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sexta-feira, março 03, 2023

O primeiro nevão do ano

Como parece que o Inverno ainda não acabou, ao contrário do que os optimistas pensavam em meados de Fevereiro, mesmo que estejamos no mês do seu fim, deixo aqui algumas recordações dos momentos mais frios, a 18 de Janeiro. As imagens foram tiradas na serra do Alvão, provando que não é só na serra da Estela que há neve.



Ao longe o monte Farinha, encimado pela Senhora da Graça, paragem obrigatória da Volta a Portugal, como uma ilha no meio de um oceano branco.












terça-feira, outubro 25, 2022

Memórias de Adriano

 

Adriano Moreira.jpg

 
Fazendo umas buscas entre datas e calendários antigos, confirmei o que pensava. Neste dia, 24 de Outubro, há já uns bons anos, ouvi pela primeira vez ao vivo o Professor Adriano Moreira, tendo tido o privilégio de falar com ele no fim. Tinha eu chegado a Lisboa poucos dias antes, iniciando uma estadia que se prolongaria por alguns anos, e logo no início, no curso de Política Externa que então realizava no IDN, apanhei logo com um gigante académico desta monta. Escusado será dizer que a aula se constituiu de conhecimento, experiência, ironia, clareza, saber académico e pedagogia. Voltei a ouvi-lo outras vezes, mas a primeira deixou-me uma viva impressão.

Dá-se o infeliz acaso do "aniversário" desse encontro calhar quase na data do seu desaparecimento. Não deve haver notícia mais natural acerca de uma pessoa com cem anos do que a da sua morte, mas esta, para além da tristeza pessoal, para mais quando o centenário tinha sido há tão pouco tempo, significa mesmo, segundo o adágio popular, o fecho de uma biblioteca, neste caso de colossais dimensões.

E de memórias do próprio Adriano Moreira ficou-me o seu afecto pela (e da) família, como se pode ver pelos artigos que os filhos, em particular a filha "rebelde" Isabel Moreira, lhe dedicam, em que mencionam o medo de deixar a sua mulher desprotegida, mas mais ainda, a memória dos pais, como quando realizou a sua primeira visita a Moçambique como Ministro do Ultramar e o seu próprio Pai, ainda polícia, quis ir com ele para assegurar a protecção do filho, ou quando tinha de ir ao cemitério de Grijó, Macedo de Cavaleiros, de onde era natural e onde está o jazigo dos pais, por achar que podiam sentir-se sozinhos. E ainda, quando lhe morreu recentemente um filho, há uns dois anos, a descrição feita por Ribeiro e Castro, na missa de corpo presente: "estava direito: velho e direito. É um carvalho antigo transmontano. Um pouco quebrado, pelo tempo e pelo dia, mas grande, velho e direito".

Tinha também esse característica que muito aprecio: um transmontano que nunca disfarçou as suas raízes, ao contrário de tantas figuras públicas, e que, pelo contrário, fazia questão em recordá-las e em dizer de onde vinha, e a sua cara em traços firmes e recortados, mas não rudes, assim o confirmava. Curiosamente a primeira vez que ouvi falar dele terá sido em Vila Real, ao reparar naqueles cartazes em que surgia com o filho mais novo, que devia ter pouco menos que a minha idade, na campanha em que o seu CDS ficou reduzido a um "táxi" (estranho como os mais preparados líderes nem sempre são os que têm mais sucesso, ou talvez até por isso...).

Este homem, que exerceu funções políticas e académicas neste regime, no anterior e que nasceu no anterior a esse, era o último de uma notabilíssima geração que estaria agora nos cem anos: Agustina, Gonçalo Ribeiro Telles, José-Augusto França, Eduardo Lourenço, que chegaram aos noventa e muitos, e desaparecidos com menos idade, Sophia (e muito mais novo o seu primo Ruben A.), Saramago, os irmãos António José e José Hermano Saraiva ou Natália Correia. Quase todos chegaram a idades bastante avançadas, mas só Adriano conseguiu chegar aos cem. 

sexta-feira, julho 22, 2022

Ceder energia e arder por indiferença

 Felizmente já estão em fase de resolução (espero, porque em dois casos voltaram), mas os grandes incêndios da última semana, tirando o da Guarda e o do Fundão, foram todos em Trás os Montes. E à parte de um perto de Bragança, todos no distrito de Vila Real - Chaves, Vila Pouca, Murça, até o de Baião invadiu o Marão. Entre aldeias habitadas por idosos, que por isso mesmo têm mais dificuldade em limpar as suas propriedades, fragas difíceis de alcançar e pinhais dispersos, arderam milhares de hectares, inúmeras árvores que eram o sustento das populações, algumas casas e morreram inúmeros animais e três pessoas (apesar de tudo muito menos do que em 2017).

