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sexta-feira, junho 11, 2021

Tarzan como comentador

 Há uma epidemia nacional há muito espalhada e que contamina sobretudo comentadores de tv e treinadores de futebol. Não vejo medidas profilácticas, alertas para o contágio, barreiras para impedir a progressão e muito menos curas. O Dez de Junho também devia servir para se falar deste flagelo.


Refiro-me obviamente à mania de começar as frases no infinitivo. Todos os dedos de todas as mãos do país seriam poucos para contar a quantidade de vezes que ouvimos frases começadas por "dizer que...", "afirmar que...", "realçar que...", "assinalar que...", "lembrar que..." e tantos outros verbos no infinitivo seguidos de "que".

Tal como a escrita rápida de sms, o acordo ortográfico e a linguagem neutra para "não ofender", esta forma de falar é mais uma causa de empobrecimento da língua. Há imensas maneiras de se aplicar um verbo no início de uma frase, mas usar o infinitivo é preguiçoso, além de errado, e é mais digno da fala do Tarzan. Ninguém se admire se lá chegarmos.

segunda-feira, dezembro 30, 2019

Arrasar


Ouvi há pouco que a boys band D´Arrasar vai voltar a actuar numa festa revivalista dos anos noventa. O momento não podia ser mais oportuno. Sempre que abro o computador e me aparecem notícias relevantes - do ponto de vista do emissor - o verbo arrasar sobressai logo, aplicado a várias situações: "A actriz x arrasou na passadeira vermelha; "a estrela y arrasou na festa"; "a namorada de tal arrasou no banquete". Exemplos concretos: "dona Dolores Aveiro arrasa na entrega de prémios…". E assim por diante. Só é estranho que esses locais não fiquem em ruínas, tal é o arraso que estas pessoas provocam. Depois, nas mesmas notícias, os críticos da moda "arrasam" as famosas e famosos, pela roupa, porque determinada cor não combinava com o padrão, por uma atitude ou gesto que passou despercebida ao comum dos mortais, etc. E finalmente vêm os "arrasos" opinativos, aqueles em que "o político fulano arrasou o seu adversário sicrano na assembleia municipal" ou "numa extensa entrevista", ou "o defensor do clube bege  arrasa o representante do clube cor de burro quando foge no debate semanal futebolístico". Normalmente, quem o afirma é das cores do arrasador em questão.

Com tão grande míngua de vocabulário e tanto arrasamento, quem fica mesmo arrasada é a qualidade do texto, uma vez que a substância já não era grande coisa. E a paciência do incauto leitor também. Vejam lá se arrasam um pouco menos antes de deixar tudo em ruínas, ainda que não passem de virtuais.

terça-feira, março 17, 2015

Partiu un defensor de la léngua i cultura mirandesa



Vale a pena ver este artigo do Expresso, com uma extensa entrevista a Amadeu Ferreira, que morreu nos inícios deste mês. Amadeu Ferreira, natural de Sendim (sim, a terra da posta da Gabriela), Miranda do Douro, teve um percurso apaixonante, sempre em crescendo: seminarista, soldado, viveu em várias terras de Trás-os-Montes, estudou filosofia na Universidade do Porto e Direito na Universidade de Lisboa, onde viria a lecionar e a tirar o mestrado, pelo meio chegou a militar e a ser deputado pela UDP, e acabou como vice-presidente de Carlos Tavares na CMVM.
Podia ser um percurso de respeito como tantos outros não fosse o facto de Amadeu Ferreira se ter popularizado como o mais acérrimo defensor da língua mirandesa. Ouvi falar dele quando escrevia semanalmente no Pública, na sua crónica semanal em mirandês, em que aparecia com a sua característica boina. Traduziu para aquela que é a segunda língua oficial de Portugal os Lusíadas, os Evangelhos, e mais uma data de livros, incluindo álbuns de Asterix (se já viram por aí o Asterix L Goulês, então saibam que é uma tradução de Ferreira), além de escrever poesia e crónicas mirandesas. Há tempos, encontrei uma entrevista em que declarava que tinha uma doença que não lhe daria mais do que dois anos de vida, pelo que queria acelerar algumas obras que tinha em projecto. Não sei se as acabou, mas a verdade é que deixou um vasto legado e a certeza de que o mirandês não mais há de entrar na obscuridade, graças sobretudo ao seu trabalho. Amadeu Ferreira deixa obra e uma vida, sumarizada em bom mirandês na Wikipedia da mesma língua. Poucas terras em Portugal têm uma identidade tão forte e vincada como Miranda. E poucas se podem orgulhar de um dialecto próprio, ou de quem divulgue tanto a sua cultura.





