Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

domingo, outubro 28, 2018

Tentar compreender o Brasil político


Nas últimas semanas tenho andado febrilmente a ler e reler coisas sobre a vida política no Brasil. Não somente nos jornais e noticiários actuais, mas também na net (não tanto as redes sociais, embora também sejam importantes para se perceber os humores, mas mais artigos antigos, jornais online, vídeos preciosos que se encontram no Youtube, dados wikipedianos, opiniões), e na biblioteca possível. Voltei aos tempos de Vargas e JK, passei pela ditadura militar, pela redemocratização e pelo percurso efectuado desde então. Para tentar perceber enfim o que o Brasil político, porque é que se prepara para eleger uma personagem tão inquietante como Bolsonaro e porque é que a alternativa que sobra é o agora tão detestado PT (esta última premissa ajuda a perceber a segunda).

A primeira ideia que vem à memória, tal como dizem algumas publicações do país, é que estas eleições não são exactamente inéditas e trazem memórias de há uns tempos. A disputa de 1989, as primeiras presidenciais em quase trinta anos no novo regime democrático, surgia numa altura negra para a economia brasileira, não tanto o desemprego que se observa hoje, mas uma hiperinflação e a consequente recessão económica, com um presidente impopular (Sarney), tal como agora (Temer), e que só acedera ao Planalto por ser vice do presidente anterior (naquele caso, a morte de Tancredo antes da tomada de posse, agora, a destituição de Dilma pelo Congresso). Nas eleições, disputadas por um grande número de candidatos, surgiu um jovem turco de direita, Collor de Mello, por meio de um pequeno e pouco relevante partido, com uma enorme e eficacíssima rede de propaganda e um discurso alertando para o "perigo vermelho"; a postura agressiva e o discurso pré-ditatorial diferenciam-no de Bolsonaro, mas as outras características estão lá; com ele passou à segunda volta o carismático líder de um partido de esquerda "de massas", com base na cintura operária de S. Paulo, mas que ainda atemorizava muitos pelas associações com o comunismo, que naquele tempo fazia a sua espectacular derrocada; sim era Lula da Silva, e não é preciso  mostrar as semelhanças com a actualidade (mesmo que a personalidade seja muito diferente, Lula não é Haddad e vice-versa?). Em terceiro, e fora da segunda volta, ficou o candidato do PDT, de centro-esquerda, um experiente político com uma carreira executiva de respeito, mas desbocado e abrasivo, e então como agora tentou em vão tentou superar o PT; a descrição de Brizola de 1989 aplica-se a Ciro Gomes; Ulysses Guimarães, o "pai" da Constituição brasileira, na altura candidato pelo proeminente PMDB, é comparável a Geraldo Alckmin, do PSDB, pelos apoios que teve e pela fraca votação que recolheu (e que pelo seu passado executivo e pelos partidos que o apoiam tem muito também de Mário Covas e); Marina, a candidata ecológica, teve um antecessor chamado Fernando Gabeira (cuja filha, Maya Gabeira, é uma conhecida surfista que por pouco não desapareceu nas ondas da Nazaré). E assim sucessivamente. Falta saber se Bolsonaro também se envolverá em moscambilhas e verá o movimento que o apoia voltar-se contra ele, como sucedeu a Collor.


A outra conclusão que se retira é que ainda que haja imensos partidos no Brasil - no congresso são uns vinte e tal, com siglas e nomes parecidos - a sua real força é apenas formal. Bolsonaro ganhou dezenas de milhões de votos com o apoio de dois "nanicos" partidários. Por outro lado, Geraldo Alckmin, ex-governador de S. Paulo, o candidato apoiado pelo PSDB (até agora o grande partido de oposição ao PT, e que em tempos esteve no poder), pelo PP  pelo DEM - os dois grandes partidos da direita tradicional - teve menos de 5%. E Henrique Meirelles, apoiado pelo grande partido kingmaker do centrão, o velho PMBD, teve pouco mais de um por cento. Ou seja, a ideia de partidocracia no Brasil não existe, porque são sobretudo votos de ocasião ou barrigas de aluguer para muitas candidaturas, o que se prova pela velocidade com que a maioria dos políticos muda de sigla - Bolsonaro e Ciro, por exemplo, já estiveram em meia dúzia de formações diferentes. Paradoxalmente, e na altura da sua derrota, o PT provou que é o único partido brasileiro com uma máquina estruturada e com um apoio fiel do eleitorado, mesmo sem Lula estar presente, o que poderá ser importante no jogo político dos próximos anos.

Os brasileiros votam sobretudo em caras e em personalidades fortes. Collor, Lula, FHC, como tem tempos votaram em Getúlio e em JK de Oliveira. Agora preparam-se para votar em Bolsonaro. O ex-capitão tem apoios corporativos fortes, dos sectores militares aos grupos de jovens turcos da nova direita, como o Movimento Brasil Livre. E a aposta nas redes sociais e nos meios de comunicação instantânea e de massas, como o WhatsApp, tem-se revelado uma mina num país em que as pessoas lêem poucos jornais e acham que a informação "está na internet". Tudo isso num panorama em que as pessoas se cansaram da corrupção extrema, da violência sem fim, da queda da economia. Claro que o PT não é o único culpado, como se comprova pelo mandato Temer. Mas  está igualmente na origem desses problemas, e obviamente grande parte da população não quer votar em quem não sabe sequer fazer um mea culpa e continua com a tese única do "golpe". além disso,  aquelas manifestações sempre a bater nas mesmas teclas "direitos LGBT" e sei lá que letras mais, a "transfobia", as minorias, etc, pouco dizem à esmagadora maioria dos brasileiros, mais preocupados com problemas gerais do país. Por cada uma dessas manifs, Bolsonaro devia ganhar mais uns milhares de votos. E pouco se ouviu falar de temas ecológicos, como o perigo que ameaça a Amazónia. E também não se subvalorizar deve o factor "desilusão": o partido e o homem que anunciavam uma nova era (e que durante uns anos lá se ia cumprindo) revelaram-se afinal iguais aos outros.

E no meio desse turbilhão, há cento e quarenta milhões de eleitores - 14 vezes a população portuguesa - que podiam colocar do avesso todas as análises feitas sobre as eleições e mostrar que estes escritos são tão válidos como muitos outros. Aguardemos.

sexta-feira, setembro 14, 2018

Ferro e fogo no Brasil


No último 7 de Setembro o Brasil comemorou mais um aniversário. Dificilmente poderia ser mais atribulado. Poucos dias antes tinha ardido o seu Museu Nacional, a memória de duzentos anos de acervos e colecções de paleontologia, etnologia, geologia, etc, espalhados pelo velho Palácio de S. Cristóvão, a morada da família real portuguesa aquando da sua prolongada estadia no Rio. Naquele edifício moraram seis monarcas ou futuros monarcas (entre os quais uma futura Rainha de Portugal e um futuro Imperador do Brasil, que aliás eram irmãos), e ali se delineou o futuro de Portugal e a independência da gigantesca colónia, entretanto promovida a Reino. O estado de degradação e negligência do edifício e do seu conteúdo, divulgado após o desastre, chocam pelo terceiro-mundismo da coisa. Sabe-se que já se tinha assinado um acordo que libertaria fundos para obras de fundo, o que só avoluma a tragédia do caso: afinal os meios existiram, mas a salvação chegou tarde demais. O caso, como seria de esperar, despoletou acusações e discussões políticas de todo o tipo, incluindo manifestações frente à carcaça fumegante do edifício, com bandeira empunhada e tudo, acusando os actuais poderes instituídos. A verdade é que o último chefe de estado brasileiro a visitar o Museu e a casa dos seus longínquos antecessores reais e imperiais fora Juscelino Kubischek de Oliveira - esse mesmo, J.K, o construtor de Brasília. Desde então mais nenhum tinha visitado, oficialmente, ao que se sabe, aquelas salas. Nem seque Fernando Henrique Cardoso, um reconhecido intelectual. É uma triste metáfora do desinteresse a que os dirigentes do Brasil votaram a memória histórica e a cultura do país, e por sua vez, o incêndio é ele mesmo uma metáfora e uma lição do momento que vive o país.