 
Tudo isso poderia levar-nos para a discussão do abandono, desertificação e envelhecimento do interior, mas houve um pormenor em que poucos notaram: a não muitos quilómetros dos incêndios, em Ribeira de Pena, António Costa inaugurava esta semana a nova central hidroeléctrica do Tâmega, três albufeiras que se destinam à produção de electricidade. Ou seja, um empreendimento que sacrificando parte das terras em redor, por norma do interior, pretende fornecer energia a parte do país, mas aparentemente sem grandes contrapartidas às populações da região. Vimos o mesmo com as barragens no Planalto Mirandês, vendidas sem que os municípios recebessem o que quer que fosse. Ou com as enormes albufeiras no Barroso, que poucos benefícios palpáveis vieram trazer à região. Os tais "empregos" e "oportunidades" não passaram de ilusões e a população decresceu a olhos vistos.

 
Este é o drama permanente do interior, particularmente de Trás os Montes: continuamente desbastado para fornecer energia ao resto do país, mas esquecido em tudo o resto e notícia apenas quando há tragédias como os fogos, consequência do abandono e do desinteresse por parte de sucessivas administrações que sempre olharam para a região apenas como reserva de energia. E vamos lá a ver se não abrem umas crateras para explorar lítio a mando do secretário de estado Galamba, o perfeito exemplo do governante que se está nas tintas para o território desde que tire de lá benefícios (nem contrapartidas se lhes pode chamar). Suprema e cruel ironia, a da zona que usa a água para o fornecimento de energia necessitar tanto dela para salvar o seu território.



segunda-feira, abril 02, 2018

Páscoa 2018


Se o último Verão se prolongou por Outubro dentro, o mesmo se pode dizer do Inverno. E assim tivemos uma Páscoa com neve à vista. Escapou o Domingo, com um dia de Primavera, para poupar os compassos pascais e as festas de aleluia, como se fosse um pequeno milagre climatérico próprio para o dia da Ressurreição.



Cravelas, Trás os Montes, Sexta-feira Santa 2018


domingo, maio 08, 2016

O túnel


Ontem, dia 7 de Maio de 2010, abriu-se finalmente o já quase mítico túnel do Marão, com inauguração pública a meio da tarde e a abertura ao público à meia-noite. Anos de obras, paragens, revisões do projecto, derrapagens e esperas acabaram finalmente e há já uma auto-estrada pelo Marão fora.

Será exagero dizer que é uma obra revolucionária, ou mais ainda, que o interior deixou defnitivamente de estar isolado. Outras regiões interiores que ganharam bons acessos não deram qualquer salto e continuaram a perder população. Trata-se de uma obra complexíssima e muito útil, é verdade, mas a verdadeira travessia do Marão aconteceu há vinte e tal anos, aquando da construção do IP-4. Nessa altura houve uma enorme emoção por parte de quem conhecia o caminho que atravessava a serra, sobretudo dos transmontanos (a euforia era tanta que os restaurantes de Amarante, no dia da abertura, ficaram sem comida). Até essa altura, a ligação com Trás-os-Montes fazia-se por uma estrada nacional de montanha, com centenas de curvas - não exagero, cerca de quatrocentas -  sempre com o temor de se atropelar um lobo. Do Porto a Vila Real eram duas horas e meia, se as coisas corressem bem, e ficava-se com o estômago às voltas. No Verão, com todas as festas das terras que se atravessava até ao destino, perdia-se um tempo incontável. Depois, o IP4 mudou a parte pior do trajecto, e o tempo de viagem encurtou visivelmente. A A4, primeiro até Penafiel e depois até Amarante, encurtou-o ainda mais. Mas o IP tinha notórios erros de engenharia, curvas mal feitas e mudanças abruptas de 3 faixas, que a tornaram numa estrada extremamente perigosa. Em vinte anos perderam ali a vida mais de 130 pessoas. Ainda hoje se podem ver, ao longo do caminho, diversas alminhas e cruzeiros recentes a recordar quem ali perdeu a vida. Entretanto fizeram-se melhoramentos, como barras e separadores nas faixas centrais, e a segurança melhorou visivelmente. A A4 chegou às portas do Marão, retomando o caminho em Vila Real, em ligação com a A24, chegando a Bragança em 2013. Só faltava mesmo o troço mais difícil. Custou, mas acabou-se. Entre Porto e Vila Real, se descontarmos a mais periférica A7, já se pode circular exclusivamente por autoestrada. Não é o início de uma mudança radical de acessos, mas a sua conclusão. Que só trará benefícios para a região se se desenvolver um pouco mais a incipiente indústria e a agricultura (dando incremento a projectos no papel ou suspensos, como o Cachão), bem como o potencial da UTAD e politécnicos, e não encerrarem mais e mais serviços públicos que provocam a erosão populacional. Só assim é que esta ligação dará os seus frutos aos que vivem "para lá do Marão". E Trás-os-Montes continuará a ser do interior, não precisando desse complexo provinciano de "ser do litoral", num país que pouco aposta no mar.

