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domingo, maio 08, 2016

O túnel


Ontem, dia 7 de Maio de 2010, abriu-se finalmente o já quase mítico túnel do Marão, com inauguração pública a meio da tarde e a abertura ao público à meia-noite. Anos de obras, paragens, revisões do projecto, derrapagens e esperas acabaram finalmente e há já uma auto-estrada pelo Marão fora.

Será exagero dizer que é uma obra revolucionária, ou mais ainda, que o interior deixou defnitivamente de estar isolado. Outras regiões interiores que ganharam bons acessos não deram qualquer salto e continuaram a perder população. Trata-se de uma obra complexíssima e muito útil, é verdade, mas a verdadeira travessia do Marão aconteceu há vinte e tal anos, aquando da construção do IP-4. Nessa altura houve uma enorme emoção por parte de quem conhecia o caminho que atravessava a serra, sobretudo dos transmontanos (a euforia era tanta que os restaurantes de Amarante, no dia da abertura, ficaram sem comida). Até essa altura, a ligação com Trás-os-Montes fazia-se por uma estrada nacional de montanha, com centenas de curvas - não exagero, cerca de quatrocentas -  sempre com o temor de se atropelar um lobo. Do Porto a Vila Real eram duas horas e meia, se as coisas corressem bem, e ficava-se com o estômago às voltas. No Verão, com todas as festas das terras que se atravessava até ao destino, perdia-se um tempo incontável. Depois, o IP4 mudou a parte pior do trajecto, e o tempo de viagem encurtou visivelmente. A A4, primeiro até Penafiel e depois até Amarante, encurtou-o ainda mais. Mas o IP tinha notórios erros de engenharia, curvas mal feitas e mudanças abruptas de 3 faixas, que a tornaram numa estrada extremamente perigosa. Em vinte anos perderam ali a vida mais de 130 pessoas. Ainda hoje se podem ver, ao longo do caminho, diversas alminhas e cruzeiros recentes a recordar quem ali perdeu a vida. Entretanto fizeram-se melhoramentos, como barras e separadores nas faixas centrais, e a segurança melhorou visivelmente. A A4 chegou às portas do Marão, retomando o caminho em Vila Real, em ligação com a A24, chegando a Bragança em 2013. Só faltava mesmo o troço mais difícil. Custou, mas acabou-se. Entre Porto e Vila Real, se descontarmos a mais periférica A7, já se pode circular exclusivamente por autoestrada. Não é o início de uma mudança radical de acessos, mas a sua conclusão. Que só trará benefícios para a região se se desenvolver um pouco mais a incipiente indústria e a agricultura (dando incremento a projectos no papel ou suspensos, como o Cachão), bem como o potencial da UTAD e politécnicos, e não encerrarem mais e mais serviços públicos que provocam a erosão populacional. Só assim é que esta ligação dará os seus frutos aos que vivem "para lá do Marão". E Trás-os-Montes continuará a ser do interior, não precisando desse complexo provinciano de "ser do litoral", num país que pouco aposta no mar.

Resta apenas dizer que os convites feitos a Sócrates e a Passos Coelho para a inauguração do túnel foram justíssimos. Afinal de contas foram eles os principais responsáveis pelo lançamento e construção desta obra. Para mais, dois homens com origens em Trás-os-Montes. Pena o habitual protagonismo inoportuno do primeiro e a ausência mal justificada do segundo (quando a verdadeira razão até era compreensível). E pena também que boa parte da comunicação social desse mais importância às questiúnculas políticas relacionadas com os dois que à obra em si.

PS: quase de propósito, no mesmo fim de semana da inauguração, também o Desportivo de Chaves regressou à primeira divisão, coisa que ainda não tinha acontecido este século. Todas as desculpas de maus acessos até Chaves desapareceram definitivamente, embora já houvesse autoestrada até lá. E se se tivesse atrasado mais umas semanas, também o novo órgão da Sé de Vila Real, também há muito esperado e que chegou em Abril, teria sido inaugurado por estes dias.



quarta-feira, dezembro 16, 2015

O Palácio da Música que nunca o chegou a ser



Já tinha falado disso, aquando dos dez anos da Casa da Música, mas volto agora ao tema, com novas imagens. Lamentavelmente, pensei que a exposição que celebra os cem anos do nascimento de Agostinho Ricca, na galeria da biblioteca Almeida Garret, ficasse até Janeiro, mas só vai estar aberta até amanhã, 17. Entre várias obras concretizadas e celebradas do arquitecto portuense, como o complexo do Foco (incluindo o antigo e excelente cinema e a igreja), um conjunto de estabelecimentos bancários, igrejas, edifícios administrativos, habitações unifamiliares, e outros com mais ou menos interesse, podem ver-se os planos da alternativa à Casa da Música, e que nunca chegou a ser do papel ou da maquete. Na realidade chamar-se-ia Palácio da Música, teria atrás de si o imenso espaço do Parque da Cidade, e não a rotunda da Boavista, e o arquitecto seria português e não holandês. Como hoje se sabe, prevaleceu o "iceberg" de Rem Koolhas. A Casa da Música será provavelmente um projecto mais bem conseguido e esteticamente mais belo do que seria o de Ricca, mas para além de ser uma ideia arrojada e corajosa, o espaço envolvente talvez compensasse. O Palácio da Música seria mais atarracado, mais brutalista, teria um impacto estético menos vertiginoso, mas o cenário de fundo do Parque da Cidade torná-lo-ia igualmente um ex-líbris portuense. Aquele que seria o último grande trabalho de Ricca não vingou, mas o edifício consagrado à música que nunca chegou a ser pode ainda ser visto amanhã, na biblioteca Almeida Garrett, ou, do mal o menos, ficar com uma ideia pelas fotografias de baixo.



