Mostrando postagens com marcador Ucrânia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ucrânia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, fevereiro 14, 2025

O descalabro trumpista

Desde que tomou posse, a administração Trump já demonstrou querer "comprar" a Gronelândia, quer que o Canal do Panamá lhe seja "restituído", considera que o Canadá - uma monarquia maior que os EUA - devia ser o seu "51º estado", renomeou o Golfo do México, impôs sanções ao TPI (?) porque parece que anda a chatear o seu amigo Netanyahu e na semana passada apresentou uma das ideias mais patéticas de que há memória nas relações internacionais: a reconstrução de Gaza, sob ocupação americana e israelita, como destino turístico, por "razões humanitárias", tendo os palestinianos de ir para o Egipto e a sobrecarregada Jordânia, sem garantia de regresso. Julgava eu que deportações era mais com a Rússia, mas os árabes apressaram-se a dizer que nem pensar, pelo que a coisa não deverá seguir em frente.

Esta semana confirmou-se que Trump está do lado putinista: mandou dizer por interposto secretário dos assuntos externos que a Ucrânia não ia recuperar as fronteiras de 2014 e que era irrealista entrar na NATO. Até aqui, nada de chocante: pelo menos a Crimeia tem uma maioria pró-rússia e desde que um membro da NATO o vete, a Ucrânia não poderia entrar. Mas depois, planearam um tratado de paz" e conversações entre os EUA e a Rússia, sem Ucrânia nem UE, em que a Europa teria de vigiar as futuras fronteiras ucranianas, para gáudio de Putin.
Claro que isto colocou logo todos os adeptos do putinismo em alvoroço, os de esquerda como os de direita, já falando do "fim da guerr", da "derrota da Ucrânia e da Europa" e, entre nós, alcandorando o comentador Agosinho Costa, autor de algumas patetices de antologia (há dias teve outra: "não há norte-coreanos a combater na Rússia", disse o cómico militar) à sapiência suprema. Só faltou convidarem Putin a vir a Portugal com passadeira vermelha porque ao que parece uns comentadores russos perguntaram quanto custa Lisboa.
Só que tal como na ideia do "resort de Gaza", isto tem imensos furos: quais serão as fronteiras que os EUA consideram aceitáveis? Se Putin daqui a uns tempos atacar países da NATO, os EUA cumprem com o Art.5º e acodem, como é seu dever legal? E se os EUA não querem ter qualquer papel no futuro da Ucrânia e ficar absolutamente neutros, como é que podem vir dizer que os europeus é que vão lá colocar tropas se não foram tidos nem achados nas tais hipotéticas "conversações de paz"?
Entretanto, Trump já veio dizer que sim senhor, que a Ucrânia estará nas conversações, e JD Vance que a UE também terá um papel de destaque em negociações. De facto, era muito estúpido querer fazer um acordo que incluísse determinada entidade sem que esta entidade acordasse o que quer que fosse. Por isso, esta "paz" de Trump é outra conversa precipitada que os seus adjuntos se apressam a corrigir e que com certeza não vai ser bem assim como ele disse no início.
Entretanto, os Putin groupies podem tentar responder a estes cavalheiros. Na volta, nem se importavam nada de vender Portugal, uma vez que eles próprios estão vendidos.

quinta-feira, fevereiro 08, 2024

Trump Carlson em Moscovo

Depois de se dizer que era mero boato, Tucker Carlson, que acabou despedido da Fox por confessar em privado que tinha dito disparates em notíciário, lá entrevistou Vladimir Putin, para "esclarecer os americanos da verdade", como se Putin não a tivesse divulgado em inúmeras ocasiões, embora nem sempre com a mesma base. Escolheu bem o dia: o mesmo em que a candidatura de Boris Nadezhin, o único contra Putin, acabou recusada, como acontece sempre que há um candidato contra o incumbente.

Entretanto, o Partido Republicano continua a recusar-se a enviar mais ajuda à Ucrânia, mas aprovou o envio de 16 mil milhões de euros para Israel.
Claro que não há qualquer ligação entre isto. Podia lá ser...

terça-feira, novembro 29, 2022

 As semanas mais recentes trouxeram-me um ligeiro travo aos anos trinta e quarenta.

As imagens da libertação de Kherson, das ruidosas manifestações de alegria dos seus habitantes e da visita de Zelensky trouxeram-me de imediato à memória as da libertação da França, em 1944, e da chegada de De Gaulle a Paris, recriada na tela e com alguns testemunhos fotográficos. O presidente da Ucrânia tem sido comparado a Chrchill, mas naqueles momentos transfigurava-se mais como a voz da liberdade e da libertação dos ucranianos, aquele que parecia perdido na início da invasão mas cujas palavras soam a esperança diante do temível Inverno que está a chegar. E tal como a libertação de Paris não significou o fim da guerra, a de Kherson está longe do termo do conflito.

 

Entretanto decorre o criticado Mundial do Qatar (embora seja exagero chamar-lhe "o Mundial mais controverso de sempre", se recordarmos o que decorreu na Argentina em 1978, sob o infame regime militar que despejava corpos para o mar a partir de aviões, e que até levou à história, apesar de falsa, de que Cruyff não comparecera em sinal de protesto). Os estádios no meio do deserto tiveram a autoria, entre outros, como Zara Hadid, de Albert Speer. Sim, o filho com o mesmo nome do célebre arquitecto de Hitler e co-autor do estádio Olímpico de Berlim. O descendente não seguiu definitivamente as preferência políticas do pai, apesar de algumas controvérsias, explanadas neste artigo da New Yorker. Mas não deixa de causar algum frisson que um evento tão criticado pelo tratamento local dos Direitos Humanos tenha tido o dedo do filho, com o mesmíssimo nome, de um dos autores dos Jogos Olímpicos de Berlim e do projecto da demencial Germania.

segunda-feira, outubro 03, 2022

como desmarcarar um farsante

Não sei se tiveram a oportunidade de ver, mas aquela correia de transmissão das ordens de Moscovo, de seu nome Alexandre Guerreiro, levou uma tareia inacreditável do Francisco Pereira Coutinho em todos os aspectos, num debate na SIC Notícias na sexta-feira. Podem - julgo eu - ver o vídeo na íntegra aqui (não consegui transportá-lo directamente para o post por ser muito grande) e avaliar as prestações. O homem do Kremlin a certa altura parecia completamente perdido, repetia incessantemente "o precedente do Kosovo", cujas diferenças aliás o Francisco explicou devidamente, acabou a justificar a anexação da Crimeia com "sondagens" (como se sabe um elemento essencial no direito internacional) e a dizer que a anexação das quatro regiões ucranianas "era legal mas também podia não ser".