Poucos dias depois, o candidato Jair Bolsonaro, à frente nas sondagens para a primeira volta das presidenciais de Outubro, é esfaqueado por durante um comício em Minas Gerais, ao que parece por um desequilibrado que já militara no PSOL (o equivalente ao Bloco no Brasil). À primeira vista parece quase uma ironia eleitoral, já que Bolsonaro não se cansa de apelar à violência contra os seus adversários e é um saudosista da ditadura militar. É daquelas figuras que se pode apelidar de "fascista" sem provocar grandes reclamações, além de  ter demonstrado nos debates televisivos que não dá muito mais do que aquele discurso básico. Pessoas que elogiam Marine LePen dizem cobras e lagartos dele. Só que o Brasil já não é uma ditadura e o candidato teve a devida autorização para se apresentar a eleições. O normal seria poder andar pela rua sem receio de sofrer atentados. Se eventualmente apela ao ódio, isso é responsabilidade das autoridades competentes, eleitorais, policiais ou outras, não de pobres  diabos armados.


Não se sabe se o atentado terá o efeito "Marinha Grande", mas é bem possível que tenha acrescentado mais uns votos ao militar. De qualquer maneira, é mais um capítulo do ódio que percorre a política e a sociedade brasileira. Vale a pena lembrar que este ano já tivemos tiros dirigidos à caravana de Lula (tal como aconteceu com Bolsonaro, não faltaram as teorias de "fingimento") e o assassínio da vereadora Marielle Franco, no Rio. E ainda os episódios da prisão de Lula, da sua politização e dos desgaste que isso provocou ao PT e aos seus apoiantes. Só mesmo no último minuto é que o partido que durante anos governou o Brasil confirmou o ex-prefeito de S. Paulo e ex-ministro Fernando Haddad como candidato presidencial. Ao menos os "petistas" livram-se de ver o seu candidato acusado de ser "analfabeto" (esta parcela será mais facilmente preenchida por Bolsonaro). No meio deste carrossel de intriga, ódio, e violência que mina o Brasil, temos ainda dois candidatos minimamente decentes, que se chegarem à segunda volta terão a eleição quase garantida. São eles os repetentes Ciro Gomes (que tem aquele pequeno defeito dos políticos brasileiros de ter feito parte de não sei quantos partidos, parando agora no clássico PDT, fundado por Leonel Brizolla) e a ecologista evangélica Marina Silva. Junte-se-lhes Geraldo Alckmin, político experiente mas também algo desgastado, pelo PSDB, e apoiado pela direita clássica, Henrique Meirelles, até agora ministro das finanças de Michel Temer e primeiro candidato do hegemónico MDB desde ha mais de vinte anos, e mais os habituais candidatos de partidos minoritários, formações de esquerda radical ou evangélicos lunáticos. A eleição da primeira volta promete. A da segunda está para se ver. Uma coisa é certa: o vencedor já não irá a tempo de visitar o Museu Nacional do Brasil. JK foi mesmo o último. Se alguma coisa se tentar fazer ali, será um pastiche entre as paredes do velho Palácio de S. Cristóvão. A maior missão será impedir que o Brasil, para mais encurralado entre uma Argentina entre grave crise económica e o êxodo de venezuelanos fugidos à tirania de Maduro, pegue fogo.


quarta-feira, janeiro 31, 2018

Lula e o drama brasileiro


Não sei se Lula da Silva é culpado daquilo que o acusam. Não acompanhei devidamente o processo judicial, não sei se as provas são suficientes e fidedignas, ou se Lula obteve vantagens pessoais. A verdade é que já vamos na segunda instância e o tribunal de recurso até endureceu a condenação. Mas se Lula não cometeu mesmo os actos de que é acusado e não obteve vantagens pecuniárias para si mesmo, cometeu pelo menos o crime - ou o pecado - de omissão pela rede clientelar e de corrupção que o PT semeou no aparelho de estado e organismos a ele ligados.

Seja como for, a candidatura presidencial parece estar por um fio. As sondagens mantêm-no à frente da corrida. Os seus apoiantes clamam que é o único candidato "capaz de unir a esquerda". Daí minha estupefacção: não haverá mais nenhum candidato de esquerda com hipóteses ganhadoras? É só mesmo um político que está há quarenta anos no activo? Isto também diz muito da esquerda brasileira. Seria como se a direita portuguesa recorresse a Cavaco Silva para se "unir".

Entretanto, olha-se para o friso de candidatos que já se perfilam às presidenciais deste ano - além de Lula temos Geraldo Alckmin, Marina Silva, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e Manuela d´Ávila - e lembramo-nos da velha piada académica: há candidatos bons e originais; mas os que são bons (com grandes dúvidas), não são originais; e os originais, como a comunista Manuela d´Avila e o sinistro e inenarrável Bolsonaro, não são bons. Espero mesmo que Deus seja brasileiro, para acudir àquele imenso país.
Imagem relacionada


terça-feira, agosto 16, 2016

Os olímpicos no Brasil



Não sei se é pelo facto de se estar debruçado no que é essencial (ou seja, as provas), mas esperava uns Jogos Olímpicos mais acidentados. E os prenúncios não eram nada bons: instalações com deficiências, furtos, poluição extrema das águas, obras atrasadas, falta de recursos, problemas infindos no Rio, tudo sob uma grave crise económica e política que levou à substituição da presidente do Brasil a poucos meses dos jogos por um vice pouco conhecido e ainda menos popular. O certo é que apesar de alguns problemas que provavelmente têm sido camuflados, as atenções viraram-se para a competição. Os enormes desportistas Phelps e Bolt (sobretudo o jamaicano) subiram ainda mais no panteão dos atletas, surgiram novos nomes, como Simone Biles e Van Niekerk, e até dia 21 ainda há muito para ver. Entre os portugueses, Telma Monteiro conseguiu a tão almejada medalha, depois de duas edições de jogos desoladoras, mas o resto tem sido frustrante, apesar dos esforços dos jogadores. Ainda hoje, Nelson Évora e Fernando Pimenta ficaram perto do pódio, sem hipóteses de o pisar. A selecção C de futebol conseguiu a proeza - mais uma de Rui Jorge - de ficar em primeiro lugar no seu grupo, antes de ser derrotada sem apelo nem agravo pela Alemanha. Veremos o que faz o limiano daqui a dias, assim como a cavaleira Luciana Diniz mas as esperanças de medalhas vão-se eclipsando.

