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sexta-feira, dezembro 22, 2017

O dia seguinte ao 21-D


Se há coisa que não se pode dizer depois das eleições na Catalunha é que alguma é previsível e simples. É a velha questão dos copos: se por um lado os partidos independentistas repetem a maioria absoluta (se juntarmos tudo, claro), por outro é a primeira vez que um partido não regionalista ganha as eleições naquela região. Se o PP de Rajoy leva uma banhada histórica, a CUP anticapitalista e independentista radical leva outra. E se Puigdemont ontem dizia coisas como "a república catalã (qual?) venceu a monarquia espanhola", hoje já vem pedir a Rajoy que se sentem a discutir e diz que não precisa da CUP para nada.

Espera-se que não precise realmente, e que sem os radicais que preferem os jihadistas aos turistas a gritarem-lhe ao ouvido, consiga uma solução que traga benefícios para a Catalunha sem contudo se tornar num novo país. Porque é isso que dizem os votos: a maioria dos eleitores não quer um país independente, mas há um número suficiente para que se procedam a mudanças. E Rajoy, que é um sobrevivente, já esgotou o número de se fazer de morto.

E entretanto, novos protagonistas ganham mais espaço. Contem com eles.



PS: Sábado há Real Madrid - Barcelona. Bom auscultador dos humores no país vizinho.

sábado, novembro 04, 2017

Agradecer aos catalães pela Restauração? E aos outros?


Uma das trivialidades que mais se tem repetido nos últimos tempos, a propósito da situação na Catalunha, é que Portugal "deve a sua independência" aos catalães, em razão da revolta que por lá estalou em 1640 ter permitido que as tropas espanholas se concentrassem naquele território e se desviassem deste rectângulo mais a oeste. Conceitos de independência à parte, os defensores desta tese nem notam que estão a reduzir Portugal a um mero estatuto regional e a colocar uma nação velha de séculos ao lado de regiões que nunca foram estados, e que circunstancialmente têm um grupo grande que o pretende formar um.

É bizarro que se considere sequer que os seguidores de Pau Claris tivessem pensado um segundo que fosse em Portugal. Mas e se a tese da gratidão que devemos aos catalães fosse correcta? Nesse caso, pecaria por defeito. É que seria mais fácil escolher quem é que não estava em guerra com a Espanha nesses anos quarenta do século XVII do que o contrário, incluindo (ou sobretudo) nos seus próprios domínios.

A década começou com a Guerra dos Trinta Anos contra a França, as Províncias Unidas (Holanda), um ex-domínio que procurava manter, e os adversários dos Habsburgos em geral, além de algumas batalhas navais com a Inglaterra. Os tercios espanhóis, uma máquina de guerra temível ao tempo, combatiam nos Pirinéus, na Flandres, nos Países Baixos e na Alemanha, e obtiveram alguns êxitos, como a tomada de Breda, imortalizada por Velasquez.

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Em 1640 rebentou a referida revolta catalã, ou "Guerra dos Segadores", que começou por ser uma revolta popular contra os abusos das tropas aí estacionadas, e que acabou por levar a Generalitat a proclamar a República e a aclamar posteriormente Luís XIII como soberano. A revolta e a perda de território para o inimigo levaram a que Espanha deslocasse mais tropas para a região, que seria recuperada (parte dela, já que Perpignan ficou para os franceses) apenas em 1659. É este o pretexto para se dizer que "Portugal deve a sua independência à Catalunha".

Mas ao contrário do que se pensa, a Catalunha não foi a única rebelião ibérica. Uma conspiração andaluza, encabeçada por Grandes de Espanha, começando pelo nobilíssimo Duque de Medina Sidónia  (irmão da já então Rainha de Portugal D. Luísa de Gusmão), impediu que tropas espanholas se concentrassem perto de Portugal. A conspiração acabou por ser descoberta e os seus autores punidos com o cárcere e perdas de bens e regalias, mas ficou na dúvida quais os reais motivos da conjura, havendo quem creia que se pretendia mesmo a secessão da Andaluzia com Medina Sidónia como novo soberano de Sevilha, com o auxílio do real cunhado.