Resta apenas dizer que os convites feitos a Sócrates e a Passos Coelho para a inauguração do túnel foram justíssimos. Afinal de contas foram eles os principais responsáveis pelo lançamento e construção desta obra. Para mais, dois homens com origens em Trás-os-Montes. Pena o habitual protagonismo inoportuno do primeiro e a ausência mal justificada do segundo (quando a verdadeira razão até era compreensível). E pena também que boa parte da comunicação social desse mais importância às questiúnculas políticas relacionadas com os dois que à obra em si.

PS: quase de propósito, no mesmo fim de semana da inauguração, também o Desportivo de Chaves regressou à primeira divisão, coisa que ainda não tinha acontecido este século. Todas as desculpas de maus acessos até Chaves desapareceram definitivamente, embora já houvesse autoestrada até lá. E se se tivesse atrasado mais umas semanas, também o novo órgão da Sé de Vila Real, também há muito esperado e que chegou em Abril, teria sido inaugurado por estes dias.



terça-feira, março 17, 2015

Partiu un defensor de la léngua i cultura mirandesa



Vale a pena ver este artigo do Expresso, com uma extensa entrevista a Amadeu Ferreira, que morreu nos inícios deste mês. Amadeu Ferreira, natural de Sendim (sim, a terra da posta da Gabriela), Miranda do Douro, teve um percurso apaixonante, sempre em crescendo: seminarista, soldado, viveu em várias terras de Trás-os-Montes, estudou filosofia na Universidade do Porto e Direito na Universidade de Lisboa, onde viria a lecionar e a tirar o mestrado, pelo meio chegou a militar e a ser deputado pela UDP, e acabou como vice-presidente de Carlos Tavares na CMVM.
Podia ser um percurso de respeito como tantos outros não fosse o facto de Amadeu Ferreira se ter popularizado como o mais acérrimo defensor da língua mirandesa. Ouvi falar dele quando escrevia semanalmente no Pública, na sua crónica semanal em mirandês, em que aparecia com a sua característica boina. Traduziu para aquela que é a segunda língua oficial de Portugal os Lusíadas, os Evangelhos, e mais uma data de livros, incluindo álbuns de Asterix (se já viram por aí o Asterix L Goulês, então saibam que é uma tradução de Ferreira), além de escrever poesia e crónicas mirandesas. Há tempos, encontrei uma entrevista em que declarava que tinha uma doença que não lhe daria mais do que dois anos de vida, pelo que queria acelerar algumas obras que tinha em projecto. Não sei se as acabou, mas a verdade é que deixou um vasto legado e a certeza de que o mirandês não mais há de entrar na obscuridade, graças sobretudo ao seu trabalho. Amadeu Ferreira deixa obra e uma vida, sumarizada em bom mirandês na Wikipedia da mesma língua. Poucas terras em Portugal têm uma identidade tão forte e vincada como Miranda. E poucas se podem orgulhar de um dialecto próprio, ou de quem divulgue tanto a sua cultura.





sexta-feira, setembro 26, 2014

Os andores da Senhora da Pena


Falando de novo em romarias e festividades religiosas em Portugal, sublinhe-se outra, em Trás-os-Montes: a da Senhora da Pena, no santuário com o mesmo nome, perto de Mouçós, Vila Real. Todos os anos, em Setembro, as várias aldeias da freguesia (são muitas, como no-lo recorda a sempre prestável Wikipedia) organizam a festa e a romaria. Assim, na envolvente do santuário de Nossa Senhora da Pena, podemos encontrar a habitual parafernália destas festividades populares: restaurantes móveis, barracas de comes e bebes, o palco para as bandas de "música popular" disponíveis, sorteios de prémios, etc. O que carateriza e diferencia esta festividade são os seus andores, que vão desde um metro e meio até aos vinte e tal metros. Umas construções móveis enormes e imponentes, só rivalizados pelos da Senhora da Aparecida. Num lento cortejo, entre fileiras de mirones, os andores avançam devagar, até ao último, o maior de todos, com cerca de cem homens a suportá-lo, e mais uns quantos a equilibrá-lo. O equilíbrio é fundamental, não vá o andor cair em cima de centenas de pessoas. No meio, quase insignificante, a figura da Senhora da Pena.