Apesar de tudo, as coisas vão correndo satisfatoriamente e a cerimónia de abertura, de que só vi partes e em diferido, agradou, embora duvide que tenha ultrapassado o excelente espectáculo inicial de Londres em 2012. Não houve grandes referências aos portugueses nestes primeiros jogos num país lusófono, mas a correcção política das "causas indígenas" falou mais alto. Enfim, houve Gisele Bundchen.

Sem querer ser chato, há uma questão que surgirá inevitavelmente: acabada a festa, que Brasil teremos no pós-jogos? Dilma deve ser definitivamente exonerada no fim do mês, os problemas com as expropriações por causa dos jogos voltarão, e a herança do evento vai pesar. Aliás não compreendo como é que se pode organizar um Mundial de Futebol e uns Jogos Olímpicos com apenas dois anos de intervalo, o que revela que os brasileiros, na senda de se tornarem uma superpotência, tiveram mais olhos que barriga. Agora, em plena crise e desaceleração económica, caiu-lhes tudo em cima. O futuro próximo não vai ser fácil.

terça-feira, abril 19, 2016

Brasil 2016, uma história que ainda acaba com um palhaço na presidência


Não sou lá grande fã de Dilma Roussef, do PT e da forma como esse partido se arroga a dono do estado. Mas olhando para a gente que pode substituir Dilma e para o incrível Carnaval político no congresso brasileiro, tenho de me socorrer de Tiririca: pior do que está, fica.




Já agora, o próprio Tiririca votou "sim" ao processo de destituição. Provavelmente porque está também na ordem de sucessão, podendo, em caso extremo (ou nem tanto, já que teoricamente todos os que estão à frente podem ser impedidos de exercer as suas funções por razões judiciais), e pelo facto de ter sido o deputado com mais votos nas últimas eleições, tornar-se Presidente do Brasil. Esta hipótese, aparentemente implausível e digna de um filme de Peter Sellers, vem apenas confirmar que a política brasileira é mesmo, na verdadeira acepção da palavra, um circo. 

sexta-feira, abril 01, 2016

Brasil, oportunismos e soundbytes


A trapalhada institucional, judicial e político-partidária que se está a passar no Brasil mostra bem até que ponto se leva a hipocrisia ao extremo para se alcançar o poder. Ou para o defender. Cá e lá.

O PMBD, partido que sustentava a maioria no congresso, resolveu retirar o apoio ao governo de Dilma Roussef e abriu caminho para a aprovação de um eventual impedimento (vulgo impeachment), que destituiria a presidente do seu lugar e que colocaria no seu lugar o vice-presidente, Michael Temer...que é o próprio presidente do PMBD. Para a vice-presidência, iria o presidente da câmara de deputados, Eduardo Cunha, que seria substituído pelo presidente do Senado, Renan Calheiros. Todos membros da cúpula do PMBD e todos implicados nas investigações da operação Lava Jato e por diversos casos de corrupção. O PMBD é, aliás, o maior covil de baixa política e casos obscuros, num sistema partidário onde por si só isso já abunda. O herdeiro do antigo MBD - o movimento que agregava os opositores à ditadura militar que vigorou entre 1964 e o início dos anos 80 contra o partido do regime, a ARENA, no sistema bi-partidário então existente - já gozou de um mínimo de respeitabilidade e já teve figuras de relevo. Actualmente é a maior formação parlamentar, tanto no congresso dos deputados como no senado, e tem uma fortíssima implantação local, com inúmeras prefeituras e governos estaduais, assentes num vasto caciquismo. À imagem de outros congéneres sul-americanos é um partido "pega-tudo" do centrão, de fraca ideologia, com o objectivo único do poder, que nunca tem candidato próprio à presidência do Brasil e que se alia ora a um ora a outro para garantir a manutenção do seu próprio poder. Já esteve com Fernando Henrique Cardoso, depois com Lula e Dilma, e provavelmente apoiará quem estiver na calha para a presidência. Agora rompeu com o PT, alegando as suspeitas do caso Lava-Jato, quando os seus dirigentes são exactamente os mais implicados. Terão uma oportunidade de se guindar ao poder e assim obter a imunidade necessária para escapar às acusações. Tudo gente honesta e altruísta, como se vê.


Por cá temos os nosso velhos conhecidos PCP e Bloco de Esquerda a protestar contra o "golpe" supostamente urdido pela "direita". Se os bloquistas ainda criticam a nomeação de Lula para o seu novo cargo (de forma a protegê-lo de investidas judiciais) e as jogadas do PT, o PCP nem isto admite e reafirma mesmo que o "golpe" tem por trás a mão da CIA. O radicalismo ideológico leva a picos de ridículo como estes, mas do PC, que continua a viver numa qualquer dimensão temporal pré-1989, tudo se espera. O "impeachment" pode ser uma jogada política eticamente reprovável e obscura, combinada por movimento políticos sem a menor moral para o fazer, mas a sua legalidade só poderá ser observada pela comissão de deputados, e portanto, poderá ser um acto absolutamente legal. A teoria do "golpe", e ainda mais patético, as teorias de que a CIA estaria por trás ou que se prepararia um golpe a sério promovido pelas forças armadas, podem parecer delirantes, mas o soundbyte que fica no ouvido é das armas mais utilizadas pelas nossas sociedades altamente dependentes da tecnologia e da informação ao segundo. Vermos dois partidos que apoiam um governo constituído por um partido que perdeu as eleições e que volta e meia dizem que "a direita está raivosa e ressabiada" porque "o governo é constitucionalmente legítimo" estarem agora com a conversa do "golpe" mostra até que ponto este assunto os deixa ainda mais raivosos e ressabiados, como se as manobras políticas ao abrigo de regras formais só fossem admissíveis para um espectro político.

Eis a hipocrisia política no seu estado mais descarado com a mesma disputa como fundo. Cá e lá.

domingo, março 20, 2016

Lula, Getúlio, Marx


A confusão que se vive hoje no Brasil, com as prisões saídas do Lava Jato e do Mensalão, as manifestações anti e pró-PT, a justiça federal tentando a prisão preventiva de Lula, as ameaças deste aos magistrados, a pouca idoneidade dos mesmos, a chico-espertice da actual Presidente ao nomear o antecessor para ministro para lhe garantir a imunidade, a suspensão judicial da nomeação, parece não ter fim. A cada hora há um novo capítulo e um novo caso. O país está sob fortíssima tensão, há quem apele às forças armadas contra o poder executivo de Brasília, outros clamam pelo poder popular, e pelo meio um dos partidos que suportava a presidência de Dilma, o PRB, conotado com a IURD, resolveu oportunisticamente mudar de barricada.
A história brasileira dos últimos cem anos é rica em caudilhismos, tentativas de afastamento de presidentes (algumas com sucesso) e manifestações populares mais ou menos histéricas. A tentativa de empeachment a Dilma e de prender Lula recordam o que aconteceu a Collor de Mello, e muito mais atrás, a Getúlio Vargas, um presidente muito popular que ao pressentir que o podiam prender, no exercício do cargo, por estar supostamente implicado na tentativa de assassínio de um adversário político, se suicidou, "saindo da vida para entrar na história". Não me parece que Lula seja do tipo suicidário, ou pelo menos espero que não. Mas talvez fosse bom mostrar-se mais razoável numa altura tão quente, e logo num ano em que se realizam os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, outra daquelas manifestações de regime decididas pelo PT e que se arrisca a tornar-se num requiem aos anos de crescimento económico que já lá vão. Se a confusão não aumentar no Brasil, Lula ficará talvez impedido de exercer cargos políticos por uns anos, inviabilizando qualquer veleidade presidencial. Não terá certamente o destino de Getúlio. Aqui Marx tinha razão: a história repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa.