Maquete do Palácio da Música, com imagem do seu mentor em segundo plano.

sábado, maio 30, 2015

Palmira



Quando era pequeno, lembro-me de ter ficado espantado com a fotografia que vinha na enciclopédia geográfica da Readers Digest de um enorme conjunto de colunas que se erguiam no deserto sírio. Ao lado explicava-se que se tratava da antiga cidade de Palmira, que chegara a ser centro de um império e que afrontara as legiões romanas sob a liderança da sua mítica rainha Zenóbia.
Imaginar uma grande cidade da Antiguidade reduzida a um conjunto de colunas e edifícios arruinados rodeados de palmeiras e implantados numa terra cor de ocre tinha algo de misterioso e quase inatingível, e só podia fazer despertar a imaginação. E a imagem de Palmira nunca mais me saiu da cabeça. Muitos anos mais tarde leria outras informações sobre a cidade. E na sua série de documentários sobre o Mediterrâneo, Miguel Portas andaria por Palmira, demarcando a fronteira entre o deserto e o Mediterrâneo. Onde acabavam as oliveiras, acabava a influência mediterrânica. Para diante, estendia-se o deserto sírio.

Agora que o diabólico Daesh, ou "Estado Islâmico", se apoderou da cidade e da região envolvente (coisa que já temia há algum tempo), é de esperar outra destruição patrimonial bárbara como as que têm sido efectuadas na planície de Nínive, ao destruir toda a herança dos povos assírios, medos e babilónios que encontram, em museus ou fora deles. Surpreendentemente, os comunicados do Daesh negam, afirmando que apenas as peças figurativas serão destruídas, deixando intocado o essencial de Palmira. Mas aquilo que poderia ser uma nesga de civilização da organização que agora controla metade do território sírio é absolutamente desmentida pelas notícias da "execução" de centenas de pessoas na região, incluindo crianças, até no recinto do teatro romano. É de esperar de quem mata assim civis desta forma que poupasse as pedras? O "estado Islâmico" só se confirma como a organização mais tenebrosa das últimas décadas, mais nefasta ainda do que os nazis ou os khmers vermelhos.

Palmira era daqueles sítios mágicos que queria conhecer desde que vi as suas fotografias. Talvez ainda seja possível, quando um dia a região estiver pacificada. Mas desconfio que com o que lá se passou agora, por estes dias, vai-me faltar a vontade ou a coragem.

quarta-feira, abril 15, 2015

Dez anos com a Casa da Música



A Casa da Música tem já dez anos. Alguns admiram-se com o facto de o edifício que mudou a rotunda da Boavista ter já alcançado uma década de idade, embora devessem admirar-se ainda mais com os seus quase 15 anos: afinal de contas, as primeiras previsões apontavam para a inauguração em Dezembro de 2000, nas vésperas do Porto se tornar Capital Europeia da Cultura de 2001. Tornou-se por isso mesmo um símbolo de despesismo, atrasos no cumprimento de prazos em infra-estruturas e esbanjamento de dinheiros públicos em obras de vulto, típicos dos anos de "vacas gordas". Esses anátemas, ligados a um certo sentimento de usurpação do espaço da antiga remise dos eléctricos na rotunda e à sua forma estranha e bojuda, enchendo completamente aquele espaço, levou a sentimentos de desconfiança e de desagrado de muitos.


Mas com os anos, a Casa da Música acabou por ser aceite e ocupar o seu lugar como símbolo do Porto contemporâneo. Começando, claro, pelos seus muitos e ecléticos concertos, que tanto misturam música erudita como música electrónica, Bach e John Cale, música sacra e os populares clubbings, que acabam com o bar/restaurante transformado em pista de dança ao som de um qualquer DJ que até pode ser Adolfo Luxúria Canibal, além de outras actividades (o bar dos artistas, com grandes janelas envidraçadas para a avenida, é muito procurada), sobretudo relaccionadas com a cidade, como o S. João. O prestígio que alcançou deve-se tanto aos seus programas como à arquitectura provocante de Rem Koolhaas. 
Nem tudo correu bem, mas a Casa da Música, dez anos depois da sua abertura, tornou-se um ex-líbris portuense e a instituição musical mais prestigiada do país. Poderemos sempre lamentar a destruição da estação dos eléctricos, que levou a enormes discussões no Porto, mas podemos também estabelecer comparações com o que aconteceu com o convento de S. Bento de Avé Maria e estação de S. Bento, que ocupou o seu lugar. Apesar da perda de um edifício de grande valor, construiu-se uma estação de comboios belíssima no seu lugar. O que se ganhou terá sido superior ao que se perdeu.