Os andores dão a volta ao recinto, seguidos de bandas a tocar e de clérigos que, debaixo de um pálio, aspergem de água benta o caminho e as pessoas. Ao chegarem à capela da Senhora da Pena, a última prova de esforço: os carregadores desatam a saltar com o andor em cima, provando que a fé move mesmo montanhas. Enfim, as estruturas são encostadas ao santuário, para serem devidamente admiradas antes de as desmontarem, e a festa prossegue em todo o seu formato profano.

A festa é de tal forma conhecida que até António Costa, em campanha partidária pelo distrito de Vila Real, reservou uma hora para lá ir. Todavia, ao contrário do que alguns poderiam imaginar, não o levaram em nenhum andor.


segunda-feira, novembro 18, 2013

Eis os resultados do Viaduto do Corgo

 
Enquanto o túnel do Marão não está pronto (antes era preciso que se reiniciassem as obras, paradas há dois anos), já se pode cortar caminho indo do IP-4 do Marão à A4 em direcção a Bragança sem necessidade de passar por Vila Real. O viaduto do Corgo abriu em Setembro passado, ligando Parada de Cunhos à autoestrada, transpõe a profunda garganta rochosa do rio Corgo e é uma obra de engenharia e de arquitectura prodigiosa, pese o impacto visual na região que vai demorar alguns anos a passar. Ficam aqui umas imagens, algumas em 3D, da sua construção, do seu desenho e das suas características. A primeira e a última parte, sobretudo, valem bem a pena.
 
 

sexta-feira, outubro 18, 2013

A "reforma do Estado" é fechar o interior

 
 
Parece que está previsto o fecho de 11 das 14 repartições de finanças no distrito de Vila Real. Quem conhece, sabe que apesar das novas autoestradas, continua a ser complicado circular em certos locais e em certas alturas em Trás-os-Montes. Mais abaixo, no distrito da Guarda, querem fechar outras dez repartições de finanças, deixando abertas apenas quatro, todas implantadas no Sul do distrito, o que implica que quem viva no Norte do mesmo tenha de fazer dezenas de quilómetros para efectuar um pagamento. Só em Celorico da Beira, pretende-se fechar as finanças, o tribunal e os serviços nocturnos do centro de saúde. Dirá quem viva no litoral urbano, que tem tudo quase à mão, que não pode haver serviços públicos em cada aldeia e que há que racionalizar os recursos. Como elegem pouquíssimo deputados, os transmontanos e beirões não são tidos nem achados. Pergunto-me se alguém disse alguma coisa aos responsáveis governamentais do desenvolvimento regional ou se existem para fazer figura de corpo presente. Tribunais, centros de saúde, postos dos correios, polícia, finanças, em breve provavelmente os próprios municípios (já começaram com as freguesias)...o que é que resta àquelas pessoas? Nada. Se é isto a tão propalada "reforma do Estado", então estamos conversados. Como sempre nestas questões, é-se forte com os fracos: se não der para cortar na despesa, aumentam-se impostos, e se for preciso cortar alguma coisa, vai-se ao interior, onde vivem os "labregos". Nesse caso, é de perguntar se esses "labregos" devem continuar a pagar impostos (ou a ceder os seus espaços benefício do litoral, como as barragens da EDP). Não há que cumprir obrigações se os mínimos direitos são achincalhados. É um princípio com séculos, da mais elementar justiça.
 
PS: outros distritos massacrados serão Bragança (querem fechar nove repartições), Portalegre (doze) e Viseu (dezassete), mas todo por todo o interior, a "reforma" tende a alastrar.

domingo, março 24, 2013

Entrudo de Podence, com atraso


Bem sei que estamos a entrar na Semana Santa, mas correndo o risco de cometer um micro-sacrilégio, não resisto a colocar algumas fotografias do último Carnaval - ou neste caso, Entrudo - em Podence, como em tempos fiz com Lazarim. Como muitos saberão, Podence é uma aldeia próxima de Macedo de Cavaleiros que deve a sua fama à antiquíssima tradição dos Caretos. Pelo Carnaval, rapazes (e raparigas, também) entram dentro de umas vestes de lã de cores garridas com chocalhos agarrados, colocam uma máscara, de latão ou madeira, empunham uma vara e percorrem a aldeia fazendo diabruras, chocalhando os transeuntes e espalhando alarido pelas ruelas. Este antiquíssimo hábito de origens pagãs, vem, crê-se, do tempo dos celtas. Prolongou-se pelo tempo, com as devidas adaptações, pelo Nordeste Transmontano (mas também nas proximidades do Douro, como Lazarim comprova) e chegou aos nossos dias, com a designação de Entrudo Chocalheiro. Hoje é uma atracção da aldeia que tem um museu dedicado aos caretos, e que aproveitando  a chegada de visitantes e curiosos, promove eventos que incluem caça, competições de bombos, projecção de filmes sobre os caretos, gastronomia, etc. O nosso interior, em particular em Trás-os-Montes, continua a revelar coisas magníficas a quem raramente sai das áreas (sub)urbanizadas do litoral.
 