Eis a forma como se neutralizam os farsantes: colocá-los perante alguém que efectivamente conhece o terreno para os desmascarar. Acresce que nas horas que se seguiram ao debate, Guerreiro era alvo de chacota pelos twiters watsaps fora

sexta-feira, março 11, 2022

Odessa



"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel".

No mini-clássico A Ideia da Europa, de George Steiner, fica-nos desde logo este trecho. Odessa, a maior cidade e maior porto do Mar Negro ("a Paris do Mar Negro"), cenário dos contos de Babel também famosa por ser o cenário de O Couraçado Potemkin, esse clássico do cinema mudo de Einsenstein, está à espera da força bruta que se prepara a atacar do mar, sabe-se lá com que armas. Há umas décadas foram as SS alemãs, Agora são os russos.
Há uns anos, vislumbrando uma oportunidade de ir finalmente a Istambul, não me quis ficar pela metrópole do Bósforo e desenhei um percurso que me levaria de barco, ferry ou cargueiro, se fosse possível, até Odessa, através do oeste do Mar Negro, que em parte já conhecia. Iria à "Paris do Mar Negro", daria um pulo a Tiraspol, capital dessa estranha micro-URSS chamada Transnístria, agora mais conhecida pelo clube Sheriff que o Braga eliminou, e daí iria conhecer Kiev, antes de voltar para Portugal.
Hoje esse percurso tornou-se absolutamente inviável e só existe em sonhos, como outros em que aliás já tinha pensado. Traçar planos para viagens mais extensas é quase impossível nos dias que correm. Espero que Odessa e outras cidades da região permaneçam intactas, sobretudo as suas populações e o seu espírito.

quinta-feira, março 10, 2022

Um traidor


Se alguma vez quiserem saber como é a cara de um traidor, recordem bem esta: Viktor Yanukovytch, ex-presidente da Ucrânia, o homem que depois de ser deposto (por votação no parlamento ucraniano, recorde-se, e de quem até o seu próprio partido se afastou) fugiu para a Rússia - e lá se tem conservado - que apoiou sempre, deixando um rasto de uma fortuna colossal ilegitimamente adquirida e que agora quer que a Ucrânia se renda.




quarta-feira, março 02, 2022

A Ucrânia e as diferenças com o "whataboutismo"

Perguntava-me há dias se a situação na Ucrânia provocaria tanta comoção como quando houve a questão do Iraque. Nessa altura, houve uma jornada mundial de manifestações (talvez dos primeiros grandes efeitos da Internet), a 15 de Fevereiro de 2003, de protesto contra a iminente invasão do Iraque, com manifestações por toda a parte (se me perguntarem, sim, eu estive numa nessa data, no Porto, e no dia em que começou a guerra estive ao lado do iraquianos em Atenas).

Neste momento, felizmente, começa a haver um grande movimento contra esta invasão e a favor da Ucrânia. A diferença, pelo que me pareceu, é que é sobretudo no mundo ocidental, com o resto um pouco mais indiferente, mas espero estar enganado.
A propósito do Iraque, tenho visto as estafadas perguntas "então e o Afeganistão, o Iraque, a ex-Jugoslávia"...normalmente é um estratagema de whataboutismo para se poupar a Rússia por birra com o ocidente (a que pertencemos), porque uns não implicam outros. E quem as faz assobia para or perante a flagrante violação do direito internacional, que antes tanto dizia defender. Mas há apesar de tudo, diferenças, pelo menos nestes três.
O Afeganistão invadiu-se porque albergava uma colónia de terroristas que tinha provocado o 11 de setembro. Os Estados Unidos sofreram um ataque armado e pelo Direito internacional tinham todo o direito de se defender, como a ONU concordou. Outra questão será saber se administraram bem a situação após a fase militar.
Na ex-Jugoslávia, ou antes no Kosovo, estava a haver uma limpeza étnica das populações albanesas locais, de tal forma que tanques sérvios chegaram a atravessar a fronteira com a Albânia atrás de kosovares. Deu-se então uma intervenção da NATO, bombardeando não só forças militares mas também pontos estratégicos em Belgrado, o que levou à morte de alguns civis (e até ao bombardeamento por engano da embaixada chinesa). Sendo certo que uma intervenção para evitar situações como a que tinham ocorrido na Bósnia anos antes era mais que aconselhável, a verdade é que a NATO não tinha mandato da ONU e levou a acção longe demais para além dos objectivos.
O Iraque é que se sabe. Os EUA e alguns aliados, como campanha contra o "Axis of Evil" dos neoconservadores, conseguiram implicar Saddam Hussein com a Al-Qaeda, com a qual não tinha rigorosamente nada a ver, e inventar umas fantasiosas armas de destruição maciça, que Colin Powell "revelou" numa sessão das Nações Unidas em que o seu prestígio de décadas se estampou. O resto é história.
Qual é então, a grande diferença para os casos do Kosovo e do Iraque? É que no primeiro, apesar de ser ilegal, a intervenção conseguiu parar uma limpeza étnica que estava a ser comandada por um tirano, Slobodan Milosevic, de tal forma que no ano seguinte os sérvios não hesitaram em derrubá-lo.
No segundo, apesar de ser um desastre baseado numa mentira, a verdade é que o regime de Saddam era um dos piores facínoras da época e crimes contra a humanidade não faltavam.
E similar ao caso da ex-Jugoslávia poderíamos ir ao caso da Líbia, regida por um assassino que ia desencadear uma repressão violenta contra o seu povo.
No caso da Ucrânia, não só se trata de uma violação flagrante do direito internacional com base em mentiras descaradas (a suposta adesão do país à NATO) como atenta contra um presidente livremente eleito (venceu até o seu antecessor, que estava no cargo), e não um "neonazi", ao contrário do que se passa na Rússia. Ou seja, pelos argumentos da Rússia, a Ucrânia tinha todas as razões para a invadir, já que o regime de Putin ameaça a sua soberania, comete crimes contra o seu povo e só se "elege" prendendo e abatendo adversários.
Em suma: se havia razões para contestar a guerra do Iraque, mais razões ainda há para protestar contra a agressão à Ucrânia.



quinta-feira, fevereiro 24, 2022

Lições verdadeiras e enviesadas da História

  

Churchill é citado e invocado por tudo e por nada. No momento actual, tanto pode ser usado pelos que recordam que a humilhação da Alemanha levou mais tarde ao seu rearmamento como pelos que lembram que se opôs tenazmente ao apaziguamento a Hitler que originou o Anschluss, a entrada na Checoslováquia e por fim a invasão da Polónia.