Ainda assim, podemos também pensar no que nunca chegou a ser. E se a localização ideal da Casa da Música não seria no Parque da Cidade, como chegou a ser defendido por Agostinho Ricca no seu projecto para um "palácio da música" naquela mesma zona.





terça-feira, março 31, 2015

Périplo por Espanha


Aqui ao nosso lado há uma imensa terra, tão fabulosa como diversa. Espanha é o único país com que temos fronteira, e no entanto nem sempre aproveitamos essa porta aberta (sobretudo desde 1986). Há anos que olho para os mapas do país vizinho, fazendo itinerários, organizando jornadas e excursões mentais, listando locais, fazendo contas. Mesmo a Galiza, a região que conheço melhor, ainda me reserva muitas surpresas. Se pudesse, faria umas quinze viagens em Espanha, todas diferentes, e muito ficaria por ver. De quando em quando, lá consigo fazer uma. E há dias percorri uns bons quilómetros, passando em todas as regiões do Norte do país, excepção feita à Catalunha e à costa cantábrica e Astúrias.

Estrada sempre a direito na Tierra de Campos, entre Benavente e Palência, a parte verde do imenso planalto castelhano.



Depois de largas centenas de quilómetros por estrada, com paragem em Logrono, para experimentar os vinhos da Rioja, o objectivo da nossa viagem: o viaduto da futura autoestrada que ligará a Navarra a Jaca, sempre com os Pirenéus ao lado, e que passará sobre as águas da albufeira de Yesa. O terreno ainda está enxuto, mas por pouco tempo. A obra é da autoria de engenheiros espanhóis e portugueses, entre os quais o que me convenceu a ver a nova via naquela paisagem singular. 



A pequena aldeia de Sigués ficará separada da albufeira por um dique. Todo o terreno que vemos em primeiro plano será submerso. O que quer dizer que Sigués acabará comprimida entre a água vedada e a montanha atrás, cortada por um estreito vale.


Mais atrás, ou mais para montante, a paisagem em Salvatierra de Escat, nome meio castelhano meio aragonês (suponho eu), já em plenos Pirenéus.


Voltando para oeste, contornando á Álava e Burgos (onde não houve tempo para parar, com pena minha, para finalmente apanhar a catedral aberta, coisa que me escapou noutras ocasiões), regresso a Castela, ou mais precisamente a Léon, com a sua altaneira catedral no centro da cidade, entre o casco histórico e outros monumento com as memórias do antigo reino leonês.
 
 
Como a Basílica de Santo Isidoro, onde está enterrado o próprio Santo Isidoro de Sevilha, arcebispo de Sevilha na época do reino visigodo reconhecido como Doutor da Igreja, além de vários reis de Leão, no respectivo panteão. Ali tiveram lugar as Cortes de Leão de 1188, que incluiu representantes populares e da burguesia, menos conhecidas que a Magna Carta, mas igualmente precursoras do que seria o modelo parlamentar e a defesa de direitos fundamentais.


 
Mais recente mas não menos admirável, a Casa Botines, da autoria de Gaudi, projectada para ser um palacete residencial, mas que se tornaria na sede bancária da Caja España. Note-se à esquerda, em baixo, a estátua ao arquitecto catalão sentado no banco, desenhando o edifício. A meio da imagem, uma barraquinha de propaganda da Union del Pueblo Leonés, um partido regional cujo objectivo maior é formar uma região autónoma separada de Castela, correspondente ao antigo Reino de Leão.




Pormenor do frontão sobre a entrada, com S. Jorge a trespassar o dragão.
 
                        Dia de mercado em frente ao Ayuntamiento, na Plaza Mayor de León.
 
 
Mais a oeste, no meio do planalto leonês e da Maragateria, a antiquíssima Astorga, pequena cidade com uma imponente catedral, construída sobre a sua antecessora medieval. Importante cruzamento na época dos romanos (como comprovam os marcos no Gerês, que indicavam as distâncias entre Bracara Augusta e Astúrica Augusta), recuperou importância na Idade Média com o Caminho de Santiago. Aqui morreu o Conde D. Henrique, pai do fundador. A catedral tem traços arquitectónicos até Séc. XVII, visíveis nas torres. O templo impõe-se sobre a cidade, mais ainda pelo facto de em frente quase não haver praça.
 
 
Ao lado, outro das raras construções de Gaudi fora da Catalunha: o palácio episcopal, hoje Museu dos Caminhos de Santiago, um edifício de contos de fadas, ainda sem as linhas curvas que caracterizariam a obra do genial catalão.


O conjunto da Catedral-palácio episcopal




Descendo El Bierzo, para baixo de Ponferrada, e já a caminho da Galiza, Las Médulas. Aquilo que parece uma gigantesca termiteira era na realidade a maior mina de ouro do Império Romano. Uma montanha esventrada que assim ficou, até aos nossos dias, mostrando uma paisagem alucinante no meio dos montes e do verde.

sábado, julho 26, 2014

Imagens relativas a posts do passado


Olha o ex-futuro estádio do Chelsea, que infelizmente não vai ser.


