, Otelo cobrindo praças em Setúbal e partidos mais pequenos, como a UDP e o PDC, levando milhares ao pavilhão dos desportos de Lisboa. Claro que vinham de mais do que uma localidade, mas ainda assim são imagens que espantam. O CDS a cobrir os Aliados? Hoje, para fazer um comício no Porto, consegue umas mil pessoas no máximo e com "brindes" à mistura.

Um dos indícios do crescente desinteresse pela política, a partidária, pelo menos, é a imagem dos comícios cada vez mais vazios e trombudos, com uns monos arrebanhados pelas secções locais, normalmente com cantoria e comida à mistura. O contraste entre os comícios de hoje - especialmente se forem das europeias - e os de há 30 anos é gritante. E talvez nem seja preciso ir tão longe no tempo. Nos anos oitenta, a "onda laranja" de Cavaco cobria as Alamedas e Aliados e demais terreiros deste país. Na altura da decisão entre Guterres e Nogueira, não faltava animação (e gaffes), arruadas concorridas, líderes partidários a dançar nos mercados e comícios a atrair multidão a rodo.

Os comícios de rua pouco a pouco foram sendo trocados pelos "jantares-comício", em que a malta lá saía de casa a troco de um repasto para ir ouvir os candidatos da sua preferência. Também os artistas musicais encontraram um novo nicho de mercado, tocando nas acções de campanha de qualquer partido (ainda me lembro de um comício do PSD, no Porto, em 1995, em que findos os discursos de Cavaco e Nogueira redobrou a assistência quando os GNR subiram ao palco). A paixão e a vibração da política foram trocadas por umas festarolas como alguma oratória política pelo meio.

Estas europeias têm sido confrangedoras nesse aspecto. O PS não consegue encher um pequeno pavilhão em Coimbra, terreno de Vital, mesmo com a "estrela convidada" Zapatero. O PSD fica-se por sessões de esclarecimento e conferências, o CDS por jantares e o Bloco por acções de rua. Os extra-parlamentares já vão com muita sorte se alguma televisão filmar o candidato e os dois ou três membros da "comitiva". Só a CDU, graças à sempre fiel militância do PCP, ainda consegue organizar comícios que se vejam, em teatros ou nas praças, por vezes com surpreendente dimensão (vejam-se os oitenta mil da sua manifestação em Lisboa).

Nesse aspecto estou de acordo com Sócrates. Os comícios são sempre o sumo das campanhas, a ocasião para o entusiasmo se espalhar, o ponto de encontro por excelência entre os candidatos e seus apoiantes. Levar escassas centenas para uma acção num restaurante apenas prova a falência das ideias e a falta de atracção pela política, tornada coisa corriqueira e mesquinha, e a classe respectiva patética e pouco ou nada convincente. A praia, se o dia estiver bom, é tão mais atraente que as filas (?) nas urnas. É que há sinais que mostram o alheamento das pessoas por aquilo que deveria ser do interesse geral. Um comício é um sinal válido e um barómetro fiel. Cabe aos que os organizam meditar porque é que nem com "atracções musicais" as grandes enchentes de outrora, com bandeiras e slogans, quais claques de futebol à solta se conseguem ver nas clareiras destes grupinhos de militantes que tristemente acorreram a esta campanha das Europeias.

segunda-feira, setembro 29, 2008

O trabalho e a família
Na semana passada entrevi as linhas de um artigo de Rui Ramos, no Público, já não sei em que dia, que ia ao encontro de uma coisa em que andava a pensar: O BE, e mais ainda, o PCP, reclamam continuamente contra as alterações ao Código do Trabalho, argumentando que irá tornar o emprego mais precário e pôr os trabalhadores mais à mercê da entidade patronal. Poderão até ter as suas razões. Mas não deixa de causar espanto toda esta preocupação ao mesmo tempo que apoiam uma norma que irá por sua vez causar mais precariedade no casamento (e na família). Se no contrato de trabalho há direitos e deveres para as partes (obediência, remuneração periódica, etc), também os há na instituição familiar, estabelecidos no Código Civil. Ao relativizar esses direitos/deveres, dá ideia de que consideram mais difícil encontrar trabalho do que formar uma família, ou então a estabilidade desta não tem grande importância. Será?

quarta-feira, maio 07, 2008

O futebol precisa de dinheiro, não é?
O Trofense subiu e vai-se estrear na primeira divisão de futebol. Seguir-se-lhe-à o Rio Ave, clube de Vila do Conde que dista uns 15 quilómetros da Trofa, ou o Vizela. O quarto classificado, o Gil Vicente, já não tem hipóteses.
O que é que estes 4 clubes têm em comum? Ficam todos na região entre Ave e Cávado, que já tem o Vitória de Guimarães e o Braga na primeira divisão e o Varzim e Desportivo das Aves na divisão de Honra, além do quarteto referido. O que eu gostava de saber é como é que uma das regiões económica e socialmente mais deprimidas do país, que assiste a uma crise aguda da sua indústria e implora pela ajuda do Governo e dos empresários, tem meios para colocar tanto clube de futebol nos escalões profissionais. O dinheiro falta num lado mas aparece noutro.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Contrastes sazonais

O tempo está a mudar. Não, não é o aquecimento global. Está mesmo a mudar para o que seria normal nesta época: temperastura máxima abaixo dos vinte graus e acima dos doze. Até agora tínhamos tido um Verão prolongado, desforra talvez de um Estio fraco e fresquinho. As coisas compõem-se, enfim.
Talvez no litoral se pense isso, porque no interior a coisa já tinha baixado para níveis que exigem aquecedor ligado. Assim, na semana passada, entre a Linha do Estoril e Trás-os-Montes, tive oportunidade de:
- gozar uma hora e tal de praia na zona da Parede e dar uns mergulhos no mar, como se estivesse em pleno Agosto, e ir jogar numas máquinas do Casino Estoril quase porta com porta com Almodôvar e o novo Festival de Cinema
- apanhar umas temperaturas pouco acima dos zero graus no fim de semana, tendo com pena minha, e por causa de descombinações à última da hora, perdido uma festa com castanhas e vinho em S. Martinho de Anta, ao ar livre, à noite (imagina-se a frialdade); salvou-se a serão de leitura frente à lareira.

Como se pode ver, o Verão prolongado era só para alguns; se se percorresse algumas centenas de quilómetros, dava para juntar duas ou três estações e fazer um fim de semana diversificado, com uma panóplia de actividades e alguma imaginação, coisa que não está disponível todos os anos.
Esperemos agora pelo tempo frio e seco e uns meses de seca. O fantasma de 2005 aí está.