A situação actual, infelizmente, presta-se a essas lições da História. Não é preciso aplaudir-se a grave crise por que os russos passaram nos anos noventa, após o fim da URSS, ou concordar com a secundarização do maior país do mundo para se aprovar as acções de Vladimir Putin. É verdade que a Rússia devia ter sido mais apoiada nos tempos da Ieltsin, que a tentativa de cercá-la de países da NATO se mostrou precipitada e que acossar um "urso" ferido revelou-se um grave erro. A isso também se podia acrescentar o reconhecimento do Kosovo como país independente, retirando-o á Sérvia na totalidade gerando uma "Grande Albânia" (até nos ministérios de Pristina se vêm bandeiras albanesas) e criando um estado falhado no coração dos Balcãs.

Nada disso impede que o que se está agora a assistir seja a recriação da teoria do Espaço Vital pela Rússia. Ficou claríssimo quando Putin negou o próprio direito à Ucrânia de ser independente, mas já vinha sendo demonstrado com as tomadas de território ucraniano 2014 e da Geórgia de 2008 (e até antes, como irei apontar daqui a uns dias), além da vassalagem crescente de Lukashenko da Bielorrússia. Sim, talvez Putin não ameace  mundo todo, mas a comparação com a Alemanha de finais dos anos 30 é inevitável, e poderíamos acrescentar outros elementos; como a propaganda desenfreada, não já tanto pela rádio mas por inúmeros canais da net. Acresce que os ataques informáticos, em boa parte vindos da Rússia, estão a tornar-se crescentes em número e perigosidade.

E tal como então não faltam "quintas colunas" no Ocidente a favor de Putin. Em Portugal não serão assim tantas, mas temos à cabeça o inevitável PCP, sempre ao lado dos russos (ou melhor dizendo, contra o Ocidente), para quem a culpa é...da Ucrânia. Certamente pensaram o mesmo da Polónia na invasão alemã de 1939, de tal forma que a URSS entrou pelo outro lado. Mas mesmo fora do PCP encontramos outros idiotas úteis - não por acaso uma expressão atribuída a Lenine e usada para gente que passava a mão no pêlo a regimes destes - que desdenham das democracias liberais, preferindo a alternativa "iliberal", olham para Putin como exemplo de estadista e de "macheza" e não se coíbem de inventar razões para as atitudes do regime russo, mesmo que extremamente enviesadas e amputadas. São os que recordam que a NATO expandiu-se para leste mas esquecem a promessa russa de respeitar a integralidade das fronteiras ucranianas em troca do desarmamento nuclear. Ou que juram a pés juntos que houve um referendo na Crimeia, omitindo que tal "consulta" não obedeceu às regras mínimas (nem observadores teve) ou nem sequer recordando que os chechenos não tiveram essa oportunidade. Ou que a Ucrânia é regida por uma "junta fascista", quando depois da dita junta já houve dois presidentes eleitos. Em Portugal esta gente andará mais dissimulada, mas noutros países da Europa são mais detectáveis, como a srª LePen, que recebeu um generoso empréstimo a fundo perdido de Putin, e outros comparsas. 



É esse o desafio que o ocidente tem pela frente: como travar o passo às ambições expansionistas de Putin, agora totalmente escancaradas, num tempo em que há ONU mas há também armas nucleares? Como obrigá-lo a cumprir a legalidade e a não ameaçar vizinhos? Como demonstrar que a Rússia não pode fazer o que quiser sem consequências e sem que isso leve a uma escalada imprevisível, num Mundo que se habituou a guerras por procuração e por interpostos aliados? Não tenhamos dúvida: é um desafio mais perigoso e exigente do que o dos mísseis de Cuba e dos instalados na RDA nos anos oitenta. E mais uma prova de que este século XXI, depois do optimismo que se viveu nos finais do anterior, está a ser uma desgraça. Começou com um atentado apocalíptico, prosseguiu com a maior crise financeira das últimas décadas, tivemos uma pandemia há dois anos que ainda não acabou e agora esta séria ameaça de guerra. Um primor de século.

PS: já viram a coincidência? Da anterior ocasião em que a China tinha celebrado uns Jogos Olímpicos, a Rússia invadiu a Geórgia. Agora os chineses voltaram a organizar umas olimpíadas, mas de Inverno, e estamos nisto.

PS: enquanto escrevia isto a Rússia invadiu a Ucrânia. Ainda assim, o texto não perde a sua actualidade, antes fica confirmado.

sexta-feira, maio 15, 2015

O Dnipro de Dnipropetrovsk





Não posso deixar de achar graça ao ver o inesperado Dnipro Dnipropetrovsk na final da UEFA (ou Liga Europa). um clube sem grandes estrelas, do centro de um país em guerra ou perto disso, a conseguir um feito destes, perante o bem mais apetrechado Nápoles, é digno de nota.


Da cidade de onde provém o clube, apenas sei que fica nas margens do Dniepre, mesmo no centro da Ucrânia, e que durante a URSS era uma cidade praticamente fechada, já quer um centro industrial de armamento e de invesigação nuclear e espacial, pelo que se impunha afastar qualquer ameaça de espionagem. E diz-nos a Wikipedia que lá nasceram Brejnev e Yulia Timoshenko. O dito clube local, o Dipro, actualmete o terceiro clube ucraniano, com o seu novo e espaçoso estádio, chegou a ser campeão soviético no fim dos anos oitenta. Na Taça dos Campeões, seria eliminado, com uma derrota caseira por três secos, pelo Benfica de Eriksson, que chegaria à final de Viena. É daí que vem o meu conhecimento do clube, que tem alguns bons jogadores, entre os quais o português bracarense Bruno Gama. Podem ver esse jogo de 1990 na íntegra, aqui, cortesia do Red Pass.

Agora só lhes peço uma coisa: continuem o milagre e vençam esse insuportável Sevilha na final de Varsóvia. Até é um país vizinho e tudo.

terça-feira, março 24, 2015

Um ano depois de Maidan, a Rússia ainda ficou mais voraz

 
Há coisa de um ano, a Rússia concretizava o plano de se reapoderar da Crimeia. Através da ocupação de pontos-chave por parte das tropas estacionadas em Sebastopol, com a ajuda de reforços vindos da Rússia (que tacticamente escondiam a identificação) e de milicianos locais, cercaram as forças ucranianas estacionadas na península, proclamaram a autonomia da região e organizaram um "referendo" (ou antes, um plebiscito) que resultou na "independência" e posterior anexação pela Rússia. Com pompa e circunstância, e discursos nacionalistas, proclamou-se que "a Crimeia tinha voltado a casa". A Ucrânia reagiu, a maior parte dos países condenou a manobra e não reconheceu a Crimeia como parte integrante da Rússia, mas o certo é que nada mudou e até já avançam os planos para a construção da ponte sobre o estreito de Kerch, que ligará a Crimeia ao resto da Rússia.

