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quarta-feira, novembro 11, 2020

Reacções ao cordo regional e falta de memória

O acordo para viabilizar o novo executivo açoriano trouxe à memória a constituição da "geringonça" e o precedente que causou. Ou antes, devia ter trazido.

Por um lado, temos o nosso PM, arquitecto da geringonça, o homem que permitiu todo este novo desenho parlamentar, que tirou sentido ao voto útil ao fazer acordos com os que até aí eram inimigos de longa data e de natureza completamente diferente, a criticar o PSD e a referir-se a "linhas vermelhas". Mas a questão em 2015 não era a de que se não houvesse geringonça "a direita ficaria no poder"? E isso implicava atravessar inhas literalmente vermelhas para fazer tratados com os seus velhos inimigos (por vezes mais do que advesários)? Então...
 
Por outro, temos um abaixo assinado de um conjunto de pessoas de alguma forma ligadas ao centro direita que critica os acordos com direitas "iliberais". Os subscritores já foram mimoseados nas redes sociais com os habituais insultos do cardápio - "direita fofinha", "direita de que a esquerda gosta", "cobardes", "pusilânimes", etc. Ora isso lembra muito o tipo de remoques que socialistas como Francisco Assis ou Sérgio Sousa Pinto ouviram por se oporem à geringonça e avisarem com que esquerdas estavam a assinar. Lembram-se dos "traidores", "neoliberais do PS" e "vendidos à direita" que lhes atiravam? É que alguns dos que então os aplaudiam (até havia o jargão "Assis, salva o país") viraram-se agora indignados contra a "direita de que a esquerda gosta".
 
Francisco Assis demite-se de cargo europeu após ser impedido de falar pelo  PS - Política - Jornal de Negócios
 
É fantástico ver como a falta de memória gera os oportunismos mais descarados. E também tem o seu quê de divertido.

quinta-feira, março 29, 2018

As ligações insulares da Líbia


O suposto patrocínio de Muammar Kadhafi e do regime líbio à campanha presidencial de 2007 de Nicolas Sarkozy, que levaram à detenção deste há poucos diasnão é exactamente uma novidade nem um rumor esquecido. Já tinha sido publicitada várias vezes, a começar pelo filho do próprio ditador da Líbia durante o levantamento no país, quando a França liderou a intervenção militar externa que seria decisiva para a queda do "regime verde" e para os acontecimentos que se seguiram. 

A ser verdade não sei quais as razões deste patrocínio financeiro a Sarkozy, mas por certo seria para obter quaisquer objectivos financeiros ou estratégicos da parte da França. De resto, Kadhafi nunca deixou de se imiscuir nos assuntos dos outros países de forma diversa. Na sua versão mais recente fazia-o através de recursos económicos proporcionados pelo petróleo líbio, como os interesses que tinha em empresas italianas como a FIAT, ou até em clubes de futebol. Mas nas primeiras décadas, o coronel esteve envolvido em  quase todos os conflitos envolvendo terrorismo e rebelião. Do IRA à ETA, passando por todas as organizações palestinianas e estando por trás de grandes atentados dos anos oitenta, como a explosão do avião sobre Lockerbie, ou estreitamente ligado aos grandes terroristas da época, como Carlos, O Chacal, ou Abu Nidal, Kadhafi não perdia uma. E quando não tinha uma organização terrorista ou ma causa subversiva para apoiar, procurava-as. Um artigo recente de Rui Tavares conta-nos que o ditador líbio, numa reunião da Organização dos Estados Africanos, exigira a "liberdade da colónia africana da Madeira, ocupada por Portugal", dizendo o mesmo das Canárias. Se a esta ainda podia fazer referências aos guanches, o povo autóctone pré-espanhol, já dificilmente veríamos os madeirenses a querer ser libertados por Kadhafi. 