sexta-feira, setembro 11, 2015

Sobre migrações sírias



A propósito do "perigo de invasão islâmica" supostamente provocado pela vinda de refugiados sírios para a Europa, relembro que em tempos houve um outro grande fluxo migratório desse povo (e de vizinhos libaneses). Destino? Brasil. Instalaram-se sobretudo em S. Paulo, prosperaram, e hoje em dia constituem na sua maioria parte integrante da elite económica, social e política do Brasil. Não consta que lhes tenha dado para o terrorismo (a alguns, como o sr. Maluf, deu-lhes para a corrupção) nem para gangues de favela, e até houve sírios que inspiraram personagens de telenovelas famosas..



sexta-feira, outubro 31, 2014

Eleições


Este ano está a ser frutífero em eleições. Curiosamente, não há legislativas em Portugal, Espanha, França, Reino Unido, Alemanha ou Estados Unidos. Mesmo assim, é das matérias de que mais se ouve falar em 2014. Só no Domingo houve quatro.

Da Tunísia sei apenas que os liberais seculares terão vencido os islamitas o confronto eleitoral local, o que confirma aquele pequeno país como um dos mais estáveis no Norte de África (ali mesmo ao lado, na Líbia, ninguém sabe quem manda onde). No Uruguai haverá uma segunda volta com o presidente de há uns anos atrás, Tabaré Vasquez, e o candidato do Partido Nacional, e pelos resultados e pela tendência dos últimos anos, o mais provável é o primeiro regressar ao seu antigo gabinete. Pela república oriental pouco mudará.

No Brasil ganhou Dilma, como temia (mas não espanta). Seria sempre difícil que os votos de Marina fossem em número suficiente para levar Aécio Neves ao Planalto. Previsivelmente, Dilma haveria de obter alguns, além das outras pequenas forças maioritariamente de esquerda que se apresentaram às presidenciais no primeiro turno. Mas ao contrário do que se veiculou, sobretudo na dura, e por vezes irracional ao histerismo, campanha eleitoral, não havia simplesmente um bloco de esquerda contra um de direita: ao lado do Partido dos Trabalhadores estava o PMDB, exemplo acabado do partido de centrão sem ideologia com o objectivo único de participar do poder, e o Partido Progressista, partido mais à direita, legatário da ARENA (o partido do poder durante a ditadura). Com o PSDB, acusado por vezes de ser "neoliberal", estavam o Democratas (esse sim, de direita liberal, aliás antigo Partido da Frente Liberal), e o Partido Trabalhista, herdeiro directo do de Getúlio Vargas e um dos "guardiões" do seu legado, e ainda o Partido Socialista, que apoiou Aécio na segunda volta depois de suportar Marina Silva e o malogrado Eduardo Campos.
Dilma terá pela frente uma economia a abrandar, protestos latentes da população, como se verificaram nos dois últimos anos (espera-se para ver o que vai suceder nos Jogos Olímpicos do Rio) e a sempiterna questão da corrupção, não menos importante do que as outras quando os eleitores se estão visivelmente menos tolerantes e que os dois grandes partidos que a apoiam, PT e PMDB, controlam o aparelho de estado. Quatro anos previsivelmente complicados (ou reformistas?), sendo que Dilma não se pode recandidatar. Conseguirá Aécio aproveitar o embalo destas eleições para se guindar à presidência em 2018, ocupando o lugar que o seu avô Tancredo não conseguiu, por morte antes da tomada de posse?


E por fim na Ucrânia, uma grande volta ao anterior cenário, como não podia deixar de ser, na sequência da revolta de Maidan, da anexação da Crimeia e do isolamento de Donetsk e Lugansk. O Partido das Regiões, formação russófona que estava no poder e em maioria no parlamento, nem se apresentou, e o bloco que o substituiu teve resultados modestos (nas zonas onde há mais russófonos teve melhores votações, como seria de esperar). O Partido comunista, visto como quinta coluna da Rússia, quase desapareceu e nem entrou no parlamento. A extrema-direita banderista, com influência sobretudo na rua, também não. E a outrora líder maternalista (antes de ser presa) da Ucrânia, Yulia Timoshenko, teve um resultado decepcionante, pouco mais de 5%, e por pouco também não entrava na Rada. As formações do presidente Poroshenko, do primeiro-ministro Yatseniuk e do presidente da câmara de Lviv, no extremo-ocidental do país, ficaram com a maior parte do bolo. A bússola política alterou-se drasticamente, para oeste. Embora rivais, os partidos vencedores têm sobretudo semelhanças. A Ucrânia voltou-se para a Europa, de costas para a Rússia, confirmando as tendências do último ano. Graças a isso, conseguiu já um acordo para o pagamento do gás natural ao vizinho gigante, mas as questões dos territórios perdidos ameaçam complicar-se. Pelo menos, a retórica de que em Kiev o governo é ilegítimo e que mandam "nazis" já se pode esbater, embora a propaganda pró-russa deva continuar a explorar esse filão por muito tempo.

quinta-feira, outubro 09, 2014

Embate marcado para uma segunda volta






Afinal de contas, nem Dilma Roussef está assim tão segura da reeleição nem Marina Silva chegou a ser o fenómeno que muitos previam. O furacão acabou por se revelar uma brisa nas urnas, pouco acima do que as sondagens atribuíam ao candidato Eduardo Campos antes do trágico acidente que o vitimou, em Agosto, de que a comoção que se seguiu levou Marina a trepar nos números. Só que as sondagens falharam rotundamente: Dilma ganha sem estrondo, Marina é afastada por muito e Aécio Neves fica em segundo, muito mais próximo da "presidenta" do que da evangélica ecologista. O ex-governador de Minas Gerais, neto de Tancredo, há muito o candidato dilecto do PSDB para voltar ao poder que perdeu depois de Fernando Henrique Cardoso, volta a ser o adversário directo de Dilma e do PT. Apesar da popularidade junto de largas camadas da população, do apoio de Lula, da imagem presidencial que Dilma granjeou e de ter afastado nomes ligados a casos de corrupção, a frente anti-petista parece ganhar força. O PS que apoiava Marina já deu o apoio formal a Aécio, restando saber se a própria Marina o fará expressamente.