O antigo estádio do Arsenal. E o actual. Parece que mudaram do antigo Bessa encurralado a meio de um bairro de casas térreas para uma espécie de Luz envidraçada (do qual aliás os portistas não têm a melhor das recordações).


quinta-feira, dezembro 12, 2013

Ideias geniais para fazer história com os estádios


A propósito de arquitectura arrojada de que já se falou aqui há poucos dias, lembrei-me de outro, francamente original, também respeitante a uma relíquia dos tempos do carvão e aço, à qual querem igualmente dar um destino diferente daquele para a qual estava destinada (embora não já a mudá-lo de lugar).

Londres, para além de ser uma metrópole global, possui uma infinidade de estádios: o Emirates, do Arsenal (de que se falará mais adiante), o Stamford Bridge, do Chelsea (que aqui nos interessa particularmente), o White Hart Lane, do Tottenham, o Upton Park, do West Ham, o Craven Cottage, do Fulham,o Loftus Road, do Queens Park Rangers, o Selhurst Park, do Crystal Palace, e muitos outros de clubes menores, já para não falar de recintos dedicados a outras modalidades, como o rugby ou o cricket, e, claro, o mítico Wembley e o Estádio Olímpico, construído para os jogos de 2012, e de que se diz ser objecto de interesse por parte do West Ham para uso futuro. Uma overdose de recintos desportivos, como se vê, e um pouco estranha para o habitual pragmatismo britânico (nisso, os italianos são bem mais poupados: nas grandes cidades, um estádio serve para duas equipas).

Com o crescimento desportivo do seu clube, Roman Abramovich cogitou que o Chelsea devia jogar num recinto mais nobre e maior do que o velho Stamford Bridge, já que por razões várias este não se podia expandir mais. Havia o problema de construir um novo estádio em local que não se afastasse muito dos territórios do clube. E no ano passado, surgiu a ideia salvadora: a estação eléctrica de Battersea, no centro da capital londrina, junto ao Tamisa, que em tempos alimentara boa parte da energia da cidade, desactivada há perto de trinta anos, era o sítio ideal. O edifício, já considerado um monumento londrino, é também um ícone da cultura pop, sobretudo desde surgiu como cenário do disco Animals, de 1977, dos Pink Floyd, então no auge da popularidade.
 

A ideia era original, vanguardista, provocadora: fazer de um venerável edifício industrial e símbolo pop um novo e espaçoso estádio de futebol,  para 60 mil espectadores, que provavelmente o tornaria ainda mais icónico. O Chelsea ganharia um novo estádio, dentro da "sua" área, e a Battersea Power Station uma nova vida. Imagine-se David Luiz, Óscar ou Hazard correndo às ordens de Mourinho sob as quatro enorme chaminés industriais que em tempos alimentaram a metrópole britânica. O clube londrino, até agora relevante graças aos dinheiros do multimilionário Roman Abramovic, que o guindou ao mais alto escalão do futebol europeu, tinha aqui uma oportunidade de ouro para marcar a arquitectura de estádios para todo o sempre.
 
 

Só que essa utopia dos relvados terá de ficar no papel e nas imagens virtuais: a oportunidade perdeu-se não por culpa do clube mas porque um grupo de investidores malaios ofereceu umas boas centenas de milhões de libras pelo espaço para construir, na velha fábrica e nas imediações, centros comerciais, escritórios, hotéis, habitação, etc, enfim, o costume. Gorou-se assim a hipótese de se criar um estádio-monumento único, por culpa do habitual investimento asiático, que venceu o russo. Não sei como vai ficar aquela zona, mas o impacto da velha estação não será com certeza o mesmo.

Mas apesar de tudo Londres já marcou pontos na preservação patrimonial respeitante a estádios. O caso do Arsenal, grande rival do Chelsea, é ilustrativo, mas por razões inversas: aqui, o património a preservar era o próprio estádio. Quando os gunners inauguraram o seu moderno e espaçoso Emirates Stadium, em 2006, tiveram obviamente que abandonar o velhinho Highbury, já demasiado acanhado para as ambições do clube, e destinaram o seu espaço para uma área residencial. Mas não de maneira a que se esquecesse a memória do antigo recinto: as bancadas de topo foram demolidas, as laterais convertidas em apartamentos e as fachadas exteriores sofreram alterações mínimas, de modo a conservar o mesmo aspecto que tinham quando ali se jogava futebol (e os símbolos do clube), pelo que alguém pode aparecer à janela ao lado do canhão que simboliza o Arsenal em baixo-relevo. No meio, construíram-se os jardins comuns do complexo residencial a que deram o nome de Highbury Square. Assim, o antigo relvado onde Isaías, Veloso e Paneira se cobriram de glória é um local para a miudagem brincar ou de simples encontro, preservando-se assim totalmente a forma e a memória da histórica casa do Arsenal durante quase cem anos.
 