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Mas os líbios, sempre prestes a auxiliar um bom movimento separatista, também olhavam para os Açores, já fora da orbita
africana. César Oliveira, antigo deputado e autarca do PS (e pai de Tiago Oliveira, agora muito falado por estar à frente da estrutura que previne os fogos rurais), já desaparecido, conta-nos as suas impressões da Líbia em finais dos anos setenta, no seu livro de memórias, Os Anos Decisivos:

País de um novo-riquismo impressionante e avassalador, a Líbia constituiu (...) a certeza de que representava uma ameaça para a paz e no Norte de África como para o próprio Sul da Europa (...) Um alto dirigente líbio colocou-me a pergunta sobre a posição da UEDS quanto à ala esquerda da FLAMA e da FLA. E como tivéssemos respondido, naturalmente, que não víamos qualquer ala esquerda naqueles movimentos insulares e que, pelo contrário, os víamos como de extrema-direita e politicamente suspeitos, acabaram-se todas as facilidades e tive mesmo dificuldades em obter o bilhete de avião  para Lisboa, via Roma. 

Claro que o apoio a tais movimentos não passou de intenções, discursos e perguntas. Mas revela bem até que ponto aquele excêntrico regime líbio interferia ou procurava interferir nos assuntos dos outros países. Daí que não possa deixar de me rir quando ainda ouço inúmeras indignações A invasão e "violação da soberania da Líbia." Não que não tivesse acontecido, que aquilo não tenha redundado num caos e que a morte de Kadhafi e outros não seja condenável. Mas se houve país que se imiscuiu nos assuntos alheios, com consequências trágicas, a Líbia é o melhor exemplo, assim como Kadhafi é o responsável por inúmeras mortes e conflitos. Aplicou-se, de novo, a velha teoria de que quem com ferros mata...

sábado, outubro 20, 2012

Os Açores não são o melhor barómetro



Os resultados das eleições nos Açores fizeram-me crer que se deviam à conjuntura nacional e à impopularidade de que o governo goza. Dias depois, já não estou tão certo disso.
 
De facto, o PS venceu com nova maioria absoluta, ultrapassando o obstáculo da saída de Carlos César, substituindo-o com êxito por Vasco Cordeiro, o que significa que se manterá no poder regional por mais uns mandatos. Depois de uma semana desastrosa para os socialistas, que começou com as divergências entre Seguro e o grupo parlamentar sobre a diminuição de deputados, passou pela entrevista do inenarrável Paulo Campos e com a polémica da renovação da frota automóvel, o partido da rosa ganhou uma novo fôlego. Berta Cabral, a popular autarca de Ponta Delgada, há muito figura grada do PSD e grande esperança de reconquista dos Açores, não conseguiu mais do que elevar ligeiramente a percentagem de votos do seu partido. O CDS, que esperava tornar-se o fiel da balança, apanhou por tabela, perdendo dois mandatos. O PPM de Paulo Estêvão manteve o seu, graças aos votos corvinos. o BE perdeu um e a CDU manteve também o seu.
 
Na actual contestação ao governo de Passos Coelho, parece improvável que o PS, mesmo crescendo, pudesse ganhar uma enorme maioria. Afinal de contas, também é responsável, e de que maneira, pelo que estamos a passar, e Sócrates não está em Paris assim há tanto tempo. Outra improbabilidade seria a de o PSD se aguentar com idêntica votação. E se uma diminuição de votos no CDS parece plausível, já as magras percentagens obtidas pelos partidos mais à esquerda dão a ideia de que não estão a capitalizar o descontentamento e não traduzem o que as sondagens nacionais lhes dão.
Assim, parece-me que mesmo que possa haver algum descontentamento à mistura, as eleições são mais uma expressão da realidade regional, e de uma certa concordância com o governo de Carlos César e a inutilidade de mudar, mesmo com uma candidata credível, e não tanto de reprovação do actual governo. Que poderá talvez ser corporizada, assim como algum enfado com o sistema partidário, pela elevadíssima taxa de abstenção.
 
Mas se o PS conseguiu aqui um suplemento vitamínico de que tanto precisava, o mesmo não significa que nas autárquicas do próximo ano isso venha a suceder. Ninguém sabe qual será a situação, embora não haja razões para optimismos, e há variadíssimas causas localizadas para que as câmaras mudem ou não de mãos. Para além do "voto de protesto",  a limitação de mandatos que desalojará muitos dinossauros terá efeitos interessantes. a antecipar isso, Menezes, ávido de se sentar na Câmara do Porto, já pré-lançou a sua candidatura, provocando muitas divisões no PSD, e com tanta inabilidade política que convidou Miguel Relvas para a apadrinhar. com menos escaramuça. o PS lançou Manuel Pizarro como seu candidato. Resta ver o que faz o CDS, a esquerda mais radical (depois dos desaires sucessivos do BE e de Rui Sá, da CDU, se retirar da vereação) e os PSD anti-Menezes, naquela que promete ser uma das disputas eleitorais mais interessantes por que o Porto já passou.
 