 Meses depois, iniciou-se a operação que visava subtrair à Ucrânia as suas regiões orientais. As regiões de Luhansk e Donetsk foram em grande parte ocupadas (incluindo as cidades-sede) por rebeldes separatistas, com apoio mal dissimulado das forças russas, e o resto é o que se sabe. Guerra sem fim à vista, apenas intervalada por efémeros cessares do fogo. As regiões permanecem ocupadas pelos separatistas, mais de um milhão de pessoas fugiu para os países da sua preferência, conforme fossem russófonos ou leais à Ucrânia, morreram mais de cinco mil, e destruíram-se infraestruturas quase novas e que tinham tido um custo avultado, como o recentíssimo e moderno aeroporto de Donetsk. E enquanto os combates, que na realidade nunca pararam, não aumentam de intensidade, com a mais que previsível carga dos separatistas sobre a cidade portuária de Mariupol (cuja conquista lhes facilitaria a ligação terrestre à Crimeia), permanece um tensão pouco tranquilizadora.

Entretanto, a Rússia assinou um acordo de integração com a Ossétia do Sul, o que na prática significa a anexação daquele território arrancado à Geórgia.

Ou seja, os efeitos da Revolução de Maidan resultaram não no reforço da Ucrânia, apesar da expulsão dos governantes pró-russos, mas na expansão da Rússia e dos seus títeres, na Crimeia, na bacia do Don e no Cáucaso. Bem pode a NATO condenar todos estes avanços: sem prova de força, nada obsta a que a Rússia efective estas ocupações. Se bem que pode ver a Ucrânia escapar-se ainda mais e tornar-se, a prazo, um membro da NATO. Eis como os despojos daquele país serão divididos.

Enquanto isso, em Moscovo, no último mês, assassinaram o líder político da oposição, Boris Nemtsov, antigo vice-primeiro ministro, junto ao Kremlin, em mais um acto nebuloso e sangrento envolvendo tiros. As suas exéquias fúnebres levaram à maior manifestação contra o governo, bastante superior à que uma semana antes tinha levado à rua os apoiantes de Putin na sua guerra contra a Ucrânia. Nunca antes se tinha visto uma tal demonstração de força contra o "czar" republicano de quase todas as Rússias. Este, embora garantisse que iria proceder a um inquérito para a averiguar a morte de Nemtsov, condecorou poucos dias depois o principal suspeito do assassínio de Alexander Litvinenko, em Londres, em 2006, por envenenamento. Que ocorreu quase ao mesmo tempo e nos mesmos lugares que a tentativa de fazer o mesmo a Yegor Gaidar, o antigo primeiro ministro liberal da Rússia, que escapou por pouco. Ingenuidade ou uma provocação grosseira de Putin?

Assim vão as Rússias e os seus antigos apêndices.

sexta-feira, outubro 31, 2014

Eleições


Este ano está a ser frutífero em eleições. Curiosamente, não há legislativas em Portugal, Espanha, França, Reino Unido, Alemanha ou Estados Unidos. Mesmo assim, é das matérias de que mais se ouve falar em 2014. Só no Domingo houve quatro.

Da Tunísia sei apenas que os liberais seculares terão vencido os islamitas o confronto eleitoral local, o que confirma aquele pequeno país como um dos mais estáveis no Norte de África (ali mesmo ao lado, na Líbia, ninguém sabe quem manda onde). No Uruguai haverá uma segunda volta com o presidente de há uns anos atrás, Tabaré Vasquez, e o candidato do Partido Nacional, e pelos resultados e pela tendência dos últimos anos, o mais provável é o primeiro regressar ao seu antigo gabinete. Pela república oriental pouco mudará.

No Brasil ganhou Dilma, como temia (mas não espanta). Seria sempre difícil que os votos de Marina fossem em número suficiente para levar Aécio Neves ao Planalto. Previsivelmente, Dilma haveria de obter alguns, além das outras pequenas forças maioritariamente de esquerda que se apresentaram às presidenciais no primeiro turno. Mas ao contrário do que se veiculou, sobretudo na dura, e por vezes irracional ao histerismo, campanha eleitoral, não havia simplesmente um bloco de esquerda contra um de direita: ao lado do Partido dos Trabalhadores estava o PMDB, exemplo acabado do partido de centrão sem ideologia com o objectivo único de participar do poder, e o Partido Progressista, partido mais à direita, legatário da ARENA (o partido do poder durante a ditadura). Com o PSDB, acusado por vezes de ser "neoliberal", estavam o Democratas (esse sim, de direita liberal, aliás antigo Partido da Frente Liberal), e o Partido Trabalhista, herdeiro directo do de Getúlio Vargas e um dos "guardiões" do seu legado, e ainda o Partido Socialista, que apoiou Aécio na segunda volta depois de suportar Marina Silva e o malogrado Eduardo Campos.
Dilma terá pela frente uma economia a abrandar, protestos latentes da população, como se verificaram nos dois últimos anos (espera-se para ver o que vai suceder nos Jogos Olímpicos do Rio) e a sempiterna questão da corrupção, não menos importante do que as outras quando os eleitores se estão visivelmente menos tolerantes e que os dois grandes partidos que a apoiam, PT e PMDB, controlam o aparelho de estado. Quatro anos previsivelmente complicados (ou reformistas?), sendo que Dilma não se pode recandidatar. Conseguirá Aécio aproveitar o embalo destas eleições para se guindar à presidência em 2018, ocupando o lugar que o seu avô Tancredo não conseguiu, por morte antes da tomada de posse?


