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quinta-feira, março 29, 2018

As ligações insulares da Líbia


O suposto patrocínio de Muammar Kadhafi e do regime líbio à campanha presidencial de 2007 de Nicolas Sarkozy, que levaram à detenção deste há poucos diasnão é exactamente uma novidade nem um rumor esquecido. Já tinha sido publicitada várias vezes, a começar pelo filho do próprio ditador da Líbia durante o levantamento no país, quando a França liderou a intervenção militar externa que seria decisiva para a queda do "regime verde" e para os acontecimentos que se seguiram. 

A ser verdade não sei quais as razões deste patrocínio financeiro a Sarkozy, mas por certo seria para obter quaisquer objectivos financeiros ou estratégicos da parte da França. De resto, Kadhafi nunca deixou de se imiscuir nos assuntos dos outros países de forma diversa. Na sua versão mais recente fazia-o através de recursos económicos proporcionados pelo petróleo líbio, como os interesses que tinha em empresas italianas como a FIAT, ou até em clubes de futebol. Mas nas primeiras décadas, o coronel esteve envolvido em  quase todos os conflitos envolvendo terrorismo e rebelião. Do IRA à ETA, passando por todas as organizações palestinianas e estando por trás de grandes atentados dos anos oitenta, como a explosão do avião sobre Lockerbie, ou estreitamente ligado aos grandes terroristas da época, como Carlos, O Chacal, ou Abu Nidal, Kadhafi não perdia uma. E quando não tinha uma organização terrorista ou ma causa subversiva para apoiar, procurava-as. Um artigo recente de Rui Tavares conta-nos que o ditador líbio, numa reunião da Organização dos Estados Africanos, exigira a "liberdade da colónia africana da Madeira, ocupada por Portugal", dizendo o mesmo das Canárias. Se a esta ainda podia fazer referências aos guanches, o povo autóctone pré-espanhol, já dificilmente veríamos os madeirenses a querer ser libertados por Kadhafi. 

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Mas os líbios, sempre prestes a auxiliar um bom movimento separatista, também olhavam para os Açores, já fora da orbita
africana. César Oliveira, antigo deputado e autarca do PS (e pai de Tiago Oliveira, agora muito falado por estar à frente da estrutura que previne os fogos rurais), já desaparecido, conta-nos as suas impressões da Líbia em finais dos anos setenta, no seu livro de memórias, Os Anos Decisivos:

País de um novo-riquismo impressionante e avassalador, a Líbia constituiu (...) a certeza de que representava uma ameaça para a paz e no Norte de África como para o próprio Sul da Europa (...) Um alto dirigente líbio colocou-me a pergunta sobre a posição da UEDS quanto à ala esquerda da FLAMA e da FLA. E como tivéssemos respondido, naturalmente, que não víamos qualquer ala esquerda naqueles movimentos insulares e que, pelo contrário, os víamos como de extrema-direita e politicamente suspeitos, acabaram-se todas as facilidades e tive mesmo dificuldades em obter o bilhete de avião  para Lisboa, via Roma. 

Claro que o apoio a tais movimentos não passou de intenções, discursos e perguntas. Mas revela bem até que ponto aquele excêntrico regime líbio interferia ou procurava interferir nos assuntos dos outros países. Daí que não possa deixar de me rir quando ainda ouço inúmeras indignações A invasão e "violação da soberania da Líbia." Não que não tivesse acontecido, que aquilo não tenha redundado num caos e que a morte de Kadhafi e outros não seja condenável. Mas se houve país que se imiscuiu nos assuntos alheios, com consequências trágicas, a Líbia é o melhor exemplo, assim como Kadhafi é o responsável por inúmeras mortes e conflitos. Aplicou-se, de novo, a velha teoria de que quem com ferros mata...

quinta-feira, setembro 03, 2015

Hipocrisias e "raízes dos problemas"