Mais tarde, em 1648, outro grupo de conspiradores, estes em Aragão, veriam também os seus planos desfeitos. Aqui a conjura era ainda mais ambiciosa: pretendia, com auxílio de França e Portugal, separar o velho reino de Aragão de Castela, apoiando a Catalunha, oferecendo alguns territórios aos franceses e a Galiza a Portugal. Infelizmente para os galegos, também esta não conseguiu ir avante.

Por essa altura já tinha rebentado a revolta contra os vice-reis de Nápoles, na época também sob a coroa dos Habsburgos, chefiada pelo pescador guerreiro Manasiello. Num primeiro momento, as tropas no terreno sufocaram a revolta e liquidaram Manasiello, mas pouco tempo depois houve novo levantamento, que levou à proclamação da república "régia" de Nápoles, entregando o título de Doge a Henri de Guise. A situação durou menos de um ano, até que os espanhóis, comandados pelo Infante D. João José de Áustria, tomaram de novo a cidade sem grande resistência, depois de uma estratégia de paciência e de conquista gradativa. Só em fins do século XVIII Nápoles teria o seu primeiro rei nascido em sol italiano.

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Para se ficar com uma ideia mais ampla dos sarilhos com que Espanha se deparava na época, e se não se quiser percorrer grandes calhamaços de história,os livros de Arturo Perez Reverte, nomeadamente os da saga do Capitão Alatriste (que também existe em filme, com Viggo Mortensen a interpretar o vigoroso mercenário, e em série), onde entram figuras reais como Francisco de Quevedo e o Conde-Duque de Olivares (figura contra a qual boa parte destas revoltas se dirigiu) são um bom guia da situação

Ou seja, se queremos agradecer a quem, pela sua oposição desviou as atenções e os recursos da temível força terrestre espanhola, devemos agradecer não apenas aos "nossos irmãos" catalães, mas também aos "nossos irmãos" franceses, holandeses, flamengos, napolitanos, e também a alguns andaluzes e aragoneses. E os que formarem movimentos secessionistas terão todos a nossa solidariedade. A gratidão é uma virtude muito bela e não devemos excluir ninguém.

terça-feira, outubro 31, 2017

Surrealismo na Catalunha


Não sendo marxista, parece-me que aquela máxima atribuída a Marx - "a História repete-se, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa" - se deve atribuir à situação na Catalunha. Depois, de, como fuga para a frente e sem saber o que fazer, rodeado pelos que o acusavam de "traidor", Carles Puigdemont ter submetido um voto ao parlamento catalão, sem metade dos seus deputados, daí resultando uma "declaração unilateral de independência" que logo desencadeou o processo da suspensão da autonomia catalã pelo governo nacional e a marcação de eleições para Dezembro, temos a aparente fuga do ex-presidente da Generalitat para Bruxelas. Para mais, para se encontrar com os "companheiros" independentistas flamengos, e, segundo alguns, para ali arranjar asilo político, coisa desmentida pelo próprio. Mas a impressão de exílio apressado passou pela cabeça de muitos, sobretudo depois de um secretário de estado belga ter lançado a ideia da concessão de asilo a Puigdemont.

Seja como for, é mais um episódio desta história de doidos que se desenrola na Catalunha desde há umas semanas. A declaração unilateral é provavelmente o acto mais estúpido de todo este processo, mais do que as investidas da Guardia Nacional no dia 1 de Outubro. Este passeio de Puigdemont é igualmente ridículo. O Podemos, entretanto, não sabe que posição há de tomar. E Mariano Rajoy parece estar a aprender com os erros recentes e teve uma atitude equilibrada e raciona, que poderá produzir os seus frutos caso não descambe. 

Uma das melhores descrições do que se passa ouvi-a no outro dia, a propósito da exumação de um celebérrimo artista catalão: bastou desenterrar Salvador Dali para que o surrealismo espalhasse logo. 