Mas ninguém duvida que a segunda volta será contada até ao último voto. Poderá o PT, apoiado pelo mastodonte do "centrão" PMDB, ser apeado? A possibilidade não é nada remota. Mas ainda assim, mesmo apoiada por nomes que já deviam fazer parte dos caixotes de lixo da política, como Sarney, Collor ou Maluf, a máquina partidária do PT e PMDB, o domínio dos media e a popularidade que ainda têm em largas camadas da população fazem com que apesar de tudo, Dilma seja ligeiramente favorita, sem quaisquer certezas. Dificilmente os votos que Marina recolheu irão todos para Aécio. Mas, ao contrário do que dizia Rui Tavares por estes dias no Público, não estou tão convencido que o candidato dos "tucanos" tenha perdido a vez: mesmo que não ganhe, se perder por muito pouco, será o favorito para daqui a cinco anos. Dilma já não se poderá candidatar, Lula não o fará certamente, por razões de saúde, e Aécio terá, se tudo correr normalmente, o caminho aberto, até porque o desgaste da governação PT jogará a seu favor. Nada de novo: o próprio Lula perdeu três eleições até chegar à presidência. Mas até pode nem precisar de esperar mais quatro anos.

quinta-feira, julho 17, 2014

Little Joy

Little Joy é o projecto musical que resultou do encontro entre Rodrigo Amarante, guitarrista dos brasileiros Los Hermanos, e Fabrizio Moretti, baterista brasileiro dos americanos The Strokes, ao que consta em Lisboa, no festival Soundz (que se perdeu, com outros, na imensidão da oferta), em 2006. Reencontraram-se nos Estados Unidos, quando os Hermanos decidiram hibernar, e lançaram o projecto, juntando-se-lhes a namorada de Moretti, a multi-instrumentista Binky Shapiro. Desta colaboração em trio resultou o álbum Little Joy, editado pela mítica Rough Trade, de uma pop alternativa suave com laivos de tropicalismo. Um bom encontro entre o Rio de Janeiro dos Hermanos e a Nova York dos Strokes, com uma música que emana sentimentos de "pequena felicidade" que faze jus ao nome do trio. Uma pequena homenagem ao Brasil, agora que a festa acabou.

terça-feira, julho 15, 2014

Acabou o Mundial


Acabou o Mundial e já estou com saudades das noites de bola, das surpresas, dos hinos nacionais e até da música do genérico antes de cada jogo. Não torci pela Alemanha, mas o título acaba por ficar bem entregue à equipa mais consistente, que mais trabalhou e se preparou para esta competição, e que há já uns anos, entre finais e meias, ameaçava mais competição menos competição erguer novo troféu. Aconteceu este ano, às custas de um Brasil menor e impreparado. A Alemanha já pode dizer que ganha mundiais sem ser a RFA, e os anos acabados em 4 revelam-se afortunados para a Mannschaft: conquistaram o título mundial em 1954 (contra a enorme Hungria), em 1974 (frente à Laranja Mecânica de Cruyft) e só falharam 1994, graças a uma extraordinária Bulgária, mas entretanto já tinham ganho em 1990. E pensar que tudo isto começou com uma bisonha derrota de uma velha equipa perante suplentes portugueses...Os 4-0 do primeiro jogo foram uma boa desforra, mas pelo menos Portugal pode dizer que só perdeu com a equipa campeã.

Nunca pensei que a Argentina chegasse à final. Teve alguma felicidade na maneira como o conseguiu, com pouco brilho e muita retranca. Conseguiu-o à custa de uma Holanda com medo de arriscar, ganhou nos penaltys e reeditou as finais de 1986 e 1990, quando as equipas das Pampas e dos tedescos dominaram os Mundiais de futebol. A verdade é que jogaram de igual para igual, com um rigor defensivo (mas porque é que o Benfica não esperou mais tempo para vender Garay?) e uma pressão notáveis, tiveram (escassas) ocasiões para marcar e só sucumbiram ao esgotamento físico, frente a uma Alemanha menos desgastada e a um fantástico golo do descansado Gotze. Tive pena por Enzo Perez e Garay - seria fantástico ter dois jogadores do Benfica, ou quase, campeões mundiais e titulares - e até pelo inconsolável Rojo. Mas a Argentina recuperou algum do estatuto de grande selecção que andava em baixo nos últimos anos. Prémio de consolação, e estranho mesmo, seria a nomeação de Messi para melhor jogador do torneio. Não haja dúvida que o argentino goza de excelente imprensa no mundo do futebol, ainda melhor que a de António Costa na política portuguesa...De resto, James ficou com o justo título de melhor artilheiro, e a Holanda em terceiro, também merecido.

O Brasil conseguiu encaixar dez golos em dois jogos, em sua própria casa. É obra. Depois do Mineirazo, novo banho. Scolari, claro, nunca poderia ficar, mas a futebol brasileiro terá que ser muito repensado e as suas estruturas alteradas. Tal como o português, aliás.

De resto, tivemos um excelente Mundial, que excedeu todas as expectativas (embora haje quem, inexplicavelmente, o considere um dos piores). Jogos emocionantes com muitos e belíssimos golos (o Espanha-Holanda, Alemanha-Argélia ou Brasil-Colômbia, por exemplo), selecções que surpreenderam (Argélia, Costa Rica, Estados unidos, e claro, a Argentina, como finalista), outras que confirmaram as suas boas indicações e que no futuro irão dar ainda mais cartas (Colômbia, Bélgica, Suíça) e as decepções (Portugal, claro, Brasil, Espanha, os mais clamorosos, Itália, uma vez mais, e de certa forma a Inglaterra, com atenuantes). Entre os golos, mais do que o de James ao Uruguai e o de Cahill à holanda, destaco o "salto de peixe "de Van Persie à Espanha e a fabulosa cavalgada de Robben no mesmo jogo, em que ultrapassou dois defesas, sentou Casillas e mudando de direcção atirou para o fundo. Simplesmente inesquecível.

De resto, o mundial teve episódios que não poderiam ser vistos noutras paragens: claques da Bósnia no Pantanal, O God Save the Queen entoado na Amazónia, protestos argentinos antes do jogo do Irão relembrando um terrível atentado com vinte anos, os jogadores alemães a confraternizar com índios da Bahia, fãs enlouquecidas a entrar nos treinos de Portugal para tocar em Ronaldo...O que fica para a história, são os vencedores, da Alemanha, e os vencidos mais evidentes:  Argentina, por chegar à final, e o Brasil pela forma estrondosa como o afastaram. Teve uma consolação: fugiu à completa humilhação de não ver os eternos rivais das pampas sagrar-se campeões em pleno Maracanã, apoiados pelas dezenas de milhares de adeptos argentinos que invadiram o Rio.


quinta-feira, julho 10, 2014

Depois do Mineirazo

 