(Sim, é um javali caçado horas antes nos montes próximos; lá em baixo, a albufeira do Azibo, a praia de Verão do Nordeste Transmontano, com bandeira azul e tudo).
 

sábado, abril 24, 2010

Memórias do futebol trasmontano

A propósito do inédito apuramento do Desportivo de Chaves para a final da Taça de Portugal, Francisco José Viegas recorda tempos idos do clube, quando ainda não jogava na 1ª divisão e os seus adversários eram invariavelmente clubes da mesma região. Também me lembro de ouvir falar de desafios entre o Vila Real e o Desportivo, no velhinho campo do Calvário, um recinto pelado no centro da cidade ainda hoje usado para os escalões de base. Se os jogos não corriam de feição ao "Bila", qualquer condutor que apanhasse a N2, a estrada para Chaves, nem que fosse para ir para a freguesia a seguir, era invariavelmente insultado pelos passantes.


Do Chaves não me recordo dos tempos anteriores à primeira divisão. Lembro-me de alguns históricos, como Paulo Alexandre, Manuel Correia, António Jesus, Karoglan, da trupe de espanhóis, como Toniño e Baston, e dos mais recentesRicardo Chaves João Alves, esse ex-next big thing do futebol português. E das claques "Força Azul-Grenat" e "Frente Flaviense", cujo nome ainda se pode ver graffitado nos viadutos do IP-4. Já não sou do tempo dos épicos confrontos entre equipas nortenhas, e fico mesmo surpreendido ao saber que o Régua usava camisolas em losangos (um padrão que podia fazer moda, ou então influência british dos produtores ingleses de vinho do Porto), mas acho que o fim dos campos de terra, esmagados pelos relvados, é motivo para um requiem.


Hoje, o Chaves está na Honra e em real perigo de voltar à segunda B. O Vila Real vegeta nos distritais, o Régua também, e o Riopele nem equipa tem, actualmente, ainda que a fábrica se mantenha. Raúl Águas, por sinal um bom técnico, já não treina. O que é certo é que nenhuma equipa trasmontana chegou onde o Chaves chegou. E que apesar de todas as antigas rivalidades, todas as pessoas da região, de todos os clubes, se devem regozijar por esta final (e quem sabe, com algo mais). Mesmo em Vila Real.


Imagem de um Chaves-Vila Real, dos anos sessenta. Tirado daqui, onde se pode ver uma descrição mais completa, e um testemunho da rivalidade referida em cima.

terça-feira, abril 20, 2010

Pare, Escute, Olhe




O cinema documental português está de boa saúde e recomenda-se. Depois de Ruínas chegou agora às salas Pare, Escute, Olhe, de Jorge Pelicano, que realizou anteriormente outra-longa metragem, Ainda Há Pastores, entre as serranias e as ovelhas da Serra da Estrela. Mas enquanto Ruínas era estático, este tem uma dinâmica muito própria. O filme, que ganhou o prémio de melhor documentário em longa metragem no DocLisboa de 2009, volta ao interior profundo, desta vez para revelar a morte lenta da Linha do Tua, desde o fecho do troço entre Mirandela e Bragança, em 1990, as atribulações e desesperos da população e as vacuidades do discurso político e das suas promessas.

Faz-se uma cronologia desde os anos oitenta, em que o problema do fecho da linha se colocou, vê-se o habitual ardil das "suspensões nocturnas" sem aviso, ao ponto de se roubar as locomotivas. Passa-se em revista as promessas de desenvolvimento com barragens, os diálogos entre governantes e altos quadros de empresas públicas, discutindo betão, as contradições, a incúria e as tragédias ferroviárias, quando não as havia antes, os estratagemas para se diminuir o número de utentes do comboio, servindo assim de pretexto ao seu encerramento, a submissão dos representantes eleitos que se submetem aos interesses partidários em lugar de defender os locais.
Pelo meio, o testemunho de um rio, de uma paisagem única, a junção de um património humano e natural únicos, ameaçados pela albufeira de uma barragem que não dará nem empregos nem desenvolvimento à região. E vê-se um povo entre o conformismo e a revolta. Nas conversas de café (como no surreal Lucky Luck), nas viagens na automotora, ou nas reuniões com os seus representantes, o trasmontano está lá bem plasmado: rude, directo, frontal, com alguma comicidade à mistura. Personagem transversal ao filme é o Sr. Abílio, antigo funcionário da CP, que goza os dias de velhice à sombra do apeadeiro de Ribeirinha, testemunha do caminho de ferro, do rio e do que se passa pela linha fora, não se fazendo de rogado a dizer o que pensa, por gestos ou palavras.
Também a fotografia e os cenários naturais são magníficos, e há algumas cenas de antologia, como o discurso de Sócrates, falando no "desenvolvimento", quando atrás da sua imagem desfocada e rebaixada se vêm as escavadoras em movimento. contrapondo ao progresso do betão, usa-se mesmo a arma preferida dos seus apologistas: mostra-se o que se passa "lá fora", nos "países civilizados", em que o comboio é usado como meio de transporte e turístico, e faz-se a terrível comparação com o que se passa no Tua. O contraste é coisa para deixar todos os portugueses corados de vergonha.
As minhas expectativas antes de ver Pare, Escute, Olhe eram razoáveis, mas fiquei agradavelmente surpreendido com esta obra melancólica, séria e irónica, tudo ao mesmo tempo. Além de ser um autêntico serviço público e de mostrar mais uma vez a tendência dos portugueses para abandonarem o que é seu em detrimento do que é "novo". Ainda está em exibição. É bom que o apanhem. Mais difícil será apanhar um comboio da linha do Tua. Mas quem sabe...