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terça-feira, outubro 03, 2017

Tem a palavra o Rei


Na Catalunha assistimos a acontecimentos contraditórios e caóticos: o governo nacional a reagir à paulada, com cargas policiais desproporcionadas e excessivas que não auguram nada de bom; o governo regional a fazer um plebiscito violando a constituição, o estatuto autonómico e as próprias regras da assembleia regional; o dito plebiscito feito em urnas transparentes, com boletins trazidos de casa e eleitores a votar mais do que uma vez; protestos contra Piqué no treino da selecção espanhola, minando ainda mais o ambiente; e o presidente da Generalitat a anunciar uma futura "declaração unilateral de independência" quando a maioria dos eleitores recenseados nem votou (e os que votaram fizeram-no sabe-se lá em que condições), e nem sequer houve observadores internacionais, como se exige nestes casos. No fundo, mais uma vez chocaram o autoritarismo castelhano e o anarquismo catalão; noutras ocasiões em que tal aconteceu, mesmo quando conseguiram resolver o diferendo, houve sangue pelo meio.

Perante isto, e com a cegueira de parte a parte, impõe-se a intervenção do órgão mais livre e mais respeitável de Espanha: a Coroa. Felipe VI tem o dever de falar e de actuar como o obriga a Constituição. Tal como o seu Pai, que em 1981 usou as suas prerrogativas de soberano para acabar com um golpe de estado militar e consolidar a democracia.
PS: O Rei falou, enfim. Teve um discurso duro e não hesitou em acusar a Generalitat pelos acontecimentos que se têm passado. Talvez preferisse algumas palavras de conciliação, mas também tinha que marcar uma posição. Afinal de contas, é o garante da unidade da nação.

quinta-feira, novembro 14, 2013

Alvorada dominical catalã


Numa passagem por Barcelona, cidade que não conhecia ainda, pela alvorada, eis o que presenciei entre o Barri Gotic e a Rambla:

- Um grupo de "perroflautas" italianos, provavelmente atraídos por alguma fama anarquista da   cidade, de aspecto imundo, a dormir na rua ou a beber

- Outros noctívagos a recolher dos bares espalhados pelas ruelas medievais

- Varredores começando a recolher os vestígios da noite que acabava

- Orientais passando com malas em direcção ao porto

- Corredores a fazer o primeiro running do dia

- Feirantes, ou coisa parecida, a erguer as suas bancas para uma anunciada feira de filatelia e selos, na Plaza Reial

- A Igreja de San Jaume de portas abertas, com frades e freiras a orar para o primeiro ofício de Domingo. Aqui, um homem que parecia uma mistura de peregrino com um mendigo, francês que fazia questão de falar catalão, parecia estar de guarda ao portal para impedir que alguém entrasse, e explicou-me que estavam a rezar dominicanos e franciscanos em conjunto, uma reunião não muito óbvia.

O amanhecer numa grande cidade europeia permite-nos esta mistura surpreendente, que não veríamos a outras horas nem talvez num dia de semana.

quinta-feira, dezembro 06, 2012

A frustração no Nou Camp


 
Um empate em Barcelona seria à partida um bom resultado se outras fossem as circunstâncias. Obrigado a ganhar para não depender de uma eventual "ajuda" do Spartak de Moscovo em Glasgow, o Benfica desperdiçou oportunidades sobre oportunidades de golo e a consequente vitória no Nou Camp, ou Camp Nou (que seria histórica, para contar às gerações futuras) e é assim despromovido para a Taça UEFA, ou Euroliga, ou lá como lhe chamam agora. As culpas devem ser assumidas, e o Benfica não pode deixar de o fazer, até porque se exigia mais em Moscovo e Glasgow. Ainda por cima os culés entraram com muitas reservas (mas de qualidade, sigam bem aquele Deulofeu), controladas pelos "velhinhos" Puyol e Villa, e só depois lançaram Messi. O Benfica também tinha muitas baixas e teve de levar alguns jovenzinhos, mas nem isso basta para justificar a "vitória moral". Empatar ali é bom, seria bom em 1992 e 2006, quando enfrentámos dos dream teams da época. Mas ontem o que se queria era ganhar. Não ganhámos e vimos uns toscos de uns irlandeses que jogam na Escócia a classificarem-se graças a um penalty inventado. É algo injusto, mas que nos sirva de lição para no futuro não ficarmos dependentes de irregularidades que aproveitem a outros e cumprirmos a nossa parte, coisa que deveria ser muito bem explicada aos nosso avançados. Os jogos com Celtic já parecem sina: sempre que os defrontamos, ficamos atrás na classificação, mesmo que não nos provem ser inferiores, ou pior, somos eliminados com base na pura sorte. Espero não os ver tão cedo. Ainda assim, ninguém se ficou a rir em Nou Camp: o Benfica pela eliminação, o Barcelona porque obedeceu aos pedidos dos adeptos e viu Messi lesionar-se. O desejado recorde do maior número de golos num ano civil fica assim adiado...ou ameaçado.
Única coisa a reter de bom, além dos 500 mil euros do empate: Ola John é mesmo um futuro craque.
 