E por fim na Ucrânia, uma grande volta ao anterior cenário, como não podia deixar de ser, na sequência da revolta de Maidan, da anexação da Crimeia e do isolamento de Donetsk e Lugansk. O Partido das Regiões, formação russófona que estava no poder e em maioria no parlamento, nem se apresentou, e o bloco que o substituiu teve resultados modestos (nas zonas onde há mais russófonos teve melhores votações, como seria de esperar). O Partido comunista, visto como quinta coluna da Rússia, quase desapareceu e nem entrou no parlamento. A extrema-direita banderista, com influência sobretudo na rua, também não. E a outrora líder maternalista (antes de ser presa) da Ucrânia, Yulia Timoshenko, teve um resultado decepcionante, pouco mais de 5%, e por pouco também não entrava na Rada. As formações do presidente Poroshenko, do primeiro-ministro Yatseniuk e do presidente da câmara de Lviv, no extremo-ocidental do país, ficaram com a maior parte do bolo. A bússola política alterou-se drasticamente, para oeste. Embora rivais, os partidos vencedores têm sobretudo semelhanças. A Ucrânia voltou-se para a Europa, de costas para a Rússia, confirmando as tendências do último ano. Graças a isso, conseguiu já um acordo para o pagamento do gás natural ao vizinho gigante, mas as questões dos territórios perdidos ameaçam complicar-se. Pelo menos, a retórica de que em Kiev o governo é ilegítimo e que mandam "nazis" já se pode esbater, embora a propaganda pró-russa deva continuar a explorar esse filão por muito tempo.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Que 1939 não se repita em 2014


Aquelas imagens dos soldados ucranianos prisioneiros em Donetsk, seguindo numa parada organizada propositadamente para respnder às comemorações da independência da Ucrânia e para os humilhar, sob uma escolta de milicianos de baionetas em punho enquanto a populaça os insultava ou fotografava com os telemóveis, é bem demonstrativa dos valores dos separatistas e dos russos que os apoiam. Além de pouco consentâneas com as leis dos prisioneiros de guerra, evocam as paradas que Estaline realizou com prisioneiros alemães, com o expressivo acto de porem um camião a lavar as ruas atrás das suas pegadas, como se fossem sub-humanos. É uma boa expressão da cultura semi-bárbara da Rússia, cuja natureza continua igual ao que era há séculos. Não esquecer igualmente que têm o apoio de brigadas de sérvios e caucasianos, autores de crimes de guerra, e que o seu "ministro da defesa", Strelkov, é ele próprio um russo acusado de actos pouco limpos nesses cenários de guerra.




Em tempos de evocação de guerras, convém também lembrar que não só passaram cem anos do início da 1ª Guerra Mundial, mas também 75 da invasão da Polónia pela Alemanha. Depois do Anchluss da Áustria e da anexação da Checoslováquia com o pretexto dos povos dos Sudentenland estarem em perigo, uma falsa provocação deu o pretexto para que os panzer entrassem pela Polónia dentro. Isto sempre sob a premissa de que ou era por vontade dos povos germânicos anexados, ou que estes estavam ameaçados pelos seus vizinhos. Em 2014 verificámos, no seguimento da mudança do poder em Kiev, a anexação da Crimeia por parte da Rússia com um referendo muito pouco transparente (tal qual como na Áustria em 1938), a tomada de boa parte dos territórios das regiões da bacia do Don por separatistas pró-russos, auxiliados por mercenários estrangeiros e por tropas russas mal disfarçadas, e a ameaça da Rússia de intervir caso os "seus" fiquem em perigo ou as suas fronteiras sejam ameaçadas. Não por acaso a URSS assinou o pacto Molotov-Ribentropp com a Alemanha, permitindo que esta entrasse na Polónia, enquanto os soviéticos faziam o mesmo do outro lado e ainda atacavam a Finlândia. Claro que a Rússia de hoje não tem os níveis de fanatismo e demência do 3º Reich de 1939, nem procura criar um Super-Homem (a não ser que esse seja Putin). Mas prossegue na senda do seu sonho eurasiático, que inclui a "nova Rússia", no Sul, e por isso estende uma teia em que oficialmente não intervém no conflito da bacia do Don, mas de facto propaga-o e manobra os cordelinhos de uma parte. E trazendo, como se viu na estranha parada de Donetsk, recordações margs de tempos idos.

domingo, junho 01, 2014

Não bastam eleiçõs para normalizar a Ucrânia


Com os combates a leste como fundo, a Ucrânia lá conseguiu realizar as suas eleições presidenciais. Como todas as sondagens previam, Petro Poroshenko, conhecido como o "rei do chocolate", já com importante experiência política, e apoiado pelo UDAR de Vitali Klitschko (por sua vez eleito presidente da câmara de Kiev) venceu por larga margem, tornando-se presidente da Ucrânia logo na primeira volta. A sua prioridade é acabar com as revoltas separatistas no leste do país e, se possível, recuperar a Crimeia. Se a segunda parece uma tarefa quase impossível, pelo empenho da Rússia na sua anexação, e pela maioria local que a suporta, a primeira é menos complicada. O plebiscito que tornou Donetsk e Luhansk em "repúblicas populares", organizado pelas milícias locais, não tem o apoio explícito da Rússia, que toma posições ambíguas. Na última semana houve confrontos violentos na região, que vive em autêntico estado de guerra: ocupação do aeroporto de Donetsk por parte dos separatistas (que sofreram inúmeras baixas na recuperação por parte das tropas ucranianas), abate de helicópteros da força área ucraniana, combates vários nas cidades, destruição de barricadas, etc. Poroshenko ainda não tomou posse, mas a luta pela expulsão dos separatistas já começou. Estes, por sua vez, com material de guerra pesado, reforços de voluntários vindos da Rússia, da Crimeia, e mesmo por inúmeros veteranos paramilitares tchetchenos (que outrora combateram a Rússia e que agora se lhes submeteram) e ossetas, mais chetnicks da Sérvia, gratos pelo apoio dado pelos russos nas guerras da ex-Jugoslávia, não se deixarão vencer com facilidade, até porque sentem as costas amparadas pela Rússia e para além da força bélica têm alguns trunfos na manga, como escudos humanos.

Entretanto, surgem dados curiosos que desmontam a pouco e pouco a propaganda massiva de que o poder de Kiev estaria tomado por neonazis e fascistas: os candidatos dos formações mais extremistas, como o Svoboda e o Pravy Sektor, tiveram em conjunto menos de 2%. E aparentemente, é a extrema-direita da Europa ocidental quem está com Vladimir Putin. Além da Frente Nationale de Mme LePen, os neofascistas e antissemitas Jobbik, da Hungria, e Aurora Dourada, da Grécia, também estão com o líder russo. Juntando-se assim aos nostálgicos comunistas, como o "nosso" PCP, ou o MRPP, que num dos seus sites firmava perentoriamente que "todos os operários europeus estavam com as autoproclamadas "repúblicas populares". Será temerário falar em nome de todos os operários, mas talvez os militantes do MRPP tenham alguma razão: afinal de contas, o operariado francês vota maioritariamente na Frente Nacional.
Toda esta crise ucraniana está para durar (e se não arrastar a Europa é um sorte), mas é comovente ver que, mais uma vez, les beaux esprits se reoncontrent...

terça-feira, maio 13, 2014

Mais um plebiscito na Ucrânia




Mais um plebiscito, desta vez ainda mais feito em cima do joelho e sob ameaça das armas que o da Crimeia. Donetsk e Lugansk "votaram" pela independência da respectiva "república popular", ou seja, por um enclave do leste da Ucrânia que pretende unir-se à Rússia no menor tempo possível.