quinta-feira, setembro 10, 2009

Andie McDowell em Vila Real?



Abre hoje a primeira edição do Douro Film Harvest, espalhado em localidades como Vila Real, Lamego, Régua e Torre de Moncorvo. Para já, a pergunta que se impõe é: Andie McDowell irá mesmo à sessão em sua homenagem no Teatro de Vila Real? Só acredito vendo (embora infelizmente eu não possa lá ir). Caso não altere a sua agenda, será um sucesso imenso para o jovem acontecimento. Porque nós merecemos, como diria a própria num dos seus estafados anúncios a cremes hidratantes.

Já agora, Milos Forman também prometeu aparecer em Lamego, noutra sessão. E Kyle Eastwood, filho do grande Clint, irá tocar no Pinhão com a sua banda de jazz.

E depois do Douro Film, chega-nos o Douro Jazz. Não há dúvida, a região está finalmente a desenvolver o seu incrível potencial. Que assim continue. Mais vale tarde do que nunca.
Adenda: Sim, Andie McDowell veio mesmo à cerimónia de Vila Real, com ligeiro atraso e palavras de circunstância ("tenho muito a descobrir em Portugal"). Devo-lhe as minhas desculpas porque duvidei da sua vinda. Endereçá-las-ei pessoalmente na sua próxima estadia no nosso país.

quinta-feira, março 26, 2009

Traição contínua
As linhas do Corgo (Régua a Vila Real) e do Tâmega (Livração a Amarante) estão encerradas "por tempo indeterminado" desde ontem à noite, numa ordem dada em cima da hora pela administração da Refer que, em segredo, acordou com a CP um serviço de substituição rodoviário. O motivo oficial é a reabilitação daquelas linhas, mas a empresa não tem qualquer calendarização para iniciar os trabalhos, não dispõe dos projectos para tal e não abriu qualquer concurso público.Ontem à noite, o maquinista da automotora que costuma ficar na estação de Vila Real recebeu ordens para a trazer de volta à Régua antes da meia-noite, numa operação que faz recordar a forma como há 16 anos encerrou a linha do Tua (entre Mirandela e Bragança) com as composições a regressarem vazias durante a noite para evitar a contestação das populações.O PÚBLICO apurou que a Refer e a CP preparavam esta operação há já alguns meses, mas decidiram não a divulgar, preferindo fazê-lo em cima da hora. Ontem, às 21h, os sites das duas empresas não traziam ainda qualquer informação sobre esta suspensão. A ordem apanhou de surpresa os ferroviários da estação da Régua e da Livração que, subitamente, ficaram a saber que hoje já não haveria comboios para Vila Real e Amarante. Para a CP, que também omitiu estas alterações aos seus clientes, esta situação é vantajosa visto que o serviço é deficitário e poupa agora no combustível e no desgaste das composições, com a vantagem de ser a Refer a pagar os autocarros de substituição.


Mais uma prova da absoluto desrespeito da CP e da REFER pelos seus utentes, uma atitude que se está progressivamente a tornar rotineira. Depois de encerramentos contínuos de inúmeros troços de linha férrea, desde o fabuloso Sabor até vários percursos alentejanos, e quando se prepara, embora ainda não o admita, para eliminar a linha do Tua, um património único na Europa, a notícia da "suspensão" das linhas do Tâmega e do Corgo caiu que nem uma bomba entre os habituais utilizadores. Pela calada da noite, como quaisquer vulgares bandoleiros, aqueles que tinham obrigação de velar pelos caminhos de ferro acabaram com eles num ápice. A história da "suspensão indeterminada" é truque velho, demasiado datado para que alguém acredite, fora os desonestos.