 

quinta-feira, novembro 29, 2012

Ironias catalãs


A discussão sobre as eleições catalãs e o possível referendo ao estatuto da Catalunha, catapultada pela enorme manifestação de Setembro em Barcelona, é dos assuntos internacionais mais badalados da actualidade. Barcelona reclama aquilo a que acha que tem direito, ao retorno dos impostos que paga e a soluções fiscais mais vantajosas. Como não conseguiu isso, partiu para a ideia de secessão pura e simples, sem sequer passar pela de federação, aliás sugerida pelo PSOE.
 
Nesta pretensão não faltam paradoxos para originar mais discussões. No Delito de Opinião aponta-se para uma questão curiosa: tirando a Escócia, que já tem referendo marcado para 2014 para decidir se quer ser um reino independente ou não, todos os territórios europeus - excepto aqueles estados-fantoche da Rússia no Cáucaso - que acenam com o problema do separatismo são por norma regiões prósperas. A Catalunha, tal como o país basco, é obviamente um deles, e as razões que apontam são, como se disse acima, económicas e fiscais, argumentando que não querem pagar o resto do país "que não trabalha". Tem a sua graça olhar para tantos entusiastas dessa hipotética independência e depois ouvi-los a vociferar contra os países do Norte da Europa, em especial a Alemanha, esses "arrogantes", "egoístas",  "nazis", "agiotas", pelas razões inversas.

A Catalunha terá com certeza as suas razões de queixa de Madrid. É natural que quem é contribuinte líquido a certa altura se aborreça com a situação. Mas vir fazer-se de vítima em todas as dimensões já se torna enjoativo. Ouço a malta da Catalunha queixar-se do centralismo de Madrid e da submissão que a capital espanhola exigirá, e a tomar como referência um condado do século XI. Ora que eu saiba uniram-se pacificamente a Aragão, que por sua vez se juntou também pacificamente a Castela. E já não estamos nos tempos de Olivares, Filipe V ou Franco, esses sim, centralistas e autoritários. Os catalães podem falar a sua língua, apoiar o seu "mes que un club" (esperemos que para a semana não tenham grandes razões para o fazer), trepar aos seus castellers e demais práticas culturais e votar nos seus partidos autonómicos, alguns dos quais republicanos, sem qualquer problema. Ou seja, todas as razões que poderiam justificar uma eventual independência são vazias de sentido. Para mais, caso esse absurdo acontecesse, veríamos um dos estados mais centralistas da Europa, com Barcelona a sugar o resto e a mandar sem oposição, visto que não há outra cidade de dimensão minimamente grande para se lhe opôr (tirando as subúrbios, a maior cidade é Tarragona, com um décimo da população da capital catalã). E ainda há outra pequena ironia: o principal partido catalã, a CiU, é da mesma família ideológica do PP, provavelmente a formação que menos apoia a secessão...e que está no poder em Madrid.

E depois, as facilidades que pensam que encontrariam ao virar da esquina são pura ilusão. Só para reentrar na UE, caso quisessem, teriam de passar por novas etapas de adesão. e o que fariam aos que não quisessem ser catalães? Davam-lhes um visto de trabalho para emigrantes? Problemas de sobra, sobretudo para quem os quer criar, que não deixa de ser justo. A Espanha permanece periclitante, e com ela a Europa.