No meio da vaga de refugiados de África e do médio Oriente que afluem à Europa e por ela tentam circular, nos apelos ao auxílio e nas formas de o fazer, ouço imenso falar na necessidade de atacar na raiz as causas que levaram à actual situação. Não me refiro à guerra no Iraque (que responsáveis políticos como Jerónimo de Sousa e Catarina Martins usaram à exaustão num questionário recente para falar nos refugiados, tentando tirar daí óbvios dividendos políticos), nem sobretudo à guerra na Síria, mas áquela conversa de que "se não tivessem derrubado Kadhafi não havia tanta gente a atravessar o Mediterrâneo". É verdade. O ditador líbio era um tampão à emigração subsariana e tentou usar isso como negociação e chantagem. Mas se não morriam no mar, milhares de pessoas morriam no deserto ou eram recambiados paras as terras de onde fugiam. Falar no antigo regime líbio como um bom instrumento para conter vagas migratórias não passa de outra hipocrisia bem-pensante para acalmar consciências. A diferença é que não teríamos de ver tantas imagens de miséria. Isso mesmo que a Europa esteja longe, bem longe, de ser a única que devia acolher tantos refugiados (outra hipocrisia). Pergunto-me o que farão as riquíssimas monarquias do Golfo Pérsico nestes casos.

Mas falando ainda na resolução deste problema indo às suas raízes, será este um bom exemplo de como o fazer, entre outros?

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

As prioridades da ONU


É claro que ser impedido de entrar no metro por um punhado de rufias racistas e bêbados, ainda por cima estrangeiros, como aconteceu há dias em Paris, é desagradável. Mas apesar da humilhação e da sensação de intimidação, o pior que acontece é entrar só no metro seguinte, uns minutos depois. Que o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos não entendeu assim e resolveu pronunciar-se sobre o acontecimento. Quem não vivesse neste Mundo poderia supor que isto está no grau mais alto da escala das violações dos direitos humanos. Bom seria que todos os problemas fossem esses, mas sinceramente, com todos os casos aberrantes que se passam no Mundo, é sobre coisas destas que os senhores Altos Comissários se debruçam? Pergunto-me se tiveram uma reacção tão pujante quando vinte e um coptas foram barbaramente assassinados (outra vez) por terroristas da Daesh nas praias da Líbia. Bem podem dizer que Paris é mais mediática e "mais perto" (dá ideia que tudo o que se passa na capital francesa é mais importante do que o resto), mas recordo-lhes que a Líbia é já ali do outro lado da Itália. E a  ONU, que eu saiba, tem carácter mundial. Se se vai pronunciar sobre cada caso de racismo, então vai precisar de umas dezenas de porta-vozes em discurso ininterrupto. Melhor faria se fosse tratar do que importa e deixasse os casos menores de lado. Depois, não admira que digam que se trata de uma ilustre inutilidade. Bizantinices como estas levam ao ridículo, e a prazo, à total irrelevância.


quarta-feira, dezembro 18, 2013

As personagens reais que inspiraram Hugo Pratt


Mais de dois anos depois do fim oficial da guerra civil na Líbia, que começou com o levantamento da população de Bengazi, em Fevereiro de 2011, da morte do até aí todo-poderoso Muammar Kadhafi e da desintegração do regime "verde", o país permanece num caos, dividido entre milícias várias e grupos de jihadistas que não hesitam em atacar embaixadas e raptar membros do frágil governo vigente. É difícil adivinhar o futuro para esta imensa extensão de areia com uma costa habitável, dividida em três regiões naturais sobre enormes jazidas de petróleo.
 
Mas em tempos da 2ª grande Guerra, quando aquele território estava sob o domínio da Itália de Mussolini, houve alguém que se atreveu a "profetizar" o futuro daquela região. Escrevo entre aspas porque a "profecia", na realidade, datava do pós-guerra, e o "áugure" era o desenhador Hugo Pratt, criador do célebre Corto Maltese.
 