sábado, novembro 30, 2013

O projecto impossível da ponte sobre a cidade


O concurso de ideias para a reabilitação do quarteirão da Companhia Aurifícia, ali entre Cedofeita/Álvares Cabral/Praça da República, de que se conheceram os resultados há pouco tempo, saltou para os holofotes mediáticos graças ao inusitado projecto de Pedro Bandeira e Pedro Nuno Ramalho, ambos da Faculdade de Arquitectura do Porto: desmontar a Ponte D. Maria e recolocá-la no quarteirão da Aurifícia, criando no centro da cidade aquilo a que chamaram "o efeito Eiffel" (a expressão é dupla e literalmente feliz, já que o autor da ponte foi precisamente Gustave Eiffel). De vetusta e utilitária travessia de comboios - embora elegante e centrada numa paisagem admirável, mesmo com a suburbanização circundante - a impressivo monumento à idade do aço, dominando a urbe. O projecto é radical, sonhador, provocador, quase utópico, e como não podia deixar de ser arrebanhou entusiastas e criou opositores. Tanto fará, porque não ganhou o concurso. Mas a ideia prevaleceu. Por um lado, houve quem achasse que os vinte milhões de euros previstos para a empreitada nem são assim tanto, e que o impacto estético e icónico seria tão grande ou maior que o da torre do mesmo autor da ponte, na margem esquerda do Sena. Por outro, há quem argumente que os custos não se justificam em época de crise, que a própria ideia de imóvel fica desvirtuada (porque "existem no lugar próprio"). É crível que haja também por aqui rivalidades e egos inchados de outros arquitectos.
 
 
Devo dizer que o projecto é sem dúvida assombroso. Imaginativo, arrojado, esteticamente muito bem conseguido e interessante. Eu próprio fiz as medições, com o auxílio de um mapa, e concluí que a ponte cabia por inteiro no quarteirão, como aliás o próprio projecto o comprova. E não haja dúvida que daria ainda maior visibilidade ao Porto. Quais são então as dificuldades práticas? Para além dos custos envolvidos, que de facto não caem bem nos actuais tempos de penúria, mas que seriam comportáveis em épocas de vacas mais gordas (se isso acontecer), há ainda o facto do quarteirão, segundo o projecto vencedor do concurso, ser no futuro próximo objecto de reconversão em habitação, comércio, jardins e outros espaços comuns, etc. Alguém gostaria de viver, literalmente, sob a ponte? Imaginem o que seria em noites de vento e tempestade, sentir aquela enorme estrutura a vacilar, já sem os pilares que a sustentam.
 
 
É por isso que considero o projecto, pese toda a imaginação que comporta, inaplicável em concreto. Mas a ideia deve prevalecer, ser recordada, e deve servir de exemplo para novas propostas arrojadas, que permitam sustentar o nosso património e dar-lhes mesmo uma perspectiva renovada e quem sabe, um novo uso.
 
PS: tristemente pertinente, na semana em que morreu Alcino Soutinho, um dos mais notáveis nomes da FAUP e da "Escola do Porto". Paz à sua Alma.

segunda-feira, novembro 18, 2013

Eis os resultados do Viaduto do Corgo

 
Enquanto o túnel do Marão não está pronto (antes era preciso que se reiniciassem as obras, paradas há dois anos), já se pode cortar caminho indo do IP-4 do Marão à A4 em direcção a Bragança sem necessidade de passar por Vila Real. O viaduto do Corgo abriu em Setembro passado, ligando Parada de Cunhos à autoestrada, transpõe a profunda garganta rochosa do rio Corgo e é uma obra de engenharia e de arquitectura prodigiosa, pese o impacto visual na região que vai demorar alguns anos a passar. Ficam aqui umas imagens, algumas em 3D, da sua construção, do seu desenho e das suas características. A primeira e a última parte, sobretudo, valem bem a pena.
 
 

segunda-feira, junho 24, 2013

Nos cinquenta anos da Ponte da Arrábida


Parece ser o ano das comemorações de "cinquenta anos" dos monumentos mais visíveis do Porto. Há pouco tempo tivemos a Torre dos Clérigos. Agora, é a Ponte da Arrábida que faz meio século de vida. A obra do Eng. Edgar Cardoso, à época o maior arco de betão do Mundo, continua a manter a mesma elegância, mas a sua utilidade aumentou muito, tendo em conta o trânsito que lá pára em hora de ponta. O toque de modernidade é óbvio, mesmo nos dias de hoje, até pelo pormenor dos elevadores da base ao tabuleiro (que obviamente já não funcionam) ,e só tem como senão o facto dos seus acessos terem cortado metade da quinta dos Andresen. Cinquenta anos já é algum tempo, o suficiente para que a ponte tenha sido recentemente classificada como monumento nacional, mas a mim parece-me que existiu desde sempre, e não consigo imaginar o rio sem aquele arco branco (que alguns tags envergonham). Curioso é que tenha sido inaugurada na véspera de feriado sanjoanino, sendo que a outra ponte do genial Edgar Cardoso, a apropriadamente chamada Ponte de S. João, que veio substituir a de Dona Maria como travessia ferroviária, também entrou em funções no mesmo dia. 


quinta-feira, fevereiro 07, 2013

"Casas de Brasileiro"


 
Sempre tive um fraco pelas chamadas "casas de brasileiro". Em tempos eram consideradas um símbolo de novo-riquismo e ostentação dos que voltavam a Portugal com grande fortuna feita no Brasil, para onde tinham partido décadas antes com uma trouxa e a roupa do corpo. Um pouco à imagem de muitos emigrantes que actualmente vêm de França ou da Suíça e constroem enormes vivendas de gosto duvidoso que os façam esquecer um passado pouco digno de memória. A grande diferença é que as casas dos brasileiros torna-viagem tinham na maioria das vezes uma sensibilidade estética e uma grandiosidade que os mamarrachos de betão actuais nem de longe nem de perto atingem (mas daqui a uns cem anos se verá se é mesmo assim ou não).
 