sábado, junho 28, 2014

Oitocentos anos de uma língua (seja mito ou não)


Nunca me teria ocorrido comemorar o dia da Língua Portuguesa. E de facto, o pretexto parece ligeiramente forçado, ou no mínimo efabulado, similar às criações de todos os mitos. Mas antes um pretexto longínquo do que o esquecimento. E um texto do século XII, do reinado do rei que ficou conhecido como O Gordo, parece-me tão bom como outro qualquer. Se for importante para defender a língua portuguesa, a quinta mais falada no Mundo, e espalhar o seu ensino pelo globo, tanto melhor. O actual marasmo que se assiste nalgumas paragens, como a antiga Índia portuguesa, é que com certeza não ajuda nada.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Acabem com os "mídia"
 
Uma das coisas que mais solenemente me irrita é ouvir falar dos media pronunciado como "mídia". É verdade que os brasileiros, talvez por influência americana, não só falam como escrevem assim mesmo, com "i" (muitos locutores portugueses cometem esse erro, e por vezes outros ainda piores, como referir a cidade francesa Troyes pronunciando /trói"). Simplesmente, a palavra é latina, não anglo-saxónica, e deve ser pronunciada como tal. Parece que finalmente alguém reparou nisso publicamente. Ricardo Araújo Pereira, na sua crónica da Visão Boca do Inferno de há uns dias, recorda isso mesmo, com o humor oportuno do costume.

As queixas de um dos candidatos acerca dos "mídia" vieram reforçar uma espécie de preceito ligeiramente babilónico que estipula que as palavras de uma língua sejam pronunciadas com sotaque de outra. "Mídia" mais não é do que a palavra latina "media" pronunciada com sotaque inglês. Se optasse pela pronúncia correta "media", o candidato estaria apenas a revelar ao eleitorado que sabia latim. Pronunciando "mídia", mostra que sabe latim e inglês - só com uma palavra. É o máximo de erudição com o mínimo de meios, o que pode constituir vantagem política na medida em que documenta uma capacidade extraordinária para a gestão e aproveitamento de recursos.
É isto mesmo. Aprendam, senhores lusófonos.

quarta-feira, abril 14, 2010

Os "termos errados" de Bava




O video já andava por aí há uns dias, mas não quis deixar também de mostrar a "portugalização dos conteúdos" de Zeinal Bava, o presidente executivo da Portugal Telecom, que está preocupado apenas com um termo errado. Se a aposta na portugalidade se exprime em semelhantes e constantes anglicismos, mais valia convidar Gordon Brown para presidir ao Instituto Camões, até porque ele arrisca-se a ficar desempregado brevemente.

quinta-feira, outubro 08, 2009

E o Nobel da Literatura vai para uma alemã de origem romena que antes era romena de origem alemã

 


Tal como se esperava, a Academia de Estocolmo, sempre fiel às suas tradições, atribuiu o Nobel da Literatura deste ano a uma autora quase desconhecida, Herta Müller. Os especialistas na matéria, como sempre, apostavam nos consagrados Philip Roth, Vargas Llosa, Amos Oz, Milan Kundera, etc. Enganaram-se uma vez mais. Já era tempo de saberem que os suecos adoram trocar as voltas às apostas e nomear alguém de terceira linha. Mais vale não fazer prognósticos sobre os "consagrados", para ver se eles assim ganham algum ano - isso sim, seria surpreendente. Basta dar uma vista de olhos à lista dos galardoados dos últimos anos para perceber essa imensa evidência.