Numa outra série que assinou, Os Escorpiões do Deserto, Pratt narra as peripécias de um oficial polaco pouco ortodoxo, Koinsky, e a sua luta para minar as forças do Eixo no norte de África. A sua equipa, os tais Escorpiões que davam nome à série, era um grupo heterogéneo que juntava agentes sionistas judias, espiões gregos e beduínos da Cirenaica. 
É exactamente nesta região da actual Líbia que se dá um dos primeiros episódios, Nada a assinalar em Djaraboub. A cidade do título é um afrancesamento da al-Jaghbūb árabe, ou da Giarabub italiana (que inspirou mesmo um filme glorificando a presença dos transalpinos naquelas paragens), que se situa num oásis em pleno deserto líbio, e que era, e o álbum de Pratt refere isso mesmo, a cidade santa dos senússios, uma ordem muçulmana com ligações ao sufismo e que daria origem à dinastia dos Al Senussi, que reinou na Líbia até ao golpe de estado de Kadhafi, em 1969.
 
A propósito, no álbum, o líder espiritual dos senússios, Omar el Muchtar, que se revelará bem diferente do que parecia, tem o nome "emprestado" de Omar al Mukhtar, principal resistente líbio ao domínio italiano, que acabaria executado por estes, e cuja fotografia Kadhafi exibiu, colada ao uniforme, numa visita a Itália, para o recordar aos antigos algozes. Mas se repararmos bem, a personagem do livro lembra antes o verdadeiro líder da Ordem de Senussi à época, que se tornaria no Rei Idris, o primeiro soberano da Líbia unida, e também o último, porque seria destronado por um golpe de estado em 1969. Ou seja, Pratt resolveu fundir o resistente mártir e o líder espiritual e temporal, sem a menor sombra de dúvida, para criar uma personagem com fundamento que se visse.
                                                       Na foto de baixo, o Rei Idris da Líbia.
Mas o mais interessante é a personagem de Hassan el-Muchtar, de quem Pratt nos diz, na apresentação da personagem, o seguinte: "Hassan - sobrinho de Omar el-Muchtar, chefe espiritual da Senússia. Este beduíno representa para o seu povo a continuação da revolução dos senússios (Líbia)....Não se atreve a ser revolucionário, provavelmente por causa da sua formação. Mas Pratt garante-nos que o encontraremos mais arde, desemenhando um papel político mais vincado, no quadro da ideologia do seu país."
 
Hassan é um rebelde ambicioso mas precipitado, mais interessado no poder do que nos ensinamentos do Corão. Mas a menção de Pratt, a tal "profecia" do papel político mais vincado é curiosa. Em que grau se dará essa relevância política?
 
Olhando bem para a imagem, parece-me que adivinho: sim, isso mesmo, Hassan el-Muchtar não é outro senão...Muammar Kadhafi. O seu papel político será indubitavelmente vincado, mas a ideologia do país mudaria radicalmente para um regime de culto pessoal, misto de pan-arabismo, socialismo e islamismo. E a certeza confirma-se ao saber que os Escorpiões do Deserto tiveram a sua primeira edição em 1969, precisamente o ano da subida ao poder do então jovem coronel. Hugo Pratt daria portanto ao novel ditador honras de personagem numa das suas obras.

Não sei se seria uma demonstração de simpatia por Kadhafi e o novo regime, e de antipatia pelo velho rei Idris, cuja "inspiração" não fica bem na fotografia, ou neste caso, nos quadradinhos do álbum. O autor italiano era um rebelde, à boa maneira das suas personagens, e um iconoclasta, muito embora fosse simpatizante de ordens maçónicas. Certo é que que tanto Al Mukhtar, como Idris e Kadhafi passaram à história, e a eles sucedeu uma posição caótica cujo fim ninguém pode prever. Se fosse vivo, será que o desenhador italiano alteraria alguma coisa nos Escorpiões do Deserto? E a quem  - ou a que grupo, entre liberais, monárquicos, islamitas e "verdes" saudosistas de Kadhafi - atribuiria um futuro "papel político mais vincado"?
 