Talvez pelo seu exotismo ou por descender de um "brasileiro" que voltou à pátria, desde pequeno que estas casas me intrigaram. Há-as às dezenas pelo país, sobretudo no Norte e Centro, revivalistas, neomanuelinas, neogóticas, etc. A mais conhecida é o Palácio da Quinta da Regaleira, com os seus símbolo maçónicos e o seu poço iniciático, mas há muitas outras, como o palácio do conde Dias Garcia, em S. João da Madeira, a "Villa Idalina", em Seixas (talvez a de que me lembro há mais tempo), mesmo sobre a estrada e o rio Minho, o "castelo de Dona Chica", perto de Braga, a "Villa Campos" à saída de Vila Real, a Quinta do Montadonuma colina de Gaia sobranceira à foz do Douro, e tantas com menor ou igual valor arquitectónico.
 
Quem gostar destas construções pode ver a exposição de cinquenta fotografias de "casas de brasileiro" no Centro Português de fotografia, na antiga Cadeia da Relação, no centro do Porto. Não convém é haja grandes atrasos, porque só está aberta até dia 12 de Fevereiro, dia de Carnaval.
 
 

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Princípio absoluto: final da Taça é no Jamor

 


Final da Taça que se preze é no belíssimo cenário do Jamor. Já passou pelas Antas e por Alvalade, certo (curiosamente, nunca pela Luz), mas não com a mesma mística e o mesmo simbolismo. Querer fazer a final da Taça em monos de cimento rodeados de nenhures como o Algarve ou Aveiro (ou mesmo Coimbra e Leiria), como sugerem os anti-Estádio Nacional, é pura tacanhez, ou então detestam a competição. Felizmente, e por ora, vai continuar a ser lá. Se tudo correr bem, irei pela primeira vez a uma final da Taça naquele estádio majestoso rodeado de bosques. Para ser perfeito, só mesmo se fosse de novo a 10 de Junho e desse para ir de comboio até à estação do Estádio Nacional. Mas que acima de tudo o Benfica ganhe o caneco, claro. Para alegria do povo...e minha.
 

A desaparecida estação do Estádio Nacional, terminal do ramal com o mesmo nome. Hoje em dia, no seu lugar, há um complexo de piscinas.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Notas sobre a Bulgária - a velha capital


Por incúria e esquecimento, a última parte da trilogia búlgara a que me dispus a escrever ficou parada em 2012. Tentarei consertar essa lamentável falta, depois dos dois anteriores posts acerca do país, começando 2013 colmatando falhas que vêm do ano que agora passou.
Na Bulgária, como disse anteriormente, não abunda a arquitectura militar. Há contudo alguns exemplares notáveis. Regressando da costa, de novo pela planície trácia, inflecte-se para Norte, atravessando montanhas e velhas aldeias meio escondidas. Nas proximidades fica o Vale das Rosas, cuja essência para a indústria de perfumes e cosméticos é uma das grandes exportações búlgaras. Por entre os montes Balcãs, encontra-se a cidade de Veliko Tarnovo.
Está longe de ser uma das maiores urbes do país, que já de si não são enormes, mas também não é um vilarejo perdido. A cidade propriamente dita assenta num promontório sobre o rio Yantra, afluente do Danúbio, marcada por uma cascata de casas e igrejas, alguma indústria pesada e o estádio onde o nosso conhecido Balakov deu os primeiros toques, na zona mais recente, e um pequeno centro histórico de ruelas empedradas e salpicadas de habitações de arquitectura revivalista búlgara, que em boa parte data do século XIX, na emergência do moderno estado búlgaro pós-otomano. Aos seus pés, nas margens do rio, espalha-se o bairro de Asenova, zona de artesãos.


 Só por isso a cidade já seria encantadora e digna de um passeio. Mas a sua grande marca, o seu grande legado, é a fortaleza de Tsarevets. Assente numa elevação separada da cidade pelo rio, rodeada por uma impressionante paisagem geológica que bem podia servir de cenário a Westerns, esta cidadela era o centro e o símbolo do poder político e espiritual búlgaro na Idade Média. Veliko Tarnovo era então a capital do Império Búlgaro, que ombreava com o vizinho bizantino e frequentemente entrava em guerra e derrotava as potências em redor, incluindo os cruzados que tinham saqueado Constantinopla na infame Quarta Cruzada. Atingiu o seu apogeu territorial e cultural durante o século XII.


Em Tsarevets, protegido por uma ponte fortificada, rodeado de uma extensa muralha e bastiões, ficava o palácio real dos Tsars búlgaros, além de diversos mosteiros e igrejas, e outros edifícios, como a torre onde se crê que esteve aprisionado o Imperador latino de Constantinopla, Balduíno, depois de derrotado e capturado pelos búlgaros. No alto do esporão rochoso que encima a colina situava-se a Catedral Patriarcal, sede do poder religioso e dos patriarcas da igreja búlgara, onde os Tsars eram coroados.