Entretanto, o governo vai-se aguentando, depois do anúncio de aprovação do orçamento pelo CDS-PP, um "sim, apesar de tudo..." resignado. Vamos ver por quanto tempo mais. Porque depois da votação na generalidade, e da ameaça com chantagem à mistura de Passos Coelho e do desdém de Vítor Gaspar pelo trabalho de casa de corte na despesa dos restantes ministros, que provocou previsível tensão no executivo, Paulo Portas não se vai deixar ficar, apesar de todo o "sentido de estado".
 
 

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Amigos dos animais?

Como tantas outras pessoas, vi as famosas vacas açorianas a pastar em Lisboa, na Praça de Espanha, cercadas num redil provisório (e com a relva quase toda comida), como publicidade às ilhas. Passei lá de noite, à boleia, já que naquele sítio quase não se pode circular sem ser de carro e rimo-nos com a imagem.


Ao contrário do Nuno Castelo Branco, nada tenho contra a operação de marketing. Afinal de contas, ninguém melhor do que os tratadores sabem do que elas precisam. Além de que os bichos não tinham um ar nada maltratado, bem pelo contrário: estavam com ar bem nutrido e pachorrento, como se nunca tivessem saído dos habituais verdes prados a que estão habituadas. Mesmo não sendo dos Açores, mas do Ribatejo, zona onde a humidade é mais que muita.


Mas à parte alguns comentários pacíficos, vieram os radicais do costume, em busca de protagonismo mediático. Destacou-se aqui uma associação chamada "ANIMAL", dirigida por um certo Miguel Moutinho. Ao que parece, a campanha é absurda porque, além dos animais estarem "stressados", estão igualmente a ser «usados» em publicidade, que é é condenável em si mesmo, uma vez que se baseia numa visão utilitária dos animais, que assim são tratados como peças que podem ser usadas em manobras publicitárias e não como indivíduos inerentemente respeitáveis .

Eu não olho para os animais como "meros objectos inanimados", como preconizam as teses mecanicistas cartesianas, mas "indivíduos inerentemente respeitáveis"? Indivíduos, uma manada de vacas? Bom, por esse caminho, não tarda nada temos petições a exigir o direito a casar com as vacas, ou que os simpáticos ruminantes possam votar e ser eleitos em cargos políticos. e se são indivíduos, porque é que não podem ser utilizados em publicidade? Ou serão mais do que os actores? É caso para perguntar: afinal, onde está realmente o absurdo?


Podia ser um mero fait-divers, não fosse o mesmo indivíduo e o seu grupinho de pretensos "amigos dos animais" um reincidente no disparate de querer equiparar animais a pessoas. Já tinha ficado com uma ideia do que é esta ANIMAL. Num artigo de jornal falava-se num filme documental sobre touradas, Pega de Caras, em que a meio há um debate entre um ganadeiro e o mesmíssimo Miguel Moutinho. Diz o segundo: "O nosso objectivo é acabar com as touradas. A tourada é um acto bárbaro, não tem lugar no nosso tempo". Responde o ganadeiro: "Eu respeito as instituições protectoras dos animais. Mas eles também têm de respeitar a minha profissão e o espectáculo dos touros. Porque se há alguém que cuida e ama a festa dos touros e os touros são os próprios toureiros". Que respondeu o ANIMAL-mor? "Dizer que os toureiros são os melhores amigos dos touros é o mesmo que dizer que os pedófilpo são os melhores amigos das crianças e que os proxenetas são os melhores amigos das prostitutas".


Para terminar, a mesma personagem escreveu um texto qualquer intitulado "O Vegetarianismo como Obrigação ética". Deixa portanto o vegetarianismo de ser uma opção alimentícia e de vida para ser uma "obrigação ética". Pudera: o contrário implicaria o sacrifício de "indivíduos inerentemente respeitáveis".