segunda-feira, outubro 24, 2011

Tiranicídio anunciado




Kadhafi, o "cão raivoso", decidiu entrincheirar-se na sua cidade de Sirte e aí pereceu, da forma que todos vimos. Fugiu de Tripoli, que jurara incendiar, e estava incógnito desde então. A sua tribo protegeu-o até à entrada dos guerrilheiros do CNT na cidade. Daí até à sua fuga numa caravana, aos bombardeamento desta pela NATO, ao refúgio num cano e posterior descoberta e morte, demorou poucas horas. Fica a dúvida sobre a versão real da morte do ditador e os videos incómodos e pouco tranquilizadores sobre os furutos poderes do país.

Aceita-se o tiranicídio em inúmeros casos, é não é difícil crer que muitos líbios quisessem enviar o homem que os oprimiu durante mais de quarenta anos para os infernos, mas não pode deixar de incomodar que tenham tratado daquela forma como um cão alguém ferido e que pediu que não disparassem. As imagens mostram um homem ferido e ensanguentado, de olhar perdido, entre guerrilheiros gritando Allah Akbar, antes de o porem numa ambulância e de um deles lhe desfechar o "tiro de misericórdia" (nunca esta expressão soou tão mal). Por uma vez tive alguma comiseração por aquele homem em tempos todo-poderoso, agora em farrapos. Não que esperasse qualquer cumprimento de Direitos Humanos, Convenções de Genebra quanto ao tratamento dos prisioneiros, etc, daqueles bandos, coisa com que aliás o coronel pouco se importava, mas ao que parece houve muito boa gente sinceramente admirada por crer que ceras normas tinham chegado à Líbia, trazidas pelos ventos da NATO.

Em boa medida, esta gente não é melhor do que os carrascos do regime verde, e muitos provavelmente também o serviram. Kadhafi colheu o que plantou: um regime brutal, centralizado na sua pessoa, uma opressão violenta de décadas e um enorme culto de personalidade. Com a pulverização do seu regime, teme-se o que o possa substituir, dada a anarquia reinante e o provável aproveitamento pelos islamitas radicais. Mas com a sua morte, a jamahiriya nele corporizada acabou definitivamente. Pudessem os Senussis que ele destronou regressar e talvez o problema da autoridade se resolvesse...



O fim violento de ditadores e outros chefes de facção não é exactamente uma novidade. As imagens de Kadhafi ensanguentado e do seu corpo estendido não são muito diferentes do de Mussolini, pendurado na Piazza Loreto, do de Ceausescu, de olhos abertos, ou de Savimbi, atraindo as moscas. São despojos de um regime e de uma guerra que prolongaram até ao limite. Do tirano da Líbia sempre se pode dizer que não fugiu do país, combateu até poder e morreu na sua cidade. Os seus crime ficaram assim lavados, tanto os internos - aí estão as valas comuns para o comprovar - como os externos (Lockerbie, a discoteca em Berlim, e os que resultaram da ajuda que prestou a tudo quanto era grupo terrorista). Talvez só se sinta a falta dos seus trajes e costumes excêntricos.

PS: pior que a ingenuidade de tanta gente em descobrir que afinal os "direitos humanos" ainda não chegaram à Líbia, foram as reacções de júbilo à morte de Kadhafi de vários estadistas que em tempos posaram na fotografia com ele. O facto das relações internacionais se pautarem pelo realismo não significa que tenham de cair na mais despudorada hipocrisia. Ao menos Berlusconi, que se encontrou por diversas vezes com o coronel e cujo governo tinha muitas relações com a antiga colónia, limitou-se a suspirar um conclusivo Sic Transit Gloria Mundi. Talvez antecipasse o seu próprio fim político. Teve alguma sobriedade nas declarações, ao contrário do habitual, mas duvido que ele próprio, e menos ainda pessoas como Sarkozy ou Cameron, tivessem a capacidade de resistência de Kadhafi.