Em fins do século XIV, depois de um progressivo declínio do império, os otomanos cercaram Veliko Tarnovo. A cidade cairia após poucos meses. A batalha de Nicópolis, poucos anos depois, em que uma coligação de cruzados de diversas proveniências foi esmagadoramente derrotada pelos turcos, selou o fim definitivo do Império Búlgaro e permitiu que os otomanos ocupassem o seu território durante quase quinhentos anos e tomassem, meio século depois, Constantinopla. Tsarevets seria destruída e permaneceria um monte de ruínas até ao século XX, já com a Bulgária independente, altura em que a reconstruiram, embora nem sempre obedecendo ao modelo original.

A cidadela é uma marca do "idade do ouro" dos búlgaros e um dos monumentos mais impressionantes do país. Entre os séculos XII e XIV, no seu apogeu, deveria ser uma das urbes medievais mais interessantes da Europa. Hoje, Veliko Tarnovo permanece uma bela cidade com um cunho medievo e de forte significado nacional, um pouco como é Guimarães para nós, e combina a beleza natural e original da paisagem a respeitáveis monumentos. Na entrada da ponte pedregosa que liga Tsarevets à cidade, encontra-se um leão de pedra, o animal símbolo da Bulgária. Diz-se que embora não haja memória de tal animal naquele território, as tribos búlgaras que lá chegaram traziam relatos de leões e da autoridade que impunham. Desde então, o leão rampante tornou-se o símbolo do Império Búlgaro da Idade Média, do moderno estado búlgaro (incluindo o regime comunista) e da capital, Sófia. Embora a Bulgária tenha mudado muito ao longo dos séculos, com ocupantes diversos e prolongados, novidades étnicas e regimes políticos completamente diferentes dos anteriores, há alguns símbolos que não mudaram, ou que reemergiram: a igreja ortodoxa, o alfabeto cirílico e o leão como símbolo de coragem e autoridade.

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Niemeyer, mais próximo de Gaudi que de Estaline


A morte de Oscar Niemeyer, ainda que pouco imprevisível, dada a sua centenária idade e os seus recentes problemas de saúde, suscitou inúmeros artigos, retrospectivas e homenagens póstumas sobre a vida e obra do arquitecto brasileiro. Reviu-se a monumental construção de Brasília, essa nova capital surgida no sertão, que ainda hoje nos parece vanguardista, com a sua Esplanada dos Três Poderes e a Catedral em forma de coroa de espinhos; mostrou-se a conhecidíssima sede da ONU em Nova York e o bairro da Pampulha em Belo Horizonte, que anteciparam Brasília; explicitou-se que afinal o Casino da Madeira não era realmente de Niemeyer, porque segundo o próprio fora outro a acabar o projecto; passou-se ao de leve pela sede do PC francês, que com a leveza das suas linhas tanta carga ideológica lhe tirou, talvez antecipando o "Euromunismo" dos anos setenta; e ainda se chegou às últimas obras, como o extraordinário Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que parece ter pousado directamente do espaço em frente à Baía de Guanabara. Houve mesmo espaço para alguma petite histoire curiosa, como a do colégio de Moimenta da Beira, que se inspirou no Palácio da Alvorada, de Brasília, para construir os arcos da sua fachada, tendo na altura recebido uma carta de apoio do próprio Niemeyer face ao desagrado que provocou entre as autoridades da época e à revolta a favor da obra. Aliás, a capital brasileira não cessou de povoar o imaginário por este país fora - em Vila Real, um prédio modernista dos anos sessenta ainda hoje é conhecido como "edifício Brasília"; e não esqueçamos o mítico shopping da rotunda da Boavista, que lá está em pleno funcionamento.
 
Mas também se falou no seu percurso de (longuíssima) vida e na sua orientação ideológica. Niemeyer permaneceu comunista até ao fim da vida, era amigo do histórico líder Luís Carlos Prestes, chegou a presidir ao PCB e viveu exilado durante a ditadura militar. Era autor também de algumas obras emblemáticas de partidos comunistas outora pujantes, como a supracitada sede do PCF e a do seu órgão oficial, L´Humanité, em Saint-Denis. Elogiou mesmo publicamente Estaline há não muitos anos.


Contudo, Niemeyer estava a anos-luz da arquitectura estalinista que se abateu sobre a URSS e os países do Pacto de Varsóvia depois da 2ª Guerra, com edifícios de estado esmagadores e funcionais. Os seus projectos demonstram antes uma leveza, uma preocupação estética que o afasta irremediavelmente dos modelos totalitários vigents nos estados comunistas. Talvez consequência de ser brasileiro e meridional, preferiu sempre a estética à funcionalidade, a leveza à imponência, as curvas ondulantes às rectas precisas e rígidas. Neste último aspecto aproxima-se de Antoni Gaudi, outro génio da arquitectura do século XX, que dizia que "a linha recta é do homem, e a curva de Deus". Não sendo religioso, apesar das suas obras para igrejas, Niemeyer procurou de certa forma atingir também o transcendente através do belo que criava com as suas obras, escapando às convenções arquitectónicas mais utilitaristas. Como ele próprio dizia, "não é o ângulo recto que me atrai. Nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual".