Depois do terramoto que ontem se abateu sobre o Brasil, em Belo Horizonte, ficaram as palavras de choque, terror, espanto e também admiração pela proeza da Mannschaft germânica. O risco de perder este segundo mundial caseiro era real, como em tempos cheguei a prever, e o fantasma de novo Maracanazo esteve presente. O que ninguém podia certamente adivinhar era uma derrota desta dimensão avassaladora, mostrando uma selecção totalmente desgarrada, com uma atitude mental na lama, desfazendo-se psicologicamente como um castelo de cartas. Scolari não perdeu nova final mas não chegou lá da forma mais escandalosa. Todo o futebol brasileiro sofreu uma humilhação inaudita, que o abalou de alto a baixo, e terá de largar muito lastro e mudar muito se não quiser empenhar o futuro. Afinal de contas, também o futebol alemão se renovou depois de uma pesada humilhação frente a Portugal, em 2000. Mas as consequências podem ser ainda piores, para além do fim da carreira de Scolari e dos dirigentes federativos brasileiros. Os arrastões e as cenas de violência verificadas após o jogo demonstram isso mesmo. O futebol é um dos traços mais vincados da sociedade brasileira, e a selecção um dos factores de união nacional. O desastre pode ter implicações mais sérias, sobretudo em ano de eleições. Ainda por cima, muitos consideram o Mineirazo de 2014 pior que o Maracanazo de 1950,  que era aliás tido como uma das maiores tragédias da história do Brasil. É impossível prever o futuro, mas a humilhação terá com certeza repercussões extra-futebol, a começar em todos os erros e gastos da organização da prova. Convém lembrar que daqui a dois anos haverá jogos olímpicos no Rio.
E para a coisa ser pior, um dia depois do Mineirazo, os brasileiros ainda viram a Argentina chegar à final do "seu" mundial. Talvez a morte, dois dias antes, do mítico Alfredo Di Stéfano os tenha inspirado (embora fosse mais ligado a Espanha do que à Argentina), ou as orações do Papa fossem mais fortes. Os vizinhos não deixarão por certo de aproveitar esta ocasião para troçar ainda mais do velho rival, invadindo o Rio de Janeiro, mesmo que corram a risco de serem igualmente trucidados pela Alemanha (com a qual repetirão uma final). que será pior para o Brasil, afinal? Perder no confronto do 3º e 4º lugar com a Argentina ou vê-lo chegar à final, com o risco (mínimo) de a ver campeão da Mundo em pleno Maracanã?


segunda-feira, julho 07, 2014

David Luiz, uma estrela total


Temos visto neste Mundial jogadas fabulosas, revelações surpreendentes e jogadores que ficam debaixo de olho. Mas há um que em definitivo, é incontornável: David Luiz. O "macarrão" (nome que lhe puseram por causa do distintivo cabelo) revelou-se na Luz, embora durante muito tempo estivesse desaproveitado como defesa esquerdo. Quando o colocaram a central mostrou ser um portento, mesmo com as suas características subidas no terreno, às vezes arriscadas. Pude vê-lo nalguns jogos determinantes, como nos 4-1 em Alvalade para a Taça da Liga, em que abriu o marcador. Depois mudou-se para Londres, à conta de uma maquia interessante e Matic, ganhou uma Liga dos Campeões, uma taça UEFA (à nossa custa), e transfere-se agora para o milionário PSG, estabelecendo um novo recorde como defesa mais caro. Entretanto, nunca esqueceu o Benfica, aparecendo até em vários jogos e lançando mensagens de apoio nas redes sociais. Agora, no Mundial do seu país, é uma das traves principais da selecção, e não só a defender: marcou o golo que permitiu ao Brasil sobreviver e ultrapassar o Chile, e contra a Colômbia enviou um autêntico míssil  que se transformou no segundo golo. Comemorou em apoteose com o público e os companheiros, deu graças aos céus pela dádiva, e no fim ainda se lembrou de consolar o desalentado James Rodriguez e de pedir ao público que aplaudisse o colombiano. Em suma: é impossível não gostar deste tipo.

segunda-feira, junho 16, 2014

Recado à equipa nacional

 

Cara Selecção, não te esqueças que não estás em território desconhecido: essa cidade onde mais logo vais jogar foi fundada e erguida por portugueses, bem como as suas centenas de igrejas e a sua cultura mestiça, e serviu como primeira capital do território brasileiro por ordem do seu primeiro governador-geral (e fundador) Tomé de Sousa, ainda antes do Rio. A arquitectura que vês no centro, as igrejas, o pelourinho, os palácios, são tudo obras de portugueses (o resto deixámos aos bahianos indígenas, embora tenhamos dado alguns empurrões, nem sempre muito exaltantes, como os escravos trazidos de África, antepassados dos muitos negros dessa cidade). Não te esqueças igualmente que a cruz de Cristo que figurava nas naus de Pedro Álvares Cabral é a mesma que trazes incrustada na tua camisola. Por isso, reflecte nisto antes de enfrentares uma mannschaft cujos adeptos têm mais a ver com as regiões lá de baixo, em Porto Alegre, e honra os teus símbolos e a tua memória em terras que os teus ajudaram a construir. Só te peço isso.


Adenda - das três, uma: ou não leram este recado, ou uma mãe-de-santo lançou um mau olhado (o que explica as lesões de Coentrão e Almeida, e outras coisas) ou a recuperação de Schumacker deu uma imparável energia aos teutões. é que ao fabuloso dia desportivo para os alemães corresponde uma desastre incrível para Portugal, que sofre a maior goleada de sempre em Mundiais, perde dois jogadores por lesão e outro por castigo, e fica dependente dos próximos resultados e até da combinação de jogos entre terceiros.




Impressões do Mundial do Brasil


Vamos então ao assunto do momento, o Mundial de futebol. Tentei escapar à revoada de notícias inúteis sobre as ninharias da Selecção, e a ementa da Selecção, e quem passa a roupa, o que fazem os jogadores nos tempos livres, etc, etc. E também não tenho paciência para os constantes anúncios televisivos. Mas agora que a competição começou, é impossível uma pessoa manter-se indiferente. Até porque o que interessa, os jogos, têm sido aliciantes.

Claro que não se pode deixar de parte toda a polémica e protestos que tem havido contra a competição. O Brasil na sua ascensão económica e como membro dos BRICs, tinha de organizar um grande evento mundial que é o que fazem as potências emergentes. Na sua gula de evidência, conseguiu a organização não de um, mas de dois eventos seguidos: o Mundial de futebol deste ano e os Jogos Olímpicos de 2016. Podia ser também uma óptima oportunidade de fazer importantes reformas urbanas e de transportes, mas não é o que acontece. O investimento tem ido quase todo para a construção de estádios, pagos em boa parte com dinheiros públicos, ao contrário do que era assegurado no início, com custos muito para além dos iniciais, e com atrasos inacreditáveis, com o recinto da estreia a levar os últimos retoques a horas do primeiro jogo (são coisas destas que levam às derrapagens orçamentais). Quando algum brasileiro vier, como agora parece ser moda, falar no seu crescimento económico e destratar Portugal como "a favela da Europa", por exemplo, entre outros remoques mais ou menos imbecis, atirem-lhe com os inauditas situações da sua vergonhosa organização e comparem com o que aconteceu no Euro-2004 - construímos estádios a mais e gastamos mais do que deveríamos, mas ao menos correu tudo na perfeição, com os equipamentos prontos a meses do torneio. Além de que há estádios que se tornarão complicadíssimos elefantes brancos. E, como se viu, todas as promessas de novas redes de transportes ficaram no papel, e pelo meio, ainda foram despejadas inúmeras pessoas das suas casas. O mínimo que se poderá dizer é que o Brasil está longe de poder organizar grandes eventos de forma satisfatória, sobretudo agora, em que o seu crescimento económico arrefeceu.