terça-feira, agosto 30, 2011

O início da nova Líbia


De súbito, o regime verde da Líbia caiu como um castelo de cartas. Seis meses de guerra civil, que começou com a revolta a partir de Bengazi, prometendo sucesso rápido, seguida da resposta das forças do regime, que quase aniquilaram os rebeldes, não fosse a intervenção da NATO e a destruição do armamento pesado das tropas leais a Kadhafi. Depois, tímidos avanços dos revoltosos, de tal forma que a Líbia deixou as primeiras páginas e em breve quase nem se falava do conflito que minava a antiga colónia italiana. Até que de súbito os rebeldes fizeram notáveis avanços. Aproveitando o enfraquecimento das forças do regime e seus mercenários, minadas pelos ataques cirúrgicos vindos do ar, abriram caminho e entraram em Trípoli. O cenário verificado em Fevereiro cumpriu-se, enfim. Por terra, com o auxílio dos apelos do clero islâmico, e também por mar, em que forças vindas de outras cidades completaram o cerco, provavelmente com auxílio de meios navais da NATO. Embora houvesse alguma resistência, os pontos fulcrais, como os meios de difusão, foram prontamente tomados. Quando o aeroporto e o complexo de habitação de Kadhafi ainda resistiam, a Praça Verde, local simbólico onde o regime verde organizava as suas "manifestações" de apoio, era ocupada pelos rebeldes. Depois disso, percebia-se que o regime tinha caído. Era, e é, só uma questão de dias.

Quando apenas Sirte ergue a bandeira verde, pergunta-se onde estará Kadhafi e seus filhos, subitamente evaporados. A hipótese mais provável é que esteja acantonado em parte incerta. Duvido que tenha fugido para o estrangeiro - para o feudo do amigo Mugabe, por exemplo, ou para a Venezuela - e será mais provável que esteja em Sirte ou noutro ponto da Líbia. Ver-se-à agora se resistirá até ao fim, como prometeu, e perecerá em combate, ou se fugirá para um estado "amigo", juntamente com a sua família. Os milhões do petróleo que acumulou durante quarenta anos devem ser suficientes.

E a nova Líbia? Até agora, tem-se conseguido razoavelmente evitar pilhagens e vinganças. Com ajuda internacional e o descongelamento de contas avultadas, o país tem recursos para se reerguer. Resta conseguir formar um novo sistema político, obter acordos e consensos entre tribos, reconciliar Tripoli com Bengazi unir o país. Depois de décadas de regime "verde" personificado no coronel, será uma tarefa difícil. Mas é possível, com a representação dos vários grupos e tribos nas decisões do país. E já que se restaurou a antiga bandeira dos Senussis, porque não restaurar a monarquia dos mesmos? Tivesse Kadhafi falhado o golpe de 1969, e quem sabe o que seria a Líbia de hoje? A solução para a união da país pode e deve passar pelo regresso da dinastia e dos reis que lhe deram a independência.



quarta-feira, maio 04, 2011

E agora, Muammar?





Há no entanto uma pessoa para quem o desaparecimento de Osama Bin Laden deve deixar sentimentos ambivalentes: Muammar Kadhafi. Se por um lado vê um adversário feroz (e potencial inspirador de movimentos jihadistas na líbia) liquidado, por outro perde o argumento de que os rebeldes eram "jovens drogados" apoiados por Bin Laden, que pretenderiam estabelecer um "emirado islâmico" na Líbia. Pode é ser mais um pretexto para o seu derrube. Do mal o menos, por agora o coronel sobreviveu ao criador da Al Qaeda.