Percebo e concordo com algumas medidas de salvaguarda dos animais, como as condições de transporte, de tratamento e de abate. Abomino os abandonos de pobres animais domésticos, e nem consigo perceber para que é que a pessoa os quer se depois os abandonam. Tive um cão quando era pequeno e jamais me passaria pela cabeça abandoná-lo (ainda me lembro do desgosto que tive com a morte dele). Mas estas atitudes primam pelo radicalismo, pela ignorância e pela insensatez. Ao ouvir coisas destas dá-me a sensação de estar perante um filme dos irmãos Marx. Entre todas as modas activistas, esta é uma das mais perniciosas, desenvolvida por neo-hippies com vagas influências orientais e em certas ocasiões com uma linguagem próxima do terrorismo. Pense-se no assassino do polémico Pim Fortuyn, ou em Brigitte Bardot, uma das pessoas que mais ódio devota à espécie humana (comparou a sua gravidez a um cancro no ventre) transformada em caquética fã de Le Pen, no apologista do infanticídio Peter Singer ou nos insultuosos PETAs e o seu terrorismo publicitário e fica-se com uma ideia até que ponto podem chegar os mais radicais desta causa.


Mas o que mais me irrita é que a maioria destas pessoas vem de um ambiente urbano e jamais teve vivência rural. As respostas dadas pelo dirigente da ANIMAL aos ganadeiros revelam, além de fraca educação, uma pesporrência, uma arrogância intelectual despropositada e patética. São os parolos da cidade, os criadores de animais em aquário, os ecologistas de manual, que não fazem a menor ideia do que é a vida rural, tal como a maioria dos portugueses, citadinos ou suburbanos. Não sou aficionado nem nunca assisti a uma tourada, mas tenho mil vezes mais simpatia pelos campinos, forcados e ganadeiros, que sabem o que são as agruras do campo e convivem com os animais, deles tratam e preservam as ainda existentes tradições de valentia, do que a patetice urbano-chique dos auto-intitulados "amigos dos animais".

sexta-feira, outubro 24, 2008

A leitura das regionais
As eleições regionais dos Açores não trouxeram grandes novidades de monta. Houve-as, mas a um plano insusceptível de mudar o rumo de governação do arquipélago, como a demissão de Costa Neves e novas entradas na Assembleia Regional. O que me deixa mais expectante são as previsões que daí resultaram. Disse Sócrates que estes resultados marcam "um novo ciclo eleitoral". É aí que residem as minhas dúvidas. Semelhantes interrogações passaram por aqui.
O PS renovou a maioria absoluta sem espinhas, mas caiu uns pontos e perdeu um deputado. O PSD é o grande derrotado: sem a máscara de uma coligação, teve o seu pior resultado de sempre, o que custou a cabeça ao seu líder. Longe vão os tempos em que Mota Amaral obtinha pujantes maiorias sem grande esforço.
Dessas descidas resultou uma polarização de votos e uma balcanização de mandatos que terá poucas consequências visto o PS possuir uma maioria suficiente. Mas os restantes partidos podem dar-se por satisfeitos: o CDS/PP cresceu inequivocamente e ficou perto dos 10%, o BE estreia-se em terras onde não goza de grande popularidade, a CDU regressa à Assembleia de onde tinha saído em 2004, e o PPM ficou em segundo lugar no corvo e ganhou também um mandato.
Se um novo ciclo eleitoral está lançado, isso pode ter diversas leituras. Uma delas, contrariamente à que o Primeiro Ministro pretende fazer passar, é que o PS perderá votos e provavelmente a maioria absoluta no próximo ano; que o PSD não recuperará do desaire de 2005; que o Bloco crescerá ou estabilizará, tal como a CDU; e que o PP, mais uma vez, resistirá à hecatombe anunciada. O PPM foge a estas ideias, não se sabendo ainda como concorrerá. Isto é o que se pode retirar da vitória de César e outros resultados, e que implicaria uma futura AR ingovernável. No entanto, é bom lembrar que os Açores não são o barómetro do país. E que o nome lançado para candidato do PSD à câmara de Lisboa, Santana Lopes (esse gato da política), era o chefe de governo onde se incluía...Costa Neves.
conclusões? Poucas. Estas eleições foram regionais e assim deveriam ser tomadas. Até porque quando César se retirar, todo este cenário se desconjuntará.