Entre barricadas, armas pesadas e uniformes de toda a sorte, os votantes deram uma maioria esmagadora aos partidários dessas estranha independência. Que tenham chegado boletins preenchidos, ou que tenha havido pessoas a votar várias vezes, sem qualquer tipo de observadores internacionais, é coisa que não preocupou os seus organizadores, que tão pouco pensaram em fazê-lo depois das eleições marcadas para 25 de Maio. Ou talvez por isso mesmo. Dessa forma, e sob o pretexto do "governo ilegítimo" de Kiev, procedeu-se a um rearmamento da população russófona, com o apoio de milícias vindas directamente do grande vizinho, veteranos das guerras do Cáucaso, cossacos e até de Chetniks da Sérvia, proclamou-se a autonomia e tenta-se assim torpedear o calendário eleitoral, que só muito dificilmente terá lugar no dia aprazado. Que fazer? Se as eleições forem para a frente, é de esperar o caos. Se não forem, dar-se-à um pretexto a que se considere que o actual governo interino de Kiev é ilegítimo. De qualquer das formas, os separatistas já vieram com a tese absurda de que "as eleições são ilegítimas porque foram marcadas por um governo ilegítimo". Seguindo esse paradoxo, que impediria que qualquer governo futuro ganhasse legitimidade, também poderíamos considerar que as eleições para a Assembleia Constituinte de 1975 (e todas as que se lhe seguiram) também carecem dela. A verdade é que os separatistas não querem eleição nenhuma, excepto as que elas próprios organizam à sua maneira, de forma a serem anexados pela Rússia. Os dirigentes russo, nos últimos dias, tinham optado por uma posição de maior moderação, afastando tropas das fonteiras com a Ucrânia e aconselhando a que o "referendo" não se realizasse no domingo, mas entretanto já vieram aproveitar os "resultados". Normal. fizeram o mesmo na Crimeia. Mas desta vez, com as tropas ucranianas na fronteira e a cercar os separatistas, as colunas pró-russas terão outra dificuldade em anexar aquele território. Não se ocupa a bacia do Don como se ocupa a Crimeia ou a Ossétia do Sul.

Mas a situação é muitíssimo tensa. Para além das milícias atrás referidas, que já declararam que as forças ucranianas têm de sair, o que leva a crer que os combates vão recrudescer, tivemos os terríveis acontecimentos em Odessa, há dias, em que no seguimento de uma refrega campal deu-se o incêndio na sede dos sindicatos da cidade, devido a coktails atirados por manifestantes pró-união depois de um ataque de pró-russos (onde se incluíam, ao que tudo parece, elementos da Transnístria).
É pouco provável que por aqui os separatistas consigam realizar plebiscitos semelhantes aos da Crimeia e do Donbass, até porque os reforços do Transnístria não serão suficientes e a população não é maioritariamente russófona. Mas é de esperar novos tumultos, ali, não muito longe das fronteiras da Roménia, e portanto da NATO. E sobretudo, o espectro da antiga Jugoslávia, que teima em assombrar aquela região, cindida entre ucranianos e russófonos saudosistas. Deus não permita uma tal catástrofe.


sexta-feira, março 21, 2014

Depois do plebiscito



E pronto, está concretizada a separação da Crimeia depois do plebiscito (e não referendo, como insistem em chamar-lhe) instituído pela Rússia e pelos seus acólitos em Simferopol. As milícias sem emblema e os deputados do parlamento local cumpriram bem o seu papel. Impedindo, na prática, a campanha a favor da Ucrânia, intimidando todos os que a apoiassem, cortando o sinal aos canais televisivos ucranianos, enchendo aldeias e cidades de cartazes pró-russos, impedindo a fiscalização a observadores estrangeiros, levaram ao boicote do plebiscito por parte dos ucranianos e tártaros através da ameaça e de agit-prop maciço.  Agora, depois do resultado esmagador a seu favor, a Crimeia pede para se tornar uma república autónoma russa e a Grande Mãe, generosamente, acolhe-os no seu seio. Tanto a assembleia regional como a Duma não perderam tempo em "cumprir" as respectivas formalidades para que isso acontecesse, e Putin realizou um par de discursos irredentistas, um na Duma e outro na Praça Vermelha, para gáudio da multidão, falando no "regresso da Crimeia". Já na península, os apoiantes da nova situação festejavam nas praças, como se um festival se tratasse. Os opositores recolheram-se, temendo represálias.


Entretanto, já duas bases ucranianas na Crimeia foram tomadas, o Comandante da marinha ucraniana detido (mas liberto pouco depois) e Kiev iniciou manobras na região leste do país, onde milícias pró-russas foram avistadas. Fala-se em desordens provocadas nessa zona, de forma a dar novos "pretextos" para intervenções. Putin é ambíguo, dizendo que não precisa que a Ucrânia se divida e que "Kiev é uma cidade sagrada para os russos".

O momento não é para graças. A NATO não que de forma alguma abrir hostilidades, mas não vai deixar que haja novas intervenções russas naquele território. Prometem-se sanções, mas no imediato as mais contendentes podem vir da própria Ucrânia, com a interrupção da energia à Crimeia. Tempos complicados, naquelas paragens.



Apesar de tudo há mais gente a querer ir para a Rússia, e nem todos têm lá raízes: André Villas Boas confirmou oficialmente que será treinador do Zenit de S. Petersburgo. Depois das passagens falhadas por Londres, era de esperar que fosse para um clube mais pequeno. Afinal, escolheu um clube com um balneário difícil e muito dividido, com várias estrelas de feitio complicado e com um patrocínio da maior companhia de fornecimento de gás do mundo, que por certo quer que os seus enormes investimentos financeiros se transformem em ganhos desportivos. Ou quebra a malapata dos últimos anos ou, o que é mais provável, acumula mais um fiasco e vê a carreira seriamente comprometida.

terça-feira, março 04, 2014

A 2ª guerra da Crimeia?