quinta-feira, março 31, 2011

E continua a guerra, agora com a NATO ao barulho

Deixa-me intrigado, a forma como está a ser aplicada a Resolução 1973 da ONU, aprovada há menos de duas semanas. O que nela constava era a imposição de uma zona de exclusão área, que impedisse a aviação líbia de bombardear os insurgentes, a protecção dos civis e o embargo de armas. Como se vê de há 15 dias para cá, a coisa é um bocadinho mais extensiva do que isso. A zona de exclusão aérea foi decretada, impedindo que a aviação kadhafiana continuasse a bombardear os revoltosos. Depois, as esquadrilhas combinadas de França, Reino Unido e Itália desbarataram as colunas de blindados que se preparavam para o assalto a Benghazi, impedindo um longo cerco, uma dura batalha e um provável banho de sangue. A rebelião/revolução agradeceu. Desde aí, a aviação multinacional tem bombardeado constantemente Tripoli e as forças do regime, sejam terrestres, navais ou aéreas. Kadhafi, que estava prestes a desbaratar o inimigo interno (depois de todos profetizarem o seu fim próximo), teve de recuar e assistir ao rápido avanço dos rebeldes, cobertos pela aviação em seu socorro. A sua cidade natal de Sirte, que lhe permaneceu fiel, esteve quase a cair, mas resistiu. Ao mesmo tempo, reocupou Ras Lanuf, que tinha sido tomada pelos rebeldes, caído de novo em poder "verde" e reconquistada pela revolta.

No meio desta confusão sangrenta, que certamente não poupará as cidades líbias da quase destruição, a NATO e a Liga Árabe têm tomado posições ambíguas. Uns acham que é suficiente a vigilância aérea; outros, que há que prestar auxílio mais eficaz aos rebeldes. Há mesmo uns que defendem uma intervenção terrestre, directa, se bem que esta posição seja posta de parte pela maior parte dos estados envolvidos. Não admira: as intervenções na Afeganistão e sobretudo no Iraque tornaram este tipo de acções muito impopulares (e no mundo árabes mais ainda), e a crise económica não permite muitas aventuras custosas. Mesmo que se argumentasse com uma interpretação extensiva da resolução 1973 e o apoio da Liga Árabe. Seria o primeiro passo para uma violenta retaliação.

O que é irónico é que os que bombardeiam o regime de Tripoli sejam precisamente os que tinham relações mais próximas com o Mad Dog. Ver Sarkozy, os britânicos, e acima de tudo a Itália (quando Berlusconi outrora andava de braço dado com Kadhafi) declarar que o seu regime é ilegítimo e que é preciso "negociar a saída", ao mesmo tempo que reconhecem o novo "conselho de Transição" líbio, é demonstrativo da mais despudorada realpolitik e de uma fuga para a frente pessimamente disfarçada. Até se percebe. Quando viram a rebelião às portas de Tripoli, pensaram que o regime estava por dias, e aproveitando a sua feroz repressão, apressaram-se a apoiar os "desejos de mudança", "respeito pelos direitos humanos e pela democracia", etc. Só que vos ventos mudaram, e observando a recuperação dos homens de Kadhafi no terreno, ao mesmo tempo que as tribos reafirmavam a lealdade ao "Guia da Revolução", deram-se conta de que as coisas se complicariam doravante nas relações diplomáticas com a Líbia, e que a sua confiança foram definitivamente minada. Como reagiria Kadhafi áqueles que lhe retiraram o apoio, depois de esmagada a revolta? Virar-se-ia ainda mais para o resto de África, ou pra a China? Retomaria o apoio ao terrorismo? Seria sempre uma situação demasiado embaraçosa para a NATO (que assumiu o comando das operações, para grande alívio dos Estados Unidos) e Liga Árabe.