Enquanto isso, discute-se o traçado do TGV, se entra em Lisboa pelo Norte ou pelo Sul, se passa ou não no aeroporto, se vai a Vigo ou a Ayamonte. O TGV é um dos Bezerros de Ouro do regime, tal como o EURO 2004 era "o desígnio nacional". Promete o futuro radioso à mão de semear por meros 40 Euros, depois de milhares de hectares expropriados, incontáveis discussões e projectos, milhões de Euros gastos nisto tudo e nas inevitáveis derrapagens.


E o ambiente, as energias renováveis, o cumprimento dos protocolos de redução das emissões de CO2, tudo alardeado com ar beatífico e de aluno cumpridor, quando o interior e o miolo das grandes cidades se esvazia inexoravelmente para os subúrbios dos blocos de betão de má qualidade decorados a marquises ensebadas no meio de campos semi-agrícolas. Para isso, constroem-se barragens concessionadas previamente à EDP, que podiam ser evitadas caso se aumentasse a potência de outras, destruindo-se património humano e natural, com a falsa promessa de que vão atrair turismo e emprego (isto é, construção civil), quando na realidade apenas "secam" tudo à sua volta, quais eucaliptais.


As linhas férreas foram uma forma de vencer as barreiras entre o litoral e o interior, penetrar nas serranias e nos planaltos, quebrar o isolamento de populações desde tempos imemoriais confinados ao seu horizonte montanhoso. Um projecto ambicioso, levado a cabo desde o Fontismo até aos últimos anos da Monarquia, em que os Reis iam pessoalmente à inauguração destes novos troços que mudaram o país para melhor, fosse no Carregado ou nas Pedras Salgadas. Agora, a república em que vivemos resolve unilateralmente e por interposta empresa pública acabar com meios de transporte, que além de ligarem populações carentes de outros meios de comunicação, eram já um património histórico testemunhando a vontade intrépida de ultrapassar obstáculos, como o haviam sido os Descobrimentos e o Douro vinhateiro. A isto tudo a CP obedece sem pestanejar, traindo o compromisso com os seus utentes, continuando a prestar-lhes maus serviços pelos mesmos preços sem sequer ouvir-lhes as queixas (o Intercidades não tem serviço de bar há seis meses). É bem o exemplo do que não deve ser uma empresa pública. Infelizmente, é a regra, e não a excepção.


Ainda me posso dar por feliz por ter conhecido a linha do Corgo, mesmo que amputada da sua metade até Chaves. Tinha planos para conhecer as do Tâmega e do Tua, mas infelizmente essas esperanças goram-se agora. Já não poderei conhecer essas velhas composições, as paisagens únicas que atravessam, nem os rostos das pessoas traídas pelos seus governantes, para quem não passam de pormenores do seu feudo de "progresso" e inimputabilidade.
PS: ver igualmente a Origem das Espécies
(Publicado em simultâneo no Estado Sentido)

domingo, março 08, 2009

Gastronomia de Trás-os-Montes
No jornal, na parte referente a eventos, surge-me o nome da Semana Gastronómica de Trás-os-Montes, na Alfândega do Porto. O convite é tentador, e raramente me faço rogado a tudo o que venha dessa região mágica. Mas não hoje. Depois de um almoço caseiro que incluiu alheiras de Montalegre, temperadas com azeite de Vila Flor, acompanhadas de batatas de Vila Real, e, caso apetecesse, um vinho do Douro ao lado, creio que fiquei bem servido de gastronomia transmontana para precisar de sair e ir ao encontro dela no meio de stands barulhentos.

segunda-feira, setembro 15, 2008

A ferrovia a saque

Interessante artigo de ontem, no Público, sobre a linha férrea em Trás-os-Montes e no Douro. Interessante mas inquietante, também. As perspectivas não eram nem são nada agradáveis. E o pouco que resta desse fantástico património ferroviário e do esforço de imensos trabalhadores e técnicos em ultrapassar as barreiras naturais da região pode vir a ser eliminado nos próximos anos.
Da linha mãe, a do Douro, que ia até Barca de Alva e seguia por Espanha (hoje acaba no Pocinho), saíam várias outras, correspondentes a alguns afluentes do rio. A do Tâmega desviava-se em Livração, no Marco, e ia até Arco de Baúlhe, depois de passar por Celorico e Amarante. Hoje para nesta última, e só tem poucos quilómetros. A do Corgo saía da Régua, trepava (e trepa) pelos socalcos do Douro acima, passava por Vila Real, Vila Pouca, Pedras Salgadas e Vidago, e acabava em Chaves. Tinha grande relevância no transporte para as termas. Depois da amputação, ficou-se pela capital de distrito. A do Tua, como se sabe, sobretudo pelos vários e suspeitos acidentes que tem sofrido nos últimos meses, parte da estação com o nome do rio, passa por fragas e depois por olivais até Mirandela (onde cessa actualmente a sua marcha), e seguia por Macedo, até Bragança. A do Sabor, porventura a mais entusiasmante em termos de paisagem, e a única integralmente abandonada, subia do Pocinho em direcção a Moncorvo, passava ao largo de Freixo e de Mogadouro e ia morrer em Duas Igrejas, a poucos quilómetros de Miranda. Ainda houve projectos para uma linha do Varosa, que seguiria para sul, atravessando do Douro, até Viseu, via Lamego. Ainda se construíram viadutos e até uma ponte metálica, que faz parte hoje em dia da paisagem reguense, nunca tendo servido realmente para nada. Caso o projecto da linha tivesse sido concretizado, o mais provável é que ela já estivesse encerrada.