À crise na Ucrânia sucedeu a crise na Crimeia, que alguns já consideram como sendo estado de guerra. Com a alteração do estado de coisas em Kiev, boa parte da população da península, afecta aos russos, iniciou um contra-movimento, erguendo a bandeira russa onde podia, fazendo valer a sua maior ligação a Moscovo do que a Kiev. Na confusão que se seguiu, conseguimos ver manifestações e combates de rua entre tártaros da Crimeia, herdeiros do Kanato que ali reinou até ao século XVIII e que Estaline tentou exterminar, contra cossacos locais, que nos leva a perguntar se fomos transportados para a época de Catarina, a Grande ou o romance Miguel Strogoff.


As últimas notícias são confusas, mas muito pouco animadoras: grupos paramilitares a ocupar edifícios administrativos em Simferopol, com o governador local a declarar fidelidade ao "povo da Crimeia". A Duma de Moscovo a autorizar por unanimidade o emprego de tropas na região para "proteger os russos que aí habitam". Forças russas (não só da Marinha, da base naval de Sebastopol) a tomar posição, sendo já 22 mil - a Rússia pode ter efectivos até 25 mil homens na península, segundo os tratados que firmaram a concessão da base naval da frota do Mar Negro. Cerco dessas tropas a bases ucranianas, e mesmo um ultimato para se renderem (fontes russas já desmentiram). O comando naval ucraniano também a declarar a sua fidelidade ao "povo da Crimeia " (isto é, à Rússia). Manifestações pró-russas em várias cidades do Leste da Ucrânia, como Donetsk e Karkhov. Manifestações contra o envio das tropas em Moscovo, tendo resultado em trezentas prisões. Ou seja, a Rússia invocou o direito à protecção das suas populações para, de facto, ocupar militarmente a Crimeia. Não é muito diferente do que aconteceu em 2008, quando não hesitou em enviar os seus tanques e aviação para reprimir a Geórgia, sob o pretexto de proteger a Abkházia e a Ossétia do Sul. E se a Ucrânia se lembra de proteger os tártaros, esse povo das estepes asiáticas, tradicionalmente inimigo da Rússia, que já ali vivia há séculos e que em grande parte deportaram para a Sibéria depois da 2ª Guerra? 


Entretanto, os países da NATO ameaçam com sanções, a expulsão da Rússia do G-8, etc. Pouco poderão fazer mais, até porque além da França e Inglaterra, únicas nações europeias com real poder militar, e que decerto não quererão intervir, quem rechaçaria a Rússia? A Polónia? Roménia? Repúblicas bálticas? Claramente insuficiente. Obama e os ministérios dos negócios estrangeiros europeus devem estar a passar dias de angústia, só de pensar na hipótese de guerra. e não é para menos. 

Não é impunemente que se recorda a Guerra da Crimeia, em meados do século XIX, da invasão alemã da Checoslováquia para "proteger os Sudetas", do genocídio soviético ou da crise dos mísseis de Cuba. A Rússia assinou um tratado com a Ucrânia, em que se comprometia a respeitar a integridade territorial deste país em troca do arsenal nuclear que lá restava. Agora, prepara-se para rasgar esse acordo, para impedir a deriva dos ucranianos para o ocidente, depois de derrubarem o cleptómano Yanukovitch (que, coincidência, se refugiou em Rostov). Confiam no seu poderio militar e nos muito apoiantes que têm no leste e sul da Ucrânia, sobretudo na Crimeia. Mas também podem pôr o pé em falso. Aliás, ainda hoje a bolsa de Moscovo registou uma descida vertiginosa. O urso russo tem garras afiadas, mas algum barro nos pés.

Talvez o mais óbvio fosse a Crimeia  fazer parte da Rússia (assim como a Bielorússia, ou Kalininegrado/Konigsberg na Alemanha) mas a "dádiva" de Krushev nos anos cinquenta, quando a URSS parecia eterna, a confusão da desagregação em 1991 e a incompetência dos russos em conseguir mantê-la determinaram no mapa que pertenceria à Ucrânia. Esperemos que nos próximos dias não rebente um real conflito armado nessa zona balnear, habitual estância de Verão do Mar Negro, que teria consequências funestas. E ninguém sairia a ganhar, mesmo que vencesse militarmente.

Para acompanharmos a situação, podemos ler o blogue Da Rússia, de José Milhazes, e as reportagens de Paulo Moura na Crimeia, entrevistando russos e tártaros.


PS: uma dúvida importante era qual seria o papel da Turquia, membro da NATO e ocupante da margem Sul do Mar Negro, em todo este caso. Rui Tavares esclarece-nos, num artigo desta semana: os turcos estão solidários com os tártaros da Crimeia. muita atenção a esta potência que provavelmente, e na senda do "neo-otomanismo" de anos recentes, quererá dar uma palavrinha em todo este caso.

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

O que se segue na Ucrânia


Afinal a Ucrânia não entrou em guerra. O descontrolo da situação e a ameaça de mais violência levaram a que as forças de segurança parassem por ali. E com a ocupação do parlamento, Ianukovitch resolveu fugir enquanto era tempo. Depois, a libertação de Yulia Timoshenko, as comemorações de vitória na praça Maidan (a Tahrir dos ucranianos), as homenagens aos mortos e a declaração de exoneração do presidente pelo parlamento. Não é uma Bósnia, mas tal como já tinha dito, assemelhou-se bastante à Roménia em 1989, com protestos em massa, inúmeros mortos provocados por atiradores do regime, a fuga do presidente de helicóptero (o meio de transporte de ditadores/estadistas de saída) e a descoberta do luxo asiático em que vivia, com casas de campo monstruosas, torneiras em ouro, frotas de carros de alta cilindrada, provas irrefutáveis de nepotismo em favor dos filhos, etc. A única coisa que difere da revolução romena é que desta vez não houve aquela parte mais sangrenta dos fuzilamentos.

Mas embora estejam eleições gerais previstas para Maio, a situação está muito, muito longe do fim. Outras partes do país não estão muito pelos ajustes. Na Crimeia, outrora dos russos, têm-se multiplicado manifestações contra a nova situação e a favor do grande vizinho. E embora o boato de que a Rússia já teria enviado tropas especiais para aquela península do Mar Negro seja pouco crível, há que não esquecer que a sua frota tem a principal base em Sebastopol, concessionada pela Ucrânia por mais trinta anos, e que certamente não vai deixar que a situação fique assim. Aliás, as últimas informações dizem-nos que Ianukovitch, depois de tentar apanhar um avião em Donetsk, teria embarcado num navio (ou seu iate ou um navio russo, não se percebe bem) nesta cidade-base naval.