Por essa razão, interessa acima de tudo dominar o regime verde e acabar com o poder da família Kadhafi na Líbia. Os ataques aéreos cumpriram a sua parte, mas se isso, só por si, não for suficiente - e pela desorganização dos rebeldes, parece não ser - o mais provável é que se comecem a distribuir armas mais eficazes, mesmo que os destinatários não as saibam usar devidamente. Com o apoio dos meios da NATO, que não dos efectivos, os revoltosos têm francas possibilidades de derrubar o regime, sabendo-se que Kadhafi nunca se renderá. Mas com a conquista e reconquista sucessiva do território, isso arrisca-se a levar umas boas semanas. Entretanto, a cotação do petróleo vai subindo.

quinta-feira, março 03, 2011

Já não é só uma revolta, é uma guerra

O regime verde do coronel Kadhafi vive, ao que tudo indica, os seus últimos dias. Acantonado em Tripóli, quando as cidades da região foram conquistadas pelos revoltosos, resiste graças às tropas de elite ainda fieis e aos mercenários contratados por chorudas somas na Nigéria, Burkina Faso ou Congo. Todos os dias soldados regulares e polícias passam-se para o lado dos revoltosos, que se apoderaram dos depósitos de armas existentes em Benghazi e em toda a Cirenaica.


Há dias, Kadhafi, que desde o início dos tumultos apenas aparecera fugazmente na televisão em duas ocasiões com fraca imagem, surgiu em finalmente em público. Da muralha do castelo de Tripoli, rodeado pela sua guarda pretoriana, falou aos seus apoiantes que na Praça Verde, dominada pela fortaleza, ostentavam a bandeira verde do regime e inúmeros cartazes com a efígie do "guia da revolução". Muitos seriam sinceros devotos do "cão raivoso", mas como sempre acontece nos ajuntamentos organizados por ditaduras, havia inúmeros"profissionais" a soldo. Notava-se a certa altura nas imagens televisivas nalguns negros envergando sweats desportivas da Juventus, o que condiz com a descrição dos mercenários africanos, além de que os Kadhafi têm acções na Vechia Segnora de Turim. Ou seja, os apoios fictícios também partem de gente de fora do país.

O comício parecia ser o canto do cisne do regime que dura há já mais de quarenta anos. A "comunidade internacional", a ONU, União Europeia, Estados Unidos, Rússia, etc, todos se apressaram a condenar os actos de retaliação das forças leais ao que resta do estado, por vezes com encantadora hipocrisia, como bem demonstrou o Ministro Luís Amado ao pedir o fim "do anacrónico regime"... cujos quarenta anos ele tinha comemorado na tenda de Kadhafi. Só mesmo o patético Hugo Chavez e o calculista macróbio Fdel Castro vieram em socorro do dilecto amigo, proferindo discursos contra a "tentativa de ingerência ocidental". Se do cubano não se espera nada, quem tinha ainda ilusões sobre Chavez bem pode perdê-las definitivamente.

Mas apesar de toda a oposição internacional, da expulsão da Líbia da Comissão dos Direitos Humanos da ONU (uma aberração que deveria servir de exemplo para que no futuro se definam melhor os estados a compô-la), da crise humanitária provocada pelo Êxodo em massa de líbios e estrangeiros, das inúmeras deserções e do cerco cada vez mais apertado, Kadhafi conseguiu resistir nos últimos dias em Tripoli e Sirte, e já lança contra-ofensivas a leste, com recurso à aviação e à artilharia pesada. Hoje discursou perante algum público, comemorando os 34 anos da Jamahiriya, altura em que "entregou o poder ao povo" ficando apenas como "guia da revolução", e ameaçou uma hipotética intervenção internacional com "milhares de mortos". De um psicopata como Kadhafi é de esperar tudo, até que tenha secretamente conservado armas de destruição massiva alegadamente destruídas, e usá-la em último e desesperado recurso. A sua aviação militar aí está para mostrar que não se importa de destruir toda a líbia para conservar o poder. E o que é realmente mau é que tem de se dar razão ao seu filho mais velho (e putativo sucessor), que preveniu no início da revolta para a probabilidade de uma guerra civil. Ela aí está, não sabemos por quanto tempo mais, e pior ainda, quem a vencerá.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

O regresso do "cão raivoso"

A repressão dos rebeldes e revoltosos na Líbia, com recurso a mercenários de todas as partes de África e bombardeamentos da força aérea, revela que Kadhafi não deixou de ser o "cão raivoso", como lhe chamou Reagan, que era antes da sua "regeneração" táctica.