 

quinta-feira, agosto 02, 2012

A nova afirmação de Londres (com a sua Torre Eiffel)


Londres está em polvorosa. Depois do Jubileu de Isabel II, temos aí os Jogos Olímpicos, abertos com competência, criatividade, bom gosto. E, como em todos os grandes eventos, não faltaram as grandes infra-estruturas emblemáticas, que neste caso, não se ficaram pelos recintos desportivos.

Há poucas semanas ficou completa a London Bridge Tower, mais conhecida como de The Shard, um edifício-pirâmide de vidro com trezentos e dez metros nascido de um esboço de Renzo Piano. O novo arranha-céus, o mais alto do Reino Unido e da União Europeia, fica situado no centro da capital britânica e é mais um marco da Londres do século XXI a par do London Eye, da Tate Modern, do edifício Gherkin e da Millenium Bridge. Abrigará hotéis, restaurantes, escritórios e apartamentos, que a avaliar pelo preço serão provavelmente para conterrâneos do seu grande patrocinador. Como não podia deixar de ser, a fatia de leão dos custos foi assegurada por árabes, no caso, do Qatar.


A inauguração teve lugar a poucos dias da abertura dos Jogos, obviamente com esse propósito. A nova silhueta londrina, que dividiu opiniões, até por estar numa zona central da cidade, veio preencher ainda mais os festejos. Este tipo de afirmação a par de eventos grandiosos não é propriamente original. Em Portugal, por exemplo, a Expo-98 era ladeada pela Estação do Oriente e pela Torre Vasco da Gama. O Porto-Capital Europeia da Cultura pretendia inaugurar a Casa da Música (lamentavelmente isso só aconteceu em 2005).
Mas o exemplo que me ocorreu, até pela forma e pela altura do novo arranha-céus londrino, foi a da inauguração da Torre Eiffell, em 1889. A célebre estrutura metálica parisiense, que se tornou um ícone incontornável da cidade, era a porta de entrada e o símbolo da Exposição Universal de Paris, no ano em que se comemorava o centenário da Revolução Francesa. A época era dominada pela indústria pesada, pelo aço e pela dominação colonial, após a Conferência de Berlim de 1885. A França pretendia reafirmar-se como grande potência internacional, passada que estava a humilhação da guerra contra a Prússia, menos de vinte anos antes, e não hesitou em erguer um gigante de aço pelo seu mais competente engenheiro de pontes, responsável pela estrutura da Estátua da Liberdade e por várias pontes em Portugal, muitas ainda em uso.


A afirmação através de grandes construções e de eventos simbólicos e faraónicos é uma característica dos países que pretendem mostrar o seu estatuto ao Mundo, como vimos com a China há quatro anos, com o Terceiro Reich nos jogos de Berlim em 1936. Mas também podem ser uma forma de re-afirmação e manutenção de um certo estatuto, mostrando que ainda têm um papel internacional de relevo. Paris quis mostrar o quanto estava pujante, na cultura como no domínio da técnica, em 1889. O Reino Unido pretende fazer o mesmo, e a influência parisiense é mais que notória, como se a Shard quisesse ser a Torre Eiffel dos novos tempos, desafiando a velha construção de além-Mancha; aliás, um dos ícones destes Jogos é a Torre Olympic Orbit, uma estrutura metálica da autoria do conhecido artista Anish Kapoor, a fazer lembrar uma Torre Eiffel torta e desengonçada. Referência mais descarada não pode haver.


Não faço ideia se a Shard se vai tornar num ícone londrino, numa cidade que não tem falta deles. Mas pela altura e pela forma, é bem possível. Até porque será o miradouro por excelência da metrópole. Se o Reino Unido está muito longe de ser a grande potência que era até à Segunda Guerra (ou no papel, até à Crise do Suez), Londres pretende afirmar-se como a grande metrópole europeia e até mundial do Século XXI, enfrentando Nova York, Moscovo, Xangai e São Paulo. Está no bom caminho. Mas este novo símbolo de afirmação londrina não deixa de transparecer os sinais do tempo de novos actores da cena internacional: o patrocínio essencial dos fundos do Qatar, um dos novos Tigres Árabes que olham para além do petróleo.

quarta-feira, julho 11, 2012

Elvas Património da Humanidade


Já vai com uns dias de atraso, mas não podia deixar de saudar a classificação como Património da Humanidade das fortificações de Elvas, uma das mais encantadoras cidades portuguesas.

A UNESCO classificou o conjunto das muralhas da cidade, o forte de Santa Luzia, setecentista, o forte da Graça, saído do génio militar do Conde de Lippe (um grande "cabo de guerra" do Séc. XVIII que reorganizou o exército em tempos do Marquês de Pombal), o centro histórico da cidade (o que pressupõe a Sé, julgo eu), o soberbo e imponente Aqueduto da Amoreira, e ainda alguns fortins adjacentes. Ou seja, todo o conjunto abaluartado e algumas construções não estritamente militares. Um enorme, precioso e belíssimo testemunho da arquitectura militar e não só, que apesar das inúmeras guerras com estremenhos, castelhanos e franceses, chegou aos nossos dias intacto. Tudo graças aos elvenses, que souberam conservar a sua cidade e merecem bem este reconhecimento da UNESCO.






PS: logicamente, há que dar o mérito a quem o merece, em especial aos representantes portugueses na UNESCO.