Como se vê, o futuro da Ucrânia, apertada num colete de forças geopolítico, é mais incerto do que nunca. a única coisa mais ou menos pacífico é que Ianukovitch, expulso pela população que entretanto descobriu a sua "caverna de Ali babá", desprezado pelo próprio partido pela sua deserção e criticado pelos russos pela sua incompetência, não voltará certamente à cadeira presidencial

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Depois dos protestos, a guerra declarada


Há uns dias dedilhei um post sobre o discreto apagamento da crise ucraniana dos noticiários e jornais. Escrevi cedo demais. O conflito ressurgiu com violência inaudita, e a estas horas, o número de mortos, só os de hoje, chega aos 75, entre civis e polícias. Aquilo que eram protestos inflamados transformou-se numa pré-guerra civil, com barricadas, mortos e feridos e ocupações de edifícios governamentais por todo o país (ou melhor dizendo, pelo ocidente do país). A população de Kiev e do lado ocidental, pró-europeia e tradicionalmente desconfiada do grande vizinho russo, com activistas radicais à mistura a incendiar a situação, quer o derrube do governo e o afastamento da Rússia. Claro que o país de Putin, que pensa em restaurar a sua zona de influência no antigo espaço da URSS através de uma nova comunidade por si chefiada, nunca poderia permitir uma Ucrânia com relações especiais com a UE e a NATO. Bem lhe bastou perder as repúblicas bálticas e os antigos satélites do Pacto de Varsóvia (que exibem orgulhosamente a sua pertença àquelas duas organizações) para agora perderem também a Ucrânia, afinal o berço da Rússia, presidida por um notório pró-russo.

Entre os manifestantes há inúmeras milícias semi-armadas, militantes do partido radical Svoboda ou neonazis declarados, que queimaram edifícios governamentais e pilharam a sede do Partido das Regiões, no poder. Do lado governamental fala-se em snipers instalados nos telhados do centro de Kiev e de milícias formadas por arruaceiros e recrutadas na Crimeia, região pró-russa, onde o partido comunista local, nostálgico da URSS, defende a união com a Rússia e a Bielorrússia. Com todo esse caldo, não é difícil de imaginar que a situação só muito dificilmente se acalmará. Já houve previsões de que a Ucrânia seria "a nova Bósnia". Não é descabido. A Rússia seria neste caso a Sérvia (ainda para mais um país com quem tem fortes laços culturais), Kiev a nova Sarajevo, a parte russófona a República Sprska e a parte ocidental faria o papel de Bósnia muçulmana-croata. Com a diferença de que as dimensões seriam neste caso muitíssimo maiores e as baixas incontáveis. Além disso, estes protestos em massa e a reacção das forças policiais recordam também a violenta revolução da Roménia, em 1989.


Esperemos que nem Bósnia nem Roménia se repitam. No último século, a Europa já produziu mais horrores do que os que é capaz de assimilar. Uma guerra civil, nas fronteiras da União Europeia, teria resultados tremendos e incertos, para além das perdas de vidas. Sendo optimista, prefiro acreditar que é uma crise efémera, como a que aconteceu há uns vinte anos na Rússia, e que não durará muito mais. Podiam era aproveitar para dividir o país, como fizeram com a Alemanha, ou melhor ainda, com a Checoslováquia, e teríamos uma Ucrânia ocidental e outra oriental. Só que desta vez, e ao contrário do que aconteceu com os alemães, os respectivos habitantes até deviam aplaudir.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Já se esqueceram da Ucrânia?


Por falar na Europa e na UE, dir-se-ia que depois de dias de intensa cobertura jornalística a paz voltou a reinar na Ucrânia. Então e o braço de ferro entre Ianukovitch e os amotinados comandados por Klitschko e o seu partido, apropriadamente chamado Udar ("murro")? E as barricadas, desapareceram? Já se limparam as praças de Kiev? E os edifícios públicos tomados pelos revoltosos, já foram desocupados? A Rússia e o ocidente já chegaram a acordo sobre quem vai "influenciar" mais a Ucrânia? Ou será Rússia e EUA, já que para a diplomacia americana, e a julgar por um telefonema "informal" e privado da subsecretária de estado, a UE não conta?

É mais um dos assuntos que durante dias abre os telejornais e depois volta a cair no esquecimento ou a passar para as colunas mais escondidas das secções internacionais da imprensa. E no entanto devia preocupar toda a gente. O país está na linha de fractura da zona de influência União Europeia-Rússia, que a disputam como abutres sobre a carne morta. É vítima de chantagens, aliciamentos, experiências. Os russos não vão querer largar esta presa, antiga fatia de grande importância do seu território, que perderam com o estilhaçamento da URSS por culpa do seu plano chico-esperto em criar uma república autónoma que tivesse assento na ONU, ganhando assim mais um lugar. Os Estados unidos e a UE, com a Alemanha à cabeça, pensam cercar a Rússia e ganhar ali novo posto avançado em direcção à Ásia.


É difícil tomar partido por qualquer dos blocos, mesmo que de um lado pareça estar o bloco democrático e do outro um velho império autoritário, sustentado em gás natural. A parte oeste da Ucrânia, que em tempos constava do Império Austro-Húngaro, e Kiev estão vigorosamente do lado ocidental. Mas a parte leste, a bacia do Don e a Crimeia, lideradas pelos grupos de Donetsk, preferem o apelo da Rússia. São as duas Ucrânias que se enfrentam, a ocidental e a russa agora nas ruas, completamente divididas politicamente. A ironia trágica é que as duas principais potências que a disputam, a Alemanha e a Rússia, foram precisamente as que lhe trouxeram as maiores atrocidades no último século: os soviéticos nos anos vinte e trinta, nos quais milhões morreram de fome ou massacrados, os nazis nos anos quarenta, quando impuseram a sua brutalidade no avanço da Operação Barbarossa. Os ucranianos deviam fugir deles a sete pés, mas entalados que estão, só lhes resta ver qual a facção que vencerá, se é que tudo não passa de ciclos sucessivos e rotativos, em que ora ganha uma, ora ganha outra.

terça-feira, dezembro 10, 2013

O traumatismo de Lenine


Lenine caiu na Ucrânia, com mais de vinte anos de atraso. O que admira é que só agora se tenham lembrado de expulsar tão ruim defunto e dar outro uso naquele pedestal, 22 anos depois da independência, quando a maior parte das estátuas do revolucionário já tinha sido apeada e se encontrava no ferro-velho. Entretanto, vários bocados da estátua já começaram a ser vendidos na net, o que demonstra que o capitalismo, com todos os seus erros, defeitos e previsões miríficas, acaba por sempre por ultrapassar o comunismo (as recordações relacionadas com Marx também se vendem muito bem em Trier).
 
Mas como disse Ana Vidal, tratou-se do verdadeiro traumatismo (u)craniano. Tardou mas aconteceu.