Recordemos. Muammar al Kadhafi, filho de beduínos e oficial do exército, chefiou um golpe de estado em 1969 que depôs o velho rei Idris e aboliu a Monarquia. Impôs uma república em que se auto proclamou "guiada revolução líbia", baseada nas "assembleias do Povo", com uma ideologia simultaneamente pan-arabista, socialista e islamita, em que na prática ele era a figura tutelar e inquestionável. Os opositores foram encarcerados aos milhares, e muitos foram publicamente enforcados.
Com os fundos das enormes reservas de petróleo, Kadhafi não apenas se lançou em programas de infra-estruturas e irrigação de campos. Na política externa, apoiou tudo o que era grupo terrorista, dos palestinianos (em operações de grande repercussão, como os atentados nos Jogos Olímpicos de Munique), ao IRA, da ETA aos diversos grupos armados que se opunham a regimes africanos rivais, além de ditadores tenebrosos como Idi Amin. Frequentemente recorria à "prestação de serviços" de gente como Abu Nidal e Carlos, o Chacal. Tornou-se assim um dos principais inimigos do Ocidente, particularmente dos Estados Unidos. A gota de água aconteceu quando uma discoteca em Berlim explodiu, vitimando soldados americanos. O atentado tinha sido ordenado pelo ditador líbio. Os americanos não hesitaram e bombardearam Tripoli e Bengazi, em 1986, neutralizando a máquina de guerra líbia e aterrorizando Kadhafi, que viu o seu palácio ser destruído e desde então passou a habitar exclusivamente em tendas. Esse valente susto parece que produziu os seus efeitos, não sem antes se verificar um último e terrível caso: a bomba que explodiu num avião sobre a aldeia escocesa de Lockerbie, matando todos os seus tripulantes. Depois disso, o coronel líbio apostou numa estratégia de moderação e conciliação, abrindo a economia da Líbia ao mundo e passando a ocupar um lugar "respeitável" entre as nações, como o velho líder excêntrico com trajes típicos e guardado por mulheres oferecendo boas perspectivas de negócio, particularmente do petróleo. Além de se reconciliar com a Itália, a antiga colonizadora, veio a Portugal na cimeira UE-África, em 2007, instalando-se na célebre tenda na forte de S. Julião da Barra. José Sócrates tornar-se-ia então um dos aliados preferenciais na Europa.

Agora, cercado, acossado e ameaçado, Kadhafi regressa à sua faceta mais temida e odiada e reage com extrema violência, o que originou ainda mais tumultos. A Líbia enfrenta uma autêntica guerra civil. Os rebeldes controlam a Cirenaica e a segunda cidade, Bengazi, onde flutua a bandeira da monarquia, e avançam para oeste, para Tripoli, guardada pela guarda pretoriana do regime verde e pelos mercenários. Tudo pode acontecer, desde o esmagamento da rebelião (e os muitos mortos não auguram nada de bom) até ao colapso do regime, cenário em que Kadhafi não hesitaria em rebentar tudo à sua volta, além da divisão do país em duas ou mais partes, dadas as diferenças tribais. Até há pouco mais de uma semana, este cenário era inimaginável.


A rebelião prolonga-se, com um crescente número de vítimas, os estrangeiros fogem apressadamente de barco, o valor do petróleo sobe e o futuro da Líbia não augura nada de bom. O seu coronel "guia da revolução" está disposto a levar o país consigo para o inferno.
PS: perdoem-me a imodéstia, mas ou muito me engano, ou este artigo do Público inspirou-se neste post.