Os erros de alguns projectos iniciais, como a interrupção abrupta das linhas em relação ao plano original ou o traçado que não aproveitava às povoações mais importantes, e a falta de visão de alguns dirigentes políticos e responsáveis ferroviários, levaram ao corte brutal destas vias. A concorrência rodoviária, apoiada em fortes lobis, e normalmente de qualidade inferior ao comboio, muito contribuíram para esse fim. Transformou o que delas restava numa mera atracção turística de Verão, ou num transporte para um ou outro lugar mais inacessível. Destruiu um património único, literalmente deixado às urtigas, e desperdiçou todo o trabalho de construção e manutenção efectuado antes.


Agora que parte do declínio das linhas é irreversível, convém salvar o que resta e aproveitar o que ainda pode ser utilizado. Há pressões das câmaras de toda a região para que se reactive a parte desactivada da Linha do Douro, a partir do Pocinho. Os espanhóis estão a fazer o mesmo no seu lado, e seria uma monumental asneira não aproveitar o ocasião de se levar de novo o comboio a Barca de Alva, evitando que tantos visitantes voltem para trás ou apanhem um autocarro, e ligar o Porto a Salamanca (duas cidades classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade).


Por outro lado, a Linha do Tua, que tantas desditas tem sofrido nos últimos tempos, algumas bastante suspeitas, desde que se soube dos planos da construção de uma barragem no seu vale, que destruiria a velha e histórica linha férrea. Se se conseguir impedir tão inútil projecto(principalmente para as populações locais), tarefa que se afigura hercúlea tendo em conta a ganância da EDP, seria uma oportunidade de ouro para se requalificar a linha e restaurar a sua parte inactiva, levando-a a Bragança, e cumprindo o projecto original de atingir Puebla de Sanabria, já em Espanha. A ideia tem agora ainda mais cabimento já que na dita cidade haverá uma estação de paragem da linha de alta velocidade entre Madrid e a Galiza, equidistante de Zamora e Ourense. Ligava-se assim o douro ao TGV espanhol. Tal é o projecto da petição que andou aí a circular para a salvação da linha do Tua.




Quanto ao Corgo, ao menos que fique como está. a passagem pelas vinhas, quase a resvalar nos precipícios, é notável. O futuro da linha do Tâmega é mais incerto, até pela sua escassa distância. O fantástico percurso do Sabor, esse, já não tem qualquer remédio, mas ao menos que se aproveite o património que deixou disseminado, como algumas estações ao abandono (a do Freixo, a 14 quilómetros da vila, é paradigmática).


É sabido que o actual governo dá mais ênfase ao "tecnológico"e não prima muito pela defesa do património. Por isso mesmo há que falar mais deste imenso património ferroviário como há poucos na Europa. O Douro não seria o que é sem o comboio. E não só. Por isso, que mil artigos como este sejam editados, que mais petições, manifestações, debates e chamadas de atenção floresçam, para que os senhores da REFER e da CP não fiquem surdos e promovam o que lhes cabe salvaguardar.

quarta-feira, maio 28, 2008

Linha do Tua ameaçada
Já há muito que devia ter postado isto, mas mais vale tarde do que nunca. Está online uma petição para impedir a destruição da histórica linha do Tua, uma das últimas de Trás-os-Montes, coisa que acontecerá se a barragem projectada para a zona, com uma cota planeada, for avante. É o próprio Douro, como património da humanidade, que se encontra em perigo.
Fica este aviso telegráfico, mas voltarei a este assunto brevemente e com mais pormenores.

domingo, março 23, 2008

Ir ao Barroso, a Montalegre, e mais além, com estes dias de quasi Inverno, já é temerário. Mas ir à região com melhor carne nacional numa Sexta-Feira Santa, quando se faz questão de cumprir as tradições restritivas da quadra, é completamente estúpido.