Ainda assim, é incompreensível que haja pessoas a protestar contra o campeonato já depois do seu começo, querendo que não se realize. Que fizessem isso no ano passado, percebe-se. Que aproveitem para relembrar promessas não cumpridas, é normalíssimo. Mas queiram perturbar o evento no seu decurso? Quereriam que o Brasil tivesse feito todo o investimento para nada? E como ficaria a credibilidade do país caso não houvesse mesmo prova? Ou são inconscientes ou traidores. Os adeptos do "quanto pior melhor" estão em toda a parte, ou não se distinguissem lá pelo meio algumas bandeiras anarcas.
Mas políticas e estádios a cheirar a tinta à parte, a verdade é que a competição em si tem valido a pena. É claro que a forma como o Brasil ganhou logo a abrir a uma valorosa Croácia sem Mandzukic levanta todas as desconfianças, mais a mais quando a FIFA está sob qualquer suspeita (a história da escolha do Qatar como sede do Mundial em 2022 aí está para o comprovar). Ainda assim, tenho as minhas dúvidas que mesmo com o factor casa e alguns empurrões amistosos, o Brasil ganhe o certame. Já teve equipas melhores, e que não ganharam (sim, estou a pensar em 1982), e falta-lhe uma dupla avançada como as dos anos noventa - Romário/Bebeto ou Ronaldo/Rivaldo. Neymar não tem maturidade nem carisma para ser a grande figura da equipa, Hulk nem sempre está para isso, Fred é bom mas não é fabuloso, o meio-campo não tem um patrão, um capitão à altura; a defesa, e a baliza, ao contrário do que é tradicional, é de alta qualidade, mas por vezes anula-se. E um Brasil mais sólido cá atrás do que na dianteira nunca conseguiu grandes proezas.

Depois, o já famoso Espanha-Holanda, que acabou com a demolição do tiki-taka pela laranja mecânica, às mãos de uns fabulosos Robben e Van Persie. Esta Holanda bipolar (tanto faz grandes proezas numa competição como cai com estrondo na seguinte) promete, à Espanha já prenunciam o fim de um ciclo, mas convém ir com calma: afinal de contas, os espanhóis já começaram a perder noutras provas que acabaram por ganhar. Se bem que levar cinco não seja assim muito habitual, e aí recordamo-nos que a França e a Itália foram corridas da fase de grupos no Mundial em que entravam como detentoras do título.

De resto, pude ver uma Itália competente e experiente, embora não deslumbrante, uma Inglaterra voluntariosa e honesta, mas ainda verde, um Uruguai aflitivamente apático e algo envelhecido (nem o fantasma de 1950, tão recordado, lhes serve de alguma coisa), uma Colômbia que promete cumprir o que ficou pelo caminho há vinte anos e mais um punhado de selecções que prometem. Há pouco acabou o Argentina-Bósnia, no magnífico cenário do Maracanã, ideal para uma equipa estreante como os balcânicos. Os albicelestes ganharam bem, Messi marcou um bom golo, mas não deslumbraram (pudera, Enzo Pérez não jogou) e não posso considera-los como candidatos à vitória na prova. Já os bósnios mostraram atrevimento e raça, próprios de um país recente, têm a obrigação de mostrar o que valem ao Mundo, a união fortalecida pela provação da guerra e contra Irão e Nigéria têm todas as possibilidades de passar.

Amanhã entra Portugal em cena, na sua antiga capital colonial de Salvador da Bahia, contra os alemães, mas disso prefiro falar depois.

Entretanto, o cenário mais bizarro da prova fica até ver entregue ao jogo entre a Itália e a Inglaterra: em Manaus, no coração da Amazónia, ouviu-se o God Save the Queen a poucos quilómetros de piranhas e caimões, e tipos vestidos com cotas de malha e a cruz de S. Jorge a tirar fotos com índias. Desta nem Fitzcarraldo não se lembrou.

domingo, junho 30, 2013

O exemplo dos brasileiros


 O tiki-taka espanhol está a levar uma séria abada da técnica brasileira, em pleno Maracanã. O Brasil está próxima de ganhar a Taça das Confederações (se pensarmos que ganhou as duas anteriores edições, nem é grande augúrio para o Mundial), no renovado Maracanã. Lá fora, e mesmo lá dentro, houve novos protestos.
 
Os brasileiros saíram à rua em força, puseram Dilma Roussef a gaguejar e até conseguiram fazer com que o anunciado aumento do preço dos transportes fosse cancelado. As razões são mais que justas: apesar de todo o crescimento económico, os gastos públicos em estádios e outros luxos em detrimento do que deveriam ser as suas funções primordiais são obscenos e incompreensíveis. É verdade que, como noutras situações semelhantes, aparecem os bárbaros de sempre, com ideia de incendiar, pilhar e destruir; tivemos oportunidade de ver isso em Brasília (que diria o revolucionário Niemeyer?), e noutras "badernas". Nesses é que a polícia deve aplicar a sua vontade latente de utilizar os meios que lhe põem à disposição (e nestes incluo o cassetete). Mas na sua maioria, os protestos têm toda a razão de ser. O Brasil é até dos poucos países que se pode dar ao luxo de organizar eventos destes e ainda acumulá-los com os Jogos Olímpicos de 2016 - nada contra, desde que se aproveitem estruturas comuns e se façam as necessárias reformas urbanas no Rio. Mas também sabemos que são antes de mais uma afirmação de potências emergentes, e que em países onde a corrupção é toda uma cultura, os custos tendem a multiplicar-se, como tem acontecido. Os protestos visam também as altas instâncias desportivas que lucram com tudo isto, como a FIFA.
 
Ao olhar para isso, não posso deixar de pensar que os brasileiros mostram mais maturidade que os portugueses: andámos a fazer caminhadas de protesto de meio em meio ano, com "cantigas de intervenção" à mistura, mas onde andavam os simpáticos contestatários quando trazíamos alegremente para Portugal o Euro-2004 e os dez estádios (lembram-se de dizerem que a UEFA impunha esse número: pois no evento da Polónia/Ucrânia só ergueram oito recintos), quando os custos do CCB e Casa da Música derraparam, quando se construíram autoestradas para pouquíssimo movimento, quando levantaram barragens regiões classificadas pela UNESCO, etc. Agora andamos "intervencionados", pois andamos, mas a culpa é antes de mais de todo, e não apenas da "classe política", que de resto gastou o que gastou porque isso trazia mais votos.
 