Observe-se agora: responsáveis da Academia disseram recentemente que o prémio "tem sido muito eurocêntrico". Entretanto, já é o terceiro autor de língua alemã a ganhá-lo nos últimos dez anos. É certo que os autores germanófonos deram não poucas contribuições à literatura europeia e mundial, mas tenho sérias dúvidas se actualmente serão superiores aos lusófonos - em maior número e distribuídos por mais países. Passa-se a vida a ouvir dizer que "como o Saramago ganhou em 98, dificilmente algum escritor lusófono ganhará nos próximos anos". E agora temos a senhora Herta Müller a juntar-se a Günter Grass (nada a opôr) e a uma Jelinek qualquer. Se há medíocres que escrevem em alemão a ganhar o Nobel, porque não um bom brasileiro ou um razoável português?

 
Ainda outra observação: Herta Müller nasceu em Timisoara, na região romena do Banato, mas mudou-se para a Alemanha, onde adquiriu a respectiva nacionalidade nos anos oitenta, daí dizerem que é alemã de origem romena. Na realidade, poder-se-ia dizer o inverso (como se deduz pelo nome e apelido), já que pertence ao grupo dos suabos, outrora maioritários, mas hoje uma minoria germânica do Banato. Um regresso às origens, como tantos outros naturais da mesma região e da Transilvânia (estava mesmo para escrever um post sobre isso, no seguimento de outro que deixei há dias). O assunto é particularmente focado em obras como Danúbio, do italiano Claudio Magris, que não por acaso também faz parte do distinto grupo dos eterno candidatos a ganhar o Nobel.

quinta-feira, outubro 30, 2008


Apologia do francês como língua



Leio a primeira parte deste post e não posso conter o desacordo. É certo que o francês é uma sombra do que era. Na Indochina, poucos são os mais novos que o falam, no Pacífico restringe-se aos "departamentos ultramarinos", na América do Sul contenta-se com a Guiana. Mas ainda é língua de peso na Europa, onde mais a Leste a francofonia tem autoridade, em África, especialmente no Magrebe, e no Quebec. Além do mais, o "soçobrar como língua literária" parece-me exagerado. Para quem pensava isso, eis o Nobel distinguindo Le Clezio. E depois, um idioma que tanto contribuiu para a literatura universal não perde a sua grandeza de um século para o outro. As farsas de Rabelais, os dramas de Corneille, as comédias de Moliére, os ensaios de Montaigne, os pensamentos de Montesquieu e Voltaire, o romantismo de Hugo e Lamartine, o realismo de Zola e de Sthendal, as aventuras dos Dumas, as novelas de Daudet, o universo de Proust, a experiência de vida de Malraux, o existencialismo de Camus e Sartre, tudo isso é matéria sem a qual a Europa e o Mundo não seriam o que são hoje.

É precisamente a "industrialização da cultura" que torna o francês mais rarefeito. Ligado a uma certa ideia de elegância e de allure, nega-se hoje em dia essa língua por não vir acompanhada da desenvoltura fácil do bad english ou do espanhol atamancado, para não falar do "spanglish". À parte epifenómenos culturais como a FNAC, que não exigem qualquer fidelidade linguística, o francês dá-se mal com a massificação e permanece um esteio de selectividade cultural.

Ainda assim, não creio que o francês como língua, assim como referência cultural, esteja enterrado fora de França. Poderá ser a influência que tive desde tenra idade (e que me levou a falar francês antes do inglês) a ditar-me esta ideia, mas há pontas para se lhe pegar. Com a influência da Francofonia em África, será uma língua a tomar em conta a médio prazo. Da mesma forma, com um certo empobrecimento do inglês, tomará o seu lugar dominante na Europa, até pela importância que tem em países como a Roménia. Não será certamente uma língua universal, mas estará acima de toda a subestimação de que tem vindo a ser alvo de há umas décadas para cá, para gáudio sobretudo de anglo-saxónicos militantes, que fora da cultura dominante e do idioma aprendido em versão americana em frente à TV, pouco sabem.