Sim, digam o que disserem, mas as razões dos protestos dos brasileiros são uma lição para os portugueses, que não souberam tratar do que era seu na devida altura. E nem ao menos ganharmos aos espanhóis...

terça-feira, janeiro 15, 2013

A faustosa "vida privada" do sr. Relvas



As minhas desconfianças sobre as amizades de Miguel Relvas não eram em vão. Já tinha ouvido um rumor, mas ainda pensei que fosse uma notícia apressada. Mas não, era mesmo verdade, com pormenores agravantes: Miguel Relvas passou mesmo o reveillon no Rio de Janeiro, no Hotel Copacabana Palace, um dos mais distintos do Rio, e cujo preço é absolutamente proibitivo para quase todos os portugueses; a acompanhá-lo, Dias Loureiro e José Luís Arnaut. O primeiro dispensa apresentações, mais pelo seu papel na escândalo BPN do que pelo seu papel nos governos de Cavaco silva. O outro, que também teve cargos ministeriais, é um dos rostos principais dos escritórios de advogados a que o Estado recorre tantas vezes a peso de ouro, como ainda agora mesmo aconteceu, com as privatizações da TAP e da ANA. Mas ao grupinho luso juntou-se ainda outra figura: Paulo Maluf, ex-prefeito e governador de S. Paulo, ex-candidato presidencial (derrotado por Tancredo Neves), e um dos rostos da corrupção em larga escala do Brasil, com mandado de captura emitido pela Interpol por lavagem de capitais e fraudes várias. Ou seja, Miguel Relvas dá-se com os melhores representantes da corrupção brasileira, à esquerda (José Dirceu, o homem do "Mensalão") e à direita.

O mais incrível é que temos discutido assuntos como o "Zico" e a mala da Pepa Xavier mas aparentemente este assunto passou ao lado dos debates e dos opinadores do Reino. Apenas o Correio da Manhã e o Governo Sombra lhe pegaram, e bem, além do. Dirá o sr Relvas - peço desculpa, mas recuso-me a tratá-lo por um título académico que não me merece confiança - que não discute "a sua vida privada". Como disse João Miguel Tavares, "vida privada, o caraças": Relvas é um dos estrategas-mor de um Governo que cortou nos salários e nas pensões, que propõe às pessoas emigrar e que afirma que temos de empobrecer, é a ele que cabem alguns dos programas mais controversos, como as privatizações, e os seus rendimentos provêm do erário público. Estando reunido com gente que contribuiu para o descalabro moral e financeiro do país (e do Brasil, já agora), ou que está envolvida por fora no processo de privatizações, há uma quebra total da imparcialidade e compatibilidade que os governantes deviam respeitar acima de tudo, além de que parece uma piada de mau gosto quando a população portuguesa passa por sérios apertos económicos e mergulha numa crise de confiança. Do sr. Relvas, infelizmente, já se espera tudo (até que seja amigo de Madoff). Da nossa comunicação social, habitualmente tão lesta a denunciar os pecados da nação, é que esperava um pouco mais de investigação.

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Niemeyer, mais próximo de Gaudi que de Estaline


A morte de Oscar Niemeyer, ainda que pouco imprevisível, dada a sua centenária idade e os seus recentes problemas de saúde, suscitou inúmeros artigos, retrospectivas e homenagens póstumas sobre a vida e obra do arquitecto brasileiro. Reviu-se a monumental construção de Brasília, essa nova capital surgida no sertão, que ainda hoje nos parece vanguardista, com a sua Esplanada dos Três Poderes e a Catedral em forma de coroa de espinhos; mostrou-se a conhecidíssima sede da ONU em Nova York e o bairro da Pampulha em Belo Horizonte, que anteciparam Brasília; explicitou-se que afinal o Casino da Madeira não era realmente de Niemeyer, porque segundo o próprio fora outro a acabar o projecto; passou-se ao de leve pela sede do PC francês, que com a leveza das suas linhas tanta carga ideológica lhe tirou, talvez antecipando o "Euromunismo" dos anos setenta; e ainda se chegou às últimas obras, como o extraordinário Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que parece ter pousado directamente do espaço em frente à Baía de Guanabara. Houve mesmo espaço para alguma petite histoire curiosa, como a do colégio de Moimenta da Beira, que se inspirou no Palácio da Alvorada, de Brasília, para construir os arcos da sua fachada, tendo na altura recebido uma carta de apoio do próprio Niemeyer face ao desagrado que provocou entre as autoridades da época e à revolta a favor da obra. Aliás, a capital brasileira não cessou de povoar o imaginário por este país fora - em Vila Real, um prédio modernista dos anos sessenta ainda hoje é conhecido como "edifício Brasília"; e não esqueçamos o mítico shopping da rotunda da Boavista, que lá está em pleno funcionamento.
 
Mas também se falou no seu percurso de (longuíssima) vida e na sua orientação ideológica. Niemeyer permaneceu comunista até ao fim da vida, era amigo do histórico líder Luís Carlos Prestes, chegou a presidir ao PCB e viveu exilado durante a ditadura militar. Era autor também de algumas obras emblemáticas de partidos comunistas outora pujantes, como a supracitada sede do PCF e a do seu órgão oficial, L´Humanité, em Saint-Denis. Elogiou mesmo publicamente Estaline há não muitos anos.


Contudo, Niemeyer estava a anos-luz da arquitectura estalinista que se abateu sobre a URSS e os países do Pacto de Varsóvia depois da 2ª Guerra, com edifícios de estado esmagadores e funcionais. Os seus projectos demonstram antes uma leveza, uma preocupação estética que o afasta irremediavelmente dos modelos totalitários vigents nos estados comunistas. Talvez consequência de ser brasileiro e meridional, preferiu sempre a estética à funcionalidade, a leveza à imponência, as curvas ondulantes às rectas precisas e rígidas. Neste último aspecto aproxima-se de Antoni Gaudi, outro génio da arquitectura do século XX, que dizia que "a linha recta é do homem, e a curva de Deus". Não sendo religioso, apesar das suas obras para igrejas, Niemeyer procurou de certa forma atingir também o transcendente através do belo que criava com as suas obras, escapando às convenções arquitectónicas mais utilitaristas. Como ele próprio dizia, "não é o ângulo recto que me atrai. Nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual".

 

sexta-feira, novembro 30, 2012

O risco de Scolari

 
Scolari regressou à Selecção Brasileira, para substituir Mano Menezes e comandar o Brasil no Mundial caseiro de 2014. Um erro das duas partes. Para começar, em obediência à máxima que estipula que "não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes". Depois, o actual "time" da Canarinha não é dos melhores que já teve. É certo que até o Mundial há tempo para reunir um bom conjunto com um mínimo de coesão. Scolari até já deu provas disso, inclusive no cargo que ocupa, quando em 2002 reuniu um grupo desgarrado e, com o génio de Ronaldinho Gaúcho e rivaldo, conquistou o título mundial. Mas e se o Brasil falha? Pior, se falhar na final? Dá para avaliar a dimensão do trauma? Felipão tornar-se-à então o primeiro treinador a perder uma final de um Europeu e uma final de um Mundial em casa. Ficaria assim amaldiçoado na história do futebol, o que convenhamos, é injusto. Mas há mais: este é o segundo Mundial de futebol que o Brasil organiza. O primeiro, como os mais estudiosos da matéria devem saber, deu-se em 1950 e acabou com o Maracanazo, a célebre vitória do Uruguai de Schiaffino e Ghiggia sobre o Brasil em pleno Maracanã, provavelmente no jogo com mais espectadores de sempre. Ora se semelhante desastre voltar a acontecer, não é só Scolari que fica amaldiçoado. A partir daí, e supersticiosos como são, nunca mais os brasileiros quererão pensar em organizar mais competições do género em casa. E o Maracanã deixaria de ser o altar desportivo do Brasil para se tornar numa arena funesta e maldita, condenadaa prazo à demolição. Se cuida, Felipão.